    Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a
inteno de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma
manifestao do pensamento humano..

SHAKESPEARE
OBJETIVA

#HAROLD BLOOM
SHAKESPEARE
A      INVENO      DO      HUMANO
Traduo Jos Roberto O"Shea
Reviso
Marta Miranda O"Shea
OBJETIVA
#f
 1998by HaroldBloom
Ali rights reserved including the right of reproduction in whole or in part
in any form. This edition published by arrangement with River Head Books,
a member of Penguin Putnam Inc
Ttulo original Shakespeare
9
Todos os direitos desta edio reservados 
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Tel.: (21) 556-7824 - Fax: (21) 556-3322
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f
Capa Marcus Wagner sobre pea de cermica de Regina Kemp
Reviso
Ana Kronemberger
Umberto Figueiredo
Tereza da Rocha
Editorao Eletrnica Textos & Formas Ltda.
10
20OO
765432
#PARA
JEANNE

#O que expressamos com palavras j est morto em nossos coraes. Sempre haver algo desprezvel no ato da fala.
Nietzsche, O Crepsculo dos dolos
Cada fato   idia to avesso,
Que os planos ficam sempre insatisfeitos,-
As idias so nossas, no os feitos.
O Ator Rei, em Hamlet

#SUMRIO
Agradecimentos  13
Cronologia     15
Ao Leitor  19
O Universalismo de Shakespeare  25
PARTE  I
AS PRIMEIRAS COMDIAS
1. A Comdia dos Erros    47
2. A Megera Domada  55
3. Os Dois Cavalheiros de Verona  65
PARTE  II
OS PRIMEIROS DRAMAS HISTRICOS
4. Henrique VI     73
5. Rei Joo  84
6. Ricardo in  99
PARTE  III
AS TRAGDIAS DE APRENDIZADO
7. Tito Andrnico 113
8. Romeu e Julieta 124
#9. Jlio Csar 144
PARTE  IV
AS ALTAS COMDIAS
10. Trabalhos de Amor Perdidos    163
11. Sonho de uma Noite de Vero 194
12. O Mercador de Veneza    222
13. Muito Barulho por Nada 246
14. Como Gostais 259
15. Noite de Reis    288
PARTE V
OS GRANDES DRAMAS HISTRICOS
16. Ricardo II    317
17. Henrique IV   346
18. As Alegres Comadres de Windsor 397
19. Henrique V 402
PARTE VI
AS "PEAS-PROBLEMA"
20. Trilo e Crssida 411
21. Bem Est o que Bem Acaba 433
22. Medida por Medida    449
PARTE VII
AS GRANDES TRAGDIAS
23. Hamlet    479
24 Otelo 536
25. Rei Lear 588
26. Macbeth   632
27. Antnio e Clepatra 666
#PARTE VIII
O EPLOGO TRGICO
28. Coriolano   703
29. Timo de Atenas 716
PARTE IX
OS ROMANCES
30. Pricles    733
31. Cimbeline 746
32. Conto do Inverno 775
33. A Tempestade 802
34. Henrique VIII 829
35. Os Dois Nobres Parentes 838
Coda: O Diferencial Shakespeariano 861
Palavra Final: A Evidenciao  887

#AGRADECIMENTOS
Uma vez que no pode haver um Shakespeare definitivo, recorro a diversos textos, em algumas passagens, alterando a pontuao segundo o meu entendimento. De modo 
geral, recomendo a srie Arden Shakespeare, mas, com freqncia, sigo a edio Riverside, entre outras. Evito utilizar a srie New Oxford Shakespeare, que, com 
perversidade, registra, tantas vezes, a pior alternativa textual, em termos poticos.
Parte do contedo deste livro foi apresentada, em verses preliminares, na srie de conferncias em honra de Mary Flexner, no Bryn Mawr College, em outubro de 1990, 
e de Tanner, na Universidade de Princeton, em novembro de 1995.
John Hollander leu e ofereceu a sua contribuio a meu manuscrito, assim como o fez minha dedicada editora, Celina Spiegel. Muito devo a meus agentes literrios, 
Clen Hartley e Lynn Chu; a Toni Rachiele, pelo trabalho de copidesque,- e aos meus assistentes de pesquisa: Mirjana Kalezic, Jennifer Lewin, Ginger Gaines, Eric 
Boles, Elizabeth Small e Octavio DiLeo. Como sempre, sou grato s bibliotecas e bibliotecrios da Universidade de Yale.
H. B.
Timothy Dwight College Universidade de Yale
abril de 1998
13
#CRONOLOGIA
Listar as obras de Shakespeare na ordem em que foram escritas  tarefa que sempre gera controvrsia. A cronologia abaixo, necessariamente especulativa, segue, em 
parte, o que se considera ser consenso entre os especialistas. Onde sou ctico com relao ao posicionamento dos mesmos, apresento comentrios sucintos, justificando 
minhas concluses.
Shakespeare foi batizado no dia 26 de abril de 1564, em Stratfordupon-Avon, e morreu em 23 de abril de 1616. No sabemos quando ingressou no mundo do teatro, em 
Londres, mas, a meu ver, isso teria ocorrido j em 1587. Provavelmente, em 1610, Shakespeare volta a residir em Stratford, onde permanece at morrer. Aps 1613, 
ano em que escreveu Os Dois Nobres Parentes (em colaborao com John Fletcher), Shakespeare, com toda a certeza, abandona a carreira de dramaturgo.
Muito me distancio da viso que prevalece nos estudos shakespearianos tradicionais, ao seguir Peter Alexander, que na obra Introduction to Shakespeare (1964) atribui 
um primeiro Hamlet (escrito entre 1589 e 1593) ao prprio Shakespeare, e no a Thomas Kyd. E discordo da recente incluso de Eduardo
III (1592-95) no cnone shakespeariano, 
pois nada encontro na referida pea que seja representativo do dramaturgo que escrevera Ricardo in.
Primeira Parte de Henrique VI 1589-90
Segunda Parte de Henrique VI -         1590-91
\
#i
Terceira Parte de Henrique VI 1590-91
Ricardo in 1592-93
Os Dois Cavalheiros de Verona       1592-93
A maioria dos estudiosos atribui a composio de Os Dois Cavalheiros de Verona ao ano de 1594, mas essa pea  bem mais primria do que A Comdia dos Erros, sendo, 
a meu ver, a primeira comdia escrita por Shakespeare, entre as que sobreviveram.
Hamlet (primeira verso) 1589-93
A referida pea foi includa no repertrio da companhia teatral que veio a ser chamada Lord Chamberlains Men, quando Shakespeare nela ingressa, em 1594. Na ocasio, 
a companhia passa a encenar Tito Andrnico e A Megera Domada. Jamais encenariam peas de Kyd.
VnuseAdnis 1592-93
A Comdia dos Erros 1593
Sonetos 1593-1609
E possvel que os primeiros sonetos tenham sido compostos em 1589, o que os faria abranger um perodo de vinte anos na vida de Shakespeare, perodo esse que terminaria 
um ano antes do suposto retiro para Stratford.
1593-94
1593-94
1593-94
1594-95
O salto que se observa, das primeiras comdias,  grande celebrao da linguagem encontrada em Trabalhos de Amor Perdidos,  de tal ordem significativo que tenho 
dvidas quanto a essa data (1594-95), to no incio da carreira, a menos que a verso de 1597, feita para ser encenada diante da corte, seja algo bem mais trabalhado 
do que apenas uma simples "reviso". No existe publicao da pea anterior a 1598.
Rei Joo 1594-96
Eis outra pea cuja data de composio constitui um quebra-cabea. Muitos dos versos possuem caractersticas to arcaicas que sugerem o Shakespeare de 1589. Contudo, 
Falconbridge, o Bastardo,  o primeiro personagem shakespeariano a possuir voz inteiramente prpria.
16
O Rapto de Lucrcia
%
Ttto Andrnico
A Megera Domada Trabalhos de Amor Perdidos
Ricardo II
Romeu e Julieta
Sonho de uma Noite de Vero
O Mercador de Veneza
Primeira Parte de Henrique IV
As Alegres Comadres de Wtndsor
Segunda Parte de Henrique IV
Muito Barulho por Nada
Henntjue V
Jlio Csar
Como Gostais
Hamlet
A Fnx e a Tartaruga
Noite de Reis
Trilo e Crssida
Bem Est o <\v.z Bem Acaba
Medida por Medida
Otelo
Rei Lear
Macbeth
Antnio e Clepatra
Coriolano
Timon de Atenas
Pendes
Cimbeline
Conto do Inverno
A Tempestade
Elegia para um Funeral
Henrique VIII
Os Dois Nobres Parentes
1595
1595-96
1595-96
1596-97
1596-97
1597
1598
1598-99
1599
1599
1599
160O-1601
1601
1601-2
1601-2
1602-3
1604
1604
1605
1606
1606
1607-8
1607-8
1607-8
1609-10
1610-11
1611
1612
1612-13
1613
17
#AO  LEITOR
Antes de Shakespeare, os personagens literrios so, relativamente, imutveis. Homens e mulheres so representados, envelhecendo e morrendo, mas no se desenvolvem
a partir de alteraes interiores, e sim em decorrncia de seu relacionamento com os deuses. Em Shakespeare, os personagens no se revelam, mas se desenvolvem,
e o fazem porque tm a capacidade de se auto-recriarem. s vezes, isso ocorre porque, involuntariamente, escutam a prpria voz, falando consigo mesmos ou com terceiros.
Para tais personagens, escutar a si mesmos constitui o nobre caminho da individuao, e nenhum outro autor, antes ou depois de Shakespeare, realizou to bem o verdadeiro
milagre de criar vozes, a um s tempo, to distintas e to internamente coerentes, para seus personagens principais, que somam mais de cem, e para centenas de personagens
secundrios, extremamente individualizados. Quanto mais lemos e refletimos sobre as peas de Shakespeare, mais nos damos conta de que a reao certa  a admirao.
Como ele pde fazer o que fez, no tenho como saber, e, aps duas dcadas lecionando quase que exclusivamente Shakespeare, considero o enigma insolvel. Este livro,
embora pretendendo ser til ao leitor, encerra um posicionamento pessoal, expresso de antiga paixo (ainda que nada singular) e ponto culminante de uma vida dedicada
 leitura,  crtica e ao ensino do que, teimoso, continuo a chamar criao literria. A Bardolatria, isto , a devoo a Shakespeare, deveria se
tornar uma religio
secular mais
19
#AO   LEITOR
praticada do que j o . As peas continuam a ser o limite mximo da realizao humana: seja em termos estticos, cognitivos, e, at certo ponto, morais, e mesmo
espirituais. So obras que se colocam alm do alcance da mente. No somos capazes de atingi-las. Shakespeare prossegue "explicando-nos", em parte, por que nos inventou,
sendo este o argumento central deste livro. Reitero o argumento inmeras vezes porque, a muitos, causar estranheza.
Submeto aqui uma interpretao abrangente das peas shakespearianas, dirigida ao leitor e ao espectador comuns. Embora admire alguns estudiosos de Shakespeare ainda
vivos (aos quais me refiro nominalmente), entristeo-me com muito do que, nos dias de hoje, se faz passar por leituras de Shakespeare, na academia e na mdia. Essencialmente,
procuro dar seguimento a uma tradio que inclui Samuel Johnson, William Hazlitt, A. C. Bradey e Harold Goddard, tradio essa hoje considerada fora de moda. Personagens
shakespearianos so papis a serem representados por atores, mas so, tambm, muito mais: a influncia que tais personagens exercem na vida tem sido quase to imensa
quanto o seu efeito na literatura ps-shakespeariana. Nenhum autor no mundo se iguala a Shakespeare na aparente criao da personalidade, e emprego aqui a palavra
"aparente", com certa relutncia. Listar as maiores qualidades de Shakespeare  quase um absurdo: onde comear? Onde terminar? O autor escreveu a melhor poesia
e a melhor prosa em lngua inglesa, talvez, no apenas em lngua inglesa, em qualquer idioma ocidental. Tal qualidade , por sua vez, inseparvel da fora de seu
raciocnio,- Shakespeare pensava com mais abrangncia e originalidade do que qualquer outro autor.
 incrvel que um terceiro feito seja capaz de superar tais qualidades,
contudo, reforo a tradio de Johnson, ao propor, quase quatro sculos aps Shakespeare, que o mesmo excedeu a todos os predecessores (mesmo a Chaucer) e inventou
o humano, o que hoje entendemos por humano. Fazer tal afirmao de forma mais tmida incorreria, a meu ver, em uma leitura errnea e reducionista da obra shakespeariana,
dando a entender que a originalidade de Shakespeare est limitada  representao da cognio, da personalidade, dos personagens. As peas de Shakespeare contm
um ele-
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HAROLD   BLOOM
mento transbordante, um excesso que vai alm da representao, que se aproxima da metfora que denominamos "criao". Os fortes personagens shakespearianos - Falstaff,
Hamlet, Rosalinda, lago, Lear, Macbeth, Clepatra, entre outros - so exemplos extraordinrios no apenas de gerao de significado, em lugar de sua mera repetio,
como, tambm, de criao de novas formas de conscincia.
Podemos relutar em admitir a natureza literria da nossa cultura, especialmente agora que tantos entre os que nos provm de literatura a partir de instituies formam
coro a proclamar a morte das letras. No entanto, um nmero significativo de norte-americanos que crem adorar a Deus, na verdade, adora trs grandes personagens
literrios: Jav, descrito pela Autora J (primeira autora de Gnesis, xodo e Nmeros), Jesus, segundo o Evangelho de Marcos, e Al, segundo o Alcoro. No estou
sugerindo que passemos a adorar Hamlet, mas Hamlet  o nico rival secular dessas grandes personalidades precursoras. Como estas, Hamlet parece ser mais do que um
personagem literrio ou dramtico. Seu efeito na cultura mundial  incalculvel. Depois de Jesus, Hamlet  a figura mais citada do Ocidente,- ningum roga-lhe graas,
mas ningum pode ignor-lo por muito tempo. (Hamlet no pode ser reduzido a um papel a ser desempenhado por um ator,- para comear, seria necessrio falar em "papis",
pois h mais Hamlets do que atores que os possam representar.) Ao mesmo tempo familiar e estranho, o enigma de Hamlet  emblemtico do grande enigma que constitui
o prprio Shakespeare: uma viso que  tudo e nada, um indivduo que (segundo Borges) era todos e ningum, uma arte to infinita que nos contm, e que h de continuar
abraando os que vierem depois de ns.
Na anlise da maioria das peas, procuro ser to isento quanto me permitem as excentricidades do meu consciente, privilegiando o personagem, em lugar da ao, enfatizando
o que chamo de "evidenciao", em lugar do contexto, este defendido pelos historicistas de ontem e de hoje. O captulo final, "A Evidenciao", aplica-se a qualquer
uma das peas, e poderia ter sido includo em qualquer outra seo do livro. No posso afirmar minha iseno no estudo das duas partes de Henrique IV, pois atribuo
ateno obsessiva a Falstaff, deus mortal da minha imagi-
21
#AO   LEITOR
nao. Ao escrever sobre Hamlet, utilizo-me de um procedimento circular, para medir os mistrios da pea e do protagonista, sempre retomando minha hiptese (seguindo
o falecido Peter Alexander): de que teria sido o prprio Shakespeare, e no Thomas Kyd, o autor da primeira verso de Hamlet, disponvel mais de uma dcada antes
do Hamlet que conhecemos. Em Ret Lear, sigo a trilha das quatro figuras mais perturbadoras - o Bobo, Edmundo, Edgar e o prprio Lear -, para rastrear o trgico nessa
que  a mais trgica das tragdias.
Hamlet, mentor de Freud, induz  revelao todos os que lhe cruzam o caminho, enquanto ele prprio (tanto quanto Freud) escapa aos bigrafos. A influncia que Hamlet
exerce nos personagens que o cercam  o eptome do efeito que as peas de Shakespeare produzem nos crticos. Procuro, tanto quanto me  possvel, escrever sobre
Shakespeare, e no sobre mim, mas tenho certeza de que as peas inundam o meu consciente, e que "me lem" mais do que eu as leio. Certa vez escrevi que, caso Falstaff
se dignasse a nos retratar, jamais permitiria que o entedissemos. O mesmo se aplica aos companheiros de Falstaff, sejam bons, como Rosalinda e Edgar, perversos,
como lago e Edmundo, ou transcendentais, como Hamlet, Macbeth e Clepatra. Somos guiados por impulsos que no podemos controlar e lidos por livros aos quais no
podemos resistir. Devemos nos aplicar e ler Shakespeare com o afinco que nos for possvel, sabendo que as peas nos lero com uma energia ainda maior. As peas
nos lem de maneira definitiva.
SHAKESPEARE
#O  UNIVERSALISMO DE SHAKESPEARE
A resposta  pergunta "Por que Shakespeare?" : "Quem mais haveria de ser?" A crtica de orientao romntica, desde Hazlitt e Pater a Harold Goddard, ensina: o
que h de mais relevante em Shakespeare pode ser encontrado mais em Chaucer e Dostoievsky do que nos contemporneos do prprio Shakespeare, a saber, Marlowe e Ben
Jonson. A obra dos criadores de Tamerlo e Sir Epicuro Mammon no esbanja personagens dotados de dimenso interior. O estudo dos contextos que cercavam Shakespeare
e George Chapman, ou Thomas Middeton, jamais nos esclarecer por que Shakespeare, em vez de Chapman ou Middeton, tanto nos fez mudar. Entre todos os crticos,
Samuel Johnson primeiro enxergou e apontou a grandeza de Shakespeare: a diversidade das suas "pessoas". Ningum, antes ou depois de Shakespeare, construiu tantos
seres diferenciados.
Thomas Carlyle, profeta vitoriano dispptico, talvez seja, atualmente, o menos acatado dos estudiosos shakespearianos outrora respeitados. No entanto,  de sua autoria
a afirmao mais til sobre Shakespeare: "Se me pedirem para identificar o motivo da capacidade de Shakespeare, eu diria - superioridade de intelecto - e ponto final".
Carlyle estava certo. H grandes poetas que no so pensadores, como Tennyson e Walt Whitman, e grandes poetas dotados de uma originalidade conceituai surpreendente,
como Blake e Emily Dickinson. Mas nenhum escritor ocidental, ou oriental (entre os que sou capaz de ler), equipara-se a Shakespeare, em termos de intelecto, e, quando
falo em
25
#HAROLD   BLOOM
escritores, incluo os principais filsofos, telogos e psiclogos, de Montaigne a Nietzsche e Freud
Tal apreciao, seja original de Carlyle ou minha, a meu ver, no constitui Bardolatna, talvez, apenas ecoe o comentrio de T S Eliot o mximo que podemos esperar
quanto a Shakespeare  estarmos errados dentro de uma nova abordagem Da minha parte, apenas gostaria de propor que deixaremos de estar errados em nossos estudos
shakespeananos quando abandonarmos a idia de acertar Tenho lido e lecionado Shakespeare, quase diariamente, nos ltimos doze anos, e tenho certeza de que no o
vejo com clareza Seu intelecto  superior ao meu Por que no haveria, pois, de aprender a interpret-lo afenndo essa superioridade, que, afinal, constitui a nica
resposta  pergunta "Por que Shakespeare"" Nossos supostos avanos no campo da Antropologia Cultural, ou em outras modalidades de Teoria", no configuram avanos
em relao a Sbakespeare
Em conhecimento, intelecto e personalidade, Samuel Johnson ainda , para mim, o primeiro dos crticos literrios ocidentais Seus escritos sobre Shakespeare possuem,
necessariamente, um valor singular o maior dos intrpretes, tecendo comentrios sobre o maior dos autores, no pode deixar de constituir algo de uso e interesse
perenes Para Johnson, a essncia da poesia era a inveno, e somente Homero  rival de Shakespeare em originalidade Inveno, tanto para Johnson quanto para ns,
 um processo de descoberta A Shakespeare devemos tudo, afirma Johnson, querendo dizer que Shakespeare nos ensinou a compreender a natureza humana Johnson no chega
a dizer que Shakespeare nos inventou, mas identifica o verdadeiro teor da mimese shakespeanana "A imitao produz dor ou prazer, no por ser confundida com a realidade,
mas por trazer a realidade  mente" Acima de tudo um crtico emprico, Johnson sabia que a realidade se altera, na verdade, realidade  mudana Shakespeare cria
maneiras diversas de representar a mudana no ser humano, alteraes essas provocadas no apenas por falhas de carter ou por corrupo, mas tambm pela vontade
prpria, pela vulnerabilidade temporal da vontade Um meio de definir a vitalidade de Johnson como crtico  perceber a fora da coeso de suas inferncias Johnson
sempre se coloca de tal maneira dentro das
26
O   UNIVERSALISMO  DE  SHAKESPEARE
peas de Shakespeare que  capaz de julg-las como julgaria a vida humana, sem jamais esquecer que a funo de Shakespeare  dar vida  mente, tomar-nos conscientes
daquilo que jamais descobriramos sem Shakespeare Johnson sabe que a fico de Shakespeare no  o real, que Falstaff e Hamlet tm uma dimenso transcendental, mas
sabe, tambm, que Falstaff e Hamlet alteraram a nossa percepo da vida Shakespeare, segundo Johnson, imita a essncia da natureza humana, que constitui um fenmeno
universal e no social A D Nuttall, na admirvel obra johnsomana A New Mtmesis (1983), afirma que Shakespeare, tanto quanto Chaucer, "implicitamente, contestou a
viso transcendentalista da realidade" Johnson, cristo convicto, no se permitiria tal afirmao, mas, sem dvida, era capaz de compreend-la, e uma certa inquietao
pode ser depreendida do impacto que lhe causa a morte de Cordlia, ao final de Rei Lear
Somente a Bblia possui uma circunferncia que a tudo abrange, conforme a obra de Shakespeare e a maioria das pessoas que lem a Bblia a consideram fruto da inspirao
divina quando no de uma interveno sobrenatural direta O centro da Bblia  Deus, ou, talvez, a viso ou a idia de Deus, cuja localizao , necessariamente,
indefinida A obra de Shakespeare j foi chamada de Escritura secular, em outras palavras, o centro estvel do cnone ocidental O que a Bblia e
* Shakespeare apresentam em comum, na verdade  bem menos do que a maioria das pessoas imaginam, a meu ver, o elemento comum  um certo universalismo, global e multicultural
A noo de universalismo no est muito em voga exceto em instituies religiosas e junto queles que por elas so influenciados Porm, no vejo como seria possvel
conceber Shakespeare sem encontrar um meio de explicar sua presena ubqua, nos contextos mais improvveis ao mesmo tempo, aqui, l, em todo lugar E uma constelao
uma aurora boreal visvel em um ponto que a maioria de ns jamais conseguir alcanar Bibliotecas e teatros (e cinemas) no so capazes de cont-lo, Shakespeare
tornou-se um "esprito de luz" grande demais para ser apreendido A Alta Bardolatna Romntica, hoje vista com desprezo pela nossa academia autoprofanada,  to-somente
a mais normativa das seitas que o adoram
27
#HAROLD   BLOOM
Neste livro, no estou interessado em investigar como o fenmeno ocorreu, mas no porqu de sua continuidade Se existe um autor que se
tornou um deus mortal, esse
autor  Shakespeare Quem lhe questionaria a eminncia -  qual foi elevado, exclusivamente, pelo mrito" Poetas e estudiosos reverenciam Dante, James Joyce e T S
Eliot expressaram a inteno de preferir Dante a Shakespeare, mas no puderam faz-lo Leitores comuns, que, felizmente, ainda existem, lem Dante em rarssimas ocasies,
no entanto, lem e assistem a montagens de Shakespeare Seus poucos rivais - Homero, a Autora J, Dante, Chaucer, Cervantes, Tolstoy, talvez Dickens - fazem-nos lembrar
que a representao da natureza e da personalidade humanas sempre h de encerrar o valor literrio maior, seja no teatro, na poesia lrica ou na narrativa em prosa
Sou ingnuo bastante para ler, constantemente, porque no posso, na minha prpria vida, conhecer tanta gente, de maneira to aprofundada Os espectadores da poca
de Shakespeare e ns, tambm, preferimos Falstaff e Hamlet a todos os demais personagens porque o Gordo Jack e o Prncipe da Dinamarca manifestam o consciente mais
rico de toda a literatura, mais abrangente do que o do Jav registrado pela Autora J, do Jesus do Evangelho de Marcos, dos peregrinos Dante e Chaucer, de Dom Quixote
e Esther Summerson, do narrador de Proust e de Leopold Bloom E bem possvel que sejam Falstaff e Hamlet os deuses mortais, em vez de Shakespeare, ou, quem sabe,
o mais brilhante e o mais inteligente entre os personagens no tero, juntos, criado o criador?
Quais seriam as semelhanas mais marcantes entre Falstaff e Hamlet" Para responder tal pergunta, se  que pode ser respondida, haveramos de penetrar o interior
de Shakespeare, cujo mistrio pessoal, para ns, , justamente, no nos parecer de todo misterioso Deixando de lado a questo da mortalidade, Falstaff e Hamlet so
nitidamente superiores a todos os personagens encontrados por eles, e por ns, nas respectivas peas E uma superioridade quanto  imaginao, cognio e dotes lingsticos,
mas, acima de tudo, trata-se de uma questo de personalidade Falstaff e Hamlet so carismticos por excelncia, encarnam a Bno, no sentido primeiro conferido
por Jav, "mais vida em um
O   UNIVERSALISMO  DE  SHAKESPEARE
tempo sem limites" (citando a mim mesmo) Os vitalistas hericos no transcendem a vida, so a grandeza da vida Shakespeare, que em seu cotidiano no parece ter realizado
gestos hericos ou vitalsticos, criou Falstaff e Hamlet como tributos da arte  natureza Mais do que os outros prodgios shakespeananos - Rosalinda, Shylock, lago,
Lear, Macbeth Clepatra -, Falstaff e Hamlet constituem a inveno do humano, a instaurao da personalidade conforme hoje a conhecemos
A idia do personagem ocidental, do ser como agente moral, tem diversas origens Homero e Plato, Aristteles e Sfocles, a Bblia e Santo Agostinho, Dante e Kant,
e quem mais o leitor desejar acrescentar Mas a personalidade, no sentido aqui proposto,  uma inveno shakespeanana, e tal feito constitui no apenas a grande originalidade
de Shakespeare, mas, tambm, a razo maior de sua perene presena Ao valorizarmos ou desprezarmos nossas prprias personalidades, somos herdeiros de Falstaff e Hamlet,
e de todos os outros indivduos que preenchem o teatro shakespeanano com algo que poderamos denominar "cores do esprito"
Quanto ao grau de ceticismo do prprio Shakespeare com relao  importncia da personalidade, nada podemos saber Para Hamlet, o ser  um abismo, o vcuo que leva
ao nada Para Falstaff, o ser  tudo Talvez, Hamlet, no quinto ato, transcenda seu prprio nnlismo, no sabemos ao certo, em meio quela matana ambgua que reduz
a corte de Elsinore ao afetado Osnc, alguns figurantes e ao amigo/estranho, Horcio Ser que, no final, Hamlet se despoja de toda sua ironia" Por que, ao morrer,
deposita a sua confiana no valento Fortimbrs, que desperdia as vidas dos soldados em uma batalha travada por um pedao de terra rida onde mal cabem os corpos
a serem sepultados" Falstaff, mesmo rejeitado e destrudo, continua sendo a imagem da exuberncia A personalidade sublime, to preciosa para ns, no o salva do
inferno das afeies tradas, dedicadas  pessoa errada, mesmo assim, a derradeira viso que temos dele, no relato de Mistress Quickly, em Henrique V, encerra um
valor supremo que nos remete ao Salmo 23 e a uma criana brincando entre flores Pode parecer estranho que Shakespeare reserve para as duas maiores personalidades
por ele prprio criadas o oxmoro da "boa morte", mas que outra expresso poderamos empregar"
29
#HAROLD   BLOOM
Haver personalidades (no sentido aqui usado) nas peas de autoria de qualquer dos rivais de Shakespeare? Marlowe, propositadamente, restnngia-se a caricaturas,
mesmo no caso de Barrabs, o mais perverso dos judeus, e Ben Jonson, tambm, propositadamente, lirmtava-se a ideogramas, mesmo em Volpone, cujo castigo final tanto
nos entristece Sou grande admirador de John Webster, mas suas heronas e viles desaparecem quando comparados aos de Shakespeare Estudiosos tentam convencer-nos
da qualidade da dramaturgia de George Chapman e Thomas Mlddeton, mas ningum chega a sugerir que tais dramaturgos fossem capazes de incutir em seus personagens
uma dimenso interna Quando afirmo que Shakespeare nos inventou, provoco grande resistncia junto a estudiosos, mas afirmar que nossas personalidades seriam diferentes
se Jonson e Marlowe jamais tivessem escrito seria, como se diz, uma outra histria O extraordinrio chiste de Shakespeare foi fazer Pistola, seguidor de Falstaff
na Segunda Parte de Henncjue IV, identificar-se com Tamerlo, de Marlowe E ainda mais cortante foi o retrato irnico e assustador de Marlowe como Edmundo, o astuto
e sedutor vilo de Rei Lear Malvlio, em Noite de Reis, , a um s tempo, uma pardia de Ben Jonson e uma personalidade to humana e convincente que faz lembrar
ao espectador, para sempre, que Jonson no tem seres humanos em suas peas Shakespeare, espintuoso como ningum e objeto da espintuosidade de terceiros, apropriava-se
dos rivais, dando a entender que suas personalidades extraordinrias eram mais fascinantes do que seus prprios personagens, embora no superassem as criaes de
Shakespeare com base nas mesmas Todavia, o intelecto niilista de Edmundo, conforme lago,  pequeno comparado ao de Hamlet, e o desajeitado esplendor cmico de Malvlio
 uma lgrima perto do oceano cosmolgico da gargalhada de Falstaff Talvez, temos atribudo uma nfase exagerada s metforas teatrais de Shakespeare,  sua autoconscincia
como ator e dramaturgo com freqncia, os modelos em que se inspirava devem ter sado de crculos diferentes do seu, mas  possvel que, em suas obras-primas, no
estivesse "imitando a vida", e sim criando vida
O que tornou possvel a arte de criar personagens em Shakespeare? Como criar seres que so "artistas livres de si mesmos", conforme Hegel
30
O   UNIVERSALISMO  DE  SHAKESPEARE
se referiu s criaturas de Shakespeare? Depois de Shakespeare, a melhor resposta ser "imitando Shakespeare" No se pode dizer que Shakespeare tenha imitado Chaucere
a Bblia como imitou Marlowe e Ovdio Inspirouse em Chaucer, e tal inspirao foi mais importante do que as fontes em Marlowe e Ovdio, pelo menos, no que concerne
 criao de Falstaff Mas h muitos indcios de personalidades marcantes na obra shakespeanana antes de Falstaff Faulconbndge, o Bastardo, em Rei Joo, Merccio,
em Romeu e Juheta, Bottom, em Sonho de uma Noite de Vero E temos Shylock, ao mesmo tempo, monstro fabuloso, encarnao do judeu, e ser humano desconcertante Mas
a diferena entre esses personagens e Hamlet est em sua natureza, enquanto que, entre Hamlet e Falstaff, existe apenas uma diferena em termos de grau A introspeco
leva  luz ou  escurido, de uma maneira mais radical do que previamente possvel na literatura
Talvez, a excepcional capacidade que Shakespeare possua de representar a personalidade esteja alm de explicaes Por que seus personagens nos parecem to reais, 
e como ele conseguia criar tal iluso de modo to convincente? As consideraes histricas (ou histoncizadas) no nos ajudam muito a responder essas perguntas Os 
ideais, tanto da sociedade como do indivduo, eram, talvez, mais importantes no mundo de Shakespeare do que no nosso Leeds Barroll comenta que os ideais renascentistas, 
fossem cristos, filosficos ou ocultistas, enfatizavam a necessidade da unio entre o pessoal, sempre incontido, e Deus ou o espiritual Da decorria uma certa tenso, 
ou ansiedade, e Shakespeare tornou-se o grande mestre da sondagem do abismo existente entre o ser humano e seus ideais Ter a inveno do que chamamos "personalidade" 
resultado de tal sondagem? Sem dvida, detectamos a influncia de Shakespeare no discpulo John Webster, quando, na pea O Diabo Branco, Flaminel, agonizante, grita
Ao vislumbrarmos o cu, confundimos Conhecimento com conhecimento
Em Webster, mesmo nos momentos mais originais, ouvimos o eco dos paradoxos shakespeananos, mas os interlocutores carecem de m-
#HAROLD   BLOOM
dividualidade Quem podena nos apontar as diferenas entre Flaminel e Lodovico, em O Diabo Branco? Vislumbrar o cu e confundir conhecimento com conhecimento no 
chega a fazer de Flaminel e Lodovico mais do que nomes impressos numa pgina A opressiva realidade de Hamlet, personagem em constante conflito interno, no parece 
ser resultado de uma perplexidade entre o conhecimento pessoal e ideal Ao contrrio, Shakespeare cria-nos um Hamlet que  agente - em lugar de efeito - de percepes 
conflitantes Convencemo-nos da realidade superior de Hamlet porque Shakespeare o liberta, ao tom-lo conhecedor da verdade, verdade a qual no conseguimos enfrentar 
corn relao  obra de Shakespeare, o pblico  como os deuses em Homero a tudo assiste e tudo ouve, mas no  tentado a intervir Porm, somos diferentes dos deuses 
de Homero sendo mortais, confundimos conhecimento com conhecimento No temos como obter, seja da era de Shakespeare ou da nossa, dados sociolgicos que expliquem 
a sua capacidade de criar "formas mais reais que seres humanos vivos", nas palavras de Shelley Shakespeare e seus rivais estavam sujeitos s mesmas disjunes entre 
as idias de amor, ordem e eternidade, mas, na melhor das hipteses, os rivais criaram caricaturas marcantes, em vez de homens e mulheres
No temos como saber, lendo ou assistindo a encenaes dos textos dramticos de Shakespeare, se o autor tinha crenas ou descrenas extrapoticas G K Chesterton, 
grande crtico literrio, insistia que Shakespeare era um dramaturgo catlico, e que Hamlet era mais ortodoxo do que ctico Ambas as afirmaes parecem-me um tanto 
infundadas, mas no tenho como verific-las, tampouco tinha Chesterton Chnstopher Marlowe apresenta ambigidades e Ben Jonson, ambivalncias, mas, s vezes, podemos 
arriscar certas concluses quanto a seu posicionamento pessoal Lendo Shakespeare, percebo que no gostava de advogados, preferia beber a comer e, sem dvida, sentia-se 
atrado pelos dois sexos Mas no encontro qualquer indicao de que preferisse o protestantismo ou o catolicismo, ou nenhuma das duas religies, e no sei se acreditava 
ou no em Deus e na ressurreio Sua orientao poli tica, tanto quanto a religiosa, escapa-me, mas suponho que fosse prudente.demais para se definir Sensato, temia 
multides e levantes, mas
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O  UNIVERSALISMO  DE  SHAKESPEARE
temia, igualmente, a autoridade Aspirava  ascenso social, arrependia-se de ter sido ator e, pelo que consta, preferia O Rapto de Lucraa a Rei Lear, preferncia 
absolutamente singular (excetuando-se, talvez, Tolstoy)
Chesterton e Anthony Burgess ressaltaram a vitalidade de Shakespeare Penso que podemos dar mais um passo e considerar Shakespeare um vitalista, como Falstaff A vitalidade, 
que William Hazlitt chamava de "entusiasmo", pode ser a explicao definitiva da extraordinria capacidade que Shakespeare possua de dotar de personalidades e de 
discursos inteiramente personalizados as suas criaes Custo a crer que Shakespeare preferisse o Prncipe Hal a Falstaff, conforme pensa a maioria dos estudiosos 
Hal  um Maquiavel, Falstaff, como Ben Jonson (e como Shakespeare"), transborda vitalidade O mesmo se d,  claro, com os viles assassinos Aaro, o Mouro, Ricardo 
in, lago, Edmundo e Macbeth E o mesmo se d com os viles cmicos Shylock, Malvlio e Cahban A exuberncia, de um fervor quase apocalptico,  to marcante em Shakespeare 
quanto em Rabelais, Blake e Joyce A pessoa de Shakespeare, afvel e perspicaz, no estava nem para Falstaff nem para Hamlet, porm, algo em seus leitores e espectadores 
faz com que estes sempre associem Shakespeare aos dois personagens Somente Clepatra e os piores viles - lago, Edmundo, Macbeth - permanecem impressos em nossa 
memria com a mesma clareza que a despreocupao de Falstaff e a intensidade intelectual de Hamlet
Ao ler as peas de Shakespeare e, at certo ponto, ao assistir a encenaes, o procedimento mais sensato  deixar-se levar pelo texto e pelos personagens, e permitir 
urna recepo que possa se distanciar daquilo que  lido, ouvido e visto, de maneira a incluir quaisquer contextos relevantes Era esse o procedimento, desde a poca 
de Samuel Johnson e David Garrick, William Hazlitt e Edmund Kean, at o tempo de A C Bradey e Henry Irving, G Wilson Knight e John Gielgud Lamentavelmente, por 
mais sensato e "natural" que fosse, o procedimento caiu em desuso, tendo sido substitudo pela contextualizao arbitrria e ideolgica, sinal de uma poca adversa 
Na abordagem que, doravante, denominarei "Shakespeare francs", o procedimento  o seguinte partir de um posicionamento poltico pessoal, muito distante
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#HAROLD   BLOOM
das peas shakespeananas e, ato contnuo, identificar algum elemento marginal da histria social da Inglaterra renascentista que possa ser utilizado de suporte para 
o argumento desejado Empunhando o elemento de cunho social, o estudioso lana-se sobre a pobre pea e descobre alguma relao, no importa em que bases tenha sido 
formulada, entre o suposto fato social e as palavras de Shakespeare Sena um alento se algum pudesse me convencer de que estou distorcendo o trabalho de professores 
e encenadores que, segundo a minha prpria nomenclatura, pertencem  "Escola do Ressentimento" - te, crticos que valorizam a teoria mais do que a prpria literatura 
-, mas acho que minha avaliao  procedente, aplicando-se tanto  sala de aula quanto ao palco
Substituindo o nome de "Jesus" pelo de "Shakespeare", sou tentado a citar Wilham Blake
Sei que este Shakespeare no valeu Nem para ingls, nem para judeu
O que h de errado com o "Shakespeare francs" no  o fato de no ser "ingls", muito menos judeu, cristo ou muulmano Para simplificar o problema  no ser Shakespeare, 
que no cabe muito bem nos "arquivos" de Foucault e cuja energia no , precipuamente, "social" Podemos expor, praticamente, qualquer questo a Shakespeare, e as 
peas sobre a mesma projetaro luz, com muito mais intensidade do que a referida questo haver de iluminar a pea Embora os profissionais do ressentimento insistam 
que a abordagem esttica encerra, em si, uma ideologia, expresso-me contrariamente, e, em Shakespeare e neste livro, interesso-me apenas pelo esttico (segundo Walter 
Pater e Oscar Wilde) Ou melhor, Shakespeare leva-me a tal interesse, visto que foi ele quem informou Pater, Wilde e todos ns com relao ao esttico, o que, segundo 
o prprio Pater, trata-se de uma questo de percepes e sensaes Shakespeare ensina-nos como e o que perceber, assim como nos instrui quanto a como e o que sentir 
Procurando nos edificar, no como cidados ou cristos, mas como seres conscientes, Shakespeare, o artista, superou todos os preceptores Os profissionais do ressentimen-
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O   UNIVERSALISMO  DE  SHAKESPEARE
to, que podem ser descritos (sem malcia) como obcecados por gnero e poder, no se comovem com as peas como arte e entretenimento
Ainda que G K Chesterton acreditasse ter sido Shakespeare, pelo menos em sentimento, catlico, Chesterton era um crtico esclarecido demais para explicar o universalismo 
de Shakespeare atravs do cristianismo Isso deveria servir-nos de lio para no moldarmos Shakespeare segundo as nossas prprias tendncias polticas e culturais 
Comparando Shakespeare a Dante, Chesterton enfatizou a grandeza do segundo, ao lidar com a liberdade e o amor cristo, enquanto Shakespeare "era um pago, embora 
seu maior talento seja descrever grandes espritos acorrentados" Tais"correntes"no tm qualquer aspecto poltico Remetem-nos ao universalismo, a Hamlet, acima de 
tudo, o maior dos espritos, refletindo a busca da verdade, e em decorrncia da qual perece Para ns, a aplicao mxima de Shakespeare  permitir que nos ensine 
a pensar, que nos leve  verdade que formos capaz de suportar sem perecermos
No  mera iluso que leitores (e espectadores) encontram mais vitali dade nas palavras de Shakespeare e nos personagens que as pronunciam do que em qualquer outro 
autor, talvez, mais do que em todos os autores somados A lngua inglesa, no incio da Modernidade, foi moldada por Shakespeare o Oxford Encjlisb Dictionary foi feito 
 sua imagem Bem mais tarde, indivduos em plena era moderna continuam a ser moldados por Shakespeare, no, especificamente, como ingleses do sexo masculino, ou 
mulheres norte-americanas, mas por meio de processos cada vez mais ps-nacionais e ps-gnero Shakespeare tomou-se o primeiro autor universal, substituindo a Bblia 
no consciente secular Tentativas de histoncizar o impacto por ele causado continuam a fracassar diante da singularidade de sua grandeza, pois os fatores culturais 
que os estudiosos apontam com relao a Shakespeare se aplicam, igualmente, a Thomas Dekker e George Chapman As crticas a Shakespeare que apenas seguem modismos 
no convencem, pois, no fundo, pretendem to-somente diminuir a distncia entre Shakespeare e autores como Chapman
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#HAROLD   BLOOM
Na prtica, modas acadmicas e teatrais que pretendem inserir Shakespeare em determinados contextos, seja no passado ou no presente, no funcionam A desmtstificao 
ser uma tcnica incua, se aplicada a um escritor que alcanou a prpria autenticidade, exclusivamente, ao representar terceiros Estou parafraseando Hazlitt a respeito 
de Shakespeare, conforme indica o subttulo deste livro, sigo, radiante, a tradio de Hazhtt, buscando o diferencial shakespeanano, algo acima de quaisquer demarcaes 
inter ou intraculturais O que fez de Shake speare o magtster ludi supremo" Nietzsche, conforme Montaigne, psiclogo dotado de fora quase comparvel  de Shakespeare, 
ensinou-nos que a dor  a origem primeira da memria humana Sendo Shakespeare o mais memorvel dos escritores, faria sentido supor que a dor que Shakespeare nos 
causa seja to significativa quanto o prazer No precisamos ser Samuel Johnson para sentir temor ao ler ou presenciar uma encenao de Rei Lear, especialmente, o 
quinto ato, em que Cordha  morta e Lear morre, trazendo nos braos o corpo da filha Ofelo apavora-me ainda mais, trata-se de uma dor impondervel, desde que ns 
(e o diretor da montagem) concedamos a Otelo a imensa dignidade e o valor que tomam a degradao do personagem algo to terrvel
Sou incapaz de resolver o dilema da representao de Shylock, ou do Prncipe Hal/Rei Henrique V A ambivalncia primordial, popularizada por Sigmund Freud, est no 
cerne de Shakespeare, tendo sido - surpreendentemente - por ele prprio inventada A dor memorvel, ou a memria induzida pela dor, emana de uma ambivalncia, ao 
mesmo tempo, cognitiva e afetiva, uma ambivalncia que associamos, prontamente, a Hamlet mas que  engendrada por Shylock  possvel que Shylock tenha sido concebido 
como vilo farsesco - houve poca em que pensava assim, mas hoje tenho minhas dvidas A pea pertence a Prcia, no a Shylock, mas Shylock  o primeiro dos heris-viles 
internalizados da dramaturgia shakespeanana, em contraste com os predecessores externalizados, e g , Aaro, o Mouro e Ricardo in Para mim, o Prncipe Hal/Hennque 
V  o abismo de introspeco que surge aps Shylock, fazendo do personagem, portanto, mais um heri-vilo, um Maquiavel piedoso e patritico, embora a piedade e 
a realeza sejam
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O  UNIVERSALISMO  DE  SHAKESPEARE
acessrias e a hipocrisia, fundamental Seja como for, o contumaz Shylock, sedento de justia,  um assassino em potencial, e, a duras penas, Shakespeare nos convence 
de que Prcia, outra bela hipcrita, com sua astcia, evita uma atrocidade Sena bom se O Mercador de Veneza ferisse at os no-judeus, embora tal anseio possa 
ser ilusrio
O que nada tem de ilusrio  a fora aterronzante da vontade de Shylock, a determinao de fazer valer o contrato Sem dvida, podemos falar da fora aterronzante 
da vontade de Hal/Hennque V, de sua determinao de garantir o trono, dominar a Frana e todas as pessoas que o cercam, at mesmo suas mentes e coraes J a grandeza 
de Hamlet, meio pelo qual o personagem transcende o papel de heri-vilo, decorre, em grande parte, da rejeio da vontade, inclusive da vontade de vingana, empreitada 
que ele evita atravs da negao, nele um mtodo revisno que reduz qualquer contexto a teatro O gnio teatral de Shakespeare  menos lago e mais Hamlet lago  to-somente 
o crtico, mas , tambm, um esteta criminoso cuja viso  totalmente falha com respeito a Emha, sua prpria mulher Hamlet  um artista muito mais livre, cuja 
viso no pode falhar, e transforma sua "ratoeira" no Teatro do Mundo Enquanto Shylock  obsessivo, Hal/Hennque V um ingrato incapaz de enxergar a singularidade 
de Falstaff, e lago jamais consegue superar a injria pessoal (a revolta pelo no-reconhecimento de seu valor militar), Hamlet, de uma maneira consciente, aceita 
o peso do mistrio do teatro, aumentado pela fora de Shakespeare Ademais, Hamlet deixa de representar-se a si mesmo e toma-se algo mais que um indivduo - algo 
que encerra uma figura universal Shakespeare tomou-se nico na representao de seres humanos, Hamlet  o diferencial conseguido por Shakespeare No quero dizer 
que o despojamento tocante de Hamlet no quinto ato fosse uma qualidade pessoal de Shakespeare, apenas que o posicionamento final de Hamlet personifica a "capacidade 
de anulao" de Shakespeare, segundo Keats No final, Hamlet j no  um personagem condenado a sofrer dentro de uma pea - e da pea errada Personagem e pea misturam-se
e dissolvem-se, e tudo o que nos resta  a msica cognitiva "deixa estar", e "deixa ser"
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#HAROLD   BLOOM
 difcil descrever os mtodos de representao em Shakespeare sem recorrer a oxmoros, uma vez que a maioria desses mtodos baseia-se em contradies aparentes.
Coloca-se, pois, uma "irrealidade naturalista", de acordo com o comentrio impaciente de Witrgenstein, ao afirmar que a vida no  como em Shakespeare. Owen Barfield
responde a Witrgenstein, por antecipao (1928):
[...] em um sentido bastante real, por mais humilhante que parea, o que costumamos chamar nossos sentimentos so, na verdade, os "significados" de Shakespeare.
A prpria vida tornou-se uma irrealidade naturalista, em parte, devido  importncia de Shakespeare. Inventar os nossos sentimentos  ir alm de submeter-nos a processos
psicolgicos. Shakespeare nos fez teatrais, mesmo que jamais presenciemos um espetculo ouleiamosuma pea. Depois que Hamlet, praticamente, rouba a cena - fazendo
gracejos sobre a Guerra dos Teatros, determinando ao Ator Rei que represente a cena absurda em que Enas relata a morte de Pramo, recomendando aos atores certas
prticas cnicas -, mais do que nunca, reconhecemos em Hamlet algum como ns, surpreso ao ver-se dentro de uma pea de teatro, e da pea errada. Somente o Prncipe
 real,- os demais, e toda a ao, constituem teatro.
Ser que podemos nos conceber sem Shakespeare? No incluo aqui apenas atores, diretores, professores e crticos mas, tambm, o presente leitor e todas as pessoas
de seu relacionamento. Nossa formao acadmica, tanto nos pases de lngua inglesa como em muitas outras naes,  shakespeariana. Mesmo hoje em dia, quando a educao
fraqueja e Shakespeare  malhado e distorcido por idelogos modernosos, os prprios idelogos so caricaturas da energia shakespeariana. A suposta "poltica" de
tais indivduos reflete a paixo dos personagens shakespearianos,- se os idelogos possuem alguma energia social, sua viso ntima de sociedade  - pasmem - shakespeariana.
A meu ver, seria prefervel que fossem como Maquiavel, ou rancorosos  Ia Marlowe,
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O  UNIVERSALISMO  DE  SHAKESPEARE
como, por exemplo, Barrabs, o judeu de Malta, mas, infelizmente, seus paradigmas ideolgicos esto mais para lago e Edmundo.
zzzSer que os mtodos shakespearianos de representao expressam algum posicionamento ideolgico, i.e., cristo, ctico, hermtico, ou qualquer outro que seja? 
A pergunta, 
difcil de ser enunciada, tem implicaes graves: em suas peas, Shakespeare, em ltima anlise, celebra a vida, indo alm da tragdia, ou ser ele um niilista pragmtico? 
Sendo eu um herege transcendentalista, com propenso gnstica, agrada-me a idia de um Shakespeare que abrace, ao menos, a possibilidade de uma transcendncia secular, 
que contemple o sublime. Mas isso no parece procedente. A litania shakespeariana autntica decanta variaes sobre a palavra "nada", e a sombra do niilismo espreita 
em quase todas as peas, at mesmo nas grandes - e relativamente clssicas - comdias. Como dramaturgo, Shakespeare  sbio demais para se ater a uma s crena, 
e, embora d a impresso de tudo saber, tem o cuidado de manter uma certa distncia entre a sabedoria e a transcendncia. Uma vez que a eloqncia de Shakespeare 
tem um carter abrangente, e sendo o seu senso dramtico algo quase constante, fica difcil atribuir precedncia ao aparente niilismo das peas e  ntida noo 
da indiferena da natureza, ou ao problema e ao sofrimento humanos. Ainda assim, o niilismo cala fundo. Mal nos lembramos de Leontes, em seu arrependimento, ao final 
de Conto do Inverno - "Perdo, vos peo, / por haver posto meu molesto cime / entre vossos olhares inocentes" -, mas o seu grande hino ao "nada" permanece em nossa 
memria:
Tudo isso  nada?
Ento  nada o mundo todo e tudo
que nele se contm,- o cu  nada, Bomia  nada, minha esposa  nada, so nada todos esses nadas, caso for nada quanto passa.*
" Medida por Medida e Conto do Inverno. Traduo de Carlos Alberto Nunes. Segunda edio Volume VII. So Paulo: Edies Melhoramentos, s.d. Os trechos dessa srie 
doravante citados tm acentuao grfica atualizada pelo presente tradutor. [N.T.]
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#HAROLD  BLOOM
Para ns, mais vale a loucura niilista de Leontes do que a restaurao da sanidade do personagem, pois a verdadeira poesia  coisa do diabo, no sentido dialtico 
atribudo por William Blake ao diabo. Nahum Tate produziu um Rei Lear "sanitarizado", com um final feliz que inclua o casamento de Cordlia e Edgar, e mostrava 
um Lear radiante com a unio da filha e do afilhado. Averso foi do agrado de Samuel Johnson, mas, para ns, carece de kenoma, a sensao de vazio e devastao 
que caracteriza o final da pea que Shakespeare escreveu.
Poucos entre ns esto habilitados a atestar que Deus est morto, vivo ou que perambula em exlio (possibilidade  qual mais me inclino). Alguns autores esto, com 
efeito, mortos, mas no William Shakespeare. Quanto aos personagens dramticos, nunca sei bem como lidar com as afirmaes (e crticas) feitas a mim por estudiosos 
de Shakespeare que insistem que Falstaff, Hamlet, Rosalinda, Clepatra e lago so papis a serem encenados por atores e atrizes, e no "gente de carne e osso". Por 
mais que tais censuras (s vezes) me afetem, deparo-me sempre com as evidncias concretas de que meus oponentes, alm de serem menos interessantes do que Falstaff 
e Clepatra, tm menos capacidade de persuaso do que os personagens shakespearianos, "repletos de vida" (plagiando Ben Jonson). Quando, criana, vi Ralph Richardson 
no papel de Falstaff, e fiquei to impressionado que, pela vida afora, toda vez que presenciava novos trabalhos de Richardson, no palco e na tela, identificava-o 
corn Falstaff, apesar da genial versatilidade do ator. Desde ento, a realidade de Falstaff esteve sempre comigo e, meio sculo mais tarde, serviu de ponto de partida 
para este livro. Se um pobre ator se empavona e se debate por uma hora no palco, sem ser, em seguida, sequer ouvido, podemos dizer que um grande ator ressoa por 
toda uma vida, principalmente, no caso de encenar um papel forte, um personagem gigantesco, dotado de uma espirituosidade absolutamente inigualvel.
Mas  preciso pr as coisas no seu devido lugar. No nos cabe emitir julgamentos sobre o moral de Falstaff. Shakespeare coloca suas peas
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O   UNIVERSALISMO  DE   SHAKESPEARE
em tal perspectiva que, medida por medida, somos julgados no momento em que pretendemos julgar. Se, para o leitor, Falstaff no passa de um covardo, um parasita, 
um vigarista, um bobo oficioso no squito do Prncipe Hal, nesse caso, podemos tirar algumas concluses a seu respeito, caro leitor, mas pouco saberemos sobre Falstaff. 
Se, para o leitor, Clepatra no passa de uma quarentena vagabunda e Antnio um Alexandre gag e frustrado, ento, temos mais a deduzir a seu respeito, leitor, do 
que a respeito do casal shakespeariano. Os atores dirigidos por Hamlet tm nas mos um espelho que reflete a natureza, mas o espelho de Shakespeare encontra-se dentro 
de outro espelho, e em ambos h inmeras vozes. Falstaff, Hamlet, Clepatra e os demais no so apenas imagens projetadas por vozes (como pode acontecer com poetas 
lricos),- tampouco falam por Shakespeare ou pela natureza. Sendo uma arte, praticamente, sem limites, a representao shakespeariana no nos oferece a natureza, 
nem uma segunda natureza, nem cosmo nem heterocosmo. A afirmao, em parfrase, a arte, em si,  natureza (Conto do Inverno) encerra uma ambigidade fascinante. 
Se estou certo ao apontar Faulconbridge, o Bastardo, em Rei Joo, o primeiro personagem shakespeariano autntico, e Caliban, em A Tempestade, o ltimo, no intervalo 
entre essas duas peas temos obras esplndidas, em que podemos observar outros mtodos de construo de personagem, desde os enleios de Trilo e Crnsida, Bem Est 
o cjue Bem Acaba e Medida por Medida at as figuras hierticas de Os Dois Nobres Parentes. Ou seja, em ltima anlise, os personagens shakespearianos so to variados 
que no podemos singularizar um mtodo de construo como sendo o Verdadeiro".
Em termos prticos, h pouca diferena entre "Hamlet, o personagem" e "Hamlet, o papel". Contudo, principalmente devido s peculiaridades da crtica moderna, parece 
recomendvel voltar a falar em "personagem literrio e personagem dramtico", para podermos chegar a um melhor entendimento dos seres humanos criados por Shakespeare. 
Pouco nos vale sermos lembrados que Hamlet  feito de palavras e pelas palavras,
#HAROLD  BLOOM
que Hamlet "no passa" de um conjunto de sinais impressos sobre uma pgina. Personagem implica etos, o carter individual. O carter de personagens literrios e 
dramticos imita o de seres humanos,- ao menos, assim pensvamos, com base na premissa de que palavras refletiam, igualmente, pessoas e coisas. Sem dvida, palavras 
referem-se a outras palavras, mas o impacto que exercem sobre ns emana, segundo Martin Price, do meio emprico em que vivemos, e dentro do qual atribumos valores 
e significados, e construmos a nossa concepo de indivduo. Tais atribuies so to factuais quanto nossa impresso de que determinados personagens literrios 
e dramticos reforam a nossa concepo de pessoa, enquanto outros no conseguem faz-lo.
H duas maneiras contraditrias de explicar a grandeza de Shakespeare. No entendimento dos que pensam ser a literatura, basicamente, linguagem, a primazia de Shakespeare 
 um fenmeno cultural, produzido a partir de crises sociopolticas. Nessa tica, Shakespeare no escreveu suas prprias obras: estas foram escritas pela energia 
social, poltica e econmica da poca. O mesmo se aplicaria a todo tipo de escritura, ontem e hoje, pois certos especuladores parisienses conseguiram convencer muitos 
(seno a maioria) dos estudiosos de que, na verdade, no existem autores.
A outra maneira de estudar a perene supremacia de Shakespeare  bem mais emprica: parte da noo de que Shakespeare  universalmente considerado o autor que melhor 
representou o universo concreto, em todos os tempos. Tal noo tem sido corrente, pelo menos, desde o meado do sculo XVIII, e, embora desgastada, permanece procedente, 
por mais banal que os tericos do ressentimento a considerem. Revisitamos Shakespeare porque dele precisamos,- ningum nos apresenta tanto do mundo pela maioria 
de ns considerado relevante. Neste livro, baseio-me, com efeito, na suposio de que Shakespeare ter sido, no sentido mais concreto, o melhor autor de todos os 
tempos. No entanto, indo bem alm de tal premissa, proponho-me a demonstrar a originalidade de Shakespeare no que concerne  construo de personagens, bem como 
at que ponto fomos, praticamente, reinventados por Shakespeare. Devemos a Shakespeare as nossas idias sobre o que constitui
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O  UNIVERSALISMO  DE  SHAKESPEARE
o humano autntico,- no  para menos, nesse particular, a obra shakespeariana assumiu status de Escritura, no para ser lida como muitos de ns lemos a Bblia, 
o Alcoro ou as Doutrinas e Contratos de John Smith, mas, tampouco, para ser lida como Cervantes, Dickens ou Walt Whitman. As Obras Completas de William Shakespeare 
poderiam ser denominadas O Livro da Realidade, por mais fantstico que Shakespeare, tantas vezes, seja. Em outro estudo, concluo ser Shakespeare no apenas o prprio 
cnone ocidental como, tambm, o cnone universal, talvez o nico capaz de sobreviver  humilhao a que ora se submetem as nossas instituies de ensino, tanto 
nos Estados Unidos quanto no exterior. Todos os outros grandes escritores podem tombar e ser substitudos no atoleiro dos Estudos Culturais. Shakespeare h de resistir, 
mesmo que seja expulso pelos acadmicos, possibilidade bastante improvvel. A lngua que falamos, em grande parte,  informada por Shakespeare, os principais personagens 
por ele criados tomaram-se nossa mitologia, e Shakespeare, no seu discpulo involuntrio, Freud,  nosso psiclogo. Sua capacidade de persuaso, no entanto, tem 
um lado negativo. E possvel que O Mercador de Veneza tenha incitado mais anti-semitismo do que O Protocolo dos Sbios de Sio, embora menos do que o Evangelho de 
Joo. Pagamos caro pelo que obtemos de Shakespeare.
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#PARTE
AS PRIMEIRAS COMDIAS
#A COMDIA DOS ERROS
Sendo a menos extensa e a mais coesa das peas shakespearianas, A Comdia dos Erros  considerada por muitos especialistas a primeira escrita pelo autor, sobre o 
que tenho minhas dvidas. A pea demonstra tamanho talento, ou melhor, domnio total, em termos de ao, personagens e dramaturgia, que supera, em muito, as trs 
partes de Henrique VI, bem como Os Dois Cavalheiros de Verona, comdia um tanto precria. E bem verdade que, na comdia, Shakespeare sempre foi livre para ser ele
prprio, ao passo que, nos primeiros dramas histricos (inclusive Ricardo in) e em Tito Andrnico,  possvel perceber a sombra de Marlowe. Reconhecendo a genialidade 
cmica de Shakespeare, constatamos que A Comdia dos Erros no  obra de um aprendiz, seja em aspectos textuais ou cnicos. Trata-se de uma sofisticada elaborao 
(um enriquecimento) de Flauto, autor de comdias romanas conhecido da maioria do pblico de teatro em decorrncia da comdia musical A Funny Tbing Happened on the 
Wayto tbeForum. O prprio Shakespeare foi adaptado, magistralmente, por Rodgers e Hart, cujo musical TbeBoysfrom Syracuse foi inspirado em A Comdia dos Erros, e 
por Cole Porter, que, mais tarde, utilizaria A Mecjera Domada como fonte de Kiss Me Kate.
Em A Comdia dos Erros, Shakespeare rene elementos de duas comdias de Flauto - Manaechmi e Amphitruo - e nos apresenta o absurdo, fascinante, que so os dois pares 
de gmeos idnticos. Estamos na Grcia, em Efeso (para onde voltaremos, no fim da carreira de Shake-
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#HAROLD   BLOOM
speare, com Pendes), e de feso no samos, nesta pea com impecvel unidade de espao e tempo (a ao transcorre em um dia) Antfolo de Siracusa chega a feso 
corn seu servo, Drmio Seu irmo gmeo, Antfolo de feso, igualmente, tem um servo chamado Drmio, gmeo idntico do primeiro O mercador de Siracusa e seu criado 
no vieram a feso em misso comercial, e sim por uma questo familiar  procura de seus irmos desaparecidos A mesma busca  o motivo da presena recente, em feso, 
de um outro mercador, geu de Siracusa, pai dos dois Antfolos, preso, logo ao entrar na cidade, sob ordens do Duque, que o condena a ser decapitado ao pr-do-sol 
Siracusa e feso so inimigas mortais Tudo isso confere  Comdia dos Erros um incio um tanto melanclico, nada plautino
GU
Selai agora,  Duque, a minha sorte,
Meu sofrimento acabar com a morte *
Ao mesmo tempo, pesaroso e firme, o Duque Solmus informa a geu que, de fato, ter a cabea cortada, a menos que um resgate de cem marcos seja pago em seu benefcio 
Em resposta s indagaes do Duque, geu conta a histria incrvel de um naufrgio, cerca de vinte anos antes, que lhe separou a famlia, deixando, de um lado, o 
prprio geu e um de cada par de gmeos, do outro, a esposa e as outras duas crianas Ao longo dos ltimos cinco anos, diz geu, esteve  procura do trio desaparecido, 
e a angstia por no os ter encontrado explica sua vontade de ser executado
O meu consolo  o fim desta porfia, As minhas dores findaro com o dia
Tais palavras no parecem pertencer a uma comdia, muito menos  comdia barulhenta e farsesca que se segue Mas Shakespeare, que  se tornaria o mais sutil dos dramaturgos, 
j , propositadamente, ambguo
A Comedia aos Erros e O Mercador de Veneza Traduo e Introduo de Barbara Heliodora Rio de Janeiro Editora Nova Fronteira 1990 Todas as citaes referem se a essa 
edio [N T]
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A  COMEDIA  DOS  ERROS
em A Comdia dos Erros Os gmeos Antfolos so ssias perfeitos, mas, no ntimo, so bem diferentes O Antfolo de Siracusa  dotado de um temperamento quase metafsico
Quem me deixar s minhas alegrias, Deixa-me quilo que no posso ter, EU sou qual gota d"gua no oceano Que no oceano busca uma outra gota,  ao mergulhar bem fundo 
na procura (Ainda sempre buscando) se perdeu Pois tambm eu, buscando me e irmo, Sem encontr-los, sinto-me perdido
[I n]
Esses versos, freqentemente citados, vo de encontro  primeira impresso que costumamos ter de A Comdia dos Erros, de uma farsa cheia de encrencas, assim como
o lamento de geu, de uma maneira muito clara, extrapola as convenes da farsa
O Antfolo de feso no  um sujeito dos mais interessantes, comparado ao gmeo de Siracusa, no qual Shakespeare se concentra Em parte, o Antfolo de Siracusa cresce 
em nossa estima em virtude de algo que o deixa perplexo o exotismo de feso Uma vez que a Epstola de So Paulo aos fsios faz referncia s "artes estranhas" ali 
praticadas, uma platia conhecedora da Bblia imagina a cidade (embora, sem dvida, tratando-se da Londres de Shakespeare) como um reduto de feitiana, uma terra 
encantada onde tudo pode acontecer, especialmente aos estranhos Antfolo de Siracusa, perdido ao entrar em feso, no decorrer da pea, quase perde o sentido de identidade
Talvez, toda farsa seja, implicitamente, metafsica, Shakespeare afasta-se de Plauto ao exibir uma certa inquietao A Comdia dos Erros corre em direo a uma violncia 
impulsiva, da qual, entretanto, ningum (exceto o Dr Pmch, o exorcista charlato) sai ferido Trata-se de uma pea em que ningum, nem mesmo a platia, pode se dar 
ao luxo de saber, ao certo, o que est acontecendo antes do final, quando os dois
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#HAROLD  BLOOM
pares de gmeos surgem lado a lado. Shakespeare no nos fornece qualquer pista de que a abadessa de Efeso (pelo que consta, sacerdotisa de Diana)  a me dos dois 
Antfolos, antes de ela prpria fazer tal revelao. Podemos nos perguntar por que ela reside em Efeso h vinte e trs anos sem se apresentar ao filho que vive na 
mesma cidade, mas isso seria to irrelevante quanto questionar a possibilidade de os dois pares de gmeos estarem vestindo roupas idnticas no dia do reencontro 
em Efeso. Tais peculiaridades so condies bsicas  Comdia dos Erros, pea em que os limites entre o improvvel e o impossvel so difanos. Sendo, de fato, o 
divertimento exuberante que se espera, essa pea intensa e breve , tambm, um dos pontos de partida para a reinveno que Shakespeare faz do humano. Um papel farsesco,
dificilmente, pode ser introspectivo, mas questes de gnero dramtico jamais restringiram a criatividade de Shakespeare, nem mesmo no incio da carreira, e Antfolo 
de Siracusa  um estudo para os verdadeiros abismos interiores que haveriam de seguir. Mesmo ao "fazer turismo", o visitante de Siracusa observa que vai andar a 
esmo "Pra ver se  o que dizem a cidade". No encerrando qualquer parbola crist, A Comdia dos Erros no  pea em que andamos a esmo para nos encontrar. Ao final 
da ao, os dois Drmios esto radiantes em seu reencontro, mas a reao mtua dos dois Antfolos  enigmtica, como veremos abaixo. Nada pode ser mais diferente 
da reao do efsio, indignado ao constatar que sua identidade pudesse ser questionada, do que o apelo feito pelo rapaz de Siracusa a Luciana, cunhada de seu irmo:
Gentil donzela, cujo nome ignoro,
E no compreendo como sabe o meu, .    -     -   .
A no ser que esse encanto me revele
No milagre terrestre, mas divino,
Ensine-me a pensar e a responder,-
Explique a este crebro terreno,
Perdido em erros, fraco, dbil, rude,
O sentido de frases to estranhas.
Por que busca tomar em tal mistrio
A verdade mais pura da minha alma?
Por que, qual Deus, h de querer criar-m?
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A  COMDIA   DOS   ERROS
Pois que crie - eu me entrego ao seu poder. Mas se ainda sou eu, eu lhe garanto Que a sua irm no  minha mulher, E que ao seu leito eu nunca prestei jura. Muito 
mais para si  que me inclino,- No tente, com o seu canto de sereia, Afogar-me nas lgrimas da irm: Cante para si mesma, que eu me rendo,- Nas ondas louras desses 
seus cabelos
Estou pronto a mergulhar e a me entregar, Pois sei que ali, feliz, eu julgarei Que  bom morrer, quando se morre assim. Deixe que o amor, que  luz, se afogue nele.
[1II..]
A comoo dessas palavras advm, em parte, do desespero. Antfolo de Siracusa apaixona-se para se reencontrar, pressagiando o modelo ertico que ser satirizado 
corn benevolncia em Trabalhos de Amor Perdidos. Nesta, o astuto Biron ousa secularizar o paradoxo cristo que Shakespeare evita em A Comdia dos Erros-.
" BIRON esqueamos
o juramento, a fim de nos salvarmos/ se no, nos perderemos, para sermos fiis ao juramento. A religio nos manda ser perjuros neste caso,- a prpria caridade a 
lei nos dita. E quem conseguiria separar da Caridade o Amor?*
[IV.iii.]
" OsDoisCavalheirosdlVtUtWtfliMttiosdeAmorPerilido Traduo et Garfos Alberto Nunes. So Paulo: Edies de Ouro (Melhoramentos), s. d [N.T]
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#HAROLD   BLOOM
No foi bem isso que So Paulo quis dizer com as palavras "aquele que ama o prximo cumpre a lei", mas, obviamente, Trabalhos de Amor Perdidos no ser mais paulina
do que A Comdia dos Erros. Antfolo de Siracusa no ama Luciana para cumprir a lei, mas para alcanar uma transformao, para ser recriado. No entanto, Shakespeare
no nos permite ficar nessa melancolia,- antes, conduz o texto  hilaridade de um dilogo entre Antfolo de Siracusa e Drmio, a respeito da cozinheira, Nell, que 
confundiu o Drmio estranho com o prprio marido, o Drmio de Efeso. Nell  matrona das mais corpulentas, o que enseja sensacionais aferies geogrficas:
ANTFOLO DE SIRACUSA
Quer dizer que  um pouco larga? DRMIO DE SIRACUSA
Dos ps  cabea mede o mesmo que de um lado a outro,- 
esfrica, como um globo. Ela  toda coberta de pases. ANTFOLO DE SIRACUSA
Em que parte do corpo fica a Irlanda? DRMIO DE SIRACUSA
Nas ndegas, senhor. V-se pelos pntanos. ANTFOLO DE SIRACUSA
E a Esccia? DRMIO DE SIRACUSA
Pela secura e a dureza, fica no couro das palmas das mos. ANTFOLO DE SIRACUSA
E onde fica a Frana? DRMIO DE SIRACUSA
Na testa - armada e revolta. Nela cabelos lutam como herdeiros. ANTFOLO DE SIRACUSA
E a Inglaterra? DRMIO DE SIRACUSA
Eu andei olhando os rochedos, mas no tinha nenhum branco
- mas acho que fica no queixo, onde corre o suor salgado que
separa a Frana dos despenhadeiros.
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A  COMDIA  DOS  ERROS
ANTFOLO DE SIRACUSA
E a Espanha? DRMIO DE SIRACUSA
Essa eu no vi... S senti no hlito quente! ANTFOLO DE SIRACUSA
E a Amrica e as ndias? DRMIO DE SIRACUSA
Ora, senhor, no nariz, que  todo decorado com rubis,
carbnculos e safiras, que inclinam suas riquezas para o hlito
da Espanha,- pois esta mandou armadas inteiras de carga para
servir de lastro ao nariz. ANTFOLO DE SIRACUSA
E a Blgica e os Pases Baixos? DRMIO DE SIRACUSA
Ora, meu amo - eu no olhei to baixo.
[III..]
Esse verdadeiro tour deforce  o eptome de A Comdia dos Erros, cujo riso  sempre benvolo. A cena do reconhecimento, a primeira de uma extraordinria srie, leva 
o Duque de Efeso, atnito,  reflexo mais profunda da pea:
Um desses homens  do outro o gnio,- E um dos outros tambm,- quem sabe aqui Qual  o homem, e quem  o esprito?
[V.i.3
Embora Antfolo de Siracusa no seja, exatamente, nem "guia" nem "encosto" espiritual do irmo, uma resposta possvel s perguntas do Duque pode ser viabilizada 
pelo espectador atento, reconhecendo, no gmeo visitante, o esprito e, no mercador de Efeso, o ser humano. Shakespeare, que viria a dominar a arte da elipse, aqui 
j comea a pratic-la, privando os dois Antfolos de qualquer reao afetiva no momento do reencontro. O Antfolo de Siracusa determina ao Drmio que o serve: "Abrace 
o seu irmo, e esquea o resto!", mas sai de cena,
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#HAROLD   BLOOM
acompanhado do prprio irmo, sem abraos, sem jbilo. No resta dvida, Antfolo de Siracusa est bem mais interessado em cortejar Luciana, assim como Antfolo 
de feso deseja voltar para a esposa, para a casa e para os seus bens. Mas a frieza, a falta de vibrao por parte dos Antfolos estabelece um forte contraste com 
o aucarado encontro dos Drmios, com o qual Shakespeare encerra a comdia:
DRMIO DE SIRACUSA
H uma gordona l na sua casa
Que andou me cozinhando hoje no almoo -
Ainda bem que ela  minha cunhada. DRMIO DE FESO
Voc, alm de irmo, serve de espelho,-
E, pelo visto, eu sou bem-apanhado!
Agora est na hora de ir para a festa. DRMIO DE SIRACUSA
Eu, no,- entra voc, que  o mais velho. DRMIO DE FESO
Ser? Como  que ns vamos saber? DRMIO DE SIRACUSA
No par ou mpar,- mas pode ir na frente. DRMIO DE FESO
Ns nascemos irmos, iguais no fado -
S podemos entrar de brao dado.
[Vi.]
No decorrer da ao, esses dois trapalhes muito sofreram nas mos dos dois Antfolos, e a platia sente-se aliviada ao v-los sair de cena to animados. Quando 
o Drmio de feso, mirando-se no irmo gmeo, diz: "E, pelo visto, eu sou bem-apanhado!", concordamos com ele, e o dstico final expressa uma afeio mtua que 
no corresponde, absolutamente, ao caso dos dois Antfolos. Seria absurdo impor  Comdia dos Erros questes sociopolticas e ideolgicas atuais, mas  tocante que, 
desde o incio da carreira, Shakespeare prefira os comediantes aos mercadores.
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A MEGERA DOMADA
A Megera Domada inicia com a "Introduo", duas cenas estranhas em que um nobre, afeito a brincadeiras de mau gosto, engana um latoeiro bbado, Cristvo Sly, fazendo-o 
crer que  um grande senhor prestes a assistir  encenao do drama de Kate e Petrucchio. Isso faz da comdia que se segue uma pea dentro de outra pea, o que no 
parece nada apropriado ao efeito cnico a ser obtido junto  platia. Embora bem escrita, a Introduo serviria a outra meia dzia de comdias shakespearianas, to 
bem (ou to mal) quanto se presta  Megera Domada. A inventividade da crtica tem gerado as mais diversas analogias entre Cristvo Sly e Petrucchio, mas, quanto
a mim, permaneo ctico. Contudo, Shakespeare via na Introduo alguma funo dramtica, ainda que no a tenhamos identificado. Sly no retorna, ao final da pea,
talvez, porque, se o fizesse, sofreria uma cruel decepo, alm de interferir no triunfo mtuo de Kate e Petrucchio, que, nitidamente, formaro o par mais feliz 
da obra shakespeariana (exceto o casal Macbeth, que, no entanto, acaba separado e derrotado). Ainda quanto  Introduo, dois aspectos parecem vlidos: um certo 
distanciamento que a mesma provoca com respeito  encenao subseqente, e a sugesto de que mobilidade social pode constituir uma forma de loucura. Ao pretender 
emergir socialmente, Sly toma-se to louco quanto Malvlio, em Noite de Reis.
Pertencendo Kate e Petrucchio a uma mesma classe social, seu "distrbio" pode ser a forma violenta com que ambos se expressam, e que
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#HAROLD   BLOOM
Petrucchio "cura" em Kate, embora para isso ele tenha de aumentar seu grau de impetuosidade a ponto de parecer um manaco. Quem cura, e quem  curado, permanece 
uma questo aberta nesse casamento, que, sem dvida, h de se manter, diante de um mundo intimidado, atravs de uma fachada de beligerncia (bem mais astuta, da 
parte de Kate, do que de seu marido, infantil e berrador). Todos conhecemos casais assim,- do-nos a oportunidade de refletir sobre o que faz um relacionamento funcionar 
bem, mas preferimos manter-nos distantes de casais to autocentrados, to pouco preocupados com terceiros, com alteridade.
E possvel que Shakespeare, em sua imensa sutileza, queira sugerir uma analogia entre Cristvo Sly e o feliz casal, cada qual vivendo um sonho. Sly no acordar,- 
tampouco, precisam Kate e Petrucchio despertar. A derradeira realidade do casal  uma espcie de conspirao: Petrucchio vangloria-se, mas Kate estar no comando 
(dele e da casa), para sempre desempenhando o papel da megera domada. Vrias feministas apontam que Kate se casa com Petrucchio contrariada, o que, simplesmente, 
no  verdade. Em uma leitura cuidadosa, podemos perceber que Petrucchio est certo ao insistir que Kate por ele se apaixonara  primeira vista. E como poderia ser 
diferente? Levada a reagir com violncia e veemncia por Batista, um pai que, claramente, favorece a verdadeira megera (Bianca, a filha mais jovem, e sem graa),
a briosa Kate clama por ajuda. Confiante, Petrucchio provoca em Kate duas reaes: externamente, fria, internamente, paixo. A eterna popularidade de A Megera Domada
no decorre do sadismo dos espectadores masculinos, mas da excitao sexual dos homens e das mulheres.
A Megera Domada  tanto comdia romntica quanto farsa. A rispidez fsica entre Kate e Petrucchio possui um apelo bsico, mas o humor que caracteriza seu relacionamento 
 altamente sofisticado. O alegre rufio Petrucchio , na verdade, uma sada ideal para Kate, em sua vontade de livrar-se de um lar que lhe causa mais estresse do 
que as maluquices de Petrucchio. Por mais que berre, no fundo, Petrucchio no  to mau, conforme a prpria Kate percebe,- ela o compreende e o controla, com consentimento. 
A guerra retrica entre os dois parte de mtuas provocaes sexuais que, aps o casamento, sero substitudas pelos faniqui-
A  MEGERA   DOMADA
tos infantis de Petrucchio. Vale lembrar que Kate, apesar das privaes iniciais, nos incidentes com comida, roupas etc., passa por apenas um momento de real agonia, 
quando Petrucchio, propositadamente, atrasa-se para as bodas, provocando na jovem o pavor de ter sido abandonada:
BATISTA
Hoje  o dia das npcias de Petrucchio
corn Catarina, meu senhor Lucncio,-
mas no temos notcia de meu genro.
Que se vir a dizer? Quanto motivo
de zombaria, se no vier o noivo,
j estando o padre  espera para os ritos
das npcias realizar? Que diz Lucncio
da afronta que nos fazem? CATARINA
Minha, apenas,
 toda a afronta. Tive de, forada,
ceder a mo, contra a vontade prpria,
a um sujeito estouvado, tipo excntrico,
que ficou noivo  pressa e ora pretende
casar-se com vagar. Bem que eu vos disse
que era louco varrido e que escondia
sob a capa de amargas brincadeiras
a grosseria prpria. Porque alegre
sujeito parecesse, pediria
de mil jovens a mo, marcara a data
do casamento, convidara amigos,
fazendo publicar logo os proclamas,
sem pretender, porm, casar-se nunca.
A pobre Catarina doravante
vai apontada ser por toda a gente,
que dir: "Olha a esposa de Petrucchio,
quando Petrucchio se casar com ela!"
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#HAROLD  BLOOM
TRNIO
Pacincia, Catarina,- e vs, Batista. Mas posso garantir-vos que Petrucchio tem boas intenes. E que decerto no pde vir no prazo combinado. Conquanto seja um 
tanto brusco, tenho-o na conta de sensato,- embora alegre,  homem de palavra e muito honesto.
CATARINA
Prouvera ao cu que nunca o houvesse visto
a pobre Catarina!
(Sai chorando, seguida de Bianca e de outras pessoas.)
[III..]
Ningum gosta de ser abandonado, mas a angstia aqui expressa no nos sugere uma noiva contrariada com o casamento. Kate est apaixonada, mas sente-se abatida diante 
do estouvado Petrucchio, e receia que ele seja um manaco que, por prazer, costuma levar ao altar mulheres de toda a Itlia. Quando, aps a cerimnia, nega  esposa 
o direito de participar da festa de seu prprio casamento, Petrucchio quebra-lhe o que ela chama de "o esprito de resistir", e o faz em meio a uma invectiva fundada 
no Dcimo Mandamento, nitidamente patriarcal:
PETRUCCHIO Todos iro cear, minha Katinha, porque assim o ordenaste. Ide, senhores, para o banquete! Obedecei  noiva, bebei  larga  sua virgindade, soltai rdeas
ao jbilo, mostrai-vos ledos at  loucura, ide enforcar-vos... Mas a minha Katinha encantadora
* As Alegres Comadres de Wmdsor e A Megera Domada Traduo de Carlos Alberto Nunes. Volume IV, So Paulo- Edies Melhoramentos, s d. Todas as citaes referem-se 
a essa edio. [N.T.]
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A MEGERA  DOMADA
dever ir comigo. Nada disso, no precisais crescer para o meu lado, nem sapatear, nem escumar de raiva. Quero ser dono do que me pertence,- ela  minha fazenda, 
meus bens mveis, a moblia, o celeiro, a casa, o campo, meu burro, meu cavalo, minha vaca, meu tudo, enfim. Aqui ela se encontra. Quem coragem tiver, que toque 
nela,- saberei defender-me contra o ousado que o passo me quiser barrar em Pdua. Desembainha, Grmio, que cercados estamos por bandidos. Se homem fores, salva tua 
patroa. No, Katinha, ningum te tocar,- hei de amparar-te contra um milho que seja.
(Saem Petrucchio, Catarina e Grmio.)
[III..]
Essa histrinica sada de cena, com Petrucchio e Grmio empunhando espadas, constitui uma espcie de rapto simblico, e d incio  "cura", quase fantasmagrica, 
que Petrucchio reserva  pobre Kate, "cura" essa que prossegue at Kate descobrir como domar o fanfarro:
PETRUCCHIO
Depressa, pelo cu! Vamos  casa
de vosso pai, de novo. Oh Deus bondoso!
como brilha no cu a lua amiga! CATARINA
Lua? Isto  o sol,- no h luar ainda. PETRUCCHIO
Digo que  a lua que to claro brilha. CATARINA
 o sol, bem vejo, que to claro brilha.
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#HAROLD   BLOOM
PETRUCCHIO
Pois pelo filho de meu pai, eu mesmo,
tem de ser lua ou estrela, ou o que eu quiser,
antes de  casa de teu pai ns irmos.
Recolhei os cavalos! Contrariado
de novo! Contrariado sempre e sempre!
HORTNSIO
Oh! concordai com ele,- do contrrio, no partiremos nunca.
CATARINA
Por obsquio,
j que chegamos at aqui, sigamos at o fim, seja lua, ou sol, ou quanto bem entenderdes. Caso resolvais dar-lhe o nome de vela, doravante para mim ser isso.
PETRUCCHIO
E lua, disse.
CATARINA
Vejo que  lua mesmo.
PETRUCCHIO
Ests mentindo
pois  o sol abenoado.
CATARINA
Deus bendito!
pois  o sol abenoado! Mas j deixa de ser o sol, quando negardes isso. Muda-se a lua como vosso esprito,- ser o que quiserdes, e isso mesmo ficar sendo para 
Catarina.
l
[IV. v.]
A partir desse momento, Kate assume o comando, mesmo enquanto reafirma sua obedincia ao radiante Petrucchio, numa fascinante inver-
A   MEGERA   DOMADA
so shakespeariana da estratgia anteriormente adotada por Petrucchio, i.e., proclamar a doura de Kate, mesmo enquanto ela vociferava. Em toda a obra de Shakespeare, 
no existe cena mais charmosa entre marido e mulher do que"essa vinheta numa rua de Pdua:
CATARINA
Marido, vamos ver como tudo isso vai acabar. PETRUCCHIO
Vamos, Katinha,- mas primeiro d-me um beijo. CATARINA
Como! No meio da rua? PETRUCCHIO
Como! Ests com vergonha de mim? CATARINA
De ti por Deus que no, mas de beijar-te. PETRUCCHIO
Ento voltamos j. Rapaz, vira o cavalo. CATARINA
No,- dou-te um beijo,- dou. Fiquemos,- j no falo. PETRUCCHIO
No est bem assim? Para se entrar na linha
nunca  tarde demais, ensina-me Katinha.
(Saem.)
[Vi.]
Somente um surdo (ou um obcecado por questes ideolgicas) no ouviria nesses versos uma msica extica e sutil sobre a felicidade no casamento. Sempre que analiso 
A Megera Domada em sala de aula, inicio por esse trecho, porque o mesmo constitui um forte antdoto a todas as besteiras, de ontem e de hoje, ditas a respeito da 
pea (uma edio recente chega a incluir excertos de manuais de espancamento de esposas utilizados na Inglaterra renascentista, dos quais, felizmente, depreendemos 
que, de maneira geral, a prtica no era recomendada. Considerando que Kate agride Petrucchio, sem que ele revide - embora a
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A  MEGERA  DOMADA
previna de no repetir a faanha -, no entendo por que sequer suscitar a questo do espancamento de esposas). Ainda mais sutis so as palavras de Kate, nos momentos 
finais da pea, o clebre trecho em que ela aconselha as mulheres a se comportarem perante os maridos. Somente pessoas sem imaginao no ouviriam a ironia deliciosa 
do subtexto de Kate, calcada no memorvel verso: "Tenho vergonha / de ver que so to simples as mulheres". E s uma grande atriz  capaz de enunciar, devidamente, 
um trecho to conhecido,- alm disso, teria de ser dirigida por um encenador melhor do que os que costumamos encontrar hoje em dia, para poder aconselhar as mulheres 
como comandar e, ao mesmo tempo, fingir obedecer:
CATARINA
Ora, que absurdo!
Desenruga essa fronte carrancuda
e deixa de lanar esses olhares
desdenhosos que vo bater em cheio
em teu senhor, teu rei, teu soberano.
Isso te mancha a formosura como
no prado se faz a geada, teu bom nome
deixa abatido como a tempestade
sacode os mais mimosos botezinhos,
sem nunca ser gracioso ou conveniente.
A mulher irritada  como fonte
remexida: limbosa, repulsiva,
privada da beleza,- e assim mantendo-se,
no h ningum, por mais que tenha sede,
que se atreva a encostar os lbios nela,
a sorver uma gota. Teu marido
 teu senhor, teu guardio, tua vida,
teu chefe e soberano. E ele que cuida
de ti; para manter-te, arrisca a vida,
corn trabalho penoso em mar e em terra,-
nas noites borrascosas, acordado,- --
de dia, suportando o frio, enquanto
dormes em casa no teu leito quente,
tranqila e bem segura. No te pede
outro tributo alm de teu afeto,
mui sincera obedincia e rosto alegre,
paga mesquinha de to grande dvida.
A submisso que o servo deve ao prncipe
 a que a mulher ao seu marido deve.
E se ela se mostrar teimosa, indcil,
intratvel, azeda, rebelada
contra as suas razoveis exigncias,
que mais ser seno por isso abjeta
traidora, sim, traidora do seu prprio
devotado senhor? Tenho vergonha
de ver que so to simples as mulheres,
para fazerem guerra onde deveriam
de joelhos pedir paz ou pretenderem
dominar, dirigir, mandar em tudo,
quando servir lhes cumpre to-somente,
obedecer e amar? Por que motivo
temos o corpo delicado e fraco,
pouco afeito aos trabalhos e experincias
do mundo, se no for apenas para
que nossas qualidades delicadas
e nossos coraes de acordo fiquem
como nosso hbito externo? Deixai disso,
vermezinhos teimosos e impotentes!
O carter j tive assim to duro,
o corao to grande quanto o vosso,
e mais razes, talvez, para palavra
revidar com palavra, picardia
corn picardia. Mas agora vejo
que nossas lanas so de palha, apenas.
Nossa fora  fraqueza,- somos criana
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#HAROLD  BLOOM
que muito ambicionando logo cansa. Abatendo o furor nos exaltamos. Ponde a mo sob os ps de vossos amos. Caso o meu queira, a minha j est pronta,- para mim no 
consiste nisso afronta.
[V..]
Cito o trecho na ntegra, precisamente, porque a redundncia e a submisso exagerada nele contidas so essenciais  natureza da linguagem secreta, cifrada, a essa 
altura, inteiramente compartilhada por Kate e Petrucchio. A noo de "mui sincera obedincia" aqui colocada  bem menos sincera do que pode parecer e, mesmo que 
se deixe de lado a questo da luta entre os sexos, ser to antiga quanto o Jardim do den. "Fora" e "fraqueza" tm os significados entrelaados, pois Kate no 
preconiza a subservincia ostensiva, mas a arte de fazer valer a vontade, vontade essa bem mais apurada do que no incio da pea. O significado da fala explode na 
resposta de um Petrucchio extasiado:
O Katinha gentil! Vem dar-me um beijo.
O leitor que entender esta fala como o clmax de uma "pea-problema", talvez, seja, em si o problema. Kate no precisa de adestramento que lhe aumente o grau de 
"conscientizao". Shakespeare, que, nitidamente, preferia personagens femininos aos masculinos (excetuando-se Falstaff e Hamlet), engrandece o humano, j no incio 
da obra, ao insinuar que a mulher possui uma noo de realidade mais verdadeira.
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OS DOIS CAVALHEIROS DE VERONA
Embora aqui inserida segundo o consenso crtico quanto  ordem cronolgica de composio das peas, Os Dois Cavalheiros de Verona, a mais fraca das comdias shakespearianas, 
pode ter sido a primeira de todas, mesmo porque  bem menos expressiva, em todos os sentidos, do que A Comdia dos Erros e A Megera Domada. Jamais tendo sido um 
sucesso, seja na poca de Shakespeare ou na nossa, Os Dois Cavalheiros de Verona poderia at ser desconsiderada, no fossem o bufo Launce, que esbanja vitalidade, 
e seu co Crab, dotado de mais personalidade do que qualquer outro personagem da pea, exceto o prprio Launce. Os estudiosos valorizam Os Dois Cavalheiros de Verona 
como obra de transio, um pressgio de melhores comdias, inclusive da extraordinria Noite de Reis, mas tal estima no ser de grande utilidade ao leitor ou ao
espectador comuns.
Diretores e atores agem de maneira acertada ao encenarem a pea como pardia, tendo por alvo os dois amigos veroneses que figuram no ttulo. Proteu, escroque "protico", 
de to abusivo, chega a ser quase interessante, mas Valentino, por Launce, devidamente, qualificado de "palerma", s merece ateno se levarmos a srio a sua perversidade, 
uma vez que a mesma parece ir muito alm de uma bissexualidade reprimida. A pea resume-se  relao bastante peculiar entre Valentino e Proteu,- no devemos subestimar 
Shakespeare, e algo me diz que ainda haveremos de entender melhor Os Dois Cavalheiros de Verona, uma com-
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#HAROLD  BLOOM
dia experimental. Mas nem mesmo a nfase aos aspectos ambguos  capaz de elevar o texto a uma posio de destaque entre as comdias shakespearianas,- apenas As 
Alegres Comadres de Windsor seria inferior, na minha opinio, um texto descartvel, em que um impostor tenta se fazer passar por Sir John Falstaff. Falstaff desprovido 
de sagacidade titnica e de inteligncia metamrfica no  Falstaff, como o prprio Shakespeare, melhor do que ningum, sabia/ na verdade, As Alegres Comadres encerra 
um escabroso exerccio de sadomasoquismo, responsvel pela imensa popularidade da pea.
O enredo de Os Dois Cavalheiros de Verona sequer  absurdo. Proteu, discretamente apaixonado pela bela Jlia (por ele, abertamente, cada), a contragosto, parte 
para a corte do Imperador, ao encontro de seu melhor amigo, Valentino, com o intuito de aprender as coisas da vida. Valentino, perdidamente apaixonado por Slvia 
(que, no fundo, tambm o ama), tem um criado, Speed, um bufo, cujo companheiro  Launce, criado de Proteu. Ouvir as tiradas de Launce a respeito de seu cachorro 
 constatar o surgimento da grandeza da arte shakespeariana:
No h quem no fique furioso, ora vede, quando o seu criado procede como cachorro. Um animal que eu criei desde pequeno, que salvei de se afogar, quando trs ou 
quatro de seus irmos e irms iam ser jogados na gua. Ensinei-lhe as coisas de tal modo, que se poderia dizer: desse jeito at eu ensinaria um co. Meu amo mandou
que eu o desse de presente  senhorita Slvia/ porm, mal entrei na sala, ele saltou  mesa e roubou uma perna do capo. Ohl Que coisa horrvel no saber um cachorro
comportar-se em boa companhia! Eu desejara possuir um cachorro, como se diz, que se decidisse a ser cachorro de verdade, para que ele, por assim dizer, fosse realmente 
cachorro em todas as coisas. Se eu no houvesse revelado mais esprito do que ele, para assumir a responsabilidade de uma falta cometida por ele prprio, estou certo 
de que o teriam enforcado. Sim, por minha vida.- teria sido castigado. Vs mesmos ireis julgar: ele me atira a si mesmo por baixo da mesa do duque, em companhia 
de trs ou quatro
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OS  DOIS   CAVALHEIROS  DE  VERONA
cachorros afidalgados. Pois no havia tido ainda - desculpai-me a expresso - nem tempo de urinar, e j todo o compartimento recendia. "Ponham fora daqui a esse 
cachorro!", exclamava um dos presentes. "Que cachorro  esse?", perguntava outra pessoa. "Dem-lhe umas relhadas!", dizia um terceiro. "Enforcai-o!", gritou o duque. 
Por j estar habituado com aquele cheiro, vi logo que se tratava de Crab e me dirigi para o criado incumbido de ministrar castigo aos ces. "Amigo", lhe disse, 
"tencionais chibatear esse cachorro?" "Sem dvida", respondeu-me. "Pois ides praticar uma injustia", acrescentei, "por ter sido eu que fiz a coisa que bem sabeis", 
depois do que, sem usar de cerimnia, ele me expulsou do quarto a chibatadas. Quantos patres teriam feito o mesmo com relao a seus criados? Sim, posso jurar 
que j fui posto no tronco por causa de pudins roubados por ele, s para que ele no fosse executado/ j fiquei no pelourinho por causa de gansos mortos por ele, 
s para que ele no viesse a sofrer nada. J te esqueceste de tudo isso, no  assim? Ainda me recordo da partida que me pregaste, quando me despedi de madame Slvia. 
No te recomendara que no me perdesses de vista, para s fazeres o que eu fizesse? Quando j me viste levantar a perna e molhar a saia de alguma senhora? Alguma 
vez j me viste fazer semelhante brincadeira?*
[IV.iv.]
Launce  um personagem to vivo (embora seja um personagem complementado de um co), que, s vezes, me parece desperdiado em Os Dois Cavalheiros de Verona, pea
que est aqum dele. O restante do enredo inclui o fato de que Proteu, tendo se apaixonado pelo retrato de Slvia, tanto calunia Valentino, que o palerma acaba sendo 
exilado/ no exlio, Valentino toma-se chefe de uma quadrilha. Jlia, no que seria o
" Os Dois Cavalheiros de Verona e Trabalhos de Amor Perdidos. Traduo de Carlos Alberto Nunes. So Paulo: Edies de Ouro (Melhoramentos), 1966. Todas as citaes 
referem-se a essa edio. [N.T.]
67
#HAROLD   BLOOM
primeiro de uma srie de disfarces anlogos, veste-se de rapaz, sai  procura de Proteu e tem o "prazer" de ouvi-lo proclamar amor por Slvia, jurando que a antiga 
amada estava morta. Slvia, que tem o bom senso de desprezar o canalha, sai pela floresta em busca de Valentino, acompanhada do bravo Sir Eglamor, que, bem no estilo 
Monty Python, foge correndo quando os marginais capturam a dama que ele, supostamente, defende. Essa mixrdia atinge o clmax no momento em que Proteu e Jlia (disfarada) 
salvam Slvia,- Proteu, em seguida, tenta estupr-la, sendo interrompido pela chegada de Valentino. O que se passa, ento, entre os dois cavalheiros  to estranho, 
que custamos a crer que Shakespeare esperasse que alguma platia pudesse aceitar tal situao, mesmo tratando-se de farsa:
VALENTINO
Amigo de hoje, sem qualquer lealdade, como o so todos! Falso! As esperanas me burlaste,- somente os prprios olhos me poderiam dar esta certeza. J no posso dizer 
que ainda me resta um amigo, porque me desmentiras. Quem merecera f, se a mo direita  infiel ao corao? Oh! Estou triste por nunca mais poder confiar em ti. 
Por tua causa fugirei do mundo. O golpe da amizade  o mais profundo. Oh tempo ingrato! Que entre tanta gente seja traidor o amigo e confidente! PROTEU
Confunde-me a vergonha do meu crime. Valentino, perdoa. Se a tristeza do corao tiver fora bastante para me redimir de minha culpa, aos teus ps a deponho. Minha
falta no  maior do que meu sofrimento.
68
OS   DOIS   CAVALHEIROS   DE   VERONA
VALENTINO
Isso me satisfaz,- tomo a estimar-te
como a um homem de bem. Quem no se dobra
ao arrependimento, no pertence
nem ao cu nem  terra, que so brandos.
Por penitncia a clera do Eterno
se deixa dominar. E como prova
de quanto o teu falar me comprazeu,
cedo-te tudo quanto em Slvia  meu.
JLIA
Ai de mim! Infeliz! (Desmaia.)
[V.iv.]
A reao de Jlia permite-lhe, ao menos, um alvio imediato, enquanto a pobre Slvia no volta a abrir a boca na pea, aps gritar "Oh cus!", no momento em que 
o lascivo Proteu a agarra, tentando estupr-la. Como deve atuar a atriz que representa o papel de Slvia, durante os ltimos cem versos da pea? No seria mal que
ela desse uma paulada na cabea de Valentino, mas isso no tomaria o paspalho - nem ningum a sua volta - mais sensato:
JLIA
Mas erra menos
a mulher no disfarce de um momento
do que o homem que troca o sentimento. PROTEU
O homem que troca o sentimento! E certo.
Oh cus! Porque perfeito o homem ficasse,
falta-lhe ser constante. Esse defeito
o leva a cometer muitos pecados.
Que pode haver em Slvia a todo instante,
que em Jlia no me mostre o amor constante? VALENTINO
Vamos, sem mais demora dai-me as mos.
69
#HAROLD  BLOOM
Ver-vos unidos causa-me alegria,-
no fora bem brigardes em porfia. PROTEU
Bem sabe o cu que o meu anelo era este. JLIA
O meu tambm.
[V.iv.]
Pelo menos a Slvia, quase violentada, ser permitido guardar um silncio ambguo,- nesse momento, fica difcil saber, entre Proteu ou Valentino, quem  o mais imbecil. 
No contexto, no h situao, em Shakespeare, mais inaceitvel do que o pragmatismo de Proteu: "Que pode haver em Slvia a todo instante, / que em Jlia no me mostre 
o amor constante?" Em outras palavras: qualquer mulher me serve. Os homens, Shakespeare sugere, podem substituir os nomes de Slvia e Jlia pelos de quaisquer outras 
mulheres.
Mesmo os shakespearianos mais solenes esto cientes de que tudo est errado em Os Dois Cavalheiros de Verona, mas, evidentemente, Shakespeare pouco se importaria 
corn isso. O escroque e o bobo, despachados para a corte do Imperador por pais severos, acabam em Milo - ou ser que no saem de Verona? com certeza, isso no 
faz a menor diferena, eles prprios no fazem a menor diferena, tampouco as pobres das namoradas. Launce e Crab, sim, fazem alguma diferena,- quanto ao resto, 
devo concluir que Shakespeare, deliberadamente, faz do amor e da amizade objetos de pardia, abrindo caminho para a grandeza das comdias romnticas, de Trabalhos 
de Amor Perdidos a Noite de Reis.
PARTE II
OS PRIMEIROS DRAMAS HISTRICOS
#HENRIQUE V!
A cronologia da composio das peas de Shakespeare no  questo resolvida. Aceito a proposio de Peter Alexander, de que o prprio Shakespeare teria escrito uma 
primeira verso de Hamlet, presumivelmente, em 1588-89, e concluo que esse primeiro Hamlet teria sido uma das primeiras peas escritas por Shakespeare, sendo mais
"histria" do que "tragdia de vingana". E possvel imaginar a insipincia da verso precoce de Hamlet, a partir da anlise de uma obra que hoje chamamos (segundo
o Primeiro Flio) Primeira Parte de Henrique VI. Escrita em 1589-90 (e, sem dvida, revista em 1594-95), a pea  to fraca que, talvez, no devamos lamentar a perda 
do primeiro Hamlet, o qual, suponho, teria sido, igualmente, primrio. As tentativas dos estudiosos no sentido de atribuir trechos da Primeira Parte de Henrique 
VI a Robert Greene ou a George Peele, dramaturgos menores, no me convencem, embora agrade-me a idia de que o jovem Shakespeare no tenha sido o nico responsvel 
pelo insucesso. O que identifico na pea, porm, so a retrica e o estilo de Marlowe, apropriados com verve e coragem, mas de maneira pouco independente, como 
se o dramaturgo principiante estivesse mtoxicado por Tamerlo e por O Judeu da Malta. O lamento por Henrique V, cujo funeral abre a pea, soa como um rquiem para 
Tamerlo, o Grande-.
BEDFORD
Cubra-se o cu de negro, em noite o dia
73
#HAROLD   BLOOM
HENRIQUE  VI
se transforme! Cometas, que as mudanas do tempo revelais e dos Estados, sacudi no alto empreo vossas trancas de cristal e aoitai as ruins estrelas que na morte 
de Henrique concordaram! Era grande demais Henrique, o quinto, para viver por muito tempo! Nunca a Inglaterra perdeu um rei to grande.
GLOSTER
Antes dele no houve na Inglaterra nenhum rei no sentido verdadeiro. Era dotado de virtude e digno de mandar,- ao brandir a espada, os raios dela a vista dos homens 
ofuscavam,- seus braos se estendiam mais ainda do que asas de drago,- em ira aceso, o olhar faulhante era de mais efeito para atordoar e rechaar inimigos, do
que o sol, quando neles dardejava. Como dizer? Seus feitos transcendiam todo discurso,- a mo jamais erguia sem realizar de pronto uma conquista.
EXETER
Por que razo em vez de preto o nosso luto por ele no ser de sangue? Henrique j morreu,- no toma  vida,- achamo-nos ao p de um caixo fnebre e  vitria 
sem mrito da Morte damos honra, to-s por nos portarmos no jeito de vencidos que acompanham o carro do triunfo. Como! Vamos, ento amaldioar os ruins planetas 
que se ligaram contra nossa glria? Ou pensar que os franceses astuciosos
so todos feiticeiros e adivinhos
e que, por medo dele, versos mgicos
recitavam, a fim de aniquil-lo?
[I..]
Basta trocar os nomes dos monarcas e substituir Inglaterra por Scythia, que os versos parecem de Marlowe. Robert Greene no seria capaz de realizar imitao to 
prxima, e George Peele evitaria seguir Marlowe to abertamente. O jovem Shakespeare, tanto aqui como no primeiro Hamlet, parte de caricaturas histricas que declamam 
feitos hericos em linguagem bombstica. H toques de lirismo e musicalidade intelectual que transcendem Marlowe, mas que, a meu ver, so frutos da reviso feita 
em 1594-95, quando a celebrao da linguagem em Shakespeare j se concretizara, em Trabalhos de Amor Perdidos. Custamos a crer que, em 1589-90, a pardia grosseira 
que Shakespeare faz de Joana D"Arc pudesse soar assim:
JOANA
O fado me destina para ltego dos ingleses. Sem dvida possvel, suspenderei o cerco ainda esta noite. Contai s com veres de So Martinho, dias alcineos, porque 
entrei na guerra. A glria  como um crculo sobre a gua, que aumenta sempre mais, at que  fora de se alargar, termina em coisa alguma. com a morte de Henrique
acaba o crculo da Inglaterra,- dispersas se acham todas as glrias nele inclusas. Neste instante eu sou como o insolente e altivo barco que a Csar carregava e
sua fortuna.
[I.-]
*Henn<fue VI (t*Parte) e Henr^w VI [2S e 3aPartes) Traduo de Carlos Alberto Nunes. Volumes XVIII e XIX So Paulo Edies Melhoramentos, s.d Todas as citaes referem-se 
a essa edio. [N.T.]
74
75
#HAROLD   BLOOM
A Joana D"Arc de Shakespeare mais parece uma das companheiras de Falstaff. Vulgar e desagradvel em algumas cenas, corajosa e direta em outras, essa Joana D"Arc 
desafia a crtica. Shakespeare no a faz coerente,- talvez, constru-la de maneira coerente estivesse alm da capacidade do autor  poca. Todavia,  arriscado subestim-lo, 
mesmo quando nefito, e Joana, embora personagem um tanto ou quanto mal definido, estranhamente, toma-se memorvel. Por que no ser, a um s tempo, prostituta diablica 
e lder poltico-militar dotada de uma genialidade primitiva? Estrilada e geniosa, ela consegue alcanar os seus objetivos - e ser tachada de feiticeira e queimada 
viva por brutamontes ingleses no h de levar pessoa alguma a atitudes bem-educadas. A jovem vociferante tem seu charme, ainda que ranoso, e, com toda certeza, 
mais apelo do que o protagonista, o bravo - e entediante - Talbot. Joana  uma virago, guerreira mais astuta do que o valento Talbot, e, devidamente encenado, seu 
personagem causa grande impacto. Quem gostaria que ela fosse impecavelmente virtuosa, como as amazonas que, hoje em dia, gratificam o sadomasoquismo masculino nos 
seriados de tev? No  que Shakespeare seja ambivalente com relao a Joana,- ele est, na verdade, interessado em explorar o personagem: ela quer vencer, e se 
a vitria advir do campo de batalha ou da cama  secundrio. Moralismo, sempre fora da viso dramtica de Shakespeare, na Primeira Parte de Henrique VI, aparece
como preconceito nacionalista. Para os franceses, Joana  a reencarnao de Dbora, a profetisa-guerreira da Bblia,- para os ingleses, est condenada a ser Orce.
Em termos prticos, que diferena faz, Shakespeare sugere, uma vez que ambos os disfarces so extremamente expressivos, a ponto de ofuscar todos os personagens masculinos, 
inclusive Talbot? Nesse aspecto, divirjo de Leslie Fieder, que escreveu: "Tudo em Joana D"Arc irrita Shakespeare". J no incio da carreira, Shakespeare no manifesta 
qualquer hostilidade a seus personagens: a Joana por ele criada possui uma comicidade, uma graa, que perturba,- s vezes, Joana satiriza muito bem a vaidade militar 
masculina. Sua ironia chega a ser rude, cruel, embora sempre eficaz do ponto de vista dramtico e, ainda que seja queimada pelos ingleses enfurecidos,  o seu esprito, 
e no o do bravo Talbot, que triunfa.  difcil, para ns,
76
HENRIQUE  VI
detectarmos todos os nveis da ironia de Shakespeare. A Joana por ele criada no passa de uma caricatura tosca, se comparada  grandeza humana de Falstaff; contudo, 
Joana, de certa maneira, pressagia o desprezo total que Falstaff sente pelo Tempo e pelo Estado.
Os que acham ter Shakespeare denegrido a imagem de Joana D"Arc devem consideraro quanto a Primeira Parte de Henrique VI seria inadequada sem tal personagem. Joana 
sai de cena praguejando (moderadamente), mas  ela, e no Talbot, o centro da pea. O valente capito perece, tendo nos braos o corpo do filho e gal, mas Shakespeare 
fracassa nas ltimas palavras que lhe atribui:
TALBOT
Nestes braos
o colocai,- disponho s de escassos momentos,- suportar no me  possvel, por mais tempo esta vida incompreensvel. Adeus, meus companheiros,- ora alcano quanto 
almejar pudera: no remanso destes braos concede-me a ventura que achar possa meu filho a sepultura.
[IV.vii.]
A inteno aqui seria, presumivelmente, o patbos herico. Mas, ou Shakespeare no se comovia com Talbot, o que  provvel, ou ainda no aprendera a expressar um 
afeto to paradoxal. O Rei Henrique VI toma-se uma figura autenticamente pattica, e nada herica, na Segunda e na Terceira Parte, mas, na Primeira, sua piedade 
e sua decncia quase infantil so apenas insinuadas, pois ele pouco aparece no palco, e, quando o faz, no passa de um pressgio de desastre. A Segunda Parte  salva 
pelo quarto ato (a partir da segunda cena), que mostra, de uma maneira muito viva, a rebelio de Jack Cad. Insurreies polticas horrorizavam Shakespeare, mas, 
tambm, davam-lhe asas  imaginao. A comdia contida nas cenas de Cad  digna de Shakespeare, aproximando-se tanto do pesadelo como da representao realista:
77
#HAROLD  BLOOM
CAD
Sede bravos, portanto, que o vosso capito  valente e vai proceder a uma reforma geral. De futuro, sete pes de meio pni sero vendidos apenas por um pni,- as 
canecas de trs aros passaro a conter dez, sendo considerado felonia beber cerveja fraca. Todo o reino ficar sendo propriedade comum e o meu palafrm ir pastar 
em Cheapside. Quando eu for rei... Sim, porque hei de ser rei...
TODOS
Deus guarde Vossa Majestade!
CAD
Obrigado, bom povo!... no haver necessidade de dinheiro,- todo mundo h de comer e beber  minha custa. Farei que todos usem uniforme, para que se comportem como 
irmos e me honrem como a seu senhor.
DICK
A primeira coisa que devemos fazer  matar os magistrados.
CAD
Est no meu programa. Pois no  lamentvel que a pele de uma ovelha inocente sirva para fabricar pergaminho e que esse pergaminho, uma vez garatujado, possa matar 
uma pessoa? Dizem que a abelha d ferroadas, mas eu afirmo que  a cera da abelha que o faz, porque j me aconteceu selar alguma coisa uma s vez, sem nunca mais 
poder ser dono de mim mesmo. Mas, que  isso? Quem vem l?
(Entram alguns homens, trazendo o escrivo de Cbatbam.)
SMITH
O escrivo de Chatham. Ele sabe ler, escrever e contar.
CAD
Oh monstro!
SMITH
Surpreendemo-lo, qu"ndo preparava cpias para crianas.
CAD
Miservel!
78
HENRIQUE  VI
SMITH
Traz no bolso um livro com letras encarnadas. CAD
Ento  feiticeiro.
[2 Parte IV.ii.]
Em Jlio Csar, a turba enforca Cina, o poeta, por causa de seu nome e de seus versos ruins,- aqui, enforcam magistrados e qualquer indivduo letrado. "Enforcai-o 
e pendurai-lhe a pena e o tinteiro ao pescoo", ordena Cad, e o pobre escrivo  conduzido  forca. O grande lema de Cad : "Mais estaremos em ordem, quanto maior 
for a desordem", incrvel antecipao do slogan anarquista de Bakunin: " criativa a paixo pela destruio". Shakespeare concede a Cad um momento de glria durante 
a invectiva dirigida a Lorde Say, antes de este ser decapitado e ter a cabea espetada em um poste:
CAD
[...] Corrompeste traioeiramente a mocidade do reino com a criao de uma escola de gramtica,- e enquanto os nossos pais no dispunham de outros livros alm do 
giz e da talha, foste causa de se introduzir a imprensa e de se construir uma fbrica de papel, com prejuzo do rei, da coroa e da dignidade. Vamos provar em tua 
cara que tu te serves de pessoas que falam a toda hora em nome de verbo e outras palavras abominveis, que ouvidos cristos no podem suportar. Criaste juizes de 
paz para intimarem as pessoas pobres a comparecerem  sua presena, a fim de tratarem de questes de que elas no entendiam coisa alguma. Puseste-as na priso e 
as mandaste para a forca, por elas no saberem ler, quando, s por isso, mereciam viver muito mais tempo.
[2S Parte IV.vii.]
"Verbo", bem como "escola de gramtica", garantiam o "benefcio do clero" aos que sabiam ler latim, os quais, em caso de priso (conforme ocorreu com Ben Jonson), 
teriam imunidade contra enforcamento e
79
HAROLD BLOOM
1
tortura. Shakespeare, por mais avesso que fosse a rebelies, sente tamanha simpatia dramtica por Cad que atribui ao rebelde, em seus instantes finais, uma fala 
mais eloqente do que a de Talbot, ao agonizar:
CAD
[...] Resseca-te, jardim! Doravante fica sendo o cemitrio de todos os moradores desta casa, por se ter evocado neste ponto a alma invencvel de Cad.
[2a Parte IV.x.]
Jack Cad representa para a Segunda Parte o que Joana D"Arc representa para a Primeira-, aquilo que  memorvel. O pobre Rei Henrique VI e sua esposa, a adltera 
e irada Rainha Margaret, merecem ateno apenas quando ela o repreende: "Do que sois feito? No lutareis nem fugireis". Os defensores da causa York, at o monstruoso, 
futuro Ricardo in, mal podem ser distinguidos dos legalistas. O quadro  alterado na Terceira Parte, que carece de personagens como Joana, ou Cad, mas que, ainda 
assim, a meu ver,  a melhor das trs peas (Samuel Johnson preferia a Segunda). O fator preponderante  Ricardo (Duque de Gloster); os demais compem uma harmonia 
retrica  Ia Marlowe, inclusive o queixoso Rei Henrique, enquanto o corcunda sinistro propicia-nos uma reviso de Marlowe, alcanando um tom mais pessoal: ,
GLOSTER
[...] e eu me vejo qual pessoa
que num bosque de espinhos se encontrasse,
quebrando, a um tempo, espinhos, e por eles
sendo quebrado, a procurar caminho,
mas dele cada vez mais se afastando,
sem saber como possa obter ar puro,
sempre enleado a lutar em desespero:
desta arte eu me atormento, s com o fito
de apanhar a coroa da Inglaterra.
Hei de livrar-me, afim, deste martrio, <-,        - v
muito embora precise abrir caminho i
"o
#HENRIQUE VI
corn um machado sangrento. Sim, que eu posso
vir a matar, matar, enquanto rio,
gritar Viva!" ao que o peito me compunge,
banhar o rosto com fingidas lgrimas
e adotar aparncia condizente
corn qualquer situao. Mais marinheiros
afogarei no mar do que sereia,-
sem vida you deixar muito mais gente
que me olhar, do que o prprio basilisco,-
mostrarei a eloqncia de Nestor,-
como Ulisses, serei astuto e fino,-
qual Sino, ganharei mais uma Tria.
Ao camaleo eu posso emprestar cores,
muito mais que Proteu mudar de formas,
ao prprio Maquiavel servir de mestre.
Posso tudo isso e no consigo o trono?
Ora, ho de ver que dele eu you ser dono.
[3a Parte III..]
Nesses versos, ainda podemos ouvir Barrabs, o judeu de Malta criado por Marlowe, que perdura no "Maquiavel" de Ricardo in, mas as hiprboles expressam uma verve 
cognitiva maior do que a que Shakespeare atribui aos insultos pronunciados pela Rainha Margaret, que, alis, est nas raias da loucura. Ricardo possui um fascnio 
terrvel - desde que permanea no palco ou na pgina. A chacina de que o Rei Henrique VI  vtima, na Torre de Londres,  perpetrada por Ricardo, com requintes, 
em seguida, gratificando-nos com a profecia paga sobre seu destino:
GLOSTER
[...] eu, que no tenho piedade e desconheo o amor e o medo. Sim,  verdade tudo quanto Henrique disse de mim, que muitas vezes, lembra-me,
81
#HAROLD BLOOM
me contou minha me que eu vim ao mundo i
corn as pernas para a frente. No me assiste 
razo - que pensais disso? - de mostrar-me l
diligente em causar a runa a quantos
procurem usurpar nosso direito?
A parteira espantou-se,- prorromperam
as mulheres em grita: "Deus nos valha!
Nasceu com os dentes!1 E assim foi, de fato, "
prova segura de que eu rosnaria,
morderia, e seria em tudo um co. <
l
J que me fez o cu assim disforme, .  ,|
tora-me o inferno o esprito tambm. i
No tenho irmos,- de irmo sou diferente. i
Esta palavra "Amor", que os barbas-brancas ,
!
chamam divina, pode ter guarida }
nas pessoas que em tudo se assemelham,
mas no em mim, que eu sou sozinho-, eu prprio.
Clarence, tem cuidado! Tu me roubas
a luz, mas eu me incumbo de aprestar-te
um dia de caligem. com tal jeito
espalharei no reino profecias,
que Eduardo h de mostrar-se receoso
de vir a falecer. Para cur-lo
do medo, eu para ti you ser a morte. f
Mortos j esto o Rei Henrique e o filho. "
Clarence, a tua hora se aproxima. l
Depois, vir a dos outros. S me agrada
ser no reino o primeiro- ou isso, ou nada.
you te mudar, Henrique, de aposento
e rir-me de tua sorte a meu contento. !
[3a Parte V.vi.]
O lema do corcunda - "eu sou sozinho-, eu prprio" - encerra, no meu entender, a justificativa central das peas do ciclo Henrique VI, que,
#HENRIQUE VI
hoje em dia, sobrevivem apenas da trade Joana, Jack Cad e Ricardo, os trs, exerccios shakespearianos de representao do mal, os trs, divertidos comediantes. 
A pea Ricardo in, tanto nos pontos fortes como nos fracos, deve sua energia, seu brilho, ao laboratrio constitudo pelas trs partes de Henrique VI. Tal justificativa 
 mais que suficiente para a imerso feita por Shakespeare na Guerra das Rosas.
83
#REI JOO
A pea Vida e Morte do Rei Joo pode ter sido escrita j em 1590, ou em 1595, ou somente em 1596. Diante do constante surgimento de evidncias de que Shakespeare 
era, igualmente, prolifero autor e revisor de suas peas, acredito que tenha escrito Rei Joo em 1590, revisando-a, radicalmente, em 1594-95, e resgatando-a atravs 
da revitalizao do retrato de Faulconbridge, o Bastardo, filho natural do Rei Ricardo Corao de Leo. O que hoje reconhecemos como "personagem shakespeariano" 
no tem incio em uma caricatura  Ia Marlowe, como Ricardo in, mas em Faulconbridge, que, em Rei Joo, fala uma linguagem inteiramente individualizada, combina 
herosmo e intensidade cmica e possui uma psique. Mas nem mesmo Faulconbridge  capaz de salvar Rei Joo, pea de altos e baixos, em que Shakespeare luta contra 
a influncia de Marlowe, vencendo-a somente quando Faulconbridge fala. Embora seja apenas um bom esboo, se comparado ao Hamlet de
1601, o Bastardo possui uma qualidade comum a Falstaff e Hamlet: ser maior do que a prpria pea na qual est inserido. Muitos leitores podem achar que o filho natural 
de Ricardo Corao de Leo merece um texto superior, bem como um rei melhor que seu tio, o desventurado Joo. Quanto a mim, romntico inveterado (meus oponentes 
diriam, um sentimentalista), gostaria de ver Falstaff, ao final da Segunda Parte de Henrique IV, esquecer o ingrato Prncipe Hal e sair de cena, todo faceiro, dirigindo-se
 floresta de Arden, na pea Como Gostais. E Hamlet, sem
84
REI  JOO
dvida, merece vida e morte melhores do que lhe so possveis em Elsinore, sob o domnio de Cludio A grandeza do Bastardo no  da mesma ordem que a de Falstaff 
ou de Hamlet, mas  autntica o bastante para reduzir a estatura de todos os outros personagens de Rei Joo.
J existe um toque da espirituosidade e da irreverncia de Falstaff em Faulconbridge,- trata-se do primeiro personagem, em Shakespeare, capaz de nos encantar, de 
mexer conosco, especialmente porque nenhum personagem anterior  retratado de maneira to individualizada. No ser exagero afirmar que o Bastardo, em Rei Joo, 
deflagra a inveno do humano realizada por Shakespeare, assunto central deste livro. O que teria possibilitado a surpreendente realidade (ou iluso de realidade) 
de Faulconbridge? Os demais personagens em Rei Joo, inclusive o prprio Rei, ainda apresentam as marcas da retrica inflada de Marlowe. com Faulconbridge, tem 
incio o mundo do prprio Shakespeare, e tal originalidade, por mais difcil que seja hoje identific-la, tomou-se norma de representao de personagens fictcios.
O fato de o Bastardo no ser figura histrica, sendo desenvolvido por Shakespeare a partir de uma referncia encontrada nas crnicas de Holinshed, vem bem a calhar. 
Alguns contemporneos de Shakespeare, inclusive Ben Jonson (o mais proeminente de todos), atribuam-lhe a capacidade de representao tanto  sua natureza quanto 
 sua arte. Viram, em Shakespeare, algo semelhante quilo que nele, ainda hoje, reconhecemos, e, ao denominarem esse algo "natureza", profetizaram nosso maior tributo 
a Shakespeare, uma vez continuamos considerando os personagens de Shakespeare mais naturais do que os idealizados por qualquer outro autor. A linguagem shakespeariana 
vai alm de representar a natureza com acuidade. Mais que isso, reinventa a natureza, de tal maneira, segundo a brilhante observao de A. D. Nuttall, que nos permite 
contemplar no carter humano algo que, sem dvida, o mesmo sempre conteve, mas que jamais teramos enxergado se no tivssemos lido Shakespeare ou assistido a boas
montagens de suas peas (oportunidades essas cada vez mais raras, pois os diretores, infelizmente, tm seguido as deixas dos crticos em voga).
Faulconbridge  o nico bom bastardo em Shakespeare, ao contrrio de Dom Joo, em Muito Barulho por Nada, Tersites, em Trilo e Crssida, e
85
#HAROLD   BLOOM
o sublime e terrvel Edmundo, em Rei Lear. E mais que adequado que o primeiro personagem autenticamente "natural" em Shakespeare seja um filho natural de Ricardo 
Corao de Leo, heri do folclore ingls. Faulconbridge, dotado de um corao de leo, vinga o pai, ao matar o Duque da ustria, que colocara o rei e cruzado ingls 
frente a frente a um leo. Existe consenso entre os estudiosos quanto ao motivo do apelo que Faulconbridge exerce sobre o pblico ingls: o fato de o personagem 
possuir tanto sangue real quanto plebeu, este por parte da me, seduzida pelo Rei Ricardo I. Assim, em Rei Joo, o Bastardo representa todas as virtudes populares: 
lealdade  monarquia, coragem, franqueza, honestidade, bem como a determinao de no se deixar enganar, seja por prncipes estrangeiros, seja pelo clero domstico, 
seja pelo papa e seus agentes. Embora Shakespeare faa o Bastardo jurar venerao ao maquiavelismo autocentrado, nem Faulconbridge nem o pblico acredita na exasperada 
declarao. A auto-revelao do Bastardo ocorre na primeira cena do primeiro ato, aps haver trocado a identidade de Philip Faulconbridge, herdeiro das modestas 
terras que pertenciam a seu suposto pai, pela de Ricardo Plantageneta, sem terras, mas filho do verdadeiro pai, o semideus, Ricardo Corao de Leo:
O BASTARDO
[...] Sou agora um p de honra mais do que antes,
mas perdi muitos ps de terras boas.
Posso fazer senhora qualquer Joana.
"Bom-dia, sir Ricardo!" "Deus vos guarde!"
lhe respondo,- e se Jorge for seu nome,
Pedro lhe chamarei porque a nobreza
concedida de pouco troca os nomes
s pessoas,  indcio de respeito
na nova situao e de importncia.
Mas passemos agora  sobremesa,
que o nosso amigo, a palitar os dentes
se acha no meu lugar. Quando bem farto
sentir o nobre estmago, um pouquinho
86
REI JOO
chupo os dentes e digo ao elegante
provinciano: "Meu caro..." assim falando
me apoio ao cotovelo, deste modo:
"Peco-vos..." A Pergunta, agora,  tudo.
A resposta  igualzinha  da cartilha:
"Oh, meu senhor", diz a Resposta, "s vossas
ordens,- em tudo vosso, caro amigo!"
"No", retruca a Pergunta, "eu  que em tudo
me acho ao vosso dispor". E assim, muito antes
de saber a Resposta o que deseja
dela a Pergunta, em cumprimentos toda
se desfazendo e a parolar, sem pausa,
do rio P, dos Alpes e Apeninos
e at dos Pireneus, espicha a sua
concluso at a mesa levantar-se.
Mas isso  sociedade respeitvel
que diz bem com um esprito elevado
como o meu, pois no passa de um bastardo
do tempo quem no tem faro aguado
para sentir o alto valor das formas -
alis bastardo eu sou de qualquer jeito -
no somente o que diz respeito aos traos
exteriores, s vestes e  conduta,
como tambm quem no gerar veneno
desde o ntimo, bem doce, muito doce,
para o gosto do tempo, o que hei de logo
procurar aprender, no com o intuito
de enganar, mas to-s como defesa,
Para aliviar-me o esforo da subida.
[I.i.]
" Vida e Morte do Rei Joo e A Tragdia do Rei Ricardo II Traduo de Carlos Alberto Nunes Volume XVI So Paulo Edies Melhoramentos, s d Todas as citaes referem-se 
a essa edio. [N.T.]
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Sigo Harold Goddard, ao reconhecer a empreitada do prprio Shakespeare, como poeta e dramaturgo, no lema do Bastardo:
[...] gerar veneno
desde o ntimo, bem doce, muito doce, para o gosto do tempo, o que hei de logo procurar aprender, no com o intuito de enganar, mas to-s como defesa [...]
A palavra "veneno" aqui no expressa bajulao, mas uma verdade, e tanto o Bastardo quanto Shakespeare reafirmam no pretenderem ser enganados. Quanta Literatura 
Inglesa decorre desse monlogo do Bastardo! Nessas palavras, podemos ouvir, profeticamente, Swift, Sterne, Dickens, Browning e uma grande tradio que ainda reverbera 
no sculo que ora termina. O humor de cunho social do Bastardo, originrio em Shakespeare (esse solilquio jamais caberia em uma pea de Marlowe), pode ser considerado 
o fator responsvel pela inveno do ingls com sensibilidade satrica, especialmente aquele, de natureza reservada, que, aps se ausentar do pas, regressa como 
um observador atento, que no se ilude. Nenhum personagem shakespeariano anterior a Faulconbridge fala com tanto mpeto, ou com uma voz to cortante. O que o toma 
to impressionante  o fato de Faulconbridge, mais do que Talbot, em Henrique VI, ser o primeiro grande capito criado por Shakespeare, um soldado que prenuncia 
Otelo, em sua grandeza antes da queda. "Embainhai vossas armas reluzentes, / para que no as embacie o orvalho", basta Otelo afirmar, para acabar com uma briga 
de rua. Essa voz de autoridade  prenunciada, quando o Bastardo diz a um nobre que, impulsivamente, saca a espada: "Vossa espada reluz, senhor, guardai-a".
Retorno  pergunta inicial: o que teria possibilitado a Shakespeare o salto criativo que observamos na concepo de Faulconbridge? Ben Jonson, rival, embora amigo 
e colega (como ator e dramaturgo), no tributo potico que lega a Shakespeare no Flio de 1623, diz que a prpria natureza orgulhava-se dos feitos do poeta, referindo-se 
no apenas aos seus dotes naturais, mas  sua capacidade de criar uma grande
REI  JOO
metfora, como em Conto do Inverno-, "uma arte que  a prpria natureza". O Bastardo, em si,  a natureza, alm de extremamente artstico, deveras teatral. Quando 
a cidade de Angers reprime tanto o exrcito do rei da Inglaterra quanto o do rei de Frana, Faulconbridge resume a situao de uma maneira que Shakespeare haver
de explorar com crescente argcia:
 reis! Essa canalha est zombando
de todos vs! Postados nas ameias
dos muros, como em teatro, sem correrem
perigo algum, criticam calmamente
vossas cenas sutis e atos de morte.
[H.i.]
Nenhum personagem shakespeariano anterior a Faulconbridge  assim to teatral, fator que confere  crueldade egocntrica do Barrabs, de Marlowe (reiterada em Aaro, 
o Mouro, e em Ricardo in), um efeito metateatral, um confronto entre ao e ator que, simultaneamente, destri e constri a iluso. Mas Tamerlo e Barrabs participam, 
continuamente, da ao, ao mesmo tempo em que se vangloriam de suas vitrias,- o Bastardo entra e sai da ao, observando-a e sobre ela refletindo.
Os protagonistas shakespearianos que sucedem a Faulconbridge (Ricardo II,Julieta, Merccio, Bottom, Shylock, Prcia) abrem caminho para Falstaff, ao manifestarem 
uma intensidade que excede, em muito, seus contextos dramticos. Todos deixam transparecer uma potencialidade que as respectivas peas em que se encontram no lhes 
exigem desenvolver. Podemos vislumbrar o Bastardo como rei, uma vez que nenhum outro personagem em Rei Joo comporta-se de acordo com a realeza. Ricardo II poderia 
ser um poeta metafsico,- a vitalidade de Merccio merece ser expressa alm da vulgaridade,- a pacincia de Bottom, incrivelmente bem-humorada, quase sobrenatural, 
seria capaz de tecer um sonho ainda mais intrincado,- a determinao desesperada de Shylock no sentido de revidar insultos poderia gerar mais do que
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uma farsa malvola, caso se afastasse da literalidade,-Julieta e Prcia requerem amantes mais  sua altura do que Romeu e Bassnio. Em vez de encaixar o papel na 
pea, o Shakespeare do perodo ps-Marlowe cria personalidades que jamais poderiam ser acomodadas em seus papis: o excesso as distingue, no como hiprboles ou 
heris inverossmeis, como em Marlowe, mas como espritos incontidos, com mais significado do que a soma de seus feitos. Entre tais personalidades, Falstaff  o 
primeiro ponto culminante, em decorrncia do domnio absoluto que exerce sobre a linguagem,- porm, j a partir do Bastardo essas personalidades possuem uma marcada 
eloqncia pessoal que prenuncia criaes futuras: "artistas livres de si mesmos" (conforme Hegel se refere aos personagens shakespearianos), capazes de causar a 
impresso de que so eles prprios os autores das peas em que esto inseridos. Quando nos confrontamos com Hamlet, lago, Edmundo, Lear, Macbeth e Clepatra, jamais 
sabemos, ao certo, se os mesmos no estariam levando o processo de criao, i.e., de autocriao, para alm dos limites que Shakespeare parece lhes estabelecer. 
Transgressores das determinaes sociais, fazem crer que os enredos so arbitrrios, ao passo que as personalidades, por mais demonacas, so transcendentais, tradas, 
em primeiro lugar, por algo que vem de dentro. Partem de um ponto no seu interior, embora nem sempre consigam retornar ao seu prprio ntimo. E jamais sero submetidos 
ao destino,- so mais, muito mais, do que os eventos que os cercam. Possuem uma substncia que sobrevive,- os grandes protagonistas shakespearianos tm almas imortais.
O personagem Rei Joo conta com o apoio de poucos crticos. Entre os defensores, o mais ferrenho  E. A. J. Honigmann, que desmerece Faulconbridge, o Bastardo, 
para elevar o status de Joo como protagonista. Na leitura de Honigmann, Joo  um poltico astuto, que procura descobrir o preo de cada indivduo, para, em seguida, 
tentar compr-lo,- demonstra uma "paixo incontrolvel, alm de mente gil e ardilosa". H que se concordar com a observao perspicaz de Honigmann, de
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REI  JOO
que esses irreconciliveis elementos psicolgicos, devidamente encenados, fazem de Joo um "quebra-cabea, uma surpresa" para o pblico.
Contudo, Joo constitui um quebra-cabea frustrante e uma surpresa desagradvel: poderamos situ-lo em um ponto central, entre a Rainha Eleonor, me terrvel e 
irada (caricatura de personagens de Marlowe), e o Bastardo, exuberante, dotado de um interior shakespeariano.
O interesse especial que Joo teria suscitado junto ao pblico contemporneo de Shakespeare decorre das aluses ambguas feitas pelo Rei aos dilemas polticos enfrentados 
pela Rainha Elisabete. Artur, sobrinho de Joo, era herdeiro legtimo de Ricardo Corao de Leo, assim como Maria, Rainha dos Escoceses, podia ser considerada sucessora 
do Rei Henrique VIII, aps os breves reinados dos irmos de Elisabete (por parte de pai), Eduardo VI e Maria. Paralelos entre o Rei Joo e a Rainha Elisabete, sem 
dvida, podem ser traados: excomunho papal,- uma armada estrangeira posicionada para atacar a Inglaterra,- at conspiraes, da parte de nobres ingleses, contra 
monarcas que teriam "usurpado" o trono, os quais as foras invasoras pretendem executar depois que os seus prprios objetivos tiverem sido alcanados.
Qualquer comparao, por mais sutil, entre o infeliz Joo e Elisabete era algo temerrio, e Shakespeare era por demais circunspecto para exagerar nos paralelos. 
A Armada Espanhola foi derrotada, vindo a ser destruda por uma tempestade nas Ilhas Hbridas, no vero de 1588,- em
1595, correm rumores por toda Londres de que uma nova Armada estava sendo preparada em Lisboa. Portanto, circunstncias externas por si s no bastam para determinar 
se a data provvel de composio de Rei Joo - "a pea sobre a Armada" - teria sido 1590, em vez de 1595. Concordo com Peter Alexander e Honigmann, quando afirmam 
ser o Rei Joo, de Shakespeare, a fonte - no o resultado - da pea intitulada Tbe Troublesome Raijne of John King oj England (1591), obra annima, com caractersticas 
mais marlovianas do que a prpria Rei Joo.
Ainda que,  poca de Shakespeare, Rei Joo fosse um sucesso junto ao pblico, a recepo da pea atravs dos sculos tem sido instvel. Honigmann especula que, 
nas primeiras montagens, pelas companhias de Lord Strange e do Lord Admirai, Edward Alleyn (o Tamerlo, de
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Marlowe) fazia o papel de Joo e Richard Burbage (mais tarde, o Hamlet, de Shakespeare) atuava como Faulconbridge, o Bastardo A melhor produo de Rei Joo a que 
tive oportunidade de assistir foi em Stratford-upon-Avon, em 1948, com Anthony Quayle, no papel do Bastardo, e Robert Helpmann, como Joo. Embora Rei Joo (por 
causa do Bastardo) seja, a meu ver, bastante superior a Ricardo in (1592-93), no surpreende que a primeira seja, nos dias de hoje, alvo de um nmero muito menor 
de montagens do que a segunda, sempre popular. Existe em Rei Joo uma anttese extremamente curiosa, um grande contedo marloviano, exagerado, e um contedo sutil 
e memorvel, ainda maior. Associo esse mistrio de Rei Joo ao maior mistrio relativo a Shakespeare: o primeiro Hamlet, que no sobreviveu ao tempo, e aqui sigo 
Peter Alexander, que acredita ser do prprio Shakespeare essa obra "perdida" (na verdade, parcialmente presente nos textos da verso final de Hamlet). O mistrio 
encerrado em Rei Joo sugere a natureza do complexo aprendizado de Shakespeare junto a Marlowe, a nica influncia que chegou a pesar sobre o maior, o mais original 
de todos os escritores.
Um defeito freqentemente apontado em Rei Joo  o fato de o texto parecer conter duas peas distintas, a primeira incluindo os trs primeiros atos, a segunda, os 
dois ltimos. Analisando a questo, John Blanpied, com propriedade, qualifica o Bastardo, no decorrer dos trs primeiros atos, como um improvisador satrico que, 
assim sendo, humaniza o drama. Mas no mundo catico dos dois ltimos atos, Joo desmorona, numa espcie de histeria, e o Bastardo parece perdido, confuso, embora 
sempre valente e leal a Joo. Blanpied deixa de constatar que Shakespeare sugere que o sentimento do Bastardo com relao a Joo (seu tio) , essencialmente, filial, 
reiterando os padres da relao entre Joo e Eleonor (me terrvel), cuja morte contribui para o colapso de Joo. Quando os dois papis principais so devidamente 
interpretados, a meu ver, nenhum dos dois diminui, em termos de fora ou de interesse, nos dois ltimos atos,- alm disso, no meu entender, a diviso
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REI  JOO
da pea em duas partes, embora estranha, no chega a constituir uma falha. O encanto de Faulconbridge  menor na segunda parte da pea, mas a sua introspecco (conforme 
demonstro abaixo) aumenta  medida que o personagem  se torna sombrio. Faulconbridge inaugura um novo mtodo de caracterizao para Shakespeare, um mtodo que alcanar 
o ponto mximo na grandeza de Sir John Falstaff. No terceiro ato, diante de uma Angers sitiada, reagindo  dbia aliana estabelecida entre Joo e o Rei de Frana, 
o Bastardo pronuncia seu grande monlogo, um expressivo discurso sobre "o Interesse": o interesse mundano e o conchavo poltico:
Mundo louco! Reis loucos! Louca aliana! Para deter as pretenses, por junto, de Artur, de grado Joo cede uma parte,- a Frana, que com as armas da conscincia 
seria invulnervel e que o zelo cristo e a caridade transformaram
num soldado de Deus, impulsionando-a para o campo da luta, ouvidos presta a esse muda-projetos, a esse diabo manhoso, o alcoviteiro que transforma \
"      no contrrio a lealdade, jura falso
cem vezes por minuto e ganha sempre
de todos, de mendigos, reis, mancebos,
raparigas e ancies, e que, no caso
de no ter a perder mais coisa alguma
seno o termo Virgem", burla as virgens/
esse senhor de to macio rosto,
o Interesse insinuante e adulador,
sim, o Interesse, a rampa em que desempenha,
sem se deter, o mundo, que em si mesmo
revelava equilbrio e que rolava
lisamente em terreno sempre plano
at que esse proveito, essa ladeira
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viciada, esse fautor de movimento,
o Interesse, o tirasse do equilbrio,
de toda a direo, projeto e intento!
E esse mesmo pendor, esse Interesse,
esse alcaiote tecedor de intrigas,
palavra que transforma tudo a todos
os momentos, lanado contra os olhos
da Frana to volvel, fez que logo
desistisse do auxlio que ela prpria
decidira prestar e de uma guerra
principiada com honra, para, agora,
concluir uma paz vil e infamante.
Por que cubro de injrias o Interesse?
To-somente por no me ter ainda
conquistado.  certeza: eu no teria
coragem de fechar a mo, se, acaso,
se dispusessem seus bonitos anjos
a me cumprimentar. No tendo sido
tentada ainda, ela  como a dos pobres
mendigos que os ricaos vitupera.
Pois o mesmo farei, enquanto pobre:
no h pecado como o da riqueza,
direi ento,- mas quando ficar rico,
direi ser a misria o nico vcio.
Se a ambio, entre os reis,  quase uma arte,
Interesse, s meu deus: quero adorar-te.
[Il.i.
Na verdade, o Bastardo no adorar o Interesse, mas continuar a "gerar veneno / desde o ntimo, bem doce, muito doce, / para o gosto do tempo",- contudo, a partir 
daquele momento, a sombra do "Interesse" comea a obscurecer-lhe a exuberncia. Enviado por Joo a saquear os monastrios ingleses, o Bastardo canta:
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REI JOO
Sinos, livros e velas fora alguma tero para impedir que eu me aproxime, quando o ouro e a prata o invite me fizerem.
[Ill.ii.]
No temos aqui Faulconbridge em um de seus melhores momentos, mas quem, em Rei Joo, exceto o pobre Artur, vale a preocupao do Bastardo? Sabiamente, Harold Goddard 
compara as idias de Faulconbridge sobre Interesse s do prprio Shakespeare sobre Tempo e Poltica, em dois sonetos magnficos, o 123 e o 124. O soneto 124, em 
particular, parece mesmo um comentrio sobre o desafio que o Bastardo faz ao oportunismo:
Fosse este amor s filho do poder
E a M-Fortuna um rfo sem apoio
O faria, que o tempo em seu volver
Rene flor  flor e joio ao joio.
Mas meu amor no se fez de acidentes
E a pompa no no altera e no balana
Aos golpes do desgosto mais premente
A que o tempo convida a nossa usana:
No usa de cautelas - heresia
Que em to escassas horas se desfolha,-
Sua poltica de altaneria
Calor no dilata, chuva no molha.
E o que nos tolos do tempo se exprime:
Que morrem mrtires, mas vm do crime.*
A exceo do Bastardo e do inocente Artur, todos, em Rei Joo, so "tolos do tempo", onde "tolos" significa Vtimas". Por mais desesperado que Joo (dominado pela 
me) esteja, no ser ele (nem as duas
Wdiam Sbakespeare- Sonetos. Traduo e Notas de Jorge Wanderley  Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1991, p. 279. [N.T.]
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enlouquecidas rainhas - Eleonor e Constana) o maior tolo do tempo na pea. O ttulo caber ao Cardeal Pandolfo, legado do papa, precursor do Ulisses de Trilo e 
Crssida e, mais ainda, de lago. Shakespeare faz com que Pandolfo se oponha ao pblico toda vez que fala, mas  Pandolfo, o alto sacerdote do Interesse e da Poltica, 
quem triunfa nessa pea. No  que o Bastardo seja derrotado, mas a morte do menino Artur, e a imensa, desvirtuada fraqueza de Joo, ao final, abalam esse personagem, 
exuberante exemplo entre as primeiras invenes que Shakespeare faz do humano:
HUBERT
f...] Como te chamas?
O BASTARDO
Como o queiras. Se for do teu agrado,
podes dar-me o prazer no despiciendo
de pensar que o destino, em linha reta,
ao dos Plantagenet ligou meu sangue.
[V. v,.]
Essa afirmao indireta de identidade em nada condiz com Faulconbridge, cuja certeza de ser filho natural de Ricardo Corao de Leo  sempre celebrada com veemncia. 
Mas amar Joo como rei e pai tem um preo: Joo no  o "queridinho da mame", no sentido herico de Coriolano. Antes,  um traidor covarde, mesmo se levarmos em 
conta a avaliao elogiosa de Honigmann, que reconhece em Joo um poltico habilidoso. Hoje em dia, os historiadores invocam Joo apenas por ter aceito a Magna Caria 
que lhe impuseram os bares, fato de to pouco interesse para Shakespeare que  simplesmente omitido. Na verdade, o Joo criado por Shakespeare, praticamente, abdica 
em favor do Bastardo, quando, no momento mais difcil, delega ao sobrinho todos os poderes para lutar contra os franceses e os nobres ingleses rebeldes, dizendo: 
"Assume a direo deste momento". O maior tributo ao valente Faulconbridge surge do desespero de Salisbury, um dos rebeldes:
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REI  JOO
Faulconbridge,
esse diabo, a despeito do despeito,
sozinho,  o sustentculo do dia.
[V.iv.]
Em circunstncias adversas, quase sozinho, o Bastardo preserva a glria de seu pai verdadeiro, o Corao de Leo. Shakespeare conclui a pea com um patritico toque 
de clarim, por assim dizer, executado pelo Bastardo,- o chamado reverbera contra a msica fnebre de Joo, que soa, de maneira memorvel, a partir da agonia fsica 
do envenenamento:
Envenenado, doente, morto, esquecido, abandonado, tudo... E ningum manda vir o inverno e ordena na boca me enfiar a mo gelada, nem faz que os rios todos do meu 
reino venham banhar-me o seio afogueado, nem pede ao Norte que seus ventos frios os lbios ressequidos me umedeam e algo me reconfortem. No vos peo nada excessivo: 
um pouco s de frio. Mas to sovinas sois, alm de ingratos, que at mesmo esse pouco me negais.
[V.vii.]
Trata-se do nico momento em que Joo nos comove, embora, mesmo nessa hora final, Shakespeare nos distancie do patbos, uma vez que qualquer conforto que pudssemos
oferecer seria, igualmente, frio. O distanciamento contrasta com o grito de guerra do Bastardo, que
encerra a pea:
S paguemos ao tempo a indispensvel tristeza, por se ter antecipado
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demais  nossa dor. Esta Inglaterra nunca, jamais caiu sob o orgulhoso p de inimigo algum, seno no instante em que ela quis ferir o prprio seio. Mas agora que 
os prncipes voltaram, ainda que contra ns armados venham os trs cantos do mundo, saberemos defender-nos. Jamais teremos causa de pesar, se, na paz como na guerra, 
fiel a si mesma for, sempre, a Inglaterra!
[V.vii.]
No meu entender, em termos poticos, essa fala  superior  efusividade de Joo de Gaunt, ao louvar "esta ilha coroada", e de Henrique V, ao instar "os poucos, os 
poucos felizardos". Talvez eu esteja sendo levado pelo fato de gostar bem mais do Bastardo, Faulconbridge, do que de Gaunt, ou do traidor de Falstaff, mas afirmo 
que a imagem de ferir o prprio seio pertence a uma categoria mais elevada do que qualquer outra presente nas outras duas falas em questo. Em nvel literal, o Bastardo 
refere-se aos rebeldes que voltam a se submeter  autoridade real, mas a imagem, claramente, compreende a personalidade histrica e o carter dbio de Joo, pelo 
menos, segundo o julgamento de Shakespeare. O esprito de Christopher Marlowe ainda domina Rei Joo, e somente Faulconbridge escapa da preferncia de Marlowe pela 
extroverso. O prprio Joo , em parte, uma caricatura marloviana e, como tal, insatisfatria, incapaz de "gerar veneno / desde o ntimo, bem doce, muito doce, 
/ para o gosto do tempo".
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RICARDO in
Ainda sob a influncia de Marlowe, Shakespeare alcana grande sucesso com Ricardo in, imensamente superior  bombstica Henrique VI. Como melodrama, Ricardo in 
 de uma vitalidade espantosa, embora seja bem mais imperfeita do que a sua fama nos faa crer. Ricardo f pea; nenhum outro papel possui muita importncia, conforme 
Ralph Richardson parece haver constatado na bem-sucedida verso cinematogrfica de Laurence Olivier, em que Richardson fez o que pde com Buckingham, papel pouco 
gratificante. Clarence suscita algum interesse, mas o drama em questo est mais centrado na figura do heri-vilo do que qualquer outra criao de Shakespeare at 
1591, a menos que o primeiro Hamlet, de fato, j existisse  poca. Em Eduardo II, Marlowe parece querer tomar de volta o que lhe foi tirado em Henrique VI, sendo 
bastante difcil decidir se Ricardo in  pardia a Marlowe ou se Eduardo II  pardia a Shakespeare.
No sabemos ao certo, mas seria vivel a conjetura de que os dramaturgos rivais, conscientemente, trocavam influncias e sugestes. Relatos de encontros entre Marlowe 
e Shakespeare no sobreviveram, mas os dois devem ter se encontrado com freqncia, dividindo a liderana dos palcos londrinos, at o assassinato de Marlowe, a 
mando do governo, no incio de 1593. A personalidade de Marlowe deve ter assustado Shakespeare, assim como a de Ricardo in assusta o pblico,- Shakespeare no era 
nada violento, ao passo que Marlowe era agressivo e brigo,
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#HAROLD   BLOOM
agente de espionagem, uma espcie de mau elemento que nos faz lembrar Villon e Rimbaud, longe de serem pilares da sociedade Inclino-me a interpretar o Ricardo in 
de Shakespeare como mais uma pardia de Barrabs, o judeu de Malta, conforme Aaro, o Mouro, portanto, i e, mais um passo na direo do brilhante retrato de Marlowe 
(h muito ento falecido) como Edmundo, em ReiLear  possvel mesmo que Marlowe fosse dado  pardia mordaz, se  que podemos confiar no depoimento extrado de Thomas 
Kyd sob tortura (perpetrada por agentes do governo)
O certo  que Ricardo in  um mestre da pardia - faz pardia a Marlowe, s convenes cnicas e a si mesmo   Eis o segredo de seu irresistvel fascnio, o grande 
poder que o personagem exerce sobre o pblico e sobre os demais integrantes do drama no qual est inserido  uma mistura de fascnio e terror, elementos indistinguveis 
no sadomasoquismo em que o protagonista seduz Lady Anne, cujo pai e sogro ele mata O prazer sdico com que manipula Anne (e outros) advm de um exagerado naturalismo 
ctico, em nada comparvel ao de Montaigne, talvez, ao de Marlowe O ceticismo de Ricardo exclui a piedade, seu naturalismo nos toma feras Embora bem mais grosseiro 
do que lago e Edmundo, Ricardo  o precursor de ambos, especialmente, no constrangimento de seu triunfo O romance de mistrio intitulado The Dautjbter of Time (1951), 
de autoria de Josephme Tey, constitui til guia de estudo de um determinado aspecto da concepo de Shakespeare em Ricardo in, a saber, a imposio, em nosso imaginrio, 
da verso oficial Tudor da Histria Na narrativa de Tey, um inspetor da Scotland Yard acamado, com auxlio de um jovem pesquisador norte-americano, consegue absolver 
Ricardo dos crimes que lhe so atribudos, inclusive do assassinato dos jovens prncipes na Torre de Londres Tey argumenta muito bem em favor de Ricardo, e alguns 
historiadores confirmam as concluses da autora, mas, como ela prpria, implicitamente, reconhece, no se pode derrotar Shakespeare   Ricardo in ser   para sempre, 
um vilo encantador e Henrique VII (Richmond, na pea), um heri, um libertador, embora seja muito provvel que ele prprio tenha ordenado o assassinato dos prncipes 
na Torre  Como realizao dramtica (dentro dos seus prprios limites), Ricardo in no ser afetada por revises histricas, contu-
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RICARDO   in
do, vale a pena mencion-las porque os excessos de Shakespeare ao representar a maldade de Ricardo podem camuflar certas dvidas (irnicas) do prprio autor Shakespeare 
no contemplava a Histria a partir da perspectiva poltica de Sir Tomas Morus, de Hall, ou de Holmshed, muito menos atravs da tica dos atuais adeptos do histoncismo, 
mas segundo a posio de Sir John Falstaff Se imaginarmos Falstaff como autor de Ricardo in, no nos enganaremos demais Palavras como "dai-me vida" e "ento, isso 
 honra?" encerram a atitude extremamente sensata de Shakespeare, ao contemplar, com um sorriso nos lbios, os facnoras da realeza e da nobreza que infestam seus 
dramas histricos Falstaff, tanto quanto Shakespeare, aprecia folguedos e peas e, com prudncia, evita a insensatez que  a lealdade dmstica Jamais saberemos 
o que Shakespeare realmente achava da figura histrica de Ricardo in, a caricatura Tudor continha matria potica excelente, a ser utilizada com propsitos cnicos, 
e isso era mais que suficiente
A agitao de Ricardo e as caretas de jbilo com o seu prprio demonismo devem ser representadas de maneira infecciosa, ao contrrio da energia de lago, que, naturalmente, 
deixa-nos perplexos e assustados lan McKelIen, embora o melhor Ricardo in que vi no teatro, talvez, tenha desempenhado o papel com uma seriedade excessiva, representando 
o vilo-cmico como mescla de lago e Macbeth Ocorre que o Ricardo shakespeanano ainda  bastante marloviano, um mestre da persuaso verbal, e no um grande psiclogo 
ou um criminoso visionrio Esse Ricardo no possui qualquer dimenso interna, e quando Shakespeare tenta imbu-lo de uma ansiedade interior,  vspera da batalha 
fatal, o resultado  bathos potico e fracasso dramtico Acordando de um pesadelo, Ricardo no mais parece Ricardo, e Shakespeare tem dificuldade em representar 
a mudana
Outro cavalo, outro cavalo1 Os golpes me pensaii Meu Jesus, tende piedade" Devagar" Devagar" Foi tudo um sonho O conscincia covarde, tu me assustas1 Azul a chama
se acha,  meia-noite, hora mortal  Um suor frio escorre-me
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pelos trmulos membros. Como! Medo?
Medo de qu? No h ningum por perto.
Ricardo ama Ricardo/ eu sou eu mesmo.
Haver aqui dentro um criminoso?
No... Sim: eu prprio. Ento, foge depressa.
Mas, fugir de mim mesmo? Justifica-se:
poderia vingar-me. Como! Eu prprio
de mim tomar vingana? Amo-me muito.
Por qu? Por algum bem que eu me fizesse?
Oh, no! Antes me odeio, por odiosas
aes que eu pratiquei. Sou um miservel!
Minto,- no sou. No digas, tolo, coisas
feias de ti!  tolo, no te adules!
De mil lnguas distintas  dotada
minha conscincia,- uma por uma, as lnguas
contam uma histria  parte, e todas elas
me chamam miservel. O perjrio
em seu mais alto grau, crimes horrendos
em seu mais alto grau, todos os crimes
nos mais variados graus, me gritam do alto
do tribunal: Culpado! Criminoso!
Desespero,- criatura alguma me ama.
Se eu morrer, nenhuma alma h de chorar-me.
Alis, por que o fariam, se eu no tenho
piedade de mim prprio? Pareceu-me
que  minha tenda tinham vindo as almas
de quantos eu matei e que elas todas
prometiam lanar dura vingana
de manh na cabea de Ricardo.*
[V.iii.]
" A Tragdia ao Rei Ricardo in. Traduo de Carlos Alberto Nunes. Volume XX. So Paulo: Edies Melhoramentos, s.d. Todas as citaes referem-se a essa edio. [N.T.]
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RICARDO  in
No consigo me lembrar de qualquer outro trecho, nem mesmo no clamor entediante que predomina em Henrique VI, em que Shakespeare seja to inepto. Em breve, o autor 
de Ricardo in superaria Marlowe, mas, por ora, o mpeto de transformar uma caricatura falante em personagem dotado de introspeco psicolgica  expresso sem arte. 
Mesmo o verso "Ricardo ama Ricardo,- eu sou eu mesmo"  pssimo, e os seis versos seguintes, ainda piores. O fracasso peculiar desse trecho  difcil de ser descrito, 
mas a falcia da imitao no poderia ser melhor exemplificada. Supostamente, a disjuno da conscincia de Ricardo aparece refletida nas abruptas indagaes retricas 
e exclamaes, mas ator algum ser capaz de evitar que Ricardo parea um tolo, nesse rompante em staccato. Estudando o trecho, podemos vislumbrar o que Shakespeare 
corn ele pretende alcanar, mas no podemos fazer pelo poeta algo que ele prprio ainda no aprendeu a fazer. Mas Shakespeare no precisa de apologias,- apenas Chaucer, 
pelo menos em lngua inglesa, havia dominado a retrica da introspeco, e somente em alguns trechos do Vendedor de Indulgncias e da Mulher de Bath. Em breve, na 
trade romntica - Romeu e Julieta, Ricardo II e Sonho de uma Noite de Vero - Shakespeare ser impecvel ao representar a introspeco e suas mutaes. Se compararmos 
Ricardo in e Bottom (ao acordar de seu sonho), constataremos o apogeu desse salto qualitativo.
Outro ponto fraco de Ricardo in  Margaret, viva de Henrique VI, para quem Shakespeare foi incapaz de escrever um nico verso decente. Uma vez que Ricardo in  
exageradamente longa, Shakespeare teria se sado bem melhor caso dispensasse a tagarela Margaret, que s faz praguejar. Na verdade, a pea  um pesadelo para qualquer 
atriz, pois nenhum dos papis femininos  encenvel, seja o da pobre Anne, seduzida por Ricardo atravs do terror, o de Elisabete, viva de Eduardo IV, ou o da Duquesa 
de York, me de Ricardo. O mximo que Shakespeare permite a tais personagens  declamar versos, como se as falas bombsticas de Margaret houvessem estabelecido um 
novo estilo dramtico. A partir de Julieta, Shakespeare superaria todos os precursores, da Bblia a Chaucer, na representao da mulher, mas ningum poderia prever 
tal feito com base em Ricardo in. E os personagens masculinos, 
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exceo de Ricardo, fisicamente deformado, tampouco so bem caracterizados, excetuando-se, talvez, o Duque de Clarence, que  se torna vivido ao relatar um sonho 
impressionante. 
Clarence  lembrado por seu destino infeliz, primeiro, esfaqueado, em seguida, afogado em uma barrica de vinho da Malvsia, e por seu clebre sonho - sonho de Shakespeare, 
diria eu, pois trata-se do mais marcante em toda sua obra. Preso na Torre, Clarence relata o sonho ao carcereiro, Brakenbury:
Pareceu-me estar j fora da Torre,
a bordo de um navio que singrava
para Borgonha, onde tambm se achava
meu mano Gloster, que com seus conselhos
me fez sair do camarote, para
passear pelo convs. De l ns vamos
a Inglaterra e lembravam-nos os tempos
to difceis que tnhamos passado
durante a guerra de York e de Lencastre.
Ao passarmos por sobre a ponte mvel,
pareceu-me que Gloster tropeara,-
na queda, me jogou, quando eu tentava
segur-lo, por cima da amurada,
nas agitadas ondas do oceano.
Oh Deus! Como  dorida a morte na gua!
Que cachoeira medonha nos ouvidos,
que de vises terrveis ante os olhos!
Pareceu-me estar vendo mil naufrgios,-
entre cadveres por peixes rodos,
em meio a barras de ouro e grandes ncoras,
espalhavam-se pedras preciosas,
jias de alto valor, montes de prolas,
pelo fundo do mar. Umas se achavam
nas cabeas dos mortos,- e nas rbitas
onde outrora brilhavam vivos olhos,
como em mofa a eles prprios, se insinuaram
belas gemas que o limo do oceano
namoravam, sem ver os mortos ossos
esparsos em redor inumerveis
BRAKENBURY
No instante de morrer tivestes tempo de surpreender o abismo e seus segredos?
CLARENCE
Pareceu-me que sim. Por vrias vezes quis exalar o esprito, mas vinha sempre uma onda invejosa a alma deter-me, no consentindo que sasse e fosse procurar o ar 
vazio, imenso e livre, e a tal ponto no corpo a comprimia que este quase estourava, pelo esforo de cuspi-la nas ondas do mar fundo.
BRAKENBURY
E no vos despertou tanta agonia?
CLARENCE
No,- foi alm da vida o sonho horrvel.
Foi s ento que teve incio na alma,
de fato, a tempestade. Pareceu-me
ter passado a corrente melanclica
corn o terrvel arrais que os poetas cantam
e alcanado a regio da noite eterna.
O primeiro a saudar a alma estrangeira
foi meu sogro eminente, o famoso Warwick,
que a gritar comeou: "Qual o castigo
para o perjrio que esta monarquia
sinistra inventar pode para o falso
Clarence?" Aps falar, sumiu-se a sombra.
Depois veio outra, semelhante a um anjo,
de cabeleira clara, toda suja
de sangue coagulado, que em voz alta
comeou de dizer: "Clarence veio,
104
105
#HAROLD  BLOOM
Clarence o falso, o trnsfuga, o perjuro,
que me matou no campo de Tewkesbury!
Prendei-o, Frias! A ele! Atormentai-o!"
Quis parecer-me, ento, que um bando enorme
de demnios hediondos me cercavam,
gritando-me aos ouvidos tais horrores
que, com o barulho, despertei tremendo,
por algum tempo, ainda, acreditando
que me achava no inferno, to horrvel
foi a impresso que me ficou do sonho.
[I.iv.]
Recorro a essa longa citao porque, aqui, selecionar implica comprometer a integridade do texto,- em termos de qualidade potica, nenhum outro trecho de Ricardo 
in se compara a este. Clarence, um vira-casaca em Henrique VI, sonha, profeticamente, com a prpria morte. No se afogar em gua, conforme deseja, mas "vai estourar 
em arrotos", em um vinho diablico, numa pardia do sacramento da comunho. Ricardo de Gloster, nas profundezas do sonho de Clarence, "tropea" e, ao socorrer o 
endemoniado Gloster, Clarence cai no mar. O ouro e as pedras preciosas so emblemticas de Clarence, um oportunista poltico, tantas vezes vendido e comprado. Quando 
o Prncipe de Gales, por cuja morte Clarence  um dos responsveis, grita, invocando a vingana das Frias, estas respondem com uivos que fazem Clarence acordar 
e confrontar-se com os assassinatos por ele cometidos, a mando de Ricardo. No mundo de Ricardo in, os sonhos encontram-se sob o jugo do gnio do mal, o Corcunda-pesadelo, 
o arconte diablico de sua prpria histria.
A grande originalidade de Ricardo in, que resgata essa pea to pesada e to longa, no  bem o personagem de Ricardo, em si mesmo, mas a surpreendente intimidade 
que o heri-vilo consegue firmar com o pblico. Estabelecemos com Ricardo uma relao confidencial,- Buckingham  nosso delegado, e quando este cai em desgraa 
e  executado, trememos diante da ordem de Ricardo, potencialmente dirigida a qualquer um de ns: "Basta de pblico! Cortai-lhes as cabeas!" Merecemos
106
RICARDO  in
ser "decapitados", pois somos incapazes de resistir ao terrvel fascnio de Ricardo, que faz de cada um de ns um Maquiavel. Tamerlo, o Grande, brada sobre ns 
cascatas de versos brancos, mas  Barrabs o autntico precursor de Ricardo. O lpido judeu de Malta, que saltita com ferocidade e orgulho, insiste em revelar-nos 
tudo, mas prefere nos provocar a nos seduzir. Ricardo salta mais alm de Barrabs, e faz de cada um de ns uma Lady Anne, assim, explorando o profundo sadomasoquismo 
observado em qualquer pblico no simples ato de se reunir para assistir a um espetculo. No teatro, divertimo-nos com o sofrimento dos outros. Ricardo nos coopta 
como torturadores, e dividimos culpa e prazer, sem falar nofrisson causado pela idia de passarmos a integrar o contingente das vtimas, caso o corcunda prepotente
detecte alguma falha em nossa cumplicidade. Marlowe era sadomasoquista, e nada sutil, como constatamos na medonha execuo de Eduardo II, morto com um ferro em 
brasa introduzido no nus. Shakespeare, que se mantinha, razoavelmente, acima dessa lascvia cruel, choca-nos de uma maneira mais contundente, tomando-nos incapazes 
de resistir aos terrveis encantos de Ricardo.
Tais dotes no decorrem de retrica magnfica, de poder de raciocnio, ou de perspiccia analtica: Ricardo in est muito longe do gnio complexo de lago, do brilho 
frio de Edmundo. E nossa intimidade com Ricardo no passa de um pressgio da capacidade que possui Hamlet de transformar uma platia inteira em Horcios. Qual seria, 
pois, o encanto to peculiar de Ricardo, que por si s resgata esse melodrama shakespeariano, sempre um sucesso junto ao pblico? A sexualidade sadomasoquista do 
personagem , com certeza, um elemento crucial: imaginar o comportamento conjugai de Ricardo com a pobre Anne  dar asas s fantasias mais imundas. No sabemos 
como ela morre, apenas que "Anne, minha mulher, disse adeus ao mundo", sem sombra de dvida, palavras pronunciadas com uma certa satisfao. Mas promiscuidade sexual 
por si s no explica a atrao por Ricardo: uma energia infinita parece ser seu segredo, algo que, ao mesmo tempo, nos encanta e aterroriza. E como um Panurgo, 
que vai da travessura  maldade, vitalismo transfigurado em instinto de morte. Todos ns, platia, necessitamos de momentos de descanso/ e Ricardo volta a atacar, 
de vtima em vtima,
107
#HAROLD   BLOOM
em busca de mais poder de destruio. A combinao de energia e triunfo permite a Shakespeare uma nova modalidade de comdia de mau gosto, conforme constatamos na 
alegria de Ricardo, aps haver seduzido Anne:
J houve, acaso, mulher, em todo o mundo,
que fosse cortejada desse modo?
J houve mulher que assim ficasse noiva?
Vai ser minha, mas no por muito tempo.
J se viu coisa igual? Matei-lhe o esposo,
matei-lhe o sogro, apanho-a no momento
do dio mais acirrado, quando a boca
de maldies estava transbordante,
de lgrimas os olhos, e, ao seu lado,
sangrando, a causa do seu dio imenso:
tendo Deus contra mim, sua conscincia
e este atade, sem que do meu lado
ningum viesse o pedido reforar-me;
contando apenas com o favor do diabo,
corn olhares fingidos... e, no entanto,
conquist-la! Isso  o mundo contra nada!
Ah!
J se esqueceu, talvez, do bravo Prncipe
Eduardo, seu marido, que, furioso,
eu prprio apunhalei no h trs meses,
em Tewkesbury? Um mais doce gentil-homem
do que ele, mais amvel, resultante
da natureza prdiga, valente,
sbio e moo, real em toda a linha,
no poder mostrar o vasto mundo.
Baixar para mim, agora, os olhos,
tendo sido eu o ceifador das ureas
primcias desse prncipe adorvel,
eu, que a joguei ao leito doloroso
da viuvez? Eu, que valho muito menos
108
RICARDO   in
da metade de Eduardo? Eu, que sou coxo,
disforme deste jeito? Meu ducado
contra o vintm de um pobre: mas at hoje
eu andava iludido a meu respeito.
Por minha vida, embora eu no concorde,
pareo encantador aos olhos dela.
you tratar de adquirir um bom espelho
e de pagar uma vintena ou duas
de alfaiates que cuidem da maneira
de me adornar o corpo. J que tanto
subi no meu conceito, you mant-lo
corn pequena despesa. Mas primeiro
porei na sepultura aquele gajo,
para depois voltar a lamentar-me
junto do meu amor. Sol admirvel,
brilha at que eu adquira um bom espelho
para eu ver com que monstro eu me assemelho.
[I.H.]
Essas palavras recapitulam, de maneira brilhante, a fala de Ricardo que abre a pea: "[...] no conheo / outra maneira de passar o tempo, / a no ser contemplando 
a prpria sombra, / quando o sol a projeta". Nesse momento, Ricardo assume o comando do sol e, alegremente, convida-nos a compartilhar sua vitria sobre a virtude 
de Anne, expressa como apenas mais um exemplo da hipocrisia do mundo: "e, no entanto, / conquist-la! Isso  o mundo contra nada!" O "Ah!" que se segue  intoxicante, 
um grande expletivo  espera de um grande ator. A energia de Ricardo  mais do que teatral,- seu triunfo se mescla a "teatralismo" e  se torna uma celebrao de 
Shakespeare 
ao teatro e  sua prpria arte, que florescia com rapidez. Ter inventado Ricardo  ter criado um monstro, um monstro que seria refinado at que Shakespeare inventasse 
o humano, em cujo processo lago, para a alegria e a tristeza de todos, h de desempenhar um papel absolutamente central.
109
#PARTE in
AS TRAGDIAS DE APRENDIZADO
#TITO ANDRNICO
Ambas as montagens de Tito Anormco a que tive oportunidade de assistir, uma em Nova Iorque, a outra em Londres, provocaram, nas respectivas platias, a mesma reao: 
um misto de horror e riso desconcertado.  possvel que o jovem Shakespeare, tendo concludo Ricardo in, tenha se rebelado contra a forte influncia de Marlowe, 
criando uma pardia a Marlowe, e uma espcie de tratamento de choque para si mesmo e para seu pblico, "fito Andrnico tem algo de arcaico, no sentido negativo do 
termo. Tudo e todos em cena nos so por demais remotos, especialmente o severo Tito,  exceo do cativante Aaro, o Mouro, um aperfeioamento, com relao a Ricardo 
111, na luta inglria para superar Barrabs, o judeu de Malta, o mais autoconsciente e auto-suficiente dos viles.
O melhor estudo sobre Marlowe continua sendo a obra The Overreacber (1952), de autoria de Harry Levin, que nos faz lembrar, de incio, que muitos dos contemporneos 
de Marlowe acusavam-no de ser, a um s tempo, ateu, maquiavlico e epicurista. Conforme Levin argumenta, o atesmo era religio paga ou natural (i.e., no revelada), 
ao passo que o maquiavelismo, nos dias de hoje,  considerado realismo poltico. Da minha parte, acrescentaria s idias de Levin a noo de que, na Era Freud, o 
Epicurismo  facilmente assimilado ao nosso materialismo metafsico. Marlowe criou tudo que  crucial  arte de Shakespeare, exceto a representao do humano, algo 
que lhe estava alm do interesse
113
#HAROLD  BLOOM
e da genialidade. Tamerlo e Barrabs so caricaturas notveis, capazes de entoar hiprboles extraordinrias. As hiprboles de Marlowe podem, at certo ponto, ser 
distinguidas entre si, mas no h, nem pode haver, qualquer distino entre os personagens por ele criados. Barrabs muito me entusiasma, mas o que me diverte so 
as suas atitudes surpreendentes, no a personalidade mal traada. Sob o peso de Marlowe, Shakespeare, gradualmente, emergiu, at conseguir a autntica representao 
da personalidade humana. Se, conforme prope Peter Alexander, e eu busco ratificar, o proto-Hamlet foi uma das primeiras peas escritas por Shakespeare, o protagonista 
no seria mais que uma voz. O criado Launce, em Os Do/s Cavalheiros de Verona, foi a primeira personalidade criada por Shakespeare, mas a maioria dos estudiosos 
acredita que essa pea foi escrita aps Tto Andrnico.
O jovem Shakespeare, em To Andrnico, divertia-se a si mesmo e seu pblico zombando e sugando Marlowe. "Se o que a platia quer  retrica e sangue,  isso que 
vo ter!" - parece ser esse o impulso que coloca em marcha o banho de sangue que ocorre na pea, o equivalente shakespeariano ao que, nos dias de hoje, constatamos 
em Stephen King e em grande parte do cinema que nos cerca. No poderia afirmar que existe na pea um verso sequer que seja autntico,- tudo que a mesma contm de 
divertido e memorvel , claramente, derivativo. Reconheo que, atualmente, essa concluso seria questionada por muitos especialistas, cuja avaliao de Tito Andrnico 
deixa-me perplexo. Frank Kermode, por exemplo, rejeita a hiptese de que a pea seja burlesca, embora admita "possibilidades de farsa". Jonathan Bate, responsvel 
pela edio mais elaborada e til do texto da pea, tenta defender, esteticamente, o indefensvel, o que teria causado espcie ao prprio Shakespeare. Embora fascinado 
por Tito Andrnico, reconheo que a pea  uma pardia inautntica, com o propsito tcito de destruir o fantasma de Christopher Marlowe. Se a considerarmos uma 
tragdia autntica, somos obrigados a concordar com a desaprovao de Samuel Johnson: "Dificilmente, a barbaridade do espetculo e o massacre exibido sero tolerados 
por qualquer platia que seja". Tendo constatado o esforo de Laurence Olivier e, muitos anos depois, de Brian Bedford no papel de
114
TITO  ANDRNICO
Tito, cheguei  concluso de que o mesmo s pode ser desempenhado como pardia.
O pblico elisabetano era to sedento de sangue quanto a massa que hoje lota cinemas e se deixa hipnotizar diante de televisores/ portanto, a pea foi um enorme 
sucesso, rendendo muito bem para Shakespeare, sucesso esse, possivelmente, por ele recebido com bastante ironia. Tudo vale na atual crtica especializada shakespeariana,
que conta com apologias da sagacidade poltica de To Andrnico, e at posicionamentos feministas de que o sofrimento da infeliz Lavnia, filha de Tito que  estuprada
e mutilada, atesta a opresso da mulher na sociedade patriarcal. Alguns, com toda seriedade, encontram na pea sinais precoces de Rei Lear e Coriolano, e chegam
a comparar Tamora, a perversa Rainha dos Godos, a Lady Macbeth e a Clepatra. Talvez o ltimo dos "Bardlatras Romnticos", permaneo ctico, e gostaria que Shakespeare 
jamais tivesse cometido essa atrocidade potica, mesmo como catarse. Exceto pelo divertido Aaro, o Mouro, Tito Andrnico  de pssimo gosto - caso levemos a pea 
a srio. Porm, pretendo demonstrar que Shakespeare estava ciente de que a mesma era uma grande asneira, e esperava que os espectadores mais discernentes percebessem 
o fato e se esbaldassem. Para os que tm tendncias sadomasoquistas, Tito Andrnico  um prato cheio: podero sentar-se ao lado de Tamora, em seu banquete canibalesco, 
e, com igual entusiasmo, assistir ao estupro de Lavnia,  amputao de sua lngua e de suas mos. Questo mais complexa, seja qual for a tendncia da pessoa,  
entender o prprio Tito. Ser que devemos nos doer por seu sofrimento infindo, diante do qual o de J no passa de simples manha?
Shakespeare fez questo de causar estranhamento com relao ao personagem de Tito,- Brecht no teria feito melhor, e seu clebre "efeito alienante"  plagiado de 
Shakespeare. A pea mal tem incio e Tito ordena o sacrifcio do primognito de Tamora, em memria dos filhos dele, Tito, vinte e um dos quais (de um total de vinte 
e cinco) pereceram, bravamente, no campo de batalha. O sacrifcio consiste em atirar o prncipe dos godos em cima de uma pilha de lenha e, em seguida, rachar-lhe 
os membros para alimentar o fogo. Pouco tempo depois que
115
#HAROLD   BLOOM
os membros de Alarbo so decepados, e que "[...] as entranhas / dele as sagradas chamas alimentam"*, Tito mata o prprio filho, que tenta impedi-lo na disputa pela 
mo de Lavnia. Antes mesmo do final do primeiro ato, Tito surge como um monstro horrendo, uma pardia do Tamerlo de Marlowe. Da, at quase a concluso da pea, 
os crimes so cometidos contra Tito, inclusive a provao de Lavnia, a morte de dois de seus trs filhos sobreviventes e o consentimento para Aaro cortarlhe uma 
das mos, em um suposto acordo para salvar-lhe os filhos. Contudo, o alardeado sofrimento de Tito no chega a nos preparar para o momento em que ele mata a prpria 
filha martirizada, na cena final da pea.-
TITO
Morre, morre, Lavnia, e o teu oprbrio,-
corn ele morre o oprbrio de teu pai.
[Mata Lavnia.] SATURNINO
Brbaro, desumano, que fizeste? TITO
Matei quem me deixou sem vista os olhos.
[V.iii.]
Seria de se esperar, ao menos, que a pobre Lavnia pudesse exercer aqui o direito de escolha! Em todo caso, Shakespeare faz o possvel para que nos antipatizemos 
corn Tito, quase to monstruoso quanto Tamora e Aaro. Nada resgata Tamora,- j Aaro, no entanto,  resgatado pelo fato de ser extremamente engraado/ alm disso, 
o personagem chega a nos comover, pelo amor que sente pelo filho negro que gerou em Tamora. Defender Ttto Andrnico em termos estticos s  possvel se tal defesa 
for baseada em Aaro, o personagem mais marloviano da pea,
Romeu e Julteta e Tito Andrnico. Traduo de Carlos Alberto Nunes. Ediouro. So Paulo: Tecnoprint, s.d. Todas as citaes referem-se a essa edio. [N.T.]
116
TITO  ANDRNICO
e se a mesma for entendida como uma grande farsa, no estilo do Judeu de Malta, de Marlowe.
Os estudiosos de Shakespeare e seus contemporneos sentem verdadeiro fascnio pelas tragdias romanas atribudas ao preceptor de Nero, Sneca, cuja frgida declamao 
provocou, sem dvida, um efeito na dramaturgia elisabetana. O primeiro Hamkt de Shakespeare, com certeza, possua caractersticas de Sneca, e Tito Andrnico, certamente, 
deve muito de sua inpcia a Sneca. No podemos aferir como o pblico romano recebia as tragdias de Sneca, pois, segundo consta, tais textos no eram encenados 
publicamente. O prestgio dessas tragdias junto aos elisabetanos deveu-se, sem sombra de dvida, ao fato de no haver gneros rivais. Como a tragdia ateniense 
no estava disponvel, a caricatura da mesma, segundo Sneca, servia de modelo. As peas de Sneca no tm grandes qualidades,- no  para menos, o autor pouco se 
interessava em forma dramtica. Seu objetivo quase que exclusivo era a retrica inflada. Marlowe e Shakespeare recorreram a Sneca como inspirao para uma linguagem 
rebuscada e sentimentos neo-esticos, mas Marlowe, em muito, superou o mestre. Shakespeare no fora capaz de se livrar de Marlowe em Ricardo in; na minha leitura, 
Tito Andrnico encerra um ritual em que Shakespeare exorciza Marlowe. A contenda envolve levar s ltimas conseqncias a linguagem marloviana, a um ponto to extremo 
que a mesma se autoparodia, e, igualmente, pr um fim  influncia de Sneca. Aaro, o Mouro, conforme Ricardo in, verso do Barrabs de Marlowe,  a principal arma 
de Shakespeare nessa luta, como podemos, facilmente, constatar, se cotejarmos falas de Barrabs e Aaro:
BARRABS
Da minha parte, ando pela rua,  noite, a matar gente enferma que geme pelas paredes.
AARO
Sim, por no ter dez mil como
essas feito.
Agora mesmo amaldio o dia -
117
#HAROLD  BLOOM
s vezes, enveneno poos,- Outras, para agradar cristos ladres, perco, de bom grado, algumas moedas, para poder, ao caminhar em meu terrao, v-los prostrados 
diante da minha porta. Quando jovem, estudei medicina, e fiz prtica junto a italianos,- enriqueci muitos padres com funerais, e sempre mantive ativos os braos 
do sacristo, cavando tmulos e tocando sino pelos mortos.
E, mais tarde, fiz-me inventor, E, nas guerras entre a Frana e a Alemanha, sob o pretexto de defender Carlos V, matei amigo e
inimigo com meus inventos: Depois, tomei-me usurrio, e, com extorso, trapaa e confisco, e truques de corretagem, em um ano, enchi de devedores a cadeia, e 
de rfos os albergues,- E, a cada lua, algum enlouquecia, e, de vez em quando, algum se enforcava, em desespero, tendo,
ao peito, uma mensagem: que eu o
atormentava com os juros. E vede, perseguindo-os, fui abenoado, pois tenho dinheiro bastante para comprar a cidade. Mas, dizei-me: como passais o tempo?
e creio que bem poucos caem dentro do crculo maldito - em
que eu deixasse de praticar qualquer notria infmia, como seja: tirar a algum a vida, ou, quando menos, maquinar-lhe a morte, violar uma donzela ou dar a idia 
para tal fim, sob falso juramento contra algum inocente fazer carga, entre amigos semear a odiosidade, fazer que do alto caia e se arrebente o rebanho do pobre,
s altas horas da noite incendiar
medas e celeiros, para aos donos gritar que com suas lgrimas as chamas apagassem. Muitas vezes desenterrei dos tmulos os mortos, colocando-os de p, junto das 
portas dos amigos queridos, justamente quando a dor j se achava quase extinta, na pele dos cadveres gravando com minha faca, tal como na casca das rvores se 
faz, em caracteres romanos: "No deixeis que a dor se extinga, conquanto eu j morresse". Ora! milhares de aes terrveis fiz com a mesma calma com que mato uma 
mosca, nada havendo que tanto me entristea como a idia de mais dez mil no realizar como essas.
[V.i.]
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TITO  ANDRNICO
Shakespeare vence a contenda porque a imagem registrada por Marlowe, do enforcado com a mensagem pendurada ao peito, embora impressionante, perde para a do Mouro 
gravando sua saudao diretamente na pele dos cadveres, colocando-os de p ao lado das portas dos amigos. Aaro rene a fora retrica de Tamerlo e a capacidade 
de Barrabs de estabelecer cumplicidade com a platia. O resultado  um monstro marloviano mais impressionante do que qualquer personagem criado pelo prprio Marlowe. 
Sem Aaro, Tio Andrnico seria insuportvel,- o primeiro ato parece nunca terminar, principalmente, porque, apesar de estar em cena, o Mouro no possui falas. No 
segundo ato, ele sugere aos filhos de Tamora que resolvam a disputa por Lavnia estuprando-a. Estes aquiescem de bom grado, primeiro, matando o marido de Lavnia 
e, em seguida, fazendo do corpo o leito sobre o qual a violentam. Decepando as mos e a lngua da jovem, dificultam-lhe a identificao dos agressores, e Aaro consegue 
atribuir a culpa do assassinato do marido de Lavnia a dois dos trs filhos sobreviventes de Tito. At o resumo da pea nos coloca entre o pavor e o riso como mecanismo 
de defesa, embora nada se iguale  nossa reao quando Tito insta o irmo e Lavnia a ajud-lo a retirar de cena as cabeas decepadas de dois de seus filhos e a 
sua prpria mo, tambm, amputada:
TITO
[...] Mano, segura uma cabea,-
corn esta mo carregarei a outra.
Lavnia, tu tambm vais ajudar-nos:
carrega minha mo, minha filha, nos dentes.
[lll.i.]
O trecho dispensa comentrios, mas eu gostaria de sugerir aos estudiosos que acham que Tito Anornico deve ser levada a srio como tragdia que lessem os versos 
acima vrias vezes, em seqncia, enfatizando as palavras "carrega minha mo, minha filha, nos dentes". Afinal,  poca, Shakespeare j havia escrito A Comdia dos 
Erros e A Megera Domada, estando prestes a criar Trabalhos de Amor Perdidos,- seu talento para
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#HAROLD   BLOOM
a comdia era mais que evidente, tanto para o pblico quanto para ele prprio. Considerar Tito Anornco mera derivao de Marlowe e Kyd tampouco ser justo/ trata-se 
de uma ampliao, uma exploso de ironia azeda, levada muito alm dos limites da pardia. Nada em Shakespeare encerra uma loucura to sublime,- Tito Andrnico no 
pressagia Rei Lear e Coriolano, mas Artaud.
 medida que se aproxima do final absurdo, a pea  se torna, cada vez mais, surrealista, irreal. Na segunda cena do terceiro ato, Tito e seu irmo utilizam uma faca 
para matar uma mosca,- o dilogo dos dois a respeito do incidente ocupa trinta versos de pura fantasia. Por mais barroco que seja, o trecho  at discreto, se contrastado 
corn a primeira cena do quarto ato, em que Lavnia, muda e com os braos mutilados, vira as pginas de um exemplar da Metamorfose, de Ovdio, at chegar  histria 
de Filomela, violentada por Tereu. Segurando com a boca um basto, e guiando-o com os antebraos, ela escreve na areia a palavra "stuprum" (estupro, em latim), 
e os nomes dos culpados, os filhos de Tamora: Quiro e Demtrio. Tito responde, citando Hippolytus, de Sneca, a mesma pea que fornece a Demtrio um chavo que 
prenuncia o estupro e a mutilao de Lavnia.
Ovdio e Sneca prestam-se menos  aluso literria do que  funo de distanciar, de qualquer possibilidade de realismo mimtico, o sofrimento ridculo de Tito 
e sua famlia. Portanto, faz bastante sentido Tito conceber um ataque ao palcio imperial, com setas que carregam mensagens aos deuses romanos. Por mais curioso 
que seja esse incidente, Shakespeare o supera, em termos de inverossimilidade, quando Tamora, personificada como Vingana, visita Tito, acompanhada dos dois filhos, 
Demtrio, disfarado de Morte, e Quiro, de Estupro. O objetivo da visita  conseguir que Tito oferea um banquete a Tamora e seu marido, o dbio Imperador Saturnino, 
ocasio em que o ltimo filho sobrevivente de Tito, Lcio, estaria presente. Resumir tais eventos  como contar o enredo de uma telenovela,- a ao de Tito Andrnico 
, essencialmente, uma pera de horror, Stephen King  solta em meio a romanos e godos. Tito permite que Tamora-Vingana se v, com toda certeza, para se preparar 
para o banquete, mas mantm consigo Morte
120
TITO  ANDRNICO
e Estupro. Uma vez amarrados e amordaados, os dois aguardam seu destino, enquanto a platia vibra com ofrisson de uma rubrica memorvel: Volta Tito com uma faca,
e Lavnia com uma bacia. A fala de Tito, sua primeira expresso de alegria em toda a pea, no nos decepciona:
TITO
[...] Ouvi, bandidos,
de que modo pretendo castigar-vos.
Ficou-me uma das mos para o pescoo
cortar-vos neste instante, enquanto fixa
Lavnia nos dois cotos a bacia
que aparar vai vosso culposo sangue.
Sabeis que vossa me vem banquetear-se
comigo, daqui a pouco, apresentando-se
como a Vingana, por julgar-me louco.
Ouvi-me, celerados! Vossos ossos
you reduzir a poeira, que no sangue
misturada uma pasta me fornea
corn que uma torta aprontarei de vossas
cabeas infamantes, para, logo,
dizer quela prostituta, vossa vv
maldita me, que, como a prpria terra,
devorar venha os filhos. Esse  o banquete
para que a convidei, sendo esse o prato
corn que ela vai fartar-se. Pois se minha
sofreu bem mais que Filomela,
mais do que Procne hei de vingar-me agora.
Preparai as gargantas. Vem, Lavnia.
(Degola-os.)
Apara o sangue, e, aps terem morrido, a poeira lhes reduzo os ossos todos, porque a misture neste odioso lquido e as vis cabeas coza nessa pasta. Vamos! Vamos! 
Que todos se azafamem
121
#HAROLD   BLOOM
no aprestar o banquete, pois pretendo mais sinistro deix-lo e sanguinrio que o festim dos Centauros. Carregai-os... Assim... Assim... you ser o cozinheiro, para 
arranjar as coisas de maneira que, ao vir a me, eles estejam prontos.
(Saem carregando os cadveres.)
[V.ii.]
Conforme indica o prprio Tito, existe o precedente, em Ovdio: o banquete servido por Procne, irm de Filomela, ao estuprador Tereu, que, sem o saber, devora seu
prprio rebento. Outro precedente seria a tragdia Ttestes, de Sneca, tendo como clmax o sinistro banquete de Atreu. Shakespeare vai alm das fontes, criando uma
massa para torta que serve de caixo, e a agradvel imagem das cabeas de Demtrio e Quiro reduzidas a saboroso recheio. Estamos prontos para o banquete, e Tito, 
corn chapu de cbef, pe a mesa. Assim que acaba com Lavnia, Tito apunhala a perversa Tamora, mas no sem antes inform-la que acabara de devorar os filhos. Sem 
dvida, j um tanto farto, Shakespeare no concede a Tito uma grande cena de morte. Saturnino o mata e, por sua vez,  morto por Lcio, o ltimo de vinte e cinco 
irmos e o novo Imperador de Roma. Aaro, o Mouro, aps ter salvo a vida do filho negro que gerara em Tamora,  enterrado, at a altura do trax, a definhar. Shakespeare, 
que, provavelmente, compartilha conosco um afeto desesperado por Aaro, concede ao personagem a dignidade de palavras finais desprovidas de arrependimento, conforme 
o Barrabs, de Marlowe:
AARO
Oh! Por que  muda a raiva e surda a clera?
No sou criana medrosa, para s baixas
oraes recorrer e, muito menos,
para me arrepender dos crimes feitos.
Cometera outros, dez mil vezes piores,
122
TITO  ANDRNICO
se possvel me fosse realiz-los.
Se em toda a vida fiz uma ao boa,
no fundo da alma, agora me arrependo.
[V.iii.]
A produo inglesa de Tito Andrnico a que assisti foi a verso abstrata e estilizada de Peter Brook, em 1955, que, pelo menos, teve a vantagem de manter o sangue 
a uma distncia simblica, embora com isso a encenao tenha sacrificado os excessos pardicos de Shakespeare. No creio que gostaria de assistir, novamente, a 
uma montagem de Tito Andrnico, a menos que fosse dirigida por Mel Brooks com seus parceiros tresloucados, ou, quem sabe, a pea no daria uma boa comdia musical. 
A despeito da fora escabrosa que emana do texto, no reconheo em Tito Andrnico qualquer valor intrnseco. A importncia da pea advm apenas dos fatos de ter 
sido, infelizmente, escrita por Shakespeare, e de que, com a mesma, o dramaturgo libera-se de Marlowe e Kyd. Resqucios de Marlowe perduraram o bastante para comprometer 
a qualidade de Rei Joo, como vimos, mas com Trabalhos de Amor Perdidos, na comdia, Ricardo II, no drama histrico, e Romeu e Julieta, na tragdia, Shakespeare, 
finalmente, consegue diferenciar-se do brilhante - e frio - precursor. To Andrnico foi fundamental para Shakespeare, mas no o  para ns.
123
#ROMEU E JULIETA
A primeira tragdia autntica escrita por Shakespeare , s vezes, alvo de desmerecimento crtico, talvez por ser to popular. Embora Romeu e Julida seja um triunfo 
do lirismo dramtico, o desfecho trgico ofusca os demais aspectos da pea, deixando-nos em tristes conjeturas com relao  eventual responsabilidade dos jovens 
amantes pela sua prpria catstrofe. Harold Goddard lamentava-se do fato de "a sorte da pea ter sido entregue a astrlogos", pois, nas palavras do Prlogo, as estrelas 
fizeram nascer "um par [...] de amantes desditosos".* Na verdade, a culpa da destruio da extraordinria Julieta no pode ser imputada apenas s estrelas. E pena 
que, meio sculo depois de Goddard, a referida tragdia esteja entregue a defensores dos Estudos de Gnero que acusam o patriarcado e o prprio Shakespeare de vitimar 
Julieta.
Thomas McAlindon, no sensato estudo intitulado Sbakespeares Trajic Cosmos (1991), explica a dinomica de conflito em Shakespeare a partir das contrastantes vises 
de mundo, segundo Herclito e Empdocles, conforme estas aparecem, refinadas e modificadas, no Conto do Cavaleiro, de Chaucer. Para Herclito tudo flua, e Empdocles 
contemplava uma luta entre o Amor e a Morte. Chaucer, como j afirmei, e no Ovdio ou Marlowe, foi o mentor do que h de mais original em Shakespeare, a inveno 
do humano, que constitui a preocupao central do presente
* Romeu e Julieta e Tito Andrmco. Traduo de Carlos Alberto Nunes. Ediouro. So Paulo: Tecnoprint, s d. Todas as citaes referem-se a essa edio [N.T]
124
ROMEU  E JULIETA
estudo. A interpretao irnica e afvel da religio do amor apresentada por Chaucer, de maneira mais perceptvel, talvez, em Trilo e Crssida do que no Contado 
Cavaleiro, fornece o contexto essencial para Romeu e Julieta. As ironias do Tempo governam o amor em Chaucer, assim como o fazem em Romeu e Julieta. A natureza humana 
em Chaucer , essencialmente, a de Shakespeare: o elo mais forte entre os dois maiores poetas ingleses estava no temperamento, sem ter qualquer cunho intelectual 
ou sociopoltico. Morre o amor ou morrem os amantes: eis a pragmtica dos dois poetas, ambos infinitamente sbios em sua experincia.
Shakespeare, ao contrrio de Chaucer, evitou representar a morte do amor, preferindo a morte dos amantes. Haver algum personagem em Shakespeare,  exceo de Hamlet, 
que deixa de amar? E vale lembrar que Hamlet nega ter um dia amado Oflia (e eu acredito nele). Ao final da pea, ele no ama ningum, seja a falecida Oflia, o 
falecido pai, a falecida Gertrudes ou o falecido Yorick, e chegamos a nos perguntar se um homem, ao mesmo tempo, to carismtico e assustador seria capaz de amar. 
Se as comdias de Shakespeare tivessem seis atos, sem dvida, muitos dos casamentos que as concluem teriam se aproximado das condies da unio do prprio Shakespeare 
e Anne Hathaway. A rigor, minha conjetura no faz o menor sentido, mas a maioria do pblico shakespeariano - ontem, hoje e sempre - acredita que Shakespeare representa 
apenas a realidade. O pobre Falstaff jamais deixar de amar Hal, e Antnio, cristo exemplar, sempre vai se doer por Bassnio. A quem Shakespeare amava no sabemos, 
mas os Sonetos parecem conter mais do que fico e, pelo menos em questes de amor, Shakespeare no era to frio quanto Hamlet.
H amantes maduros em Shakespeare, por exemplo, Antnio e Clepatra, que, de bom grado, se vendem por questes de Estado, mas que se reencontram no suicdio. Tanto 
Romeu quanto Antnio matamse porque acreditam que as amadas esto mortas (Antnio falha ao suicidar-se, assim como falha em tudo o mais). A maior paixo de toda 
a obra shakespeariana, a do casal Macbeth, no parece livre de entraves sexuais, conforme pretendo demonstrar, e termina em loucura e suicdio para a Rainha, ensejando 
a mais ambgua das elegias, por parte do
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#HAROLD  BLOOM
mando e usurpador "E Edmundo era amado", diz, com seus botes, o vilo frio de Rn Lear, diante dos corpos de Gonenl e Regan
A diversidade de formas de amor e paixo entre os sexos  preocupao constante de Shakespeare, o cime tem em Otelo e Leontes seus atores mais exuberantes, e a 
identificao dos tormentos do amor e do cime  inveno shakespeanana, mais tarde aperfeioada por Hawthorne e Proust Shakespeare, mais do que qualquer outro autor, 
instruiu o Ocidente sobre as catstrofes da sexualidade e inventou a frmula de
que o sexual  se torna ertico ao ser invadido pela sombra da morte Shakespeare haveria de compor uma grande cano ertica, um hino lrico e tragicmico que celebrasse 
o amor puro e lamentasse sua inevitvel destruio Romeu e Julteta  incomparvel, seja na prpria obra shakespeanana, seja em toda a literatura mundial, como viso 
de um amor recproco e incondicional que perece por seu prprio idealismo, por sua prpria intensidade
Poucos personagens shakespeananos anteriores a Romeu e Julteta possuem alguma dimenso realista Launce, em Os Dois Cavalheiros de Verona, Faulconbndge, o Bastardo, 
em Rei Joo, Ricardo II, rei com tendncias  autodestruio e grande poeta metafsico Mas o quarteto Julieta, Merccio, a Ama e Romeu supera quaisquer lampejos 
anteriores na inveno do humano A importncia dramtica de Romeu e Julieta decorre desses quatro personagens, criados com tanta exuberncia
 mais fcil perceber a vivacidade de Merccio e da Ama do que assimilar e suster a grandeza ertica de Julieta e o esforo herico de Romeu, no sentido de aproximar-se 
do estado de amor sublime em que se encontra a amada Shakespeare, em sua viso proftica, sabe que deve conduzir o pblico alm das ironias obscenas de Merccio, 
para ser digno de compreender Julieta, poisasublimidadedajovem protagonista resume a pea e garante a tragdia nessa tragdia Merccio, que rouba a cena, precisa 
morrer, para no ofuscar os protagonistas, se Merccio estivesse presente no quarto e no quinto atos, a contenda de amor e morte teria de ser suspensa Supervalonzamos 
Merccio porque o personagem nos protege da nossa prpria ansiedade ertica pela perdio, a funo dramtica de Merccio  extremamente importante Algo pa-
ROMEU  E JULIETA
recido, embora mais sombrio, ocorre no caso da Ama, que contribui diretamente para o desastre final A Ama e Merccio, ambos favoritos do pblico, de maneira distinta, 
embora complementar, causam  trama bastante dano E possvel que Shakespeare, a essa altura da carreira, subestimasse o prprio talento, pois tanto Merccio quanto 
a Ama continuam a seduzir platias, leitores, diretores e crticos Sua exuberncia verbal os faz precursores de Touchstone e Jacques, com sua ironia azeda, e de 
lago e Edmundo, viles dotados de uma eloqncia perigosa e mampuladora
A grandeza da obra shakespeanana tem incio com Trabalhos de Amor Perdidos (1594-95, revista em 1597) e Ricardo II (1595), criaes extraordinrias, respectivamente,
na comdia e no drama histrico Contudo, Romeu e Julieta (1595-96), com toda a justia,  considerada superior a ambas, embora eu no chegasse a equipar-la a Sonho
de uma Noite de Vero, escrita na mesma poca da primeira tragdia autntica criada por Shakespeare A popularidade permanente de Romeu e Julieta, que, nos dias de 
hoje, alcana uma intensidade mtica,  perfeitamente justificvel, pois a pea constitui a maior e mais convincente celebrao do amor romntico da literatura ocidental 
Quando reflito sobre a pea, em momentos em que no a estou relendo ou analisando em sala de aula, ou assistindo a mais uma montagem inepta, o que primeiro me vem 
 mente no  o final trgico, tampouco o glorioso Merccio e a Ama Meu pensamento vai direto ao centro vital da pea, ato II, cena n, o incandescente dilogo dos 
amantes
ROMEU
Senhora, juro pela santa lua
que acairela de prata as belas frondes
de todas estas rvores frutferas JULIETA
No jures pela lua, essa inconstante,
que seu contorno circular altera
127
#HAROLD   BLOOM
ROMEU  E JULIETA
todos os meses, porque no parea que teu amor, tambm,  assim mutvel.
ROMEU
Por que devo jurar?
JULIETA
No jures nada,
ou jura, se o quiseres, por ti mesmo, por tua nobre pessoa, que  o objeto de minha idolatria. Assim te creio.
ROMEU
Se o amor sincero deste corao...
JULIETA
Pra! No jures,- muito embora sejas toda minha alegria, no me alegra a aliana desta noite,- irrefletida foi por demais, precipitada, sbita, tal qual como o relmpago 
que deixa de existir antes que dizer possamos: Ei-lo! Brilhou! Boa noite, meu querido. Que o hlito do estio amadurea este boto de amor, porque ele possa numa 
flor transformar-se delicada, quando outra vez nos virmos. At  vista,- boa noite. Possas ter a mesma calma
que neste instante se me apossa da alma.
ROMEU
Vais deixar-me sair mal satisfeito?
JULIETA
Que alegria querias esta noite?
ROMEU
Trocar contigo o voto fiel de amor.
JULIETA
Antes que mo pedisses, j to dera,- mas desejara ter de d-lo ainda.
128
ROMEU
Desejas retir-lo? com que intuito, querido amor?
JULIETA
Porque, mais generosa, de novo to ofertasse. No entretanto, no quero nada, afora o que possuo. Minha bondade  como o mar: sem fim, e to funda quanto ele. Posso 
dar-te sem medida, que muito mais me sobra: ambos so infinitos.
[Il.ii.]
A revelao da natureza de Julieta que o momento enseja poderia ser considerada epifania na religio do amor. Chaucer no tem sequer uma passagem como essa, nem 
Dante, uma vez que o amor de sua Beatriz transcende a sexualidade. Sem precedentes na literatura (embora, supostamente, no na vida real), Julieta no transcende 
a herona humana. Torna-se difcil concluir se Shakespeare reinventa a representao de uma jovem (ela ainda no completou quatorze anos) apaixonada, ou se vai alm 
disso. Como podemos nos distanciar de Julieta? Se tentarmos contemplar seu consciente com ironia, nos envergonharemos de ns mesmos. Hazlitt, impelido por uma nostalgia 
pelos seus prprios sonhos de amor perdidos, apreendeu, melhor do que qualquer outro estudioso, o sentimento exato da cena:
Ele [Shakespeare] no fundamenta a paixo dos dois amantes em prazeres j consumados, mas nos prazeres ainda por consumar.
O infinito invocado por Julieta tem um sentido futuro, e no temos dvida de que sua bondade " como o mar: sem fim". Quando Rosalinda, em Como Gostais, repete essa 
comparao, o tom da mesma, sutilmente, distingue Julieta:
l
129
#HAROLD  BLOOM
ROSALINDA
 pnmmha, primmha, minha linda pnminha1 Se soubesses quantas braas eu estou afundada no amor" Nem  possvel sondar, do mesmo modo que se d com a baa de Portugal, 
no se conhece o fundo da minha paixo
CLIA
Sena prefervel dizer que no tem fundo, porque quanto mais sentimentos lhe deltas, mais se escoa ROSALINDA
No, que o diga esse bastardo de Vnus to maroto, gerado do pensamento, concebido pela melancolia e nascido da loucura, esse mesmo rapazinho tratante e cego, que 
engana os olhos de toda a gente por haver perdido os seus, quanto me acho atolada no amor
[IV,]
Rosalinda exemplifica o que h de mais sublime na sagacidade feminina, chegamos a imaginar que seria capaz de aconselhar Romeu e Julieta a "morrerem por procurao",
pois ela sabe que homens e mulheres "tantas vezes morrem, e so comidos, sem que o motivo da morte seja o amor" Mas Romeu e Julieta so excees, e morrem de amor,
em vez de viverem de gracejos Shakespeare no permite que quaisquer traos da inteligncia superior de Rosalmda interfiram na nsia sincera de Julieta Merccio,
sempre obsceno, no est qualificado para denegrir as insinuaes de desejo de Julieta A pea logo deixa claro quo efmera ser a felicidade de Merccio Nesse contexto, 
e a partir de sua prpria ambivalncia irnica, Shakespeare confere ajulieta a mais sublime declarao de amor em lngua inglesa
JULIETA
Porque, mais generosa,
de novo to ofertasse No entretanto,
* Como Gostais e Noite de Reis Traduo de Carlos Alberto Nunes Volume V So Paulo Edies Melhoramentos, s d [N T]
130
ROMEU  E JULIETA
no quero nada, afora o que possuo Minha bondade  como o mar sem fim, e to funda quanto ele Posso dar-te sem medida, que muito mais me sobra ambos so infinitos
[II n]
Deveramos avaliar a pea inteira mantendo como parmetro esses sete versos, milagrosos em sua altivez e pungncia to sinceras Tais versos desafiam a observao 
forada de Samuel Johnson, criticando a extravagncia retrica de Shakespeare na pea "seus anseios patticos so sempre maculados por alguma depravao inesperada" 
Molly Mahood, identificando, pelo menos, cento e setenta e cinco trocadilhos e jogos de palavras em Romeu e Julieta, justifica tais recursos, pois, no seu entendimento, 
a pea  uma verdadeira charada, em que "a Morte  desde logo rival de Romeu e, finalmente, conquista Julieta", desfecho digno para amantes que correm ao encontro 
do prprio fim Todavia, a pea contm poucas indicaes de que Romeu e Julieta, alm de se quererem mutuamente, tambm querem a morte Shakespeare abstm-se de atribuir 
culpa, seja  beligerante gerao dos pais dos amantes, seja aos prprios amantes, seja ao destino, ao tempo,  sorte, aos astros Julia Knsteva, corajosamente, sem 
se abster de faz-lo, descobre na pea "uma verso discreta de Imprio dos Sentidos", filme japons barroco e sadomasoquista
Sem dvida, Shakespeare arrisca-se, ao delegar-nos o julgamento da tragdia, mas essa recusa a cercear a liberdade do pblico ensejar, mais tarde, a criao dos 
grandes dramas trgicos Creio expressar a opinio de muitos ao afirmar que o amor de Romeu e Julieta  o exemplo mximo da paixo saudvel, normativa, em toda a 
literatura ocidental Esse amor termina em suicdio mtuo, mas no porque os amantes anseiam pela morte, ou confundem dio e desejo
Merccio  o mais clebre ladro de cena em Shakespeare, chegando mesmo a constar (segundo Dryden) que Shakespeare teria declarado
#HAROLD   BLOOM
ROMEU  E JULIETA
que fora obrigado a matar o personagem, com receio de que o personagem o matasse e, por conseguinte, acabasse com a pea. Samuel Johnson elogia Merccio, por sua 
sagacidade, vivacidade e coragem,- supostamente, o grande Johnson teria preferido ignorar o fato de que Merccio , tambm, obsceno, frio e encrenqueiro. Merccio 
nos acena com um grande papel cmico, mas nos constrange com a rapsdia extraordinria sobre a Rainha Mab, que, num primeiro momento, parece mais condizente com 
Sonho de uma Noite de Vero do que com Romeu e Julieta-.
MERCCIO
Oh! Visitou-vos a Rainha Mab. BENVLIO
Quem  a Rainha Mab? MERCCIO
E a parteira das fadas, que o tamanho
no chega a ter de uma preciosa pedra
no dedo indicador da alta pessoa.
Viaja sempre puxada por parelha
de pequeninos tomos, que pousam
de travs no nariz dos que dormitam.
As longas pernas das aranhas servem-lhe
de raios para as rodas,-  a capota
da asa de gafanhotos,- os tirantes, das teias mais sutis,- o colarzinho, de midos raios do luar prateado. O cabo do chicote  um p de grilo,- o prprio aoite, 
simples filamento. De cocheiro lhe serve um mosquitinho de casaco cinzento, que no chega nem  metade do pequeno bicho que nos dedos costuma arredondar-se das criadas 
preguiosas. O carrinho de casca de avel vazia, feito foi pelo esquilo ou pelo mestre verme,
que desde tempo imemorial o posto mantm de fabricante de carruagens para todas as fadas. Assim posta, noite aps noite ela galopa pelo crebro dos amantes que, 
ento, sonham com coias amorosas,- pelos joelhos dos cortesos, que com salamaleques a sonhar passam logo,- pelos dedos dos advogados, que a sonhar comeam com 
honorrios,- pelos belos lbios das jovens, que com beijos logo sonham, lbios que Mab, s vezes, irritada, deixa cheios de pstula, por v-los com hlito estragado 
por confeitos. Por cima do nariz de um palaciano por vezes ela corre, farejando logo ele, em sonhos, um processo gordo. com o rabinho enrolado de um pequeno leito 
de dzimo, ela faz coceiras no nariz do vigrio adormecido, que logo sonha com mais um presente. Na nuca de um soldado ela galopa, sonhando este com cortes de
pescoo, ciladas, brechas, lminas de Espanha e copzios bebidos  sade, de cinco braas de alto. De repente, porm, estoura pelo ouvido dele, que estremece e desperta
e, aterrorado, reza uma ou duas vezes e, de novo, pe-se a dormir.  a mesma Rainha Mab
que a crina dos cavalos enredada deixa de noite e a cabeleira grcil dos elfos muda em srdida melena que, destrancada, augura maus eventos.
132
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#HAROLD  BLOOM
Essa  a bruxa que, estando as raparigas
de costas, faz presso no peito delas,
ensinando-as, assim, como mulheres,
a agentar todo o peso dos mandos E ela, ainda..
[I .v]
Romeu o interrompe, pois, quando comea a falar, Merccio no pra Essa verso mercuciana da Rainha Mab ("Rainha", provavelmente, tem aqui o significado de "prostituta", 
e Mab refere-se a uma fada celta que muitas vezes se materializa em fogo ftuo) tem tudo a ver com a situao A Mab retratada por Merccio d  luz nossos sonhos 
erticos, amparando-nos no nascimento das nossas fantasias mais profundas, e parece possuir um charme infantil, em grande parte da descrio Mas sendo um exemplo 
perfeito do que D H Lawrence chamaria "sexo mental", Merccio prepara-nos para a revelao de Mab como um demnio noturno que engravida donzelas adormecidas Romeu 
o interrompe e diz "Falas de nada", a palavra "nada" significando, tambm, em gria elisabetana, vagina A vulgaridade obsessiva de Merccio  colocada por Shakespeare 
como contraste  exaltao mtua e sincera que Romeu e Julieta fazem de sua paixo No momento que precede o primeiro encontro de amor entre os amantes, Merccio 
se encontra no ponto mximo de sua exuberante obscenidade
Se amor  cego, nunca acerta no alvo
Agora vai sentar-se sob a fronde
de um nespereiro, a desejar que a amada
fosse a fruta que as jovens chamam nspera,
quando nem sozinhas O Romeu"
Se ela fosse um "Et cetera" realmente,
bem aberto, e tu, pra aucarada"
[Hi.]
Merccio refere-se a Rosalma, amada de Romeu antes de se apaixonar,  primeira vista, por Julieta, que, imediatamente, corresponde A nspera madura era conhecida 
popularmente por assemelhar-se 
134
ROMEU  E JULIETA
genitlia feminina  Trata-se de um preldio antittico  clebre cena concluda com o dstico de Julieta
Adeus, calca-me a dor com tanto af, que boa-noite eu diria at amanh
Merccio  totalmente descrente da religio do amor, sempre vulgar:
BENVLIO
Eis que surge Romeu, surge Romeu"
MERCCIO
Mas sem suas mlharas, seco como um bacalhau"  carne" Carnel Como ests peixificada" Agora ele s aprecia as consononcias derramadas por Petrarca Comparada com 
sua dama, Laura no era mais do que uma criada de cozinha - com a breca1 - mas teve um amante que sabia rim-la muito bem, Dido, uma lambisgia, Clepatra, uma 
cigana, Helena e Hero, bruxas e prostitutas, Tisbe, uma sujeitinha de olho cinzento [   ]
[Hiv]
Por mais obcecado que seja, Merccio tem classe para receber o ferimento mortal com galhardia comparvel a qualquer outro personagem shakespeanano
ROMEU
Coragem, homem" O ferimento no deve ser profundo
MERCCIO
No, no  to fundo quanto um poo, nem to largo quanto porta de igreja Mas  suficiente e quanto basta Perguntai por mim amanh, que haveis de encontrar-me bem 
quieto Para este mundo j estou salgado, posso afianar-vos" A peste em
vossas casas"
[in i]
Merccio, ao morrer, toma-se exatamente isso uma peste, tanto para Romeu e os Montecchio quanto para Julieta e os Capuleto, pois, a partir
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#HAROLD  BLOOM
ROMEU  E JULIETA
daquele momento, a tragdia se precipita rumo  dupla catstrofe final. Aqui Shakespeare j  Shakespeare, sutil, embora com certo excesso de lirismo. As duas figuras 
fatais da pea so os personagens mais divertidos e engraados, Merccio e a Ama. A agressividade de Merccio prepara terreno para a destruio do amor, ainda que 
no exista qualquer impulso negativo em Merccio, que morre em decorrncia de ironia trgica, pois a interveno de Romeu no duelo entre Tebaldo e Merccio  provocada 
pelo amor de Julieta, relacionamento esse que Merccio ignora totalmente. Merccio  vtima do que h de mais central na pea, mas morre sem saber sobre o que versar 
Romeu e Juheta - a tragdia do mais autntico amor romntico. Para Merccio, isso  bobagem: amor  uma nspera madura e uma pra. Morrer como mrtir do amor, por 
assim dizer, quando no se acredita na religio do amor, e nem se sabe por que se est morrendo,  uma ironia grotesca que prenuncia as terrveis ironias que havero 
de destruir Romeu e Julieta no desfecho da pea.
A Ama de Julieta, em que pese sua popularidade,  figura bem mais sinistra. Conforme Merccio, por dentro,  fria, mesmo com relao a Julieta, por ela criada desde 
pequena. Sua linguagem  cativante, tanto quanto a de Merccio, mas Shakespeare atribui a ambos ndoles que, em muito, diferem de suas exuberantes personalidades. 
A vulgaridade constante de Merccio  a mscara que pode esconder um homossexualismo reprimido e, assim como a violncia do personagem, pode indicar uma fuga com 
respeito  grande sensibilidade por ele demonstrada na fala em que discorre sobre a Rainha Mab, sensibilidade essa, eventualmente, degenerada em obscenidade. A Ama 
 ainda mais complexa Somos enganados pela aparente vitalidade e pela profuso vocabular, j na primeira fala:
[...] Pouco ou muito,
no importa. O que  certo  que no dia       .    ,
um de agosto completa quatorze anos.
Ela e Susana - Deus ampare as almas
crists! - eram da mesma idade. Bem,-
Susana est com Deus. Mas, como disse:
na noite de primeiro ela completa
quatorze anos. E certo: quatorze anos.
Lembro-me bem. Desde o tremor de terra,
onze anos se passaram. Desmamada
foi nesse tempo/ nunca hei de esquec-lo,
pois nos seios passado havia losna,
sentada ao sol, embaixo do pombal.
Vs e o patro em Mntua vos achveis -
Oh! Que memria a minha! - Mas, como ia
dizendo: quando ela sentiu o gosto
de losna no mamilo e o achou amargo -
coisinha tola! - como ficou brava!
como bateu nos seios! Nisso, "Crac!"
fez o pombal.
No foi preciso mais para eu mexer-me.
J se passaram, desde ento, onze anos.
De p, sozinha, ela j ento ficava.
Sim, pela Santa Cruz, podia mesmo
correr a cambalear por toda a casa,
pois no d"a anterior ferira a testa.
Foi quando meu marido - Deus conserve
sempre sua alma! Era de gnio alegre -
levantou a menina. "Sim", disse ele,
"cais agora de frente? Pois de costas
cairs, quando tiveres mais esprito.
No , Julu?" E, pela Santa Virgem,
parando de chorar, a pirralhinha
respondeu: "Sim". Uma pilhria fina
vem sempre a tempo. Juro que ainda mesmo
que mil anos eu viva, jamais hei de
me esquecer do episdio. Perguntou-lhe:
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#HAROLD  BLOOM
ROMEU  E JULIETA
"No , Julu?" E aquela pirralhinha, parando de chorar, respondeu: "Sim".
[I.iii.]
A fala  contundente, e no  to simples quanto possa parecer, chega a ser cortante, porque j aponta algo antiptico na Ama. Julieta, como a irm gmea falecida, 
Susana,  bem mais humana do que a Ama, e o relato do desmame incomoda-nos, visto que nele no percebemos sinais de amor.
Shakespeare adia a revelao da verdadeira natureza da Ama at a cena crucial em que a mesma decepciona Julieta.  preciso citar o dilogo na ntegra, pois o choque 
sofrido por Julieta representa um novo efeito em Shakespeare: a Ama  a pessoa mais prxima da jovem protagonista ao longo dos seus quatorze anos de vida, mas, subitamente, 
Julieta percebe que aquilo que parecia ser lealdade e carinho, na verdade,  outra coisa:
JULIETA
Oh Deus! O ama! Como evitar isso?
Tenho o esposo na terra, a f, no cu.
De que modo essa f poder vir-me "
de novo para a terra, a menos que ele
do cu ma envie, aps deixar a terra?
Conforta-me,- aconselha-me. Oh tristeza!
usar o cu de tais estratagemas
corn um ser to delicado! No me dizes
uma palavra, ao menos? Como pensas,
ama? Nenhum consolo? AMA
Sim, digo isto:
Romeu est banido,- o mundo todo
contra nada, em como ele no retorna
para vos reclamar. Mas ainda mesmo
que retorne, foroso  que isso seja
muito s ocultas. Ora, estando as coisas
nesse p, mais razovel me parece desposardes o conde. Oh! Que fidalgo to gracioso! Romeu, ao lado dele, no  mais do que um pano de cozinha. Uma guia, senhorita,
no tem olhos to penetrantes, verdes e bonitos como os de Paris. Quero que maldito fique meu corao, se venturosa no vos fizer este segundo esposo. De muito o 
outro ele vence,- e ainda mesmo que no vencesse, aquele j est morto, ou  como se estivesse, por viverdes aqui, sem uso algum fazerdes dele.
JULIETA
Falas de corao?
AMA
E tambm de alma.
JULIETA Amm.
AMA Como?
JULIETA
Soubeste consolar-me
maravilhosamente. Vai e dize
a minha me que por haver deixado
meu pai aborrecido, fui  cela
de frei Loureno, com o fim de confessar-me
para ser absolvida.
AMA
Dir-lhe-ei isso,- procedeis bem.
JULIETA
Oh velha amaldioada!
Oh demnio perverso! Que pecado
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#HAROLD   BLOOM
ser maior.- querer-me ver perjura, ou insultar meu senhor com a mesma boca que o exaltou sobre tudo neste mundo tantos milhes de vezes? Conselheira, podes ir. 
Dora em diante, separados tu e meu peito estais. you ver o monge. Dar-me- remdio. Vindo a falhar tudo, porei na morte todo meu estudo.
[in.v.;
As tocantes palavras "usar o cu de tais estratagemas / com um ser to delicado!" encontram o cruel "conforto" da Ama: "De muito o outro ele vence,- e ainda mesmo 
/ que no vencesse, aquele j est morto". O argumento da Ama  vlido somente se o interesse estiver acima de tudo,- uma vez que Julieta est apaixonada, ouvimos, 
de sua parte, a veemente rejeio da Ama, iniciando com o expressivo "Amm", e prosseguindo com o seco: "Soubeste consolar-me / maravilhosamente". A Ama , de 
fato, "velha amaldioada! / Oh demnio perverso!", e no voltaremos a ouvir-lhe a voz at o momento da primeira morte de Julieta na pea. Tanto quanto Merccio, 
a Ama leva-nos a desconfiar de todo e qualquer valor aparente na tragdia, exceto do compromisso mtuo dos amantes.
Na segunda morte de Julieta, no na morte de Romeu, e nem mesmo de Bruto, em Jlio Csar, temos o prenuncio do esplendor carismtico de Hamlet. Embora bastante mudado 
sob a influncia de Julieta, Romeu permanece sujeito  ira e ao desespero, sendo to responsvel pela catstrofe quanto Merccio e Tebaldo. Ao matar Tebaldo, Romeu, 
aos gritos, afirma ter- se tornado o "bobo da fortuna". Muito estranharamos, se Julieta se considerasse a "boba da fortuna", pois ela  to capaz quanto a situao 
o permite,- vem-nos  mente sua prece concisa: "S volvel, fortuna". Talvez o que os espectadores ou leitores mais se recordem seja
140
ROMEU  E JULIETA
a cano da madrugada entoada por Romeu e Julieta aps a sua nica noite de amor:
JULIETA
J vais partir? O dia ainda est longe.
No foi a cotovia, mas apenas
o rouxinol que o fundo amedrontado
do ouvido te feriu. Todas as noites
ele canta nos galhos da romeira.
 o rouxinol, amor,- cr no que eu te digo. ROMEU
 a cotovia, o arauto da manh,-
no foi o rouxinol. Olha, querida,
para aquelas estrias invejosas
que cortam pelas nuvens do nascente.
As candeias da noite se apagaram,-
sobre a ponta dos ps o alegre dia
se pe, no pico das montanhas midas.
Ou parto, e vivo, ou morrerei, ficando. JULIETA
No  o dia aquela claridade,
podes acreditar-me.  algum meteoro
que o sol exala, para que te sirva
de tocheiro esta noite e te ilumine
no caminho de Mntua. Assim, espera.
No precisas partir assim to cedo.   t ROMEU
Que importa que me prendam, que me matem?
Serei feliz, assim, se assim o quiseres.
Direi que aquele ponto acinzentado
no  o olho do dia, mas o plido
reflexo do diadema da alta Cntia,
e tambm que no foi a cotovia,
cujas notas a abbada celeste
141
#HAROLD  BLOOM
to longe ferem sobre nossas frontes.
Ficar  para mim grande ventura,-
partir  dor. Vem logo, morte dura!
Julieta quer assim. No, no  dia. JULIETA
 dia,- foge! A noite se abrevia.
Depressa!  a cotovia, sim, que canta
desafinada e rouca, discordantes
modulaes forando e insuportveis.
Dizem que ela  s fonte de harmonia/
no  assim, pois ora nos divide.
H quem diga que o sapo e a cotovia
mudam os olhos. Oh! Quisera agora
que ambos a voz tambm trocado houvessem,
pois ela nos separa e, assim to cedo,
como grito de caa mete medo.
Oh vai! A luz aumenta a cada instante. ROMEU
A luz? A escurido apavorante.
[III.v.]
Extremamente belo, o trecho constitui o eptome da tragdia contida nessa tragdia, pois a pea pode ser apreendida como uma cano da madrugada, um lamento, cantado 
fora de hora. Uma platia embevecida, a no ser pelo trabalho de um diretor competente, pode ficar um tanto ctica diante do fato de que os eventos se sucedem da 
maneira mais inoportuna possvel. A cano da madrugada de Romeu e Julieta  desconcertante exatamente porque os dois no so iniciados nas artimanhas do amor corts, 
e no se comportam de acordo com um ritual estilizado. O amante corts, caso se demore demais, confronta a possibilidade da morte, porque a parceira  uma esposa 
adltera. Mas Romeu e Julieta sabem que morte aps o alvorecer seria a punio de Romeu, no por adultrio, mas por haver se casado. O atrevimento sutil do drama 
criado por Shakespeare resulta do fato de que tudo est contra
142
ROMEU  E JULIETA
os amantes: as famlias e o Estado, a indiferena da natureza, o capricho do tempo, e o movimento regressivo dos opostos cosmolgicos, amor e dor. Mesmo que Romeu 
tivesse controlado a ira, mesmo que Merccio e a Ama no fossem briges e intrometidos, a chance de o amor triunfar seria muito pequena. Esse  o subtexto da cano 
da madrugada, tomado explcito na queixa de Romeu: "A luz? A escurido apavorante".
O que pretendia Shakespeare, o dramaturgo, alcanar com a criao de Romeu e Julieta"? No foi fcil para Shakespeare dominar a tragdia, mas nem todo o lirismo 
e a comicidade dessa pea foram capazes de adiar o alvorecer e a destruidora escurido que se seguiria. com pequenas modificaes, Shakespeare poderia ter transformado 
Romeu e Julieta numa pea alegre como Sonho de uma Noite de Vero. Os jovens amantes, fugindo para Mntua ou Pdua, no teriam sido vtimas de Verona, nem de falta 
de cronometragem, nem de opostos cosmolgicos. Mas esse tipo de expediente seria intolervel, para ns e para Shakespeare: a paixo arrasadora entre Romeu e Julieta 
no combina com comdia. A sexualidade, por si s, condiz com a comdia, mas a sombra da morte faz do erotismo o companheiro da tragdia. Shakespeare, em Romeu 
e Julieta, evita a ironia chauceriana, mas toma emprestado ao Conto do Cavaleiro a idia de que somos levados a comparecer a encontros que no marcamos. Na pea 
em questo, temos o encontro sublime, entre Paris e Romeu, diante do suposto tmulo de Julieta, que, em breve, tomar-se- um verdadeiro mausolu. O que resta sobre 
o palco ao final dessa tragdia  um pathos absurdo: o infeliz Frei Loureno, um medroso que abandonara Julieta,- um Montecchio vivo, que promete erguer uma esttua 
de Julieta em ouro macio,- os Capuletos, que juram pr um fim  rixa que j custou cinco vidas - Merccio, Tebaldo, Paris, Romeu e Julieta. Em qualquer produo 
de Romeu e Julieta que se preze, a cortina deve descer enfatizando essa ironia final, apresentada como tal, e no como imagem de reconciliao. Conforme, mais tarde, 
em Jlio Csar, Romeu e Julieta  campo de treinamento, onde Shakespeare aprende a se despojar do remorso, e abre caminho para suas cinco grandes tragdias, a comear 
pelo Hamlet de 160O-1601.
143
#JLIO  CSAR
Assim como tantos outros da minha gerao, nos Estados Unidos, li, aos doze anos, ainda na escola primria, Jlio Csar. Foi a primeira pea de Shakespeare que li
e, embora pouco tempo depois tenha descoberto Macbetb e, ao longo dos dois anos que se seguiram, o restante da obra shakespeariana, voltar a Jlio Csar , para 
mim, sempre uma experincia notvel. Por ser to bem-feita, to direta e, relativamente, simples, a pea, na minha infncia, era muito utilizada na escola. Porm, 
hoje em dia, quanto mais a releio e a analiso em sala de aula, ou a vejo encenada, mais sutil e ambgua ela me parece, no em termos de enredo, mas de personagens.
E bastante difcil entender a atitude de Shakespeare com relao a Bruto, Cssio e ao prprio Csar, mas nisso consiste um dos pontos fortes da pea. Digo "ao prprio 
Csar", mas o papel de Csar  coadjuvante, numa pea que poderia ser intitulada A Tragdia de Marco Bruto. Sendo Csar uma figura histrica to clebre, e o personagem 
mais nobre da trama, Shakespeare  obrigado a tomar-lhe emprestado o nome ao ttulo da pea. Os personagens de maior destaque nas duas partes de Henrique IV so 
Falstaff e Hal, mas a srie tem por ttulo o nome do monarca que regia  poca, sendo essa a prtica corrente de Shakespeare. com efeito, Csar aparece em apenas 
trs cenas, fala menos de cento e cinqenta versos, e  assassinado na primeira cena do terceiro ato, exatamente no meio da pea. Todavia, Csar est presente
JLIO  CSAR
em toda a pea, conforme atesta Bruto diante de Cssio, morto pelas prprias mos:
Jlio Csar, ainda s poderoso! Teu esprito vaga pela terra e faz virar nossas espadas contra nossas prprias entranhas.
Para Hazlitt, Jlio Csar suscitava "menos interesse do que Coriojno", e muitos estudiosos contemporneos so da mesma opinio,- no  o meu caso. Coriolano, conforme 
Hazlitt, antes de qualquer outro crtico, demonstrou,  uma reflexo profunda sobre poltica e poder, mas o fascnio do protagonista se deve mais ao apuro em que 
o mesmo se encontra do que  sua limitada conscincia. Bruto  o primeiro intelectual shakespeariano, e os enigmas da sua natureza so multiformes. Hazlitt foi o 
primeiro a observar que o Jlio Csar criado por Shakespeare no corresponde "ao retrato apresentado pelo Csar histrico em seus Comentrios", observao repetida 
por George Bernard Shaw, em tom mais severo:
Nem mesmo o crtico mais equilibrado pode evitar a sensao de repulsa e desprezo diante dessa pardia, em que um grande homem  apresentado como um tolo fanfarro, 
enquanto o bando de malfeitores miserveis que o destroem so aclamados como estadistas e patriotas. O Jlio Csar de Shakespeare no pronuncia uma frase sequer 
digna do personagem histrico.
Shaw preparava-se para escrever Csar e Clepatra (1898), que no sobreviveu a um sculo, enquanto Jlio Csar sobrevive h quatro. A pea de Shakespeare tem as 
suas falhas, mas a de Shaw tem pouco alm de falhas. A fonte de Shakespeare, i.e., a traduo que North fizera de Plutarco, no mostra um Csar em declnio, com 
grande viso, Shake-
" Jtiio Csar e Antnio e Qfpatra. Traduo de Carlos Alberto Nunes. Volume IX. So Paulo: Edies Melhoramentos, s.d. Todas as citaes referem-se a essa edio. 
[N.T.]
145
#HAROLD   BLOOM
speare decide que a pea requer, precisamente, um Csar em decadncia, uma mistura mais do que plausvel de grandeza e fraqueza.
Mesmo representado de maneira persuasiva, esse Csar  de difcil compreenso. Por que  to fcil, para os conspiradores, assassin-lo? O poder de Csar , praticamente, 
absoluto/ o que foi feito de seu aparato de segurana? Onde est sua guarda pessoal? Podemos at aventar que esse Jlio Csar, de certa maneira, busca o martrio, 
como meio de alcanar, a um s tempo, uma espcie de santidade e o permanente estabelecimento do Imprio. Contudo, o tema permanece ambguo, tanto quanto a questo 
do declnio. Shakespeare no baseia Jlio Csar na viso de Plutarco, mas na afeio que nutrem pelo lder no apenas Marco Antnio e o povo romano, como, tambm,
o prprio Bruto, que sente por Csar amor filial, e a quem Csar tanto estima. O que Bruto nos transmite de uma maneira, Antnio o faz de outra, e Cssio, de uma
terceira, com fora negativa: a grandeza de Csar no est em questo, apesar de decadente, e apesar da reao que possamos ter com respeito  sua ambio de se 
fazer rei.
Csar  a figura mais grandiosa representada por Shakespeare ( exceo, talvez, de Otvio, tanto em Jlio Csar como em Antnio e Ckpatra). Entretanto, Otvio 
ainda no  Augusto Csar, e Shakespeare evita conferir-lhe grandeza, em ambas as peas, chegando mesmo a tom-lo um tanto antiptico, uma espcie de poltico extremamente 
bem-sucedido. Embora, s vezes, tolo, e mesmo presunoso, o Jlio Csar de Shakespeare  um personagem dotado de imensa simpatia, ao mesmo tempo, benvolo e perigoso. 
Naturalmente,  autocentrado, sempre consciente de ser um Csar, talvez, j ciente de seu endeusamento. E embora, em dados momentos, tenha dificuldade de enxergar 
o que se passa  sua volta, a avaliao que faz de Cssio toma-o melhor observador de um determinado ser humano em toda a obra shakespeariana:
CSAR
Antnio! ,   ^
ANTNIO
Csar!
146
JLIO  CSAR
CSAR
Ao meu lado s quero gente gorda, pessoas de cabelos luzidios, que durmam toda a noite. Aquele Cssio  seco por demais,- inculca fome, pensa muito.  indivduo 
perigoso.
ANTNIO
No tenhas medo dele,- no  homem perigoso, seno romano nobre e bem-intencionado.
CSAR Desejara
que no fosse to magro. Pouco importa! No o temo. Contudo, se meu nome comportasse algum medo, no conheo ningum a que evitar eu procurasse como esse magro Cssio, 
que l muito. E um grande observador e possui vista que devassa as razes dos nossos atos,- no aprecia o teatro, como o fazes, Antnio, nem se apraz em ouvir msica. 
Raramente sorri, e de tal modo sempre o faz, que parece estar zombando de si mesmo, por ter-se comovido a ponto de sorrir por qualquer coisa. Indivduos assim nunca 
se sentem bem ao lado de algum maior do que eles, sendo por isso muito perigosos. Digo-te antes o que  para temer-se, no o que temo, pois sou sempre Csar. Pe-te 
 minha direita, pois no ouo bem deste ouvido, e dize-me o que pensas a seu respeito, usando de franqueza.
[I..]
147
#HAROLD   BLOOM
Csar est certo e Antnio, errado,- dificilmente, Shakespeare poderia encontrar uma maneira mais eficaz de demonstrar a agudeza psicolgica que faz de Csar um 
grande poltico e um grande soldado. No entanto, a mesma fala indica pelo menos uma entre diversas enfermidades iminentes - a surdez -, alm da tendncia de Csar 
de falar de si na terceira pessoa. Cssio, como tantos romanos epicuristas, em ltima anlise,  puritano e nutre ressentimento, devido  infelicidade de contemplar 
uma grandeza que est fora de seu alcance. Bruto, estico, no inveja o esplendor de Csar, mas teme o poder ilimitado, mesmo quando exercido pelo responsvel e 
racional Csar. O solilquio em que tal temor  expresso  o que h de melhor no gnero na obra de Shakespeare at ento, sendo de uma sutileza emocionante, especialmente 
no trecho em itlico:
BRUTO
Preciso  que ele morra. Eu, por meu lado,
razo pessoal no tenho para odi-lo,
afora a do bem pblico. Deseja
ser coroado. At onde influir isso
em sua natureza, eis a questo.
 o dia claro que as serpentes chama,
aconselhando-nos a andar com jeito.
Ele, coroado? Sim, mas  certeza
corn isso darmos-lhe um ferro, que o deixa
capaz de realizar o mal que entenda.
A grandeza exorbita, quando aparta
da conscincia o poder. Para ser franco
corn relao a Csar, nunca soube
que as paixes ou a razo nele tivessem
qualquer preponderncia. Mas  coisa
sabida em demasia que a humildade
para a ambio nascente  boa escada.
Quem ascende por ela, olha-a de frente,-
mas, uma vez chegado bem no cimo,
148
JLIO   CSAR
volta-lhe o dorso, e as nuvens, s, contempla,
desprezando os degraus por que subira.
Csar assim far. Antes que o faa,
ser bom prevenir. E, como a luta
no poder alegar o c\m ele  agora,
argumentemos que se a sua essncia
vier a ser aumentada,  bem possvel
que incorra em tais e tais extremidades.
Consideremo-lo ovo de serpente
que, chocado, por sua natureza,
 se tornar nocivo. Assim, matemo-lo,
enquanto est na casca.
[Il-i.]
Uma coisa  especular, "Csar assim far" e prosseguir, "Antes que o faa, / ser bom prevenir". Mas  chocante que Bruto incorra, abertamente, em auto-engano: 
"E, como a luta / no poder alegar o cjue ele  agora, / argumentemos". Isso  admitir que no h queixa plausvel contra Csar,- "argumentemos" quer dizer inventar 
uma fico e, em seguida, consider-la vivel. Csar, contrariando toda sua carreira, tomar-se- um tirano irracional e opressor, apenas porque Bruto assim o cr.
Por que haveria Bruto de construir tal fico? Fora a instigao de Cssio, Bruto parece necessitar do papel de lder da conspirao pela morte de Csar. A obra 
de Freud Totem e Tabu poderia ser considerada uma reescritura de Jlio Csar-, o pai-totem deve ser morto, seu corpo dividido e devorado pelos filhos. Embora o sobrinho 
de Csar, Otvio, seja seu filho adotivo e herdeiro, consta que Bruto fosse filho natural de Csar, e muitos estudiosos apontam as semelhanas que Shakespeare estabelece 
entre os dois. Rejeito, com firmeza, a identificao feita por Freud entre Hamlet e dipo,- Bruto, e, mais tarde, Macbeth so os que manifestam ambivalncia com 
relao  figura do pai governante.
O patriotismo de Bruto, em si, encerra uma espcie de falha, pois sua identificao com Roma  exagerada - tanto quanto a de Csar.  incrvel que Bruto, ao aguardar 
a visita noturna de Cssio e demais cons-
149
#HAROLD   BLOOM
piradores, de repente, encarne a profecia de Macbeth, enunciando um solilquio que mais parece pertencer ao primeiro ato da "pea escocesa":
BRUTO
[...] Entre a realizao de algum projeto pavoroso e a primeira idia dele, o intervalo  um fantasma, um sonho horrvel. O gnio e os mortais rgos permanecem 
em conselho, ficando o estado do homem, como um pequeno reino, a sofrer todos os males inerentes s revoltas.
[H..]
Por um momento, Bruto pressagia a imaginao prolptica de Macbeth, e "o estado do homem" encontrar eco na fala de Macbeth, na terceira cena do primeiro ato: "Meu 
pensamento, onde o assassnio  ainda/Projeto apenas, move de tal sorte/A minha simples condio humana". Macbeth no tem a fora do racionalismo de Bruto/ Bruto 
no tem a imaginao fantstica do rei escocs, mas, aqui, os dois quase se fundem. A diferena  que o "estado do homem", em Bruto,  menos assessorado, mais isolado 
do que em Macbeth. Macbeth  agente de foras sobrenaturais que transcendem Hcata e as bruxas. Bruto, intelectual estico, no ser afetado por foras sobrenaturais, 
mas pelo confronto com sua prpria ambivalncia. O amor que sente por Csar apresenta um elemento mais negativo e obscuro do que o ressentimento que Cssio alimenta 
pelo mesmo Csar. Para esconder o sentimento ambivalente que nutre por Csar, Bruto decide acreditar na fico bastante improvvel de que, uma vez coroado, Csar 
viesse a  se tornar um outro Tarquino. Mas tal fico no transparece na fala final de Csar, ao recusar o pleito hipcrita dos conspiradores, pelo retorno de um
exilado:
CSAR
Se eu fosse vs, pudera comover-me.
Macbeth. Traduo de Manuel Bandeira. Segunda EdiSo. SloPaulo: Editora Brasiliense,
1989, p. 19. [N.T.]
150
JLIO   CSAR
Se eu soubesse pedir, tambm seria malevel aos pedidos. Mas sou firme como a estrela do norte, cuja essncia constante e inabalvel no encontra paralelo no vasto 
firmamento. Ornam os cus inmeras fascas, de fogo todas e indizvel brilho,- mas uma apenas de lugar no muda. Assim, no mundo: de homens est cheio, homens de 
carne e sangue e inteligncia. Mas, em tamanha cpia, um, s, conheo que, inatacvel, seu lugar no deixa, sempre surdo a pedidos: sou esse homem. Deixai-me, pois, 
mostrar agora um pouco que, ao banir Cimber, fui constante, como constante sou, no exlio conservando-o.
[IH.i.]
Alguns crticos consideram a atitude de Csar absurda, arrogante, mas  absolutamente autntica. Csar idealiza a si mesmo, mas a sua percepo est correta. No 
mundo a que pertence, ele  a estrela do norte, e seu governo depende, em parte, de constncia. A essncia dessa fala  a exaltao de uma hierarquia natural tomada 
poltica. Csar no tem superiores naturais, e sua condio intrnseca o leva a aspirar  ditadura. Os cticos podem achar que, na verdade, a questo poltica aparece 
aqui mascarada como sendo a natural, mas naturalidade  o grande dom de Csar, to invejado por Cssio. Na pea, Jlio Csar, e no Bruto ou Cssio,  o artista 
livre de si mesmo, na vida e na morte. A impresso subjacente do pblico de que Csar  o dramaturgo provoca a desconcertante sensao de que a sua morte  um auto-sacrifcio, 
em nome dos ideais do Imprio. Considero a sensao desconcertante porque reduz Bruto, cuja histria, nesse caso, deixa de ser trgica. Chego a achar que o prprio 
Shakespeare - especialista em reis, idosos e fantasmas - atuasse como Jlio Csar. Csar quer a coroa e (segundo
15!
#HAROLD   BLOOM
Plutarco, na traduo de North) novas conquistas na Partia,- Shakespeare est s vsperas de escrever as grandes tragdias: Hamlet, Otelo, Rei Lear, Macbetb e Antnio 
e Clepatra. O relativo distanciamento do dramaturgo em Jlio Csar permite uma concentrao interna de foras, talvez, conforme o prprio Csar concentrava-se antes
de empreender uma conquista. Cesarismo e tragdia triunfam juntos. Os verdadeiros derrotados da pea so Bruto e Cssio, e no Csar, e os vencedores no so Marco
Antnio e Otvio, que surgem para o confronto cosmolgico que ocorrer em Antnio e Clepatra. Csar e Shakespeare so os vencedores/  correto que a fala mais conhecida
da pea celebre a grandeza de Csar:
CSAR
Muito antes de morrer, morre o covarde,- s uma vez o homem forte prova a morte. Das coisas raras que tenho cincia, sempre me pareceu a mais estranha terem os homens
medo, embora saibam que a morte, um fim a todos necessrio, vem quando vem.
[Il.ii.]
No se trata, exatamente, da posio de Hamlet, quando afirma "o estar pronto  tudo", pois Hamlet refere-se a algo mais ativo,  determinao do esprito mesmo
quando o corpo fraqueja. Csar, apostando na eternidade, recorre a uma retrica que est abaixo dele, e que Hamlet teria satirizado:
CSAR
Os deuses fazem isso
para vergonha, s, da covardia.
Csar fora animal sem corao,
se hoje, de medo, no sasse  rua.
No,- Csar vai sair. Sabe o perigo
que mais do que ele  Csar perigoso.
Somos dois lees, nascidos num s dia,-
152
JLIO   CSAR
mas o mais velho eu sou e o mais terrvel.
Csar sair.
[Il.ii.]
O tom bombstico, de que Ben Jonson faria troa, possui aqui uma funo importante: impedir que Csar  se torne um personagem to apreciado que o ato de Bruto provoque
o nosso antagonismo.  difcil caracterizar o Bruto criado por Shakespeare. Consider-lo heri-vilo seria um equvoco flagrante,- Bruto nada tem de marloviano.
Contudo, parece arcaico, to arcaico quanto Jlio Csar, se contrastado com Marco Antnio e Otvio. Um heri trgico de carter estico talvez seja algo impossvel.
Tito Andrnico, ao contrrio do que muitos crticos pensam, no seria um exemplo, como vimos anteriormente. Bruto procura colocar a razo acima da emoo, mas, na
prtica, apunhala Csar (segundo alguns, nas partes ntimas) e, em seguida, confronta a primeira reao do povo - "Que Csar ele seja!" -, aps ter explicado por
que matou Jlio Csar, caro amigo seno pai, embora menos caro a ele do que a Roma.
Bruto  um enigma extremamente interessante, para Shakespeare e para ns. Chamar Bruto de esboo de Hamlet  destruir o pobre Bruto, que no possui sequer vestgios
de espirituosidade, despojamento, ou carisma, embora todos na pea o considerem o tpico romano carismtico, no estilo de Csar. Marco Antnio tem muito mais energia,
e Cssio, mais intensidade,- porm, quem - e o que -  Bruto? Se partisse dele prprio, a resposta seria: Bruto  Roma, Roma  Bruto, o que, a um s tempo, revela-nos
muito e quase nada. A "honra" romana  encarnada em Bruto,- mas no estaria, tambm, presente em Jlio Csar? Csar  um poltico,- Bruto toma-se lder de uma conspirao,
exemplo extremo de poltica. E, no entanto, Bruto no tem a capacidade de se desenvolver,- uma estranha cegueira o domina at o fim:
Compatriotas,
o corao me salta de alegria
pelo fato de nunca haver achado
ningum que no me houvesse sido fiel.
153
HAROLD  BLOOM
Essas vinte palavras so bastante comoventes,- porm, levam a platia a indagar foste fiel a Jlio Csar? com toda certeza, Bruto est mais atormentado do que admite,- 
suas palavras antes de morrer so:
Csar, podes
acalmar-te,- contente a morte aceito,
como no instante de ferir-te o peito.
[V.v.]
Cssio morre, no no mesmo esprito, mas com uma declarao semelhante:
Csar, foste vingado, justamente
corn a mesma espada que te deu a morte.
[V.iii.]
O fantasma de Csar identifica-se para Bruto, num momento genial, como "O esprito do mal, Bruto",- com efeito, Csar e Bruto tm o mesmo esprito.  possvel que 
Shakespeare no considerasse nocivo o esprito do cesarismo, mas deixou a questo um tanto ambgua: "Estamos contra o esprito de Csar", Bruto afirma, instigando 
os conspiradores no segundo ato,- mas ser que esto mesmo? Sero capazes disso? A inclinao poltica de Shakespeare, tanto quanto a religiosa, permanece desconhecida. 
Tenho as minhas suspeitas de que Shakespeare no professasse poltica nem religio, possuindo apenas uma viso do que era menos ou mais humano. O Jlio Csar shakespeariano 
, ao mesmo tempo, inteiramente humano e, conforme ele prprio percebe, mais que humano, um deus mortal. Sua genialidade - na Histria, em Plutarco e em Shakespeare 
- foi fundir-se com Roma. Bruto tenta em vo fundir-se com Roma, e permanece Bruto, pois Csar apoderou-se de Roma para sempre. A meu ver, parte da ironia da pea 
advm da insinuao de que nenhum romano, em s conscincia, seria capaz de confrontar o esprito de Csar, assim como ingls algum poderia confrontar o esprito 
de Elisabete. Roma estava mais do que pronta para o cesarismo, assim como a Inglaterra e a Esccia o estavam para o
154
#JLIO CSAR
absolutismo Tudor-Stuart. Harold Goddard designa Falstaff, Rosalinda e Hamlet representantes de Csar,- Falstaff refere-se ao "romano de nariz adunco", Rosalinda 
fala da "fanfarronada hiperblica de Csar", com sua gabolice, "Cheguei, vi e venci",- e Hamlet, no cemitrio, compe um epitfio irreverente:
Csar, imperador, morto e em barro mudado Poderia vedar um furo contra o vento.
Essa terra que ps o mundo apavorado Vai tapar na parede um sopro friorento!
Caso Shakespeare se identificasse com alguns de seus personagens, esses trs seriam bons candidatos, mas isso no nos aproximaria de Csar e Bruto. De qualquer 
maneira, no concordo com a opinio dos estudiosos com respeito s inclinaes polticas de Shakespeare, e nenhum personagem em Jlio Csar  bem-sucedido. Csar 
desintegra-se, Bruto  sempre confuso, e temos pouca escolha, entre Cssio, de um lado, e Marco Antnio e Otvio, do outro: so todos polticos mesquinhos. Supostamente, 
Bruto e Cssio defendem a Repblica Romana, mas seus planos culminam na chacina de Csar,- seu grito de "Independncia, liberdade e ordem!"  ridculo. Bruto, o 
romano mais nobre do grupo, como sabemos,  inepto na exortao feita diante do corpo de Csar, especialmente, ao dizer para o povo.- "Por me haver amado Csar, 
pranteio-o", e no "Por amar Csar". A exortao de Marco Antnio, verdadeira obra-prima, talvez seja o trecho mais famoso de Shakespeare, mas , tambm, meio caminho 
andado na direo de lago. No me sai dos ouvidos o mais belo floreio retrico de Antnio:
(...) Que queda essa,
caros concidados! Eu, vs, ns todos
nesse instante camos.
[III..]
Himlf e Macbetb. Tradues de Anna Amlia Carneiro de Mendona e Barbara Heliodora. Segunda Edio Rio de Janeiro. Editora Nova Fronteira, 1995, p. 154. [N.T.]
155
#HAROLD   BLOOM
Eis o maior triunfo de Csar a promulgao de seu mito, por meio da perigosa eloqncia de Antnio Na morte, Csar devora toda Roma
Ao final da pea, Bruto, com motivao ambivalente e "nobre", ter morto Csar, Antnio, por vingana e sede de poder, ter criado uma comoo  moda de lago "Desgraa, 
ests de p, toma ora o curso / que bem te parecer""
Sempre cauteloso com um poder estatal que havia executado Marlowe, torturado e causado a morte precoce de Kyd, Shakespeare faz uma pilhria sutil na cena em que 
a multido enfurecida arrasta Cma, o poeta, por um engano de identidade "Despedaai-o por causa de seus maus versos", afirmam, e Cma tem o mesmo destino de Marlowe 
e Kyd Shakespeare, a despeito de tendncias polticas, no queria ser despedaado por causa de seus versos, bons ou maus Jlio Csar sempre foi - e ser - uma pea 
propositadamente ambgua
A Tragdia e Jlio Csar  um drama muito bem construdo, de extraordinrio contedo potico, contudo,  considerada fria por inmeros especialistas O maior de 
todos, Samuel Johnson, observou, com perspiccia, que Shakespeare se submete ao tema
Nessa tragdia, vrios trechos merecem ateno, e a contenda e reconciliao de Bruto e Cssio so celebradas universalmente Em mim, porm, a trama jamais causou 
grande comoo, chego a consider-la um tanto fria e incua, comparada a outras peas de Shakespeare, a maneira com que Shakespeare se prende  Histria e aos costumes 
romanos parece haver bloqueado o vigor natural de sua genialidade
Johnson estava absolutamente certo, em Jlio Csar, algo inibiu Shakespeare, embora no creio que tal mibio tenha sido causada pela traduo de Plutarco feita 
por North, nem pelo estoicismo romano  preciso buscar outras causas, talvez, a questo do assassinato de um tirano, conforme sugeriu Robert Miola Na poca em que
Shakespeare
JLIO   CSAR
escrevia a pea, papas j haviam excomungado Ehsabete, e catlicos conspirado sua morte O Csar de Shakespeare  um tirano benigno, comparado ao terror institucionalizado 
que advir com Antnio e Otvio  possvel que Shakespeare, sutilmente, esteja demarcando os limites do julgamento da tirania quem pode estabelecer se um monarca 
 ou no  um tirano? O povo se comporta como turba e, na guerra civil que se segue  morte de Csar, em agressividade, ambos os lados so piores do que Csar, o 
que, na prtica, sugere um certo apoio a Ehsabete No entanto, no se pode afirmar que a controvrsia a respeito do assassinato de um tirano tenha sido o fator que 
inibiu Shakespeare na pea em discusso, por mais cauteloso que o dramaturgo fosse quanto  possibilidade de desagradar o poder estatal
A meu ver, a pea apresenta uma curiosa carncia, desejamos - e precisamos - saber mais sobre a relao entre Csar e Bruto do que Shakespeare nos oferece Csar 
aceita a morte, quando Bruto, o seu Bruto, desfere o golpe fatal "Ento, que morra Csar"" Plutarco confirma o rumor espalhado por Suetnio, de que Bruto era filho 
natural de Csar Surpreendentemente, Shakespeare no faz uso dramtico dessa fascinante possibilidade, e, decerto, devemos indagar por qu" Shakespeare est to 
distante de querer invocar a relao entre pai e filho (conhecida por todos na platia que, como ele, tivessem lido Plutarco na traduo feita por North), que no 
permite grandes contatos entre Csar e Bruto antes da cena do assassinato O nico encontro anterior  absurdamente banal Csar pergunta que horas so, Bruto responde 
que so oito horas da manh, e Csar agradece a Bruto "pelo trabalho e cortesia"" As palavras seguintes sero as ltimas que trocaro Bruto ajoelha-se e beija as 
mos de Csar ("sem hsonja", vaidoso, ele insiste), como parte do dissimulado pleito pelo fim do exlio de Pblio Cmber Csar, chocado, exclama "Como" Bruto1", 
e mais tarde observa que nem mesmo Bruto fora capaz de demov-lo "Bruto no se ajoelhou sem obter nada"" Portanto, a relao entre Csar e Bruto no constitui, para 
Shakespeare, um ponto de partida, antes, o dramaturgo a evita, como se a mesma viesse a complicar, desnecessariamente, a tragdia de Csar - e a tragdia de Bruto
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#HAROLD   BLOOM
Shakespeare teria cometido aqui um de seus raros erros, pois, se atentar bem, a platia percebe uma certa falha na pea, conforme, a meu ver, o fez Samuel Johnson 
Bruto, no solilquio do pomar e em outros momentos, deixa transparecer uma ambivalncia com respeito a Csar, o que Shakespeare no chega a desenvolver Caso temesse 
somar parncdio a regicdio, o dramaturgo deveria ter desenvolvido, de alguma outra maneira, a forte ligao existente entre Csar e Bruto, mas no o faz No discurso 
durante os funerais de Csar, Antnio diz que Bruto era "o anjo" de Csar (seu querido, talvez, at seu conselheiro), e acrescenta que o povo estava ciente de tudo 
isso, mas no chega a indicar por que Bruto era to caro a Csar Decerto, o povo romano na ao da pea, assim como a platia, tinha conhecimento do elo que existia 
entre os dois homens E como se o prprio Edmundo, em Rei Lear, arrancasse os olhos de Gloster
 possvel que a ausncia do desenvolvimento da relao entre Csar e Bruto tenha decepcionado Shakespeare tanto quanto a ns, e que essa deficincia explique a 
frustrao que a pea nos causa De qualquer maneira, a relao misteriosa entre Csar e Bruto faz com que Bruto, e no Otvio, parea ser o herdeiro legtimo de 
Csar Sem dvida, Bruto possui grande auto-estima, bem como uma noo de destino que vai alm da linha de descendncia do Bruto que expulsou os Tarquinos Se souber 
que, na verdade, no  um Bruto, mas um Csar, Bruto possuir redobrado orgulho e ambivalncia Embora, aps o assassinato de Csar, Bruto afirme que "a dvida / 
da ambio j foi paga", este parece estar pensando numa outra dvida Shakespeare no exclui (nem inclui) tais possibilidades Mas uma relao entre pai e filho seria 
a melhor explicao para elucidar a ambigidade de Bruto Volto  pergunta por que Shakespeare no desenvolve tal relao na pea?
Pelo menos, o relacionamento dana a Bruto um motivo de carter pessoal para se deixar seduzir pela conspirao de Cssio, motivo esse, talvez, aberto  especulao 
infinita O patriotismo  o tema que cerca Bruto, a funo do personagem  salvar do cesansmo uma Roma mais antiga e nobre Shakespeare recusa-se a colocar em evidncia 
a razo pela qual Bruto seria "o anjo" de Csar, mesmo sendo a tcnica da
158
JLIO  CSAR
"evidenciao", conforme mais tarde pretendo demonstrar, um aspecto central da originalidade shakespeanana, o elemento mais elptico da arte de Shakespeare Ao evitar 
pr em evidncia, ou sequer sugerir, o motivo pelo qual Bruto seria "o anjo" de Csar, o dramaturgo permite que, ao menos, a elite entre os espectadores imagine 
ser Bruto filho natural de Csar Sendo Cssio cunhado de Bruto, presume-se que esteja a par desse fato, o que confere um cunho especial  clebre fala em que consegue 
a adeso de Bruto
CSSIO
Ele cavalga, amigo, o mundo estreito
como um outro Colosso, enquanto os homens
pequeninos lhe andamos por debaixo
das pernas gigantescas e espreitamos
por toda parte, a fim de ver se tmulos
desonrados achamos H momentos
em que os homens so donos de seus fados
No  dos astros, caro Bruto, a culpa,
mas de ns mesmos, se nos rebaixamos
ao papel de instrumentos Bruto e Csar"
Que pode haver nessa palavra "Csar",
para soar melhor que vosso nome?
Escrevei-os a par, to belo  o vosso
como o dele, no menos Pronunciai-os
tanto um como outro assenta bem na boca.
Pesai-os, equilibram-se Valei-vos
deles para esconjuros,  certeza
que "Bruto" far vir qualquer esprito
corn a mesma rapidez que o far "Csar"
Em nome, pois, dos deuses em conjunto,
dizei-me de que pratos nosso Csar
se alimentou para ficar to grande?
Tempo, ests conspurcado" J perdeste,
Roma, a semente de teu sangue nobre"
159
#HAROLD  BLOOM
Que idade, das inmeras passadas desde o grande dilvio, ficou clebre por um homem somente? Quem j disse, ao referir-se a Roma, que seus muros uma pessoa, apenas, 
abarcavam? Roma a est, sendo realmente grande, se dentro dela s houver um homem.
Oh! Ambos ns de nossos pais ouvimos que outro Bruto j houve, que aceitara com igual disposio em Roma a corte postar o diabo ou um rei.
PARTE  IV
[I.H.]
Num texto carregado de finssima ironia, os versos ""Bruto" far vir qualquer esprito / com a mesma rapidez que o far "Csar"", talvez, sejam os mais irnicos 
da pea, pois o espectro de Csar se revela como "Teu esprito mau, Bruto". E no momento em que Cssio fala de "nossos pais", a ironia  cortante, audaciosa. O personagem 
de Bruto  aberto porque Shakespeare explora a ambigidade da relao entre Csar e Bruto, sem jamais definir as bases de tal relacionamento. Jlio Csar  particularmente 
interessante como um estudo das sombras que pairam sobre o parricdio, mas Shakespeare evita dramatizar esse peso na conscincia de Bruto.
AS ALTAS COMDIAS
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#10
TRABALHOS DE AMOR PERDIDOS
De modo geral, sempre houve consenso crtico quanto  seleo das melhores peas escritas por Shakespeare. Crticos, espectadores e leitores preferem Sonho de uma 
Noite de Vero, Como Gostais e Noite de Reis entre as comdias, alm de O Mercador de Veneza, apesar do sentido sombrio contido em Shylock. As duas partes de Henrique 
IV so altamente conceituadas entre os dramas histricos, e Antnio e Clepatra, com toda justia, concorre com as quatro grandes tragdias: Hamlet, Otelo, Rei 
Lear e Macbeth. Entre os chamados romances, Conto do Inverno e A Tempestade so, universalmente, preferidos. Muitos crticos, e aqui me incluo, destacam Medida por 
Medida, entre as "peas-problema".
Mas todos temos nossas predilees pessoais, na literatura e na vida, e nenhuma pea shakespeariana proporciona-me deleite to verdadeiro como Trabalhos de Amor 
Perdidos. No teria como argumentar que, em termos de realizao esttica, a pea se equipara s quatorze mencionadas acima, mas alimento a iluso de que Shakespeare 
sentisse uma energia singular e especial ao escrev-la. Trabalhos de Amor Perdidos  um banquete da linguagem, um espetculo pirotcnico em que Shakespeare parece 
buscar os limites de sua destreza verbal e descobre que estes no mais existem. Mesmo John Milton e James Joyce, os maiores mestres do som e do sentido a escreverem 
em lngua inglesa depois de Shakespeare, jamais superariam a exuberncia lingstica de Trabalhos de Amor Perdidos. Infelizmente, nunca assisti a uma montagem dessa 
extravagante
163
#HAROLD   BLOOM
TRABALHOS  DE  AMOR  PERDIDOS
comdia que chegasse a fazer jus ao brilhantismo verbal do texto, mas continuo esperanoso de que algum diretor genial nos presenteie com uma produo que o faa.
Trabalhos de Amor Perdidos, em si, constitui uma pera, e no um libreto endossvel por uma pera, embora seja exatamente isso que a fico de Thomas Mann realize 
em Doutor Fausto (1947), em que Adrian Leverkhn, demonaco compositor alemo modernista, toma Trabalhos de Amor Perdidos
o menos wagneriana possvel, o mais distante da natureza demonaca e da caracterstica teatral do mito: um renascimento da pera bufa, em esprito de troa, da pardia 
mais artificial sobre o artificial, algo altamente jocoso e altamente ornado, com o objetivo de ridicularizar o asceticismo afetado e o eufusmo que era a menina 
dos olhos dos estudos clssicos. Ele falava do assunto com entusiasmo, o que ensejou a oportunidade de colocar o desengonado "natural" ao lado do cmico sublime 
e tomar ambos ridculos. O herosmo ultrapassado, a bravata, a etiqueta exagerada surgem de eras esquecidas na pessoa de Dom Armado, segundo Adrian, acertadamente, 
uma figura opertica.
Mann capta grande parte do tom e do mtodo de Trabalhos de Amor Perdidos, embora atribua um pouco de sua prpria ironia  pea de Shakespeare. Por mais alegre que 
seja a exuberncia lingstica de Shakespeare, em Trabalhos de Amor Perdidos, diversos tipos de ironia aparecem, nenhum dos quais se aproxima da ironia encontrada 
em Mann. Biron, o protagonista,  um grande narcisista que busca a prpria imagem nos olhos das mulheres e encontra a catstrofe em Rosalina, com seus cabelos negros, 
e que "em vez de olhos, ostenta / duas bolas de piche". Atravs dos sculos tem-se conjeturado a ligao de Rosalina com a Dama Morena dos Sonetos, suposio sustentvel 
pela ausncia de qualquer justificativa no texto da pea para o receio de traio que Biron sente com respeito a Rosalina:
BIRON
Ora vede!         , - ,-"--,  ^
Ser possvel? Eu, apaixonado!
Eu, que fui sempre o aoite de Cupido,
verdadeiro carrasco dos suspiros
amorosos, o crtico, ou melhor:
guarda-noturna sempre de viglia,
severo preceptor desse menino,
mortal cheio de empfia como poucos!
Esse choro de cueiros, rabugento,
menino-velho, mope, ano-gigante,
dom Cupido, regente dos sonetos
amorosos, senhor de mos vazias,
ungido soberano dos suspiros
e gemidos, de todos os madraos
e descontentes, prncipe temido
das saias, rei de todas as braguilhas,
nico imperador, grande caudilho
dos meirinhos vagantes. Oh, meu pobre
corao! Ficar eu como seu cabo!
Terei de usar-lhe as cores como simples
saltimbanco? Eu, a amar? Fazendo a corte?
Procurando uma esposa? E logo qual?
Verdadeiro relgio da Alemanha,
que em conserto est sempre e desmanchado
e que horas no d certas, salvo quando
vigiado, para andar sempre no passo.
E o que  pior: tomar-me, assim, perjuro!
E mais, ainda: amar a pior das trs!
Aquela bicha branca, de sobrolhos
de veludo, que, em vez de olhos, ostenta
duas bolas de piche, sim, que, certo,
h de realizar o feito, embora tenha
como eunuco o prprio Argo de vigia.
A suspirar por ela! Estar de guarda!
Rezar por ela! Vamos!  o castigo
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#HAROLD  BLOOM
que Cupido me impe, por eu ter feito pouco caso de seu onipotente pequenino poder. Mas, que tem isso? Hei de amar, escrever, fazer a corte, gemer e suspirar. Algum 
teria de escolher minha dama,- serei eu,- para Joana h de haver algum sandeu.*
[Ill.i.]
A vingana de Cupido promete traio (conforme nos Sonetos), e a enigmtica e agressiva Rosalina pode constituir uma pista para a histria relatada nos Sonetos. 
O que h de misterioso em Trabalhos de Amor Perdidos no  o suposto hermetismo, mas o relacionamento oculto entre Biron e Rosalina, personagens que parecem ter 
uma "pr-histria", a qual Shakespeare evita colocar, abertamente, em evidncia, dando apenas alguns toques geniais como, por exemplo, no primeiro encontro entre 
os dois personagens na pea:
BIRON
Certa vez no danamos em Brabante? ROSALINA
Certa vez no danamos em Brabante? BIRON
Tenho certeza. ROSALINA
Ento por que essa intil pergunta? BIRON
No deveis ser to vivaz. ROSALINA
Sois culpado, esporeando-me desta arte.
* Os Dois Cavalheiros de Verona e Trabalhos tle Amor Perdidos Traduo de Carlos Alberto Nunes Volume II. So Paulo Edies Melhoramentos, s d Todas as citaes 
referem-se a essa edio [NT]
166
TRABALHOS  DE AMOR  PERDIDOS
BIRON
Cansa depressa o esprito ligeiro.
ROSALINA
Mas, antes joga ao solo o cavaleiro.
BIRON
Que horas so? ROSALINA
As horas que o bobo diz. BIRON
Que disfarce feliz! ROSALINA
Feliz  o rosto oculto. BIRON
Deus vos aumente o culto.
ROSALINA
Se no entrardes nele. BIRON
J me acho fora dele.
[H.i.]
A essncia do personagem de Biron est contida nas palavras, desprovidas de preocupao, no momento em que ele encontra uma dama de companhia francesa em Navarra: 
"Certa vez no danamos em Brabante?"
Trabalhos de Amor Perdidos  um ttulo excelente, exato, mas Certa Vez No Danamos em Brabante? seria, tambm, bastante adequado, pois expressa a grande sofisticao 
dessa comdia. A fala de abertura da pea, em que o Rei de Navarra se dirige aos "nobres colegas" - Biron, Longaville e Dumaine -, tem todos os estigmas do barroco 
cmico:
Possa a Fama, que em vida todos buscam, gravar-se em nossos tmulos de bronze e amparar-nos da Morte perniciosa, quando, apesar da ao voraz do Tempo,
167
#HAROLD  BLOOM
nos propiciar o esforo do presente
a honra que h de embotar-lhe o alfanje agudo
e nos fizer herdeiros incontestes
de toda a Eternidade. Por tudo isso,
bravos conquistadores - sim, que o sois,
vencendo as vossas prprias afeies
e a fora incalculvel dos desejos
que o mundo vos desperta - por tudo isso,
o nosso edito agora publicado
em todo o seu rigor ser mantido.
Navarra vai tomar-se o grande assombro
do mundo,- nossa corte, uma pequena
academia, calma e circunspecta
no que tem relao com a arte da vida.
[I.i.]
A troa  eloqncia aqui presente, com vocabulrio rebuscado que fala em morte, tempo, luta e desejo, no chega a esconder a musicalidade shakespeariana que tanto 
aproxima esses versos dos Sonetos. Embora cauteloso, no sentido de manter-nos distantes de Biron e dos outros excntricos de Trabalhos de Amor Perdidos, Shakespeare 
parece ser incapaz (ou, pelo menos, relutante) de manter-se distante da encantadora, embora negativa, Rosalina. Do ponto de vista emblemtico, a pea refuta a viso 
de Biron - um tanto prometeica, um tanto narcisista - quanto aos olhos das mulheres, quanto s fascinantes e opacas "bolas de piche" que ostenta o rosto de Rosalina. 
Protestando contra a proibio de contato com mulheres em Navarra durante os trs anos da pequena Academia, Biron oferece-nos a apoteose de um olhar feminino:
Vaidade  tudo, ento,- mas a suprema
vaidade  a que conosco em dor se extrema,
como a mente nos livros mergulhamos
em busca da luz pura que, magana,
nos cega, sem de ns nos importarmos. " " "
168
TRABALHOS  DE  AMOR  PERDIDOS
Anelando mais luz, a luz se engana. Assim, querendo achar no escuro a luz, acabais por no ver: prmio de truz! Ensinai-me, ao invs disso, como a vista possa em 
olhos fixar de extremo encanto, que, ofuscando-a, lhe valha por conquista to radiosa que  mente causa espanto. Comparo o estudo aos raios do sol claro que perscrutar 
no pode o olhar mesquinho/ sempre foi despiciendo o lucro avaro que nos vem de alfarrbio ou pergaminho. Os padrinhos terrestres da luz pura, que aos astros sabem 
dar nomes em messe, no tm nas belas noites mais ventura do que o pastor que a todos desconhece. Saber muito  de nomes ser zeloso, trabalho de padrinho carinhoso.
[I.i.]
A essncia do trecho est contida no verso:
Anelando mais luz, a luz se engana.
Harry Levin assim explica o trecho: "o intelecto, em busca do saber, rouba  viso a luz do dia", numa glosa convincente da polmica levantada por Biron contra o 
estudo solitrio. Procurando olhos de "extremo encanto", Biron cai na cilada de Rosalina, que avisa s outras damas: "[Seus] olhos no cessavam de aprestar-lhe / 
pbulo para o esprito". Explorando, com perspiccia, a noo de que os homens se apaixonam, principalmente, em decorrncia do estmulo visual, enquanto as mulheres 
o fazem de maneira mais abrangente e sutil, Shakespeare segue no encalo dos quatro jovens conquistadores, que, ofuscados, buscam seus objetos de desejo, as amadas 
desconfiadas e evasivas.
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#HAROLD   BLOOM
Boyet, conselheiro da Princesa da Frana, percebe que Navarra se apaixonara pela jovem,  primeira vista:
BOYET
Todo o seu ser, agora, aos olhos se acolheu,
de cuja corte espia, ansiando um mundo seu,-
vaidoso o corao com vossa efgie amada,
aos olhos uma luz transmite inusitada.
Por s poder falar, a lngua, aborrecida,
deseja tambm ver, caindo na corrida.
Nos olhos se concentra a turba dos sentidos
para a beleza ver que os traz to confundidos,
como jias de preo em lmpido cristal
que deseja adquirir um comprador real,
e que com brilho novo esplendem no mostrurio
convidando o transeunte a um gasto extraordinrio.
As notas marginais do rosto a toda gente
revelam quanto a vista em confessar consente.
Dar-vos-ei a Aquitnia e o que do rei quiserdes,
se, acorde com meu gosto, um beijo nele derdes.
[H..]
As palavras "Nos olhos se concentra a turba dos sentidos" resumem o despotismo ertico do olhar masculino. No soneto a Rosalina, Biron diz que ela tem "na voz [...] 
o trovo, no olhar o raio santo [de Jpiter]", constatao triste e masoquista que o amante desprezado desenvolve em um devaneio em prosa:
BIRON
O rei est caando cervo,- eu me aulo a mim prprio,- eles pem visgo na armadilha,- eu me deixo prender no visgo que suja a gente. Sujar! Que termo horroroso! 
E agora, como dizia o louco: acomoda-te, tristeza! Assim digo eu tambm, que no sou menos louco. Boa concluso, esprito! Pelo Senhor! Este amor  to furioso quanto 
Ajaz,- mata carneiros como me mata,-
170
TRABALHOS  DE  AMOR  PERDIDOS
logo, no passo de um carneiro. Mais uma boa concluso. No quero amar,- se o fizer, que me enforquem. Palavra de honra, no quero. Ah! Mas aqueles olhos... Por 
esta luz, se no fossem os olhos, no a amaria. Sim,  s por causa daqueles dois olhos. O certo  que no fao outra coisa no mundo, se no mentir pelos gorgomilhos. 
Pelo cu, estou amando! E com isso aprendi a rimar e a ser melanclico,- aqui est a parte das rimas, e aqui a melancolia. Bem,- a estas horas ela j est de posse 
de um dos meus sonetos,- o bobo o levou, o louco o escreveu, a senhorita ficou com ele. Caro bobo,- mais caro louco, ainda,- carssima senhorita! Pelo mundo! Daria 
tanto apreo a isso como a um alfinete, se soubesse que os meus companheiros se encontram no mesmo caso. A vem vindo um deles, com um papel na mo. Deus lhe conceda 
a graa de suspirar!
[IV.iii.]
Os outros trs preferem lamuriar-se em poesia, sendo o Rei o primeiro, com um soneto a respeito dos olhares luminosos da Princesa da Frana, seguido de Longaville, 
corn um soneto que celebra a divina retrica do olhar da amada, e Dumaine, com uma ode um tanto carente em termos de obsesso ocular. Uma vez que os quatro estudiosos 
da Academia de Navarra revelam-se traidores de seus ideais ascticos, Biron resume a converso ao erotismo numa fala que, para a maioria dos especialistas, indica 
o ponto central da pea:
BIRON
O saber  to-s o complemento de ns prprios, que se acha onde estivermos. Quando nos belos olhos de uma jovem nos miramos, no vemos, por acaso, tambm nosso 
saber? Fizemos voto, milordes, de estudar, mas repudiamos com o juramento os verdadeiros livros. Milorde, e vs, e vs, quando achareis -
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#HAROLD   BLOOM
TRABALHOS  DE  AMOR  PERDIDOS
dizei-me - com o pesado raciocnio,
a inspirao com que vos opulentam
os olhos das cultoras da beleza?
As outras artes todas se confinam
no crebro,- por isso, os seus adeptos
estreis mal alcanam uma colheita
mesquinha, aps trabalho fatigante.
Mas o amor, aprendido de comeo
nuns olhos de mulher, no se empareda
na cabea,- seno, com a agilidade
de todos os espritos, se espalha
corn a rapidez do pensamento em nossas
faculdades, a todas redobrando
de potncia e deixando-as muito acima
de seus prprios ofcios e funes.
Viso mais nobre aos olhos ele empresta,-
o amante v mais longe do que as guias,-
o amante escuta os sons que o prprio ouvido
do ladro cauteloso no percebe,-
possui tato mais fino e delicado
do que os comos sensveis das serpentes
de concha,- o paladar do amor demonstra
que Baco  um grosseiro no que aprecia.
No  o amor, em ousadia, um Hrcules,
nas rvores trepando das Hesprides?
Sutil como uma esfinge? Doce e msico
como a lira de Apoio, com seus prprios
cabelos temperada? Quando fala
o amor, na voz dos deuses acalenta
todo o cu com harmonia irresistvel.
No devera escrever nenhum poeta,
sem que primeiro a tinta temperasse
nos suspiros do amor. S ento seus versos
at ouvidos selvagens prenderiam
e infundiriam brandos sentimentos
de humildade no peito dos tiranos.
Dos olhos da mulher eu deduzo isto:
So eles que irradiam a fagulha
viva de Prometeu,- as artes todas
e os livros eles so, a academia
que abrange, explica e nutre o mundo inteiro.
Sem eles nada pode haver perfeito.
Postes loucos, portanto, ao renunciardes
estas mulheres, e o serieis, ainda,
se a jura formulada mantivsseis.
Pela sabedoria, pois, que  termo
que todos amam,- ou, melhor em nome
do amor, que  palavra que ama a todos,-
ou no nome dos homens, os criadores
das mulheres,- ou, ainda, em nome delas,
por quem somos quem somos: esqueamos
o juramento, a fim de nos salvarmos,-
se no, nos perderemos, para sermos
fiis ao juramento. A religio
nos manda ser perjuros neste caso,-
a prpria Caridade a lei nos dita.
E quem conseguiria separar
da Caridade o Amor?
[IV.iii.]
O trecho  o triunfo retrico de Biron, e uma fina pardia do triunfo ertico masculino - ontem, hoje e amanh. No ser preciso recorrer  crtica feminista para 
apontarmos o narcisismo exacerbado que Biron tanto exalta:
Quando nos belos olhos de uma jovem
nos miramos, no vemos, por acaso, tambm nosso saber?
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#HAROLD  BLOOM
Contemplam a si prprios, e a si prprios pretendem amar. Biron contempla o prprio reflexo, com mais clareza do que nunca, nos olhos negros de Rosalina, e, assim, 
apaixona-se, perdidamente, por si prprio. Freud daria a sua verso desse conceito shakespeariano atravs da observao implacvel de que a libido, dirigida ao objeto, 
parte do ego, mas sempre poder ao ego retornar. Biron, to apaixonado pelas paravras quanto por si mesmo, exalta o incremento pragmtico da fora sensual que se 
d na paixo herclea e prometeica. Sua rapsdia  destituda de qualquer preocupao com Rosalina, objeto ostensivo de sua paixo: a redobrada "potncia" que o 
amor confere surge a partir do roubo da "fagulha viva de Prometeu" que habita o olhar feminino, roubo esse que parodia Romanos 13:8: "Pois quem ama o outro cumpriu 
a lei". A veemente blasfmia de Biron ("A religio / nos manda ser perjuros neste caso/ / a prpria Caridade a lei nos dita. / E quem conseguiria separar/ da Caridade 
o Amor?"), que encerra o quarto ato, pe fim  Academia de Navarra e leva  crise (cmica) da pea, em que os trabalhos do amor sero perdidos. Mas a trama contm 
mais do que a campanha de Biron e seus parceiros pelo amor das damas de Frana/ assim sendo, volto-me para os fantsticos comediantes criados pela alegria de Shakespeare: 
Dom Adriano de Armado e seu pajem, o esperto Moth,- o pedante Holofernes e Sir Nataniel, o cura,- Costard, o bobo, e Dull, o oficial de justia.
Em Trabalhos de Amor Perdidos, assim como em Sonho de uma Noite de Vero e Como Gostais, as classes sociais misturam-se de maneira amigvel. O Prncipe Hal, no ciclo 
de peas sobre Henrique IV, tem plena conscincia de que se sente bem em meio ao povo, ao passo que Malvlio, em NoitedeReis, fracassa devido a aspiraes erticas 
que no condizem com o seu status social. Mas em peas que C. L. Barber chamou de "comdias festivas", existe uma espcie de idealizao pragmtica das relaes 
de classe. Barber atribui tal idealizao " capacidade de Shakespeare de criar pessoas que vivem em grupos estabelecidos, em que todos se
174
TRABALHOS  DE  AMOR  PERDIDOS
conhecem e coexistem ao longo das estaes do ano". Essa percepo expressa muito bem a serenidade observada entre as classes sociais em Trabalhos de Amor Perdidos, 
em que a nica tenso  a contenda entre a eloqente sensualidade e o sbio desdm. O delrio da linguagem, triunfante na espirituosidade de Biron, um proto-Falstaff, 
est tambm presente nos dilogos entre Armado e Moth, Holofernes e Nataniel, e Costard, o bobo e qualquer pessoa que lhe cruze o caminho. O pequeno Moth, gnio 
de retrica infantil,  de uma aptido impressionante, ao derrotar o quixotesco Armado, embevecido pelo menino:
ARMADO
Nesta altura desejo confessar que estou apaixonado,- e como amar  indigno de um soldado, estou apaixonado de uma rapariga indigna. Se fosse bastante sacar da espada 
contra o humor da afeio, para livrar-me de seu pensamento rprobo, eu aprisionaria o Desejo e o trocaria com qualquer corteso francs por um cumprimento da moda. 
Considero humilhante suspirar,- penso que  meu dever abjurar de Cupido. Conforta-me, pequeno: quais so os grandes homens que se apaixonaram?
MOTH
Hrcules, mestre.
ARMADO
Dulcssimo Hrcules! Mais uma autoridade, meu querido,- cita-me outras, doce menino, mas que sejam de boa reputao e de bom porte.
MOTH
Sanso, senhor,- foi pessoa de bom porte, grande porte, at, porque fez o porte dos portes da cidade, no dorso, como um carregador. Ele tambm era apaixonado.
ARMADO
 Sanso bem ajustado! Sanso de juntas fortes! Ultrapasso-te tanto com o meu espadim, como me ultrapassaste carregando as portas. Eu tambm estou apaixonado. Quem
foi a amada de Sanso, querido Moth?
175
#HAROLD   BLOOM
MOTH
Uma mulher. ARMADO
De que cor era ela? MOTH
De todas quatro, ou trs, ou de duas, ou de uma das quatro. ARMADO
Dize-me exatamente qual era a sua cor. MOTH
Verde-mar, senhor. ARMADO
Essa  uma das quatro cores? MOTH
A melhor de todas, senhor,- pelo que tenho lido. ARMADO
De fato, verde  a cor dos amantes,- mas quero crer que Sanso
no tenha motivo para ter amante dessa cor. Certamente o que
ele mais apreciava nela era o esprito. MOTH
E isso mesmo, senhor,- o esprito dela era verde. ARMADO
A minha amada  imaculadamente branca e vermelha. MOTH
Essas cores, senhor, escondem os pensamentos mais imaculados. ARMADO
Explica isso, explica isso, infante bem-educado. MOTH
Esprito de meu pai e lngua de minha me, valei-me! ARMADO
Doce invocao de uma criana, belssima e pattica!
[I..]
As palavras "Explica isso, explica isso, infante bem-educado", mesclando, sutilmente, afeto e perplexidade, encerram, talvez, o pedido de
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TRABALHOS  DE  AMOR  PERDIDOS
esclarecimento mais charmoso em toda a obra shakespeariana. A seca observao de Moth - "Essas cores, senhor, escondem os pensamentos mais imaculados" - oculta, 
em parte, na aliterao, a derrota que o pajem impe ao idealismo ertico de Armado. O exuberante Armado (cujo nome remete  derrotada Armada Espanhola) e o incisivo 
Moth formam grande dupla de cmicos, e seus gracejos prenunciam os dilogos entre Falstaff e Hal. Um tipo de comdia bastante diferente surge com o obcecado Holofernes 
(que leva o nome do professor de latim de Gargntua, em Rabelais), quase apotetico ao se gabar de seu prprio talento retrico:
HOLOFERNES
E um dom que nasceu comigo, muito simples, muito simples, um esprito extravagante e aloucado, cheio de formas, de figuras, de imagens, de objetos, de idias, de 
apreenses, de moes, de revolues, engendrados no ventrculo da memria, nutridos na matriz da pia-mter e dados  luz na maturidade da ocasio. Esse dom  de 
grande vantagem nas pessoas em que atinge o acume, motivo por que rendo graas de possu-lo.
[IV.ii.]
A pia-mter, membrana fina que encobre o crebro, aqui,  mais uma entidade lingstica do que anatmica. Descendentes diretos de Holofernes, pessoas, a um s tempo, 
carinhosas e excntricas, abundavam em corpos docentes das universidades, e sinto por elas uma certa nostalgia, pois eram inofensivas.
A alta comdia caracterizada por linguagem absolutamente fantstica atinge o ponto mximo na primeira cena do quinto ato, o momento mais cmico da pea, apreciado 
por James Joyce, que a ele se refere. De certa maneira, o subgnero  inventado por Shakespeare, atravs de um processo que denomino "msica cognitiva", e que se 
desenvolve a partir da convergncia de Armado, Moth, Holofernes, Sir Nataniel, Dull e Costard. Os seis tresloucados personagens constituem uma miniatura
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#HAROLD  BLOOM
nobres renitentes. Mas, na pea, Biron , tambm, o terico do narcisismo masculino,- ele sente - e chega a celebrar - algo que os amigos podem apenas fingir. com 
eloqncia, Barber comenta que os quatro manifestam "a tolice de fingir amar e falar de amor, sem estar amando", mas, para mim, isso no se aplica  frustrante paixo 
de Biron, provavelmente, a nica forma de amor de que ele  capaz: o prazer do olhar, somado  espirtuosidade auto-indulgente. A intoxicao de Biron pela linguagem 
constitui prenuncio de Ricardo II, poeta lrico, com seu brilhantismo metafsico, dom fatal para um regente, mas capaz de engendrar incrveis demonstraes de criao 
lingstica. A ironia de Shakespeare com relao a Ricardo II  extremamente palpvel: trata-se de uma espirituosidade perigosa, da qual devemos manter distncia. 
Biron  bem diferente,- charmoso e desenvolto, embora apaixonado pela mulher errada, ser que no representaria alguma faceta do prprio Shakespeare, sempre esquivo, 
presa da Dama Morena dos Sonetos? Alguns estudiosos acham que sim, mas as evidncias so insuficientes para o estabelecimento da identificao, por mais especulativa 
que seja. com Falstaff, a empada de Shakespeare  mais persuasiva, mas Biron , sem dvida, um dos papis que prefiguram Falstaff.
Tem uma espcie de freio o papel de Biron,- percebemos a insinuao de algo a mais, mas no somos chamados a participar:
Jamais desejei flores no Natal, ou neve em maio, tempo da folia,- tudo tem seu perodo natural.
[I--]
Eis Biron, eis, igualmente, a voz que canta os Sonetos. Harold Goddard, sempre um personificador de Shakespeare (to poucos tentam faz-lo!), atribui a Biron, "precisamente, 
a capacidade que tem o prprio Shakespeare de saborear sem engolir, de brincar com o sedutor at estar totalmente familiarizado com ele, para, em seguida, resistir 
 seduo". Trata-se, no entanto, de uma bela idealizao tanto de Biron quanto do poeta dos Sonetos, uma vez que ambos se renderam  seduo. Ainda
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assim, mais do que qualquer outro crtico de Shakespeare desde Johnson e Hazlitt, Goddard tem sempre idias interessantes, e na maioria das vezes est certo. O gnio 
cmico de Falstaff parece ser o do prprio Shakespeare, tanto quanto o poder de raciocnio de Hamlet e a imaginao prolptica de Macbeth so dons do autor levados 
ao extremo. Biron  bastante sagaz, mas no  um gnio da comdia,- nada em Biron nos levaria a infinitas indagaes, o que estabelece um contraste com o sublime 
e infame Falstaff. Biron no escapa a Shakespeare, como, talvez, Falstaff o faa. No podemos imaginar Biron fora do universo de Trabalhos de Amor Perdidos. Crticos 
desprovidos de imaginao zombariam da idia, mas Falstaff  maior que o ciclo de peas sobre Henrique IV (no qual est inserido), por mais extraordinrias que sejam, 
assim como Hamlet precisa de uma esfera maior do que a que Shakespeare lhe oferece. Biron apaixona-se pela mulher errada, e seu prometeico sonho de amor-roubar fogo 
de uma mulher -  uma projeo do narcisismo masculino,- contudo, existe algo legitimamente prometeico na celebrao que ele faz do olhar feminino. Sua energia, 
tanto quanto sua espirituosidade, o toma possuidor de um entusiasmo  Ia Hazlitt, por menos que Hazlitt apreciasse Trabalhos e Amor Perdidos. Biron tem uma ressononcia
que vai alm do que exige a pea, uma ressononcia digna de um homem sagaz e herico, embora ludibriado pelo amor. Como homem sagaz, Biron afasta-se e contempla
a
pea, quase que se colocando fora dela, mas como amante  uma catstrofe, e Rosalina  a sua loucura.
A segunda cena do quinto ato de Trabalhos de Amor Perdidos  o primeiro triunfo de Shakespeare quanto a desfechos dramticos, a primeira de uma srie de solues 
que nos surpreendem por seu "fino excesso". Em extenso, a cena corresponde a quase um tero do texto da pea, o que permite a Shakespeare amplo espao para exercitar 
o seu talento,- porm, em termos de ao, acontece pouco mais do que o anncio da morte do Rei de Frana e a subseqente "perda dos trabalhos de amor", por parte 
de Biron, Navarro e seus companheiros. A eloqncia, a verve dessa
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cena final, equipara-se a brilhantes momentos futuros em Shakespeare, encontrados nos desfechos de Como Gostais, Medida por Medida e nos romances do final da carreira.
A construo da referida cena  extremamente hbil. A cena inicia com as quatro mulheres analisando, friamente, as tticas dos seus pretendentes,- em seguida, o 
idoso conselheiro, Boyet, avisa-as que se preparem para a visita dos admiradores disfarados de moscovitas. A invaso moscovita  repelida com uma barricada de 
espirituosidade e evasivas, seguida da representao dos Nove Heris, encenada por plebeus e interrompida pela grosseria dos nobres, que se esquecem da cortesia 
devida aos seus subordinados. Temos, ento, um grande coupe de tbtre-. um mensageiro anuncia a morte do Rei de Frana. As despedidas cerimoniosas das damas so 
recebidas pelos frustrados pretendentes com protestos tipicamente masculinos,- e como resposta, os homens ainda recebem severa punio - um ano de servios e penitncia 
-, embora, terminado o perodo, presumivelmente, seus anseios sero satisfeitos. A dvida de Biron com relao  concretizao dessa expectativa serve de preldio 
a um divertimento final, no qual a coruja do inverno e o cuco da primavera debatem suas diferentes verses dos acontecimentos. A elaborada estrutura da cena final 
inclui, assim, cinco seqncias, formando mais uma espcie de cortejo do que a resoluo de um enredo, e eleva a guerra entre os sexos a novos nveis de sofisticao 
e pesar. Biron j no controla a pea, pondo em risco, cada vez mais, a sua prpria noo de identidade, pois toma-se um joguete do amor, uma vtima de Rosalina.
Nenhuma outra comdia shakespeariana chega ao final com tamanhas perdas para o amor, uma vez que, tanto quanto Biron, duvidamos da unio dos casais. Tal percepo 
confere aos rituais festivos da cena final um som abafado, que ressoa gravemente no debate entre o cuco e a coruja. Ouvimos, o tempo inteiro, uma celebrao subjacente, 
pois algo mais do que a vaidade masculina  derrotado. No duelo mental, a sofisticao das mulheres coloca em jogo e supera a inabilidade universal dos homens, especialmente 
os jovens, de reconhecer com clareza o objeto de seu desejo, caracterstica que lhes determina a frustrao do
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prazer. A exuberncia da linguagem shakespeariana aparece de forma mais comedida (ainda que bastante inteligente) na conversa das damas, no incio da segunda cena 
do quinto ato:
PRINCESA
Rindo deles, mostramo-nos sensatas. ROSALINA
So todos desmiolados. Que bravatas
as de Biron! Como eram caricatas
suas declaraes! Se uma semana
to-somente o tivesse, qual tirana
procedera, obrigando-o a suplicar-me,
a fazer-me as vontades sem alarme,
submisso a todo instante, panegricos
cansativos compondo em versos lricos.
Em suma, de tal modo o empregaria,
que vaidoso o deixara a zombaria,
transformando-o, no fim de muito ensino,
num tolo que em mim visse o seu destino.
[V..J
Se quem fala aqui  a Dama Morena dos Sonetos, talvez, Shakespeare tenha sofrido ainda mais do que deixa transparecer. A relao entre Biron e Rosalina apresenta 
nuanas sadomasoquistas que nos fazem duvidar de que ela abrisse mo do grande prazer que usufrua, com sua atitude ambivalente, em favor de prazeres menores, caso 
se entregasse. Disfaradas, as mulheres percebem que os homens j no as distinguem,- Biron flerta com a Princesa, e Navarra corteja Rosalina, ao som do coro de 
Boyet, com seus conselhos a mancebos aturdidos:
BOYET
A lngua zombadora [da mulher]  to afiada
quanto o fio invisvel da navalha,
que o cabelo decepa, ou como a espada
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que nos campos de luta os membros talha,- Vai longe, como bala e o prprio vento, no curso mais veloz que o pensamento.
[V..]
Boyet  o profeta da pea/ j um tanto passado para o amor, faz soar o tema de uma contra-espirituosidade feminina, em si, to sagaz que  capaz de destruir qualquer 
possibilidade de satisfao ertica. O momento em que Biron apresenta sua rendio no duelo mental, e descobre que Rosalina no faz prisioneiros,  caracterizado 
por um humor fino e um charme especial, mas, tambm, por patbos autntico:
BIRON
Os perjuros assim castiga o Fado.
Que mscara de ferro o suportara?
Eis-me, senhora,- quero ser julgado
e, paciente, agentar a sorte amara,-
confundi-me a tolice sem tardana,
fazei-me em pedacinhos com finura/
jamais vos tirarei para uma dana,
nem dos russos porei a vestidura.
Nunca me fiarei de um vo discurso
ou das palavras tolas de um menino,
nem nunca mais farei visita de urso,
nem me declararei no jeito de hino
de cantor cego. Hiprboles gigantes,
frases de tafet, termos de seda,
sois moscas inoportunas com que a instantes
me comprazia,- agora retroceda
toda a caterva insulsa! Aqui protesto
por esta luva branca - a Deus o digo -
que em matria de amor serei modesto
de hoje por diante e, no falar, mendigo.
[V..]
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TRABALHOS  DE  AMOR   PERDIDOS
Ao se propor a trocar "frases de tafet" pelo modesto falar de mendigo, Biron aproxima-se das coisas mais simples, o que o conduz a uma declarao um tanto reformista,
replicada por Rosalina, sem remorso, de forma esmagadora:
BIRON
E para comear, aceita,  flor,
sansflure et dejaut o meu amor! ROSALINA
Mas sem esse francs.
Sem se abater, Biron arrisca uma comparao entre a paixo que seus companheiros nutrem pelas amigas de Rosalina e a peste em Londres  poca de Shakespeare. A metfora 
 to exacerbada que chegamos a nos indagar se a amargura do prprio Shakespeare com relao  Dama Morena no estaria contaminando o exuberante Biron:
BIRON
Sou doente,- sede plcida comigo. Aos poucos sararei. Eis a mezinha: escrevei nestes trs, por conta minha: "Deus se apiade de ns!" Acham-se doentes, muito mal,- 
os sinais j esto patentes: sofrem do corao. Veio-lhes isso dos vossos belos olhos:  feitio. Mas em todas eu vejo sorte igual,- Deus j ps em vs outras o 
sinal.
[V.ii.]
A Princesa e Rosalina negam tais "sinais", ou sintomas da peste, e procedem a demonstrar a incapacidade dos moscovitas de distinguir as amadas entre si. Derrotados, 
Biron e os companheiros caem em desgraa, e expressam a sua grande frustrao escarnecendo a Mascarada dos Nove Heris, encenada pelo "mestre-escola, o fanfarro, 
o cura iletrado,
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o bobo e o rapaz". Mas so os nobres que se comportam como crianas petulantes, desprezveis, zombando, grosseiramente, de pessoas de classe social inferior. Em 
resposta, o pedante Holofernes os reprova com uma dignidade autntica: "Isto no  gentil, nem fino ou generoso". O pobre Armado, ainda mais ridicularizado, defende, 
corn graa, Heitor, heri troiano por ele representado.-
Esse grande guerreiro j est morto e enterrado, meus caros meninos, no mexais com os mortos. Quando ele respirava, era um heri de verdade.
[V..]
Shakespeare aumenta o afvel patbos que cerca Armado no momento em que o Espanhol, com eloqncia, revela sua pobreza, o que provoca, em Boyet, uma baixeza vil. 
Segue, ento, novo coup de thtre, quando Mercade, mensageiro da corte francesa, anuncia  Princesa a morte sbita do Rei, seu pai. Considerando que Biron, seus 
companheiros e Boyet, a essa altura, esto prestes a desmerecera nossa simpatia, Shakespeare no poderia retardar o coup sem com isso causar danos  pea. A morte 
est presente em Navarra, assim como na Arcdia, e o duelo mental j acaba tarde, com a derrota dos pretendentes ameaando transform-los em uma ral ignorante. 
corn uma reviravolta espantosa, Shakespeare resgata a dignidade de todos os que esto em cena, embora  custa do que Biron e os companheiros insistem em chamar de 
"amor". A Princesa inicia o movimento final da pea com um gracioso pedido de desculpas, que chega quase a explicar o azedume de Rosalina:
PRINCESA
[...] Agradecida
vos sou, amveis lordes, pelas vossas
gentilezas, e peco-vos, em vista
do infortnio que acaba de ferir-me,
que escuseis ou escondais em vossa rica
sabedoria as muitas liberdades
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que tomamos convosco. Se houve excesso de nossa parte, vossa gentileza tem nisso culpa. Adeus, digno senhor. No se compraz um corao turbado com discursos mui 
longos. A avareza desculpai-me,- devera agradecer-vos a maneira gentil com que aceitastes as minhas pretenses, ora alcanadas.
[V.ii.]
Dizer que a "gentileza" de Biron provocou o atrevimento de Rosalina  ser diplomtico, e um tanto esquivo. Mas a reao do prprio Biron em nada sugere que ele aceite 
as crticas da Princesa:
BIRON
Um dito honesto o ouvido da tristeza
fere de perto. Compreendei o intento
do rei sob esse auspcio generoso.
Por vs deixamos tudo e nos tomamos
perjuros,- vossas graas nos fizeram
diferentes, mudando-nos o gnio,
a ponto de almejarmos o contrrio
daquilo que queramos. Por isso,
parecemos ridculos,- a causa
de tudo foi o amor, amigo, sempre,
das mais extravagantes fantasias.
Gerado pelos olhos, , como eles,
cheio de aparies e estranhas formas,
de hbitos esquisitos, e propenso,
como o olhar, que no pra muito tempo
num s objeto, a mudar sempre de assunto.
Se envergarmos [sic], portanto, os fantasiosos
trajos do amor leviano e a vossos olhos
celestes isso em parte a gravidade
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#HAROLD   BLOOM
prejudicou de nossos juramentos, foram causa de errarmos, justamente, esses olhos que as faltas nos censuram. Se o nosso amor, portanto, nobres damas, vos pertence, 
as tolices que ele gera vos pertencem tambm. Ficamos falsos a ns mesmos to-s para ficarmos fiis a quem nos fez a um tempo amantes fiis e falsos: vs, damas 
galantes. Desta arte a falsidade, embora vcio, purifica-se e toma-se virtude.
[V..]
No trecho acima, "Um dito [simples e] honesto" em breve transforma-se em linguagem caracterstica do estilo barroco de Biron. Como convm ao heri de uma comdia 
extravagante, ele nada (ou quase nada) aprendeu. Remetemo-nos  rapsdia de Biron -  "fagulha / viva de Prometeu" -, a ser roubada por homens, tratando-se de suas 
prprias imagens refletidas nos olhos das mulheres. Nos versos finais dessa fala de Biron, a crena em Eros toma-se objeto de uma pardia  graa crist. Embora 
o "hino" de Biron possa alarmar a platia,  posto de lado pela Princesa, que, habilmente, nega qualquer sentimento recproco:
PRINCESA
Recebemos as cartas transbordantes de expresses amorosas e os presentes emissrios do amor,- mas no conselho virginal em tudo isso apenas vimos brincadeira inocente 
e cortesia, passatempo, to-s, sem conseqncias. E, por assim pensarmos, procuramos corresponder na mesma altura os vossos galanteios, isto , com brincadeiras.
[V.H.]
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A resposta do Rei traduz uma nota de desespero:
Mas agora,
neste instante supremo, concedei-nos
o amor que vos pedimos.
A rplica da Princesa encerra uma daquelas mximas shakespearianas sempre teis a mulheres que no desejam se comprometer cedo demais:
Muito escasso,
receio,  o tempo que nos do para este
negcio em que arriscamos nossas vidas.
corn respeito ao casamento do prprio Shakespeare, dispomos de dados suficientes para conjeturar que o mesmo teria sido to feliz quanto o de Scrates. Conforme 
comentei anteriormente, nos cosmos das peas, os casamentos mais felizes so, sem dvida, o dos Macbeth, antes de cometerem os crimes, e o de Cludio e Gertrudes, 
antes das intervenes de Hamlet. Na leitura que fao de Shakespeare, as inferncias feitas com base no "antes e depois" so sempre profcuas, revelando um aspecto 
vital da arte desse supremo dramaturgo. O futuro conjugai de Helena e Bertram, em Bem Est o <\ut Bem Acaba, bem como o do Duque e Isabela, em Medida por Medida, 
 duvidoso,- do mesmo modo,  difcil imaginar tempos felizes para Beatriz e Benedito, vivendo s turras, depois do desfecho de Muito Barulho por Nada. Os casamentos 
shakespearianos, cmicos ou no, so tresloucados ou grotescos, uma vez que, invariavelmente, as mulheres se casam com homens que delas esto aqum, conforme  
o caso da incomparvel Rosalinda, de Como Gostais. Shakespeare e seu pblico podem obter um tipo de prazer diferente de Trabalhos de Amor Perdidos, pois nessa comdia 
ningum se casa, e temos todo o direito de duvidar que um ano de servios e penitncias da parte dos homens (o que, dificilmente, seria cumprido) resultasse em unies. 
A Princesa despacha Navarra para uma cjausura, onde ele deve permanecer um ano, enquanto Rosalina, com uma alegria diablica, determina que Biron trabalhe como 
comediante em um hospital, distraindo os doentes, durante um ano: "para / forar a rir os fracos e os que sofrem".
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No devemos mesmo pensar em casamento para Biron e Rosalna, conforme deixa claro o dilogo final entre Navarra e Biron:
BIRON
Nosso amor no termina com carinho:
cada um com sua Joana. E pena! As damas
fazem tudo para acabar como nos dramas. REI
Vamos, senhor! Um ano e mais um dia,- depois, termina. BIRON
 longo em demasia.
[V..]
Biron destri duas iluses.- uma de erotismo, a outra de representao. A pea chega ao fim,- faltam apenas as canes do cuco e da coruja. Ainda em cena, mas desprovido 
do artifcio do ator, Biron, mais do que nunca, fala pelo prprio Shakespeare, que revisou Trabalhos de Amor Perdidos, em
1597, aps a realizao de Falstaff e, portanto, aps sua auto-realizao. Ouo duas vozes em Biron, uma pr-Falstaff, a outra, no esprito de Sir John, destri 
iluses. E esse, no meu entendimento, o esprito dos ltimos vinte e oito sonetos, a partir do 127: "A cor negra era ontem sem valia", que nos remete ao misterioso 
rancor de Rosalina, e ao receio de Biron, aparentemente sem fundamento, de que ela o trairia. Uma das graciosas excentricidades de Trabalhos de Amor Perdidos  o 
debate brincalho sobre a beleza de Rosalina, na terceira cena do quarto ato, entre Biron e seus companheiros, em que Biron surge, claramente, como o "autor" do 
Soneto 127, o qual ele reafirma ou prefigura. Inclino-me a concordarcom Stephen Booth, quando prope que, com os Sonetos, no descobrimos nada a mais, ao certo, 
sobre Shakespeare do que com as peas. No sei se Shakespeare era heterossexual, homossexual ou bissexual (supostamente a ltima entre essas opes),- tampouco 
conheo a identidade da Dama Morena ou do Jovem (embora ela me parea muito mais do que uma fico, e ele, provavelmente, fosse o Conde de Southampton). Mas ouo 
a paixo relutante de Biron, quando leio o Soneto 127:
TRABALHOS  DE  AMOR  PERDIDOS
A cor negra era ontem sem valia Ou da Beleza no levava o nome,- Mas agora  do Belo herdeira e cria E a Beleza em vergonha se consome. Se o Natural j tem nas mos 
falsrios, Se a arte falseia o Feio e a Belo o passa, Fica o Belo sem nome e sem sacrrio E  profanado ou vive na desgraa. Da cor do negro corvo a minha amada 
Traz nos olhos o luto mais espesso Por quem no nasce loura mas agrada E a criao difama em falso apreo: E fica a gente com tal luto afim, Dizendo: o Belo deve 
ser assim.*
Biron no chega  agonia dos "Sonetos Negros", por exemplo, o de nmero 147 - que afirma: "desejo  morte" - , mas suas observaes equvocas sobre os olhos negros 
de Rosalina permeiam a pea. s vezes nos parece que Rosalina est na pea errada, pois sua atitude com relao a Biron  extremamente severa e vingativa, ao contrrio 
da atitude da Princesa com relao a Navarra, e das outras mulheres para com seus amados. Quando Rosalina determina a Biron que v trabalhar em um hospital, "para 
/ forar a rir os fracos e os que sofrem", este responde com palavras que poderiam expressar o entendimento do prprio autor quanto aos limites da comdia:
Mover a riso a boca moribunda?
 impossvel, senhora! A alacridade
no consegue abalar uma alma em transe.
[V.H.J
* William Shakespeare  Sonetos. Traduo e Notas de Jorge Wwefky. Rk) "fe
Civilizao Brasileira, 1991, p. 285. [N T.]
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#HAROLD  BLOOM
Por mais impressionantes, esses versos no comovem a implacvel Rosalina, cujo nico objetivo  "refrear os zombadores". Como pblico, no nos interessa vera espirituosidade 
de Biron refreada/ portanto, suas ltimas palavras na pea trazem-nos um certo alvio: "E longo em demasia". Biron , em grande parte, o centro da pea, mas Shakespeare 
opta por encerr-la com duas canes, uma disputa entre a Primavera e o Inverno, enquanto Biron sai de cena, e ficamos, claramente, com o mundo buclico da juventude 
de Shakespeare. A terra de Navarra j se foi, e ouvimos o cuco e a coruja, que cantam a respeito do "pastor" e "Joana". Barber comenta, com sensibilidade, que, 
na ausncia de casamentos, as canes "expressam a fora propulsora da vida",- eu acrescentaria que as canes contribuem para a nossa satisfao em voltar  vida 
real, depois da jornada com os sabiches de Navarra. E cabe aqui ressaltar que Shakespeare, que escreveu o melhor verso branco e a melhor prosa em lngua inglesa, 
, tambm, o maior dos letristas:
PRIMAVERA
Quando as violetas, as margaridas
e as cardaminas de cor de prata,
todas cheirosas, todas garridas,
o cho matizam da extensa mata,
o cuco zomba, no alto escondido,
dos casadinhos, em sustenido:
Cuco! Cuco!
Oh! Que palavras de desagrado
para os ouvidos do homem casado!
Quando na avena sopra o pastor
e as cotovias cantam ruidosas,
e quando as rolas se unem no amor
e as camponesas passam garbosas, :
o cuco zomba, no alto escondido,
dos casadinhos, em sustenido:
Cuco! Cuco!
Oh! Que palavras de desagrado
para os ouvidos do homem casado! " "     - "-
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TRABALHOS  DE  AMOR  PERDIDOS
INVERNO
Quando as estradas a neve cobre
e o zagalejo de frio treme,
e  casa lenha carrega o pobre
e na terrina congela o creme,
e a gua do riacho no fica suja,
ento, de noite, canta a coruja:
Tu-u! Tu-uit! Tu-u!
Nota agradvel na noite fria,
enquanto Joana lava na pia.
Quando l fora sibila o vento
e a tosse ao cura deixa sem fala,
e as aves buscam o seu sustento
e a zagaleja de frio cala,
o medo  grande, mas ningum fuja
quando de noite piar a coruja:
Tu-u! Tu-uit! Tu-u!
Nota agradvel na noite fria,
enquanto Joana lava na pia.
[V..]
O visvel temor, ainda que injustificado, que Biron sente de ser trado pela sua Dama Morena, conforme se d com Shakespeare nos Sonetos, encontra uma grandiosa 
transmutao na cano da Primavera. Solteiros ou casados, alarmamo-nos com esse retorno s foras da natureza, e recebemos bem a troa que a cano faz da antiga 
ansiedade masculina quanto a ser alvo de traio. Por mais bela que seja a cano da Primavera, a do Inverno  superior, com a celebrao da vida comunitria, em 
torno de uma fogueira e um caldeiro. O cantar da coruja  agradvel apenas por ser ouvido de dentro de casa, por homens e mulheres reunidos, compartilhando anseios, 
realidades e valores, estes aqui representados pelo cura, cuja tosse o deixa sem fala. A mais elaborada e artificial das comdias shakespearianas, seu grande banquete 
da linguagem, antiteticamente, deixa-se calar em simplicidade e frases comezinhas.
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#SONHO  DE  UMA NOITE  DE  VERO
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SONHO  DE  UMA NOITE  DE VERO
No auge do inverno de 1595-96, Shakespeare idealizou um vero perfeito, e escreveu Sonho de uma Noite de Vero, provavelmente, sob encomenda, para homenagear um 
casamento entre nobres, pois foi nesse contexto que a pea teve sua primeira encenao  Shakespeare havia escrito Ricardo II e Romeu e Julieta em 1595, em seguida 
viriam O Mercador de Veneza e Falstaff, na Pnmetra Parte de Henrique IV Nada escrito por Shakespeare antes de Sonho de uma Noite de Vero se equipara a essa pea 
e, at certo ponto, nada escrito por ele depois ir super-la Trata-se, sem dvida, de sua primeira obra-prima, perfeita, uma de suas peas (em um conjunto de dez 
ou doze) que apresentam fora e originalidade admirveis Infelizmente, todas as montagens a que tive oportunidade de assistir foram desastrosas,  exceo do filme 
de Peter Hall, em 1968, por sorte, disponvel em vdeo Somente A Tempestade tem sido to distorcida em produes recentes quanto Sonho de uma Noite de Vero (e tudo 
indica que tal prtica h de continuar) Na minha lembrana, as piores montagens foram a de Peter Brook (1970) e a de Alvm Epstein (que virou piada, em Yale, em 1975), 
mas no serei o nico apaixonado pela pea a rejeitar a idia corrente de que violncia sexual e bestialidade constituem o centro desse drama humano e sbio
Bem sei que questes de poltica de gnero esto to em voga que fica difcil ignor-las, Sonho de uma Noite de Vero h de se recuperar, em dias melhores, mas tenho 
muito a dizer em defesa de Bottom, o perso-
nagem shakespeanano mais cativante antes de Falstaff   Bottom, conforme o texto da pea, de uma maneira cmica, deixa bem claro, tem muito menos interesse sexual 
por Titnia do que esta por ele - ou do que, recentemente, muitos crticos e diretores tm por ela O texto shakespeanano, aqui e em outras peas,  picante, mas 
no lascivo, Bottom  afvel e inocente, e o que ele diz nem  to picante assim Os queixosos de "sexo e violncia" deveriam sair  procura de outras peas - Tito 
Anornico seria um bom ponto de partida Se Shakespeare quisesse escrever um ritual de orgia, criando Bottom como "uma besta bquica de saturnais e carnaval" (Jan 
K.ott), teramos uma outra comdia Mas o que temos  um Bottom gentil, meigo, de bom gnio, mais chegado  companhia dos elfos - Flor-de-ervilha, Teia-de-aranha, 
Traa e Semente-de-mostarda - do que da fogosa e apaixonada Titnia Numa poca de absurdos em termos de crtica teatral,  possvel que algum ainda me diga que 
o interesse de Bottom pelos seres pequeninos sugere pedofiha, o que no seria tolice maior do que o que corre por a a respeito de Sonho de uma Noite de Vero
Existe um elo curioso entre A Tempestade, Trabalhos de Amor Perdidos e Sonho de uma Noite de Vero  nas trs peas, em um conjunto de trinta e nove, Shakespeare 
no segue uma fonte primria At As Alegres Comadres de Wmdsor, que no possui fonte definida, parte, claramente, de Ovdio A Tempestade, a rigor, no tem enredo, 
e, em termos de ao, pouco acontece em Trabalhos de Amor Perdidos, mas, no caso de Sonho de uma Noite de Vero, Shakespeare desenvolve um enredo bastante complexo 
e auda cioso Shakespeare no tinha o dom de criar enredos, era o nico talento dramtico que a natureza lhe negara Quero crer que se sentisse orgulhoso por ter criado 
e interligado os quatro grupos de personagens presentes no Sonho Teseu e Hiplita, que pertencem ao antigo mundo dos mitos e das lendas, os amantes - Hrmia, Helena, 
Lisandro e Demtno -, que no pertencem a um tempo e lugar definidos, pois todos os jovens apaixonados habitam um local comum, os elfos - Titnia, Oberon, Puck e 
os quatro amiguinhos de Bottom -, oriundos do folclore, com sua magia, e, finalmente, os "artesos" - os sublimes, Bottom, Quince, Flauta, Snout, Snuge Starveling-, 
artfices ingleses,
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que, como tal, surgem da regio rural onde o prprio Shakespeare nasceu e cresceu
Essa mistura  to hbrida que vai merecer uma explicao, subjacente ao dilogo, ao mesmo tempo, absurdo e extraordinrio, entre Teseu e Hiphta, a respeito da
"msica" dos ces, na primeira cena do quarto ato, a qual discutirei adiante As palavras de Hiphta "[ ] nunca ouvira msica / to discorde, trovo to agradvel",
para muitos estudiosos, descrevem, acertadamente, a prpria pea Chesterton, que, em dados momentos, considerava Sonho de uma Noite de Vero o melhor texto dramtico 
de Shakespeare, atribua "supremo mrito literrio [ ]  estrutura da pea"
Como epitalmio, Sonho de uma Noite de Vero celebra, ao final, trs casamentos, alm da reconciliao de Oberon e Titnia Se os especialistas no nos avisassem, 
talvez, no nos daramos conta de que a pea  uma longa e complexa melodia a ser executada em um casamento, mas, a partir do ttulo, sabemos que se trata (pelo 
menos em parte) de um sonho Sonho de quem? At certo ponto, sonho de Bottom, tecido por Bottom, porque  ele o protagonista (e a maior glria) da pea No Eplogo, 
entretanto, Puck afirma tratar-se do sonho da platia, mas no sabemos, ao certo, como interpretar a apologia de Puck Bottom  suficientemente universal (como Poldy 
Bloom ou Earwicker, de Joyce) para tecer um sonho comum a todos ns, exceto na medida em que formos Pucks, e no Bottoms Como interpretar o ttulo da pea? C L Barber 
apontou o equvoco de Samuel Johnson ao deduzir que "os rituais de fertilidade" ocorriam apenas em is de maio, pois, na verdade, os jovens dedicavam-se a tais atividades 
sempre que os instintos para tal os conduzissem A ao no se passa em l9 de maio, nem na vspera do solstcio de vero, portanto, o ttulo deve ser entendido como 
uma referncia a qualquer noite no auge do vero Existe no ttulo um qu de incerteza, de despojamento o sonho pode ser de qualquer pessoa, a noite, qualquer uma 
em pleno vero, quando o mundo parece mais vasto
Bottom  o Todomundo" de Shakespeare, uma criao original, um comediante, e no um bobo ou um bufo  um sbio comediante, muito embora, sorridente, negue a sua 
prpria sabedoria, como se uma mods-
196
SONHO  DE  UMA  NOITE  DE  VERO
tia inocente no lhe permitisse tal pretenso Deleitamo-nos com Falstaff (exceto os acadmicos moralistas), mas adoramos Bottom, ainda que, entre os dois personagens, 
este ltimo seja, necessariamente, o menor Nenhum personagem shakespeanano, nem mesmo Hamlet ou Rosalinda, lago ou Edmundo,  mais inteligente do que Falstaff Bottom 
 sabido e bondoso, mas no  espintuoso, e Falstaff  o Rei da Espintuosidade Bottom est sempre alerta em situaes de emergncia, suas reaes so sempre admirveis 
A metamorfose que lhe  induzida por Puck  meramente exterior, por dentro, Bottom  inabalvel, imutvel Shakespeare o coloca em evidncia ao faz-lo lder, o favorito 
dos artfices, que o chamam de "valente Bottom", e ns com eles haveremos de concordar
Como Dogberry, mais tarde, Bottom  um antepassado de Mrs Malaprop, criao de Shendan, e emprega certas palavras desconhecendo-lhes o significado Embora, em conseqncia 
disso, s vezes, ele se equivoque, no fundo, est sempre certo O folclore associa mgica  tecelagem e, ao escolher Bottom como alvo de seu encantamento, Puck, a 
despeito do que possa parecer, no age de maneira to arbitrria Se Bottom toma-se ou no amante (brevemente) da Rainha dos Elfos permanece uma questo ambgua, 
ou elptica, decerto, por no ter importncia, considerando-se a singularidade de Bottom em Sonho de uma Noite de Vero  o nico personagem que v e conversa com 
os elfos O quarteto infantil - Flor-de-ervilha, Traa, Teia-de-aranha e Semente-de-mostarda - e Bottom encantam-se mutuamente Os elfos reconhecem no afvel tecelo 
uma alma gmea, e Bottom reconhece nas cnatunnhas muito de si "Mesmo no mais majestoso trono do mundo sentamo-nos sobre nossos prprios fundilhos",* Montaigne ensinara 
a Shakespeare e a todos ns em seu ensaio mais importante "Sobre a Experincia" Bottom, o homem natural, , tambm, o Bottom transcendental, que se sente igualmente 
bem na companhia de Teia-de-aranha e Flor-de-ervilha, ou Snug e Quince Para ele, no h desarmoma
: Em lngua inglesa, bottom, isto , "fundilhos", "traseiro" Analisando, adiante, o "Sonho de Bottom", Bloom invoca o sentido literal do nome do personagem [N T 
]
197
#HAROLD  BLOOM
musical, ou confuso, nos mundos superpostos de Sonho de uma Noite de Vero  absurdo tratar Bottom com ares de superioridade ele , a um s tempo, um sublime comediante 
e um grande visionrio
No existe qualquer opacidade em Bottom, nem mesmo quando est sob efeito de encantamento Puck, anttese de Bottom,  figura ambivalente, um traquinas, um tanto 
maldoso, embora a pea (e Oberon) o mantenha inofensivo, chegando mesmo a fazer com que o mal por ele praticado resulte no bem O outro nome de Puck, na pea e no 
folclore popular,  bom Robim, mais um moleque do que um esprito do mal, embora cham-lo de "born" denote uma certa necessidade de apazigulo Em lngua inglesa, 
a palavra puck, ou pook, originalmente, significava um demnio, ou um homem perverso, Robm Goodfellow (born Robim) era o nome popular do diabo Contudo, em todo o 
decorrer da pea, Puck est para Anel, assim como Oberon est para Prspero, ou seja, Puck permanece sob um controle firme e benigno Ao final, Bottom reassume sua 
verdadeira forma fsica, os amantes encontram seus pares, e Oberon e Titnia fazem as pazes "Nossa essncia [de espritos], porm,  diferente", observa Oberon, 
e at Puck  benevolente em Sonho de uma Noite de Vero
O contraste entre Puck e Bottom contribui para a definio do mundo ficcional da pea Bottom, a melhor espcie do homem natural, est sujeito s travessuras de Puck, 
sendo incapaz de evit-las ou escapar dos efeitos das mesmas no fossem as ordens de Oberon, embora Sonho de uma Noite de Vero seja uma comdia romntica, e no 
uma alegoria, parte da fora da pea advm da proposta de que Bottom e Puck so componentes invariveis do humano Um dos sentidos etimolgicos da palavra bottom 
remete a solo, a terra, e, talvez, os seres humanos possam ser divididos entre os que tm os ps na terra e os que pairam no ar, tendo, em seu interior, semelhante 
diviso Todavia, Bottom  humano, Puck no, no dispondo de sentimentos humanos, Puck no contm um significado humano
198
SONHO  DE  UMA NOITE  DE  VERO
Bottom  um exemplo precoce na obra shakespeanana de criao de significado, em vez de mera repetio Conforme se d com Falstaff, significado, em Shakespeare, 
decorre de excesso, transbordamento, exuberncia A conscincia de Bottom, ao contrrio de Falstaff e Hamlet, no  infinita, tomamos conhecimento de seus limites 
e descobrimos que contm tolices Mas Bottom  de uma sanidade herica, com seu corao de ouro, sua valentia, com capacidade de ser ele mesmo em quaisquer circunstncias, 
seu controle emocional, que o impede de entrar em pnico ou sequer se assustar Como Launce e Faulconbndge, o Bastardo, Bottom  exemplo triunfante da inveno do 
humano por Shakespeare Os trs preparam caminho para Falstaff, que a todos vai superar em termos de exuberncia e fonte de significado Falstaff, o anarquista ao 
extremo,  to fascinante quanto perigoso, ao mesmo tempo, fonte de vida e destruio Bottom  um cmico extraordinrio, e um bom sujeito, um dos personagens mais 
benignos criados por Shakespeare
Sem dvida, Shakespeare tinha conhecimento de que na obra TheFaene Queene, de Edmund Spenser, Oberon era o bondoso pai de Glonana, que na grandiosa alegoria pica 
de Spenser representava a prpria Rainha Ehsabete Os estudiosos acreditam na probabilidade da presena de Elisabete na estria de Sonho de uma Noite de Vero, sendo 
ela a convidada de honra da suposta festa de casamento Como se observa em Trabalhos de Amor Perdidos, A Tempestade e Henrique VIII, Sonho de uma Noite de Vero  
rica em espetculo visual Esse aspecto da pea, muito bem analisado por C L Barber, em Shakespeares Festwe Comedy, tem pouco a ver com o meu argumento central sobre 
a inveno do carter e da personalidade, que atribuo a Shakespeare Como entretenimento para aristocratas, Sonho de uma Noite de Vero despende poucas energias na 
tentativa de desenvolver Teseu e Hiplita, Oberon e Titnia, e os quatro jovens amantes perdidos na floresta, em personagens idiossincrticos e individualizados 
Bottom e o etreo Puck so os protagonistas e, como tal, so minuciosamente retratados Os demais - mesmo os pitorescos artfices - esto sujeitos
199
#HAROLD   BLOOM
 caracterstica emblemtica necessria que decorre da nfase no espetculo visual. Mas Shakespeare parece considerar a pea alm de seu propsito inicial, parece 
contempl-la como uma obra a ser mostrada ao grande pblico, pois apresenta pequenos detalhes de caracterizao, bastante sutis, que transcendem os objetivos de 
um epitalmio para aristocratas. Hrmia tem mais personalidade do que Helena, enquanto Lisandro e Demtrio se confundem - ironia shakespeariana que sugere a arbitrariedade 
do amor entre jovens, aos olhos de todos, exceto dos amantes. Mas todo e qualquer amor  irnico em Sonho de uma Noite de Vero-. Hiplita, embora, aparentemente, 
resignada,  noiva prisioneira, amazona domada,- Oberon e Titnia esto de tal modo habituados  traio que a rixa entre os dois nada tem a ver com paixo, apenas 
corn a guarda do menino adotado por Titnia. Embora a grandeza de Sonho de uma Noite de Vero comece e termine com Bottom, cuja primeira apario na pea se d 
na segunda cena, e com Puck, que abre o segundo ato, s seremos tomados pela linguagem sublime e singular do texto no primeiro confronto entre Oberon e Titnia:
OBERON
Orgulhosa Titnia,  mau indcio
assim nos encontrarmos ao luar. TITNIA
O ciumento Oberon! Fadas, partamos,-
abjurei do seu leito a companhia. OBERON
Detm-te, presunosa,- acata as ordens
de teu senhor. TITNIA
Ento, senhora eu sou.
No entanto eu sei que do pas das fadas
vieste furtivamente, aps a forma
tomares de Corino, e o dia inteiro
na avena rude versos amorosos ,    , ,
a Flida cantavas. Por que causa
20O
SONHO  DE  UMA NOITE  DE  VERO
vieste aqui ter, deixando a ndia longnqua? Certamente to-s pela imperiosa Amazona de botas elegantes, vossa guerreira amada, que est a ponto de casar com Teseu. 
OBERON
No te envergonhas,
Titnia, de atirar-me esses remoques
pelo interesse que eu dedico a Hiplita,
se eu no ignoro que amas a Teseu?
corn tua ajuda, numa noite fosca,
no pde ele fugir de Perignia,
que ele prprio raptara? Quem no sabe
que o fizeste violar os juramentos
feitos a Egle formosa, a Ariadne, a Antopa?
[H..]
Na obra Vida de Teseu, lida por Shakespeare em traduo de SirThomas North, a Teseu so atribudos diversos "raptos", aqui enumerados por Oberon, que confere a Titnia 
o papel de cafetina, por ter auxiliado o heri ateniense em suas conquistas, inclusive, sem dvida, na dela prpria. Embora Titnia retruque "Tudo isso  o cime 
que a inventar vos leva", as alegaes so to convincentes quanto a viso de Oberon cantando "versos amorosos" a Flida, e divertindo-se com a "imperiosa / Amazona", 
Hiplita. J o Teseu de Sonho de uma Noite de Vero parece ter desistido de correr atrs de mulheres, assumindo uma respeitabilidade racional, acompanhada do devido 
embotamento moral. Hiplita, ainda que considerada vtima pela crtica feminista, no se incomoda com o fato de ser cortejada  fora da espada e parece satisfeita 
corn a idia de se restringir  vida domstica em Atenas, depois das escapadas com
k  exceo do clebre "Sonho de Bottom", aqui traduzido pelo presente tradutor, as demais citaes referem-se  obra Sonho e uma Noite de Vero e O Mercador de 
Veneza. Traduo de Carlos Alberto Nunes. Volume in. So Paulo: Edies Melhoramentos, s.d. [N.T.]
201
#HAROLD  BLOOM
Oberon (embora mantenha uma viso prpria, conforme veremos adiante). O que Titnia nos revela, de maneira brilhante,  que a desavena entre ela e Oberon  desastrosa
para o mundo natural e humano:
TITNIA
Tudo isso  o cime que a inventar vos leva
Desde aquele vero, nunca podemos
nos reunir na floresta, pelos prados,
nas colinas, nos bosques, junto s fontes
em que os juncos vicejam, pelas praias
sonorosas do mar, para danarmos
em coro ao som dos ventos sibilantes,
sem que em nossa alegria no nos vssemos
perturbadas por tuas invectivas.
Por isso os ventos, como em represlia
de em vo nos assobiarem, do mar vasto
aspiraram vapores contagiantes, e estes, pelo pas se derramando, tanto deixaram tmidos os rios, que as margens inundaram, de orgulhosos, Em vo os bois no jugo 
se cansaram,- perdeu o suor o lavrador,- o verde trigo podre ficou antes de a barba juvenil lhe nascer,- os currais se acham vazios nas campinas alagadas,- cevam-se 
os corvos no pestoso gado,- as quadras de pelota esto desertas e cobertas de lama,- quase esfeitos na verde relva os belos labirintos, porque ora j ningum neles 
transita. Falta aos homens mortais o frio inverno,- com hinos e canes, as noites claras j no so abenoadas como outrora. E assim, a lua, que o mar vasto impera,
202
SONHO  DE   UMA  NOITE  DE  VERO
plida de rancor, todo o ar deixa mido,
abundando os catarros. Em tamanha
desordem vemos as sazes trocadas:
do seio brando da virente rosa
sacode a geada a cndida cabea,
enquanto sobre o queixo e nos cabelos
brancos do velho inverno, por escrnio,
brotam grinaldas de botes odoros
do agradvel estio. A primavera,
o estio, o outono procriador, o inverno
furioso as vestes habituais trocaram,
de forma tal que o mundo, de assombrado,
para identific-los no tem meios.
Pois bem,- toda essa prole de infortnios
de nossas dissenes, to-s, provm,-
geradores e pais somos de todos.
[II.-]
A poesia escrita por Shakespeare anteriormente no apresenta tanta excelncia,- aqui ele encontra uma de suas vozes mais autnticas: o hino, o lamento  natureza. 
Em Sonho de uma Noite de Vero, o poder  mgico, e no poltico. Teseu  incipiente, ao atribuir poder  paternidade, ou  sexualidade masculina. Em nossos dias, 
os herdeiros da metafsica materialista de lago, Tersites e Edmundo vem Oberon apenas como mais uma afirmao da autoridade masculina, mas deveriam levar em conta 
o lamento de Titnia. Oberon  superior em astcia e artimanhas, pois controla Puck, e consegue reconquistar Titnia. Mas isso constituiria uma afirmao do domnio 
masculino, ou algo bem mais sutil? A questo entre a rainha e o rei das fadas  uma disputa de custdia: "No peo muito, apenas / uma criana perdida, para dela 
fazer meu pajenzinho", diz Oberon. Ao contrrio da lascvia desmedida que muitos crticos enxergam aqui, vejo, nesse capricho de Oberon, apenas a afirmao inocente 
de sua soberania,- tampouco vejo qualquer mal na bela e comovente recusa de Titnia:
203
#HAROLD  BLOOM
Tal cuidado
tirai do corao. Nem todo o reino das fadas me comprar este menino. Ao meu culto sua me era votada. Muitas e muitas vezes, na atmosfera perfumada das ndias, 
me aprazia ouvi-la discretear, t-la ao meu lado nas amarelas praias de Netuno a admirar os cargueiros balouantes sobre as ondas inquietas. Como ramos, ao ver 
as velas enfunar-se, grvidas ao parecer, sob os lascivos beijos dos ventos buliosos! Imitando-as, a andar com irresistvel gaiatice - grvida, ento, do meu donoso 
pajem - por terra a velejar se punha, em busca de ninharias mil para ofertar-me, voltando aps, como de viagem longa, de sua gentil carga mui vaidosa. Mas, porque 
era mortal, morreu no parto deste menino que, por amor dela, recolhi para criar. Por isso, agora, pela mesma razo dele no largo.
tll.i.]
Ruth Nevo comenta, com correo, que Titnia tanto se aproxima de seus devotos que a criana passa a ser propriedade sua, constituindo uma relao da qual, nitidamente, 
Oberon  excludo. Tornar o menino seu pajem seria formalizar uma adoo, como no caso da atitude inicial de Prspero com relao a Caliban, e Oberon utilizar 
Puck para alcanar tal objetivo. Mas por que Oberon, que no sente cimes de Titnia com Teseu, agiria de maneira to obstinada com respeito  guarda do menino? 
Shakespeare no nos oferece uma resposta,- portanto, temos de interpretar a elipse.
204
SONHO  DE  UMA  NOITE  DE  VERO
Um motivo bvio  que Oberon e Titnia no tm filho homem,- sendo imortal, Oberon no precisa se preocupar em ter herdeiros, mas, evidentemente, tem aspiraes 
de paternidade que no podem ser satisfeitas por Puck. Podem ser relevantes, tambm, os fatos de que o pai do menino era um rei indiano e que, segundo a lenda, a 
linhagem real de Oberon teria iniciado a partir de um imperador indiano. Mas o motivo mais decisivo parece ser a recusa de Titnia em dividir com Oberon a adoo 
da criana. Talvez David Wiles tenha razo, ao insistir que Oberon pretende estabelecer um paralelo com os valores matrimoniais da aristocracia elisabetana, em 
que a procriao de um herdeiro era o objetivo mximo, embora a prpria Elisabete, como Rainha Virgem, descumpra a tradio - e Elisabete  a grande protetora de 
Sonho de uma Noite de Vero.
A meu ver, a rixa entre Titnia e Oberon  proveniente de algo bem mais sutil, estando relacionada  questo dos vnculos entre seres mortais e imortais na pea. 
Os casos de amor de Teseu e Hiplita com os elfos so coisa do passado, e Oberon e Titnia, por mais estremecidos que estejam, dirigem-se  floresta perto de Atenas 
para abenoar o casamento de seus antigos amantes. Bottom, um dos menos convincentes entre os mortais, ter uma breve vivncia em meio s fadas, mas sua metamorfose 
ser meramente exterior. O menino indiano  adotado pelas fadas e haver de viver entre os imortais. Isso  preocupante para Oberon: ele e seus sditos guardam seus 
mistrios a sete chaves, longe do alcance dos mortais. Excluir Oberon da companhia da criana, portanto, no  apenas desafiar a autoridade masculina,-  fazer mal 
a Oberon, um mal que ele deve reverter e rechaar, em nome da legitimidade da liderana que divide com Titnia. Como diz Oberon, trata-se de uma "injria".
Para atormentar Titnia, na tentativa de convenc-la a voltar atrs em sua deciso, Oberon invoca a mais bela viso da pea:
OBERON
[...] Certo ainda te lembras "   ,
de quando eu me sentei num promontrio,
205
#HAROLD  BLOOM
SONHO  DE   UMA  NOITE  DE  VERO
a ouvir uma sereia que se achava no dorso de um golfinho e que to doces melodias cantava, que o mar bravo deixava apaziguado com seu canto, tendo vrias estrelas 
loucamente suas rbitas deixadas s com o fito de escutar a cano. Ainda te lembras? PUCK
Perfeitamente. OBERON
Nesse mesmo instante pude ver, o que a ti fora impossvel, como Cupido, inteiramente armado, se atirava entre a terra e a lua fria. A mira havia posto numa bela 
vestal que o trono tinha no Ocidente,- com energia e deciso dispara do arco a flecha amorosa, parecendo que cem mil coraes ferir quisesse. No entanto eu pude 
ver a ardente flecha do menino esfriar-se sob a influncia da aquosa lua e de seus castos raios, continuando a imperial sacerdotisa seu virginal passeio, inteiramente 
livre de pensamentos amorosos. Vi bem o ponto em que caiu a flecha do travesso Cupido: uma florzinha do Ocidente, antes branca como leite, ,   agora purpurina, da 
ferida
que o amor lhe proveio. "Amor ardente"  o nome que lhe do as raparigas. Vai buscar-me essa flor,- j de uma feita te mostrei essa planta. Se deitarmos um pouco 
de seu suco sobre as plpebras
de homem ou de mulher entregue ao sono, ficar loucamente apaixonado por quem primeiro vir, quando desperto. Vai buscar-me essa planta,- mas retorna antes de duas 
lguas no mar vasto nadar o leviat.
PUCK
Porei um cinto
na terra em quatro vezes dez minutos.
OBERON
De posse desse suco, hei de achar meio de surpreender Titnia adormecida, para nos olhos lhe deitar o lquido. Ao despertar, o que enxergar primeiro, seja leo, 
urso, lobo, touro, mono bulioso ou irrequieto orangotango, perseguir com alma enamorada. E antes de eu lhe tirar da vista o encanto, o que farei com o suco de 
uma outra erva, obrig-la-ei a me entregar o pajem.
[H..]
A flor aqui chamada "amor ardente"  o amor-perfeito,- a "bela / vestal que o trono tinha no Ocidente" era a Rainha Elisabete I, e um dos propsitos dessa viso 
 constituir o maior e mais direto tributo feito por Shakespeare  Rainha. Ela segue em frente, livre e desimpedida,- a seta de Cupido, incapaz de atingir a Rainha 
Virgem, em compensao, transforma o amor-perfeito em smbolo universal do amor.  como se a opo de castidade feita por Elisabete abrisse a todos um cosmo de possibilidades 
erticas,- mas isso ter um custo elevado: o acaso e a arbitrariedade iro prevalecer sobre a escolha bem pensada. O amor  primeira vista, exaltado em Romeu e Julieta, 
 aqui retratado como calamidade. O potencial irnico do elixir do amor  insinuado quando, em um dos trechos mais belos da pea, Oberon trama a armadilha para Titnia:
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#HAROLD   BLOOM
WP
SONHO  DE  UMA  NOITE  DE  VERO
Sei o lugar onde h belo canteiro que o ar embalsama de agradvel cheiro do tomilho selvagem, da sincera violeta e da graciosa primavera, onde h latada de fragrantes 
rosas e madressilvas nmio dulorosas. Titnia a parte da noite dorme sob gracioso dossel petaliforme, por danas e canes acalentada. A serpe a deixa a pele 
variegada, grande bastante para de vestido a uma fada servir, fino e comprido. Pr-lhe-ei nos olhos este suco brando, de odiosas fantasias lhe deixando cheia a imaginao.
[H..]
O contraste entre os primeiros sete versos e os demais provoca-nos um/rissem esttico,- quando Oberon vai do naturalismo sensual  energia grotesca, temos a sensao 
de passar de Keats e Tennyson, a Browning, e a Eliot (em sua fase inicial). Assim, Shakespeare abre caminho para o momento decisivo da pea, a primeira cena do terceiro 
ato, quando Puck opera a transformao de Bottom, e Titnia acorda com as clebres palavras de espanto: "Que anjo me desperta do meu leito de flores?" O anjo  
Bottom, sublime, impvido diante do fato de sua afvel fisionomia ter sido transformada em cabea de burro.
A cena, de extrema comicidade, merece reflexo: quem, entre ns, seria capaz de suportar tamanha calamidade com tanto equilbrio? E de se supor que Bottom teria 
tolerado o destino de Gregor Samsa, personagem de Kafka, sem muito constrangimento. Ele entra em cena, no momento certo, declamando: "Tudo isso,  bela Tisbe, em 
teu regao eu ponho", e os amigos pem-se a correr. Talvez decepcionado por no ter conseguido assustar Bottom, Puck persegue os artfices, assumindo
disfarces aterrorizantes. Nosso Bottom fanfarro responde s palavras de espanto de Quince - "Deus te abenoe, Bottom! Deus te abenoe! Ests transformado" -, com 
uma alegre cantiga contendo indiretas sobre traio conjugai, que nos prepara para um dilogo de uma comicidade que o prprio Shakespeare jamais superaria:
TITNIA
Canta outra vez, gentil mortal, te peo.
Tua voz os ouvidos me enamora,
como o teu corpo os olhos me arrebata.
E de tal modo a tua formosura
me enleva e me comove, que eu proclamo,
sem mais desculpas procurar, que te amo. BOTTOM
Quer parecer-me, senhora, que para tanto vos assiste razo muito
minguada. No entanto, para dizer a verdade, hoje em dia a razo
e o amor quase no andam juntos. E pena que alguns vizinhos
honestos no se esforcem para deix-los comigo. Como vedes, eu
tambm posso ser espirituoso, em se oferecendo ocasio. TITNIA
Es to sbio quanto belo. BOTTOM
Nem tanto assim,- se eu tivesse esprito suficiente para sair deste
bosque, teria tudo o de que necessito. TITNIA
No ponhas noutra parte o corao,-
no bosque ficars, queiras ou no.
[IH.i.]
At C. L. Barber subestima Bottom, ao afirmar que Titnia e o Tecelo representam "a imaginao em oposio ao fato", uma vez que "o encantamento contrastado com 
a Verdade" toma-se mais ntido. Bottom  extremamente corts, valente, bondoso e meigo, comprazendo a bela rainha em seus caprichos, mesmo acreditando-a louca. 
A ironia aqui est
208
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#HAROLD  BLOOM
sob o controle de Bottom, que, com muito tato, a mantm benvola. Nada em Sonho de uma Noite de Vero resume melhor a trapalhada ertica do que as palavras: "hoje 
em dia a razo e o amor quase no andam juntos". Bottom tambm  capaz de dizer gracejos. No sendo sbio ou atraente, Bottom, com sensatez, quer sair da floresta, 
mas no parece muito alarmado quando Titnia o declara prisioneiro. A maneira orgulhosa com que Titnia afirma sua prpria importncia toma-se hilria, devido 
 presuno absurda de ser capaz de livrar Bottom da sua "mortal grosseria" e transform-lo em "esprito areo", como se ele pudesse ser adotado, como o fora o menino 
indiano:
TITNIA
Um esprito eu sou, de voz sincera/ vero perene em meu pas impera, e amor te voto. Por tudo isso, vem,- silfos belos vais ter, como eu, tambm, que jias te traro 
do mar profundo, e te faro dormir sempre jucundo. Da mortal grosseria you livrar-te e em esprito areo transformar-te. Traa! Mostarda! Flor-de-ervilha! Teia!
Bottom, gentil com a embevecida Titnia, encanta-se com os quatro elfos, e estes com ele, que poderia pertencer ao grupo mesmo sem a ajuda da transformao operada 
por Puck:
TRAA
Pronto! SEMENTE-DE-MOSTARDA
Eu tambm! FLOR-DE-ERVILHA
Aqui!
TODOS QUATRO
Para onde iremos? , ,
210
SONHO  DE  UMA  NOITE  DE  VERO
TITNIA
Sede corteses com este gentil-homem,-
bailai em tomo dele, dando saltos
graciosos, porque a vista se lhe agrade.
Dai-lhe damascos doces sem demora,
uvas rosadas, figo verde e amora.
Aliviai as abelhas em pletora.
De suas pernas aprestai candeeiro,
que acendereis depressa no luzeiro
dos vaga-lumes, e amarrai, ligeiro,
asas de mariposa transparente,
porque os raios da lua impertinente
no lhe causem aos olhos dor pungente.
Elfos, cumprimentai-o alegremente. FLOR-DE-ERVILHA
Salve, mortal! TEIA-DE-ARANHA
Salve! TRAA
Salve! BOTTOM
De todo o corao peo perdo a Vossas Senhorias. Como 
que Vossa Senhoria se chama? TEIA-DE-ARANHA
Teia-de-aranha. BOTTOM
Desejo ficar vos conhecendo mais de perto, meu bom mestre
Teia-de-aranha. Quando eu me cortar o dedo, terei a ousadia
de vos utilizar. Vosso nome, honesto cavalheiro? FLOR-DE-ERVILHA
Flor-de-ervilha. BOTTOM
Peco-vos que me recomendeis  senhora Vagem, vossa me, e
ao mestre Gro-de-bico, vosso pai. Caro mestre
211
#HAROLD   BLOOM
Flor-de-ervilha, espero que em futuro prximo estreitemos as relaes. Vosso nome, senhor, por obsquio?
SEMENTE-DE-MOSTARDA Semente-de-mostarda.
BOTTOM
Caro mestre Semente-de-mostarda, conheo perfeitamente vossa aparncia. O covarde e agigantado Rosbife j devorou muitos cavaleiros de vossa casa. Podeis ficar certo 
de que os vossos parentes j me deixaram muitas vezes com os olhos cheios de lgrimas. Desejo travar conhecimento mais ntimo convosco, caro mestre Semente-de-mostarda.
[Ill.i.]
Embora Titnia, em seguida a essa conversa inocente, ordene aos elfos que conduzam Bottom a seu caramancho, o que ali se passa, em meio s violetas complacentes, 
s fragrantes madressilvas e s doces rosas-moscadas, permanece ambguo. E ser que isso tem alguma importncia, a no ser para Jan Kott ou Peter Brook? Ser que 
a pea  memorvel por sua "bestialidade orgistica", ou pela presena de Florde-ervilha, Teia-de-aranha, Traa e Semente-de-mostarda? Sem dvida representados por 
crianas  poca de Shakespeare (assim como nos dias de hoje), os elfos so dados a furtar das abelhas e das borboletas, estratagema precrio e emblemtico em Sonho 
de uma Noite de Vero. A cortesia circunspecta demonstrada por Bottom aos elfos e a ateno e a boa vontade que estes a ele dedicam contribuem para o estabelecimento 
de uma afinidade que sugere algo profundamente ingnuo (no infantil, no bestial) a respeito de Bottom. Se no reajo contra crticos recalcados  porque, muitas 
vezes, ouo a voz de meu falecido mentor, Frederick A. Pottle, de Yale, admoestando-me: "Sr. Bloom, pare de malhar em ferro frio!" Mas you faz-lo, citando, com 
prazer, o que Empson diz de Kott:
Coloco-me, aqui, ao lado dos antiquados.  ridcula a indiferena de Kott com relao  Letra da pea, e ele faz de tudo para poluir-lhe o esprito.
212
SONHO  DE  UMA  NOITE  DE  VERO
As fadas, de modo geral (e Puck, em particular), costumam errar o alvo. Seguindo a instruo de Oberon, no sentido de desviar, de Hrmia para Helena, a paixo de 
Demtrio, Puck erra e faz Lisandro cortejar Helena. Quando Puck corrige o erro, o quarteto toma-se mais absurdo do que nunca, pois Helena acha que est sendo objeto 
de troa e foge dos dois pretendentes, e Hrmia cai em depresso. O terceiro ato chega ao final: Puck faz adormecer os quatro amantes exaustos, para, em seguida, 
redirecionar a afeio de Lisandro a Hrmia, e deixar Demtrio apaixonado por Helena. Tais medidas geram a leve ironia que jamais ser resolvida na pea: ser que 
a definio dos casais altera alguma coisa? A resposta pragmtica seria: no muita, seja nessa ou em qualquer outra comdia, visto que, em Shakespeare, os casamentos 
parecem estar fadados  infelicidade. Nesse aspecto, Shakespeare parece validar o que chamo de "teoria da caixa-preta". Quando o avio cai, procura-se a caixa-preta, 
para se descobrir a causa do acidente, mas as nossas "caixaspretas" so irrecuperveis, e nossos desastres conjugais so to arbitrrios quanto os sucessos. Talvez 
seja essa a "lei de Puck": como saber se o casal Demtrio-Helena ser mais feliz do que Lisandro-Hrmia? Mas o terceiro ato de Sonho de uma Noite de Vero coloca 
de lado essas questes, sendo concludo com a cano de Puck:
corn prosa lhana Joo pega Joana. Quem boa potranca tem, acha que tudo est bem.
[IH.ii.]
Todos deveramos escolher nossos atos favoritos nas peas de Shakespeare; um dos meus seria o quarto ato de Sonho de uma Noite de Vero, em que as maravilhas se 
sucedem, a eloqncia transborda, e Shakespeare manifesta, sem trgua, a exuberncia de sua criatividade. A interpretao que ressalta o tema orgistico fica sem 
sentido logo na primeira cena
213
#HAROLD  BLOOM
do referido ato, quando Titnia, sentada ao lado de Bottom em um canteiro de flores, acaricia-lhe a face, coloca-lhe rosas-moscadas  fronte e beija-lhe as orelhas, 
pois Bottom no se deixa seduzir:
BOTTOM
Onde est Flor-de-ervilha? FLOR-DE-ERVILHA
Presente! BOTTOM
Flor-de-ervilha, coa-me a cabea. Onde est monsieur Teia-de-aranha? TEIA-DE-ARANHA
Presente! BOTTOM
Monsieur Teia-de-aranha, meu caro monsieur, tomai vossas armas, matai-me a abelha de ancas vermelhas que se acha naquele cardo e trazei-me, caro monsieur, seu saco 
de mel. No vos afobeis demasiadamente nessa operao, monsieur, e tende cuidado, meu bom monsieur, para que o saco de mel no venha a se romper. Pesar-me-ia, sitjnior, 
ver-vos inundado de mel. Onde est monsieur Semente-de-mostarda? SEMENTE-DE-MOSTARDA
Presente! BOTTOM
Dai-me o punho, monsieur Semente-de-mostarda. Por obsquio, deixai esses cumprimentos, meu caro monsieur. SEMENTE-DE-MOSTARDA
Que ordenais? BOTTOM
Nada, meu caro monsieur, a no ser que queirais ajudar o Cavaleiro Teia-de-aranha a me cocar. Estou precisando ir ao banheiro, monsieur, pois quer parecer-me que 
estou com o rosto maravilhosamente peludo. Sou um asno to delicado, que se um plo, que seja, me faz ccegas, sou obrigado a me arranhar.
214
SONHO  DE  UMA  NOITE  DE  VERO
TITNIA
Amor, desejas ouvir boa msica? BOTTOM
Sou dotado de ouvido razoavelmente musical. Que venha,
pois, o bombo e os martelos TITNIA
Ou dize, amor, o que comer preferes. BOTTOM
Magnfico! Uma quarta de forragem. Mastigaria, tambm, com
muito gosto, aveia seca. Parece-me que aceitaria de bom grado
um bom feixe de feno. No h o que se compare ao feno
perfumado!
[IV.i.]
O que logrou Puck? Para Titnia, criou uma situao indigna, sem dvida, mas firmou a amizade de Bottom com os elfos. Sonolento, Bottom confunde Teia-de-aranha 
corn Flor-de-ervilha, mas, fora disso, parece seguro de si, ainda que seus hbitos alimentares estejam, necessariamente, alterados. E adormece, junto  embevecida 
Titnia, num belo e inocente abrao. Oberon nos informa que, havendo Titnia desistido da guarda do menino indiano, tudo est perdoado,- Puck pode livr-la do encantamento 
e, de passagem, desencantar Bottom, embora o Tecelo continue a dormir profundamente. O toque de Shakespeare aqui  extremamente sutil; a metamorfose  representada 
pela dana da reconciliao que reata a unio entre Oberon e Titnia:
OBERON
Msicos, prossegui! Vamos, querida, as mos nos demos.
[IV.i.]
Os quatro enamorados e Bottom continuam a dormir, mesmo quando Teseu, Hiplita e squito entram em cena, fazendo alarde, em meio a um dilogo que constitui a apologia 
de Shakespeare  arte de engendrar fuses, to presente na pea em questo:
215
#HAROLD   BLOOM
SONHO  DE  UMA  NOITE  DE  VERO
TESEU
Um de vs v chamar o guarda-caa. J completamos o ritual sagrado,- e uma vez que a manh vamos ter livre, vai minha amada apreciar a orquestra de meus fortes lebris. 
Desatrelai-os no vale do oeste,- corram livremente. Depressa! Ide chamar o guarda-caa. Minha rainha, daquele alto monte ouviremos melhor a conjuno dos ecos, a 
ladrar em confuso. HIPLITA
Presente eu fui com Hrcules a Cadmo, quando, com ces de Esparta, o urso caavam na floresta de Creta. To galante barulheira jamais havia ouvido,- o bosque, 
o cu, as fontes, tudo, tudo, era em tomo uma crebra gritaria. Em parte alguma nunca ouvira msica to discorde, trovo to desagradvel. TESEU
Estes meus ces tambm provm de Esparta,- plo manchado todos tm, queixada muito larga, as orelhas derrubadas, sempre a varrer o orvalho matutino,- de pernas tortas 
e papada, todos, fazem lembrar os touros de Tesslia. Um tanto lerdos so no encalo s feras,  verdade,- mas, quando todos ladram, lembram toque de sinos,- gritaria 
mais harmoniosa nunca foi sentida nem provocada pelo som dos comos ouvidos na Tesslia, em Creta e Esparta.   -
Ides julgar vs mesma, aps ouvi-los. Mas, devagar! Que ninfas sero estas?
tIV.i.]
A "msica [...] discorde" promove a fuso de quatro modos de representao distintos: Teseu e Hiplita, egressos da mitologia clssica,- os quatro jovens amantes, 
vindos de qualquer tempo e lugar,- Bottom e seus companheiros, ingleses de origem simples,- e as fadas, totalmente eclticas. Titnia  o nome que Ovdio d a Diana, 
Oberon tem origem no romance celta, e Puck, ou o bom Robim, vem do folclore ingls. Nesse dilogo divertido e insano, Teseu e Hiplita celebram os ces de Esparta, 
grande tolice, criados apenas para acuar a caa, sendo, portanto, "lerdos [...] no encalo s feras". Shakespeare celebra aqui o "trovo [doce e] desagradvel" de 
sua cmica extravagncia, que, conforme os ces de Teseu, no tem pressa de chegar a parte alguma, e ainda nos reserva grandes surpresas. Passo pelo momento em que 
os quatro jovens despertam (Demtrio, agora, apaixonado por Helena), para deter-me na fala mais extraordinria escrita por Shakespeare at ento: o sublime devaneio 
de Bottom, ao despertar:
BOTTOM
Quando chegar a minha vez, chamem-me, que eu responderei. Minha prxima fala : "Formosssimo Pramo!" Ol, Peter Quince! Flauta, remenda foles! Snout, caldeireiro! 
Starveling! Deus do cu! Foram-se todos, e me deixaram a dormir. Tive uma viso extraordinria. Tive um sonho, que no h entendimento humano capaz de dizer que 
sonho foi. No passar de um grande asno quem quiser explicar esse sonho. Parece-me que eu era... No h quem seja capaz de dizer o que eu era... Parece-me que eu 
era... e parece-me que eu tinha... S um bufo maltrapilho seria capaz de tentar explicar o que me pareceu que eu tinha. No h olho de homem que tenha escutado, 
nem ouvido de homem que tenha visto, nem mos de homem que tenham degustado, nem lngua que haja
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217
#HAROLD  BLOOM
concebido, nem corao que haja relatado o que foi o meu sonho. you pedir a Peter Quince que escreva uma balada a respeito desse sonho, que receber o ttulo de 
"O Sonho de Bottom", por ser um sonho sem fundo, e a cantarei no fim da pea, diante do duque. E possvel, at, que, para deix-la mais graciosa, eu a cante depois 
da morte dela.
[IV.i.]
O comentrio encontrado na Bblia (de Genebra) referente a l Corntios 2: 9-10  o seguinte: "O Esprito busca [...] o fundo dos segredos de Deus". A pardia feita 
por Bottom dos versculos em questo  audaciosa, e permite a Shakespeare antecipar a viso romntica de William Blake, que repudia a diviso paulina entre corpo 
e alma, embora Bottom parea remeter-se ao texto da Bisbops Bibk:
o que os olhos no viram, os ouvidos no ouviram, e o corao do homem no percebeu, isso Deus preparou [...]
Para Bottom, "no h olho de homem que tenha escutado, nem ouvido [...] que tenha visto, nem mos [...] que tenham degustado, nem lngua que haja concebido, nem 
corao que haja relatado" as verdades de seu sonho "sem fundo". Conforme, mais tarde, o fez William Blake, Bottom invoca um homem apocalptico, antes do pecado 
original, cujos sentidos aguados se fundem em unidade sinestsica. E difcil no enxergar em Bottom, nesse seu momento mais sublime, um antepassado no apenas de 
Albion, em Blake, mas de Earwicker, em Joyce, o sonhador universal de Finnegans Wake. A grandeza de Bottom - e aqui temos Shakespeare pairando nas alturas - aparece 
de modo contundente no trecho que poderia ser denominado "A Viso de Bottom"; trata-se de um momento de triunfo misterioso que Bottom h de desfrutar, tendo Teseu 
como platia, em que a "pea" fica diferenciada da pardia, da pea-dentro-da-pea intitulada Pramo e Tisbe-.
* I e,"bottomless" [N T]
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SONHO  DE  UMA  NOITE  DE  VERO
you pedir a Peter Quince que escreva uma balada a respeito desse sonho, que receber o ttulo de "O Sonho de Bottom", por ser um sonho sem fundo, e a cantarei no 
fim da pea, diante do duque.  possvel, at, que, para deix-la mais graciosa, eu a cante depois da morte dela.
A morte de quem? Por desconhecermos a cena que se descortina na viso de Bottom, no temos como responder tal pergunta, exceto para afirmar que no se trata de Titnia, 
nem de Tisbe. Quando, na cena seguinte, o meigo e alegre Bottom reencontra os amigos, o tom de sua fala no ser o mesmo. No entanto, Shakespeare no esquecer 
esse lado "gracioso" de Bottom, e o antepe, sutilmente,  clebre fala de Teseu que abre o quinto ato. Admirada, Hiplita reflete sobre a estranheza do relato apresentado 
pelos jovens amantes, e Teseu retruca, com
o seu caracterstico ceticismo:
TESEU
Mais estranha
do que veraz, decerto. E-me impossvel
acreditar em fbulas antigas
e em histrias de fadas. Os amantes
e os loucos so de crebro to quente,
neles a fantasia  to criadora,
que enxergam o que o frio entendimento
jamais pode entender. O namorado,
o luntico e o poeta so compostos
s de imaginao. Um v demnios
em muito maior nmero de quantos
comportar pode a vastido do inferno:
tal  o caso do louco O namorado,
no menos transtornado do que aquele,
enxerga a linda Helena em rosto egpcio.
O olho do poeta, num delrio excelso,
passa da terra ao cu, do cu  terra, -    -
219
#HAROLD   BLOOM
e como a fantasia d relevo
a coisas at ento desconhecidas,
a pena do poeta lhes d forma,
e a essa coisa nenhuma area e vcua
empresta nome e fixa lugar certo.
 a imaginao to caprichosa,
que para qualquer mostra de alegria
logo uma causa inventa de alegria,-
e se medo lhe vem da noite em curso,
transforma um galho -toa em feroz urso!
[Vi.]
Teseu no  dotado de muita imaginao, mas temos aqui duas vozes, uma, talvez, do prprio Shakespeare, distanciando-se um pouco de sua arte, embora evitando ceder 
 viso condescendente de Teseu. Quando Shakespeare escreve esses versos, o amante v, na fronte de uma egpcia, a beleza de Helena,- contudo, a conscincia proftica 
de Shakespeare pressagia aqui o momento em que Antnio ver a beleza de Helena em Clepatra. Para os contemporneos de Shakespeare, "imaginao" era sinnimo de 
"fantasia", faculdade mental, a um s tempo, potente e suspeita. Sir Francis Bacon afirma tal ambigidade de maneira concisa:
A Imaginao no  apenas uma mensageira,- contm - ou, pelo menos, usurpa - grande autoridade prpria, alm de desempenhar a funo de mensageira.
"Usurpa"  aqui a palavra-chave,- para Bacon, a mente  a autoridade legtima, e a imaginao deveria, na verdde, contentar-se em ser apenas a mensageira da mente, 
e no arrogar a si qualquer autoridade. Teseu  mais baconiano do que shakespeariano, mas Hiplita rebate-lhe o dogmatismo:
Contudo, as ocorrncias desta noite, tal como eles as contam, e as mudanas por que todos passaram, testificam
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SONHO   DE  UMA  NOITE  DE  VERO
algo mais do que simples fantasia, que certa consistncia acaba tendo, conquanto seja tudo estranho e raro.
[Vi.]
Podemos minimizar a interpretao dessa fala, enfatizando que a prpria Hiplita desconfia da noo de "fantasia", mas, a meu ver, tal leitura seria um tanto pobre. 
Para Teseu, a poesia  um furor, e o poeta, um embusteiro; Hiplita  dada a ressononcias maiores, a transformaes que, de pronto, afetam mais de uma mente. Os 
amantes so, para Hiplita, a metfora do pblico de Shakespeare,- somos ns, portanto, que acabamos tendo "certa consistncia", e, assim, somos (re)formados, de 
uma maneira estranha e rara. A gravidade majesttica de Hiplita contm uma censura tcita  troa que Teseu faz do "delrio excelso" do poeta. Os estudiosos tm, 
justificadamente, investigado o tema "da histria da noite" em Shakespeare indo alm de Sonho e uma Noite de Vero, por mais maravilhosa que seja a pea. "No, 
posso asseverar-vos,- j foi derrubado o muro que separava os pais deles", so as palavras finais de Bottom na pea, que transcendem o entendimento condescendente 
de Teseu. "As melhores produes desta classe no passam de simples sombra", diz o Duque, referindo-se ao teatro e  atuao,- embora pudssemos aceitar que tal 
idia fosse expressa por Macbeth, no podemos aceit-la, partindo do Duque de Atenas. Mas, no Eplogo, Puck- parece concordar com Teseu, ao dizer que somos "sombras" 
e "sonho", sendo essa grande pea o sonho em si. O poeta que sonhou com Bottom estava prestes a realizar um grande sonho de realidade, Sir John Falstaff, que no 
teria o menor interesse em satisfazer Teseu.
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O  MERCADOR DE VENEZA
Somente um cego, surdo e mudo no constataria que a grandiosa e ambgua comdia shakespeariana O Mercador de Veneza  uma obra profundamente anti-semita. No entanto,
sempre que analiso a pea em sala de aula, muitos dos meus alunos, mesmo entre os mais sensveis e inteligentes, mostram-se insatisfeitos, quando inicio meus comentrios 
corn a observao acima. Tampouco aceitam minhas afirmaes de que Shylock  um vilo cmico e que Prcia deixa de ser uma personagem cativante, se a Shylock for 
permitida uma condio pattica. Sena improvvel que o prprio Shakespeare fosse anti-semita, mas Shylock  um daqueles personagens shakespearianos que parecem transpor 
os limites das peas a que pertencem. Tanto a prosa quanto a poesia de Shylock so de uma energia extraordinria, de uma fora, ao mesmo tempo, cognitiva e passional, 
que vai, visivelmente, alm da dimenso cmica do texto. Mais do que Barrabs, o judeu de Malta criado por Marlowe, Shylock  um vilo, igualmente farsesco e assustador, 
embora o tempo haja desgastado essas duas caractersticas. A Inglaterra de Shakespeare no conhecia o "problema", ou a "questo" do judeu, nos termos da nossa modernidade,- 
apenas cem ou duzentos judeus, a maioria, presumivelmente, convertida ao cristianismo, viviam em Londres. Os judeus haviam sido, de certa forma, expulsos da Inglaterra 
em 1290, trs sculos antes de Shakespeare, e s seriam, digamos, readmitidos quando da revoluo de Cromwell. O infeliz Dr. Lopez, mdico da
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#O MERCADOR DE VENEZA
Rainha Elisabete, foi enforcado, estripado e esquartejado (possivelmente, com a presena de Shakespeare na multido),- Lopez teria sido incriminado pelo Conde de 
Essex e, portanto, talvez, falsamente acusado de tentar envenenar a Rainha. Judeu portugus convertido e, podemos conjeturar, conhecido de Shakespeare, o pobre Lopez 
surge como motivao de uma nova estria, muito bem-sucedida, de O Judeu de Malta, de Christopher Marlowe, em 1593-94, e, talvez, da criao de O Mercador de Veneza 
(circa
1596-97), pea com a qual Shakespeare supera Marlowe.
Prcia, e no Shylock,  a personagem central da pea, embora, hoje em dia, determinadas platias tenham dificuldade em aceitar tal concluso. Antnio, o mercador 
que consta do ttulo da pea,  o bom cristo, que demonstra sua beatice ao xingar e cuspir em Shylock. Para muitos de ns, isso constitui, no mnimo, uma ironia, 
mas, para o pblico elisabetano, no havia aqui ironia alguma. Jamais assisti a uma montagem de O Mercador de Veneza em que Shylock fosse retratado como vilo-cmico, 
mas  assim que o papel deveria ser desempenhado. Shylock seria deveras terrvel no fosse cmico,- um vez que, para as platias de hoje, Shylock nada tem de engraado, 
a representao do personagem visa ao patbos, e assim ele tem sido retratado desde o incio do sculo XIX, exceto na Alemanha e na ustria, sob o regime nazista, 
bem como no Japo. Creio que corremos o risco de tomar O Mercador de Veneza incoerente, ao retratarmos Shylock como um personagem por demais cativante. Contudo, 
preocupa-me o quanto nos custaria (e no apenas em termos ticos) resgatar a coerncia dessa pea. Provavelmente, o custo seria a perda do autntico Shylock shakespeariano, 
que no deve ter sido, exatamente, como Shakespeare o desejava, se  que podemos resgatar a inteno do autor. Se dirigisse a pea, instruiria o ator que estivesse 
fazendo o papel de Shylock a represent-lo como um fantasma alucinado, um exuberante sonombulo, de narigo postio e peruca ruiva, isto , faria com que Shylock 
fizesse lembrar o Barrabs criado por Marlowe. Podemos imaginar o efeito surrealista dessa figura, cujas falas so enunciadas com um nervosismo intenso, uma energia 
extremamente realista, uma personalidade capaz de se equiparar a um grupo de vivazes predecessores encontrados na dramaturgia shakespea-
223
#HAROLD   BLOOM
de certos aspectos do temperamento de seu cnador, ao contrrio do que ocorre entre Shylock e Shakespeare ( se tornarmos Falstaff como o padro shakespeanano que 
acredito 
que seja)   Obviamente, Barrabs  to judeu quanto os cristos da pea so cristos, ou os muulmanos, muulmanos   Shakespeare desconcerta-me porque sua influncia 
 de tal  modo universal que Shylock,  realmente,  parece judeu a muitas platias, embora a figura que estas contemplam tenha sido transformada, passando a invocar 
pathos herico Quando pensamos na presena do judeu na literatura ps-bblica, Daniel Deronda, de George Ehot, Fagin, de Dickens, e Poldy, o meio-judeu de Joyce, 
entre outros, s nos vem  mente depois que nos lembramos de Shylock Ningum, exceto o sempre anti-semita T S  Ehot, v Barrabs como um judeu autntico  Barrabs 
 uma espcie de gnio do mal preso na garrafa, algo numa caixa de surpresas, sempre pronto a dar um susto na platia  No podemos deixar de nos divertir com ele, 
to caricatas as suas afrontas Voltarei a tratar de Barrabs adiante, no contexto da reviso que Shakespeare faz de Marlowe, para alcanar seus prprios e diferentes 
desgnios
Temos, tardiamente, um estudo lcido e sensato de O Mercador de Veneza na obra Shakespeare and tbe Jews, de James Shapiro (1996), cujas observaes finais merecem 
bastante reflexo
Procurei demonstrar que muito da vitalidade da pea pode ser atribudo ao modo com que a mesma abala os alicerces de certas convices relativas  altendade racial, 
nacional, sexual e religiosa Desconheo outra obra literria que cause tamanho efeito, com semelhante tenacidade e honestidade Desviar o olhar do que a pea revela 
sobre a relao entre mitos culturais e identidade em nada contribuir para o desaparecimento de atitudes irracionais e excludentes Na verdade, impulsos soturnos 
dessa natureza so de tal modo esquives e difceis de serem identificados no curso normal da vida, que somente em situaes como nas montagens dessa pea podemos 
vislumbrar as fissuras culturais  por isso que censurar a pea  sempre mais perigoso do que encen-la
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O  MERCADOR DE  VENEZA
"Censurar",  claro, no costuma ser o caso, exceto na Alemanha nazista e em Israel, como Shapiro bem sabe O que nos deixa perplexos  a dificuldade de encenar uma 
comdia romntica em que um judeu  forado a se converter ao cristianismo, sob risco de morte Quando Shylock, hesitante, diz "Fico contente", poucas platias sentir-se-o, 
de fato, contentes, a menos que consigamos reunir uma platia feliz em seu anti-semitismo Rei Lear  uma pea paga para um pblico cristo, segundo alguns estudiosos 
O Mercador de Veneza  uma pea crist para um pblico cristo, segundo Northrop Frye A meu ver, Shakespeare no escreveu peas crists - ou no-cnsts-, conforme 
j assinalei, minha viso de um Shakespeare que muda constantemente de perspectiva exclui a possibilidade de ter ele sido anti-semita - ou filo-semita -, concluso 
a que Shapiro tambm chega Tenho de convir com a noo levantada por Graham Bradshaw, de que a "criativa intenonzao de Shylock" desenvolvida por Shakespeare toma 
questionvel a percepo do mercador judeu como apenas um vilo cmico ou apenas uma figura pattica O que me deixa criticamente insatisfeito  o acrscimo desconcertante 
que Shakespeare faz ao episdio da libra de carne a converso forada O incidente  fruto da inveno de Shakespeare, mas no consigo me convencer, em termos dramticos, 
que Shylock aceitasse tal imposio Prcia pode ter quebrado o esprito de Shylock, mas no o pulverizou, e j no  Shylock quem sai de cena, aos tropeos, prestes 
a  se tornar cnsto-novo, ou cnsto-falso, ou seja l o que for Por que Shakespeare permite a Antnio mais uma volta no parafuso da tortura"
Teria o personagem de Shylock se desenvolvido demasiadamente, segundo a cauta intuio de Shakespeare, ao ponto de precisar ser retirado da pea, como se d com 
Merccio, o Bobo de Lear e Lady Macbeth? A idia me parece dbia, visto que Shakespeare tanto se demora a despedir Shylock da pea Podemos at achar que Shylock 
tenha se convertido, embora saibamos que no haveria tempo para isso Shakespeare jamais se equivocaria, criando uma cena inesperada em que mesmo um vilo cmico 
agisse com incoerncia dramtica Malvlio, mesmo numa cela para loucos, mantm integridade dramtica, mas a Shylock, acuado pelos inimigos, isso no  permitido 
Houve poca em
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#HAROLD   BLOOM
a herona, esse heri seria Antnio, e no o peso-leve Bassnio, galante e inofensivo   Mas jamais encontrei algum que gostasse muito de Antnio, a no ser por 
sua tendncia compulsiva de cuspir e dar botinadas em transeuntes judeus Sena desejvel que o antagonista de Shylock fosse um mercador de Veneza mais cativante, 
algum que pudesse ser recomendado por algo alm do seu cristianismo   Leslie Fieder escreveu que Antnio  "uma projeo do sofrimento pessoal do autor", idia 
interessante, mas que no passa de conjetura Antnio j foi considerado pelos crticos um tonto, uma figura inspirada em Cristo, um indivduo que se faz de vtima 
etc , e, sem dvida,  um personagem ambguo Mas o que o toma expressivo e memorvel  o dio mtuo entre ele e Shylock   Como inimigo,  superado por Shylock, 
mas consegue alcanar uma certa estatura, ao propor a converso forada Esta ltima, e a clebre libra de carne a ser cortada em seu peito,  tudo o que h de interessante 
em Antnio, e ningum tem necessidade de saber se Shakespeare, seja l por que razo, deixou de desenvolver o interior do personagem
Apesar de lidar com problemas, O Mercador de Veneza , basicamente, uma comdia romntica, e o patbos aqui  excludo, to excludo quanto o judeu Shylock Da minha 
parte, detecto pouco pathos em Shylock, e no me comove a litania "Um judeu no tem [ ]", pois, hoje em dia, o contedo daquela fala s ter interesse para skmheads 
e outros prias da sociedade E possvel que a referida fala, para o pblico do tempo de Shakespeare, tivesse um carter de revelao, mas espera-se que isso no 
se aplique s platias de hoje Shylock se impe nos momentos em que  mais ameaador, por exemplo, quando enfrenta o Duque de Veneza, e insiste em fazer valer o 
contrato Vamos descartar a incipiente noo de Northrop Frye de que Shylock fala pelo Antigo Testamento e Prcia, pela Nova e misericordiosa Aliana Frye foi um 
grande crtico, exceto quando misturava crtica literria e a funo de ministro da Igreja, assim como o pensamento crtico de T S Ehot nunca se beneficiou das tendncias 
religiosas do poeta e ensasta O Deuteronmio probe o ato que Shylock deseja praticar, mas Deus (e a democracia) me livre da misericrdia de Prcia" Prcia  perigosamente 
teatral, e no apenas
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O   MERCADOR  DE  VENEZA
quando se veste de homem Tal caracterstica ela divide com o amado, Bassnio, e com o rival, Antnio Shylock, por estranho que parea, no  nada teatral, por 
mais dramtico que seja, at o momento da improvvel converso A ameaa que ele pode representar e toda a sua fora cmica dependem do contraste estabelecido entre 
sua franqueza monomanaca e a fnvolidade cativante dos amigos de Prcia, na alta sociedade veneziana Reduzindo-o, em termos do teatro contemporneo, Shylock seria 
um protagonista de Arthur Miller deslocado em um musical de Cole Porter, um Willy Loman perdido em Kiss Me Kate
Shakespeare era mestre na criao desses espritos deslocados e, nesse aspecto, Shylock apresenta afinidades com um vanadssimo grupo de personagens que inclui 
Malvlio, Caliban, o Bobo de Lear, Bernardino, e at uma das facetas de Falstaff Malvlio, em uma pea de Ben Jonson, seria quase Jonson, mas, em Noite de Reis, 
seu deslocamento o toma alvo do ridculo Suponho que, na concepo de Shakespeare, Shylock tenha nascido como figura cmica, semelhante a Malvlio, mas Shylock 
despertou a imaginao de Shakespeare e tomou-se mais do que cmico, embora no uma figura pattica, mas ameaadora O estmulo para a metamorfose de Shylock s 
pode ter sido o Barrabs, de Marlowe, que perseguira Shakespeare desde o princpio de sua carreira de dramaturgo
Shylock  um anti-Barrabs, voltado para o interior, dotado de uma psique profunda, ao passo que Barrabs  uma caricatura As imitaes que Shakespeare faz de Barrabs, 
em Aaro, o Mouro, e Ricardo in, prestam uma homenagem a Marlowe, mas Shylock expe Barrabs como uma caricatura, por mais brilhante e brutal que seja "Mostrarei 
a voc o judeu", Shakespeare diz, em resposta a Marlowe, e, infelizmente, o fez, para eterno prejuzo do povo judaico Isso no quer dizer que Shylock seja uma representao 
vlida de um judeu, muito menos que ele seja o judeu, mas h que se reconhecer a enorme hegemonia de Shakespeare na cultura mundial, hegemonia que, nessa nica situao, 
implica mais uma perda do que um benefcio Ainda hoje, O Judeu de Malta  um belo folguedo, admirado por T S Ehot, embora, creio eu, pelos motivos errados, visto 
que Ehot, sem dvida, apreciava a pea
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HAROLD   BLOOM
como uma farsa anti-semita, o que ela no . Na pea, cristos e muulmanos saem-se pior do que Barrabs, pois, se pudessem, seriam to perversos quanto Barrabs,-
falta-lhes, porm, a ndole malvola. O judeu criado por Marlowe , simplesmente, conseqncia do delrio de Christopher Marlowe, pleno de uma energia diablica,
invertendo todos os valores, zombando de tudo e de todos. Grande fuga da realidade, a pea O Judeu de Malta exalta o mal ativo e diminui o bem passivo, e pode ser
considerada a Ubu Rei de seu tempo. A rubrica de Jarry dizia: "A ao no transcorre em parte alguma - ou seja, na Polnia", talvez uma das primeiras piadas de cunho
tnico. No mesmo esprito, a ao da pea de Marlowe transcorre em Malta - ou seja, em parte alguma. Marlowe no contou com fontes literrias ou histricas, e a
ao poderia transcorrer em qualquer ponto do Mediterrneo, em qualquer sculo, logicamente, aps Maquiavel, que, no prlogo, instanos a aclamar Barrabs. Conforme
Maquiavel, seu mestre, o judeu criado por Marlowe  obcecado por "poltica" - ou seja, por princpios que anulam Cristo. O demonaco Barrabs, delirante em sua perversidade,
nada tem em comum com Shylock, figura amargurada cuja vingana permanece centrada em Antnio.
Shakespeare esfora-se para expurgar de Shylock todo e qualquer elemento marloviano, o que, inevitavelmente, implica um mergulho no interior do personagem. Barrabs
 desprovido de qualquer dimenso interior,- Shylock concentra-se tanto em sua fora interior que chega a reduzir Prcia e companheiros, e at mesmo Antnio, a algo
que mais parece exerccios de ironia. O fenmeno de uma pessoa "de carne e osso", presa dentro de uma pea, cercada de sombras falantes,  mais contundente em Hamlet,
 claro. Contudo, a experincia esttica do mtodo Pirandello, executado com perfeio em Hamlet, faz a sua primeira incurso em O Mercador de Veneza, em que o
peso ontolgico de Shylock, do momento em que entra em cena at o momento em que sai, faz com que o referido personagem  se torne uma representao da realidade
bem mais intensa do que a observada em qualquer outro da pea. Shylock, por mais equvoco que seja,  a melhor pista para trilhar o processo pelo qual Shakespeare
superou Marlowe, e, ao faz-lo, inventou, ou reinventou, o humano.
l
O  MERCADOR  DE  VENEZA
Barrabs  exuberante, mas  um monstro, no um homem. O Shylo obsessivo criado por Shakespeare  suficientemente obstinado em seu c a Antnio a ponto de perpetrar
algo monstruoso, no fosse a interven de Prcia. Shylock no  um monstro,- antes,  exemplo de um ser huma cuja existncia seria perfeitamente admissvel. A grande
importncia Shylock no est apenas no mundo histrico do anti-semitismo, mas mundo interior do desenvolvimento da arte de Shakespeare, pois nenhu figura anterior
na dramaturgia shakespeariana tem a fora, a complexide e o potencial vital de Shylock. O pathos provocado por Shylock pode considerado a fora maior do personagem.
Que um esprito de tamar complexidade se reduza  nsia de obter uma libra da carne de Antnu ser pesada em uma balana,  a mais terrvel ironia expressa por Sha
speare nessa comdia de tantas ironias.
Eis, para mim, o grande enigma de Shylock-. seria ele o prime
exemplo shakespeariano radical de um traquinas que rouba a coroa
Apoio? Seria Shylock um personagem da estirpe de Falstaff, ou
Pickwick, de Dickens? Seria ele da linhagem de Dom Quixote, San<
Pana e Hamlet? Pode-se afirmar que Shylock foge ao controle
Shakespeare? Afinal, nada parece mais estranho do que classif
Shylock como vilo-cmico, assim como o agitado Barrabs, ainda c
por mais sombria, O Mercador de Veneza seja uma comdia, e o ju
agiota, certamente, o vilo da pea. Ao recusar-se a criarum novo Aa
o Mouro, ou um outro Ricardo in, ambos imitaes de Barra1
Shakespeare forjou Shylock como uma figura complexa e incomum,
vrios sentidos. O sentimento predominante em Barrabs  a autd
dulgncia, um jbilo provocado pela perversidade grotesca e triunfa
prprio personagem. Aaro e Ricardo in tambm so extremam^
auto-indulgentes, mas Shylock no  indulgente, nem consigo me^
nem com qualquer outra coisa, a despeito de todo o seu orgulho pr(
Os crticos costumam assinalar que existe uma melancolia comu
Antnio e a Shylock, uma espcie de elo involuntrio entre duas ps
que se odeiam. Embora a tristeza seja comum, as causas da mesma
diferentes: Antnio, seja qual for a natureza de sua relao com Bass
h de perd-lo para Prcia, ao passo que Shylock,  claro, faz te
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235
#HAROLD   BLOOM
chora a morte de Leah, esposa e me da intolervel Jssica, a mimada princesinha judia de Veneza, que colhe o que semeia das mos do playboy Lorenzo. Shakespeare 
no esclarece a natureza da relao entre Shylock e a filha ladra, mas, sem dvida, est melhor s do que acompanhado dela, e age corretamente ao chorar, com igual 
intensidade, a perda dos ducados e da filha.
Simpatizamo-nos imensamente com Barrabs, Aaro e at Ricardo in porque seus apartes nos tomam seus cmplices. Shakespeare, para evitar que isso ocorra, jamais 
nos deixa a ss com Shylock. Barrabs  dissimulado, sempre consciente de estar representando,- Shylock  de uma sinceridade e uma tenacidade que assustam. Jamais 
representa um papel: , simplesmente, Shylock. Se, de um lado, tal caracterstica confere ao personagem imensa expressividade, de outro, toma-o extremamente vulnervel, 
chegando mesmo a transform-lo no bode expiatrio da pea.  capaz de atuar com uma ironia impiedosa, principalmente nos dilogos com o Duque, mas a grande ironia 
da comdia faz de Shylock sua vtima. Cabe a Prcia o privilgio de provocar a ironia na pea, mas,  custa de Shylock, tal ironia toma-se brutal, embora no to 
brutal quanto a do bom Antnio, que oferece a Shylock duas opes: ser executado como indigente ou sobreviver como agiota aposentado, pois, como cristo convertido, 
Shylock no pode desempenhar uma atividade tpica de judeu.
Shakespeare, com mais sutileza do que Marlowe, demonstra que, embora os cristos (excetuando-se Graziano) sejam mais refinados do que Shylock, no so mais misericordiosos. 
Prcia  bastante charmosa, mas Bassnio, Lorenzo, Nerissa e Jssica tambm o so. E possvel que Shylock seja o menos charmoso dos personagens shakespearianos,- 
contudo, ficamos por ele fascinados, e por razes que vo alm da sua mais que evidente perversidade. A linguagem de Shylock, instrumento extraordinrio, deve ter 
impressionado o prprio Shakespeare, como um grande avano de dramaturgia. S nos deparamos com Shylock na terceira cena do primeiro ato, aps termos encontrado 
Antnio, Bassnio e Prcia, e a primeira vez que ouvimos sua prosa de virtuoso  o momento em que ele recusa o convite de Bassnio para jantar:
236
O  MERCADOR  DE  VENEZA
Eu sei, para cheirar porco e comer na habitao para a qual o seu profeta Nazareno conjurou o diabo: comprarei com os senhores, venderei com os senhores, falarei, 
andarei e assim por diante: mas no comerei com os senhores, no beberei com os senhores e nem farei as minhas oraes com os senhores.
[I.iii.]
^/
A referncia feita aqui ao Evangelho de Marcos, assim como ao Evangelho de Lucas, no momento em que Shylock v Antnio se aproximando, sugere um detalhe interessante: 
o judeu de Shakespeare leu a Escritura do inimigo. com efeito, Shylock sabe polemizar, atacando o cristianismo, principalmente naquilo que consta como tica crist 
em Veneza. No sendo to inflamatrio quanto o judeu de Marlowe, Shylock , pelo menos, to leal ao seu povo quanto Barrabs, o que toma o seu consentimento com 
respeito  converso forada algo de uma incongruncia quase absurda. Sua primeira fala em verso, um dos raros apartes, invoca uma inimizade antiga, que vem de muito 
antes da que existe entre ele e Antnio:
Se consigo apanh-lo num aperto, Mato a fome de queixas muito antigas. Por odiar minha nao sagrada, Nos locais onde vo os mercadores Agride a mim, meus lucros 
e poupanas, A que chama de juros ou de usura. Maldita seja a minha prpria tribo Se eu o perdo.
[I.iii.]
Em versos que ardem em rancor espiritual, informados por uma grande inteligncia espiritual, Shylock afirma a sua identidade como o judeu, herdeiro de um orgulho 
perseguido h quinze sculos. Pesa-me concordar com as legies de estudiosos de orientao cultural materia-
237
#HAROLD  BLOOM
lista que desaprovam o pensamento crtico de E. M. W. Tillyard, mas reconheo que ningum se equivocou mais com relao a Shylock do que Tillyard, que falava da 
"estupidez espiritual" de Shylock e da "bondade desinteressada" de Antnio. A afirmao data de 1965, mas nunca ser tarde demais para que o anti-semitismo ingls 
se manifeste. No vamos entrar no mrito do desinteresse que leva a cuspir e dar pontaps em pessoas. O esprito de Shylock encontra-se enfermo, desvirtuado pelo 
dio, por mais justificado que seja esse dio, mas a inteligncia de Shylock, em qualquer nvel,  inquestionvel. Ele no seria to assustador e perigoso, se no 
fosse um psiclogo genial, um precursor do grande crtico, lago, e do niilista Edmundo, em Rei Lear.
O companheiro de Shylock, em termos de sentimento de dio na pea,  Antnio, cujo anti-semitismo, embora apropriado para a Veneza retratada na ao,  mais intenso 
e perverso do que o de qualquer outro personagem, inclusive o de Graziano. O anti-semitismo de carter homossexual tomou-se um mal por demais idiossincrtico para 
a nossa compreenso,- a partir de Proust, as situaes de judeus e homossexuais tendem a convergir, simblica e, s vezes, literalmente, como na Alemanha nazista. 
Veneza e Belmonte nadam em dinheiro, e a tentativa de Antnio no sentido de distinguir entre o mercantilismo por ele praticado e a usura de Shylock no convence 
ningum. O mercador e o judeu apresentam-se em uma dana mortal, do masoquista com o sdico, vtima e assassino, e a questo - quem  o mercador e quem  o judeu 
- s  resolvida pela duvidosa converso. Antnio vence, mas nada ganha, exceto dinheiro,- Shylock perde (merecidamente) e nada ganha, nem mesmo uma identidade. 
No conseguimos interpretar-lhe as palavras "Fico contente" porque no nos saem dos ouvidos suas duas grandes falas, ambas voltadas contra Veneza: a rapsdia que 
discorre sobre "homens que no gostam de ver porco" e o discurso sobre a escravido em Veneza. Nenhuma dessas duas falas  necessria para o desenvolvimento da comicidade, 
tampouco a ttulo de exerccio de patbos. Shakespeare leva ao mximo sua criao, como que disposto a descobrir que tipo de personagem estaria delineado em Shylock, 
seu melhor noturno at que revisasse Hamlet, transformando-o, de um simples sujeito dado a ardis, em um novo tipo de ser humano.
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O  MERCADOR DE  VENEZA
Ao desenvolver o personagem de Shylock, mudando-o de vilo-cmico em vilo-herico (e no em heri-vilo, como Barrabs), Shakespeare trabalha sem qualquer precedente, 
e guiado por uma motivao dramtica difcil de ser apreendida. Shylock  sempre um grande papel: vm-nos  lembrana Macklin, Kean, Irving, embora, em nossos dias, 
no tenhamos desempenhos memorveis do papel. Jamais aceitei o Shylock corts e filo-semtico de Olivier, que parecia egresso da Viena de Freud, e no da Veneza 
de Shakespeare. Naquela montagem, cartola e black tie substituem a gabardine judaica, e os fortes discursos ameaadores so moderados, para lidar com o "mal-estar 
na civilizao". Embora o efeito dessa interpretao seja um irrealismo sutil e persuasivo, o contexto que enseja o niilismo exacerbado de Shylock parece ausente, 
no momento de enunciao da clebre e chocante fala:
Vossa Graa ir me perguntar
Por que prefiro a carne a receber
Trs mil ducados - Isso eu no respondo!
Digamos que  capricho - serve assim?
Se houvesse um dia um rato em minha casa
E me agradasse dar 10 mil ducados
Pra liquid-lo... Serve essa resposta?
H homens que no gostam de ver porco,-
Outros que endoidam quando encontram gatos!
H quem no possa reter as urinas
Se ouve gaita de foles - os caprichos
So mestres das paixes e - ao acaso -
Viram amor ou dio - por que causa?
No h razo que explique bem por que
Este no gosta de olhar pra porco,
Aquele no suporta um bichaninho,
O outro a gaita: mas acabam, todos,
Passando por vergonhas e ofendendo
Os outros porque algo os ofendeu.
Assim, no dou razo - e nem darei. i - " "
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#HAROLD  BLOOM
Por esse dio fixo, essa ojeriza,
Que tenho a Antnio  que eu levo avante
Essa causa contra ele,- eu respondi?
[IV.i.]
Uma vez que os "caprichos" de Shylock sugerem, basicamente, uma antipatia inata, ao passo que suas "paixes" expressam a idia de sentimentos autnticos, ele se 
revela nessa fala, ironicamente, incapaz de controlar a prpria vontade. Mas a ironia de Shakespeare volta-se contra Shylock, pois o personagem joga com cristos, 
e no pode vencer,- as palavras "dio" e "ojeriza" definem muito bem o anti-semitismo, e Shylock, fora de controle, toma-se um judeu terrorista que revida as constantes 
provocaes anti-semitas. E as imagens que constam do discurso de Shylock so mais memorveis do que a defesa que ele apresenta para seus caprichos. A atitude de 
Antnio contra Shylock, e vice-versa, estabelece um paralelo com a loucura dos que se descontrolam ao ver um porco, tm crises de nervos quando se deparam com 
um gato ou, involuntariamente, urinam ao ouvir gaita de foles. Shylock celebra a compulsividade por si mesma, ou o capricho traumatizante. Como um psiclogo negativista, 
o judeu de Shakespeare tem a funo de nos preparar para o que h de mais profundo nos impulsos observados nos grandes viles shakespearianos que adviriam, mas Shakespeare 
priva Shylock da grandeza da transcendncia negativista que haveria de informar lago, Edmundo e Macbeth. E na fala sobre o repdio ao porco, mais do que no grito 
- "Eu quero a multa!" - que Shylock expe o seu interior.
Quase nada sabemos sobre a pertinncia entre as relaes pessoais de Shakespeare e os grandes papis por ele criados (se  que havia qualquer ligao). A ambivalncia 
do relacionamento entre Falstaff e Hal faz lembrar aquela encontrada nos Sonetos, e a imagem do filho de Shakespeare, Hamnet Shakespeare, ainda poder, de alguma 
maneira, contribuir para elucidar os enigmas do Prncipe Hamlet.  difcil conceber que Shylock representasse um peso na conscincia de Shakespeare,- no que diz 
respeito  condio dos judeus, e apenas nesse caso, Shake-
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O  MERCADOR  DE  VENEZA
speare  homem tpico de sua poca. Se considerarmos que no se trata de Marlowe escrevendo uma farsa sangrenta, Shakespeare  perverso, ou ignorante (ou as duas 
coisas), quando faz Shylock pedir a Tubal que o encontre na sinagoga, para planejarem os detalhes do assassinato judicial de Antnio. H que se reconhecer que tanto 
a perversidade quanto a ignorncia possuem um carter genrico, o que, no entanto, no as toma desculpveis. O enredo pedia a presena de um judeu, o judeu de Marlowe 
perdurava nos palcos, e Shakespeare precisava livrarse de Marlowe. Na minha avaliao, a satisfao de Shakespeare em ter conseguido alcanar seu objetivo fez com 
que ele aumentasse o investimento dramtico em Shylock, e contribui para a justificativa da fala mais impressionante em toda a pea. Quando o Duque pergunta: "De 
onde espera perdo, se no o d?", Shylock responde com uma fora extraordinria, questionando a prpria base da economia de Veneza:
Por que temer, se no cometo erros? Vs tendes entre vs muitos escravos, Que usais como se fossem ces ou mulas,- Que usais para as tarefas mais abjetas, Porque 
os comprastes - devo eu vos dizer "Libertai-os, casai-os com os vossos? .    Por que mourejam eles? Que seus leitos Sejam tambm macios, seus jantares Cozidos como 
os vossos?". Vs direis "Os escravos so nossos". Tambm eu Digo que a carne que estou exigindo, Comprei-a caro,  minha e eu a quero: Se nVnegais, adeus s vossas 
leis! Veneza no garante os seus decretos! Quero a sentena - vamos! Ela  minha?
[IV.i.]
 fcil equivocar-se na interpretao dessa fala, conforme recenteInente o demonstraram alguns crticos de orientao marxista. Shylock
241
#HAROLD   BLOOM
no tem compaixo dos escravos, e parece alheio  ironia contida na referncia, pois, como judeu, todos os anos, ele celebra a Pscoa judaica, que lembra o fato 
de que seus ancestrais foram escravos no Egito at serem libertados por Deus Jamais devemos supor que Shakespeare fosse alheio ao mundo que o cercava, sua curiosidade 
era insacivel, sua nsia de informao, sem limites O paralelo medonho estabelecido por Shylock  para valer uma libra da carne de Antnio lhe pertence, como um 
escravo pertence ao dono, e ele exige o pagamento da multa O que nos surpreende e diverte  a denncia sagaz que o personagem dirige contra a hipocrisia crist, 
feita anteriormente na pea, embora sem o atrevimento presente na fala citada acima Os escravos de Veneza, como outros quaisquer, no passam de libras de carne E 
no contexto da Amrica de Gingnch e Clmton, a stira ainda  vlida nossos devotos reformadores da Previdncia Social esto decididos a impedir que os descendentes 
dos nossos escravos durmam em camas to macias quanto as deles ou sirvam-se em mesas fartas - e a permisso para se casarem com os herdeiros da Amrica est fora 
de cogitao Mas Shylock no se d conta de seu argumento mais srio, vale lembrar, ele no  um profeta, apenas um torturador e assassino em potencial  Shakespeare, 
explorando o papel de Shylock, que, com astcia, rene material para uma profecia de cunho moral, algo que nenhum personagem da pea est preparado ou capacitado 
a fazer
Shylock, ento,  um campo de fora ainda maior do que ele prprio  capaz de dominar, e Shakespeare, em O Mercador de Veneza, assim como, posteriormente, em Medida 
por Medida, abre  comdia possibilidades raramente permitidas a esse gnero dramtico Lamentavelmente, a tematizao proposta por Shakespeare no chega a atenuar 
a selvagena do retrato do judeu por ele apresentado, tampouco devemos supor que ele desejasse tal atenuante, especialmente se levarmos em conta o pblico para o 
qual o dramaturgo escrevia O extermnio dos judeus impossibilita a encenao de OMercadorde Veneza, pelo menos, conforme parecem ser os termos da pea com certo 
alvio, volto-me para a questo da contribuio de Shylock ao desenvolvimento do Shakespeare poeta e dramaturgo E a resposta surpreendente  que, ao
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O  MERCADOR DE  VENEZA
completar a emancipao de Shakespeare com respeito a Marlowe, Shylock enseja a criao da Primeira Parte de Henrique IV, com dois personagens que chegam a ser 
mais ambivalentes do que o prprio Shylock o Prncipe Hal, e o pice da inveno do humano por Shakespeare, Sir John Falstaff
O sentido que Shakespeare confere  ambivalncia no  o de Freud, embora Freud, to ambivalente com relao a Shakespeare, sem sombra de dvida, fundamente a sua 
reflexo sobre a ambivalncia em materiais inicialmente fornecidos por Shakespeare A ambivalncia primordial, seja em Shakespeare ou em Freud, no decorre, necessariamente, 
de determinantes sociais A antipatia entre Antnio e Shylock gera um comportamento que vai alm da provocao habitualmente dirigida aos judeus, Graziano exemplifica 
bem esse passatempo cristo, mas, com Antnio, a coisa  mais sria A ambivalncia deste, como a de Shylock,  assassina, mas, ao contrrio da de Shylock, alcana 
xito, pois Antnio acaba com Shylock, o judeu, e nos concede Shylock, o cnsto-novo Em Freud, a ambivalncia  definida como os sentimentos de amor e dio, simultaneamente, 
dirigidos a uma mesma pessoa, em Shakespeare, a ambivalncia, algo mais sutil e assustador, transforma o dio por si mesmo em dio pelo outro, e associa o outro 
a possibilidades perdidas pelo eu Hamlet, apesar de seus protestos, na verdade, no quer vingana, pois ningum mais do que ele saberia que, na vingana, todos se 
igualam Matar Cludio  tomar-se o Velho Hamlet, o pai fantasmag rico, e no o prncipe intelectual E terrvel ter de admitir, mas um Shylock convertido e alquebrado 
 prefervel a um Shylock facnora (caso Prcia no o houvesse impedido) O que restaria a Shylock aps mutilar Antnio? O que resta a Antnio aps esmagar Shylock? 
Na ambivalncia shakespeanana, no pode haver vitrias
A P Rossiter, na obra Angel imth Horm (publicada postumamente, em
1961), afirma que a ambivalncia , tipicamente, a dialtica dos dramas histricos de Shakespeare, e define ambivalncia como uma forma de ironia com efeito, a 
ironia est to presente em Shakespeare, e em tantas modalidades diferentes, que  impossvel abranger a questo em sua totalidade O que, em O Mercador de Veneza, 
no seria irnico,
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#HAROLD   BLOOM
inclusive a celebrao em Belmonte, no quinto ato? A coexistncia de Antnio e Shylock em Veneza  o cmulo da ironia, uma ambivalncia to exacerbada que precisa 
ser interrompida, seja pela brbara mutilao de Antnio, ou pela brbara vingana crist contra Shylock, que, evidentemente, no tem tempo sequer de ser catequizado 
antes do batismo. Chacina ou batismo  uma dialtica e tanto: o mercador de Veneza sobrevive, mas o judeu de Veneza  imolado, uma vez que, como cristo, no pode 
continuar a emprestar dinheiro a juros. Para Shakespeare, a prioridade maior  o desenvolvimento dramtico, mas nem Shylock nem Antnio podem se desenvolver. Antnio 
torna-se apenas mais sombrio, e Shylock esmorece,- pudera, luta sozinho contra toda uma cidade.
Concluo, reiterando que teria sido melhor para o povo judeu, ao longo dos ltimos quatro sculos, se Shakespeare jamais tivesse escrito essa pea. O Mercador de 
Veneza  to enigmtica e equvoca, que tenho as minhas dvidas se seria possvel encen-la, hoje em dia, de modo a resgatar a arte de Shakespeare ao retratar Shylock. 
Shylock h de prosseguir causando em ns, judeus e cristos esclarecidos, um certo desconforto, e, sendo assim, finalizo, perguntando se Shylock no teria causado, 
em Shakespeare, mais desconforto do que supomos. Malvlio  muito maltratado, mas o procedimento mais parece uma troa dirigida a Ben Jonson. Parolles merece castigo, 
mas a humilhao demonstrada  dbil. Lcio, cuja sanidade cortante nos fornece um meio de colocar em perspectiva a loucura presente em Medida por Medida,  forado 
pelo Duque a casar-se com uma prostituta. O castigo de Shylock supera o de todos esses personagens, e a volta que Antnio d no parafuso, ao exigir a converso 
imediata,  inveno de Shakespeare, no fazendo parte da lenda da libra de carne. A vingana de Antnio  uma coisa, a de Shakespeare, outra bem diferente. O dramaturgo, 
corn sua grande alma, teria plena conscincia de que o ultraje gratuito de uma converso forada ao cristianismo veneziano ultrapassa os limites da decncia. A vingana 
de Shylock contra o autor  ter a coerncia dramtica do personagem destruda quando o mesmo aceita o cristianismo em vez da morte.
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O  MERCADOR  DE  VENEZA
Assim, Shakespeare humilha Shylock, mas quem pode acreditar nas palavras de Shylock, "Fico contente"? Certa vez, comentei que o consentimento de Shylock em  se tornar 
cristo  mais absurdo do que a hipottica adeso de Coriolano ao partido popular, ou a anuncia de Clepatra em ser levada como vestal a Roma. E mais fcil vislumbrar 
Falstaff como monge do que Shylock como cristo. Imaginem Shylock orando como um cristo, ou confessando-se a um padre! E impossvel. Shakespeare  aqui um tanto 
malicioso, mas somente um crtico antisemita, adepto do Antigo ou do Novo Historicismo,  capaz de apreciar, devidamente, a extenso dessa malcia.
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#13
MUITO  BARULHO POR NADA
Embora no seja uma obia-pnma entre as comdias shakespeananas, Muito Barulho por Nada continua a demonstrar uma vitalidade ex-/ traordmna no palco Jamais vi uma 
Beatriz e um Benedito que se equiparassem a Peggy Ashcroft e John Gielgud, h quase meio sculo, e a pea sobrevive at o filme de Kenneth Branagh, no qual a paisagem 
toscana rouba-nos a ateno do que h de melhor na prosa shakespeanana Escrita imediatamente aps a rejeio de Falstaff, na Segunda Parte de Henncjue IV, e antes 
do duvidoso triunfo de Hal, em Henrique V, Muito Barulho por Nada contm uma certa inteligncia e espintuosidade no estilo de Falstaff, embora personagem algum preencha 
o vazio deixado por Sir John Beatriz no  Rosahnda, e Benedito  personagem menor do que o de Beatriz Hamlet, revisto a partir de uma primeira verso de autoria 
do prprio Shakespeare (se, conforme aqui argumento, Peter Alexander estava certo), desenvolve-se com base em Falstaff e Rosahnda, mas expressa uma espintuosidade 
mais soturna e uma inteligncia cuja voracidade  inigualvel em toda a literatura Como personagens, Beatriz e Benedito pertencem a uma categoria inferior, mas  
importante perceber que os dois dominam a ao em Muito Barulho por Nada somente porque Shakespeare os cria como verses palacianas da exuberncia e da fora cognitiva 
de Falstaff O domnio que Beatriz e Benedito exercem sobre a prosa resulta, indiretamente, do exaltado duelo verbal entre Hal e Falstaff (exaltado apenas da parte 
de Hal)
246
MUITO  BARULHO  POR  NADA
A ambivalncia, caracterstica da psique de Hal, tem um sentido bastante diverso nas contendas entre Beatriz e Benedito Os dois se amam j h algum tempo, mas Benedito 
bate em retirada
BENEDITO
Oh cus1 E um prato de que no gosto no suporto a senhora Lngua i
(Sai )       ^
DOM PEDRO
Como estais vendo, senhonta, perdestes o corao do senhor Benedito
BEATRIZ
 certo, Milorde, ele mo emprestara por algum tempo e eu lho devolvi com juros um corao duplo, no lugar do simples que eu havia recebido Mas, antes disso, ele 
j mo havia ganho com dados falsos Vossa Graa tem razo de dizer que o perdi *
[II i]
O rompimento aqui insinuado no ps fim a coisa alguma, e ambos sabem muito bem disso, pois so niilistas inveterados Muito Barulho por Nada , decerto, a pea niilista 
mais afvel escrita em todos os tempos, e o ttulo  mais do que apropriado Seguindo Nietzsche muito antes de Nietzsche, Beatriz e Benedito seguem, tambm, Congreve 
antes de Congreve Cada embate entre os namorados deixa transparecer um abismo, e a espintuosidade dos dois  mais uma defesa contra a insensatez do que de um contra 
o outro Eles fazem muito barulho por nada porque sabem que nada advm de nada e, portanto, pem-se a falar Por mais combativo que seja Benedito, Beatriz sempre h 
de vencer, ou melhor, sempre que possvel, pois  mais astuta Antes mesmo de encontrarmos Benedito, Beatriz j triunfa
" Muito Barulho por Nada Traduo de Carlos Alberto Nunes So Paulo Edies Melhoramentos s d Todas as citaes referem se a essa edio [N T]
247
#HAROLD  BLOOM
[   ] Por obsquio nesta guerra, quantos inimigos ele matou e comeu" Ou melhor quantos ele matou? Sim, que eu me comprometi a comer todos os que ele matasse
[I i]
Essa "guerra" no passa de uma simples escaramua, em que, ocasionalmente, um soldado raso pode perecer, mas quase nunca um cavalheiro ou um nobre Claramente, a 
ao se passa na Siclia, embora todos os personagens paream ingleses, principalmente a divertida Beatriz Seus duelos verbais com Benedito so quase to estilizados 
quanto as guerras simuladas em que lutam os homens A espintuosidade  bastante real, ao passo que o amor, em Muito Barulho por Nada,  to superficial quanto a guerra 
Em Trabalhos de Amor Perdidos a paixo entre homens e mulheres  to pouco levada a srio como na pea ora em questo, em que at o apreo entre Beatriz e Benedito 
denota certa ambigidade
O jovem Cludio, nobre amigo de Benedito, lana um olhar lnguido a Hero, prima de Beatriz, e declara "Sinto que lhe tenho amor" Esse sentimento introduz uma questo 
bastante cabvel seria Hero herdeira nica de seu paP Tranqilizado com respeito a essa questo crucial, Cludio recorre a seu comandante, Dom Pedro, Prncipe de 
Arago, que se dispe a cortejar a jovem em nome do subordinado Diante disso, o amor verdadeiro seria recompensado, e no haveria motivao para a pea, felizmente, 
existe a figura de Dom Joo, o Bastardo, meio-irmo de Dom Pedro "No se me negar o ttulo de vilo sincero", Dom Joo nos diz, e jura atrapalhar a unio entre 
Cludio e Hero  tudo muito direto trata-se de uma comdia sem enigmas, exceto no que concerne ao que existe de verdadeiro entre Beatriz e Benedito Shakespeare  
sutil em sua arte, ao revelar-nos o que os prprios personagens mal distinguem sentem-se mutuamente atrados por sua espintuosidade, mas no confiam um no outro, 
nem no casamento Dirigindo-se a Hero, Beatriz, em sua viso realista, pressagia Rosalinda
A culpa ser exclusivamente da msica, se no ficares noiva no tempo certo Se o prncipe se mostrar importuno, dize-lhe que em
248
MUITO   BARULHO   POR  NADA
todas as coisas h compasso com isso, lhe dars uma resposta danante Acredita em minhas palavras, Hero o noivado, o casamento e o arrependimento podem ser comparados 
a uma giga escocesa, um minueto e uma pavana A primeira declarao  ardente e rpida como uma giga escocesa e igualmente caprichosa, o casamento  corts e discreto 
como um mmueto, vetusto e cenmonioso Depois vem o arrependimento no passo de cinco da pavana, at acabar caindo na sepultura
[II,]
O toque de Rosalmda  mais leve, Beatriz, freqentemente, chega a ser quase amarga No baile de mscaras que serve de emblema  pea como um todo, Dom Pedro diz a 
Hero as clebres palavras "Falai baixo, se falais de amor", em que "amor" quer dizer baile de mscaras Danando, Beatriz magoa Benedito o bastante para que a dor 
perdure
[   ] Mas  pena que a senhonta Beatriz me conhea to bem e, ao mesmo tempo, to mal" O truo do prncipe" Ahi  possvel que eu tivesse adquirido esse ttulo por 
ser de gnio alegre No, no" Estou sendo injusto comigo mesmo Serei tido, realmente, nesse conceito"  a disposio maldosa de Beatriz que a leva a falar como porta-voz 
do mundo e a apresentar-me sob esse aspecto Est bem, hei de vmgar-me como puder
[II i]
Achar que a sua opinio expressa a posio de todos  a falta grave de Beatriz "Sua fala  s punhais, cada palavra produz uma ferida", Benedito lamenta-se, e comeamos 
a questionar a constante agressividade das alegres brincadeiras de Beatriz "[ ] decerto nascestes em uma hora alegre", Dom Pedro declara a Beatriz, que responde, 
encantando a platia "No  assim, Milorde, minha me chorou ao meu nascimento" Quem pode ser mando  altura de uma mulher que mesmo "sonhando com coisas tristes 
[desperta] s gargalhadas""
249
#HAROLD   BLOOM
A exuberncia criativa de Shakespeare, em Muito Barulho por Nada,  esbanjada em Beatriz, a nica eminncia da pea. Benedito, conforme a platia sempre percebe, 
esfora-se para acompanhar a amada, mas Dogberry (lamentavelmente), no meu entendimento, constitui um dos raros fracassos de Shakespeare, em termos de comdia. Os 
disparates verbais de Dogberry resumem-se  mesma piada, to repetida que perde a graa. Beatriz agrada-me bastante, e gostaria que Benedito, Dogberry e a pea em 
si tivessem a excelncia da personagem dessa jovem. O ardil de Dom Joo, que pe em risco a felicidade de Hero,  mecanismo incipiente, fazendo-nos lembrar que o 
interesse de Shakespeare na ao, freqentemente, vem depois do interesse na caracterizao de personagens e na linguagem. O que compensa a difamao de Hero, recurso 
dramtico relativamente dbil,  o fato de Beatriz e Benedito serem enganados pelos amigos, que defendem a verdade ao informar aos indecisos amantes sobre o afeto 
mtuo que os une. A descoberta enseja a extasiante renncia que Benedito faz ao celibato: "No.  preciso que o mundo se povoe".
Apesar de entediante, o enredo secundrio envolvendo Hero oferece a Shakespeare a oportunidade de criar uma de suas grandes cenas cmicas, o confronto entre a magistral 
Beatriz e Benedito, a quem ela comea a aprender a controlar:
BENEDITO
Nada amo no mundo como a vs. No  estranho isso?
BEATRIZ
To estranho como tudo que eu desconheo. Ser-me-ia tambm fcil dizer-vos que eu no amo nada no mundo como a vs. Mas no me deis crdito, conquanto eu no esteja 
mentindo. No confesso nem nego nada. Estou desolada pOr causa de minha prima.
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MUITO  BARULHO  POR  NADA
BENEDITO
Por minha espada, Beatriz, tu me tens amor. BEATRIZ
No jureis por vossa espada,- engoli-a. BENEDITO
Por ela you jurar que me tens amor; desse modo, obrigarei a
engoli-la quem disser que eu no te amo. BEATRIZ
No quereis engolir vossa palavra? BENEDITO
No, seja qual for a espcie de molho que possa ser inventado
para o caso. Protesto que te amo. BEATRIZ
Deus que me perdoe! BENEDITO
Por que ofensa, doce Beatriz? BEATRIZ
Interrompestes-me na hora precisa: eu me encontrava no ponto
de protestar que vos dedicava amor. BENEDITO
Fazei-o com todo o corao. BEATRIZ
Amo-vos com tanta abundncia do meu corao, que dele no
sobra nada para protestar. BENEDITO
Manda-me fazer alguma coisa em teu louvor. BEATRIZ
Matai Cludio!
[IV.i.]
Beatriz manipula Benedito com a destreza de um talentoso dramaturgo, e o desafio a Cludio surge como uma espcie de contrato de casamento. A natureza da fria 
de Beatriz, intensa e autntica como a sua inteligncia, resgata o enredo secundrio (de Hero), simples-
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#HAROLD  BLOOM
mente, porque, conforme Benedito, ficamos plenamente convencidos do poder de Beatriz na pea Beatriz, a quem George Bernard Shaw, malgrlut, tanto admirava, no 
 apenas a glria da pea, mas, tambm, sua alma, assim como Rosalmda  o esprito que guia Como Gostais Muito Barulho por Nada, conhecida por muitos como Beatriz 
e Benedito, poderia ser intitulada Como Gosta/s, Beatriz ou O (fue Quiseres, Beatriz A ambivalncia observada na vontade de Beatriz  a grande fora da pea, fonte 
de exuberncia cmica Quanto mais refletimos sobre Beatriz, mais enigmtica ela  se torna Benedito no possui tamanha vitalidade, nos duelos verbais, sua defesa 
sempre 
se inspira em Beatriz Sem ela, Benedito desapareceria nos festejos de Messma, ou partiria para Arago com Dom Pedro, em busca de novas batalhas Mas mesmo que no 
houvesse intermedirios para sugerir ao casal o amor mtuo que sentiam, Benedito, em ltima anlise, seria de Beatriz, pois era o melhor que Messma podia lhe oferecer 
Ela no tem pressa em conquist-lo, pois seu principal interesse  em si mesma, o amor-prprio de Benedito  um eco do de Beatriz, enquanto a auto-mtoxicao de 
Dogberry parodia ambos os amantes
O fascnio de Beatriz decorre de uma extraordinria mescla de alegria e amargura, em contraste com Catarina, a megera, personagem mais simples Beatriz tem mais 
afinidade com a sombria Rosalma, de Trabalhos de Amor Perdidos, embora a alegria de Rosalma no seja das mais inocentes Shakespeare coloca em evidncia, com bastante 
sutileza, certos indcios da natureza de Beatriz e, talvez, da obsesso que sente por Benedito, personagem que representa, ao mesmo tempo, a nica ameaa  sua liberdade 
e a nica sada para seu esprito forte e obstinado O indcio mais importante  o fato de Beatriz ser rf, seu tio Leonato era um guardio, mas no era um pai adotivo
LEONATO
Assim sendo ireis para o inferno?
BEATRIZ
No, at a porta, somente, onde o diabo, como um velho cabro de chifres, me vir encontrar e me dir Vai para o cu,
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MUITO  BARULHO  POR NADA
Beatriz1 Vai para o cu1 Aqui no h lugar para donzelas" Nesse passo, far-lhe ei a entrega dos meus macacos e subirei diretamente para So Pedro, no cu, que me 
mostrar o lugar dos celibatrios, onde passaremos felizes o dia todo
ANTNIO (a Hero)
Espero, sobrinha, que vos deixareis dirigir por vosso pai
BEATRIZ
Sem dvida A prima est na obrigao de fazer uma reverncia e de dizer "Como for do vosso agrado, meu pai" Mas apesar disso, prima, que seja um rapaz simptico, 
caso contrrio, faze outra reverncia e dize "Como for do meu agrado, meu pai"
[II,]
A verso articulada por Benedito desse paraso de celibatnos (e donzelas)  menos sublime
O ter sido eu concebido por uma mulher lhe assegura os meus agradecimentos, o fato de me ter ela criado, me deixa, igualmente, reconhecido, mas vir eu a ter na fronte 
uma buzina de chamar ces ou a pendurar meu como em um boldn invisvel,  o que todas as mulheres me perdoaro Por no querer fazer-lhes a injustia de desconfiar 
de algumas delas, reservo-me o direito de no confiar em nenhuma A concluso - que s redundar em proveito para mim -  que desejo continuar solteiro
[li]
A pea no esclarece se Beatriz est, segundo as palavras de Benedito, "tomada de fria", o que a deixaria em prontido permanente para atacar A rejeio anterior, 
por parte de Benedito, ocasio em que ela lhe entregara "um corao duplo, no lugar do simples que havia [ ] recebido", serve, para Beatriz, de ponto de partida, 
mas no explica sua fora vitalizante, sua verve e determinao, a "alegria" que, a um s tempo, fascina e leva  exausto o mundo que a cerca, embora tal exausto 
jamais atinja a platia Aprendemos a ouvi-la com ateno, como
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#HAROLD  BLOOM
quando de sua reao, no momento em que Cludio se refere a Hero como a "prima" comprometida, segundo os direitos do casamento:
BEATRIZ
Oh, Deus bondoso, mais um casamento! Assim acaba acontecendo com todo mundo, menos comigo, por ser desengonada.* Serei obrigada a ficar no meu canto, a chorar 
por um marido.
DOM PEDRO
Lady Beatriz, you arranjar-vos um.
BEATRIZ
Seria bom que fosse algum da reserva de vosso pai. No possui Vossa Graa nenhum irmo que se parea convosco? Vosso pai gerou excelentes maridos para as felizardas 
a quem eles tocarem por sorte.
DOM PEDRO
Quereis-me por esposo, senhorita?
BEATRIZ
No, Milorde, a menos que dispusesse de outro para os dias de servio. Vossa Graa  por demais precioso para uso dirio. Vossa Graa h de me perdoar, mas parece 
que eu nasci somente para dizer tolices.
[H.i.]
Para Beatriz, o que "acaba acontecendo com todo o mundo", menos com ela,  o casamento, e mulheres "bronzeadas" atraam poucos pretendentes na Inglaterra renascentista. 
 possvel que a proposta de Dom Pedro, indivduo um tanto enigmtico, seja sria, e a rejeio de Beatriz mantm-se entre a polidez e as implicaes inerentes  
palavra "precioso". Claramente, ela pretende conquistar Benedito, mas, ao mesmo tempo, reluta em aceitar qualquer um que seja, nem mesmo o homem mais inteligente 
entre os que lhe esto disponveis. A capacidade que
* O termo original  sunbumt, i e., "bronzeada", sentido indispensvel ao comentrio feito por Bloom imediatamente aps a citao. [N.T.]
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MUITO  BARULHO  POR  NADA
possui Dom Pedro de no se levar muito a srio tempera-lhe o amorprprio,- quanto a Beatriz, os momentos em que se autoparodia so os menos convincentes. Sua bem 
fundada auto-estima  uma das razes que levam o pblico a apreci-la tanto,- trata-se de um paralelo  satisfao que sente Falstaff diante de seu prprio humor 
e inteligncia.  um prazer ver Sir John ao lado de Mistress Quickly e Doll Tearsheet,- sem sombra de dvida, jamais houve, nem poderia haver, uma Lady Falstaff! 
S mesmo a Mulher de Bath, em Chaucer, estaria  altura de uma esposa de Sir John,- a questo seria quem haveria de dar cabo do outro primeiro, fosse com palavras 
ou na cama. Somos levados a concluir que Beatriz e Benedito j foram amantes, e que a vitalidade da mulher, seja l como tenha sido expressa, o pe a correr. Shakespeare 
 sagaz ao fazer Benedito falar em prosa - "Amar-me! Ora bem:  preciso que seja correspondida" -, ao passo que Beatriz, diante de provocao idntica, irrompe em 
verso lrico:
Que fogo nos ouvidos! Que barulho! Por orgulhosa me acho condenada? Ento, desdm, adeus! Adeus, orgulho! Vossa glria avalio agora em nada. Amas-me, Benedito? Ento 
amansa
-   meu corao com tua mo graciosa. Se amor me tens, agora achars nsia de me deixar domada e venturosa. Todos dizem que s digno,- o mesmo eu juro, que neste 
peito o afirma o amor mais puro.
[Ill.i.]
Hero afirma para rsula que o esprito de Beatriz  selvagem e esquivo como os "falces da rocha". Quando Beatriz declama "amansa / meu corao com tua mo graciosa", 
isso no quer dizer que aceita ser domesticada. Para ela, ser selvagem  ser livre, e  essa liberdade, mais at do que a inteligncia da personagem, que cativa 
o pblico. A decepcionante verso cinematogrfica de Muito Barulho por Nada feita
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#HAROLD  BLOOM
por Kenneth Branagh , em parte, resgatada por Emma Thompson, que faz uma Beatriz com nuanas de independncia que nos remetem a Bront, expressas, principalmente, 
por meio de tom de voz e expresso facial. Existe algo no temperamento de Beatriz que sempre h de resistir  domesticao. A fria de Beatriz, pelo fato de no 
ser homem, para poder vingar a calnia a que Cludio submete Hero, vai muito alm de poltica de gnero, beirando a selvageria:
No se revelou ele um vilo em grau mximo ao caluniar, humilhar e desonrar minha parenta? Ah, se eu fosse homem! Como! Prend-la a si at o momento em que as mos 
iam ser unidas, para depois acus-la em pblico, com tamanha desfaatez e impiedade! Oh Deus, se eu fosse homem! Trincar-lhe-ia o corao em praa pblica.
[IV.i.]
Como, ento, responder a pergunta: Qual seria a definio de amor em Muito Barulho por Nada? A melhor resposta est contida no ttulo: Amor  muito barulho por nada. 
O que une e h de manter juntos Benedito e Beatriz  a conscincia e aceitao que ambos demonstram com respeito a esse niilismo benvolo. Sem dvida, o ttulo 
tambm se refere  conturbada transio de Hero e Cludio, de um estgio em que sequer se conhecem, a um casamento arranjado, com benefcios mtuos. Por mais entediante 
e vazio que seja Cludio, ele inspira certa dignidade,- no momento em que se prepara para um segundo noivado com Hero, supostamente morta, elediz: "No retiro /quanto 
afirmei,- fosse ela negra etope", e pergunta: "A qual das damas devo dirigir-me?" Esse sublime despojamento serve de preldio ao contedo cmico mais elevado que 
h na pea:
BENEDITO
Monge, um momentoi ol Beatriz entre estas?
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MUITO  BARULHO   POR NADA
BEATRIZ (tirando a mscara}
A esse nome respondo. Que quereis? BENEDITO
No me amais? BEATRIZ
No acima do razovel.
BENEDITO ^
Vejo que vosso tio, Cludio e o prncipe
se enganaram, que o oposto eles disseram. BEATRIZ
No me amais? BENEDITO
No acima do razovel. BEATRIZ
Vejo que Margarida, minha prima
e Ursula se enganaram nesse ponto,
que o contrrio elas todas me disseram.
BENEDITO
Juraram que de amor por mim sofreis. BEATRIZ
Disseram que de amor por mim morreis.
BENEDITO
Pouco importa. Afinal: tendes-me amor? BEATRIZ
Afeio muito amiga, simplesmente.
[v. i v.;
Isso vai alm do duelo verbal, configurando um cauteloso dilogo sobre ttica, articulado de maneira brilhante, e culminando em uma das epifanias cmicas mais finas 
criadas por Shakespeare:
BENEDITO
Um milagre! Nossas mos conspiram contra nossos Coraes.
257
#HAROLD  BLOOM
Bem, aceito-te/ mas juro por esta luz que o fao apenas por
piedade.
BEATRIZ
No vos recusarei,- mas por este belo dia, s o fao movida pelos pedidos insistentes de nossos amigos e, em parte, para vos salvar a vida, pois me disseram que 
estveis com a doena de consuno.
BENEDITO
Silncio! you fechar-vos a boca.
(Beija-a.)
( [V.iv.]
Beatriz protesta at enquanto beija, mas no tem mais falas em Muito Barulho por Nada. Shakespeare deve ter sentido que, quela altura, Beatriz j cativara a platia. 
A Benedito  permitida uma defesa eloqente de seu novo estado civil - casado -, defesa essa que culmina em um conselho shakespeariano um tanto ou quanto obsessivo 
- case-se e prepare-se para ser trado:
BENEDITO
Tocai, msicos! Prncipe, ests pensativo. Arranja uma esposa, arranja uma esposa. No h mais respeitvel basto do que o guarnecido de chifres.
[V.iv.]
Para ns, o chiste de Benedito pode ser um pouco de mau gosto, mas, para Shakespeare,  bem realista. Talvez tenhamos aqui um indcio de que, conforme a maioria 
dos casamentos em Shakespeare, a unio entre Benedito e Beatriz no h de ser um mar de rosas. No entanto, nessa comdia, mais do que nunca, isso no tem importncia. 
Esses dois, que esto entre os personagens niilistas shakespearianos mais inteligentes e dinomicos, e que dificilmente sero oprimidos ou derrotados, decidem, juntos, 
correr os riscos.
258
14
COMO  GOSTAI
A popularidade de Rosalinda  decorrente de trs causas principais. Primeiro, ela fala em verso branco durante apenas alguns minutos. Segundo, usa saia durante apenas 
alguns minutos (e o efeito desolador da troca de roupa, no final da pea, quando Rosalinda aparece vestida de noiva,  suficiente para converter o defensor mais 
estpido da angua em adepto de indumentria mais racional). Terceiro, corteja o homem, em vez de esperar que o homem a corteje - comportamento que faz sobreviver 
as heronas shakespearianas, enquanto geraes de donzelas , bem-educadas, que aprendem a dizer "No" trs vezes, pelo menos, definham e perecem.
So palavras de George BernardShaw (em nada bardlatrol), datadas de 1896, quando o reinado de Rosalinda estava em um de seus apogeus. Quando vi Katherine Hepburn 
triunfar como Rosalinda, na Broadway, em 1950, o papel ainda estava vinculado a uma longa tradio,- hoje, passado meio sculo, especialistas em poltica de gnero 
apropriaram-se de Rosalinda, chegando mesmo a apresent-la como lsbica, mais preocupada com Clia (ou Febe) do que com o pobre Orlando. com o fim do milnio, 
torna-se possvel voltarmos ao papel conforme criado por Shakespeare, o que talvez tambm possa ocorrer no caso de Caliban, se conseguirmos arrebat-lo dos admiradores 
"materialistas" e restitu-lo ao amargo "romance familiar" (palavras de
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#HAROLD  BLOOM
Freud), passado na casa de Prspero Regressando a 1932, quando Rosalmda estava no auge, G K. Chesterton, grande admirador da personagem, protestava contra sua tnvializao 
na cultura popular
H cerca de trezentos anos, William Shakespeare, sem saber o que fazer com seus personagens, mandou-os brincar na floresta, deixando que uma jovem se fantasiasse 
de rapaz, ocasio em que muito se divertiu, especulando sobre o que aconteceria com a curiosidade feminina, caso se visse livre, durante uma hora, da dignidade 
que lhe  peculiar E o fez muito bem, mas era      _^ perfeitamente capaz de fazer outras coisas Os romances populares de hoje no so capazes de fazer algo diferente 
Shakespeare teve o cuidado de explicar na prpria pea que no achava que a vida fosse um demorado piquenique Tampouco teria ele achado que a vida da mulher devesse 
ser um demorado espetculo teatral Mas Rosalmda, que,  poca, era anticonvencional durante uma hora, tomou-se a conveno de uma era  poca, ela gozava frias, 
hoje em dia,  explorada E convocada a atuar em todas as peas, romances e contos, e sempre com a mesma atitude petulante Talvez, tenha at medo de ser ela mesma, 
Clia, com certeza, agora tem medo de ser ela mesma
Tenho as minhas dvidas de que Shakespeare, conforme sugere Chesterton, desejasse pr um fim ao piquenique na Floresta de Arden (cujo nome, em parte, deve-se  me 
do poeta, Mary Arden) Creio que Shakespeare gostasse muito dessa pea Sabemos que atuou no papel do fiel criado de Orlando, o velho Ado, indivduo livre de qualquer 
pecado e investido da virtude original Entre todas as peas shakespeananas, Como Gostais, cujo ttulo  extremamente apropriado,  a que melhor se localiza em uma 
esfera terrestre de um bem potencial, em contraste com Rei Lear e Macbetb, que se localizam em infernos na terra Entre todas as heronas cmicas criadas por Shakespeare, 
Rosalmda  a mais talentosa, to extraordinria em seu estilo quanto Falstaff e Hamlet o so nos seus O autor foi to sutil e criterioso ao escrever o papel de
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COMO  GOSTAIS
Rosalmda que jamais chegamos a perceber, realmente, a singularidade da personagem, se comparada a outros heris de inteligncia brilhante em Shakespeare (ou em toda 
a literatura) Dotada de uma conscincia normativa, extremamente equilibrada e sensata, Rosalmda  a ancestral incontestvel de Elizabeth Bennet, em Orgulho e Preconceito, 
embora goze de uma liberdade social que vai alm dos cautelosos limites de Jane Austen
Filha do velho Duque, detentor de poder legtimo mas que lhe foi usurpado, Rosalmda est muito acima de Orlando (cavalheiro de poucos recursos) na escala social 
e no pode aceit-lo como marido, mas a Floresta de Arden neutraliza as hierarquias, pelo menos durante um momento abenoado O mau Duque, irmo caula do outro Duque, 
em uma atitude absurda, entrega a terra usurpada ao Duque legtimo, pai de Rosalmda, enquanto o perverso Ohvno, em atitude igualmente inesperada, cede a casa do 
pai a Orlando, seu irmo caula e namorado de Rosalmda  impossvel histoncizar uma trama to emaranhada, e os estudos crticos de cunho social dirigidos a Como 
Gostais no elucidam o ethos peculiar e cativante da pea  Sequer sabemos, com preciso, a localizao geogrfica da comdia Em nvel literal, o ducado fica na 
Frana, e Arden corresponderia a Ardenas, mas Robm Hood  mencionado, e a floresta parece tipicamente inglesa Nomes franceses e ingleses so atribudos aleatoriamente 
aos personagens, em uma feliz anarquia que funciona muito bem Embora os crticos apontem aspectos sombrios na Floresta de Arden, tais descobertas desviam a ateno 
do que h de mais importante nessa pea to fina, talvez a mais alegre de todas escritas por Shakespeare A Arcdia j foi visitada pela morte, mas no a ponto de 
nos sentirmos por ela oprimidos, uma vez que quase tudo o mais  "como gostamos"
Shakespeare conta com cerca de duas dzias de obras-primas dentre as trinta e nove peas que escreveu, e ningum negaria a Como Gosteis uma posio de destaque, 
ainda que alguns (erroneamente) a considerem a menor das obras-primas A quem Rosalmda no for capaz de agradar, nenhum outro personagem shakespeanano, ou em toda 
a literatura, poder faz-lo Gosto muitssimo de Falstaff, de Hamlet e de Clepatra como personagens dramticos e literrios, mas no gostaria
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#HAROLD  BLOOM
de esbarrar com eles na vida real, no entanto, apaixonado por Rosalmda, sempre desejei que ela existisse em nosso mundo subhterno Quando Edith Evans atuou como 
Rosalmda, eu ainda no tinha idade para ir ao teatro, segundo o depoimento de um crtico, ela dirigia-se  platia como se todos fossem Orlando e, assim, a todos 
cativava Um grande papel dramtico, conforme o de Rosalmda,  uma espcie de milagre parece-nos que uma perspectiva universal se descortina diante de ns Falstaff 
e Hamlet, at certo ponto, so vtimas de ironia dramtica, Shakespeare oferece-nos determinadas perspectivas que so negadas, respectivamente, ao maior dos protagonistas 
cmicos e ao mais complexo dos heris trgicos  Rosalmda  nica na obra shakespeanana, talvez em toda a dramaturgia ocidental, por ser extremamente difcil, para 
a platia, contempl-la atravs de uma perspectiva que ela ignore Bem sabemos que o teatro no pode prescindir de ironia dramtica, trata-se de uma prerrogativa 
da platia E desfrutamos dessa ironia com relao a Toque, Jaques e todos os demais personagens em Como Gostais, exceto Rosalmda Estamos prontos a perdo-la por 
conhecer as questes prementes da pea mais do que ns, porque sabemos que ela no quer nos derrotar, apenas testar as nossas caractersticas mais humanas ao apreciar-lhe 
o desempenho
J assinalei que o prprio Shakespeare atuou no papel do velho Ado, o fiel criado que acompanha Orlando  Floresta de Arden O virtuoso Ado "no  para os costumes 
destes tempos", conforme diz Orlando, antes, Ado representa "toda a fidelidade de outros tempos" * Como Gosteis  a pea mais adocicada que Shakespeare escreveu, 
temos, tambm, NoitedeReis, mas ali todos so loucos,  exceo do extraordinrio bobo Feste Orlando, um jovem Hrcules, no est  altura de Rosalmda, mas  bem 
mais sensato do que o louco Orsino, em Noite de
" Como Gostais Traduo de Carlos Alberto Nunes So Paulo Edies Melhoramentos, s d Todas as citaes referem-se a essa edio [N T]
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COMO  GOSTAIS
Reis, j Rosalmda e Clia saem-se bem em qualquer companhia, e em termos de sabedoria e espintuosidade so deusas, se comparadas s charmosas e desmioladas Viola 
e Olvia Inclino-me a concordar com os crticos que identificam determinados aspectos sombrios na Floresta de Arden, pois a espantosa noo de realidade de Shakespeare 
impede que ele retrate uma situao de maneira unilateral  Feito tal registro, apraz-me dizer que a Floresta de Arden , simplesmente, o melhor local para se viver, 
em toda a obra shakespeanana No se pode ter, ao mesmo tempo, um paraso terrestre e uma comdia bem-sucedida, mas Como Gosteis bem que chega perto de semelhante 
faanha  O velho Ado (Shakespeare) est com quase oitenta anos de idade, e nada consta a respeito de sua Eva (ou de qualquer outra)   Encontramo-nos em um mundo 
decadente, mas nele existe uma mulher que supera Eva, a sublime Rosalmda Eva, me de todos os homens,  celebrada por sua vitalidade e beleza, mas nem sempre por 
seu intelecto A exuberante Rosalmda  saudvel e bela, em esprito, corpo e mente   No h quem a ela se equipare, dentro ou fora da Floresta de Arden, ela merece 
amante melhor do que Orlando, e intelectos mais aguados do que os de Toque e Jaques com quem conversar Sempre que leio Como Gostais, alimento uma fantasia a de 
que Shakespeare jamais houvesse escrito As Alegres Comadres de Wmdsor (pea que no faz jus a Falstaff, nela representado como impostor), e que jamais houvesse morto 
Sir John, em Henncfue V Se nos fosse dada a oportunidade de ver Sir John apaixonado, quem sabe, ele, e no Toque, teria fugido para a Floresta de Arden com Rosalmda 
e Clia, l substituindo Audrey e Febe por Mistress Quickly e Doll Tearsheet Que prosa Shakespeare no teria escrito para os duelos verbais entre Falstaff e Rosalmda, 
ou para Sir John aniquilar Jaques" Mas minha fantasia tem um ponto crtico, uma vez que Toque e Jaques juntos no fazem com que eu sinta menos falta de Falstaff 
Shakespeare, numa atitude sensata, teria rejeitado a minha sugesto, Falstaff, o maior dos rouba-cenas, impediria-nos de ver Rosalmda em trs dimenses, por assim 
dizer, e talvez interferisse no projeto educacional de Rosalmda, a instruo de Orlando, aluno menos brilhante e perigoso do que o Prncipe Hal
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#HAROLD  BLOOM
A inveno do humano por Shakespeare, j havendo triunfado com a criao de Falstaff, alcana uma nova dimenso com Rosalinda, a segunda maior personalidade por 
ele at ento inventada, maior do que Julieta, Prcia e Beatriz O papel de Rosahnda foi a melhor preparao para a verso revista de Hamlet (160O-1601), em que a 
espintuosidade alcana uma dimenso apotetica e  se torna uma espcie de transcendncia negativa   Abordar o tema da personalidade na obra shakespeanana sempre 
me 
leva  complexa empreitada de conjeturar sobre a personalidade do prprio Shakespeare  Como Shylock, Shakespeare emprestava dinheiro a juros, e tomou-se conhecido 
por_ser bastante severo em suas transaes financeiras   exceo desse aspecto, no existem evidncias que desabonem a personalidade de Shakespeare, se desconsiderarmos 
a crtica venenosa do infeliz Greene, rival e dramaturgo fracassado Sobre o poeta dos Sonetos projetam-se sombras profundas, e h quem especule que as mesmas decorrem 
da angstia de um nome manchado, conforme pode ser constatado, mais tarde, na "Elegia" para Will Peter (se  que foi, de fato, escrita por Shakespeare) Honigmann 
revela lucidez quando nos aconselha a contemplar duas imagens antitticas de Shakespeare, uma genial e aberta, a outra sombria e reclusiva, Falstaff e Hamlet fundidos 
em uma s conscincia  O que, alm do intelecto, teriam Falstaff e Hamlet em comumP Nietzsche dizia que Hamlet raciocinava bem demais, e que foi morto pela verdade 
Pode algum brincar bem demais" Falstaff morre porque a brincadeira o abandona com a traio de Hal, no se trata de uma morte pela prpria lngua, mas pela perda 
de amor, semelhante s pequeninas mortes que Shakespeare (ou sua persona) sofre nos Sonetos Gnero, em Shakespeare,  algo em estado lquido, mas a Falstaff s foi 
permitida a comdia farsesca de As Alegres Comadres de Wmdsor, no a comdia autntica de Como Gosto e Noite de Reis
A grande sorte de Rosahnda - que a coloca acima de Falstaff, Hamlet e Clepatra -  estar no centro de uma pea em que nada de realmente mau pode acontecer a quem 
quer que seja com total tranqilidade, podemos apreender o gnio de Rosahnda Shakespeare, o homem, de modo sensato, parece ter tido receio de se deixar magoar
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COMO  GOSTAIS
ou expor a persona cuja voz entoa os Sonetos jamais se revela inteiramente, como Falstaff o faz a Hal, ou Hamlet  memria do pai Clepatra, at o momento da morte 
de Antnio, defende-se de um exagerado envolvimento amoroso, e a prpria Rosahnda segue, cautelosamente, em seu relacionamento com Orlando Contudo, a glria de 
Rosahnda, e da pea como um todo,  a confiana que ela e ns temos de que tudo acabar bem
Toque e Jaques, cada um  sua maneira, no se harmonizam com Rosahnda, nem com o seu contexto ideal na Floresta de Arden   As crticas feitas por Toque so mais 
numerosas do que as brincadeiras intencionais, ele  a anttese deFeste, em Noite de Reis, o mais sbio (alm de humano e afvel) dos bobos criados por Shakespeare 
Jaques, um trapalho mais complexo, encontra-se afastado das paixes da vida, mas no o fez em nome de valores que Rosahnda (ou o pblico) possa defender Muitos 
crticos j apontaram, corretamente, que Rosahnda e at Orlando (este em menor intensidade) tm pouqussimas iluses sobre a natureza da paixo romntica que nutrem 
um pelo outro  Os dois no apenas brincam com o amor, ou com a corte, como tambm chegam a fazer do ldico um meio de manter o amor em nvel realista Postura  
dom natural de Rosahnda, e Orlando aprende com ela E quanto  postura da jovem, devemos observar que a mesma no decorre de boas maneiras nem de moral Antes, o 
equilbrio  conseqncia de uma intrincada coreografia espiritual, negada a Falstaff apenas devido ao afeto extremo que sente por Hal, e abandonada por Hamlet porque 
este internaliza a ferida aberta que  Elsmore J Clepatra  por demais a atriz, atuando no papel de si mesma, para rivalizar com Rosahnda em termos de graa e 
controle de perspectiva crtica Ser por acaso que Rosahnda  o personagem mais admirvel em todo o cnone shakespeanano? At o nome dela parece dotado de uma magia 
especial para o dramaturgo, embora tenha dado s filhas os nomes de Susanna e Judith Em Trabalhos de Amor Perdidos, Biron fracassa na campa-
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#HAROLD  BLOOM
nha de conquistar a indmita Rosalina, e Romeu, antes de encontrar Julieta, tambm apaixona-se por uma Rosalina. Mas Rosalinda  muito diferente das duas Rosalinas, 
que resistem aos respectivos admiradores. Ningum sabe o nome da Dama Morena dos Sonetos, mas tudo leva a crer que fosse Rosalina, ou Rosalinda.
Dotada de melhor postura do que qualquer outra criao shakespeanana, a admirvel Rosalinda , tambm, a mais triunfante, tanto no que concerne ao seu prprio destino 
quanto naquilo que propicia a terceiros. Dentre as comdias romnticas de Shakespeare, Noite de Reis  a nica que faz frente a Como Gostais, mas no tem Rosalinda. 
A diferena pode ser decorrente do fato de Como Gostais ter sido escrita imediatamente antes do Hamlet de 160O-1601, enquanto Noite de Reis foi escrita logo aps 
a pea do Prncipe da Dinamarca, e a criao do personagem Hamlet tomou improvvel o surgimento de uma outra Rosalinda. Para Nietzsche, Hamlet  o autntico heri 
dionisaco. Embora Camille Paglia, com bravura, avente a hiptese de Rosalinda ser uma herona dionisaca, tenho as minhas dvidas. Paglia enfatiza o temperamento 
mercuriano de Rosalinda, caracterstica que Nietzsche no associa a Dionsio. Embora no seja uma feminista acadmica, Paglia compartilha do interesse atual na suposta 
androgenia das heronas shakespearianas que assumem disfarce masculino: Jlia, Prcia, Rosalinda, Viola e Imognia. No posso afirmar que compreendo perfeitamente 
a viso de Shakespeare sobre a sexualidade humana, mas tenho reservas quanto  posio de G. Wilson Knight e Paglia, de que Shakespeare defende um ideal de bissexualidade, 
embora reconhea em ambos os crticos leitores extraordinrios. Dificilmente, Rosalinda poderia ser vista nessa perspectiva, pois seu desejo sexual  totalmente 
voltado para Orlando, um lutador hercleo que nada tem de delicado. Atraente a todos, homens e mulheres (dentro e fora da platia), Rosalinda  astuta e decidida 
ao escolher Orlando, e se incumbe da educao amorosa do rapaz, assumindo o papel de um preceptor decidido a v-lo diplomado.  espantoso que um personagem dramtico 
possa ser, ao mesmo tempo, to interessante e normativo quanto Rosalinda: desprovida de malcia,- incapaz de direcionar a prpria agressividade contra si mesma ou 
contra
266
COMO  GOSTAIS
terceiros,- desprovida de ressentimento, ao mesmo tempo em que expressa uma curiosidade vital e um desejo exuberante. Mas Orlando  pssimo poeta:
[...] a flor mais fresca e linda
o cu nela fez nascer,
 natureza incumbindo
de reunir em pouco espao
quanta graa ao mundo h vindo,
abrangendo num s lao
Helena sem a desonra,
de Clepatra o porte airoso,
da triste Lucrcia a honra,
de Atalanta o mais precioso.
Rosalinda assim foi feita
por decreto celestial,
na alma e no corpo perfeita,
em tudo um ser divinal.
Quis o cu que desta arte o mundo a visse
para que, vivo e morto, eu a servisse.
[IH.ii.]
E Rosalinda possui uma das personalidades mais definidas dentre os personagens criados por Shakespeare; no  um banquete de identidades, como, s vezes, ocorre 
corn Hamlet. Seu desenvolvimento se d de maneira convincente e sempre contribui para o aprofundamento e a consolidao de sua natureza. Uma das mais hediondas modas 
da crtica literria atual, seja na academia ou na imprensa, e que se autodenomina "poltica sexual", procura nos convencer de que Shakespeare entrega Rosalinda 
ao "compromisso masculino do patriarcado". No consigo imaginar de que maneira Shakespeare teria evitado essa suposta traio. Ser que Rosalinda deveria se casar 
corn Clia? No  isso que elas desejam. Rosalinda corre para os braos de Orlando, e Clia (corn uma velocidade surpreendente) atira-se em direo a Olivrio, agora 
refor-
267
#HAROLD   BLOOM
mado Ser que Shakespeare deveria matar o velho Duque, pai querido de Rosahnda? Ou ser que Rosahnda deveria rejeitar Orlando, em favor de Febe? Basta afirmar que 
nenhum outro personagem, nem mesmo Falstaff ou Hamlet, expressa a atitude do prprio Shakespeare com relao  natureza humana, de uma maneira to completa, como 
o faz Rosahnda Se pudermos identificar o ideal do poeta-dramaturgo, a escolha recairia sobre Rosahnda A ironia de Shakespeare, idntica  de Rosahnda,  mais sutil 
e abrangente do que a nossa - e mais humana tambm
A maioria das montagens de carter comercial de Como Gostais vulgariza a pea, como se os diretores receassem que o pblico no conseguisse assimilar a contenda 
entre a saudvel espintuosidade de Rosahnda, de um lado, e a repugnoncia de Toque e a amargura de Jaques, de outro No creio vivermos hoje o momento cultural propcio 
para a Rosahnda de Shakespeare, mas espero que tal momento ressurja, vrias vezes, quando os feminismos que nos cercam houverem amadurecido e  se tornarem bem-sucedidos 
Rosahnda, das personagens dramticas a menos ideolgica, supera qualquer outra figura feminina da literatura naquilo que poderamos denominar "intehgibihdade" Pouco 
adianta classific-la de "herona pastoral", ou "comediante romntica", sua mente  aberta demais, seu esprito demasiadamente livre, para ser assim confinado Rosahnda 
 to superior aos personagens que a cercam em Como Gostais quanto Falstaff e Hamlet o so em suas respectivas peas O melhor ponto de partida para se entender a 
personagem  uma fala singular desta, quando Orlando protesta que haver de morrer se ela no o quiser J presenciei muitas montagens em que essa clebre fala foi 
desperdiada por atrizes mal dirigidas, mas quando enunciada com expressividade,  memorvel "Os homens tm morrido de tempos em tempos e os vermes os tm devorado, 
mas no por amor" Em termos de espintuosidade e sabedoria, tais palavras podem competir com o que h de melhor no discurso de Falstaff, depois de ser repreendido 
pelo Lorde Grande Juiz por ter falado de sua prpria juventude" "Milorde,
268
COMO  GOSTAIS
eu nasci por volta das trs horas da tarde com a cabea branca e o ventre um tanto crescido" Essa negao de envelhecimento  um triunfo pessoal, o triunfo de Rosahnda 
 impessoal e arrasador, e continua sendo o melhor remdio para homens apaixonados "Os homens tm morrido de tempos em tempos e os vermes os tm devorado" - a morte 
 algo autntico e palpvel - "mas no por amor" Falstaff aproveita a queixa do Lorde Grande Juiz, fazendo-a explodirem uma fantasia tipicamente sua, Rosahnda, igualmente 
oportunista, anula, sutil e definitivamente, a recusa masculina em amadurecer
Chesterton afirmou "Rosahnda no foi para a floresta  procura de liberdade, mas  procura do pai" Embora venere Chesterton, penso que tais palavras teriam causado 
estranheza a Shakespeare, Rosahnda no aparece sem disfarce na presena do pai at reassumir o traje feminino, no momento de seu casamento A busca pelo pai tem pouca 
importncia em Como Gostais, j a liberdade  algo crucial para Rosahnda Talvez, conforme sugere Marjone Garber, Rosahnda v para a floresta com o objetivo de fazer 
corn que Orlando amadurea, que  se torne melhor pessoa e amante Orlando  to imaturo quanto a maioria dos personagens masculinos em Shakespeare, ter sido Shakespeare 
ou a natureza que inventou a inferioridade emocional dos homens, com relao s mulheres" Rosahnda  pragmtica demais para lamentar essa desigualdade, e educa 
Orlando com todo prazer Como Falstaff, ela desempenha o papel do educador, Hamlet  capaz de diagnosticar o mal de todos os que lhe cruzam o caminho, mas  impaciente 
demais para cuidar deles Rosahnda e Falstaff engrandecem e enaltecem a vida, mas Hamlet  a porta pela qual entram as foras supernas, muitas das quais negativas, 
como intimaes de mortalidade Como Gostais se coloca antes das grandes tragdias, trata-se de uma obra vitahzadora, e Rosahnda  uma alegre representante da liberdade 
possvel na vida A representao esttica da felicidade requer uma arte complexa, jamais uma pea sobre a felicidade superou a de Rosahnda
Para se estar apaixonado e, ainda assim, ser capaz de enxergar e sentir o absurdo da situao,  preciso ser aluno de Rosahnda Ela nos ensina o milagre de se ter 
uma conscincia harmoniosa que, ao mesmo tempo,  capaz de aceitar a realidade de uma outra pessoa Shelley, de maneira
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#HAROLD   BLOOM
herica, pensava que o segredo do amor era um total despojamento da nossa prpria natureza e uma imerso na natureza do outro,- para a sensata Rosalinda, isso  
loucura. Ela no  adepta do Romantismo nem do Platonismo; as iluses do amor so, para ela, bastante distintas da realidade das donzelas, pois sabe que "o tempo 
as transforma [...] quando  se tornam esposas". Podemos arriscar o palpite de que Rosalinda entende de "amor", assim como Falstaff entende de "honra" - isto , tudo 
o que diz respeito a poder estatal, intriga poltica, cortesia dissimulada e inimizade declarada. A diferena  que Rosalinda  feliz por estar apaixonada e, quando 
critica o amor, fala com conhecimento de causa,- Falstaff arrasa com a pretenso de poder, mas sempre fala a partir de uma posio perifrica, sempre ciente de 
que vai perder Hal para a realidade do poder. A inteligncia de Rosalinda triunfa, invariavelmente focalizada no objeto em questo, ao passo que a zombaria de Falstaff, 
embora vitoriosa, na prtica,  incapaz de impedi-lo de ser rejeitado. Como educadores, ambos so gnios, mas Rosalinda  uma Jane Austen, e Falstaff, um Samuel 
Johnson. Rosalinda  a apoteose da persuaso, enquanto Falstaff, em ltima anlise, expressa a vaidade e o capricho humanos.
Meu propsito aqui  inserir Rosalinda em uma seqncia, entre Falstaff e Hamlet, espirituosa e sbia como ambos, mas sem estar presa ao drama histrico, como Falstaff, 
nem  tragdia, como Hamlet, e, ainda, impossvel de ser contida pela pea que a cerca, assim como Falstaff e Hamlet tampouco podem ser contidos. A inveno da liberdade 
deve ser medida por aquilo que a limita ou ameaa: o tempo e o estado, no caso de Falstaff, o passado e o inimigo interior, no caso de Hamlet. A liberdade de Rosalinda 
pode parecer conseqente porque Como Gostais pe de lado o tempo e o estado, e Rosalinda no tem tristezas nem tragdias, no tem Prncipe Hal, nem Gertrudes, nem 
Fantasma. Rosalinda  seu prprio contexto, no ameaado, a no ser pelo melanclico Jaques e pelo repugnante Toque.
Jaques, afetado como ele s, tem algumas das melhores falas em Shakespeare, que deve ter sentido uma certa simpatia por esse falso melanc-
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COMO  GOSTAIS
lico. Tanto quanto Toque, Jaques  inveno de Shakespeare,- nenhum dos dois aparece na fonte da pea, o romance em prosa intitulado Rosalynde (1590), de Thomas 
Lodge. A despeito da simpatia que Shakespeare possa ter sentido por Jaques ou Toque,  um engano deixar-se levar por suas negativas (muitos estudiosos tm sido particularmente 
suscetveis a Toque). Toque, genuinamente perspicaz,  de uma repugnoncia maldosa, ao passo que Jaques  apenas repugnante (a pronncia shakespeariana do nome sugere 
a palavra jakes, isto , latrina). A presena de ambos em Como Gostais enseja a espirituosidade benvola de Rosalinda, e ela, de uma maneira triunfal, coloca-os 
em seus devidos lugares. O triunfo benvolo de Rosalinda prenuncia o de Prspero, conforme aponta Marjorie Garber, embora a magia de Rosalinda seja inteiramente 
natural, normativa e humana e, por que no dizer, tal e qual  do prprio Shakespeare. Jaques e Toque so desastres potenciais, diferentes mas relacionados entre 
si, que o poeta-persona consegue evitar nos Sonetos, apesar das freqentes provocaes por parte do belo lorde e da Dama Morena, seus dois amores, "um calmo e um 
de aflio".
O reducionismo, isto , a tendncia a acreditar que somente a pior verdade a nosso respeito tem procedncia, causa grande irritao em Shakespeare, prazer cruel 
em Jaques, e prazer obsceno em Toque. Jaques, ao mesmo tempo,  dado  stira social e a zombar da floresta. Entretanto, na pea, a sociedade fica fora do palco, 
pois nos encontramos em um exlio pastoral,- assim sendo, a atitude satrica de Ben Jonson toma-se, para Jaques, invivel. Resta-nos, ento, a Floresta de Arden, 
local em que Toque atua, ao mesmo tempo, como rival e colega de Jaques, mais um descontente. Para Toque, mais engraado e grosseiro, ingenuidade campesina no passa 
de ignorncia,- Jaques  apenas um pouco mais benvolo a esse respeito. O alvo principal desses dois pretendentes a satiristas  o idealismo ertico, ou o amor romntico. 
Mas a crtica feita pelos dois  redundante,- Rosalinda , a um s tempo, realista, com relao ao erotismo, e crtica, embora benevolente, com relao ao amor 
romntico, e ainda faz os dois descontentes parecerem ineptos no gnero satrico. Ela expe as tolices de Jaques e os disparates de Toque, e, assim, defende a Floresta 
de Arden de um reducionismo doentio.
271
#HAROLD   BLOOM
Contudo, Jaques tem qualidades que, em parte, compensam-lhe as tolices, resgatando-o mais para ns, platia, do que para Rosalinda, uma vez que ela no precisa dele. 
Shakespeare faz com que ns precisemos de Jaques, ao atribuir-lhe duas grandes falas, a primeira celebrando o encontro com Toque:
Um bobo! Um bobo! Achei na selva um bobo! um bobo variegado. Oh mundo estpido! To certo como eu ser mortal, um bobo que se aquecia ao sol, refestelado, insultando 
a Fortuna com eloqncia e frases apropriadas. Sim, um bobo variegado! "born dia, bobo", disse-lhe. "No me chameis de bobo", respondeu-me, "sem que o cu me sorria 
corn a fortuna". Assim falando, saca do relgio, que contempla com olhos apagados, e sentencioso diz: "J so dez horas,- por aqui podeis ver como anda o mundo: 
no passava das nove, h uma hora apenas/ decorrida mais uma, onze h de ser. Desta arte, de hora em hora apodrecemos.- nisto se encerra um conto". Ao ver um bobo 
dissertar sobre o tempo com tal nfase, meus pulmes, como galo, comearam a cantar, pelo fato de encerrar-se tanta profundidade assim nos bobos. Ri sem parar, 
ri muito, uma hora inteira, junto do seu relgio. Oh nobre bobo! Oh bobo digno! O trajo prprio  tudo.
[H.vil.]
Toque, brincalho, o bobo da corte, recusa o ttulo at que a fortuna o tenha favorecido, e brinca com o som aproximado das palavras "hour
272
COMO  GOSTAIS
[hora] e "whore [prostituta]. Que histria estaria por trs dessa repugnante insinuao sobre infeces venreas, no saberemos ao certo, mas o efeito causado por 
Toque em Jaques , ao mesmo tempo, profundo e enigmtico, pois livra Jaques de sua melancolia obsessiva, ao menos por uma hora, e faz com que ele retome o papel 
de satirista:
[...] Depois quero mais ampla liberdade, to larga como o vento, para soprar onde me for do agrado, tal como os bobos fazem,- as pessoas a que mais ofender minha 
loucura devem rir mais que todas. E por que isso, meu senhor? O porqu  to batido como caminho que vai ter  igreja. Quem quer que o bobo ataque sabiamente, muito 
embora se doa,  um grande tolo, se mostrar que lhe di a chibatada, pois fora revelar assim minha loucura s miradas casuais de um simples bobo. Dai-me, pois, a 
jaqueta e liberdade de dizer o que penso, que eu me incumbo de limpar de uma vez o mundo infecto, se o remdio, pacientes, aceitarem.
[H.vii.]
Aqui, Shakespeare parece olhar de soslaio o amigo Ben Jonson, alm de, talvez, expressar um pouco de sua prpria viso sobre as possibilidades dramticas do bobo 
da corte, viso essa que ser desenvolvida no personagem Feste, em Noite de Reis, e no grande e annimo bobo em Rei Lear. E o Duque Snior, imediatamente, retruca 
que o prprio Jaques jonsoniano apresenta os defeitos que ele ora censura:
[...] sempre foste um grande libertino, to sensual como o prprio instinto bruto.
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#HAROLD  BLOOM
Todas as doenas apontadas, todas as chagas tumefeitas, que apanhaste em tua vida errabunda, vomitadas no mundo universal por ti seriam.
[H.vii.]
Jaques defende-se com uma apologia  Ia Jonson, em nome do dramaturgo satrico que ataca tipos e no indivduos. A defesa serve de ponte para o trecho mais clebre 
da pea, em que Jaques apresenta sua verso dramtica das Sete Idades do Homem:
O mundo  um palco,- os homens e as mulheres,
meros artistas, que entram nele e saem.
Muitos papis cada um tem no seu tempo,-
sete atos, sete idades. Na primeira,
no brao da ama grita e baba o infante.
O escolar lamuriento, aps, com a mala,
de rosto matinal, como serpente
se arrasta para a escola, a contragosto.
O amante vem depois, fornalha acesa,
celebrando em balada dolorida
as sobrancelhas da mulher amada.
A seguir, estadeia-se o soldado,
cheio de juras feitas sem propsito,
corn barba de leopardo, mui zeloso
nos pontos de honra, a questionar sem causa,
que a falaz glria busca
at mesmo na boca dos canhes.
Segue-se o juiz, com o ventre bem forrado
de cevados capes, olhar severo,
barba cuidada, impando de sentenas
e de casos da prtica,- desta arte
seu papel representa. A sexta idade *"---      . ,, ( < v1 -   .
em magras pantalonas tremelica, - ,,.,,,
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COMO  GOSTAIS
culos no nariz, bolsa de lado, calas da mocidade bem poupadas, mundo amplo em demasia para pernas to mirradas,- a voz viril e forte, que ao falsete infantil voltou 
de novo, chia e sopra ao cantar. A ltima cena, remate desta histria aventurosa,  mero olvido, uma segunda infncia, falha de vista, dentes, gosto e tudo.
[H.vii.]
Bastante expressiva fora de contexto, a fala reverbera com extrema sutileza dentro da pea, pois faz crescer a nossa percepo do reducionismo de Jaques. Tanto 
quanto ns, Jaques sabe que nem todo recmnascido grita e baba sem parar, e que nem todo escolar se lamenta de ter de ir  escola. O amante e o soldado recebem da 
eloqncia satrica de Jaques um tratamento mais  altura, e podemos imaginar Falstaff rindo dos que "cheio de juras feitas sem propsito" buscam a glria "at mesmo 
na boca dos canhes". Shakespeare, inveterado litigante, deleita-se com a referncia  clebre prtica de empanturrar juizes de capes. Aos trinta e cinco anos, 
no meio do caminho de sua prpria jornada, Shakespeare (talvez intuindo que dois teros da vida j haviam passado) contempla no velho Pantaleo da commedia dell"arte 
o destino universal, um preldio da segunda infncia dos seres humanos que vivem at l: "falha de vista, dentes, gosto e tudo". O ltimo verso  o triunfo de Jaques, 
um reducionismo que nem mesmo Sir John Falstaff poderia questionar, mas que o prprio Shakespeare o faz, entrando em cena como o velho Ado (conforme j apontado, 
papel que costumava desempenhar). Trpego, Orlando surge no palco, trazendo o velho e bom criado que por ele tudo sacrificara e que no est destitudo de "tudo". 
O reducionismo de Jaques no poderia ter reprimenda mais contundente do que a lealdade e o amor quase paterno de Ado por Orlando.
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#HAROLD   BLOOM
A sofisticada complexidade de Jaques advm do fascnio e energia de suas negaes. Quando deveria ser esmagado pela retrica invencvel de Rosalinda, por um momento, 
ele se debate com uma energia satrica que merece a nossa afeio:
JAQUES
Lindo jovem, desejo conhecer-te mais de perto.
ROSALINDA
Dizem que sois um sujeito melanclico.
JAQUES
De fato; prefiro isso a rir.
ROSALINDA
As pessoas que se entregam a excesso, em qualquer caso,  se tornam detestveis, sendo muito mais passveis de censura do que os bbedos.
JAQUES
Ora!  bom a gente ficar triste e no dizer nada.
ROSALINDA
Nesse caso  bom tambm ser poste.
JAQUES
No possuo nem a melancolia do sbio, que  emulao, nem a do msico, que  fantstica, nem a do corteso, que  simples orgulho, nem a do soldado, que  ambiciosa, 
nem a do jurista, que  poltica, nem a das mulheres, que no passa de faceirice, nem a dos namorados, que abrange todas elas,- trata-se de uma melancolia muito 
minha, composta de muitos simples, extrada de vrios objetos, mais propriamente a smula de tudo o que eu contemplei em minhas viagens e que, por mim sempre ruminada, 
me envolve na mais caprichosa das tristezas.
[IV.i.]
As palavras " bom tambm ser poste" passam despercebidas por Jaques, ou, ento, so ignoradas diante da insistncia do personagem
276
COMO  GOSTAIS
em considerar sua melancolia algo original, individual. Mas sua autoafirmao  anulada pela tirada seguinte de Rosalinda:
ROSALINDA
Um viajante! Pois tendes razes de sobra para serdes triste,- receio muito que houvsseis vendido vossas terras para ver a dos outros, ter visto muito e nada possuir, 
eqivale a ter olhos ricos e mos pobres.
JAQUES
Mas ganhei experincia.
ROSALINDA
Experincia essa que vos deixa triste,- preferira um bobo que me alegrasse a uma experincia que me entristecesse. Viajar para isso!
[IV.i.]
A resposta insignificante - "Mas ganhei experincia" - marca a derrota de Jaques, mas Shakespeare permite ao seu melanclico personagem um final digno. Numa pea 
em que quase todos os demais personagens se casam ou regressam do exlio pastoral, Jaques despedese com estilo: "No para ver folguedos,- se ordenais / algo, estou 
na caverna que deixais", ele responde ao convite do Duque Snior, e sai de cena convencido de que casamento  "passatempo",- nesse momento, indagamos, novamente, 
se, at certo ponto, Jaques no estaria falando em nome de Shakespeare, o homem, no o dramaturgo. Jaques pode at ser o que Orlando o chama - "um bobo ou um simples 
zero" -, mas sua linguagem altamente estilizada, em parte, o resgata de si mesmo.
Toque, apesar do que acham muitos crticos, e da histria da encenao do personagem, , realmente, repugnante, quando comparado a Jaques, e essa repugnoncia mais 
intensa serve para ressaltar, por contraste, o grande esprito de Rosalinda. Por menos que Toque me agrade, 
277
#HAROLD  BLOOM
impossvel resistir, sem hesitao, a um personagem que assim afirma a prpria carreira de corteso (passada e futura):
[...] J dancei os meus compassos,- adulei uma dama,- fui poltico com os amigos e brando com os inimigos,- arruinei trs alfaiates.
[V.iv]
Toque fascina (e incomoda) pela sua esperteza: ele tem plena conscincia de toda e qualquer duplicidade, intencional ou no, da parte dele mesmo ou de terceiros. 
Toque  exatamente o que Falstaff, com orgulho (e correo), insiste no o ser: um homem dbio. Ainda que, nos dias de hoje, Rosalinda provoque ondas de comentrios 
sobre transexualidade, sua personagem flutua, sem se abalar, na superfcie desse discurso, precisamente por no ser uma mulher dbia. Infinitamente voltil,  sempre 
unitria, uma representao perfeita do que Yeats chamou "unidade de existncia". E provvel que Rosalinda seja a menos niilista de todos os protagonistas shakespearianos, 
embora Bottorn, o Tecelo, dela se aproxime nesse particular, assim como no caso das grandes vtimas: Julieta, Oflia, Desdmona, Cordlia e o quase-vtima, ou melhor, 
sobrevivente perturbado, Edgar. No conseguimos imaginar Rosalinda (ou Bottom!) em uma tragdia, porque, conforme j apontei, ela parece imune  ironia dramtica, 
sendo dotada de total domnio de perspectiva. Toque, to irnico quanto Jaques  satrico, leva a pior com Rosalinda, no apenas devido  inteligncia superior 
desta, mas, tambm, porque ela enxerga muito mais do que ele. Jaques menciona Toque, "na selva um bobo", em linguagem mais do que exemplar: "de hora em hora apodrecemos: 
/ nisto se encerra um conto". Aps recitar versos de p quebrado, em resposta aos maus versos de amor compostos por Orlando, Toque dirige-se a Rosalinda.-
TOQUE
Eis a o mais legtimo galope em falso dos versos. Por que vos contaminais com eles?
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COMO  GOSTAIS
ROSALINDA
Quieto, bobo nscio! Encontrei-os em uma rvore.
TOQUE
Ruim fruto, em verdade, d essa rvore.
ROSALINDA
you enxertar-te neles e depois numa nespereira, para termos os mais precoces frutos da regio, pois apodrecereis antes de amadurecer, tal como acontece com as nsperas.
TOQUE
Vs o dissestes,- mas se com discrio ou sem ela, que a floresta o julgue.
[III..]
O julgamento feito pela floresta, como Toque bem o sabe, ser idntico ao nosso: Rosalinda o derrotou. Podre antes de amadurecer, Toque passa a perseguir Audrey, 
cuja ingenuidade e idiotice so to bem expressas pelas palavras: "Bem,- no sou bonita, por isso mesmo peo aos deuses que me faam honesta". Comparando-se a Ovdio 
exilado entre os godos, Toque articula o derradeiro exorcismo shakespeariano do esprito de Christopher Marlowe, que espreita uma pea totalmente estranha ao seu 
gnio selvagem:
TOQUE
Quando os versos da gente no podem ser compreendidos, nem o seu esprito secundado pela criana precoce que se chama entendimento,  coisa pior para deixar como 
morto do que uma conta grande em quarto pequeno. Em verdade, desejara que os deuses te houvessem feito com disposio potica.
AUDREY
No sei o que quer dizer "potica",-  honesta em atos e em palavras? E coisa de verdade?
TOQUE
No, de fato,- porque a poesia mais verdadeira  a mais fingida/
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#HAROLD   BLOOM
os namorados so dados  poesia, podendo-se dizer que o que eles juram em poesia inventam como apaixonados
[in m]
Muitos dos presentes na platia no tempo de Shakespeare devem ter percebido a audcia da aluso  morte de Marlowe, supostamente, em decorrncia de "uma conta grande 
em quarto pequeno", na estalagem, em Deptford, onde o poeta e dramaturgo fora esfaqueado (no olho), por um tal Ingram Fnzer, tanto quanto Marlowe, integrante do 
Servio Secreto Real de Walsmgham, a CIA da Inglaterra Elisabetana A grande conta, aparentemente, inclua despesas elevadas com bebida e comida, sendo objeto de 
disputa entre Marlowe, Fnzer e outros capangas de Walsmgham A insinuao de Shakespeare  contundente tratara-se de uma execuo, a mando do governo, fruto de imenso 
preconceito, e a campanha subsequente contra o "atesmo" de Marlowe resultar na incompreenso dos versos e do esprito do poeta e autor de O Judeu de Malta, cujo 
verso, "riqueza infinita em quarto pequeno", reverbera, ironicamente, nas palavras de Toque Em outro trecho de Como Gostais, Marlowe, o "pastor morto",  citado 
a partir do clebre refro de seu poema lrico "O Pastor Apaixonado e Sua Amante" "O amor, de fato,  s  primeira vista" Designado por Shakespeare a ser o implcito 
defensor de Marlowe, Toque afirma o credo esttico do prprio Shakespeare "a poesia mais verdadeira  a mais fingida" Marlowe, poeta verdadeiro, fingia e foi incompreendido 
Shakespeare, finalmente, livre do fantasma de Marlowe, oferece-nos Como Gosteis, poesia verdadeira, por ser das mais criativas As palavras finais de Toque na pea 
elogiam o "Se" do fingimento potico Atendendo ao pedido de Jaques, que enumere, por ordem, "todos os graus da mentira", ou da contradio que levara ao desafio, 
s espadas, Toque vive seu momento mais brilhante
Oh, senhor" Ns brigamos de acordo com as regras impressas, pelos livros, no jeito dos manuais de boas maneiras you enumerar-vos os diferentes graus primeiro, Contestao 
corts, segundo, Sarcasmo modesto, terceiro, Rplica incivil, quarto,
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COMO  GOSTAIS
Refutao valorosa, quinto, Rplica nxosa, sexto, Mentira circunstancial, stimo, Mentira direta  possvel  gente esquivar-se deles todos, com exceo da Mentira 
direta, que, alis, tambm poder ser contornada por um "Se" Soube de um caso em que sete juizes no haviam conseguido harmonizar uma contenda, mas que no momento 
em que as partes se encontraram para a decidirem pelas armas, ocorreu a um deles a idia de um simples "Se", mais ou menos desse jeito "Se vs dissestes isto, eu 
disse aquilo" Desta arte, trocaram apertos de mo e juraram amizade fraternal O "Se"  um grande pacificador, h muita virtude nesse "Se"
[V,v]
"Muita virtude nesse "Se""  frase bem a calhar, para a despedida de Toque, ensinando-nos a tolerar sua maneira rude de tratar os pastores, bem como a srdida explorao 
da ingnua Audrey Jaques, na presena de Rosalinda, perde a dignidade satrica, Toque, confrontado por Rosahnda, abandona o prestgio da ironia Rosalinda  o centro 
da pea Refletir sobre o "como" e o "porqu" de sua grandeza, sobre a razo pela qual ela h de ser a mais extraordinria e convincente representao de uma mulher 
em toda a literatura ocidental,  constatar o quanto a maioria das montagens de Como Gosteis tm sido injustas com Rosahnda
O ttulo - Como Gosteis -  dirigido  platia contempornea de Shakespeare, mas a pea poderia ser intitulada Como Goste Rosaltnda, pois a personagem alcana todos 
os seus objetivos, que nada tm em comum com as ambies dos covis de adeptos de estudos de gnero e poder Artigo aps artigo deplora o "abandono" a que Rosahnda 
relega Clia, em favor de Orlando, lamenta a represso de sua Vitalidade feminina", ou at insiste que o apelo que ela exerce sobre os homens da platia tem natureza 
"homoertica" e no heterossexual Jamais encontrei um artigo que criticasse Rosahnda por desprezar Febe, a pastora, mas vivo na expectativa desse dia Orlando, como 
todos sabemos, no est  altura
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#HAROLD   BLOOM
de Rosalinda, mas as heronas em Shakespeare, de modo geral, casam-se com homens que no as merecem,- em todo caso, Orlando  um Hrcules afvel, que Rosalinda 
tem prazer em educar, uma vez disfarada de Ganimede, o jovem da floresta. Quando Ganimede faz papel de Rosalinda, para treinar Orlando na arte de viver e amar, 
devemos supor que o amante no a reconhece? Alm da questo da credibilidade, seria uma perda esttica se Orlando no estivesse plenamente consciente do encanto 
da situao. Ele no  brilhante, nem bem-educado, mas sua inteligncia  razoavelmente desenvolvida, e ele  um heterossexual mais alegre para Rosalinda, do que 
Horcio para Hamlet:
ROSALINDA
Vamos/ cortejai-me,- cortejai-me, que me sinto hoje com
disposio de feriado e propenso a consentir. Que me direis
neste momento, se eu fosse, de verdade, mas de verdade
mesmo, a vossa Rosalinda? ORLANDO
Antes de falar, daria um beijo. ROSALINDA
No,- fareis melhor falando primeiro,- e quando dsseis em seco
por falta de assunto podereis aproveitar a ocasio para beijar.
Os bons oradores cospem quando se atrapalham,- para os
amantes com falta de assunto - Deus nos livre! - o mais
limpo expediente ser beijar. ORLANDO
E no caso de recusa? ROSALINDA
Ento ela vos por na contingncia de ter de suplicar,
comeando a novo assunto. ORLANDO
Mas quem poder ficar sem assunto diante de sua dama bem-amada? ROSALINDA
Vs, sem dvida, se eu fosse a vossa amada,- sem o que, eu
282
COMO  GOSTAIS
imaginaria que a minha virtude me tivesse sobrepujado o esprito.
ORLANDO
Por causa do modo de eu fazer a corte?
ROSALINDA
No por vossa corte, mas por vosso corte. No sou eu a vossa Rosalinda? y
ORLANDO
Alegra-me chamar-vos desse modo, por desejar falar a respeito dela.
ROSALINDA
Pois ento, em sua pessoa direi que no vos quero.
ORLANDO
Nesse caso, em minha pessoa, morrerei.
ROSALINDA
Isso no,- morrei por procurao. O pobre mundo j conta seis mil anos, e durante todo esse tempo ningum morreu em sua prpria pessoa, videlicet, por motivo de 
amor. Trilo teve os miolos esmigalhados por uma clava grega, apesar de ter feito o que pde para morrer antes de ser um dos modelos do amor. Leandro poderia ter 
vivido ainda muitssimos belos anos, mesmo que Hero houvesse ficado freira, se no fosse uma noite de cancula do vero,- moo como era, fora apenas banhar-se no 
Helesponto,- mas afogou-se por causa das cibras,- foram os cronistas ingnuos da poca que acharam que morrera por causa de "Hero de Sesto". Mas nada disso passa 
de invencionice/ os homens tm morrido de tempos em tempos e os vermes os tm devorado, mas no por amor.
[IV.i.]
Anteriormente, citei a ltima sentena do trecho acima, e gostaria de encontrar um motivo para us-la outra vez, pois encerra o que h de melhor no discurso de Rosalinda, 
o que quer dizer que  excelente.
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#HAROLD  BLOOM
A aluso ao poema Hero e Leandro, de Marlowe e Chapman, refora a matriz de ironia que celebra a ausncia da influncia de Marlowe em Como Gostais, em que o flerte 
prossegue de esplendor a esplendor,  medida que Rosalinda, de maneira singular (mesmo em Shakespeare), promove a fuso do amor verdadeiro e inteligncia, no mais 
alto grau:
ROSALINDA
Dizei-me agora por quanto tempo pretendeis ficar com ela depois que ela for vossa. ORLANDO
A eternidade e mais um dia. ROSALINDA
Dizei "um dia" sem essa eternidade". No, no, Orlando,- os homens so abril, quando fazem a corte a dezembro, quando se casam,- as mulheres so maio, enquanto donzelas,- 
o tempo, porm, as transforma, quando  se tornam esposas. Hei de ter mais cimes de ti do que de sua galinha um galo berbere,- serei mais barulhenta do que papagaio, 
quando ameaa chuva,- mais caprichosa do que macaco e mais luxenta nos meus desejos do que mono,- chorarei por nada, como Diana na fonte, e isso, quando estiverdes 
de bom humor, e hei de rir como uma hiena, justamente quando manifestardes desejos de dormir. ORLANDO
Mas a minha Rosalinda far tudo isso? ROSALINDA
Por minha vida,- ela far justamente como eu. ORLANDO
Oh, mas ela  sensata. ROSALINDA
Sem o que no teria esprito para tanto,- quanto mais sensata, mais voluntariosa. Fechai as portas ao esprito feminino, e ele escapar pela janela,- fechai esta, 
e ele sair pelo buraco da fechadura,- entupi o buraco, e ele fugir como a fumaa pela chamin.
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COMO  GOSTAIS
ORLANDO
O indivduo que tivesse uma mulher de semelhante esprito
poderia perguntar: "Esprito, para onde vais?" ROSALINDA
Podereis deixar essa interpelao para quando vsseis o esprito
de vossa mulher no ponto de ir para o leito do vizinho. ORLANDO
E que esprito teria esprito para justificar-se? ROSALINDA
Ora, diria que tinha ido procurar-vos l. Jamais a apanhareis
sem resposta, a menos que a apanhsseis sem lngua. Oh!
A mulher que no sabe pr a culpa no marido por suas prprias
faltas no deve amamentar o filho, pela certeza de criar um
palerma.
[IV.i.]
Nesse trecho, Rosalinda  fabulosa, mas Orlando (pace muitos crticos) no , exatamente, um ignorante: "Mas a minha Rosalinda far tudo isso?" Trata-se do galanteio 
mais sbio e espirituoso em toda a obra shakespeariana, muito mais sutil do que o escrnio de Beatriz e Benedito. Somente Rosalinda e Orlando poderiam levar a termo 
seu dilogo mais fino, e a encenao entre os dois termina assim:
ROSALINDA
Ora essa! Amanh eu no poderei fazer as vezes de Rosalinda? ORLANDO
No me  possvel continuar a viver s de fantasias.
[V.H.]
Mais uma vez, em que pese a opinio de vrios crticos, o tom de Orlando aqui  leve, no desesperado, embora transparea um sentido de urgncia sexual, o que indica 
estar ele apto a colar grau na escola de Rosalinda. Ser que ns estaramos, tambm? Rosalie Colie observa que "o amor encontrado no centro da pea no , necessariamente, 
pastoral", o que contribui para evitar que Como Gostais perea com o gnero
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#HAROLD   BLOOM
pastoral. William Empson, no clssico estudo intitulado Some Versiom of Pastoral, leva-nos de volta ao texto do Primeiro Flio,  passagem em que Toque dirige-se 
a Audrey, com ironia:
No, de fato/ porque a poesia mais verdadeira  a mais fingida [faininl]; os namorados so dados  poesia, podendo-se dizer que o que eles juram em poesia inventam 
Ueicjne] como apaixonados.
O jogo de palavras expresso mfaining (no sentido de "desejada") e jeicjne ("simular" ou "fingir"), to apropriado a Toque e Audrey, no funcionaria uma vez aplicado 
a Orlando e Rosalinda, pois seu desejo e sua encenao se confundem, mesmo quando Orlando exclama no lhe ser possvel viver s de fantasias. O momento mais sutil 
dessa obra-prima entre as comdias shakespearianas vem no Eplogo, em que o rapazola que representava o papel de Rosalinda surge  boca do tablado, ainda vestido 
a carter, e apresenta-nos o triunfo final da personagem, exibindo sua inteligncia e afetuosidade, seus desejos e fingimentos harmonizados:
No  costume ver a herona no papel de eplogo,- mas isso no  menos desajeitado do que ver o heri servir de prlogo. Se  verdade que o bom vinho no necessita 
rtulo, no  menos certo que uma boa pea dispensa eplogo. Contudo, pem-se sempre rtulos adequados nos bons vinhos, provando, igualmente, melhor as boas peas 
corn o auxlio de bons eplogos. E agora, que situao a minha, pois nem sou bom eplogo, nem posso captar-vos a benevolncia a favor de uma boa pea! No me apresento 
em trajos de mendigo, razo por que no me fica bem pedir- vos coisa alguma,- s me resta interceder junto de vs, o que farei comeando pelas senhoras. Concito-vos, 
senhoras, pelo amor que devotais aos homens, a gostardes desta pea tanto quanto vos for do agrado,- e concito-vos, senhores, pelo amor que dedicais s mulheres 
- e o vosso sorriso me revela que nenhum de vs lhes tem dio - de juntamente com elas vos agradardes da pea. Se eu fosse mulher, beijaria todos os que usam barba 
do meu
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COMO  GOSTAIS
gosto, ou que tenham rosto que me agrade e hlito que no repugne,- e estou certa de que todos os que tm barba bem-feita, ou rosto belo, ou hlito agradvel, para 
corresponderem a esta amvel oferta, ho de aplaudir-me quando eu lhes fizer a minha cortesia.
Nos dias de hoje, em que se pratica uma crtica literria to estranha, este Eplogo suscita arroubos de travestismo e transgresso, mas tais delrios pouco tm 
a ver com a Rosalinda de Shakespeare, ou com as suas palavras finais. Prefiro a viso de Edward I. Berry, de uma acuidade esplndida:
Como diretor e "ator" em sua prpria "pea", e Eplogo na pea de Shakespeare, Rosalinda toma-se, de certo modo, um emblema do prprio dramaturgo, uma personagem 
cuja conscincia extrapola, com sutileza, os limites da dramaturgia.
Mais uma vez, Rosalinda forma um trio, ao lado de Falstaff e Hamlet, igualmente emblemas do prprio Shakespeare. "Concluamos a pea!", Falstaff exclama, dirigindo-se 
a Hal, "ainda tenho muito que dizer em defesa desse Falstaff". "Ajustai o gesto  palavra, a palavra  ao", Hamlet recomenda ao Ator Rei. "Concito-vos, senhores, 
pelo amor que dedicais s mulheres", Rosalinda pede, com grande habilidade, "de juntamente com elas vos agradardes da pea". Em momentos como esses, Shakespeare 
permite que a voz desses trs personagens chegue o mais perto possvel de sua prpria voz.
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#15
NOITE DE REIS
Apesar da minha preferncia por Como Gostais, baseada na paixo que sinto por Rosalinda, devo admitir que Noite de Reis  a melhor das comdias shakespearianas. 
Nenhum personagem em Noite de Reis, nem mesmo Viola,  to admirvel quanto Rosalinda. Noite deReis ou O cjue Quiseres foi, provavelmente, escrita em 1601-1602, 
preenchendo o intervalo entre a verso final de Hamlet e Troio e Crssida. Noite de Reis contm elementos de autopardia, no na mesma escala que Cimbeline, mas 
em uma escala mediana, entre as ironias cortantes de Hamlet e o azedume de Trilo e Crssida, memoravelmente expresso por Tersites.
Tenho minhas suspeitas de que Shakespeare fizesse papel de Antnio, tanto em O Mercador de Veneza como em Noite de Reis, em que o segundo homoertico Antnio parodia 
o primeiro. Entre as primeiras comdias de Shakespeare, a maioria  extrada de Noite de Reis, no porque a criatividade cmica do autor tenha esmorecido, mas porque 
o esprito tresloucado de "o que quiserdes" o dominava, talvez como defesa contra a amargura das trs comdias sombrias que em breve seriam escritas: Trilo e Crssida, 
Bem Est o cjue Bem Acaba e Medida por Medida. Depois do advento de Noite de Reis paira um abismo, e todos os personagens,  exceo de Feste, o bobo relutante, 
so, basicamente, ensandecidos sem que o saibam. Quando o infeliz Malvlio  encarcerado em cela escura, prpria para loucos, deveria contar com a companhia de 
Orsino, Olvia, Sir Tobias Belch, Sir Andr Aguecheek, Maria,
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NOITE DE  REIS
Sebastio, Antnio e at mesmo Viola, pois os nove so, na melhor das hipteses, limtrofes em termos de comportamento. O maior defeito de todas as montagens de 
Noite de Reis a que tive ocasio de assistir  o ritmo insuficientemente acelerado. A pea deve ser encenada no andamento frentico que convm ao bando de loucos 
e folgazes de que  composta. Teria sido mais do meu agrado se Shakespeare houvesse adotado como ttulo principal O cjue Quiserdes, em vez de Noite de Reis, o subttulo 
 melhor, entre outros significados, querendo dizer algo como "Vale
Tudo!".
No  que Noite de Reis seja puramente farsesca. Conforme todas as outras grandes peas de Shakespeare, Noite de Reis no pertence a um nico gnero. No possui 
o escopo cosmolgico de Hamlet, mas, de uma maneira muito prpria, e surpreendente,  mais um "poema sem fim". No conseguimos esgot-la, uma vez que at as falas, 
aparentemente, mais casuais reverberam para sempre. Samuel Johnson, bastante irritado com a pea, queixa-se de a mesma no apresentar "um quadro justo da vida", 
mas, segundo a grande prova johnsoniana, a pea, sem dvida, contm "uma representao justa da natureza". Venero Johnson, principalmente em seus escritos sobre 
Shakespeare, e desconfio que seu precrio equilbrio mental, o medo da loucura, fazia com que ele buscasse desgnios de racionalidade onde os mesmos inexistiam:
Viola parece chegar a desgnios mais do que obstinados em decorrncia de pouca premeditao: vtima de um naufrgio, ela se surpreende no litoral de uma terra estranha, 
descobre que o prncipe  solteiro e resolve tomar o lugar da dama por ele cortejada.
Tais palavras no se aplicam, absolutamente, a Viola, embora, no resta dvida, ela se apaixone pelo enlouquecido Orsino  primeira vista. A maioria dos pretendentes 
shakespearianos causa-nos espcie, e talvez Orsino seja o mais estranho de todos, indigno da ntegra, afvel - ainda que um tanto biruta - Viola. De qualquer maneira, 
Noite de Reis recusa-se a ser levada a srio, e seria uma agresso submet-la a expectativas
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#HAROLD  BLOOM
realistas, mas h que se reconhecer que, nessa pea, a inveno do humano em  Shakespeare surge com espantosa fora mimtica.  Os personagens mais absurdos, inclusive 
Orsino, abrem-se para dentro, algo desconcertante em uma farsa, ou melhor, em uma pardia de farsas anteriores. Malvlio,  claro, no possui a amplitude de Falstaff 
ou Hamlet, mas escapa das mos de Shakespeare, e  de uma pungncia enorme, mesmo em sua graa maldosa, alm de encerrar uma stira sublime ao moralista Ben Jonson. 
Aqui, Shakespeare est mais perto de Hamkt do que de Medida por Medida-, a subjetividade e a individualidade, invenes suas, so a norma em Noite de Reis. Creio 
ser essa a pea mais engraada de Shakespeare, mais do que a Primeira Parte de Henrique IV, em que Falstaff, tanto quanto Hamlet mais tarde,  de uma inteligncia 
que vai alm da inteligncia e, assim, gera pensamentos profundos demais para provocarem o riso. Somente Feste, em Noite de Reis, tem um crebro, mas todos os personagens 
pulsam de vitalidade, at o mais que avoado Sir Tobias Belch, o menos falstaffiano dos fanfarres.
C. L. BarberclassificouNotc de Reis como uma das "comdias festivas", mas, acertadamente, fez tantas restries que chegou a pr em dvida o contedo festivo. Uma 
Folia de Reis logo se esgota,- Noite de Reis cresce em significado a cada leitura, mesmo em produes teatrais de pouco brilho. A pea  desprovida de um centro,- 
nela no h, praticamente, uma ao crucial, talvez, porque quase todos os personagens tm comportamento involuntrio. Um Nietzsche, com mais senso de humor do 
que o verdadeiro, poderia t-la escrito, uma vez que foras que esto alm dos personagens parecem comandar-lhes a vida.
O segredo de Noite de Reis  a rivalidade srio-cmica entre Shakespeare e Ben Jonson, cuja comdia de humores  aqui amplamente satirizada. A antiga medicina grega 
postulara a existncia de quatro "humores": sangue, blis, fleuma e linfa. Em uma pessoa bem-equilibrada, nenhum dos quatro humores teria maior influncia, mas a 
predominoncia de qualquer um dos quatro implicaria srios distrbios de carter.  poca de Shakespeare e Jonson, prevalece, na prtica, a noo mais simples de 
apenas dois humores: blis e sangue. O humor bilioso resultava em fria, enquanto que o temperamento sangneo expres-
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NOITE  DE  REIS
sava-se na sensualidade, freqentemente pervertida. A psicologia popular diluiu essa dualidade em explicaes simplistas para todo e qualquer comportamento leviano 
ou afetado, que  se tornam objetos da comdia
deJonson.
At certo ponto, essa trivializao da teoria dos humores faz lembrar a vulgarizao a que hoje submetemos o que Freud chamou de inconsciente. O humor bilioso assemelha-se 
um pouco ao Instinto de Morte, ou Tnato, enquanto o humor sangneo aproxima-se do Eros, em
Freud.
Shakespeare, de modo geral, desafia essa noo mecnica do funcionamento do esprito,- sua grande empreitada da inveno do humano despreza tal reducionismo. Portanto, 
ele lana mo da Festa da Epifania, a dcima segunda noite depois do Natal, a Noite de Reis, para criar uma comdia festiva e ambgua em que o bilioso Malvlio, 
figura to jonsoniana que chega a evocar o prprio bilioso Ben,  vtima de uma brincadeira de mau gosto. O sangneo Shakespeare oferece-nos O cjue Quiserdes, no 
esprito da Folia de Reis, expresso popular e leiga da celebrao religiosa da Epifania, a manifestao do Menino Jesus aos Reis Magos. Alegre e secular, como quase 
tudo em Shakespeare, a pea sobre "o que quiserdes" no faz qualquer referncia  Noite de Reis. Sequer  Natal no estranho ducado de Ilria, onde a nufraga Viola, 
corn passividade e humor, no alcana a prpria felicidade, mas faz a nossa. A pea, porm, no tem incio com a encantadora Viola, mas na corte de Orsino, onde 
o sublime e incrvel "amante do amor", sangneo  beira da loucura, extasia-nos com uma das falas mais primorosas do cnone shakespeariano-.
Tocai, tocai, se for, de fato, a msica alimento do amor. Mais: que o apetite, saciado, adoecer possa e a morrer venha. Novamente esse trecho,- morre lnguido! Ohi 
Vibra-me no ouvido como a brisa que passa de mansinho num canteiro de violetas, roubando e dando aroma.
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#HAROLD  BLOOM
Basta! J no est to melodioso.  esprito do amor, quo lesto e fresco te apresentas! Por mais que tudo acolha tua capacidade, como o oceano, tambm quanto ali 
cai, por mais valioso, num minuto se abate e perde o preo. To cheia de criaes  a fantasia, que nada h mais fantstico do que ela.*
[I..]
A metfora inicial de Orsino parece ter sido do agrado de Shakespeare, pois, cinco anos mais tarde, ser repetida por Clepatra, saudosa de Antnio.- "Dai-me um 
pouco de msica/ O msica, / Sustento melanclico de ns, / Que com o amor lidamos."    Orsino, mais apaixonado pela palavra, pela msica, pelo amor e por si mesmo 
do que por Olvia, ou, em tempo, por Viola, diz a si mesmo (e a ns) que o amor  por demais faminto para ser saciado por qualquer pessoa que seja. Contudo, os primeiros 
oito versos dessa rapsdia tm mais a ver com msica e, por associao, com poesia do que com amor. Esse morrer lnguido  uma cadncia que h de reverberar em 
toda a poesia inglesa, especialmente na tradio estabelecida por Keats e Tennyson. Orsino, decerto, "fantstico", clama por um excesso de msica, embora no de 
amor, e sua intensidade metafrica sugere que a^palavras "} no est to melodioso" tambm se aplicam a desejo sexual. Orsino ir alm dessa auto-revelao ao interagir 
corn Viola, disfarada de Cesrio e incumbida de levar as declaraes de amor de Orsino a Olvia. Hiperblico como ningum, Orsino alcana o sublime, em termos da 
estupidez masculina:
Mulher alguma
suportaria os golpes de to forte
* Noite de Reis ou O cjue Qmserdes Traduo de Carlos Alberto Nunes. So Paulo: Edies Melhoramentos, s.d. Todas as citaes referem-se a essa edio. [N.T]
** Antnio e Clepatra. Traduo e Notas de Jos Roberto O"Shea. So Paulo: Editora Mandarim, 1997, p. 121.[N.T]
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NOITE  DE  REIS
paixo como os que o amor me descarrega
no peito. No existe corao
de mulher desse porte e assim constante.
Ah! Seu amor no passa de apetite -
 simples paladar, no sentimento -
que se farta, repugna e revolta,-
mas o meu, como o mar,  insacivel,    -^
e como ele, tambm, tudo digere.
No compares o amor que por mim possa
sentir uma mulher, com o sentimento
que a Olvia ora eu dedico.
[Il.iv.]
Fora de contexto, essa passagem  ainda mais grandiosa do que a que abre a pea, mas, em se tratando de palavras de Orsino, trata-se de grandiloqncia cmica. Embora 
seja um personagem menor, se comparado a Viola, Olvia, Malvlio (como soam bem esses nomes, pronunciados em seqncia) e o admirvel Feste, Orsino e seu erotismo 
afvel e ensandecido estabelecem o tom de Noite de Reis. Apesar de extremamente autocentrado, Orsino consegue mexer com o pblico, em parte, porque seu Alto Romantismo 
 to quixotesco, e porque seu sentimentalismo  universal demais para ser rejeitado:
 companheiro! Vamos, a cantiga da ltima noite. Escuta-a bem, Cesrio/  antiga e muito simples. As mulheres, quando fiam ao sol ou fazem meia, e as jovens ainda 
livres, quando tecem soem cant-la.  ingnua e versa sobre a inocncia do amor nos belos tempos.
[Il.iv.]
Temos, tambm, a fascinante inconstncia de Orsino, ao ser levado a dizer a verdade:
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#HAROLD  BLOOM
[...] Porque embora, jovem, nos elogiemos a ns mesmos, nossas inclinaes so menos firmes, mais variveis, veementes e propensas a se aplacarem do que as das mulheres.
[Il.iv.]
O pobre Malvlio seria mais feliz em qualquer outra pea,- Viola, Olvia e, especialmente, Feste encontrariam contexto favorvel em outras peas de Shakespeare. 
J Orsino encaixa-se aqui perfeitamente bem,-  o nico personagem compatvel com a exuberante loucura de Noite de Reis.
A questo mais intrigante relacionada  encantadora Viola  sua extraordinria passividade, o que, sem dvida, ajuda-nos a entendera sua paixo por Orsino. Acertadamente, 
Anne Barton comenta que o "disfarce masculino de Viola, antes de funcionar como veculo de liberao,  apenas um meio de ela se manter incgnita em uma situao 
adversa". Um qu de improvisao permeia Noite de Reis, e o disfarce de Viola faz parte de tal atmosfera, embora eu duvide muito que mesmo Shakespeare pudesse improvisar 
em uma pea de tamanha complexidade e beleza,- sua arte meticulosa produz apenas um efeito esttico, uma aparncia de uma improvisao. A personalidade de Viola 
, ao mesmo tempo, receptiva e defensiva: ela oferece "o escudo de uma saudao" (na frase de John Ashbery). Seu vocabulrio  o mais rico da pea, visto que ela 
modula a linguagem de acordo com as excentricidades expressas nas falas dos personagens com quem interage. Ainda que Viola seja to interessante, em sua maneira 
sutil, quanto o infeliz Malvlio e o teimoso Feste, Shakespeare parece fazer questo de mant-la enigmtica, tendo sempre muito o que revelar a seu respeito.  possvel 
que o "fantstico" Orsino a atraia por ser seu oposto,- as hiprboles de Orsino complementam as reticncias de Viola. Se existe, nessa pea, alguma voz com
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NOITE  DE  REIS
sentimento sincero, s poderia ser a dela,- todavia, poucas vezes ouvimos tal voz. Ainda assim, quando a mesma transparece,  de um pathos irresistvel:
Construra em vossa porta uma cabana de salgueiro e clamara por minha alma dentro de vossa casa,- escreveria ^_
versos tristes de amor no retribudo, para com eles atroar a noite calma,- gritar-vos-ia o nome nas colinas at que o ar murmurante repetisse: Olvia! No tereis 
mais repouso nos elementos do ar nem nos da terra, sem que de mim piedade revelsseis.
[I-v.]
 irnico o efeito dessa passagem, pois provoca a paixo de Olvia pelo prprio Cesrio. Para Viola, o lamento baseia-se em uma outra ironia: o absurdo dilema em 
que ela se encontra, ao promover o amor de Orsino por Olvia, quando sua vontade  totalmente contrria  unio dos dois. Essa ironia deixa transparecer o que h 
de mais profundo e plangente em Viola, alm, talvez, de um sofrimento intenso, antigo ou recente, no prprio Shakespeare. Podemos definir Viola como uma vitalista 
reprimida, dotada de uma intensidade comparvel  de Rosalinda, mas impedida de expressar a sua fora, possivelmente, porque confunde a prpria identidade com a 
do irmo gmeo, Sebastio. O canto lgubre da "cabana de salgueiro" pulsa com essa fora interior, canes de amor rejeitadas "na noite calma". A essa altura da 
pea, estamos acostumados com o fascnio de Viola, mas sua personalidade, subjugada, d sinais de resistncia, de uma vitalidade extraordinria e persistente. "Fareis 
muito", Olvia responde ao canto de Viola, e fala em nome da platia. Nessa pea, que parece transcorrer no interior de uma cmara de eco, Viola, em breve, prenuncia 
uma irm imaginria, em dilogo travado com Orsino:
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#HAROLD  BLOOM VIOLA
Meu pai teve uma filha que a tal ponto amou a um homem, como eu vos amara, meu prncipe, se acaso eu mulher fosse. DUQUE
E qual a sorte dela? VIOLA
Muito simples,
milorde: jamais disse o que sentia,- deixou que o seu segredo lhe corroesse, como o verme ao boto, as faces roscas,- encerrou-se em seus prprios pensamentos, e 
corn tristeza plida e esverdeada ficou com a Pacincia no moimento, sorrindo  dor. No vos parece que isso fosse amor de verdade?
[Il.iv.]
"Simples"*  uma metfora shakespeariana que espreita a poesia inglesa, desde Milton, Coleridge e Wordsworth, at Emily Dickinson e Wallace Stevens. Aqui, significa 
apenas a pgina em branco, a histria no contada,- em outras peas, "blank" refere-se ao ponto central de um alvo. Sendo essa irm agonizante inveno de Viola, 
 possvel que esteja aqui includa a idia do alvo no atingido, do objetivo no alcanado. A fala contm o germe da melhor poesia lrica de William Blake, por 
exemplo, "A Rosa Enferma" e "Jamais Fales de Teu Amor", vises sombrias das conseqncias erticas da represso. Ambas as elegias, feitas por Viola para OlviaeOrsino, 
tm carter estritamente preventivo: so fadadas a evitar um destino que a prpria Viola corteja, com uma passividade contra a qual parece incapaz de reagir. Esse 
destino  quase concretizado na cena mais estranha de Noite de Reis (incabvel em uma
" No original, "blank", t e, o "branco", o impasse criativo, que tanto assusta os escritores
[N.T.]
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NOITE  DE  REIS
comdia), em que Orsino, frustrado, jura executar Viola-Cesrio, sem qualquer indicao de resistncia por parte da vtima:
DUQUE Ainda cruel?
OLVIA
Ainda e sempre constante, meu bom lorde.
DUQUE
Sim, na perversidade.  mulher brbara, em cujo altar ingrato e inauspicioso veio depor minha alma as oferendas mais sinceras do amor! Que ora me fica por fazer? 
OLVIA
O que achardes, meu bom lorde,
que melhor vos assenta. DUQUE
Por que causa
no me consente o peito fazer como
certo ladro egpcio que, no ponto
de morrer, tirou a vida  bem-amada?
Pode ser cime brbaro, mas algo
de nobreza revela. Ouvi-me, ao menos:
Visto me desprezardes a constncia,
e eu suspeitar a causa de no ser-me
possvel alcanar meu merecido
lugar no vosso apreo, continuai
viva,  bela tirana empedernida!
Quanto ao moo a que amor dedicais tanto,
e que eu tambm - o cu me oua as palavras! --
amo de corao, hei de arrancar-vo-lo
dos olhos cruis onde ele o cetro empunha
para despeito do amo. Vamos, jovem!
Minha resoluo j est madura
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#HAROLD  BLOOM
NOITE  DE  REIS
para a vingana. you dar morte  ovelha muito amada, contanto que atormente quem tem peito de corvo e alma inocente. VIOLA
E eu, de grado e jucundo, aceitaria mil mortes para dar-vos alegria.
[Vi.]
Orsino, jamais tendo merecido grande estima por parte do pblico,  um criminoso enlouquecido, se  que pretende, realmente, cumprir sua palavra, e Viola  tola 
e masoquista, se  que fala srio. Por que Shakespeare nos coloca diante de tamanha perplexidade? Ser que a sandice alcanaria nveis patolgicos, se Sebastio 
no surgisse como catalisador da cena do reconhecimento? Desconheo comentrios elucidativos sobre esse momento infeliz. O dio assassino de Orsino  por demais 
perturbador,- o consentimento total de Viola a uma morte por amor faz pesar o papel com a perspectiva de conseqncias desastrosas. De rolar de rir, Noite de Reis, 
no entanto, quase sempre margeia a violncia. Ilria, cujo clima no  o mais saudvel que existe, situa-se no cosmo shakespeariano entre a Elsinore mismica de 
Hamlet e as guerras violentas e os amores infiis de Trdi/o e Crssia.
O papel de Olvia, desempenhado com o devido brilho,  fascinante, em sua autoridade, sua arbitrariedade ertica, mas platia alguma nutre por ela a afeio dirigida 
a Viola, por mais desconcertante que esta demonstre ser. As duas heronas no se coadunam, e Shakespeare deve ter se deliciado com o trabalho que d  nossa imaginao, 
para conseguirmos entender por que Olvia se apaixona pelo suposto Cesrio. Existe pouca congruncia entre o amor de Viola pelo clebre Orsino e o amor de Olvia 
pelo esperto e discreto alcoviteiro de Orsino. A paixo de Olvia  mais um desmascaramento farsesco dos caprichos da identidade sexual do que uma revelao de que 
a paixo feminina madura seja,
essencialmente, de natureza lesbiana. Fui informado sobre uma montagem em que Sebastio sai de braos com Orsino, enquanto Olvia e Viola acabam juntas. Eu no 
teria interesse em assistir a tal produo - e no foi isso o que Shakespeare escreveu. Contudo, nessa pea, como em outras, anteriores e posteriores, Shakespeare 
pe em cheque nossas certezas mais simplistas a respeito de identidade sexual. Na contradana" final, Malvlio no  o nico que fica sem par. Antnio no volta 
a ter fala na pea, aps exclamar: "Quem  Sebastio?". Conforme o Antnio de O Mercador de Veneza, este segundo Antnio ama em vo.
Olvia, quando da primeira vez que a vemos, chora, solenemente, a morte do irmo,- sem dvida, a dor  sincera, mas serve, tambm, como defesa contra o assdio de 
Orsino. O pesar desaparece quando ela encontra Cesrio e por ele se apaixona  primeira vista. Sendo Olvia to louca quanto Orsino,  possvel que qualquer outro 
rapaz atraente e meigo tivesse causado o mesmo efeito que Cesrio. A aguada percepo de Shakespeare de que toda atrao sexual  de origem arbitrria, embora teleologicamente 
determinada,  central em Noite de Reis. Para Freud, todo objeto-escolha (paixo)  narcisista. Shakespeare entende o fenmeno como uma espcie de caixa-preta,- 
porm, em desastres erticos, ao contrrio de desastres areos, a caixa-preta  irrecupervel. "Pode o contgio vir to rpido?", indaga-se Olvia, aps o primeiro 
encontro com Cesrio, e ela mesma responde: "Ao cu me entrego, eu prpria nada posso". No segundo encontro entre Olvia e o suposto Cesrio constatamos uma natureza 
que faz exacerbar nosso interesse e atrao, na medida em que a auto-indulgncia dessa mesma natureza chega a ser sublime. Ter a autoridade de Olvia e, ao mesmo 
tempo, entregar-se com tamanha vulnerabilidade  cativar a simpatia, e at mesmo, momentaneamente, o carinho da platia:
OLVIA
Espera.
Revela-me o teu juzo a meu respeito. VIOLA
Que imaginais no ser o que sois mesmo.
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#HAROLD   BLOOM
NOITE  DE  REIS
OLVIA
Se penso assim, o mesmo de vs penso. VIOLA
Pois pensais certo, que eu no sou quem sou. OLVIA
Fsseis vs como o querem meus desejos! VIOLA
Fora bem, se com isso eu melhorasse,- por ora sou apenas vosso bobo. OLVIA (aparte)
Ohl Como assenta bem tanto desprezo no desdm e na ira de seus lbios! Um assassino no se denuncia to prestes como o amor que tem vergonha.  dia claro a noite 
para o amor. Cesrio, pelas rosas da estao, pela honra, a virgindade e o corao, amo-te tanto, embora altivo sejas, que a teus ps  foroso que me vejas. Que 
contra mim o teu desdm no se arme por ter sido a primeira a declarar-me. Diz a razo, foroso  acredit-lo: buscar o amor  bom; melhor  ach-lo. VIOLA
Pela inocncia e a mocidade: no! A f que me d vida ao corao jamais mulher alguma submeteu nem senhora j teve, seno eu. Adeus, bondosa dama,- nunca mais vos 
falarei do amor que desprezais. OLVIA
Volta, sim,- quem nos diz nos no ser possvel acolher-me a teu peito to sensvel?
Trata-se de um trecho que requer duas grandes atrizes, tarimbadas em comdias romnticas, principalmente no incio do dilogo, cujos versos podem ter significados 
mltiplos. A tendncia do pblico aqui  reconhecer a riqueza de ambos os papis: o de Viola, pela percia exigida, em uma situao deliciosamente absurda,- o de 
Olvia, pela audcia. Shakespeare  extremamente ousado, tanto aqui como em outras passagens de Noite de Reis. A autopardia toma-se proftica e vibrante, no momento 
em que Viola afirma "no sou quem sou", palavras que sero roubadas pelo personagem shakespeariano menos parecido com ela: lago. Tanto Viola quanto lago parodiam 
So Paulo: "Pela graa de Deus, sou quem sou". Nesse enredo insano e brilhante, Olvia est no caminho certo, pois o irmo gmeo de Viola h de ceder ao assdio 
da condessa, com um imediatismo surpreendente. Os primeiros versos do dilogo acima implicam questes de classe social e simulao. Viola faz lembrar a Olvia sua 
elevada condio, e Olvia insinua que Viola esconde seu bero nobre. As palavras "no sou quem sou", a um s tempo, atestam o sentido j comentado e aludem  identidade 
sexual de Viola, o que confere um tom altamente irnico  observao de Olvia: "Fsseis vs como o querem meus desejos!". Ento, ser totalmente ambgua a resposta 
de Viola, expressando toda a sua exausto por viver, durante quase toda a pea, uma mentira. Esse dilogo extraordinrio pode ser resumido nas palavras que expressam 
o clmax do aparte de Olvia: " dia claro a noite para o amor", querendo dizer que o amor no pode ser dissimulado, embora o verso nos faa pensar: o que seria, 
ento, o dia para o amor?
tlll.i.]
Os farristas e brincalhes - Maria, Sir Tobias Belch, Sir Andr Aguecheek - so os personagens menos cativantes de Noite de Reis, pois a brincadeira de mau gosto 
que fazem com Malvlio chega a ser sdica. Maria, a nica dos trs que tem miolos,  uma emergente de personalidade forte, criada de Olvia. Trata-se de uma mulher 
firme, um tanto esganiada, extremamente habilidosa, cheia de energia. Sir Tobias  s
30O
301
#HAROLD  BLOOM
garganta, mais nada,- s mesmo um idiota (e tem havido muitos) seria capaz de comparar esse velhaco de quinta categoria ao grande gnio criado por Shakespeare, Sir 
John Falstaff. J Sir Andr, ainda mais dbio,  retirado, em carne e osso, de As Alegres Comadres de Winosor, onde aparece como Slender. Tanto Belch como Aguecheek 
so caricaturas, mas Maria, comediante autntica, possui uma dimenso interior perigosa, sendo o nico personagem realmente malicioso de Noite de Reis. com frieza, 
ela pondera se seus estratagemas havero de levar Malvlio  loucura, e conclui: "A casa vai ficar mais quieta".
Juntamente com Feste, Malvlio  a grande criao de Shakespeare em Noite de Reis, tomando-se, aos poucos, o centro da pea, em um processo parecido com o de 
Shylock, em O Mercador de Veneza. com grande perspiccia, Charles Lamb classificou Malvlio de figura tragicmica, um Dom Quixote com mania de erotismo. Tal classificao 
aplica-se muito bem a Malvlio, que sofre por estar na pea errada. Em Volponeouem OAltfuimista, de Benjonson, Malvlio sentir-se-iaemcasa, mas seria apenas mais 
um ideograma jonsoniano, uma caricatura, no um personagem. O Malvlio criado por Shakespeare  menos vtima da esperteza de Maria do que de suas prprias inclinaes 
psquicas. Seu sonho de grandeza socioertica - "Ser Conde Malvlio" -  uma das mais esplndidas criaes de Shakespeare, sempre perturbadora como estudo de casos 
de auto-iluso e de espritos doentios. Como stira a Ben Jonson, Malvlio apresenta, em comum com o grande autor de comdias e poesias satricas, apenas uma belicosidade 
moral. A depravao do desejo de Malvlio  uma falha da imaginao - ou o que quiserdes. A crtica de orientao marxista interpreta Malvlio como um estudo sobre 
a ideologia das classes, o que reduz tanto o personagem quanto a pea. O que mais nos interessa em Malvlio no  o fato de ele ser intendente de Olvia, mas de 
ele sonhar a ponto de distorcer a sua prpria noo de realidade, permitindo, assim, que Maria lhe perceba a natureza e contra ele arme uma cilada.
O severo Malvlio, falso puritano, no passa de uma mscara que esconde um desejo de grandeza. Basicamente, Malvlio  condenado pela arriscada prevalncia de sua 
prpria imaginao, e no pela rigidez
302
NOITE  DE  REIS
da estrutura de classe da sociedade de Shakespeare. Ele e Maria se detestam, mas, na verdade, formariam um belo par, ambos com energias negativas. Porm, Maria 
conquistar o bbado Sir Tobias, e Malvlio h de chegar apenas  alienao e  amargura.  difcil superestimar a originalidade de Malvlio como personagem cmico,- 
que outro personagem em Shakespeare, ou em qualquer outro autor, assemelha-se a ele? H outros grotescos em Shakespeare, mas tais personagens no iniciam suas trajetrias 
como indivduos ilustres para, em seguida, serem submetidos a transformaes radicais.
A queda de Malvlio  pressagiada desde a primeira vez que o vemos, em um dilogo soturno travado entre ele e seu adversrio, Feste, o sbio bobo:
OLVIA
Que pensais deste louco, Malvlio? No se corrigir nunca?
MALVLIO
Sim, mas s quando os estertores da morte o sacudirem/ a debilidade que abate os sbios, melhora os tontos.
BOBO
Deus vos envie logo a debilidade, senhor, para que a vossa falta de senso melhore mais depressa!
[I.v.]
A debilidade j est presente, conforme deduz Maria:
 um diabo de puritano, ou algo assim como um desmancha-prazeres, um asno cheio de afetao, que decorou umas tiradas e as expele aos pedaos,- que tem opinio muito 
elevada de si prprio, to cheio - segundo cr - de belas qualidades, que tem como dogma que todas as pessoas se apaixonam dele  primeira vista.  nesse ponto que 
a minha vingana vai operar.
[Il.iii.]
303
#HAROLD   BLOOM
A descrio, bastante fiel - "desmancha-prazeres, um asno cheio de afetao" -,  uma das mais custicas em toda a obra shakespeariana. E o que se passa com Malvlio 
 to desproporcional aos seus mritos, por menores que sejam, que a humilhao do referido personagem deve ser encarada como um dos maiores enigmas shakespearianos. 
Mesmo que o motivo para a criao de Malvlio tenha sido uma rixa com Ben Jonson, a crucificao social do nobre intendente vai alm dos possveis limites do cime 
literrio. Vrios outros papis em Noite de Reis tm mais presena cnica, literalmente, do que o de Malvlio,- a ele cabe apenas cerca de um dcimo das falas da 
pea. Tanto quanto Shylock, Malvlio rouba a pea, em decorrncia de uma verdadeira voracidade cmica, bem como pelo destino sombrio que lhe  reservado. No entanto, 
Malvlio no pode ser considerado um vilo-cmico, conforme Shakespeare, evidentemente, vislumbrou em Shylock. Noite de Reis no seria, precipuamente, uma stira 
a Ben Jonson, e parece claro que Malvlio, mais uma vez, como Shylock, escapa ao controle de Shakespeare. A pea no precisa de Malvlio, mas ele no tem escolha: 
est inserido em um contexto no qual h de sofrer.
Uma vez que o nome de Malvlio indica que ele no quer o bem de ningum (exceto o dele prprio), nossa simpatia pelo personagem ser sempre limitada, principalmente 
porque seu sofrimento  motivo de grande hilaridade. Presenciar a autodestruio de um personagem que no  capaz de rir, e que odeia o riso dos outros, toma-se 
experincia alegre para uma platia que mal tem tempo de refletir sobre o seu prprio sadismo. Harry Levin, discordando de Charles Lamb, acha que sentir pena de 
Malvlio  sinal de fraqueza:
Sendo um bajulador, um emergente, um esnobe intrometido, ele bem merece ser posto em seu devido lugar, ou, como diria Jonson, em seu humor, pois Malvlio parece 
ter um temperamento jonsoniano, e no shakespeariano.
Tal percepo  incontestvel,- no entanto, l est Malvlio, nessa esplndida comdia sbakespeariana. Enganar Malvlio, argumenta Levin,
304
NOITE  DE  REIS
nada tem de sdico - mas de catrtico: seria uma reencenao do ritual de expulso do bode expiatrio. Nem tanto ao mar, nem tanto  terra: o esprito cmico, talvez, 
requeira sacrifcios, mas ser que precisam ser to prolongados assim?
O interesse de Malvlio advm do fato de ele possuir uma comicidade sublime, que estabelece um contraste marcante com sua total falta de algo que ns, no sendo 
jonsonianos, chamaramos de humor. Mas o papel contm uma reconhecida grandeza que lana grandes desafios a atores, tantas vezes incapazes de lidar com os aspectos 
enigmticos do personagem, exacerbados aps a leitura da carta forjada por Maria. Delirando em conseqncia das supostas deixas de amor de Olvia, Malvlio irrompe 
em uma das rapsdias mais finas escritas por Shakespeare:
A luz do dia e a plancie no desvendam mais coisas.  mais do que claro. you tomar-me altivo, ler livros de autores que tratem de poltica,- you preparar a cama 
de Tobias, limpar-me das companhias grosseiras,- o modelo dos homens nas menores coisas. No sou nenhum tonto para estar a iludir-me,- todos os indcios convergem 
para uma nica concluso: a minha ama me tem amor. No faz muito, deu-me parabns por eu estar de meias amarelas,- elogiou-me, tambm, as ligas cruzadas, que me 
caem bem nas pernas. Era uma forma de revelar-se ao meu amor, uma espcie de injuno para que eu me vestisse a seu gosto. Sou agradecido  minha estrela: eis-me 
feliz! you assumir gestos extravagantes, tomar-me altivo, usar meias amarelas e ligas cruzadas, e isso dentro do menor prazo possvel. Jove e minha estrela sejam 
louvados! Ainda h um ps-escrito:
"E impossvel que no adivinhes quem sou eu. Se corresponderes ao meu amor, que o teu sorriso o revele, esse sorriso que te vai to bem! Por isso, queridinho, no 
deixes de sorrir, sempre que estiveres perto de mim,  s o que eu te peo". Agradeo-te, Jove! Hei de sorrir, sim,- farei tudo o que desejas.
[H.v.]
305
#HAROLD  BLOOM
Ser que no nos arrepiamos um pouco, mesmo quando rimos? A imaginao ertica  nossa maior universalidade, e a mais embaraosa, por depender da supervalorizao 
que fazemos da nossa prpria pessoa enquanto objeto. E fantstica a capacidade que tem Shakespeare para tocar sempre no nervo da universalidade ertica. Seremos 
capazes de ouvir, ou ler, tais palavras, sem nos colocarmos um pouco no lugar de Malvlio? Obviamente, no seremos ridculos como ele, mas corremos o risco de nos 
tornarmos Malvlios (ou algo pior), se acreditarmos em nossas prprias fantasias erticas, conforme Malvlio  iludido a acreditar. O grande desastre ocorre na quarta 
cena do terceiro ato, quando Malvlio se v diante de Olvia:
OLV1A
Ento, Malvlio?
MALVLIO
Inefvel senhora, oh! oh!
OLVIA
Ests rindo?
Chamei-te para assunto muito triste.
MALVLIO
Triste, senhora! Eu poderia estar triste,- estas ligas cruzadas ocasionam certa obstruo no sangue,- mas, que importa, se agradam aos olhos de certa pessoa? D-se 
comigo como no caso daquele soneto verdico: "Se agrado a uma que seja, agrado a todas".
OLVIA
Que  isso, Malvlio? Que se passa contigo?
MALVLIO
No tenho a alma negra, muito embora as pernas sejam amarelas. Foi ter s mos do dono,- as ordens tm de ser cumpridas. Penso que conhecemos a doce mo romana.
OLVIA
No queres ir para o leito, Malvlio?
306
NOITE  DE  REIS
MALVLIO
Para o leito? Sim, meu corao,- irei para onde estiveres.
OLVIA
Deus me ampare. Por que sorris dessa maneira e beijas tantas
vezes a mo? MARIA
Como estais passando, Malvlio?    x--
MALVLIO
Quereis resposta? Sim, poderia dar-vo-la,- os rouxinis respondem aos gaios.
MARIA
Por que vos apresentais ante a senhora com essa petulncia to
ridcula? MALVLIO
"No tenhas medo da grandeza", est escrito com propriedade.
OLVIA
Que queres dizer com isso, Malvlio? MALVLIO
"Uns nascem grandes..." OLVIA
,     Ah! MALVLIO
"... outros adquirem grandeza..."
OLVIA
Que ests dizendo? MALVLIO
"... e a outros a grandeza vem de encontro". OLVIA
Que o cu possa curar-te! MALVLIO
"Lembra-te de quem elogiou as tuas meias amarelas...
OLVIA
Meias amarelas!
307
#MALVLO
"...e desejara ver-te com ligas cruzadas". OLVIA
corn ligas cruzadas? MALVLO
"Avante, pois! Obters tudo, se o desejares...". OLVIA
Eu, obterei tudo? MALVLO
"... caso contrrio, continuarei a verem ti apenas o intendente". OLVIA
Mas isso  legtima loucura de vero!
[IILiv.]
Temos aqui um dueto para grandes comediantes, em que Malvlio parece obcecado e Olvia, incrdula. Depois que Olvia sai de cena, pedindo a Maria que vigie Malvlio, 
ouvimos o triunfo do desejo depravado.-
[...J Sim, tudo combina muito bem,- no h uma s draema de escrpulo, um s escrpulo de escrpulo, um obstculo sequer, nenhuma circunstncia improvvel ou duvidosa... 
Como dizer? No h possibilidade que possa interpor-se entre mim e a cabal realizao de minhas esperanas. Sim,  Jpiter, no eu, o realizador de tudo isso/ a 
ele  que tocam os agradecimentos.
[IILiv. J
corn toda cautela, Shakespeare mantm Malvlio como uma espcie de poltico ateu, alm de egomanaco deslumbrado, incapaz de distinguir entre a "cabal realizao 
de [suas] esperanas" e a realidade. Levado  fora pelos que contra ele tramam e amarrado dentro de um quarto escuro, como terapia contra a loucura, Malvlio recebe 
a visita de Feste, disfarado de cura chauceriano, o bondoso Sir Topas. O dilogo dos dois  fabulosa msica cognitiva.-
NOITE  DE   REIS
MALVLIO (dentro)
Quem est falando a? BOBO
Sir Topas, o cura, que veio visitar Malvlio, o luntico. MALVLIO
Sir Topas, Sir Topas, meu bom Sir Topas, ide chamar a minha
ama. \_
BOBO
Para trs, demnio hiperblico! Por que martirizas esse
coitado? S sabes falar de mulheres? SIRTOBIAS
Muito bem, senhor cura. MALVLIO (dentro)
Sir Topas, jamais homem nenhum foi ultrajado como o estou
sendo. Meu bom Sir Topas, no julgueis que eu estou louco,-
puseram-me nesta escurido medonha. BOBO
Cria vergonha, Satans desonesto! Se eu te falo com expresses
modestas,  por ser dessas pessoas de bom gnio, que se
revelam corteses at com o prprio diabo. Queixas-te de que 
escuro esse compartimento? MALVLIO
Escuro como o inferno, Sir Topas. BOBO
No entanto est provido de bandeiras to transparentes como
rtulas e as clarabias que do para o norte-sul so to
brilhantes como bano,- e ainda te queixas de falta de luz? MALVLIO
Eu no estou louco, Sir Topas. Afiano-vos que este
compartimento  escuro. BOBO
No sabes o que ests dizendo, louco! S te digo que nesse
quarto no h outra escurido afora a da ignorncia em que te
encontras mais atolado do que os egpcios em sua neblina.
308
309
#HAROLD   BLOOM
MALVLIO
Digo que esta casa  to escura como a ignorncia, ainda que esta o seja como o prprio inferno, e digo mais, que nunca ningum se viu tratado com tamanho abuso 
Sou to louco quanto vs, tirai a prova, perguntando-me qualquer coisa sria
BOBO
Qual  a opinio de Pitgoras a respeito das aves silvestres?
MALVLIO
Que pode dar-se que a alma do nosso av se aloje num pssaro.
BOBO
E que pensais a esse respeito?
MALVLIO
Fao da alma uma idia muito nobre para poder aceitar semelhante doutrina
BOBO
Ento continua nas trevas, para que eu reconhea que te encontras no juzo perfeito,  preciso que aceites a opinio de Pitgoras e reveles medo de matar uma galinhola, 
para no desalojares a alma de tua av
MALVLIO
SirTopasi Sir Topas"
[IVn]
Esse trecho, simultaneamente, o mais hilrio e irritante da pea, no nos revela um Malvlio derrotado O personagem mantm a dignidade sob condies mais do que 
adversas e, orgulhosa e estoicamente, recusa-se a submeter a alma  metempsicose pitagonana Mesmo assim, Feste leva as honras, sabiamente repreendendo Malvlio, 
pela ignorncia de sua agressividade moral, no estilo jonsomano Em meio a essa conversa estranha, temos um pressgio dos dilogos desvairados de Lear com o Bobo 
e com Gloster O que Feste bem sabe, e que Malvlio jamais aprender,  que a identidade  sempre instvel, conforme constatamos em Noite de Reis, do incio ao fim 
O pobre Malvlio, alvo de grande comicidade, tem pouco da espintuosidade de Jonson, mas todo o mau
310
NOITE DE REIS
humor e a vulnerabilidade  stira constatados em Ben O Malvlio de Shakespeare est, para sempre, preso no quarto escuro de seu prprio egosmo e severidade moral, 
de onde Shakespeare no o libertar Isso  altamente injusto, mas, no desvano de Noite de Reis, ser que injustias tm alguma importncia? No pode haver qualquer 
resposta quando Malvlio se queixa a Olvia, de ter sido feito de "palhao [ ] consumado e ridculo", e pergunta-lhe "Por que causa?"
O esprito mais iluminado de Noite de Reis  Feste, o mais charmoso dos bobos criados por Shakespeare, e o nico personagem sensato nessa comdia desvairada Olvia 
"herdou" Feste do pai, e percebemos, em todo o decorrer da pea, que Feste, profissional bem-sucedido, est cansado do papel Ele resiste a esse cansao com verve 
e inteligncia, e sempre com o ar de quem sabe de tudo que se passa  sua volta, no com ar de superioridade, mas com uma doce melancolia Sua vadiagem  perdoada 
por Olvia e, como recompensa, ele tenta fazer com que ela abrevie o luto pela morte do irmo Feste  bom do incio ao fim da pea, e s toma parte do embuste 
feito contra Malvlio na cena do auarto escuro, quando disfarado de Sir Topas Mesmo assim, ser pea fundamental na libertao do intendente Grande cantor (o papel 
foi escrito para Robert Armm, dotado de voz excelente), Feste mantm-se em tons baixos "a alegria de agora  a que faz rir, / no existe o amanh" Pertence  casa 
de Olvia, mas  bem-vindo na corte de Orsmo, onde a msica  to amada, e define Orsmo com grande objetividade
Que o deus melanclico te proteja e que o alfaiate te faa um gibo de tafet mudvel, porque tens o esprito de verdadeira opala Quisera eu no mar indivduos de 
tal constncia, com negcios por toda parte e o intento em parte alguma,  o melhor jeito de viajar muito sem gastar nada Adeus
[IIiv]
311
#HAROLD   BLOOM
A cena mais arrebatadora do Bobo  a que abre o terceiro ato,- Feste contracena com Viola, que, com sutileza, o instiga a refletir sobre o ofcio de bobo: "Para 
um engenho agudo, uma frase no passa de luva de pele de cabrito,- com que facilidade podemos deix-la do avesso!" Tais palavras podem encerrar uma advertncia 
de Shakespeare a si mesmo, pois o amvel Feste  um de seus raros porta-vozes, e o conselho  no sentido de no buscarmos qualquer coerncia moral em Noite de Reis. 
Orsino, perplexo ao ver Viola e Sebastio juntos, emite a clebre exclamao:
Um s rosto, uma voz, o mesmo traje para duas pessoas!
[Vi.]
Em um comentrio bastante elucidativo, Anne Barton considera que a iluso de tica  aqui produzida de maneira natural, e no por meio de caleidoscpios. O principal 
divertimento da pea cabe a Feste, ao resumir as tribulaes de Malvlio: " assim que a carrapeta do tempo traz consigo a vingana". Samuel Johnson falava de "uma 
perspectiva natural", atravs da qual a natureza produz "um espetculo, em que sombras parecem realidades, aquilo que "no " parece "ser"". A noo parece contraditria, 
a menos que tempo e natureza se confundam em uma identidade shakespeariana, de modo que a carrapeta do tempo  se torne brinquedo semelhante ao caleidoscpio. Basta 
vislumbrarmos um espelho girando como um pio, para termos o brinquedo criado por Shakespeare em Noite de Reis. Todos os personagens da pea,  exceo dos vitimados 
Malvlio e Feste, so representaes desse espelho giratrio.
No final da ao, Malvlio sai de cena gritando: "you vingar-me de toda essa caterva!" Os demais personagens retiram-se para se casarem, exceto Feste, que permanece 
em cena e entoa a cano mais melanclica escrita por Shakespeare:
Quando eu ainda era muito mocinho, com ventos e chuva, com hei, com h, era a loucura jogo mesquinho,
312
NOITE  DE  REIS
porque chovia todos os dias. Ao ficar homem de voz atroante, com vento e chuva, com hei, com h, fugiam todos do gro tunante, porque chovia todos os dias. Quando, 
casado, quis prosperar, com vento e chuva, com hei, com h,  v vi que a folia s traz azar, porque cai chuva todos os dias. Ao recolher-me, com meu vizinho, 
corn vento e chuva, com hei, com h, j vinha tonto de tanto vinho, porque chovia todos os dias. H muito tempo que o mundo roda, com vento e chuva, com hei, 
corn h, fica esta pea sempre na moda, para agradar-vos todos os dias.
[Vi.
Mesmo que seja uma reescritura de antiga cano folclrica, temos aqui, claramente, o adeus lrico de Feste, e o eplogo de uma ao fabulosa, propiciando a nossa 
volta ao vento e  chuva de todos os dias. Ouvimos a histria pessoal de Feste (e de Shakespeare?), contada em linguagem ertica e coloquial. "Loucura", aqui, provavelmente, 
sugere o rgo genital masculino, ironicamente, "um jogo mesquinho" do "homem de voz atroante", ao longo de uma vida de expedientes, casamentos, v arrogncia, bebedeiras 
e senilidade. Porm, "Fica esta pea sempre na moda", diz Feste, com plangente resignao, e o espetculo ser mais uma vez encenado na tarde seguinte.
313
#PARTE V
OS GRANDES DRAMAS HISTRICOS
#16
RICARDO  M-
Dotado de uma natureza lrica, esse drama histrico forma uma trade, ao lado de Romeu e Julieta, uma tragdia lrica, e Sonho de uma Noite de Vero, z mais lrica 
das comdias shakespearianas. Embora seja a menos famosa das trs e contenha altos e baixos, Ricardo II  uma pea esplndida,- trata-se do melhor drama histrico 
escrito por Shakespeare, excetuando-se as peas de Falstaff, i.e., as duas partes de Henrique IV. Estudiosos apontam os Henriques como as figuras centrais da tetralogia 
que rene Ricardo II, as duas partes de Henrique IV e Henrique V, mas, no desfecho de Ricardo II, o Prncipe Hal, na viso do prprio pai, Bolingbroke, o usurpador, 
no passa de um vadio e, nas duas partes de Henrique IV,  secundrio ao titnico Falstaff. Apenas em Henrique V Hal  figura central, uma vez que Falstaff  mantido 
longe da cena, embora a fala mais pungente da pea seja o relato da morte do brilhante Falstaff, na voz de Mistress Quickly. Ricardo II tampouco conta com a presena 
de Falstaff, privando, assim, a pea da fora maior de Shakespeare, da inveno do humano cmico. Sempre experimental, Shakespeare escreveu Ricardo II como um grande 
poema lrico metafsico, supostamente, algo invivel em um drama histrico, mas, para Shakespeare, tudo  possvel.
Ricardo II  mau rei, mas, como poeta metafsico,  interessante,- os dois papis so antitticos, de modo que a realeza diminui,  medida que a poesia se desenvolve. 
No final da ao, Ricardo  um rei morto,
317
#HAROLD  BLOOM
tendo sido forado a abdicar e, em seguida, assassinado, mas o que permanece em nossos ouvidos  seu metafsico arremedo de lirismo Rei tolo e despreparado, vtima 
tanto da prpria psique, e da linguagem extraordinria da mesma, quanto de Bolmgbroke, Ricardo no cativa nossa simpatia, mas nossa admirao, ainda que relutante, 
pelo declnio e morte de sua msica cognitiva Como poltico,  totalmente incompetente, como poeta, domina totalmente a metfora E se, como tragdia, Ricardo II 
no convence (segundo o julgamento de Samuel Johnson),  porque versa sobre o declnio e a queda de um poeta notvel, que deixa a desejar como ser humano e que, 
como rei,  intil Vale mais a pena pensar em Ricardo II como drama histrico do que como tragdia, e no prprio Ricardo como vtima, e no como heri ou vilo, 
vtima, em primeiro lugar, de seus prprios caprichos, mas, tambm, da fora de sua imaginao
Em Ricardo II no existe prosa, em parte, porque no existe Falstaff, para enunci-la Ainda que Gaunt, e outros personagens, tenham merecido falas memorveis, Shakespeare 
concentra-se quase inteiramente em Ricardo Bolmgbroke, o usurpador, tem sua dimenso interior bastante reduzida, e, pela via poltica, marcha, inexoravelmente, rumo 
ao poder, sem jamais despertar grande interesse da parte do pblico Nesse ponto, volto a endossar, com a devida ressalva, a posio de Graham Bradshaw, de que o 
personagem shakespeanano depende de relaes e contrastes internos, estabelecidos em determinadas peas, a ressalva seria que a representao shakespeanana, sempre 
que bem-sucedida,  capaz de romper tais relaes e suavizar contrastes Ricardo no constitui uma forte representao e, portanto, caberia no que poderamos chamar 
Lei de Bradshaw Bolmgbroke consistiria no contraste indispensvel, sem o qual Ricardo no seria Ricardo, poeta lrico que se autodestri
O prprio Ricardo, diversas vezes, faz tal colocao, por meio de eloqentes metforas O horizonte transcendental, alm do qual a Lei de Bradshaw no se aplica, 
no est presente em Ricardo II, que, ao contrrio de Sonho de uma Noite de Vero e Romeu e Julieta, no contm elementos transcendentais, como o sonho de Bottom 
ou a bondade de Julieta A imaginao de Ricardo est presa, de maneira solipsstica, ao seu ego petulante, mesmo quando, como rei ungido, ele invoca a
318
RICARDO  II
sacralidade da uno Shakespeare, apesar dos argumentos de muitos crticos, no compromete a sua arte, sugerindo qualquer afirmao da realeza como algo transcendental 
A noo dos Dois Corpos do Rei, um natural, outro virtualmente sacramentai,  invocada por Ricardo mais de uma vez na pea, mas o testemunho de Ricardo , no mnimo, 
duvidoso Celebraes da realeza na obra de Shakespeare, mesmo em Henrique V e Henrique VIII, tm um qu de ironia Jamais conseguiremos circunscrever Shakespeare 
a um determinado posicionamento, seja poltico, religioso ou filosfico Algo nas peas sempre parece pressagiar a razo precpua da metfora, segundo Nietzsche o 
desejo de ser diferente, o desejo de estar em outro lugar
Uma excentricidade em Ricardo II, para leitores e espectadores hoje em dia,  a extraordinria formalidade encontrada na pea Talvez porque a ao central envolva 
o adiamento da abdicao, com o conseqente assassinato do rei, Ricardo II  a mais protocolar das peas shakespeananas, antes da coda constituda por Henrique 
VIII e Os Dois Nobres Parentes Em dados momentos, a formalidade tem um efeito maravilhoso, como na prpria cena da abdicao, mas em outros provoca um certo estranhamento 
Vejamos aqui a despedida final entre Ricardo e a Rainha
RAINHA
E certo, ento, que nos separa a dor?
REI RICARDO
As mos e os coraes, meu grande amor
RAINHA
Mandai comigo o rei para o desterro
NORTHUMBERLAND
Compaixo isso fora, mas grande erro RAINHA
Deixai, ento, que eu fique, tambm, presa.
REI RICARDO
Juntos, assim, os dois, uma tristeza,
somente perfaramos Na Frana,
por mim, tu vais chorar, eu, em lembrana
319
#HAROLD  BLOOM
do que s, me finarei s de cuidados. Antes longe que perto e separados. Medirs com suspiros teu caminho/ eu, com gemidos. RAINHA
Mais pungente espinho ser a saudade em todo o meu percurso, por ser maior que o teu. REI RICARDO Mas no discurso
do meu eu gemerei mais fundamente, porque mil passos minha dor aumente. Vamos logo,- abreviemos o noivado da nossa dor, que vai ser demorado demais o casamento. 
Um terno beijo para o silncio vai nos dar ensejo. Festejamos, assim, novo himeneu,- levas meu corao, fico com o teu. RAINHA
No! D-me o meu de novo,- cruel sorte fora ficar com o teu e dar-lhe a morte. Agora, sim,-  meu,- mais nada aspiro,- you tentar dar-lhe a morte com um suspiro. 
REI RICARDO
Da dor esta demora nos faz presa. Seja a ltima palavra a da tristeza.*
[Vi.]
O dilogo expressa uma formalidade graciosa,- so frases trocadas em linguagem recatada e elevada, digna do casal de monarcas. Ao longo da pea, Shakespeare mantm 
um decoro verbal, mas produz, sempre que
* Vida e Morte do Rei Joo e A Tragdia do Rei Ricardo II. Traduo de Carlos Alberto Nunes Volume XVI. So Paulo: Edies Melhoramentos, s.d. Todas as citaes 
referem-se a essa edio. [N.T.]
320
RICARDO  11 ,
necessrias, alteraes de tom, em busca de efeito irnico. Ao contrrio de Romeu e Julieta, em que o efeito pode ser devastador, Ricardo II procura manter-nos 
o mais distante possvel do patkos. Maravilhamo-nos com Ricardo, admiramos a sua linguagem, mas nunca sofremos com ele, nem quando  deposto e morto. De todos 
os dramas histricos, esse  o mais contido, mais estilizado. Trata-se de uma pea radicalmente experimental que busca os limites do lirismo metafsico, e brilhante, 
se a aceitarmos em todo o seu rigor.
Walter Pater, ignorando, com benevolncia, o Ricardo dos dois primeiros atos, elogiava o rei masoquista do terceiro, quarto e quinto atos, chamando-o de "poeta 
raro". Jamais devemos subestimar a ironia de Pater,- moralismo no interessava ao grande crtico do Esteticismo, que sabia muito bem que Ricardo era um sujeito vazio, 
embora Pater desejasse julgar um poeta apenas como poeta. E, como afirmava Pater, com uma veemncia (nele) surpreendente, "No! Os reis em Shakespeare no so grandes 
homens, e nem foram criados para esse fim". Muitos crticos perspicazes insistem que Ricardo II no  um grande poeta, nem mesmo um bom poeta, e que tampouco foi 
criado para esse fim. A. P. Rossiter achava Ricardo "um pssimo poeta, sem dvida", e, para Stephen Booth, Ricardo era incapaz de distinguir entre a manipulao 
de coisas e de palavras. Sobram ironias sintticas e metafricas em Ricardo II, e Shakespeare parece querer nos desconcertar com tudo o que  dito na pea. Pelo 
menos nesse particular, Ricardo II  um ensaio de Hamlti. Raramente, Hamlet diz o que pensa ou pensa o que diz,- conforme j apontei, Hamlet antecipa a mxima de 
Nietzsche, de que s encontramos palavras para o que j est morto em nossos coraes, de maneira que o ato da fala sempre traz consigo um certo desdm. Quando, 
no quinto ato, Ricardo comea a parecer um antecedente pardico de Hamlet, desconfiamos mais do que nunca do rei; contudo, damo-nos conta de que ele nos vem deslumbrando 
desde a segunda cena do terceiro ato, ainda que com um brilho exclusivamente verbal. As
321
#HAROLD  BLOOM
metforas de Ricardo so to elaboradas, desde a referida cena at o fim da pea, que chego a me perguntar se Shakespeare no teria lido alguns dos primeiros poemas 
de Donne, que s seriam publicados, em 1633, dois anos aps a morte do poeta metafsico, no volume Songs and Sonnets No entanto, reconheo que tal influncia seja 
muito improvvel, Ricardo //foi escrita em
1595, e, embora Shakespeare, decerto, tenha lido Donne, cujos poemas circulavam livremente em manuscritos, a influncia aqui se deve mais s Eleitas de Ovdio do 
que a quaisquer escritos, eventualmente, reunidos em Songs and Sonnds A questo no tem a menor importncia, pois foi Shakespeare quem inventou a Poesia Metafsica, 
nos solilquios e lamentos de Ricardo, e, quem sabe, Donne no tenha assistido a uma produo de Ricardo II? Se assim ocorreu, a influncia (ou pardia) se deu no 
sentido oposto De qualquer maneira, os estilos muito tm em comum, ainda que Donne seja autntico e Ricardo encerre uma encrencada e problemtica rapsdia de martrio 
de rei As comparaes que faz entre ele prprio e Jesus so irritantes - embora, a rigor, no constituam blasfmias, pois o nico aspecto em que Ricardo se considera 
comparvel a Jesus  o fato de ser ungido por Deus
Visto que no nos cabe simpatizar com Ricardo, e que ningum haveria de gostar de Bolmgbroke, um usurpador, manter-nos distantes das duas nicas aes da pea - 
abdicao e assassinato -  tarefa fcil para Shakespeare Em que pese o julgamento desse ou daquele crtico com respeito ao talento potico de Ricardo, os ltimos 
trs atos da pea dependem quase exclusivamente da originalidade e do vigor de sua linguagem Talvez, a linguagem de Ricardo seja a de um grande poeta, mas carea 
de amplitude, pois seu nico tpico  o seu prprio sofrimento, em especial, as indignidades que sofre, apesar da legitimidade de seu remado Seu desempenho como 
rei  logo exemplificado por sua reao, no fim do primeiro ato,  agonia do tio, Joo de Gaunt, pai do recm-exilado Bolmgbroke, que h de voltar  Inglaterra para 
depor Ricardo Historicamente, Gaunt era apenas um dos mais notrios entre os bares saqueadores, mas Shakespeare, necessitando de um orculo, promove Gaunt a profeta 
e patriota   com frieza, Ricardo fecha o primeiro ato
322
RICARDO  II
Deus, sugere a seu mdico que o ajude a baixar, sem demora, para o tmulo" O forro de suas arcas vai servir-nos para enroupar os homens que levarmos para as guerras 
da Irlanda Gentis-homens, vinde comigo1 Vamos visit-lo Ainda que no caminho no paremos, Deus queira que cheguemos muito tarde
[Iw]
Trata-se de um estupendo e antittico prlogo para a clebre profecia de Gaunt no leito de morte, a baixeza das palavras de Ricardo contrastam com a espiritualidade 
de Gaunt
Qual profeta inspirado ora eu me sinto Eis o que, na hora extrema, a seu respeito you predizer, durar no pode a sua chama impetuosa de dissipao, porque o fogo 
violento se consome depressa As chuvas finas duram muito, mas so curtas as grandes tempestades Quem faz imoderado uso da espora,
termina por matar a montaria, quem come com sofreguido, acaba por se asfixiar com os prprios alimentos. A vaidade falaz, corvo insacivel, aps consumir tudo, 
se devora Este real trono, esta ilha coroada, este solo de altiva majestade, esta sede de Marte, este novo den, este meio paraso, fortaleza que a Natureza para 
si construiu contra as doenas e os braos invasores,- esta raa feliz, mundo pequeno,
323
#HAROLD  BLOOM
esta pedra preciosa, colocada
num mar de prata que lhe faz as vezes
de muro intransponvel ou de fosso
que lhe defende a casa contra a inveja
das terras menos fartas,- este solo
bendito, este torro, esta Inglaterra,
esta ama, esta matriz, sempre fecunda,
de grandes reis, famosos pela origem,
temidos pelo brao, celebrados
por seus feitos em prol da cristandade
e da cavalaria - to distante
desta ptria, quo longe, entre os judeus
teimosos o sepulcro se levanta
do Salvador do mundo, o santo filho
de Maria,- esta terra de almas caras,
este pas carssimo, querido
pela reputao de que se goza
no mundo, agora se acha hipotecado -
s de dize-lo, morro! - como casa
particular ou herdade abandonada:
a Inglaterra, que o mar triunfante cinge,
cujas costas de pedra inutilizam
os assaltos da inveja do marinho
Netuno, de ignomnia est coberta,
pelos apodrecidos pergaminhos
dos contratos e manchas de escrituras:
esta ptria querida, esta Inglaterra
que terras outras conquistava, agora
fez a triste conquista de si mesma.
[H.i.]
Esse magnfico discurso patritico e uma declamao semelhante, feita pelo neto de Gaunt, Henrique V, em sua respectiva pea, causaram
324
RICARDO   II
grande impacto em Londres, em 1940-41, quando a Inglaterra, sozinha, enfrentava Hitler. Ambas as litanias so admirveis quanto  eloqncia, mas so vulnerveis 
 anlise. Shakespeare nos diz ser esse "meio paraso" a "sede de Marte", divindade que, normalmente, no associaramos ao den. Temos aqui, tambm, uma profecia 
irnica - de cruzadas lideradas por reis "em prol da cristandade / e da cavalaria" -, involuntria da parte de Gaunt, uma vez que seu filho, Bolingbroke, coroado 
Henrique IV aps ter assassinado Ricardo II, no fim da pea, promete remir o assassinato comandando uma cruzada:
 Terra Santa pretendo ir, contrito, para limpar-me deste atroz delito.
[V.vi.]
Os "judeus teimosos", massacrados por reis ingleses tanto em York como em Jerusalm, nada tinham a temer de Henrique IV, cuja "cruzada" resumiu-se em sua morte na 
ala do palcio denominada "Jerusalm". O ardor do pai contagiou Henrique V, que se desforrou nos franceses, e no nos judeus, conforme era do conhecimento do pblico. 
Gaunt agrada-nos menos como profeta do que ao criticar Ricardo, abertamente, por sua ganoncia comercial: "s o intendente / da Inglaterra, to-s, no seu monarca". 
Morto Gaunt, Ricardo, com toda tranqilidade, confisca-lhe "prataria, dinheiro e terras".
A vingana vem por intermdio de Bolingbroke, que desembarca na Inglaterra com um exrcito, sendo bem recebido pela maioria dos nobres. J no final do segundo ato, 
comeamos a compreender a linguagem poltica da pea. Bolingbroke e seus seguidores insistem que ele volte  Inglaterra apenas para tomar posse da herana, para 
 se tornar Duque de Lancastre, como fora o pai, Joo de Gaunt. Mas todos sabem que o futuro Henrique IV veio em busca da coroa, e Shakespeare explora essa hipocrisia 
corn extrema habilidade, at o momento da abdicao forada. Assim, estando Ricardo ocupado em lutas na Irlanda, Bolingbroke, "em nome de Ricardo", executa todos 
os seguidores deste, nos quais consegue pr as mos, e toma o cuidado de enviar mensagens de
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#HAROLD  BLOOM
afeto  Rainha, o que significa que ela est, praticamente, aprisionada. Shakespeare, assim, prepara-nos para um dos grandes momentos da pea, o desembarque de Ricardo 
no litoral do Pas de Gales, voltando da campanha da Irlanda, sem saber que, para todos os efeitos, j se encontra deposto.
A autodestruio de Ricardo II, j bem adiantada antes de seu regresso,  selada nas falas e nos gestos presentes no seu retorno. Em sua saudao, Ricardo suplica 
ao solo gals que se levante contra Bolingbroke, e defende sua prpria hiprbole de maneira pattica:
Senhores, no zombeis desta insensata conjurao. Primeiro a terra  que h de sentidos revelar e destas pedras ho de sair soldados aguerridos, antes de vir seu 
rei a cair vtima dos golpes de uma infame rebelio.
[III..]
O pathos aumenta quando Ricardo se compara ao sol nascente, imagem mais que inadequada para um homem ao qual o sol se ps:
[...] Do mesmo modo, quando o ladro, o biltre Bolingbroke - que se entrega, no escuro, a essas orgias, enquanto ns estvamos no lado dos antpodas - vir que ns 
surgimos em nosso claro trono do nascente, rubra a traio no rosto h de ficar-lhe, sem poder suportar a luz do dia, tremendo de si mesmo e do pecado. Toda a gua 
do mar spero e selvagem
326
RICARDO  II
o leo santo no tira que foi posto
na fronte de um monarca. O curo sopro
de homens terrenos  impotente para
depor um rei que foi por Deus eleito.
Para cada homem alistado  fora
por Bolingbroke, para o ao astucioso
levantar contra a nossa urea coroa,
tem Deus para Ricardo um dos seus anjos
gloriosos, a que d celeste paga.
Se no h homem que essa fora enfrente,
vencer a justia plenamente.
[III..]
A viso de anjos armados leva Ricardo a indagar, com ansiedade, o paradeiro de seu exrcito gals, dispersado no dia anterior, em virtude de rumores sobre o falecimento 
do Rei. Quando percebe que todos o desertaram, Ricardo se entrega ao desespero, expresso com uma fora que transcende qualquer demonstrao de eloqncia anterior 
na obra de Shakespeare:
No importa onde esteja. No me fale
ningum mais em conforto, mas em tmulos,
epitfios e vermes. Transformaremos
em papel a poeira, e sobre o seio
da terra as nossas mgoas escrevamos
corn olhos inundados. Aprestemos
testamenteiros, e de testamento
seja nossa conversa. No! Cautela!
Que poderamos legar? Mais nada,
seno,  terra, o corpo destronado.
Nossas vidas, o reino, tudo, agora
pertence a Bolingbroke. Nada resta
a que chamemos nosso, afora a morte
e esse punhado de infrutuosa argila
327
#HAROLD  BLOOM
RICARDO
que a nossos ossos serve de coberta. Pelo alto cu, no cho nos assentemos para contar histrias pesarosas sobre a morte de reis: como alguns foram depostos, outros 
mortos em combate, outros atormentados pelo espectro dos que eles prprios destronado haviam, outros envenenados pela esposa, outros mortos no sono: assassinados 
todos! E que, no centro da vazia coroa que circunda a real cabea tem a Morte sua corte, e, entronizada a, como os jograis, sempre escarnece da majestade e os dentes 
arreganha para suas pompas, dando-lhe existncia fugaz, somente o tempo necessrio para cena pequena, porque possa representar de rei, infundir medo, matar apenas 
corn o olhar, inflada de ilusrio conceito de si mesma, como se a carne que nos empareda na vida fosse de ao inquebrantvel. E aps se divertir  saciedade, com 
um pequeno alfinete ela se adianta, fura a muralha do castelo e, pronto: era uma vez um rei! Ponde os chapus,- no zombeis, com solenes reverncias, do que  s 
carne e sangue. Despojai-vos do respeito, das formas, dos costumes tradicionais, dos gestos exteriores, que equivocados todos estivestes a meu respeito. Como vs, 
eu vivo tambm de po, padeo privaes, necessito de amigos, sou sensvel
s dores. Se, a tal ponto, eu sou escravo, como ousais vir dizer-me que sou rei?
[III..]
Para perceber o que esse discurso no encerra, basta pensar no trecho em que o Rei Lear fala em "Cuida-te, Pompa". No reconhecimento que faz da sua condio de mortal, 
o grande rei enseja uma abertura a todos os seres humanos, a pobres miserveis e maltrapilhos, onde quer que se encontrem, que padecem, juntamente com Lear, na 
tempestade implacvel. Ricardo enseja uma abertura apenas para si mesmo, e para outros reis assassinados antes dele. Mas abre-se, tambm, para uma grande poesia, 
de espantosa intensidade verncula:
Pelo alto cu, no cho nos assentemos para contar histrias pesarosas sobre a morte de reis.
O trecho que fala do "pequeno alfinete"  ainda melhor, toque de uma nova grandeza potica. O aspecto masoquista dessa exuberncia  salientado quando Ricardo  
informado que o Duque de York, regente na ausncia do Rei, tambm passou para o lado de Bolingbroke, de modo que os partidrios de Ricardo ficam reduzidos a um diminuto 
grupo:
(A Aumerle) Maldito sejas,
primo, que deste modo me desviaste
do meu doce caminho da desgraa.
[III..]
Depois disso, o desespero de Ricardo ser desenfreado, talvez, configurando a inveno de algo que veio a  se tornar mais uma caracterstica do humano: a tendncia 
que temos de falar como se as coisas no pudessem ficar piores do que esto, e de, ao ouvirmos as nossas prprias palavras, tudo fazermos para que as coisas  se 
tornem, 
de fato, piores. Ricardo transforma-se na anttese de Edgar, o anti-Ricardo em Rei Lear, que nos comove com a grande fala que abre o quarto ato:
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#HAROLD  BLOOM
Melhor assim, que sei ser condenado, Que inda pior mas sendo bajulado. O mais vil desprezado da Fortuna Ainda espera e no vive com medo: Mudana triste  a que 
deixa o bom,- O pior s melhora. S bem-vindo, Ar incorpreo que eu aqui abrao: O infeliz que sopraste at o pior Nada deve s rajadas.
[IV.i.]
Indagamo-nos, nessa e em outras passagens, se o contraste entre Ricardo II e o Rei Lear no seria proposital. Ricardo no seria capaz de achar que "O pior s melhora", 
assim como  incapaz de chegar  assustada apreenso que Lear faz da alteridade humana. Edgar transcende Ricardo de modo ainda mais sublime, quando se depara com 
o pai cego: "Mas posso piorar/ no chega o auge / Se inda h voz pra dizer "Isto  o pior"". Mas Ricardo est sempre contribuindo para o feito de Bolingbroke, abrindo 
mo de um reino, enquanto cria litanias metafsicas:
Que  preciso que o rei agora faa? Submeter-se? F-lo-. Deixar o trono? Ficar satisfeito o rei com isso. Perder o ttulo de rei? Em nome de Deus, que seja assim. 
Darei as jias por um rosrio,- meu palcio esplndido, por um eremitrio,- as vestes ricas, por andrajos de pobre,- minha alfaia lavrada, por um prato de madeira,- 
meu cetro, por basto de peregrino,- meus vassalos, em troca das imagens
* ReiLear. Traduo de Barbara Heliodora. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1998, p. 126.
[N.T.]
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RICARDO   II
de dois santos, e meu imenso reino,
por sepultura exgua, pequenina
sepultura, um sepulcro obscuro e humilde.
Ou me inumem em meio  estrada real,
onde haja movimento e o povo possa
calcar com os ps, a todo instante, a fronte
do soberano, sim, que sobre o peito        ^_
j em minha vida eles esto pisando.
Por que no me calcar, pois, a cabea,
depois de eu morto? Aumerle, ests chorando,
primo sentimental? com essas lgrimas
vamos deixar o tempo transtornado.
Nossos suspiros vo fazer que o trigo
do vero quebre todo, ocasionando
misria nesta terra revoltada.
Ou distrao faremos do infortnio,
inventando brinquedos divertidos
corn nossas prprias lgrimas? Desta arte,
por exemplo: deixarmos que elas caiam
sempre no mesmo ponto, at nos terem
no solo aberto um par de sepulturas,
sobre as quais a inscrio seria posta:
"Aqui jazem dois primos que cavaram
corn o pranto, no cho duro, o prprio tmulo".
No nos faria bem nossa desgraa?
Sim, sim,- mas vejo que disserto  toa
e que zombas de mim. Potente prncipe,
lorde Northumberland, que manda, agora,
o alto rei Bolingbroke? E da vontade
de Sua Alteza que Ricardo viva
at que venha a falecer Ricardo?
Dele e de vs o meu destino aguardo.
[Ill.iii.]
331
#HAROLD  BLOOM
Ao dar incio  litania, Ricardo no consegue mais parar, conforme ilustra o trecho "sepultura exgua, pequenina / sepultura, um sepulcro obscuro e humilde". Essa 
obsessiva piedade de si mesmo causa afronta a crticos moralistas, mas comovia Yeats, o grande poeta irlands, para quem Ricardo era detentor de uma imaginao apocalptica. 
A bela fantasia que provoca as lgrimas de Ricardo possui uma certa ironia visionna inusitada em Shakespeare e prenunciadora de Donne. O dilogo inicial entre o 
Rei Ricardo, que derrota a si mesmo, e o vitorioso Bolingbroke eleva essa ironia a um nvel de complexidade teatral, novamente, inusitado:
BOLINGBROKE
Ficai todos de parte,
e respeitosos vos mostrai  Sua
Majestade.
(Ajoelhando-se.)
Gracioso soberano...
REI RICARDO
Aviltais, caro primo, esses joelhos
principescos, deixando que o vil solo
se orgulhe de beij-los. Eu quisera
que o corao sentisse o vosso afeto,
no, como agora, pr os olhos tristes
em vossa cortesia. Levantai-vos!
Tendes o corao muito elevado,
sei-o bem,- pelo menos a esta altura,
embora calque o joelho a terra dura. BOLINGBROKE
Gracioso soberano, vim somente
pelo que me pertence. REI RICARDO
O que for vosso
vos pertence,- eu sou vosso,-  vosso tudo. BOLINGBROKE
Sede meu, meu temido soberano,
332
RICARDO  11
at onde possa a minha lealdade
merecer vosso amor.
REI RICARDO
Pois no,- soubestes merec-lo,- merecem possu-lo quantos sabem obt-lo pela estrada segura da violncia. Tio, a mo. Enxugai esses olhos, porque o pranto no  
remdio salvador, conquanto vos traduza a afeio. Sou muito moo para servir de vosso pai, meu primo, muito embora sejais bastante velho para herdardes meu reino. 
Tereis tudo quanto quiserdes,- dar-vo-lo-ei de grado, que ceder  violncia sou forado. Primo, Londres vai ser nossa estao?
BOLINGBROKE
Sim, meu bom lorde.
REI RICARDO
Ento no direi "no". (Tocjue de clarins. Saem.)
[Hl.iii.]
Algum perguntaria: "Nas circunstncias, o que mais poderia Ricardo fazer?" E a resposta seria. "Qualquer coisa, menos facilitar tanto assim a ao de Bolingbroke". 
As palavras de Ricardo aqui sugerem um qu de ironia, mas essa ironia ser fatal, ainda que, esteticamente, agradvel, para Shakespeare e para ns.
Logo em seguida (ato in, cena iv), o belo interldio no jardim permite  Rainha falar da catstrofe sofrida pelo marido como "uma segunda queda / do homem amaldioado", 
mas tais palavras no so mais persuasivas do que a tentativa de Ricardo no sentido de comparar seu sofrimento ao de Cristo. O que perturba  a corajosa profecia 
feita pelo Bispo de Carlisle, com relao a Bolingbroke:
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#HAROLD  BLOOM
Milorde de Hereford, aqui presente, a que chamais de rei,  um pusilnime traidor ao rei do nobre e alto Hereford. Se o coroardes, fao profecia que o sangue dos 
nativos vai o solo fertilizar da ptria e que as idades futuras gemero por esse crime detestado. Ir a paz dormir no meio de turcos e de infiis, e na sua sede 
confundir a guerra tumultuosa famlias e parentes. A anarquia, o horror, o medo, o saque desenfreado viro morar aqui, passando o nosso pas a ser chamado o novo 
campo de Glgota e depsito de crnios. Se levantardes casa contra casa, nascer a diviso mais desastrosa
que jamais viu este pas maldito. Evitai esses males, retirando vosso apoio,- se no, os vossos filhos e os filhos destes, mesmo com voz lassa, vos gritaro aos 
tmulos: Desgraa!
[IV.i.]
O Bispo h de sofrer por dizer a verdade, mas Shakespeare no toma partido: se Bolingbroke e seus parceiros so bandidos profanos, por sua vez, Ricardo, ao contrrio 
de Lear, nada tem de rei. O Conde de Southampton serviu de intermedirio para que a companhia teatral de Shakespeare fizesse uma apresentao de Ricardo II como 
um preldio  rebelio organizada por Essex contra Elisabete, em 1601, seis anos aps a estria da pea. A encenao no pode ter sido do agrado de Shakespeare, 
mas, evidentemente, ele no tinha como recus-la, e teve sorte que o ocorrido ensejou apenas o comentrio irnico da Rainha:
334
RICARDO  II
"Sou Ricardo II, no sabeis disso?" Essex no era Bolingbroke, Elisabete, muito menos, era Ricardo, e Shakespeare tampouco era dado a se deixar arrastar para situaes 
de perigo, pois jamais esquecera o que o Estado fizera a Marlowe e Kyd.
A autodestruio de Ricardo toma-se cada vez mais eloqente. Chamado por Bolingbroke a entregar a coroa, Ricardo entra em cena, novamente, comparando-se a Cristo, 
e transforma a cerimnia em uma dana de metafsica, plena de metforas e ironias:
REI RICARDO
Dai-me a coroa. Primo, segurai-a.
Aqui, primo.
Minha mo deste lado,- a vossa, no outro.
Assemelha-se agora esta coroa
de ouro a um poo profundo com dois baldes
que em tempo diferente se enchem de gua:
dana no ar o vazio,- o outro, no fundo,
cheio de gua,  invisvel. O de lgrimas
cheio, sou eu, que bebo as minhas dores,-
ascende o vosso:  todo riso e flores.
BOLINGBROKE
Pensei que resignveis por vontade.
REI RICARDO
Sim, a coroa,- no minha saudade.
A glria me tirais,- mas a tristeza
que me  prpria, ter sempre realeza.
BOLINGBROKE
Ficais sem a coroa e sem pesares.
REI RICARDO
Talvez,- mas nestes dares e tomares nada podeis fazer-me. E meu cuidado no ter cuidado algum, pois quis o Fado que todos eu perdesse,- mas os vossos cuidados vo 
crescer, ainda esto moos.
335
#HAROLD  BLOOM
Livrar-me dos cuidados no consigo,-
vo com a coroa e ficaro comigo. BOLINGBROKE
Ficais contente em resignar o trono? REI RICARDO
Sim, no/ no, sim, pois tenho de ser nada.
[IV.i.]
A superposio que Shakespeare aqui realiza, entre um homem que lida com palavras e um poltico cruel, poderia causar um certo dissabor, se o que estivesse em questo 
fosse uma crtica  poesia. Mas, obviamente, no se trata disso, e, ao brincar com palavras, Ricardo desvia sua ateno de qualquer tentativa de resistncia. E 
incapaz de deter a prpria eloqncia, mesmo sabendo que h de sucumbir:
Da, no dizer no, que  tua a alada.
Vede agora a maneira por que eu prprio
you me destruir: esta coroa incmoda,
retiro-a da cabea,- o cetro intil,
jogo-o longe, varrendo do imo peito
todo o real orgulho de comando.
corn as lgrimas eu prprio tiro o blsamo
de minha fronte,- o diadema entrego
corn minhas prprias mos,- com minha lngua
renego meus sagrados privilgios,-
minha palavra anula os juramentos
de todos os meus sditos,- abdico
da pompa regia e toda majestade,-
entrego todos os meus bens, as rendas,
todos os meus proventos,- anulados
considero meus atos e decretos.
Deus no castigue quem me for perjuro
e enseje aos teus vassalos bom futuro.
Tudo me tirou ele,- estou contente,-
tudo te deu,- contigo  conivente.
336
RICARDO   i!
Possas ter vida longa, porque o trono conserves de Ricardo e, em abandono, possa este logo, sob a terra fria, vir a esperar em paz o ltimo dia. Deus salve o rei 
Henrique, o felizardo, lhe diz o rei deposto, o ex-rei Ricardo, e lhe conceda muitas alegrias em longos anos de brilhantes dias. Que mais falta?
[IV i.]
Ator e poeta lrico, Ricardo est mais apto a integrara companhia teatral de Shakespeare do que a ser martirizado em nome de uma consagrao real por ele jamais 
honrada. Essa grande teatricalidade atinge o ponto mximo quando ele pronuncia sua ltima ordem como rei, e pede que lhe tragam um espelho, para que possa constatar 
se ainda  o mesmo ser. Shakespeare, a um s tempo, explora e critica esse capricho final, exibindo, acintosamente, sua emancipao de Marlowe, cuja pea Eduardo 
II paira bem prxima de Ricardo II. No pode haver sinal mais claro da autonomia de Shakespeare com relao a Marlowe do que a extasiante pardia de um dos trechos 
mais clebres do cnone de Marlowe, a aclamao feita por Fausto a Helena de Tria: "Fez esta face mil navios zarpar, / e queimar todas as torres de Ilion?". Shakespeare 
supera essa aclamao atravs do narcisismo desesperado e descabido de Ricardo, em que a glria perdida pelo rei  se torna uma espcie de Helena de Tria do prprio 
monarca:
REI RICARDO
[...] D-me o espelho. you ler nele.
Como! Sem rugas, ainda, mais profundas?
To grandes bofetadas a tristeza
me aplicou, sem deixar marcas mais srias?
 espelho adulador! Como as pessoas
que na prosperidade me seguiam,
tu me ests enganando. Sero estas
337
#HAROLD  BLOOM
as feies de quem tinha diariamente
dez mil pessoas sob seu teto e a todas
alimentava? Ser esta a face
que,  maneira do sol, deixava cego
quem a olhasse de frente? Era esta a face
que fez face a loucuras incontveis
para, afinal, ter de baixar os olhos
diante de Bolingbroke? Muito frgil
 a glria que irradia desta face,-
to frgil quanto a glria  a prpria face.
(Joga o espelho ao cho.) Ei-la a, reduzida a cem pedaos. No deixes de anotar, rei silencioso, a moral do meu gesto: como as mgoas em pouco tempo a face me destruram.
BOLINGBROKE
Foi a sombra de vossas amarguras
que a sombra, apenas, vos destruiu da face.
REI RICARDO
Repete-O: a sombra, s, das amarguras. Vejamos,-  verdade, as minhas mgoas esto dentro. Estas mostras exteriores
de desespero so somente a sombra da tristeza invisvel que, em silncio, se intumesce numa alma torturada.
Eis a sua substncia. Eu te agradeo, rei, a tua bondade incalculvel, pois tu no s me deste a causa toda do desespero, como me ensinaste, tambm, a lastim-la.
[IV.i.]
Mais do que nunca, o incuo mrito potico pertence a Ricardo, enquanto o ameaador realismo poltico est do lado de Bolingbroke.
338
RICARDO  II
Que grande poeta-dramaturgo/crtico-ator seria Ricardo! A quebra do espelho, o argumento sobre "sombra" (a um s tempo, tristeza autntica e representao teatral), 
e o mximo da ironia, quando Ricardo agradece os ensinamentos de Bolingbroke, tudo isso constitui inovao dramatrgica em Shakespeare. Ricardo  enviado a Pomfret, 
para ser executado, e sai de cena como um ator:
YORK
Como os espectadores de uma pea no teatro, aps sair o ator querido, indiferentes olham para o que entra depois dele, julgando insuportvel sua tagarelice-. desse 
modo, se no com mais desprezo, os assistentes zombavam de Ricardo. Ningum disse: "Deus te salve!" Nenhuma voz amvel lhe deu as boas-vindas,- atiravam-lhe terra 
na fronte consagrada.
[V..]
Resta apenas a cena final, em que Ricardo  morto,- antes, porm, ele enuncia um solilquio extraordinrio, realizao mxima de Shakespeare, nesse gnero difcil, 
a ser dominado, mais tarde, por Hamlet:
REI RICARDO
Estive a refletir como me seja possvel comparar esta angustiosa priso ao vasto mundo. Sendo o mundo to populoso e aqui no existindo, alm de mim, nenhuma outra 
criatura, no sei como consiga. Mas no paro de martelar a idia: darei provas de que minha alma e o crebro casaram e que uma gerao de pensamentos, logo aps, 
conceberam. E, so esses
339
#HAROLD  BLOOM
pensamentos que o meu pequeno mundo
povoaram de caprichos, de maneira
por que vemos no mundo, visto como
jamais os pensamentos se acomodam.
Os mais graduados, como os pensamentos
relativos a assuntos religiosos,
de dvidas se mesclam, provocando
conflito entre as palavras.
Por exemplo: "Deixai que os pequeninos
venham a mim". E aps: "E bem mais fcil
um camelo passar pelo buraco
de uma agulha do que eles alcanarem
o reino de meu pai". Os pensamentos
ambiciosos cogitam s de absurdos:
como estas fracas unhas abrir possam
uma passagem atravs das ptreas
costelas deste mundo, esta minha spera
priso. E, porque falham, morrem vtima
do prprio orgulho. Os pensamentos calmos
se iludem com dizer no serem eles
os primeiros escravos da Fortuna,
nem os ltimos, ainda, como certos
imbecis que, no potro de suplcios,
se consolam do oprbrio, com dizerem
que outras pessoas por ali passaram
e outras mais passaro. com essa idia
eles experimentam certo alvio,
jogando a desventura para as costas
dos que passaram por iguais tormentos.
Desta arte, eu represento ao mesmo tempo
muitas pessoas, todas descontentes.
Sou rei, por vezes. A traio, nessa hora,
me leva a desejar ser um mendigo,
e mendigo me torno. Ento o peso
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RICARDO   II
da misria de novo me persuade que eu estava melhor sendo monarca. Torno a ser rei; mas nesse mesmo instante ponho-me a imaginar que Bolingbroke me destronou e que 
eu no sou mais nada. Seja o que for, porm, nem eu nem homem algum, que seja um homem, simplesmente, com coisa alguma poder mostrar-se contente, enquanto no 
ficar tranqilo, virando nada. Mas que ouo? Msica!
(Ouve-se msica.)
Conservai o compasso! Como a doce msica  insuportvel para o ouvido, quando falha o compasso e no se observa nenhuma proporo. A mesma coisa se passa na harmonia 
da existncia dos mortais. Aqui eu tenho ouvido fino para apanhar pequena dissononcia de uma corda mal posta. No entretanto, no percebi a falta de compasso que 
deveria haver na consononcia do meu tempo e do Estado. Malgastei todo meu tempo,- o tempo ora me gasta, porque me vejo transformado agora no relgio do tempo. Os 
pensamentos so muitos, que com suspiros batem no quadrante dos olhos, onde se acha sempre meu dedo,  guisa de ponteiro para marcar as horas e limp-las de lgrimas. 
Agora, meu querido Ricardo, o som que nos indica as horas so suspiros profundos que me batem no corao: o sino. Assim, suspiros, lgrimas e gemidos, os minutos,
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#HAROLD  BLOOM
o tempo e as horas marcam. Mas meu tempo
corre atrs da alegria presunosa
de Bolingbroke, enquanto eu, como um nscio,
me transformo no Joo de seu relgio.
Mas estou quase louco com esta msica!
Parem com isso! Embora tenha a msica
restitudo a razo a muitos loucos,
no meu caso, parece, deixa os sbios
loucos de todo. No; bendito seja
o corao que teve tal idia.
Revela amor,- e amor para Ricardo
 como jia usada neste mundo
to cheio de dios.
[V.v.]
At mesmo nessa cena Shakespeare mantm-nos longe de Ricardo, que, embora mais cativante do que nunca, no chega a nos comover. Nenhuma grandeza recndita surge, 
repentinamente, do seu ser,- ainda que seja um rei consagrado, em termos de intelecto e esprito, Ricardo no  l grande coisa - contudo, temos, no trecho acima, 
o seu melhor poema. Shakespeare inventa aqui outro aspecto do humano, possivelmente, com base mais na personalidade de Marlowe do que de Eduardo II (no retrato 
feito por Marlowe). Dando ouvidos a seu prprio devaneio, Ricardo passa por um processo de mudana. No chega a adquirir uma dignidade humana, mas comea a assumir 
o que poderamos chamar de dignidade esttica. Ricardo  a primeira figura em Shakespeare que manifesta essa discrepncia entre as dimenses humana e esttica,- 
mais tarde, surgiriam, nessa linha, personagens maiores.- lago, Edmundo e Macbeth, entre outros. Trata-se de artistas livres de si mesmos.
Ricardo no tem tal capacidade,- est preso dentro de si mesmo, assim como o seu corpo est aprisionado em Pomfret. No entanto, Ricardo possui um instinto, um impulso 
esttico que  novo em Shakespeare, e  por isso que Yeats e Pater eram fascinados por Ricardo II. Encontra-
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RICARDO  II
mos, na dramaturgia shakespeariana, artistas maiores, que combinam dignidade humana e esttica: Hamlet, Lear, Edgar, Prspero. Talvez Shakespeare contemplasse grandes 
declnios pessoais na Inglaterra em que vivia - o de Essex e Raleigh, entre outros - e entendesse haver um processo de distanciamento entre a dignidade humana e 
a esttica. No creio que tal separao possa ser encontrada na literatura antes de
Shakespeare.
Shakespeare no inventou a noo de dignidade humana,- apesar de aperfeioada na Renascena, inclusive a partir de contribuies hermticas, a referida noo desenvolvera-se 
ao longo de milnios. Mas a dignidade esttica, ainda que a frase, em si, no tenha sido cunhada por Shakespeare, foi, sem dvida, por ele inventada, assim como 
a natureza dupla dessa dignidade. Dignidade esttica coaduna-se com a humana, ou sobrevive isoladamente, quando esta ltima  perdida. A meu ver,  essa a importncia 
do longo solilquio de Ricardo no crcere, no incio do quinto ato. Algo que surpreende at o prprio Shakespeare nasce aqui, algo que vai transformar a arte de 
Shakespeare, bem como a arte e a vida de muitos personagens que surgiro na esteira de Ricardo II e Hamlet.
O intelecto de Hamlet, em pouco tempo, deduz que a Dinamarca e o mundo eram uma priso para o seu esprito, mas, para Ricardo, as dedues vm com mais vagar, sendo 
seu raciocnio infinitamente mais lento. Seu pequeno mundo, seu pequeno ser, no cr na salvao,- seu desespero no contempla qualquer sada e, portanto, ele recita 
a primeira litania niilista shakespeariana, antedatando Muito Barulho por Nada, e servindo de profecia a Hamlet, lago e Leontes:
[...] eu no sou mais nada. Seja o que for, porm, nem eu nem homem algum, que seja um homem, simplesmente, com coisa alguma poder mostrar-se contente, enquanto 
no ficar tranqilo, virando nada.
[V.v.]
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#HAROLD   BLOOM
O equvoco alvio da morte  surpreendido pela msica, que leva Ricardo a um devaneio sobre a metafsica do tempo, seu tempo:
[...] Malgastei
todo meu tempo,- o tempo ora me gasta.
[V. v.]
A complexa metfora do rei deposto transformado em relgio  a ltima e mais fina imagem metafsica que Ricardo constri de si mesmo, talvez por ser a mais destrutiva, 
provocando-lhe a srie de acessos de dio que lhe caracterizam o fim da vida. A denncia grotesca que faz de seu cavalo, por se deixar dominar por Bolingbroke,  
seguida pela sbita demonstrao de dio ao carcereiro, e pelo momento de morte, com o dbil dstico:
Desa meu corpo, j de tudo falto,- sobe, minha alma, teu lugar  no alto!
[V.v.]
Shakespeare poderia ter se sado melhor, sendo essas as palavras finais do protagonista, mas, provavelmente, desejava aqui evocar uma regresso final a Ricardo, 
conforme este aparece no incio da trama. Ainda que Ricardo morra com pouca dignidade, suas palavras so preferveis  absurda hipocrisia de Bolingbroke que conclui 
a pea:
Senhores, asseguro-vos que da alma confrangida fugiu-me toda a calma, por ver que necessrio  se tornasse, para minha subida, este trespasse. Vinde chorar comigo 
o que eu lamento e ponde luto desde este momento.  Terra Santa pretendo ir, contrito, para limpar-me deste atroz delito. Solidrios ficai na minha agrura, lastimando 
esta morte prematura.
[V.vi.]
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RICARDO  II
Tais palavras constituem, de certo modo, um preldio s duas partes de Henrique IV, em que o usurpador no ter um minuto sequer de paz,- esse gosto amargo, porm, 
vai requerer a contrapartida de uma espirituosidade adocicada. Um ano mais tarde, surge algo que preenche esse requisito e muito mais, na genialidade de Sir John 
Falstaff.
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#17
HENRIQUE IV
No se pode reduzir o talento extremamente verstil de Shakespeare a um determinado aspecto e afirmar que sua grandeza se deve, principalmente, a este ou quele 
dom. Seus dotes advm de uma inteligncia extraordinria, inigualvel em termos de abrangncia, e no apenas dentre os grandes mestres da literatura. A verdadeira 
Bardolatria parte da seguinte constatao: estamos, finalmente, diante de uma inteligncia sem limites. Quando lemos Shakespeare, somos obrigados a correr para acompanh-lo, 
e a nossa satisfao  o fato de tal processo ser perene: Shakespeare est sempre  nossa frente. Fico pasmo com crticos, de toda e qualquer orientao, experientes 
ou nefitos, que tm a pretenso de antepor seu conhecimento (na verdade, seu recalque)  sensibilidade e ao prodgio de Shakespeare, grandes manifestaes de sua 
fora cognitiva.
Citei, anteriormente, a aguada observao de Hegel, de que Shakespeare toma seus melhores personagens "artistas livres de si mesmos". Os mais livres de todos so 
Hamlet e Falstaff, porque so os indivduos (ou personagens, se o leitor assim preferir) mais inteligentes criados por Shakespeare. Raramente, crticos tratam Hamlet 
corn ares de superioridade, embora alguns, como Alistair Fowler, desaprovem-no moralmente. com Falstaff, a situao  diferente, o que  lamentvel,- muitos o condenam 
do ponto de vista moral, alm de se colocarem acima do personagem, como se Sir John fosse menos sbio do que eles. Os que
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HENRIQUE  IV
amam Falstaff (que  o meu caso, e o que todos deveriam fazer, mesmo em se tratando de um papel teatral) so tachados de "sentimentais". Recordo-me de uma aluna 
de ps-graduao, alguns anos atrs, matriculada em uma disciplina sobre estudos shakespearianos, que afirmava, veementemente, que Falstaff no era digno de admirao, 
mas que a transformao do Prncipe Hal em Henrique V, isso sim, era exemplar. O argumento da aluna era que Hal representava a ordem e Falstaff a desordem, e eu 
no fui capaz de persuadi-la de que Falstaff transcendia as categorias estipuladas por ela, assim como transcende praticamente todas as nossas definies de pecado 
e erro. Que Shakespeare alimentava uma intensa relao pessoal com Hamlet  mais do que claro, pois esbanjou seu talento no prncipe. Falstaff no tirou o sono 
de Shakespeare durante tantos anos como o fez Hamlet, e  at mesmo possvel que Falstaff no tenha causado a seu criador qualquer perplexidade. Contudo, meu palpite 
 que Falstaff teria surpreendido Shakespeare e, por assim dizer, escapado do papel, o qual, a princpio, talvez no fosse maior do que o de Pistola, em Henrique 
V. Nas duas partes de Henrique IV, no  Hal, e sim Falstaff, o centro da ao, e at mesmo Hotspur, na primeira parte,  ofuscado pelo esplendor de Falstaff. Anseio 
por encontrar um Falstaff que se equipare ao de Ralph Richardson, apresentado meio sculo atrs, que no se colocou acima do personagem, nem o subestimou. Falstaff, 
segundo Richardson, no era um covarde, tampouco um bufo, mas algum dotado de uma espirituosidade infinita, que se deleitava com sua prpria criatividade e transcendia 
seu prprio pathos. A coragem de Falstaff  expressa por meio da recusa em admitir a rejeio, ainda que Sir John esteja ciente, logo no incio da Primeira Parte 
de Henrique IV, de que a ambivalncia de Hal ensejou uma negatividade fatal  O amor que Hal sente por Falstaff, substituio da figura paterna, toma-se o ponto 
fraco de Falstaff, a maior fraqueza, a origem de sua destruio. O tempo aniquila outros protagonistas shakespearianos, mas no Falstaff, que morre por amor. H 
crticos que insistem ser esse amor grotesco,- mas grotescos so tais crticos. O mais espirituoso e sagaz dos personagens ficcionais morre como uma figura paterna 
rejeitada, e como um mentor desonrado.
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#HAROLD  BLOOM
A maioria das peas, por assim dizer, maduras de Shakespeare requerem, implicitamente, alguns dados prvios, aos quais podemos chegar por meio de inferncias, conforme 
apontaram estudiosos, desde Maunce Morgan at A D Nuttall com relao  Primara Parte de Henrique IV, os dados prvios advm, em parte, de Ricardo II, pea em que 
Bolmgbroke usurpa a coroa e passa a ser Rei Henrique IV Ali, na terceira cena do quinto ato, o novo Rei e Percy, que em breve ser conhecido como Hotspur, tm uma 
conversa proftica sobre o Prncipe Hal
BOLINGBROKE
Ningum me d notcias de meu filho perdulrio? Trs meses j passaram da ltima vez que o vi Se h malefcio que sobre ns impenda,  ele, sem dvida Prouvera a 
Deus, senhores, que o encontrsseis. Investigai em Londres, nas tavernas, por ser a, segundo dizem, que ele diariamente se encontra, acompanhado de gente licenciosa 
e sem princpios, tal como essas pessoas,  o que dizem, que ficam pelas vielas, procurando bater nos guardas e roubar quem passa, enquanto ele, esse moo libertino, 
rapaz efeminado, considera ponto de honra amparar tamanha corja de desbnados HENRIQUE PERCY
Milorde, eu vi o prncipe h cerca de dois dias e lhe disse que os festejos iriam ser em Oxford. BOLINGBROKE
E que disse esse estrdio? HENRIQUE PERCY
Disse que tencionava ir a um alcouce
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HENRIQUE  IV
para tomar a luva a uma rameira, que ele, como penhor, carregaria, jurando derrubar da cela quantos ousassem desafi-lo nestas justas BOLINCBROKE
To libertino quanto ousado Rstias entrevejo, no entanto, de melhores esperanas, que podem, de futuro, patentear-nos dias mais risonhos
[Ricardo H, V m]
O lder da corja de desbnados  Falstaff, isto , o imortal Falstaff (como era chamado, com toda razo, por Bradey e Goddard) O imortal Falstaff  inveno de 
Shakespeare,  o gordo bonacho que consegue sair de dentro da imaginao do magro Will Shakespeare Muitos crticos j apontaram o paralelismo existente nos jogos 
de palavras Fall/staff e Shake/spear* Outros identificam no poeta dos Sonetos uma figura no estilo de Falstaff, que sofre por um jovem no estilo do Prncipe Hal 
O elo pessoal, a meu ver, parece fortalecido quando nos damos conta de que Falstaff  a espintuosidade do prprio Shakespeare levada ao extremo, assim como Hamlet 
 o ponto mximo da argcia cognitiva do poeta-dramaturgo A possibilidade de comparar o investimento humano feito por Shakespeare em Falstaff e em Hamlet  questo 
que me deixa perplexo Um clebre crtico shakespeanano, seguidor do neo-histoncismo, aps uma palestra que dei sobre valores nas personalidades de Hamlet e Falstaff, 
disse  platia que a maneira como eu interpretava os referidos personagens, ou papis, configurava "uma poltica de identidade" No sei o que poltica tem (ou tinha) 
a ver com isso, mas  difcil deixar de especular sobre a identificao de Shakespeare com seu filho, Hamlet, e seu outro eu, Falstaff No se pode criar Hamlet 
e Falstaff sem se ter uma reao algo parecida com a de Cervantes, com respeito a Dom Quixote e Sancho Pana A fico
Respectivamente, "derruba/basto e"sacode/lana" [N T]
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#HAROLD  BLOOM
dramtica no  como a fico em prosa,- portanto, no se pode esperar em Shakespeare orgulho e uma suposta decepo diante dos personagens criados, conforme observados 
em Cervantes. William Empson, primeiramente, e C. L. Barber e Richard P. Wheeler, mais tarde, buscaram nos Sonetos comentrios indiretos de Shakespeare sobre Falstaff,- 
os resultados alcanados, embora nem sempre positivos, procedem. Quanto a mim, prefiro localizar o esprito falstaffiano nas peas, se for capaz de faz-lo, porque 
os Sonetos, no que tm de melhor, parecem-me mais ambguos do que quaisquer outros escritos de Shakespeare. E possvel que os Sonetos nos levem s peas, mas Hamlet 
e Falstaff iluminam os SOMCOS mais do que os Sonetos so capazes de nos fornecer novos insi^hts sobre esses dois personagens gigantes.
Os anais da histria inglesa registram a figura de um Sir John Falstolfe, covarde comandante que atuou em guerras com a Frana, e que, como tal, aparece na Primeira 
Parte de Henrique IV (ato I, cena i), onde sua fuga causa a captura do valente Talbot. O personagem que veio a  se tornar o imortal Falstaff (e que nada tinha de 
covarde, conforme reiteram Morgann e Bradey, a despeito do Prncipe Hal), chamava-se, originalmente, Sir John Oldeastle. Mas, por volta de 1587,  possvel que 
o aprendiz de dramaturgo, William Shakespeare, tenha contribudo para o fracasso da pea As Celebres Vitrias de Henrique IV, um texto inflamado e patritico, cujo 
principal autor talvez tenha sido o comediante Dick Tarlton. Nessa pea, o Prncipe Hal regenera-se e exila o perverso companheiro, Sir John Oldeastle. Mas Oldeastle, 
figura histrica, morreu como mrtir protestante, e seus descendentes no gostaram nada de v-lo retratado como um gluto perverso, um poo de vcios. Shakespeare 
foi levado a mudar o nome do personagem, e foi assim que surgiu "Falstaff. Shakespeare, apesar da censura, permite que Hal se refira a Falstaff como "my ol la 
of tbe castle",  mas faz constar do Eplogo da Secunda Parte de Henrique IV um esclarecimento absolutamente direto: "Oldeastle morreu como mrtir, e esse no  nosso 
homem". Como soaria estranho o ttulo da pera de Verdi, se o mesmo fosse
"Velho amigo do castelo". [N.T]
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HENRIQUE  IV
OWcaste! Freqentemente, as circunstncias comandam as escolhas do dramaturgo, e a prole descontente de Oldeastle contribuiu para que tivssemos o que hoje nos 
parece ser o nico nome possvel para o gnio cmico: Falstaff.
Em As Clebres Vitrias de Henrique IV, Sir John Oldeastle  apenas um fanfarro menor. Falstaff  tirado de dentro do prprio Shakespeare, embora a linguagem e 
as personalidades de Biron e Faulconbridge, o Bastardo, bem como de Merccio e Bottom, no nos preparem, de maneira adequada, para o encontro com Falstaff, cuja 
prosa, ainda hoje,  a melhor, a mais vital que existe em lngua inglesa. O domnio que Sir John possui da linguagem supera at o de Hamlet, pois Falstaff confia, 
incondicionalmente, em si mesmo e na linguagem. Jamais perdendo essa f, Falstaff, mais do que Hamlet, parece emanar de um Shakespeare mais profundo. Falstaff configura-se 
como a mais marcante, a mais sutil vitria de Shakespeare sobre Barrabs e os outros contumazes personagens de Marlowe, uma vez que o "cavaleiro avantajado" supera, 
em retrica, os Maquiavis de Marlowe, embora jamais se prevalea do discurso para persuadir quem quer que seja. Ainda que se veja obrigado a se defender da agressividade 
infinita e perigosa de Hal, Falstaff no busca a persuaso. A espirituosidade  o deus de Falstaff e, como Deus, supostamente, tem senso de humor, podemos deduzir 
que o discurso vivaz de Falstaff, sua linda fala entremeada de riso (como Yeats dizia, referindo-se a Blake), , sem dvida, a maneira de Sir John expressar devoo. 
A misso de Falstaff  exacerbar a espirituosidade de terceiros,- sendo assim,  ele quem provoca a espirituosidade de Hal. Sir John  um Scrates cmico. O que 
Shakespeare sabia de Scrates, aprendera de Montaigne, para quem Plato e Scrates eram cticos. Falstaff  mais do que ctico,- porm, sua natureza de professor 
(sua verdadeira vocao, mais do que a de salteador)  forte demais para seguir o ceticismo para alm dos limites niilistas, conforme ocorre com Hamlet. Espirituosidade 
ctica no  ceticismo espirituoso, e Sir John no  um mestre da negao, novamente, como Hamlet (ou lago). Como um Scrates de Eastcheap, Falstaff no precisa 
se preocupar em ensinar a virtude, pois a luta entre o usurpador, Henrique IV, e os rebeldes no tem qualquer
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#HAROLD  BLOOM
relao com tica ou moralidade   Falstaff faz pilhria dos rebeldes, dizendo que estes "s ofendem os virtuosos", quando, nitidamente, mexistem virtuosos na Inglaterra 
de Henrique IV (ou de Henrique V) Quais seriam, ento, os ensinamentos do filsofo de Eastcheap? Comer, beber, fornicar e outros prazeres bvios no constituem o 
cerne da doutrina de Falstaff, embora tais atividades ocupem grande parte do tempo do cavaleiro  S podemos ensinar aquilo que somos, Falstaff, indivduo livre, 
ensina-nos a ser livres - no a sermos livres em sociedade, mas livres a sociedade O sbio de Eastcheap habita os dramas histricos de Shakespeare, mas trata-os 
como comdias Os estudiosos consideram os Hennques as figuras centrais da tetralogia que rene Ricardo II, as duas partes de Henncfue IV e Henrique V, mas, a meu 
ver, nas duas partes de Henrique IV, a figura crucial  Falstaff (assim como em As Alegres Comadres de Wmdsor, onde Falstaff  um impostor de dimenso opertica) 
As peas em que Falstaff predomina so tragicmicas, aquelas nas quais os Hennques prevalecem so dramas patriticos (corn certas ressalvas")  Quisera Shakespeare 
no tivesse nos informado da morte de Falstaff, em Henrique V, e que o tivesse levado para a Floresta de Arden, para trocar gracejos com Rosalinda, em Como Gosteis 
Embora personifique a liberdade, Falstaff no goza de liberdade absoluta - conforme ocorre com Rosalmda   Como platia, a perspectiva mais privilegiada que temos 
em Como Gosteis  a da prpria Rosalmda, mas j na fala inicial de Hal, na Primeira Parte de Henrique IV, podemos perceber o maquiavelismo do Prncipe, bem como 
a eventual rejeio de Falstaff, com mais clareza do que pode faz-lo o "cavaleiro avantajado" Ao fim da alegria e da comicidade inerentes s peas que contam com 
a presena de Falstaff, temos o cerco das peas dos Hennques e, numa viso mais do que legtima, o que seria Hal, seno o esprito do mal de Falstaff? com muita 
sensatez, E E Stoll comparou a questo do isolamento na arte cmica de Shakespeare, quanto a Shylock e Falstaff Shylock jamais fica s no palco, a seu respeito temos 
apenas a perspectiva da sociedade Falstaff, na Segunda Parte de Henrique IV, aparece somente duas vezes na companhia de Hal  na primeira ocasio,  visto pelo Prncipe 
em uma cena ertica - pattica e de mau gosto - junto a Doll Tearsheet, na
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HENRIQUE  IV
segunda,  brutalmente insultado e rejeitado pelo jovem Rei Agradanos a idia de Falstaff gozar de uma liberdade absoluta, e algo em Shakespeare parece ter aspirao 
idntica, mas o mimetismo shakespeanano  por demais engenhoso para alimentar tal fantasia Falstaff, o Scrates cmico, representa a liberdade apenas como dialtica 
educacional da converso Se procurarmos Falstaff munidos de indignao e fria, sejam ou no dirigidas a ele, Falstaff transformar nossa agressividade em espintuosidade 
e riso Se, como Hal, procurarmos Falstaff com uma atitude ambivalente que, no momento do contato, penda para o lado negativo, Falstaff no nos confrontar, caso 
no consiga nos converter No creio que isso faa de Falstaff um pragmtico da transao econmica, como postula Lars Engle, ao afirmar que Falstaff "no  tanto 
uma figura livre com relao a sistemas de valores, mas um participante das operaes necessariamente contingentes e manipulveis dos mesmos"  possvel explorar 
um sistema de valores, como Falstaff o faz ao beneficiar-se da guerra civil, e, ao mesmo tempo, mant-lo sob uma tica crtica  O imortal Falstaff, jamais hipcrita, 
raras vezes ambivalente, e longe de ser fingido como Hal,  um satinsta que se volta contra todo e qualquer poder, ou seja, contra o histoncismo - a explicao da 
Histria - e no contra a Histria Guerreiro experiente, que se pe a combater o cdigo de honra da cavalaria andante, Falstaff sabe que a Histria  um irnico 
fluxo de reviravoltas   O Prncipe recusa-se a aprender tal lio com Falstaff, e no tem mesmo condies de faz-lo, sendo um poo de sentimentos ambivalentes 
corn relao a todos que o cercam, inclusive Falstaff
As energias de Falstaff tm carter pessoal sua liberdade relativa tem uma natureza dinomica, e pode ser transferida a um discpulo, embora com o risco de perigosas 
distores A despeito dos crticos "materialistas", Falstaff recusa os benefcios de seu afeto, mas ensina Hal a beneficiar-se de todos, seja de Hotspur, do Rei 
ou do prprio Falstaff Hal  a obra-prima de Falstaff o aluno brilhante que adota a atitude do professor quanto  liberdade, de modo a explorar uma ambivalncia 
universal, transformando-a em uma espintuosidade de carter seletivo Hal  ambivalente com relao a tudo e a todos - sua espintuosidade 
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discriminatria, enquanto a de Falstaff  universal   Hotspur e o Rei Henrique IV obstruem o caminho de Hal, mas no o ameaam internamente Falstaff, depois que 
Hal  coroado, toma-se uma figura ameaadora, que deve ser mantida a dez milhas de distncia da pessoa do Rei Na fala cruel em que rejeita Falstaff, Henrique V 
no permite a Sir John qualquer oportunidade de dilogo  "No repliques / com uma dessas chalaas de bufo" Como "tutor e matador dos excessos" do Rei, ao pobre 
Falstaff no  permitida qualquer evasiva,  como se recebesse uma sentena de morte Assim como Shylock  instado a se converter, imediatamente, ao cristianismo, 
Falstaff ser obrigado a demonstrar "conduta / ante o mundo [   ] mais modesta" (conforme as palavras do Prncipe Joo de Lancastre ao Lorde Juiz), fazer dieta rigorosa 
e, supostamente, aproximar-se de Deus (neste ltimo aspecto, conforme Henrique V)   Pelotes de estudiosos, ontem e hoje, apresentam justificativas para a atitude 
de Henrique V, e asseguram-nos que Shakespeare no compartilha da nossa indignao, para os defensores, a ordem deve prevalecer, Henrique V  o monarca ideal, o 
primeiro autntico rei ingls, modelo do ideal poltico de Shakespeare
corn base na hiptese, nada improvvel, de que Shakespeare fosse mais favorvel a Faistaff do que a Henrique, coloco-me do lado dos crticos "humanistas", hoje em 
dia desprestigiados - Samuel Johnson, Hazlitt, Swmburne, Bradey e Coddard -, e descarto essa idia de ordem, considerando-a uma asneira Rejeitar Falstaff  rejeitar 
Shakespeare E para falar em termos meramente histricos, a libertao que Falstaff representa, antes de mais nada,  a libertao de Chnstopher Marlowe, o que significa 
que Falstaff  o selo de originalidade de Shakespeare, prova do domnio de uma arte cada vez mais sua Engle, falando em nome da maioria dos colegas histoncistas, 
afirma que "o trabalho de Shakespeare se submete ao ofcio", mas eu me pergunto por que, na perspectiva da tradio literria, "a mo do tmtureiro"  faria o trabalho 
de Shakespeare submeter-se menos ao ofcio do que o de Ben Jonson, por exemplo, ou o de dezenas de dramaturgos menores que
* Ambas as aluses evocam a linguagem do Soneto 111, de Shakespeare [N T]
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surgiram depois de Marlowe Falstaff, nada marlov.ano,  totalmente chaucenano, filho da vitalista Mulher de Bath Marlowe, inicialmente uma inspirao, sem dvida, 
passa a opnm.r Shakespeare, Chaucer no o oprimia, porque o gemo de Shakespeare para a comdia era-lhe bem mais natural do que a aptido para a tragdia
Cronologicamente, a Primeira Parte e Henrique IV surge logo aps O Mercador de Veneza, no entanto, o drama histrico e a comdia em questo tm em comum apenas 
uma profunda ambivalncia, que pode ser do prprio Shakespeare, com relao a si mesmo, bem como ao jovem e  mulher que constam dos Sonetos A ambivalncia de Hal 
em relao a Falstaff, conforme o consenso crtico,  uma transferncia da ambivalncia nele provocada pelo pai, Henrique IV, de quem Hal foge j no final de Ricardo 
II Shylock e Falstaff so antitticos a eloqncia amarga do judeu, seu asceticismo e puntanismo opem-se  afirmao de um vitalismo dinomico observado em Falstaff 
Contudo, Shylock e Falstaff tm em comum a exuberncia, negativa no caso de Shylock, extremamente positiva, no caso de Falstaff Ambos so antimarlovianos, sua fora 
 fundamental no processo de inveno do humano observado em Shakespeare, da inveno de uma janela aberta para a realidade
A figura de Falstaff nada tem de elegaca, ele estaria inteiramente presente em nosso consciente, se pudssemos dispor de uma conscincia capaz de conter a sua  
a amplitude da conscincia de Falstaff que o toma inatingvel, no no sentido hamletiano de transcendncia, mas no sentido falstaffiano de imanncia Poucos personagens 
na literatura mundial podem equiparar-se a Falstaff em termos de presena, assim sendo, Falstaff  o grande rival de Hamlet na dramaturgia shakespeanana A iluso 
de que o personagem se trata de uma pessoa de carne e osso - se  que podemos chamar isso de "iluso" - ocorre tanto com Falstaff quanto com Hamlet Shakespeare 
transmite-nos a noo de que esses dois carismticos esto apenas inseridos em suas respectivas peas mas no pertencem a elas Hamlet  uma pessoa, enquanto Cludio 
e
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Oflia so personagens, Falstaff  uma pessoa, enquanto Hal e Hotspur so personagens
O carismtico shakespeanano tem poucas caractersticas em comum com o carismtico sociolgico em Max Weber, mas antecipa a idia de Oscar Wilde de que a amplitude 
da conscincia  o valor mais sublime, quando a representao da personalidade  o objetivo principal de algum Shakespeare coleciona outros gloriosos tnunfos - 
Rosalmda, lago, Clepatra etc - , mas em magnitude de conscincia, volto a dizer, Falstaff e Hamlet no tm rivais Edmundo, em Rei Lear, pode at ser to inteligente 
quanto Falstaff e Hamlet, mas  totalmente desprovido de emoo at ser ferido mortalmente, devendo, portanto, ser julgado como um carismtico negativo, se o compararmos 
a Sir John e ao Prncipe da Dinamarca O sentido de carisma em Weber, embora egresso da religio, tem afinidades claras com a exaltao do gnio herico feita por 
Carlyle e Emerson As instituies e a rotina, na viso de Weber, em pouco tempo, neutralizam o efeito do indivduo carismtico em seus seguidores  Mas cesansmo e 
calvmismo no so movimentos estticos, Falstaff e Hamlet dificilmente poderiam ser rotinizados ou institucionalizados  Falstaff despreza qualquer tarefa ou misso, 
e Hamlet no tolera a idia de ser protagonista de uma tragdia de vingana Em ambas as figuras, o modelo de carisma  mais antigo do que Cristo, remontando ao ancestral 
Rei Davi, grande merecedor da bno de Jav  Falstaff, embora desprezado por especialistas virtuosos e rejeitado pelo (finalmente) virtuoso Rei Henrique V, tambm 
merece a bno, em seu sentido mais verdadeiro vida longa
A personalidade, mesmo no leito de morte, preserva a sua singularidade Conheci muitos filsofos inteligentes, e uma multido de poetas, romancistas, contistas e 
dramaturgos Ningum pode esperar que a expresso oral de tais indivduos seja to proficiente quanto a escrita, mas nem o melhor deles, no seu melhor dia, pode igualar-se 
a esses homens feitos de palavras, Falstaff e Hamlet Chegamos a nos perguntar de que maneira a representao da cognio em Shakespeare difere da prpria cognio? 
Na prtica, ser que conseguiramos discernir entre uma e outra? E ainda de que maneira a representao do carisma em Shakes-
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peare difere do prprio carisma? Por definio, carisma no  energia social origina-se fora da sociedade O singulansmo de Shakespeare, sua maior originalidade, 
pode ser descrito como cognio carismtica, que emana de um indivduo antes de entrar no pensamento do grupo, ou como carisma cognitivo, que no pode ser tnvializado 
A experincia teatral decisiva em minha vida ocorreu h meio sculo, em 1946, quan do, aos dezesseis anos de idade, vi Ralph Richardson representar Falstaff Nem 
mesmo o brilho de Laurence Olivier, atuando como Hotspur, na Primeira Parte, e Shallow, na Segunda Parte, foi capaz de ofuscar, para mim, o Falstaff de Richardson 
Quando ele saa de cena, na platia, sentamos um verdadeiro vazio, e espervamos, impacientes, o momento em que Shakespeare colocaria Sir John, mais uma vez, diante 
de ns W H Auden, comentando a respeito desse fenmeno, estranhamente, explica que Falstaff  "um gnio cmico em prol da ordem sobrenatural da caridade" Embora 
admire os ensaios de Auden sobre Shakespeare, o Falstaff cristo de Auden deixa-me perplexo O fabuloso Sir John no  Cristo nem Satans, tampouco uma imitao de 
um ou de outro
Mas uma representao teatral da imanncia secular, representao essa que  a mais convincente que existe, haveria de levar at o mais sbio dos crticos a interpretaes 
extravagantes   No penso que Shakespeare tivesse a inteno de retratar Falstaff com uma imanncia suprema, ou Hamlet com grande transcendncia Ben Jonson escrevia 
ideogramas e os chamava de personagens, suas melhores criaes, como Volpone e Sir Epicuro Mammon, so cheias de vida, mas no so retratos de pessoas Ainda que 
a maioria dos especialistas pertencentes  academia anglofnica se recuse a aceitar a idia de Shakespeare povoar um mundo,  este o apelo que o dramaturgo exerce 
sobre quase a totalidade do pblico que assiste a montagens de suas peas, ou que continua a l-las E embora as pessoas criadas por Shakespeare sejam apenas imagens, 
ou metforas complexas, o prazer que nos causa a obra de Shakespeare resulta, antes de mais nada, da convincente iluso de que as sombras sobre o tablado so projetadas 
por entidades to concretas quanto ns mesmos   A capacidade de Shakespeare nos convencer de que essa iluso fantstica tem procedncia  decorrente
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de sua impressionante habilidade de representar mutaes, habilidade sem par na literatura mundial Nossas personalidades podem ser reduzidas a um fluxo de sensaes, 
mas tal convergncia precisa ser representada com riqueza de detalhe, para garantir a diferenciao entre indivduos Uma verso de Falstaff ao estilo de Benjonson 
seria, decerto, apenas "um ba de humores", conforme Hal, irritado, chama Sir John, quando faz papel de pai de Falstaff na pardia inserida em uma cena da Primeira 
Parte de Henrique IV (ato II, cena iv) Nem mesmo Volpone, o maior dos personagens jonsomanos,  objeto de grande mutao, mas Falstaff, como Hamlet, est sempre 
se transformando, sempre pensando, falando, sondando a si mesmo, em uma metamorfose mercna, sempre disposto a mudar, a sofrer mutaes que expressam a homenagem 
feita por Shakespeare  realidade das nossas vidas
Algernon Charles Swmburne, hoje em dia to esquecido, seja como poeta, seja como crtico, ainda que tantas vezes extraordinrio em ambas as atividades, com grande 
tirocnio, comparava Falstaff a seus dois genunos companheiros Sancho Pana, de Cervantes, e Panurgo, de Rabelais Para Swmburne, a coroa de louros pertencia a Falstaff, 
no apenas por seu imenso intelecto, mas tambm pela amplitude de seus sentimentos, e at mesmo por sua "condio moral, possivelmente, elevada" Swmburne referia-se 
 moralidade dos sentimentos, e da imaginao, e no  moralidade social que  a sina permanente da crtica e dos estudos shakespeananos, afligindo histoncistas, 
sejam novos ou tradicionais, e puritanos, sejam ordenados ou leigos Nesse particular, Swmburne antecipa A C Bradey, que, acertadamente, apontaria que todo julgamento 
moral adverso com respeito a Falstaff  antittico  natureza da comdia shakespeanana Poderamos acrescentar a Mulher de Bath, de Chaucer, para completar esse 
quarteto de grandes vitahstas, todos abenoados - o que quer dizer merecedores de Vida longa" - e todos comediantes extraordinrios Ao delegar ao pblico o julgamento 
de Falstaff, Shakespeare toma Falstaff ainda mais autnomo e livre do que Sancho, Panurgo e a Mulher de Bath A vontade de viver, imensa nos quatro, apresenta uma 
pungncia especial em Sirjohn, soldado profissional h muito tempo desiludido com as grandes asneiras, "glria" e "honra"
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HENRIQUE  IV
militares No temos motivos para acreditar que Shakespeare colocasse o bem social acima do individual, na verdade, com base nas peas e nos Sonetos, tudo leva a 
crer no oposto Aps conviver a vida inteira com outros professores, tenho dvidas se, de fato, estes tenam a vivncia necessria para sequer apreender - muito menos 
julgar - o Imortal Falstaff O falecido Anthony Burgess, que em seu poeta bomio, Enderby, propiciounos uma verso esplndida, um tanto joyciana, de Falstaff, oferece-nos, 
tambm, sabedoria crtica a respeito do personagem
O esprito de Falstaff  um grande amparo da civilizao Desaparece quando o Estado  todo-poderoso e quando os indivduos se preocupam exageradamente com suas 
almas [   ] No mundo de hoje  pequena a presena do esprito de Falstaff, e,  medida que cresce o poder do Estado, o que resta dessa presena ser liquidado
O poder do Estado ser personificado no Rei Henrique V, cuja atitude com relao a Falstaff pouco difere da atitude observada em puritanos acadmicos e professores 
obcecados pelo poder A irreverncia de Falstaff afirma a vida, mas destri o Estado,  uma afronta ao sentido pragmtico acreditar que Shakespeare apoiasse a atitude 
de Henrique com relao a Falstaff Dizer que Shakespeare  Hotspur, ou Hal, ou Rei Henrique IV, no vem muito ao caso, se assim fosse, ele seria, tambm, Romeu, 
Julieta, Merccio e a Ama, bem como centenas de outros personagens Falstaff, como Hamlet, e ao contrrio de Hamlet, tem uma relao diferente com seu criador O 
sucesso imediato de Sir John junto ao pblico shakespeanano ensejou, primeiro, As Alegres Comadres de Wmdsor e, em seguida, a Segunda Parte de Henrt^ue IV A morte 
de Falstaff, brilhantemente relatada pela Estalajadeira em Henrique V, de um lado, atesta a inteno de Shakespeare de atribuir um desfecho  histria do grande 
cmico, de outro, a aguda percepo do dramaturgo de que os gestos hericos em Agmcourt no sobreviveriam aos comentrios de Falstaff, um contraponto cnco que afundaria 
a pea, por mais gloriosa que seja
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Quando Falstaff conquistou a Rainha Elisabete e todo o pblico shakespeanano, a relao do dramaturgo com o seu exuberante personagem cmico, necessariamente, haveria 
de mudar Detecto uma certa ansiedade em As Alegres Comadres de Wmdsor, onde Falstaff  objeto de pardia, e um dilema na Segunda Parte de Henrique IV, em que Shakespeare 
parece, em dados momentos, indeciso quanto  possibilidade de aumentar ou diminuir o brilho de Falstaff Os estudiosos podem escrever o que quiserem, mas um Falstaff 
diminudo  criao deles, no de Shakespeare  O banquete da linguagem em Falstaff no pode ser reduzido, nem diludo A mente, no sentido mais amplo, mais at do 
que apenas a questo da espintuosidade,  a maior fora de Falstaff, quem poderia decidir qual seria a conscincia mais inteligente, a de Hamlet ou a de Falstaff? 
Apesar de toda a sua abrangncia, a literatura dramtica shakespeanana , em ltima anlise, um teatro da mente, e o que h de mais notvel em Falstaff , precisamente, 
a vitalizao de seu intelecto, um contraste direto com a converso da mente  viso de aniquilamento, observada em Hamlet
Tive o desprazer de assistir a recentes montagens das duas partes de Henrttjue IV em que Falstaff era humilhado, apresentado como um covarde falastro, um corruptor, 
um bajulador do Prncipe, um velho bbado e safado etc - uma grande profanao do texto shakespeanano A melhor resposta pode ser encontrada nas palavras do prprio 
Falstaff
Fazes sempre citaes execrveis, s capaz de corromper um santo Tu me tens prejudicado muitssimo, Hal, Deus te perdoe Antes de conhecer-te, Hal, ignorava tudo, 
e agora, para dizer toda a verdade, valho pouco mais que um pecador
Mas dizer que reconheo nele mais defeitos do que em mim mesmo, ser dizer mais do que sei Que infelizmente  velho, provam-no seus cabelos brancos, mas que seja, 
corn perdo de Vossa Reverncia, libertino, nego-o de ps juntos Se xerez e acar constituem falta, que Deus perdoe aos que erram, se  pecado ser velho e alegre, 
nesse caso esto condenados muitos
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HENRIQUE  IV
hoteleiros do meu conhecimento, se a gordura provoca dios, ento louvemos as vacas magras de Fara No, meu bom senhor, desterrai Peto, desterrai Bardolfo, desterrai 
Poms, mas quanto ao doce Jack Falstaff, o gentil Jack Falstaff, o verdadeiro Jack Falstaff, o valente Jack Falstaff, e tanto mais valente por tratar-se do velho 
Jack Falstaff, esse no desterreis da companhia do teu Harry desterrai o gordanchudo Jack e tereis desterrado o mundo inteiro"
Est bem, se Percy ainda vive, you fur-lo, bem entendido, no caso de atravessar-se ele em meu caminho, porque no caso de eu ir, por minha vontade, ao seu encontro, 
pode ele reduzir-me a carne assada No me agrada absolutamente a honra careteira que adorna Sir Walter Dem-me vida" Se puder conserv-la, bem, se no, a glria 
vir sem ser chamada E com isso chegamos ao fim
Estnpar-me" Se me estnpares hoje, consinto em que amanh me salgues e depois me comas com os demnios" J era tempo de fingir de morto, antes que esse escocs turbulento 
me livrasse das dvidas Fingir, minto, no fingi coisa alguma Morrer  que  fingimento, porque quem no tem vida de homem, no passa de fingimento de homem, mas, 
fingir de morto para conservar a vida, no  fingir a imagem da vida, seno represent-la com verdade e perfeio
Temos nesses quatro trechos a viso de Sir John Falstaff sobre religiosidade popular, maldade humana, honra militar e a bno da vitalidade Ouo aqui a voz da perspiccia, 
a voz de um verdadeiro sbio, destruindo iluses No detecto qualquer pretenso de saber, mal de que sofrem os acadmicos recalcados, que vem Falstaff (tanto quanto 
eles prprios) lutando pelo poder Sir John nada tem de velhote fofinho, na verdade,  chegado ao baixo mundo, um tanto parecido com determinados poetas que no 
foram exemplos de cidados Villon, Marlowe, Rimbaud, entre outros No seria de bom tom sermos vistos batendo carteiras na companhia de Villon, espionando com 
Marlowe, contrabandeando armas com Rimbaud, ou assaltando viajantes em
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companhia de Falstaff. Porm, como esses poetas rprobos, Sir John  genial, possuindo mais da genialidade do prprio Shakespeare do que qualquer outro personagem, 
 exceo de Hamlet Quanto  idoneidade moral, que outro personagem na tetralogia seria superior a Falstaff? Henrique IV, hipcrita e usurpador, no seria uma opo, 
nem Hal/Henrique V, igualmente hipcrita, alm de soldado facnora que executa prisioneiros e o velho amigo Bardolfo Ser que devemos preferir Hotspur, que afirma 
"morramos com alegria", a Falstaff, que roga "dem-me vida"" Sena Falstaff menos idneo do que o traidor Prncipe Joo? Talvez, o Lorde Grande Juiz seja mais idneo 
do que Falstaff, se supervalonzarmos a atividade de fiscalizao do cumprimento da lei Shakespeare e seu pblico tinham um correto entendimento do personagem de 
Falstaff, so os estudiosos da obra shakespeanana que, em sua maioria, continuam enganados com respeito a Falstaff A Mulher de Bath, me literria de Falstaff, 
divide os crticos tanto quanto Falstaff o faz Ningum gostaria de se casar com a Mulher de Bath, ou farrear com Falstaff, mas se valorizamos o vitalismo e a vitalidade, 
ento, voltamonos para a Mulher de Bath, para Panurgo (em Rabelais), Sancho Pana (em Cervantes) e, em primeirssimo lugar, para SirJohn Falstaff, imagem perfeita 
e verdadeira da prpria vida Graham Bradshaw apresenta uma viso bem mais limitada de Falstaff, com base no estranho argumento de que Falstaff fala to-somente 
em prosa, conforme ocorre com Tersites, em Trtlo e Crssia Mas Shakespeare no estava escrevendo uma pera, e, a meu ver, ainda desconhecemos as intenes de 
Shakespeare, ao optar pela prosa ou pelo verso Eis o argumento de Bradshaw
Tanto quanto lago, Falstaff orgulha-se de dizer a verdade, mas utiliza uma linguagem na qual s  possvel falar determinados tipos de verdade A linguagem de Falstaff 
o caracteriza, e o registro limitado da mesma est inserido no registro lingstico da pea como um todo, incomparavelmente mais amplo Por conseguinte, a percepo 
de que muitas aspiraes e potencialidades humanas so inatingveis em virtude dos limites de Falstaff tem implicaes importantes Tal percepo faz com
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que nossa resposta ao extraordinrio catecismo de Honra ministrado por Falstaff no  se torne um comprometimento maior do que a resposta de Gloster s palavras de 
Edgar, "Quando for hora" " verdade", diz Gloster
A comparao com lago  de causar espcie, partindo de um crtico sensvel como Bradshaw, to absorvido em sua hiptese sobre o emprego da prosa e do verso a ponto 
de no se lembrar que Falstaff no trai nem prejudica quem quer que seja O contraste entre a espintuosidade humana do Gordo Jack e a ironia assassina de lago chega 
a ser quase bvio demais para ser mencionado Mas o verdadeiro equvoco de Bradshaw  outro a busca de encontrar uma via mdia entre os defensores de Falstaff e estadistas 
corn tendncias ao moralismo Quem  Bradshaw (ou qualquer um de ns) para julgar que "muitas aspiraes e potencialidades humanas so inatingveis em virtude dos 
limites de Falstaff", somente porque o personagem fala em prosa, a melhor prosa encontrada em qualquer lngua moderna? Que aspiraes e potencialidades seriam essas?
Em termos da ao contida nas peas, a resposta a essa pergunta est relacionada quilo que caracteriza Hal/Hennque V, Henrique IV, o Prncipe Joo, Hotspure outros 
poder, usurpao, sede de comando, extorso, traio, violncia, hipocrisia, falsa religiosidade, e a execuo de prisioneiros e de indivduos que se rendem sob 
armistcio Para Bradshaw, tudo isso pode ser classificado na categoria Honra, ao que Falstaff-Shakespeare responde "No me agrada, absolutamente, a honra careteira 
que adorna [o defunto"] Sir Walter Dem-me vida" Se puder conserv-la, bem, se no, a glria vir sem ser chamada E com isso chegamos ao fim" Que palavras sugeririam 
maiores aspiraes e potencialidades humanas, as de Falstaff, que acabo de citar, ou as de Hal, na ameaa feita a Hotspur
[ceifarei] do teu casco os botes da Honra, para tecer coroa que me adorne
Trata-se de versos (e retrica) dignos de reis, mas poder qualquer pessoa sensvel preferir tais versos s palavras de Falstaff, "Dem-me vida"? Hal vence mata 
Hotspur, toma-se Henrique V, rejeita Falstaff,
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conquista a Frana e morre jovem (na Histria, no no palco shakespeariano), ao passo que Falstaff perde, morre infeliz (ainda que o relato da morte seja expresso
por Mistress Quickly em prosa dotada de uma musicalidade deslumbrante), ressuscita, perpetuamente, em sua prosa imortal, e nos persegue para todo o sempre, no que
Shelley chamava de "forma mais verdadeira do que homem em carne e osso". Shakespeare no pretende engrossar as fileiras dos sbios nem dos guerreiros, mas como podemos 
esquecer que era o mais sbio dos sbios, um escritor astuto e pacfico, sentado, talvez, no canto de uma taverna, enquanto Benjonson gabava-se de ter morto um inimigo, 
em combate individual, diante de dois exrcitos prontos a guerrear? Sir John, velho soldado, sofrido, percorre o campo de batalha de Shrewsbury com uma garrafa 
de xerez no coldre, sem pretender matar nem morrer, embora arrisque, corajosamente, seus recrutas maltrapilhos ("Deixei meus farrapos de gente onde os apimentaram 
a valer"). Shakespeare no  nem defensor nem perturbador da ordem. No sei por que Shylock, s vezes, fala em verso, outras vezes, em prosa, mas no gostaria que 
Sir John Falstaff falasse em verso. A prosa de Falstaff  mais elstica e abrangente do que o verso do Prncipe Hal, e muito mais da potencialidade humana est contido 
na prosa de Falstaff do que nas formulaes de Hal.
Samuel Butler, romancista Vitoriano e pensador independente, registra, em um de seus cadernos de notas: "Grandes personagens sobrevivem como a memria de homens 
falecidos. Para ter vida aps a morte, no  necessrio a um homem ou a uma mulher ter vivido". Falstaff - como Hamlet, Dom Quixote e Mr. Pickwick - ainda vive porque 
Shakespeare tinha conhecimento de algo como o mistrio gnstico da ressurreio, isto , quejesus, primeiramente, ressuscitou e depois morreu. Shakespeare mostra-nos 
Falstaff ressuscitando e, depois, faz Mistress Quickly relatar-lhe a morte. A apreciao de Falstaff no parte, necessariamente, da afeio a ele dispensada, mas 
da apreenso da natureza e abrangncia de sua conscincia. Um Falstaff imanente e um Hamlet
HENRIQUE  IV
transcendental so as duas maiores representaes da conscincia em Shakespeare, na verdade, em toda a literatura. A conscincia existe com relao a algo,- em 
Hamlet isso abrange tudo o que h no cu e na terra. Moralistas e historicistas (palavras diferentes que se aplicam aos mesmos indivduos) vem a conscincia de 
Falstaff bem mais limitada: comida, bebida, sexo, poder, dinheiro. No temos como saber se Shakespeare era mais Falstaff ou Hamlet, embora o ousado E. A. J. Honigmann 
me desafie, apontando Hamlet. Porm, enquanto a ironia dramtica, s vezes, derrota Hamlet, e a ns  dado v-lo de uma maneira que ele prprio no consegue se ver, 
Falstaff, conforme Rosalinda, v tudo  sua volta, e a si mesmo com uma aceitao srio-cmica que a Hamlet  negada. Honigmann alerta-nos de que o relacionamento 
entre Falstaff e Hal no se presta  anlise psicolgica. Talvez no se preste totalmente, mas, at certo ponto, a referida abordagem  vivel. Segundo o consenso 
crtico, para Shakespeare, o paradigma desse relacionamento seria a ligao entre o prprio poeta e o jovem nobre que consta dos Sonetos, seja ele Southampton ou 
Pembroke.  absurdo dizer que Shakespeare  Falstaff; o papel no lhe caberia, nem mesmo no palco. Podemos imaginar Shakespeare como Antnio, em O Mercador de Veneza, 
se assim desejarmos,-  mesmo provvel que ele tenha representado tal personagem, bastante ciente das implicaes do mesmo. Mas a vivacidade e a reao sombria de 
Falstaff diante da ambivalncia de Hal remetem-nos aos Sonetos. E nunca 
demais lembrar que as qualidades mais marcantes em Falstaff so o seu assombroso intelecto e a sua exuberante vitalidade,- pelo que consta, esta ltima no constituiria 
uma caracterstica pessoal de William Shakespeare. Shakespeare faz com que Hal mate Hotspur no final da Primeira Parte de Henrique IV, mas Douglas no consegue 
matar Falstaff. Imaginem nossa reao, se o "escocs turbulento" tivesse estripado Sir John. Levamos um susto - e no s porque queremos ver preservada a Segunda 
Parte. O Eplogo da Segunda Parte promete o retorno de Falstaff, na pea que viria a se intitular Henrique V, promessa que Shakespeare, sabiamente, no cumpre, embora 
nada em Henrique V supere o relato da morte de Falstaff, segundo Mistress Quickly. O que aconteceria a Sir John, caso ressurgisse em Henrique V7 Seria enforcado, 
como o pobre Bardolfo, ou espancado, como
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o infeliz Pistola" Apesar do eventual mnto esttico de Henrique V, no Teatro da Mente, a pea no se sustenta to bem como as duas partes de Henrique IV Para quem 
tiver grande interesse na histria e na teoria da monarquia renascentista, Hmrujue Vexerce forte apelo cognitivo Mas o leitor e o espectador comum no costumam ser 
levados a profundas elucubraes sobre a Batalha de Agmcourt, em si, nem sobre suas causas e conseqncias O Rei Hennque V rumma a respeito das responsabilidades 
da monarquia e dos deveres dos sditos, mas a maioria de ns no faria isso Para muitos estudiosos, Falstaff  o emblema da auto-indulgncia, mas para a maioria 
dos leitores e espectadores Sir John representa a liberdade criativa, liberdade essa que se contrape ao tempo,  morte e ao Estado, condio com a qual tanto gostaramos 
de contar Se acrescentarmos a essas um quarto tipo de liberdade, poderamos denomin-la liberdade de conscincia, livre do superego e da culpa Sempre hesito ao singulanzar 
um nico ponto forte do talento infinitamente verstil de Shakespeare, mas, s vezes, penso que sua fora maior estava na confiana que depositava em seu pblico 
Uma pessoa define a si prpria ao reagir a Falstaff, ou  sua irm mais jovem, Clepatra, assim como o faz ao julgar (ou abster-se de faz-lo) a Mulher de Bath, 
cnada por Chaucer Os que no gostam de Falstaff amam o tempo, a morte, o Estado e a censura Decerto, tm a sua recompensa Quanto a mim, prefiro amar Falstaff, imagem 
da espintuosidade e da liberdade da linguagem Existe uma via mdia, trilha de um distanciamento com relao a Falstaff, que, no entanto, desaparece em uma boa montagem 
das duas partes de Henrique IV W H Auden percebeu a questo nitidamente
Ao assistir  pea, minha reao imediata  indagar o que Falstaff tem a ver com a mesma [   ] Enquanto a pea se desenrola, [a] surpresa d lugar a uma sensao 
de perplexidade, pois,  medida que conhecemos Falstaff, toma-se cada vez mais claro que o mundo da realidade histrica supostamente refletido na pea histrica 
no permite a presena de tal personagem
* A Mo do Artista Traduo de Jos Roberto O Shea So Paulo Editora Siciliano 1993, p  143 44 [N T]
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 possvel concordar com tais palavras e, mesmo assim, discordar de Auden, quando insiste que o nico mundo adequado a Falstaff  o da pera de Verdi  Estranhamente, 
Auden chama Falstaff de duende, no sentido ibsemano de Peer Gynt, mas isso  um equvoco Duendes so demonacos, so mais animalescos do que humanos, e Falstaff 
morre como um mrtir do amor humano, do afeto no correspondido que sente pelo Prncipe Hal, a quem ama como a um filho Mais uma vez, os que no gostam de Falstaff 
podem descartar esse amor, considerando-o grotesco ou interesseiro, mas, nesse caso, talvez seja melhor descartar, na ntegra, as respectivas peas No pretendo 
aqui vingar o destino de Falstaff, mas, para Shakespeare, sem dvida, o amor que o poeta sentia pelo jovem nobre dos Sonetos nada tinha de grotesco ou mteresseiro, 
e tal relacionamento parece mesmo servir de paradigma para o de Falstaff e Hal A personalidade de Shakespeare permanece um enigma, alguns de seus companheiros consideravam-no 
meigo e sincero, ainda que um tanto cruel em questes financeiras Outros, no entanto, consideravam-no ensimesmado, um pouco frio Talvez, como ser humano e como profissional, 
tenha mudado, ao longo de vinte e cinco anos de carreira, exibindo mesmo as caractersticas mencionadas com toda certeza, Shakespeare jamais interpretou no palco 
o papel de Falstaff, assim como jamais atuou como Hamlet  Quem sabe, representou o Rei Henrique IV, ou algum dos rebeldes mais velhos? Mas a exuberncia lingstica 
 to visvel na prosa de Falstaff como no verso de Hamlet Os que amam a linguagem amam Falstaff, e Shakespeare, nitidamente, amava a linguagem  O desembarao de 
Falstaff rene o floreio de Trabalhos de Amor Perdidos, a energia verbal agressiva de Faulconbndge, o Bastardo, e a exuberncia negativa de Shylock Depois da prosa 
de Falstaff, Shakespeare estava pronto para criar a prosa de Hamlet, rival dos versos do prprio Prncipe da Dinamarca
Menos de uma dezena (no mximo) de personagens shakespeananos se prestam  infinita reflexo Falstaff, Rosalinda, Hamlet, lago, Lear Edmundo, Macbeth e Clepatra 
Existe, tambm, uma grande galeria de outros personagens, menos profundos e enigmticos o Bastardo Faulconbndge, Ricardo II, Julieta, Bottom, Prcia, Shylock, Prncipe
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Hal/Hennque V, Bruto, Malvlio, Helena, Parolles,  Isabela, Otelo, Desdmona, o Bobo de Lear, Lady Macbeth, Antnio, Conolano, Timo, Imogma, Leontes, Prspero 
e Cahban   So duas dzias de grandes papis, mas no se pode dizer, com respeito a qualquer um deles, o que o Satans, de Milton, diz de si mesmo  "em cada fundo, 
abre-se um outro fundo" Os grandes viles shakespeananos - lago, Edmundo, Macbeth - inventaram o nnlismo ocidental, e cada um  um abismo em si mesmo  Lear e o afilhado 
Edgar so estudos sobre a dor e a tenacidade humanas, de tal profundidade que chegam a sugerir ressononcias crists em uma pea cuja ao se passa em uma era prcnst, 
paga  Mas Falstaff, Rosalmda, Hamlet e Clepatra so casos  parte na literatura mundial com eles Shakespeare, basicamente, inventa a personalidade humana como 
hoje a conhecemos e a valorizamos Nesse processo, Falstaff se destaca, no apreciar a sua grandeza pessoal, mais vasta at que sua sublime cintura,  descartar a 
maior das criaes de Shakespeare a inveno do humano
At que ponto devemos perscrutar o passado de Falstaff? A mferncia, conforme pensada, pela primeira vez, por Maunce Morgann, no sculo XVIII, e aperfeioada por 
A D Nuttall, na nossa era,  o mtodo que o prprio Shakespeare nos oferece Um dos aspectos menos discutidos da Segunda Parte de Henncjue IV  a sondagem sutil que 
a pea faz da juventude de Falstaff No se pode dizer que Shakespeare nos proporciona tudo o que sempre quisemos saber sobre a vida e a morte de Sir John Falstaff, 
mas dispomos de mais que o suficiente para apreciarmos a eminncia de sua personalidade Shakespeare no  melhor antroplogo do que o Prncipe Hal por ele criado 
a histria de Falstaff entremeia-se  dos Hennques, todas com caractersticas de saga Shakespeare coloca-nos uma questo quase desprovida de enunciado de que maneira 
comeou a amizade entre Hal e Falstaff"
Bem sei que os partidrios do suposto bom-senso vo considerar a minha pergunta extremamente irritante Mas no corro o menor risco de acreditar que Sir John fosse 
uma criatura de carne e osso, real como eu e o leitor Falstaff no teria muito valor, se no nos excedesse a todos
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em termos de vitalidade, exuberncia e espintuosidade  por isso que Nuttall, em parte, questionando Maunce Morgann,  to preciso
A objeo feita s especulaes de Morgann no  que Falstaff no tenha uma vida pregressa, mas que Shakespeare no nos oferea indicaes que tomem provveis as 
inferncias mais detalhadas do prprio Morgann
A questo-chave, ento,  afenr a quantidade e a extenso dessas indicaes, levando em conta (como o faz Nuttall) a noo de significado latente, de subsentido, 
proposta por Morgann
Se os personagens shakespeananos so inteiros e, por assim dizer, originais, ao passo que os de quase todos os demais autores so meras imitaes, talvez seja correto 
consider-los seres histricos e no dramticos, e, sempre que necessrio, avaliar-lhes a conduta a partir da integridade de seu carter, de princpios gerais, de 
motivaes latentes e polticas no explicitadas
Morgann invoca uma crtica shakespeanana de natureza experimental, que, infelizmente, se encontra a milhares de quilmetros da interpretao de Shakespeare que hoje 
predomina Leo Salingar, aliado de Nuttall entre os poucos defensores de Morgann, atualmente, segue indicaes de Shakespeare, no encalo de um Falstaff mais sombrio, 
do que na viso de Morgann, Hazlitt e A C Bradey Embora Salingar sugira que seja impossvel chegar a um consenso crtico com respeito a Falstaff (e  rejeio 
do mesmo por Hal), eu gostaria de delinear a viso mais abrangente do relacionamento entre Falstaff e Hal que Shakespeare nos permite inferir, desde as origens dessa 
amizade, to improvvel, at o momento em que Sir John  banido da presena real O que me faz retomar uma questo como chegar a uma explicao shakespeanana da escolha 
que faz o Prncipe Hal, ao escolher Falstaff, mentor nada convencional, como a alternativa que lhe propiciasse uma formao diferente daquela do pai usurpador"
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Quando o desafeto de Hal por Henrique IV  registrado pela primeira vez em Shakespeare, na terceira cena do quinto ato de Ricardo II, o nome de Falstaff no  mencionado. 
Presumivelmente, Falstaff  um dos "companheiros desregrados" de Hal, salteadores e freqentadores de tavernas. Uma vez que o Rei Ricardo II, naquele ponto da pea, 
ainda no foi assassinado, o distanciamento de Hal com relao ao pai s pode sugerir um meio de evitar a culpa pela usurpao, e no a culpa maior, pelo regicdio. 
Mas Hal, decerto, foge da ganoncia do pai pelo poder, impulso esse que o Prncipe tambm possui, de maneira que Hal reprime suas prprias ambies - ou estaria 
ele 
apenas adiando-as, por meio de um processo bastante consciente? Shakespeare oferece-nos evidncias mais do que suficientes de que, em parte, Hal  um hipcrita mais 
frio do que seu pai, Bolingbroke. Contudo, Hal  (ou toma-se) falstaffiano, no sentido mais profundo do termo: um gnio da linguagem e do controle de terceiros 
atravs da retrica e do msigbt psicolgico.
Falstaff  uma ultrajante verso de Scrates, mas, vale lembrar, Scrates representou tamanho ultraje a seus contemporneos que os levou a executarem-no. Existe 
um vnculo entre o Falstaff de Shakespeare e o Scrates de Montaigne, elo que pode configurar influncia direta, pois tudo leva a crer que Shakespeare teve acesso 
 traduo de Montaigne feita por John Florio, enquanto a mesma ainda se encontrava em manuscrito. Estudiosos identificam no relato da morte de Falstaff feito por 
Mistress Quickly, em Henrique V, aluso direta  narrativa da morte de Scrates, noFedro, de Plato. O Scrates de Montaigne assemelha-se a Falstaff no apenas na 
morte deste, e  possvel que o Prncipe Hal tenha algo de Alcebades, embora no do Alcebades mais tarde criado por Shakespeare em Timo de Atenas. Seria plausvel 
a objeo de que Falstaff ensina espirituosidade, ao passo que Scrates ensina sabedoria, mas a espirituosidade mundana de Falstaff  sbia, e Scrates , freqentemente, 
espirituoso.
Apesar de Hal, obsessivamente, acusar Falstaff de covarde, sustento a defesa da coragem de Falstaff apresentada porMorgann, uma coragem pragmtica que despreza as 
pretenses da modalidade de "honra" cultivada por Hotspur. A coragem sensata de Falstaff remete-nos  de Scrates, que sabia recuar com intrepidez. Tanto quanto 
Scrates,
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Falstaff permanece na luta somente enquanto v motivos para faz-lo, conforme Poins diz a Hal.
O paralelo mais genuno entre Falstaff e o Scrates de Montaigne  o contraste, em ambos, da deformidade exterior (fsica) com o gnio interior. Scrates, o heri 
de Montaigne em tantos de seus Ensaios,  particularmente elogiado nos dois ltimos: "Fisionomia" e "Experincia". Tudo indica que Shakespeare tenha lido "Fisionomia", 
pois o ensaio parece mesmo presente no discurso de Hamlet, e "Experincia", obraprima de Montaigne, tem um esprito profundamente shakespeariano. A feira de Scrates 
 invlucro que contm sabedoria e conhecimento, assim como o grotesco Falstaff, em termos de intelecto, supera todos os personagens shakespearianos, exceto Hamlet.
O Scrates de Montaigne , ao mesmo tempo, ctico e positivo, a tudo questionando, enquanto permanece firme em seus valores. Falstaff , ao mesmo tempo, um grande 
irnico, como Hamlet, e um grande vitalista, como o seria o mestre da negao, Hamlet, no fosse a interveno do fantasma. Em "Experincia", Montaigne diz ter um 
vocabulrio todo seu, e o mesmo pode ser dito de Scrates e Falstaff. Os trs - Montaigne, Scrates e Falstaff - so grandes educadores, por menos que os estudiosos 
reconheam tal caracterstica em Falstaff. Os trs ensinam a grandiosa lio da experincia: a capacidade divina de saber apreciar a vida condignamente.
Podemos deduzir, ento, que Hal veio a ter com Falstaff assim como Alcebades e tantos outros jovens (inclusive Plato) procuraram Scrates,- e o sbio desacreditado 
torna-se o verdadeiro mestre da sabedoria. Mas sobre a primeira fase, ou fases, de Hal em companhia de Falstaff pouco sabemos. A primeira vez que os vemos juntos 
no palco, Hal est na ofensiva, a ambivalncia de seus sentimentos com relao a Falstaff predomina em cada palavra. Sir John defende-se como pode, mas j percebe, 
tanto quanto o pblico, que a ambivalncia do Prncipe ser, para ele, fatal. Porm, implicitamente, a situao que naquele momento se apresenta  indcio de um 
relacionamento anterior, ntimo e importante, entre o Prncipe e o "cavaleiro avantajado". Mas somente da parte de Falstaff  mantido o afeto que caracterizava a 
amizade entre os dois,-
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e assim mesmo, por que Hal continua a procurar Falstaff? Evidentemente, o Prncipe tem uma necessidade de acusar Falstaff de covardia e demonstrar que no  apenas 
capaz de enfrentar o mestre, em termos de retrica, mas de super-lo
A interpretao de Falstaff desenvolvida por Wilham Empson  brilhante - e bastante prxima da de Morgann, Hazlitt, Bradey e Goddard, por mim aqui adotada Segundo 
Empson, Falstaff  um "cavalheiro escandaloso", remanejado a classes inferiores
Falstaff  a primeira grande piada feita pelos ingleses a respeito do seu prprio sistema de classes, um exemplo de que, em cavalheiros, o comportamento execrvel 
ser sempre desculpado - um simples vagabundo jamais seria to engraado
A idia me parece um tanto ou quanto limitada, mas contm a sensata convico de Empson, de que Falstaff representaria para Hal o mesmo que Shakespeare, uma espcie 
de Scrates, seria para o Conde de Southampton (ou qualquer outro nobre), uma espcie de Alcebades, pelo menos conforme a narrativa que pode ser depreendida dos 
Sonetos Sabemos que Shakespeare envidou esforos para garantir a ascenso social de sua famlia, e foi causticamente satirizado por Ben Jonson por ter conseguido 
um braso com o lema "No sem direito", transformado por Jonson em "No sem insistir", na pea Every Man Out o/His Humour (1599) Mas considerar Falstaff um exemplo 
de conscincia de classe social em Shakespeare, embora no seja um erro, ser, em ltima anlise, inadequado Na interpretao de Empson, Falstaff  um Maquiavel 
patritico, portanto, o preceptor certo do futuro Henrique V Indo mais alm, Empson vislumbra em Falstaff um lder de massas - carismtico, mescrupuloso, capaz de 
influenciar pessoas que pertencem a classes sociais inferiores  sua Isso no descentra, inteiramente, o magnfico Falstaff?
Os crticos costumam considerar Sir John um dos mestres da linguagem, mas a classificao est abaixo dele Falstaff  o verdadeiro rei da linguagem, inigualvel, 
seja no cnone shakespeanano, seja em toda a
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HENRIQUE  IV
literatura ocidental Sua prosa possui maleabilidade e eloqncia por demais atraentes, Samuel Johnson e Lady Bracknell (personagem da pea The Importance of Bemc) 
earnest, de Oscar Wilde) so legatnos dos estupendos recursos retricos de Falstaff Do que mais precisa um grande professor, alm de um intelecto aguado e uma 
linguagem  altura de seu intelecto" Em Henrique V, Fluellen, radiante, compara seu rei-heri a Alexandre, o Grande, e comenta que o ex-prncipe "expulsou o cavaleiro 
avantajado, que era repleto de graas e "pnncadeiras", chacotas e zombanas" - e Alexandre matou seu melhor amigo, Clito Fluelen engana-se na comparao, Falstaff 
no  Clito, mas preceptor do Prncipe Hal, assim como Aristteles foi preceptor de Alexandre A comparao com Aristteles  um acinte, mas  feita por Shakespeare, 
no por mim Qual seria a diferena entre Henrique IV e Henrique V" Falstaff, porque o cavaleiro avantajado, "repleto de graas e "pnncadeiras", chacotas e zombanas", 
ensina o filho a transcender, sem rejeitar, o pai taciturno e usurpador No  bem isso que Falstaff ensina a Hal, algum poderia, com toda razo, argumentar, mas 
Hal (por menos que eu goste dele), como aluno,  to brilhante quanto Falstaff, como professor Henrique V  naturalmente carismtico, mas aprende a utilizar o seu 
carisma com o desacreditado, e infinitamente talentoso, professor Uma das ironias mais cruis em Shakespeare  o fato de Falstaff causar a sua prpria destruio, 
no apenas por ensinar, mas por amar demais Henrique no ensina nem ama ningum,  um grande lder, hbil no poder, e destruir Falstaff no lhe causa um pingo de 
remorso
 possvel que a rejeio de Falstaff seja um reflexo profundo do sentimento de perda do prprio Shakespeare, trado pelo jovem dos Sonetos, de outro lado, enquanto 
Shakespeare expressa uma extrema ambivalncia com relao a si mesmo nos Sonetos, o amor-prprio, quase ingnuo, de Falstaff , nitidamente, parte do segredo da 
genialidade do "cavaleiro avantajado" Conforme Oscar Wilde, seu admirador, Sirjohn estava sempre certo, enganando-se somente com relao  sinceridade de Hal, assim 
como o sublime Oscar se enganou somente com relao ao Lorde Alfred Douglas, um narcisista, e poeta menor Antes da Batalha de Shrewsbury, Falstaff, provavelmente, 
o soldado mais velho e, sem
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dvida, o mais pesado que haveria de arriscar a vida no confronto, afirma, de maneira sensata e comovente "Desejara, Hal, que fosse hora de deitar e que tudo estivesse 
bem" O Prncipe retruca, implacavelmente "Ora, deves uma morte a Deus", e sai de cena Ainda sou capaz de ouvir a reao de Ralph Richardson, como Falstaff, diante 
da agressividade de Hal
A letra ainda no est vencida, repugna-me pag-la antes do termo Que necessidade tenho eu de ir ao encontro de quem no me chama? Bem, no importa  a honra que 
me incita a avanar Sim, mas, se a honra me levar para o outro mundo, quando eu estiver avanando" E ento? Pode a honra encanar uma perna? No Ou um brao? No 
Ou suprimir a dor de uma ferida? No Nesse caso, a honra no entende de cirurgia? No Que  a honra? Uma palavra Que h nessa palavra, honra? Vento, apenas Bela 
apreciao" Quem a possui? O que morreu na quarta-feira Pode ele senti-la? No Ou ouvi-la? No Trata-se, ento, de algo insensvel? Sim, para os mortos E no poder 
ela viver com os vivos? No Por qu? Ope-se a isso a maledicncia Logo, no quero saber dela a honra no passa de um escudo de porta de casa de defunto E aqui 
termina o meu catecismo
[V.]
Pode haver pblico que no aprenda aqui uma lio em qualquer sociedade que ainda alimente iluses de militarismo? Haveria alguma sociedade, passada ou presente, 
que a tal no se prestasse? Falstaff conforme o faz seu relutante admirador, Samuel Johnson, insta-nos a livrarmos nossas mentes de lamrias, sendo que Falstaff 
 ainda mais imune s iluses impostas pela sociedade do que Johnson Shakespeare pelo que podemos deduzir de sua vida e obra, tinha pavor  violncia inclusive  
violncia organizada que  a guerra Henrique V no chega a fazer a apologia da batalha, a questo  tratada com uma ironia sutil porm perceptvel "Honra"  conceito 
que pertence  esfera de Hotspur e de Hal, que mata Hotspur Partindo para a batalha, Hotspur brada
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"[   ] o ltimo dia / j est perto, morramos com alegria", enquanto Falstaff, no campo de luta, diz, "Dem-me vida"
Shakespeare confere a Sir John tamanha vitalidade que acaba por ter dificuldade (chegando mesmo a relutar) diante da idia de dar um fim ao cavaleiro avantajado" 
- que, a Shakespeare, no devia a morte Shakespeare  que devia a Falstaff, por dois motivos pela emancipao definitiva com respeito a Marlowe e por haver Falstaff 
feito dele o mais bem-sucedido dramaturgo elisabetano, ofuscando, portanto, Marlowe, Kyd e todos os rivais, inclusive Ben Jonson Ralph Richardson, h meio sculo, 
percebeu, claramente, que Falstaff possua uma presena de esprito extraordinria, e que era capaz de superar qualquer desafiante, at o terrvel momento em que 
 rejeitado por Hal Aos sessenta e sete anos, lembro-me, perfeitamente, da minha reao, aos dezesseis, quando o Falstaff representado por Richardson despertou-me 
para uma primeira compreenso de Shakespeare A atuao de Richardson continha a essncia da arte dramtica, em todos os sentidos, e o Falstaff por ele encenado (tivesse 
ele, ou no, conhecimento do fato) era o Falstaff vislumbrado por A C Bradey, estudioso, hoje em dia, absurdamente, depreciado, mas que continua a ser o melhor 
crtico de Shakespeare desde Wilham Hazlitt
A glria da liberdade obtida atravs do humor  a essncia de Falstaff Seu humor no  dirigido apenas, ou principalmente, ao absurdo bvio, Falstaff  inimigo de 
tudo que interfere com o seu conforto, portanto, de tudo que  srio, em particular, daquilo que  respeitvel e moral Tudo isso nos impe limites e obrigaes 
e nos faz sditos da lei, do imperativo categrico, de nosso status e nossos deveres, da conscincia, da reputao, da opinio de terceiros e de tantas outras bobagens 
Digo que Falstaff  inimigo de tudo isso mas, ao dize-lo, no lhe fao justia, afirmar que Falstaff se ope a tais questes implica a idia de que as leva a srio, 
que lhes reconhece a fora, quando, na verdade, sequer se d conta de sua existncia So, para ele, questes absurdas, e reduzir algo ad absurdum  reduzi-lo a nada, 
e sair a andar por a
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lpido e faceiro E isso que Falstaff faz (s vezes, por meio de palavras, outras, por meio de palavras e atos) com tudo na vida que tem pretenso  seriedade Falstaff 
faz a verdade parecer absurda, atravs de pronunciamentos solenes, ditos com ar solene, nos quais ele no espera que pessoa alguma acredite Faz o mesmo com a honra, 
demonstrando-a incapaz de encanar uma perna, e que nem os vivos nem os mortos podem possu-la, igualmente, faz a lei parecer absurda, pois consegue esquivar-se dos 
ataques do seu mais alto representante e quase o obriga a rir da prpria derrota, e o patriotismo, ao encher os bolsos com o suborno oferecido por soldados aptos 
que desejam escapar do servio militar, enquanto alista mancos, mutilados e criminosos, e o dever, desempenhando to bem a sua vocao - de ladro, e a coragem, 
seja zombando de ter capturado Coleville, seja afirmando ter morto Hotspur, e a guerra, ao oferecer ao Prncipe a garrafa de xerez, quando este lhe pede a espada, 
e a religio, ao se entreter com a idia de remorso quando se sente entediado, e o temor da morte, ao preservar, mesmo diante do perigo iminente, e mesmo quando 
sente medo de morrer, a capacidade de dissolver o medo na chacota de sempre, no conforto da taverna So esses os grandes feitos que Falstaff realiza, no com o 
azedume de um cnico, mas com a alegria de um menino Portanto, ser por ns elogiado, louvado, pois s ofende os poderosos, nega que a vida  real ou sria e livra-nos 
da opresso desses pesadelos, elevando-nos a uma atmosfera de liberdade total
Lembro-me de ter lido esse grandioso pargrafo de Bradey poucos meses depois de ter visto Richardson como Falstaff, e do impacto que me causou a constatao da 
proximidade que havia entre a interpretao do crtico e a do ator O Falstaff contemplado por Bradey no  idealizado, o crtico sabe muito bem que no estaria 
a salvo em companhia de Falstaff Mas sabe, tambm, que Falstaff nos ensina a no sermos moralistas A tardia defesa da coragem e da honra feita por Hal  um tanto 
moralista, assim como a apologia feita pelo Lorde Grande Juiz, Falstaff
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quer brincar como criana (no sentido de ingenuidade, no de tolice), algo que est alm da ordem moral Conforme diz Bradey, Falstaff recusa-se a reconhecer as 
instituies sociais da realidade, no  imoral nem amoral, mas pertence a uma outra ordem,  ordem do ldico Hal foi admitido  referida ordem como discpulo de 
Falstaff, nela permanecendo mais tempo do que teria pretendido A despeito de um sentimento de ambivalncia, supostamente, alimentado ao longo de toda a Primeira 
Parte de Henrique IV, Hal tenta resistir ao fascnio do grande companheiro Parece justo registrar que Falstaff cativa o relutante Prncipe pelas mesmas razes que 
domina qualquer platia (desde que o papel seja bem desempenhado)
A caracterizao de Falstaff na Segunda Parte de Henrique IV parece impulsionada por foras antitticas, talvez, com o propsito de nos preparar para a rejeio 
que Sir John sofre por parte de Hal Derrotando o Lorde Grande Juiz, o Prncipe Joo, a lei e o Estado, Falstaff  sagaz ao ignorar a esfera da "honra" Hal  o porta-voz 
da acusao de desonra feita contra Falstaff, e o faz com uma desenvoltura aprendida com o professor, embora a mdiciao no vingue O sublime Falstaff no  covarde, 
nem bobo da corte, nem vigarista, nem cafeto, nem um poltico como outro qualquer, nem oportunista, nem um bbado, ou aliciador de menores Falstaff, como j assinalei, 
 um Scrates ehsabetano, e no duelo verbal travado com Hal, o Prncipe  mero sofista, fadado a perder Falstaff, tanto quanto Scrates,  sabedoria, espintuosidade, 
autoconhecimento, domnio da realidade Scrates, tanto quanto Falstaff, foi desacreditado pelos que traficavam poder em Atenas, e que conseguiram conden-lo  morte 
Hal, que vislumbra a possibilidade de enforcar Falstaff, sem dvida, teria executado seu mentor em Agmcourt, se a brincadeira levada a cabo em Shrewsbury fosse ali 
repetida  Bardolfo que vai para a forca em lugar do mestre, e Sir John, velho e de corao partido, morre fora de cena, merecendo a elegia carinhosa de Mistress 
Quickly, com sotaque cockney
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Desejara que Shakespeare houvesse colocado Scrates em cena, em Timo de Atenas, ao lado de Alcebades, oferecendo-nos assim uma imagem posterior do relacionamento 
entre Falstaff e Hal Talvez Shakespeare achasse que o Falstaff por ele criado dispensasse o Scrates de Montaigne Uma escolha entre Falstaff e Scrates pode parecer 
algo ultrajante, considerando se a diferena de estilo observada nesses dois grandes iconoclastas Scrates com sua dialtica, e Falstaff com a perptua reinveno 
da linguagem Scrates provoca-nos com a verdade, Falstaff, um mestre da pardia, envolve-nos em jogos de palavras Os que o detestam insistem que o cavaleiro avantajado" 
se afoga no turbilho do prprio discurso Mas Sir John  um mestre da linguagem, assim como Hamlet e Rosalinda tambm o so O sagaz cavaleiro no  prisioneiro de 
seus fonemas Shakespeare confere a Falstaff um de seus grandes talentos a exuberante linguagem da sua prpna juventude, e no um estilo antiquado
Para Hal, ironicamente, Falstaff  "primavera retardada [ ] vero de Todos-os-Santos", algum que, sem sua exuberncia, jamais envelhece Assaltando viajantes, Falstaff 
grita "Ah, gusanos miserveis" Comedores de toicinho" Tm inveja de ns, por sermos moos"" E acrescenta, "Ns, os moos, tambm precisamos viver" Em desbragada 
pardia, Falstaff zomba da prpria velhice, e permanece na carreira militar (enquanto a mesma lhe interessa), carreira que ele despreza e prestigia, acima de tudo, 
matria potica para escrnio, seja da parte dele ou de terceiros "Para a guerra"", Hal conclama aos fanfarres de Eastcheap, tendo em mente, para Falstaff, planos 
especiais "you arranjar-lhe um lugar na infantaria, por saber que uma caminhada de cem passos liquidar com ele" E ao ser informado sobre o novo posto, Falstaff 
continua a gracejar "[ ] Deus seja louvado por causa desses rebeldes, s fazem mal aos virtuosos, eu [ ] os aprecio e aplaudo" "Encontrou no caminho a rebelio", 
diz Falstaff, resumindo a frmula da guerra civil Uma vez que o que est em jogo  o reino (e a vida), a resposta de Hal, um rosnado - "Empado, fica quieto"" -, 
no parece rspida demais Falstaff j no tem utilidade para um prncipe que pretende conquistar a "honra", a Inglaterra e a Frana, nessa seqncia
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Contudo, Falstaff  o poema de Shakespeare, longe de ser a expresso da desordem,  a essncia da arte dramtica shakespeanana o princpio ldico A natureza de Falstaff 
s ser subjugada ao ldico elemento sem o qual ele perece Trata-se do elo mais estreito entre o dramaturgo e o gnio cmico, e a grande teatncahdade de Falstaff 
profetiza Hamlet, o Duque Vicncio (de Medida por Medida), o sombrio lago e a gloriosa Clepatra, a mais legtima descendente de Falstaff Sempre autntico, Falstaff 
chega a superar Clepatra, quanto  sofisticada capacidade de improvisar, de representar um papel dentro do seu prprio papel dramtico, em uma cena que pressagia 
o confronto iminente entre o Rei Henrique IV e o prncipe Primeiro, Falstaff faz o papel do Rei, enquanto Hal faz o papel de si mesmo Parodiando o romance Eupbues, 
escrito por John Lyly vinte anos antes, Falstaff pouco revela do pai ou do filho, mas apresenta uma viso da sua prpna grandeza
FALSTAFF
[   ] Harry, no me causam apenas admirao os lugares em que perdes o tempo, como a espcie de gente de que te cercas Porque embora a camomila cresa tanto mais 
rapidamente quanto mais pisada for a mocidade se consome na medida em que  devastada Que s meu filho, convence-me em parte a palavra de tua me, em parte minha 
opinio pessoal, mas, principalmente, um maldito sestro que revelas nos olhos e essa maneira estpida de deixar cair o lbio inferior Sendo, pois, tu meu filho bato 
no ponto por que motivo, sendo tu meu filho, chegas a ser apontado desse modo? Deve, acaso, o bendito filho dos cus andar sem rumo pelos campos, a comer amoras? 
Eis uma pergunta que no pode ser formulada Deve o filho da Inglaterra proceder como qualquer ladro e batedor de carteiras? Eis uma pergunta que deve ser apresentada 
Existe uma coisa, Harry, de que j ouviste falar freqentes vezes e a que muitas pessoas de nossa terra do o nome de pez, esse pez, conforme o afirmam escritores 
vetustos, costuma sujar o mesmo se d com a companhia que freqentas Porque, Harry,
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neste momento eu no te falo sob a influncia da bebida, porm das lgrimas, no por prazer, mas indignado, no simplesmente com palavras, mas tambm com aflies 
Contudo, h um homem virtuoso que eu j vi em tua companhia, mas no sei como se chama PRNCIPE
A que espcie de homem se refere Vossa Majestade" FALSTAFF
A-la-f, um indivduo corpulento, de presena majestosa, semblante alegre, olhar prazenteiro, e ademanes nobres, que poder ter cinqenta anos ou talvez mesmo j 
se abeire dos sessenta Sim, agora me recordo chama-se Falstaff Se esse indivduo for inclinado  devassido,  que me iludiu redondamente, porque leio, Harry, virtude 
nos seus olhos Se se conhece a rvore pelo fruto, como o fruto pela rvore, declaro peremptonamente que h virtude nesse Falstaff Liga-te a ele e desterra os demais
[Il.v]
Falstaff, que vem sendo hostilizado por Hal, tem aqui um momento de triunfo, ainda que expresso em tom bem mais sutil do que o que reveste a agressividade destrutiva 
do prncipe O pai (monarca) e o filho (delinqente) so caracterizados como tolos (ainda que dotados de certo charme), ao passo que o Falstaff definido pelo prprio 
Falstaff surge  luz da noo de Swmburne sobre a sua "condio moral, possivelmente, elevada" Tudo isso  o ldico, no sentido mais puro e prazeroso, uma atividade 
que cura e restaura Como  diferente e ameaadora a verso de Hal, aps determinar que ele prprio h de representar seu pai, e Falstaff, o Prncipe
PRNCIPE
Ento, Harry, de onde vens" FALSTAFF
De Eastcheap, meu nobre senhor.
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PRNCIPE
So muito graves as queixas que ouo a teu respeito
FALSTAFF
corn a breca, senhor,  tudo mentira Longe disso, ides ver que maravilha de prncipe you mostrar-vos
PRNCIPE
Ests praguejando, mal-educado? De hoje em diante no levantes mais os olhos para mim Encontraste muito desviado do caminho da salvao, h um demnio que te persegue 
sob a figura de um velho gordo Tens por companheiro um tonei humano Por que freqentas esse ba de humores, essa tina de bestialidade, esse volume inchado de hidropisia, 
essa pipa monstruosa de xerez, essa maleta de intestinos, esse boi assado de Mannmgtree com o ventre recheado de pudim, esse vcio reverendo, essa iniqidade grisalha, 
esse padre alcoviteiro, essa vaidade encanecida" Para que presta ele, a no ser para provar xerez e beb-lo" Em que se mostra puro e limpo, seno em tnnchar um capo 
e devor-lo" Em que consiste sua habilidade, a no ser na astcia" Ou sua astcia, afora as vilanias" Em que  ele vil, se o no for em todas as coisas" E em que 
louvvel, se no em coisa nenhuma"
FALSTAFF
Desejara que Vossa Graa me permitisse acompanh-lo a quem Vossa Graa se refere"
PRNCIPE
A esse abominvel canalha, corruptor da juventude, Falstaff, esse velho Satans de barba branca
FALSTAFF
Conheo o homem, milorde
PRNCIPE
Sei perfeitamente que o conheces
FALSTAFF
Mas dizer que reconheo nele mais defeitos do que em mim mesmo, ser dizer mais do que sei Que infelizmente  velho,
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provam-no seus cabelos brancos, mas que seja, com perdo de Vossa Reverncia, libertino, nego-o de ps juntos Se xerez e acar constituem falta, que Deus perdoe 
aos que erram, se  pecado ser velho e alegre, nesse caso esto condenados muitos hoteleiros do meu conhecimento, se a gordura provoca dios, ento louvemos as vacas 
magras de Fara No, meu bom senhor, desterrai Peto, desterrai Bardolfo, desterrai Poms, mas quanto ao doce Jack Falstaff, o gentil Jack Falstaff, o verdadeiro 
Jack Falstaff, o valente Jack Falstaff, e tanto mais valente por tratar-se do velho Jack Falstaff, esse no desterreis da companhia do teu Harry desterrai o gordanchudo 
Jack e tereis desterrado o mundo inteiro1 PRNCIPE
F-lo-ei, quero-o
[H.iv]
Temos aqui o cerne da Primeira Parte de Henricfue IV, um momento intenso que expressa a espintuosidade pungente de Falstaff e a frieza da fria de Hal A ambivalncia 
d lugar ao dio, nas palavras de Hal "esse abominvel canalha, corruptor da juventude, Falstaff, esse velho Satans de barba branca" O Prncipe no est encenando 
um papel, e fala de todo o corao  Como explicar essa injusta maldade, esse exorcismo que vai alm da rejeio? Em qual descrio devemos acreditar, na de Hal, 
que fala em "velho Satans de barba branca", ou na de Sir John, que nos faz contemplar um "doce Jack Falstaff, o gentil Jack Falstaff, o verdadeiro Jack Falstaff, 
o valente Jack Falstaff, e tanto mais valente por tratar-se do velho Jack Falstaff"? A linguagem de Hal  to exacerbada que no nos deixa escolha Eterno aluno de 
Falstaff, o Prncipe recorre a um insulto digno do velho professor "esse boi assado de Mannmgtree com o ventre recheado de pudim", embora a ofensa no tenha a classe 
das palavras de Falstaff "se a gordura provoca dios, ento louvemos as vacas magras de Fara" Nenhum detrator de Falstaff, seja de correntes antigas ou novas, sente 
tamanha averso por Sir John como Hal Mencionei, anteriormente, a noo de Honigmann de que Shakespeare
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no nos permite deslindar a complexidade psicolgica do relacionamento entre Falstaff e Hal, todavia, embora complicada, a questo no  de todo mescrutvel Hal 
deixa de amar Falstaff ris Murdoch considera essa uma das experincias humanas de maior intensidade, que faz uma pessoa encarar o mundo com outros olhos "Desperto, 
renego do meu sonho", afirma um virtuoso, recm-coroado Henrique V Na verdade, ele esteve desperto desde sempre, desde o incio da Primeira Parte de Henrique IV, 
ao manifestar trs aspiraes de igual magnitude esperar a morte de Henrique IV (o quanto antes melhor), matar Hotspur e apropriar-se de sua "honra", e enforcar 
Falstaff Por pouco ele no manda Falstaff para a forca, e s no o faz porque considera mais apropriado dar cabo do velho pilantra por meio de uma marcha forada 
ou at (honrosamente) em um campo de batalha Sir John j no exerce qualquer funo educacional, mas teima em sobreviver, conforme demonstra a grande Batalha de 
Shrewsbury, muito mais empolgante do que Agincourt - sem Falstaff - viria a ser
O escrnio de Shakespeare com relao  matana na guerra aparece em vrias peas, jamais, porm, de modo to contundente como no atrevimento do desprezo expresso 
por Falstaff em Shrewsbury
PRNCIPE
Ests parado? Empresta-me a tua espada Muitos nobres
tombaram duros e hirtos sob os cascos do inimigo jactancioso,
sem serem vingados D-me a tua espada FALSTAFF
Oh Hali Por piedade, deixa-me respirar um pouco O turco
Gregno jamais realizou as faanhas guerreiras que eu fiz hoje.
Justei contas com Percy, pu-lo em lugar seguro PRNCIPE
No duvido que o esteja, encontra-se vivo para matar-me
Vamos, empresta-me a tua espada FALSTAFF
No" Por Deus, Hal, se Percy ainda est com vida, no ters a
minha espada, mas, caso queiras, pode levar a minha pistola
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PRNCIPE
Pois seja Mas, que vejo" Ainda se encontra no estojo FALSTAFF
Sim, Hal, est quente, dar para engarrafar uma cidade
(O prncipe arranca do estojo uma garrafa de xerez ) PRNCIPE
Como" Isto  hora de brincadeiras e de galhofas?
(Atira-lhe a garrafa e sai) FALSTAFF
Est bem, se Percy ainda vive, you fur-lo, bem entendido, no caso de atravessar-se ele em meu caminho, porque no caso de eu ir, por minha vontade, ao seu encontro, 
pode ele reduzir-me a carne assada No me agrada absolutamente a honra careteira que adorna Sir Walter Dem-me vida" Se puder conserv-la, bem, se no, a glria 
vir sem ser chamada E com isso chegamos ao fim
(S,)
[V,,,]
De certa maneira, Falstaff revida aqui as inmeras acusaes de covardia que lhe imputara Hal, mas esse momento  de uma sutileza que transcende a questo do relacionamento 
desgastado Tendo "marchado"  frente dos seus cento e cinqenta homens, levando-os  destruio quase total, Falstaff, alvo to fcil, escapa ileso e no h de poupar 
de sua sublime chacota a matana absurda O grande desprezo que sente pela "honra" de Hotspur permite-lhe correr o risco de substituir a pistola a que seu posto lhe 
d direito por uma garrafa de xerez Passado meio sculo, ainda trago comigo a imagem de Ralph Richardson, esquivando-se, com um sorriso, da garrafa arremessada 
por Hal, e do gesto expressivo, indicando ser aquele o momento ideal para uma brincadeira" Existiro, em todo o cnone shakespeanano, palavras mais propcias do 
que "No me agrada absolutamente a honra careteira que adorna Sir Walter Dem-me vida"? Para Falstaff, a Batalha de Shrewsbury toma-se uma ensandecida praa esportiva, 
como no momento em que Sir John,
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HENRIQUE  IV
ironicamente, torce pelo Prncipe durante o duelo com Hotspur A energia de Shakespeare chega ao mximo quando o enfurecido Douglas avana contra Falstaff, obrigando-o 
a lutar O ardiloso Falstaff cai e se faz de morto, no momento em que Hal fere Hotspur mortalmente Enquanto nos perguntamos o que Hotspur, agonizante, poderia "profetizar" 
(a vaidade da "honra"?), Shakespeare permite a Hal um grande momento, em que o Prncipe acredita estar diante do cadver de Falstaff
Um velho conhecido" Tanta carne no reteve um pouquinho s de vida" Adeus, meu pobre Jacki Melhor fora se eu tivesse poupado meu melhor homem Perder-te me pesara 
hoje, em verdade, se afeioado ainda eu fosse da vaidade Muitos corpos a Morte hoje h colhido, mas nenhum como o teu, gordo e querido you mandar estnpar-te, at 
que o faa, de Percy jaze no cruor, na graa
(Sai)
[Viv]
Os versos acima no expressam ambivalncia, antes, revelam a realeza de Henrique V, que toma forma em Shrewsbury "Adeus, meu pobre Jack""  a expresso de dor mais 
autntica que o belicoso Harry  capaz de pronunciar para o apstolo da Vaidade", frvolo a ponto de brincar e fazer palhaada em um campo de batalha consagrado 
ao Rei Como epitfio a Falstaff, as palavras sequer tm a dignidade de serem absurdas, e encontram uma resposta  altura na ressurreio da "imagem da vida [representada] 
corn verdade e perfeio", do esprito imortal que vale por mil Hals Eis a glria da inveno do humano realizada por Shakespeare
FALSTAFF
Estripar-me" Se me estnpares hoje, consinto em que amanh
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me salgues e depois me comas com os demnios" J era tempo de fingir de morto, antes que esse escocs turbulento me livrasse das dvidas Fingir, minto, no fingi 
coisa alguma Morrer  que  fingimento, porque quem no tem vida de homem, no passa de fingimento de homem, mas, fingir de morto para conservar a vida, no  fingir 
a imagem da vida, seno represent-la com verdade e perfeio A prudncia  a parte melhor do valor, salvei a vida, graas a essa parte melhor com a breca" Apesar 
de morto, esse Percy plvora de canho me mete medo E se ele tambm estivesse fingindo e se levantasse agora? Receio bem que saiba fingir melhor do que eu Por isso 
mesmo, you p-lo em lugar seguro, sim, e hei de jurar que o matei Por que motivo no poder ele levantar-se to bem como eu o fiz? S poderiam contestar-me se me 
vissem, o que no acontece neste momento Por isso, amigo - (d-lhe uma punhalada) - vinde comigo com mais este ferimento na perna
[V.v]
Ver Richardson levantar-se do cho era ter o prazer de contemplar a representao secular da ressurreio mais jocosa da histria do teatro, O Despertar de Falstaff 
seria um ttulo bastante propcio para a Primeira Parte de Henrique IV Difamado, ameaado de enforcamento, odiado (pelo Prncipe), tendo antes sido amado, o grande 
pria levanta-se em carne e osso, tendo driblado a morte  Como imagem verdadeira e perfeita, Falstaff, no entendimento do crtico cristo W H Auden, seria uma espcie 
de Cristo, mas j basta ao personagem ser Falstaff, que zomba da "honra" hipcrita, que parodia a matana "nobre", que desafia o tempo, alei, a ordem e o Estado 
Falstaff  irreprimvel -e est certo, conforme apontou Harold Goddard - ao afirmar ter sido ele que matou o esprito de Hotspur  No  a espada de Hal que d cabo 
de Hotspur, se imaginarmos Hotspur em qualquer pea que no conte com a presena de Falstaff, Hotspur exerceria sobre ns grande fascnio, mas, diante da luz exuberante 
projetada pela cognio de Falstaff, Hotspur no passa
386
HENRIQUE  IV
de mais um falsrio Os que veneram Shakespeare deveriam manifestar sua Bardolatna celebrando a ressurreio de Sir John Falstaff Deveria ser institudo, ainda que 
em carter no-oficial, um feriado internacional, um grande festival da espintuosidade, com apresentaes simultneas da Primeira Parte de Henrique IV Sena o dia 
da renncia  ambio poltica,  hipocrisia religiosa e  falsa amizade, e, nesse dia, traramos garrafas de xerez nas nossas cartucheiras
Os defensores de Falstaff, menosprezados e tachados de "sentimentais" por crticos infelizes, so, na verdade, uns apaixonados, e sabem que o conhecimento de Falstaff 
 a verdadeira cincia das solues imaginrias Para Alfred Jarry, autor de Ubu Rei, a Paixo  uma Corrida de Bicicleta Morro Acima A Segunda Parte de Henrique 
IV  a Paixo de Str John Falstaff, cujo protagonista  levado, com grande exuberncia,  humilhao e  destruio, por um hipcrita de temperamento agressivo, 
o recm-coroado Henrique V Os que no aceitam essa interpretao, sem dvida, tero alguma recompensa, pois estaro do lado do Lorde Grande Juiz, no momento em que 
este humilha e censura Falstaff que, apesar de se defender bem, acaba sendo levado  priso, onde ao Lorde Juiz caber a ltima palavra Shakespeare poupa-nos da 
tristeza que seria a audincia com o Lorde Juiz, podemos, talvez, conjeturar que Shakespeare poupou a si mesmo, pois nenhuma experincia resta a Falstaff, exceto 
a bela cena de sua morte, no relato de Mistress Quickly e dos que a ele sobrevivem, em Henrique V
Falstaff, ainda glorioso quando da primeira vez que o encontramos na Segunda Parte de Henrique IV, discute sua idade com o Lorde Juiz O trecho  memorvel
FALSTAFF
[   ] Os velhos como vs no percebem as faculdades que ns, moos, possumos, calculais o valor de nosso fgado pelo amargor de vossa bile, e ns, que nos encontramos 
na
387
#. ."iv^LU  BLOOM
vanguarda da mocidade, foroso ser confessar, somos por vezes bem marotos. LORDE JUIZ
Inscreveis o vosso nome na lista da juventude, assinalado, como o estais, com os caracteres da velhice? No tendes olhos midos, mos secas, faces descoradas, barba 
branca, pernas cada vez mais curtas, ventre a aumentar sempre de volume? No tendes a voz entrecortada, o flego curto, o queixo duplo, o esprito simples, todas 
as vossas faculdades, em suma, estragadas pelo tempo? E apesar de tudo, vos chamais de jovem. Ora, Sirjohn! FALSTAFF
Milorde, eu nasci por volta das trs horas da tarde com a cabea branca e o ventre um tanto crescido. Quanto  minha voz, estraguei-a  fora de cantar no coro. 
No vos apresentarei outras provas de minha juventude/ a verdade  que s sou velho no juzo e no entendimento/ quem quiser apostar cabriolas comigo, por mil marcos, 
 s passar-me o dinheiro e cuidar de si.
..
Mesmo aqueles que desaprovam a conduta moral de Falstaff ho de convir que s uma pessoa totalmente desprovida de sensibilidade no se renderia ao charme das palavras 
"Milorde, eu nasci por volta das trs horas da tarde com a cabea branca e o ventre um tanto crescido". Mas Shakespeare ir mostrar a ao desgastante do tempo 
sobre Falstaff, no pathos de seu desejo senil por Doll Tearsheet:
FALSTAFF
Teus beijos so aduladores. DOLL
Juro que te beijo de todo o corao. FALSTAFF
Estou velho! Estou velho!
388
HENRIQUE  IV
DOLL
Quero-te mais do que a todos esses casquilhos. FALSTAFF
De que fazenda desejas o saiote? Receberei dinheiro na
quinta-feira, amanh ters o gorro. Vamos, uma cano alegre!
Est ficando tarde,-  hora de deitar,- quando eu for embora, tu
nem te lembrars de mim.
[Il.iv.]
Os gracejos sobre provas de juventude capitulam diante das palavras "Estou velho! Estou velho!", no grande paradoxo desse vitalista exaurido, prestes a ser arrastado 
de volta  guerra civil, por uma dzia de capites suados. Nas incrveis esquivas de Falstaff, ao se defender das piadas maldosas de Hal, contemplamos a figura impressionante 
de um velho guerreiro, ainda capaz de prestar servio militar, por mais que relute em faz-lo. Ao se deparar com o rebelde Colevile, Falstaff, sempre pragmtico, 
indaga: "Ides render-vos, senhor, ou ser que terei de suar por vossa causa?" Colevile rende-se, mas, claro est, Falstaff haveria de suar para derrotar ou mesmo 
matar Colevile, se fosse necessrio. No entanto, Falstaff zomba de sua prpria faanha ao capturar Colevile: "[...] tu, como bom camarada, te entregaste de graa,- 
agradeo-te a pessoa". Nesse mesmo esprito, Falstaff insiste ter sido ele - no Hal - que desferiu o golpe mortal, embora no no sentido literal. Hotspur, dotado 
de coragem absurda e vido de morte,  uma das antteses de Falstaff,- a outra  Joo de Lancastre, o beligerante irmo caula de Hal, que, ao lado de Hal e do Lorde 
Juiz, ameaa enforcar Sirjohn. Lancastre, "moo de sangue frio", leva Falstaff  clebre rapsdia sobre as virtudes de beber xerez, mas leva-nos a perceber a infelicidade 
que foi o envolvimento do sublime Sir John com a famlia real.  medida que aumentam as indicaes da iminente rejeio que Falstaff sofrer da parte de Hal em 
A Segunda Parte de Henrique IV, Shakespeare nos distrai (e distrai-se a si mesmo) com as cenas de Falstaff e os dois juizes rurais, Shallow e Silncio (ato in, 
cena ii, e ato V, cenas i e in). Kenneth Tynan observou, corretamente, que "Shakespeare jamais superaria as referidas cenas, em
389
#HAROLD  BLOOM
termos de naturalismo puro" A insensatez de Shallow estabelece um contraste delicioso com a espintuosidade de Falstaff, especialmente quando Shallow, cujo nome 
vem bem a calhar,* tenta resgatar momentos vividos ao lado de Falstaff 55 anos antes
SHALLOW
Ah, primo Silncio, se tivsseis visto o que eu e este cavaleiro
vimosi No  verdade, Sir John" FALSTAFF
Ouvimos os carnlhes da meia-noite, mestre Shallow
[in H ]
A resposta seca esconde a determinao de Falstaff de espoliar esse ingnuo homem do campo, o que Sir John far em grande estilo Shallow  Hotspur s avessas, conforme 
magistralmente demonstrado por Laurence Ohvier, ao representar Hotspur, na matin, e Shallow,  noite, na montagem das duas partes de Henrtcjue IV, realizada no 
teatro Old Vic, em 1946 O eloqente espadachim transformava-se no "rabanete partido", enquanto Richardson mantinha sua exuberante espintuosidade, na matin e  noite, 
desafiando a prpria destruio, para, finalmente, ser alvo da inevitvel traio de Hal, que, praticamente, o condena  morte
Sirjohn Falstaff  o maior vitalista criado por Shakespeare, no entanto, embora no seja, absolutamente, o mais intenso dos niilistas shakespeananos, possui uma 
veia niilista bastante mordaz com efeito, o nnlismo de Falstaff, a meu ver, constitui a verso de cristianismo abraada por Sir John, e contribui para a explicao 
do elemento mais sombrio do personagem a obsesso do mesmo com a idia de rejeio, concretizada, de maneira arrasadora no fim da Segunda Parte de Henrique IV
* Em traduo  raso, fnvolo nscio  [N T]
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HENRIQUE  IV
 a imagem de rejeio, e no de condenao eterna, que justifica as freqentes aluses feitas por Falstaff  assustadora parbola do gluto vestido de prpura e 
Lzaro, o mendigo, contada por Jesus, em Lucas
16 19-26
Havia um homem rico que se vestia de prpura e linho fino, e cada dia se banqueteava com requinte Um pobre chamado Lzaro, jazia  sua porta, coberto de lceras 
Desejava saciar-se do que caa da mesa do rico E at os ces vinham lamber-lhe as lceras Aconteceu que o pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abrao 
Morreu tambm o rico, e foi sepultado No inferno, em meio a tormentos, levantou os olhos e viu ao longe Abrao e Lzaro em seu seio Ento exclamou "Pai Abrao, tem 
piedade de mim e manda que Lzaro molhe a ponta do dedo para me refrescar a lngua, pois estou torturado nesta chama" Abrao respondeu "Filho, lembra-te que recebeste 
teus bens em vida, e Lzaro por sua vez os males, agora, porm, ele encontra aqui consolo e tu s atormentado E alm do mais, entre vs e ns existe um grande abismo, 
de modo que aqueles que quiserem passar daqui para junto de vs no podem, nem tampouco atravessarem os de l at ns "
Falstaff faz trs aluses diretas a essa terrvel parbola, a meu ver, temos uma quarta referncia, indireta, quando Sir John, de joelhos,  rejeitado por Henrique 
V, trajando prpura real, e, ainda, uma quinta, quando a Estalajadeira, ao descrever a morte de Falstaff em Henrique V (pea na qual a sua presena  vetada), garante 
que Sir John est "no seio de Artur", claramente, um substituto britnico para Pai Abrao Sem dvida, Henrique V permitia a Falstaff saciar-se com o que caa da 
mesa real, mas a refeio  feita no presdio, sob as ordens do Lorde Grande Juiz Se os Sonetos merecem crdito, Shakespeare sabia o que era ser rejeitado, embora 
eu no pretenda aqui sugerir qualquer afinidade entre o criador de Falstaff e o personagem Intrigam-me, no entanto, as possveis afinidades entre o Prncipe Hal 
e o Conde de Southampton,
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#HAROLD  BLOOM
nenhum dos dois tendo merecido estar no seio de Abrao  Que interpretao daria Sir John  parbola do rico e do mendigo"
A primeira aluso feita por Falstaff  parbola  a mais rica e ousada, comeando como uma reflexo sobre o nariz avermelhado de Bardolfo, o que o faz merecer o 
apelido "Cavaleiro da Lmpada Ardente" Ao que Bardolfo se queixa "Ora, Sir John, minha cara no vos faz nenhum mal" A resposta de Falstaff  de arrasar
E certo, posso jur-lo, tiro dela o mesmo proveito que para algumas pessoas tem um crnio ou um memento mon, sempre que olho para teu rosto, me lembro do fogo do 
inferno e do rico que vivia na prpura, ali est ele, de fato, com suas vestes, ardendo, ardendo Se revelasses um esprito de virtude, eu juraria pelo teu rosto 
da seguinte maneira Por este fogo divino" Mas ests perdido de todo, a no ser pela luz que irradias do rosto, podenas ser considerado filho das trevas Quando subias 
Gadshill, a correr, de noite, para pegar o meu cavalo, se eu no te tomei por um rgms fatuus ou uma bola de fogo de artifcio, ento o dinheiro j no tem valor 
s um triunfo perptuo, uma fogueira perene J me poupaste uns mil marcos de cnos e tochas, por andares comigo de taberna em taberna, mas o xerez que me chupaste 
daria para comprar luz do mais careiro fabricante de vela de toda a Europa H trinta e dois anos que eu alimento o fogo dessa salamandra Que Deus me recompense por 
isso
[in m ]
"Ali est ele, de fato, com suas vestes, ardendo, ardendo" no podemos deixar de perceber que o prprio Falstaff  um gluto, mas no creio que devamos levar a 
srio o receio de Falstaff com relao ao fogo do inferno, tampouco podemos identificar Bardolfo com o Fogo Divino Sir John subverte as Escrituras, assim como 
subverte tudo o que o oprime o tempo, o Estado, a virtude, o conceito corts de "honra", bem como qualquer noo de ordem A brilhante fantasia sobre o nariz de Bardolfo 
impede-nos de admirar a aludida parbola, to pouco
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HENRIQUE  IV
caracterstica de Jesus Como pode a ameaa retrica que implica o fogo do inferno competir com a extasiante metamorfose do nariz de Bardolfo, que vai, de um memento 
mon, a Fogo Divino, a tjnis fatuus, a fogo de artifcio, a fogueira, a tocha, terminando como uma salamandra em fogo, sete variaes que ofuscam o fogo que consta 
da parbola de Jesus" Falstaff, o maior criador de prosa potica em Shakespeare, salta de metfora em metfora, para nos fazer lembrar, implicitamente, que a imagem 
expressa nas palavras "ardendo, ardendo"  metafrica, embora se trate de uma metfora que o prprio Sir John esteja sempre a desafiar E ele retoma essa imagem ao 
acompanhar seus recrutas ao fogo do inferno que ser a Batalha de Shrewsbury "Uns pobres-diabos to esfarrapados quanto Lzaro dos panos de decorao, a quem os 
cachorros do gluto lambem as chagas "
Por que a aluso ressurge nesse contexto" Hal, observando as tropas de Falstaff, comenta "Nunca vi chusma mais miservel", ao que Falstaff responde "Ora, ora" Bons 
de sobra para serem espetados Carne para canho Sabero encher um fosso to bem como os melhores Pois , amigo   homens mortais, homens mortais" Sena mais digno 
espetar indivduos mais bem alimentados e vestidos" A afirmao no poderia ser mais reveladora   os recrutas de Falstaff tm todas as qualidades necessrias carne 
para canho, corpos para encher um fosso, homens mortais que esto ali para serem mortos, apenas para serem mortos, tanto quanto os que lhes so superiores, cuja 
"honra careteira" o Prncipe Hal h de valorizar Falstaff alistou os mais pobres, como o mendigo Lzaro, em contraste com o gluto em prpura, por ele chamado de 
Dives, nome que no consta nem da Bblia de Genebra nem da Bblia na verso encomendada pelo Rei Jaime Dificilmente, Shakespeare ou Falstaff teriam lido Lucas em 
latim, em que o "homem rico"  um dwes, palavra que, em latim, quer dizer "rico", na verdade,  poca de Shakespeare, Dives era nome comum, encontrado desde Chaucer 
na lngua corrente Sir John, aps isentar do servio militar, mediante suborno, os abastados, rene um belo grupo de Lzaros, que sero espetados e espedaados no 
servio dos dois Hennques, o pai e o filho Porm, de acordo com a sua personalidade carismtica, Falstaff, marchando com
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#HAROLD  BLOOM
uma garrafa de xerez na cartucheira, observa "Deixei os meus farrapos de gente onde os apimentaram a valer dos cento e cinqenta, escaparam apenas trs, e assim 
mesmo em condies de s prestarem para mendigar o resto da vida nas portas da cidade" Falstaff realiza tudo o que dele podemos esperar, homem mortal, ele marchou 
 frente de seus Lzaros, arriscando-se ao lado deles em meio ao fogo cruzado O desprezo demonstrado por Sir John com relao  empreitada em si  sua grande ofensa 
contra o tempo e o Estado, o momento menos hipcrita de Hal  aquele em que grita com Falstaff "Como1 Isto  hora de brincadeiras e de galhofas?", enquanto atira-lhe 
a garrafa que acabara de lhe arrancar da cartucheira em que esperava encontrar uma pistola
A ltima aluso direta feita por Falstaff a Dives carece de qualquer referncia a Lzaro, sendo dirigida a um alfaiate que lhe recusa crdito "Pois que seja condenado 
como um gluto rico, e que a lngua se lhe tome ainda mais quente1" Visto que Falstaff est sempre teso, nem ele prprio nem ns o associamos a Dives E cruel a 
ironia de que Sir John acabe seus dias como Lzaro, rejeitado pelo novo Rei, de modo a ser admitido ao "seio de Artur", e, sem sombra de dvida, Shakespeare no 
concordaria muito com a maioria dos crticos modernos, praticamente, unonimes ao considerarem justificada a rejeio de Falstaff, b esprito da desordem"   Esto 
redondamente enganados com respeito a essa grande representao da personalidade humana, e retomo aqui a parbola de Jesus, pela ltima vez A interpretao implcita 
dada por Falstaff ao texto  niilista seremos condenados, como Dives, ou salvos, como Lzaro, anttese na qual perdemos o mundo que h de vir ou o mundo em que vivemos 
Emerson dizia   "Outro mundo7 No existe outro mundo, o mundo  aqui e agora" Falstaff  bastante pragmtico para concordar com Emerson, e no encontro em Shakespeare 
qualquer indicao de que desejasse reunir-se com Falstaff no seio de Artur, ou com Lzaro no seio de Abrao Falstaff  o poeta da prosa que valoriza o "aqui e 
agora", e creio que, para Sir John, o "aqui e agora"  o que chamamos de "personalidade", em vez de "personagem"
 extremamente difcil, mesmo doloroso, deixar Falstaff, pois nenhum outro personagem literrio - nem mesmo Dom Quixote ou Sancho
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HENRIQUF  IV
Pana, tampouco Hamlet - parece-me to infinitamente capaz de instigar o pensamento e provocar emoo  Falstaff  um milagre na criao da personalidade, e seus 
enigmas equiparam-se aos de Hamlet Ambos tm, acima de tudo, uma voz absolutamente individual, nenhum outro personagem da literatura ocidental a eles se equipara 
em domnio de linguagem A prosa de Falstaff e o verso de Hamlet oferecem-nos uma msica cognitiva capaz de nos extasiar e de conduzir a nossa mente aos limites da 
reflexo  Ambos esto alm da nossa mais elevada reflexo, e possuem uma imediao que, no sentido pragmtico, constitui uma presena real, o que, segundo a maioria 
dos atuais tericos e idelogos, a literatura no pode sequer insinuar, quanto mais suster Mas Falstaff persiste, tendo j se passado quatro sculos, e h de persistir 
por sculos vindouros, quando os sabiches e recalcados hoje em voga carem no esquecimento Samuel Johnson, o melhor e o mais moral dos crticos, amava Falstaff 
quase que a contragosto, em parte porque Sir John era imune  linguagem afetada, mas, principalmente, porque a alegria do cavaleiro avantajado" era contagiante e 
conseguia espantar, ainda que por pouco tempo, a terrvel melancolia de Johnson Schlegel, apesar de sua seriedade germnica, observou, com perspiccia, a falta 
de malcia em Falstaff, mas deveria ter ido mais adiante e frisado que Sir John , tambm, desprovido de censura, livre do que Freud chamaria ubericb, o superego 
Todos ns batemos no prprio peito, Falstaff, sensato e sagrado, no o faz, e insta-nos a imit-lo Falstaff nada tem da selvagena de Hamlet, ou de Hal
Falstaff tem a Bno, no sentido original de Jav mais vida Todas as contradies de sua complexa natureza elucidam-se na exuberncia do seu ser, na paixo pela 
vida Muitos de ns nos tomamos mquinas, no cumprimento de nossas responsabilidades, Falstaff  a nossa reprimenda mais contundente e eficaz Estou ciente de que 
cometo o Pecado Original denunciado pelos histoncistas - de todas as geraes -, e pelos formalistas tambm exalto Falstaff alm do mbito das peas em que ele figura, 
nas duas partes de Henncjue IV e no relato de sua morte, segundo Mistress Quickly, em Henrique V Tal pecado, tanto quanto a Bardolatna, para mim, sugere a salvao 
No importa o nmero de
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#HAROLD   BLOOM
vezes que eu releia as obras de Shakespeare, ou que as analise em sala de aula, ou me submeta ao que hoje passa por montagem teatral, como qualquer outra pessoa, 
restam-me lembranas, de linguagem ou imagens, ou mesmo de uma determinada imagem. Enquanto escrevo este texto, surge diante de mim o Falstaff criado por Richardson, 
imagem da perfeio no processo de composio de um grande papel shakespeariano. Porm, tanto quanto Hamlet, Falstaff  mais do que um papel. Hamlet e Falstaff tomaram-se 
a nossa cultura.
O que podemos fazer com personagens literrios e dramticos que so verdadeiros gnios? De um lado, pouco sabemos sobre a pessoa de Shakespeare,- de outro, somos 
capazes de depreender que o dramaturgo investiu muito de si em Hamlet e em Falstaff. Ambos so enigmticos, alm de adeptos da auto-revelao, e jamais conseguimos 
precisar o ponto em que, subitamente, o mistrio envia-nos um sinal. Hamlet, conforme j argumentei, parece, s vezes, uma pessoa "de carne e osso" cercada de atores,- 
 de uma profundidade mpar, comparado aos que esto  sua volta. Em contrapartida, Falstaff pode parecer um grande ator, um Ralph Richardson, cercado por meras 
pessoas "de carne e osso", visto que at mesmo Hotspur e Hal so banais quando contracenam com Falstaff. O duelo entre os dois  uma espcie de digresso, pois 
o que nos interessa  o que Falstaff dir em seguida. Quando Douglas ataca Falstaff, nossa vontade  que o escocs brigo faa logo o que tem de fazer e saia de 
cena, para podermos apreciar a ressurreio de Falstaff. O maior tributo que Shakespeare confere a Falstaff, desmentindo a prpria promessa feita ao pblico,  no 
permitir que Sir John entre em cena em Henrique V. O criador bem sabia da magnitude de sua criatura. No precisamos de Henrique V, e ele no precisa de ns. Falstaff 
precisa do pblico, e sempre o cativa. Precisamos de Falstaff porque temos to poucas imagens de um vitalismo autntico, e um nmero ainda menor de imagens de liberdade 
humana que sejam convincentes.
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AS ALEGRES COMADRES DE WINDSOR
Embora a pea que  objeto de discusso do presente captulo (ou, talvez, Os Dois Cavalheiros de Verona) seja, no meu entendimento, a comdia mais superficial escrita 
por Shakespeare, quem poderia ver com maus olhos uma obra que serviu de base para o Falstaff, de Verdi? Contudo, de incio, gostaria de declarar que o heri-vilo 
de As Alegres Comadres de Windsor  um impostor inominvel que se faz passar pelo grande Sir John Falstaff. Para no me render ao usurpador, a ele me refiro, ao 
longo desta breve discusso, como o pseudo-Falstaff.
Consta que Shakespeare tenha escrito As Alegres Comadres no interstcio das duas partes de Henrique IV, para atender a Rainha Elisabete, que lhe solicitara uma pea 
em que Sir John estivesse apaixonado. A farsa, subgnero para o qual Shakespeare possua talento inato, toma-se superficial em As Alegres Comadres, um exerccio 
cansativo, uma reescritura, creio eu, de alguma obra anterior, seja de autoria do prprio Shakespeare, ou de algum outro autor. com muita perspiccia, Russell Fraser 
decifrou os elementos autobiogrficos em As Alegres Comadres, em cujo texto  possvel que Shakespeare esteja revidando desfeitas e ofensas sofridas no passado. 
Eu acrescentaria que a pea contm algo de satrico,  custa de Ben Jonson, embora o alvo seja mais a arte do que a pessoa de Jonson. Um dos pontos positivos de 
As Alegres Comadres  demonstrar a alta qualidade das primeiras farsas de Shakespeare, A Come"dia dos Erros e A Megera Domada, quando comparadas  falsa energia 
que
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#HAROLD  BLOOM
circula nessa humilhao do pseudo-Falstaff A pea contm inmeros indcios da insatisfao de Shakespeare com relao  prpria obra, bem como de uma pressa de 
chegar ao fim da ao o mais rapidamente possvel
O trecho abaixo  o que h de melhor no pseudo-Falstaff
[A senhora Page] percorreu minhas formas exteriores com to vida curiosidade que o apetite de seus olhos parecia queimar-me como um espelho ustno Esta carta aqui 
 para lhe ser entregue E ela, tambm, quem dirige a bolsa do casal,  um trecho da Guiana, rico em ouro e liberalidades Passarei a ser o coletor de ambas, e elas 
o meu tesouro, as minhas ndias orientais e ocidentais, comerciando eu pelos dois lados Leva esta carta para a senhora Page, e tu, esta outra para a senhora Ford 
Vamos ficar ricos, rapazes1 Vamos ficar ricos"
Seria esse o Falstaff rmortal? Ou este
Vai buscar-me um quartilho de xerez, pe dentro uma torrada (Sai Bardolfo ) Ora, ter vivido, para que me carregassem num cesto e me atirassem no Tmisa, como restos 
de aougue" Bem, se eu cair em outra brincadeira como essa, quero que me tirem o crebro, o fritem em manteiga e o dem a um co, como presente de ano-novo Os patifes 
me atiraram no no com tanta despreocupao como se fossem afogar quinze cachornnhos recm-nascidos e ainda sem vista Se o fundo do no estivesse na mesma altura 
do inferno, eu me teria afogado Sim, teria morrido afogado, se a margem no fosse to baixa e arenosa Morte essa que eu abomino, porque a gente estufa na gua E 
de que jeito eu ficaria, se viesse a estufar? Parecera a mmia de uma montanha
[in v]
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AS  ALEGRES  COMADRES  DE  WINDSOR
Nada tendo de espintuoso, em si, tampouco sendo capaz de provocar a espintuosidade de terceiros, esse Falstaff faria-me lamentar uma glria perdida, se eu no soubesse 
ser ele um grandessssimo impostor O fascnio desse Falstaff, na verdade,  o fato de que Shakespeare nada desperdia nele As Alegres Comadres de Windsor  uma pea 
que o prprio Shakespeare parece desprezar, embora seja o autor da mesma Tratando a pea com desdm, Shakespeare elabora, s pressas, um "Falstaff que s serve 
para ser carregado em um cesto e atirado no Tmisa Tal reduo  comparvel  representao de Clepatra como uma lavadeira desbocada (como vimos em recente produo 
britnica trazida a Nova Iorque), ou de Julieta como uma delinqente (como vimos na tela) Qualquer balofo enfiado dentro de um cesto provocar riso Para esse fim, 
o personagem no precisa ser Falstaff, nem o autor Shakespeare Quando vemos Falstaff, disfarado de velha gorda, levar uma surra, comeamos a perceber que Shakespeare 
abomina a situao e a si mesmo por ter concordado em escrever a pea A indignidade final vem na forma de um pseudo-Falstaff, chifrudo e acorrentado, vtima de uma 
farsa sadomasoquista e, quem sabe, de um rompante de insatisfao pessoal da parte do prprio Shakespeare Ao miservel impostor, tendo levado belisces e sofrido 
queimaduras da parte de duendes traquinas, ser, finalmente, permitida uma resposta mais ou menos digna do verdadeiro Falstaff Respondendo ao reverendo gals, diz 
esse Falstaff
"Queixo" e "manteica"i Ter vivido tanto, para ser objeto da zombaria de um sujeito que estropia dessa maneira o ingls? Isso  mais do que suficiente para produzir 
a runa da libertinagem e dos noctvagos de todo o reino
[Vv]
Trata-se de um mero vestgio do verdadeiro Falstaff, mas  tudo o que nos ser oferecido na pea em questo Temos, portanto, um festival de sadomasoquismo digno 
do episdio "Nightown" em Ulisses, de James Joyce, embora no chegue  altura do virtuosismo de Joyce no que concerne ao jogo de palavras O Falstaff imortal criado 
por Shakespeare
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#HAROLD   BLOOM
 submetido  terrvel (e final) execrao pblica, mas mantm-se digno e, at certo ponto, nobre, e consegue resguardar uma dimenso de pathos, sendo um Lzaro 
a contracenar com um Henrique V que  um Dives vestindo prpura. Tudo o que o pseudo-Falstaff consegue resguardar  o traseiro/ compartilho, inteiramente, da indignao 
de A. C. Bradey, e melhor do que ele no poderia express-la:
[Falstaff  ] obtuso, enganado, tratado como roupa suja, espancado, queimado, espetado, ridicularizado, insultado e, pior que tudo, surge arrependido e com funo 
didtica. E horrvel.
 preciso ganhar a vida, mas por que Shakespeare submete a uma situao dessas um personagem que representa a prpria espirituosidade do autor, no que ela tem de 
mais triunfal? Certa vez, em Yale, assisti a uma montagem dessa mixrdia, encenada, supostamente, com pronncia shakespeariana, e senti o grande alvio de nem sempre 
entender o que era falado no palco. Algumas feministas especulam que Shakespeare, embora ainda aos trinta e trs anos de idade, j receasse a perda de vigor sexual, 
e teria punido o pseudo-Falstaff em lugar de si mesmo. Nessa tica, As Alegres Comadres de Windsor seria um espetculo de castrao, com as alegres comadres deleitando-se 
no processo de emasculao. Sem comentrios.
Resta-nos a indagao: por que Shakespeare submete o pseudo-Falstaff a tamanha dilacerao, por que faz de "Sir John apaixonado" uma vtima, um tonto? Dramaturgo 
de carreira, habituado a cedera patronos, censores e a se adaptar s montagens encenadas diante do monarca, Shakespeare, no ntimo, guardava mgoas e escondia receios 
raramente expressos. Tinha plena conscincia de que o sombrio Servio Secreto de Walsingham havia executado Christopher Marlowe e torturado Thomas Kyd, causando-lhe 
morte precoce. Hamlet morre de p, por assim dizer, gozando de uma transcendncia no disponvel a Shakespeare, o homem, e o verdadeiro Falstaff morre em seu leito, 
brincando com as flores e com os prprios dedos, com certeza, cantando o prazer de uma boa mesa, para ele preparada em meio aos inimigos. Desco-
40O
AS  ALEGRES   COMADRES  DE  WINDSOR
nhecemos os detalhes da morte de Shakespeare. Contudo, alguma coisa que ele, talvez, visse no verdadeiro Falstaff, rejeitado por aquele que mais amara, e solitrio, 
como o poeta dos Sonetos, pode ter feito com que Shakespeare receasse ser humilhado. Minha concluso  que, nessa pea de qualidade questionvel, Shakespeare defende-se 
de medos pessoais fazendo de Falstaff um bode expiatrio.
401
#19
HENRIQUE V
Essa obra brilhante e complexa ser sempre clebre S no posso afirmar que a fama decorre de um "equvoco" porque toda e qualquer razo da popularidade eterna de 
Shakespeare, de uma maneira ou de outra, ser correta Mesmo assim, Henrique V , nitidamente, uma pea inferior s duas partes de Henrique IV Falstaff j no existe, 
e o Rei Henrique V, amadurecido e poderoso,  menos interessante do que o ambivalente Prncipe Hal, cujo potencial era bem maior O grande poeta irlands W B Yeats, 
na obra Ideas of Good and Evd, apresenta um comentrio clssico sobre essa perda esttica
[Henrique V] tem os vcios vulgares, os nervos descontrolados, de algum destinado a governar uma gente violenta, e  to "amigo" de seus amigos que os enxota porta 
afora quando lhes  chegada a hora  impiedoso e implacvel como as foras da natureza, e o ponto alto da pea por ele protagonizada  a maneira como seus antigos 
parceiros saem de cena desiludidos, a caminho do cadafalso
Fao minha a leitura de Yeats, mas a leitura da maioria dos estudiosos de Shakespeare seria outra Hoje em dia, a grande popularidade de Henricjue V decorre dos filmes 
realizados por Laurence Olivier e Kenneth Branagh, baseados na pea Ambas as fitas so empolgantes celebraes de patriotismo, exuberantes e bombsticas, caractersticas 
que so frutos da criao do prprio Shakespeare, e embora no nos seja possvel
402
HENRIQUE  V
precisar o grau de ironia existente na obra, podemos, sem dvida,
conjeturar
Ns, poucos, ns, os poucos felizardos,
ns, pugilo de irmos" Pois quem o sangue
comigo derramar, ficar sendo
meu irmo Por mais baixo que se encontre,
confere-lhe nobreza o dia de hoje
Todos os gentis-homens que ficaram
na Inglaterra julgar-se-o malditos
por no terem estado aqui presentes,
e ho de fazer idia pouco nobre
de sua valentia, quando ouvirem
algum dizer que combateu conosco
neste dia de So Cnspimano
[IV in ]
Assim fala o Rei, pouco antes da Batalha de Agmcourt Est emocionado, ns tambm nos emocionamos Mas nem ns nem ele prprio acreditamos em uma palavra sequer dessa 
clebre fala Os recrutas que lutam ao lado de seu monarca no  se tornaro gentis-homens, muito menos nobres, e a "maldio dos ausentes"  imprecao um tanto exagerada, 
quando se trata de uma apropriao de terras de cunho impenalista que s durou enquanto Henrique V vivia, conforme o pblico de Shakespeare tinha pleno conhecimento 
Hazlitt, com caracterstica eloqncia, revela-se, tanto quanto Yeats, o grande exegeta de Henrique V e de sua respectiva pea
Foi um heri, isto , estava disposto a sacrificar a prpria vida pelo prazer de destruir milhares de outras vidas [   ] Como  possvel, ento, simpatizarmos com 
ele? Ele nos  simptico na pea L est ele, um monstro to amvel, um esplndido espetculo [   ]
403
#HAROLD   BLOOM
 impossvel superar tal descrio, no entanto, ser que, mesmo amadurecido, o Prncipe Hal pode ser resumido a um monstro amvel, um esplndido espetculo" Sim, 
pois Falstaff  banido, Bardolfo, enforcado, e um rico aprendizado de espintuosidade foi, em parte, desperdiado A viso irnica de Shakespeare , ainda hoje, altamente 
relevante, o poder mantm suas caractersticas ao longo do tempo O Henrique V norte-americano (na opinio de alguns) foi John Fitzgerald Kennedy, que nos trouxe 
o episdio da Baa dos Porcos e o incremento da aventura no Vietnam Estudiosos podem moralizar e histoncizar  vontade, mas no nos convencero de que Shakespeare 
(seja como dramaturgo ou como indivduo) preferisse o monstro amvel ao gnio de Falstaff, ou o esplndido espetculo de Henrique V a vitalidade e versatilidade 
das duas partes de HenncjuelV
Em Henrique V, dois religiosos exploradores, o Arcebispo de Cantuna e o Bispo de Ely, financiam a campanha francesa, de modo a salvar do confisco real as propriedades 
da Igreja, ambos elogiam a devoo de Henrique, e o prprio Rei tem o cuidado de informar-nos o quanto  cristo Em Agincourt, ele reza e pede a Deus a vitria, 
prometendo verter mais lgrimas de arrependimento pelo fato de seu pai ter morto Ricardo II, em seguida, ordena que todos os prisioneiros de guerra franceses sejam 
degolados, o que  levado a termo Recentemente, a carnificina tem sido alvo de reflexo crtica, mas isso no alterar a popularidade de Henrique V, seja entre estudiosos 
ou cinfilos Henrique tem uma espintuosidade brutal e uma brutalidade sagaz, qualidades necessrias a um grande rei A figura histrica de Henrique V, morto aos trinta 
e cinco anos, foi um sucesso, na guerra e no poder, sem dvida, o rei ingls de mais pulso antes de Henrique VIII A atitude de Shakespeare com relao a Henrique 
V (em termos da pea)  indefinida, o que nos permite chegar s nossas prprias concluses com respeito ao traidor de Falstaft Baseio-me na posio de Yeats, cuja 
viso sobre Shakespeare e o Estado apresenta poucos aspectos em comum, tanto com os idealistas antiquados quanto com os materialistas culturais da nova ordem
404
HENRIQUE  V
Shakespeare pouco se importava com o Estado, fonte de todos os nossos julgamentos, a no ser pelos espetculos e pelo esplendor, pelas rebelies e batalhas, pela 
combusto do corao incivilizado
Quando pensava em Estado, Shakespeare lembrava-se, primeiramente, do assassinato de Marlowe, da tortura e do sofrimento a que Thomas Kyd fora submetido e da estigmatizao 
do i n quebra n t v l Ben Jonson Tudo isso, e mais, subjaz ao grande lamento que consta do Soneto 66
E a perfeio, num erro, desgraada E a fora ao coxo ceder na contenda E a autoridade amordaando a arte
O censor, externo e interno, perseguia Shakespeare, cauteloso em decorrncia do destino terrvel que estava reservado a Marlowe Pelo exposto, concordo com a concluso 
de Yeats, de que Henrique V, a despeito de toda exuberncia,  uma pea irnica
Shakespeare no via Henrique V da mesma maneira que via as grandes almas de sua procisso visionria, mas com certo contentamento, como quem contempla um cavalo 
belo e fogoso, e conta a histria, como o faz em todas as suas histrias, com ironia trgica
A pea  de tal modo centrada em Henrique V que a ironia no  se torna logo evidente o nico papel substancial  o do rei-guerreiro A morte de Falstaff, no relato 
de Mistress Quickly, no traz de volta  cena aquele grande esprito, e o velho Pistola no chega aos ps do seu mentor Fluellen  razoavelmente caracterizado, embora 
limitado, a no ser, talvez, quando Shakespeare, com astcia, vale-se do capito gals para apresentar-nos uma analogia irnica  rejeio de Falstaff
FLUELLEN
Creio que foi mesmo na Macedma que Alexandre nasceu.
* Traduo de Jorge Wanderley, op ci, p  136 [N T]
405
#HAROLD  BLOOM
Digo-vos gabito, que se abnrdes um mapa do mundo, e comparardes a Macednia e Monmouth achareis que as situaes, ora vede, so semelhantes H um no na Macednia 
e h tambm um em Monmouth chama-se Wye de Monmouth, mas neste momento no tenho no crepro o nome do outro no Pouco importa  como se fossem um s, igualzinhos 
como estes dedos, sendo certo que h salmo em ambos Se estudardes bem a vida de Alexandre, vereis que a de Henrique de Monmouth se lhe assemelha indiferentemente 
bem, porque em todas as coisas h semelhanas Alexandre - Deus o sabe, como vs tambm o sabeis - em suas raivas, em suas frias, em seus acessos, em suas cleras, 
em seus humores, em seus desgostos, em suas indignaes e, tambm, por ter ficado um pouco intoxicado no crepro, em suas cervejadas e nos seus arrebatamentos, ora 
vede, matou o seu melhor amigo, Cl i to
GOWER
Nisso o nosso rei no se parece com ele, porque no matou nenhum dos seus amigos
FLUELLEN
No fica bem, tomai nota do que vos digo, tirardes-me da boca as histrias, antes de eu as ter contado e concludo Estou falando por metforas e gombaraes assim 
como Alexandre matou o seu amigo Clito, por estar em suas canecas e em suas cervejas, assim tambm Henrique de Monmouth, estando em seu juzo perfeito e bom entendimento, 
expulsou o cavaleiro avantajado, que era repleto de graas e princadeiras, chacotas e zombanas Esqueci-me do nome dele
GOWER
Sir John Falstaff
[IV viu]
Embriagado, Alexandre matou o amigo Clito, e Shakespeare nos faz lembrar, ironicamente, que Hal, "estando em seu juzo perfeito e bom
406
HENRIQUE  V
entendimento", "matou seu melhor amigo, o homem "repleto de graas e "pnncadeiras", chacotas e zombanas" Conforme argumenta Fluellen, os grandes conquistadores, 
ou opressores, tm muito em comum Henrique V, sem dvida, no  centrada em Falstaff, a pea pertence  "estrela da Inglaterra", cuja espada foi forjada pela Fortuna 
Contudo, a ironia  palpvel e constante, e vai alm da minha feroz defesa de Falstaff Incitando a tropa em Harfleur, o Rei glonfica os antepassados dos soldados, 
chamando-os de "Alexandres" Henrique V  poltico extremamente hbil, guerreiro impiedoso, homem de um carisma incomparvel Juntamente com Shakespeare, sentimo-nos, 
a um s tempo, fascinados e decepcionados com o Rei, embora a decepo seja sutil No nos distanciamos totalmente do brilhante aluno de Falstaff De certo modo, 
a hipocrisia do Rei Henrique  mais aceitvel do que a do Prncipe Hal, pois o rei-guerreiro no  um jovem atilado que se esfora para vencer na vida Henrique V 
tem nas mos a Inglaterra e os ingleses, conquista a Frana e a princesa, se no os franceses, e morre jovem, conforme Alexandre, outro grande conquistador Para 
esse ideal de monarca, a lealdade pessoal  algo descartvel Bardolfo  enforcado, e talvez Falstaff o fosse, caso Shakespeare se arriscasse a apresentar a maravilha 
cmica por ocasio da campanha francesa Quando lemos o texto ou assistimos a uma encenao da pea, toca-nos algo de uma maneira bastante sutil
Henrique lamenta-se de no ser livre por ser rei, mas o ex-prncipe  extremamente irnico e aprendeu uma das lies mais teis ensinadas por Falstaff resguardar 
a liberdade, enxergando atravs de toda e qualquer idia de ordem e cdigo de conduta, seja de carter corts, moral ou religioso Shakespeare no nos permite chegar 
ao verdadeiro eu de Hal/Hennque V, um rei  sempre um tanto dissimulado, e Henrique  um grande rei Hamlet, infinitamente complexo, toma-se um papel diferente cada 
vez que  desempenhado por um grande ator Henrique V  velado, em vez de complexo, mas a conseqncia prtica disso  que o desempenho de um determinado ator no 
ser parecido com o de outro Henrique V ou O cjue Quisms bem poderia ser o ttulo da pea Shakespeare certifica-se de que mesmo as ironias mais pungentes
407
#HAROLD   BLOOM
no so capazes de resistir  viso do coro, que idolatra "o Harry guerreiro", o verdadeiro modelo ou "espelho de todos os reis cristos". Ainda que detectemos uma 
duplicidade nessas palavras, o coro nos cativa, com o "retrato plido de Henrique / na calada da noite".
No ser preciso que Shakespeare nos lembre que Falstaff, com sua vasta inteligncia e imensurvel espirituosidade, amava profundamente Hal. Ningum poderia amar 
Henrique V, mas ningum poderia tampouco a ele resistir. Pode ser um monstro, mas  extremamente amvel. E uma grande personalidade shakespeariana - no chega perto 
de Hamlet ou Falstaff, mas  maior do que Hotspur. Henrique V tem o fascnio de um Alexandre que aposta tudo em uma nica campanha militar, mas trata-se de um Alexandre 
dotado de interioridade, muito bem explorada em seu potencial pragmtico. Na viso de Henrique, o eu interior em expanso requer um reino maior, e a Frana  a regio 
destinada a alojar tal crescimento. A culpa de Henrique IV pela usurpao e pelo regicdio h de ser expiada atravs de conquistas, e a explorao e rejeio de 
Falstaff ser incrementada por meio de um novo sentido da glria de Marte e da monarquia. Os antepassados esvanecem-se, ofuscados pelo brilho da apoteose majesttica. 
As ironias continuam presentes, mas que peso tero nesse espetculo to esplendoroso? Falstaff detm mais do que o corao de Shakespeare,- Falstaff  mente, enquanto 
Henrique  poltica. Mas poltica  material excelente para espetculo, e algo em cada um de ns reage  celebrao presente em Henrique V. Militarismo, brutalidade, 
hipocrisia religiosa - tudo  ofuscado pelo carismtico rei-heri da Inglaterra. Tudo isso muito contribui para a qualidade de Henrique V, mas Shakespeare encarrega-se 
de nos fazer lembrar dos limites da pea.
PARTE VI
AS "PEAS-PROBLEMA"
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#20
TRILO E CRSSIDA
A questo do gnero dramtico, to mutvel em Shakespeare,  especialmente perturbadora em Trilo e Crssida, pea que j foi classificada como stira, comdia, 
drama histrico, tragdia, ou "o que quiseres". A pea  o legado mais amargo deixado por Shakespeare, niilista como as duas comdias que viriam logo a seguir, Bem 
Est o cjue Bem Acaba e Medida por Medida. , tambm, a obra mais difcil e elitista do dramaturgo. Um pouco da aura de Hamlet permanece em Trilo e Crssida, presumivelmente, 
escrita em 1601-1602.
Devemos supor que a pea tenha sido escrita para ser montada no Teatro Globe/ porm, pelo que consta, jamais teria sido encenada naquele espao. Por qu? S podemos 
conjeturar, mas a idia de que Shakespeare e sua companhia considerassem a pea um fracasso parece improvvel, se levarmos em conta a fora intrnseca da mesma, 
bem como a histria de sua encenao ao longo do sculo que ora termina. Alguns especialistas argumentam que a pea teria sido alvo de uma ou duas montagens de carter 
privado, na corte, ou encenada diante de um pblico composto de advogados, mas o tino comercial de Shakespeare toma tal argumento um tanto fraco. J foi dito, corretamente, 
que Trilo e Crssida seria a pea mais sofisticada do cnone shakespeariano,- no entanto, seria mais intelectualizada do que Trabalhos de Amor Perdidos, ou mesmo 
Hamlef Talvez, algum dignatrio tenha feito Shakespeare ver que Trilo e Crssida poderia ser interpretada como stira contundente ao
411
#HAROLD   BLOOM
Conde de Essex (uma vez deposto), possivelmente, modelo do ultrajante Aquiles da pea, ou, quem sabe, o texto contenha uma stira poltica que no mais podemos apreender? 
J a stira literria  mais visvel, a linguagem de Shakespeare ridiculariza o lxico floreado de George Chapman, que havia comparado Essex a Aquiles, e, em tom 
mais ameno brinca com o posicionamento moral de Ben Jonson Mas por que Shakespeare teria posto de lado essa obra maravilhosa  um verdadeiro mistrio
Os heris e as mulheres sofredoras cantados por Homero, e celebrados por Chapman no comentrio por ele feito  sua prpria traduo, so dissecados mais cruelmente 
por Shakespeare do que por Eurpedes, ou outros satinstas do presente sculo Tersites, identificado, na lista de personagens, como "grego disforme e maldizente",* 
resume a pea, falando, quem sabe, em nome de Shakespeare
Quanta palhaada" Quanta falsidade" Quanta velhacanai E a causa de tudo isso, um comudo e uma prostituta Bonita querela, para suscitar partidos contenciosos e sangr-los 
at  morte Caia a impigem seca na cara dos causadores disto, e que a luxna e a guerra confundam a todos1
[II m]
A Questo de Tria fica resumida a "um comudo e uma prostituta", Menelau e Helena, e a um bando de velhacos, tolos, cafetes, nscios e polticos que se fazem passar 
por iluminados, ou seja, s figuras pblicas da poca de Shakespeare e da nossa Contudo, a amargura da pea vai alm dos limites da stira, deixando-nos com uma 
impresso mais niilista do que seria de se esperar de uma "farsa herica", ou de uma "pardia" Alguns crticos apontam, como origem de Trilo e Crssida, a Guerra 
dos Poetas, travada entre Ben Jonson, de um lado, e John Marston, Thomas Dekker e, talvez, Shakespeare, do outro Russell
Trilo e Cressida e Timo de Atenas Traduo de Carlos Alberto Nunes Vol X So Paulo Edies Melhoramentos, s d Todas as citaes referem-se a essa edio [N T]
412
TRILO  E  CRESSIDA
Fraser compara o "prlogo / armado" de Trilo e Crssida - nitidamente, uma evocao do truculento Ben (que matou, em duelo, um outro ator)
ao prlogo, tambm armado, que abre a pea de Jonson Poetaster
(1601), um ataque aos dramaturgos rivais E admissvel que Shakespeare, com inteno de parodiarjonson e Chapman, tenha, a princpio, desejado criar uma pea que 
fosse uma espcie de anti-Poetaster, encenvel e intensa Porm, uma vez iniciada, Trilo e Crssida - que pode ser classificada como antitragdia, anticomdia e 
antidrama histrico - toma conta do autor, a ponto de ser difcil negar que uma amargura de carter estritamente pessoal energize o texto Talvez, estejamos aqui 
revisitando a histria que est por trs dos Sonetos, como tantos j apontaram, e Crssida seja mais uma verso da Dama Morena, conforme Rosalma, em Trabalhos de 
Amor Perdidos Guerra e luxna, variaes da loucura, so igualmente escarnecidas na pea, mas o escrnio provocado pela batalha  sincero, e o rancor e a angstia 
da vida ertica so representados de maneira bem mais equvoca
Trilo t Cre"ssida, embora seja obra rigorosamente unificada para o palco, na verdade, so duas peas A pnmeira, uma tragicomdia, trata a morte de Heitor, vitimado 
pelo covarde Aquiles e seus comparsas A outra encerra a "traio" de Trilo por Crssida, que se entrega a Diomedes, ao ser obrigada a deixar Tria e ir para o acampamento 
dos gregos Shakespeare aliena-nos, de tal maneira, com relao a Heitor e, ainda que em menor grau, a Trilo, que a morte do primeiro no nos comove muito, e o 
cime do segundo pouco nos afeta O nico patbos que a pea poderia evocar decorreria de uma hipottica alterao introduzida por Shakespeare em uma das ltimas aparies 
deTersites, permitindo que o personagem fosse morto por Heitor, ou pelo filho ilegtimo de Pramo, Margarelonte Mas Tersites sobrevive a ambos os desafios
HEITOR
Quem s, grego? Adversrio para Heitor? s de honra e posio? TERSITES
No, no, sou um biltre, um lacaio injunador, um tipo
crapuloso, simplesmente
413
#HAROLD  BLOOM
HEITOR
Acredito no que dizes, vive.
[V,v]
O trecho anterior no est, realmente,  altura de Tersites, mas o abaixo est
MARGARELONTE
Volta-te, escravo, e combate.
TERSITES
Quem s ttP
MARGARELONTE
Um filho bastardo de Pramo.
TERSITES
Eu tambm sou bastardo, gosto de bastardos Sou bastardo por nascimento, bastardo pela nutrio, bastardo nas idias, bastardo no valor, ilegtimo em tudo Um urso 
no morde outro, por que h de faz-lo um bastardo? Toma cuidado, a batalha  nefasta para ns bater-se um filho de prostituta por causa de outra prostituta,  chamar 
sobre si a condenao eterna Adeus, bastardo"
MARGARELONTE
Que o diabo te leve, covarde"
[Vv.i ]
No creio que algum possa se afeioar a Tersites, mas o personagem tem funo clara, na leitura ou na encenao da pea trata-se de uma espcie de coro Sua condio 
de escravo tem impedido o apoio dos crticos marxistas e materialistas culturais da atualidade, embora o desagrado possa decorrer do fato de o personagem ser desbocado 
demais para o gosto de professores, alm do que a stira  luxna feita por Tersites  to politicamente incorreta quanto  totalmente correta a sua hostilidade 
corn relao  guerra Tersites pertence  camada inferior do cosmo shakespeanano, tendo como companheiros Parolles,
TRILO  E  CRESS1DA
Autlico, Bernardmo e Pistola, entre outros Presumivelmente, Tersites, como qualquer escravo, fora arrastado  fora para participar da Guerra de Tria, mas seu 
palavrno seria o mesmo, estivesse ele em qualquer uma das Ilhas Gregas Mas suas invectivas escabrosas tm uma fora especial em Tria, onde, segundo suas prprias 
palavras, a causa de tudo  "um comudo e uma prostituta"
 importante reconhecer, no entanto, que, apesar de toda a baixeza, Tersites , pragmaticamente falando, quase um moralista normativo, os efeitos das crticas  
guerra e  mfidelidade amorosa por ele feitas dependem do valor por ns atribudo  paz e ao amor fiel Nesse aspecto, Tersites  um autntico moralista negativo, 
ao contrrio de Parolles, em Bem Est o <\ue Bem Acaba, ou personagens to variados como Lcio, Pompeu e Bernardmo, em Medida por Medida Anne Barton argumenta, com 
eloqncia, que Tersites considera a sua prpria redutividade - a viso negativa que tem de todos - como algo endmico na condio humana, e no exclusivo aos valentes 
gregos e troianos Talvez, mas o efeito dramtico parece ser outro, retratados por Shakespeare e por Tersites, os heris homncos so inegavelmente egrgios com 
correo, Barton aponta a pea Orcstes, de Eurpedes, como um paralelo a Trilo e Crssida, mas no dispomos de evidncias de que Shakespeare conhecesse o texto 
de Eurpedes
Alm disso, Eurpedes , ao mesmo tempo, menos genial e menos custico do que Shakespeare, na melhor das hipteses, quase todos os personagens em Trilo e Crsstda 
so tolos, de maneira que no deveramos nos surpreender por no nos comovermos com o sofrimento de Trilo, em seu cime - mas, at certo ponto, comovemo-nos Na 
grandeza de seu temperamento, no seu esprito generoso, Shakespeare permite a Trilo atingir uma certa dimenso pattica, e uma conscincia espantosamente dividida
Todavia, a arte da caracterizao, dominada por Shakespeare, est ausente em Trilo e Crssida, mesmo nos papis de Trilo, Crssida, Heitor e Ulisses A essa altura, 
na obra shakespeanana, o processo de mtenonzao do ser j havia produzido Faulconbndge, em Rei Joo, Ricardo II, Julieta, a Ama e Merccio, Bottom, Prcia, Shylock 
e Antnio,
415
#HAROLD  BLOOM
Falstaff, Hal e Hotspur, Bruto e Cssio, Rosalmda, Hamlet, Malvlio e Feste   Essa intenonzao no existe nas comdias-problema   Trdo e Crssida, Bem Est o que 
Bem Acaba e Medida por Medida A profundidade do eu interior retornaria com lago e Otelo, com Lear, seu Bobo, Edmundo e Edgar, e com Macbeth Antes de forjar lago, 
Shakespeare interrompe a viagem ao interior do ser humano, as trs comdias "sombrias" de 1601 -
1604 no nos propiciam grandes sondagens psicolgicas, nem caricaturas e ideogramas no estilo de Marlowe e Jonson  Trilo e Tersites, Helena e Parolles, Isabela, 
ngelo, o Duque Vicncio e Bernardmo - todos so dotados de grande complexidade psquica, mas mantm-se opacos, e Shakespeare no nos diz quem ou o qu, na verdade, 
eles so Talvez ele prprio no desejasse sab-lo ou, por uma questo de sutileza dramtica, preferisse manter-nos ignorantes a esse respeito Uma das vrias conseqncias 
desse abandono temporrio da revelao do personagem  um certo empobrecimento do mesmo somos levados a simpatizar menos com tais figuras do que com Rosalmda, 
ou Feste Uma conseqncia, mais peculiar, ser observada sob o ponto de vista retrico   diversas falas nessas trs "comdias sombrias" assumem uma qualidade potica 
bem mais elevada quando extradas do contexto As palavras de Ulisses sobre a idia de ordem em Tria, ou sobre a transitonedade da fama, por exemplo, produzem um 
efeito dentro da pea e outro, bastante diferente, fora da mesma, algo parecido com o que se observa na fala do Duque Vicncio, que inicia com as palavras "Contai 
certo com a morte", quando ouvidas dentro e fora do contexto Poltico ladino, Ulisses parece eloqente visto fora do contexto da pea, mas s parecer grandioso 
dentro da mesma, enquanto os vocbulos sonoros do Duque s podero nos convencer uma vez extrados do contexto, sendo expostos em todo o seu vazio quando expressos 
no mundo equvoco de Medida por Medida
Tersites, Parolles e Bernardmo so as grandes excees encontramse de tal modo inseridos nos contextos das respectivas peas que perdem fora ao serem citados Colendge, 
a quem Tersites haveria de desagradar, chamou-o "o Caliban da demagogia", e, como Caliban, Tersites
416
TRILO  E  CRESSIDA
sugere uma condio apenas parcialmente humana (ao passo que o incrvel Bobo, em Rei Lear,  quase nada humano) O que parece haver de menos humano com respeito 
a Tersites  o conselho irnico que Shakespeare nos oferece a tendncia redutiva consome em chamas tudo que a cerca, conforme ocorrer, embora de maneira bem mais 
destruidora, com lago, o encenador piromanaco Graham Bradshaw considera Tersites "fatalmente redutivo, escleroticamente dogmtico" No discurso de um crtico to 
imparcial, "dogmtico" parece-me uma palavra injusta Tersites pode ser um monomanaco obsessivo, mas  tambm to ultrajado quanto ultrajante Um indivduo que divide 
seu tempo prestando servios de Bobo a Aquiles e a Ajax, o primeiro, um valento cruel, o segundo, um valento imbecil, jamais ser suficientemente redutivo, ainda 
mais se sua funo dramtica for a de atuar como coro Bradshaw considera Tersites um niilista, mas, a meu ver, o Bobo desbocado  o nico personagem da pea que 
possui, de fato, uma noo exacerbada de valor intrnseco Tampouco ser justo caracterizar o pobre Tersites como um dos "Complexos de Inferioridade" de Alfred Ader 
(mais uma vez, segundo Bradshaw) A virulncia bastante consciente de Tersites contm um aspecto estranhamente auto-reflexivo, mas, devido  altendade do personagem, 
 difcil perceber o aspecto no-humano do mesmo Se formos capazes de nos perguntarmos, "Ento, Tersites" Ests perdido no labirinto de tua fria?", no estaremos 
totalmente perdidos Tersites no tem o menor prazer de ser um desvairado a expressar verdades odientas, e Shakespeare quer que vejamos no personagem apenas um sofredor 
Se  que podemos confiar em algum na pea, esse algum  Tersites, por mais perturbado que ele seja E quem na pea no engana, a um s tempo, a si mesmo e a terceiros? 
J apontei a opacidade psquica de Trio e Crssida, e esse bloqueio interior  mais evidente em Tersites
Assim como Medida por Medida, Trdo e Crssida  capaz de desafiar qualquer interpretao coerente, sendo essa, talvez, a inteno de Shakespeare, que, mais at 
do que em Hamlet, constri o drama sobre vertentes antitticas Visto que no h um Hamlet nas duas peas
417
#HAROLD  BLOOM
TRILO  E  CRESSIDA
mencionadas, t e , nenhuma conscincia abrangente o bastante para conter uma imensido de anomalias, no temos como compreender Trilo, ou o Duque Vicncio, em Medida 
por Medida   Trilo enfrenta contradies que lhe desafiam o intelecto, mas, pelo menos, cativa a nossa simpatia, ao contrrio de Vicncio, extremamente antiptico 
em seu moralismo Trilo  insensato, propenso  autocomiserao, apaixonado pelo amor (e no por Crssida), um trapalho, porm,  mais simptico do que seu irmo 
- e tenaz heri - Heitor, que nos causa tanta estranheza, em sua inconstncia, avidez e vaidade   No ser de grande utilidade entender que em Trilo e Crssida 
os objetivos de Shakespeare sejam satricos, ou mesmo pardicos Ainda que, em dados momentos, o texto parea ridicularizar rivais de Shakespeare (Ceorge Chapman 
e Ben Jonson), no se trata de um romance que satiriza o amor corts, conforme j afirmaram alguns crticos A questo de Tria no o interessa e, mesmo remetendo-se 
a Chaucer, Shakespeare distancia-se da sofisticao amvel, afetuosa, encontrada na grande verso chaucenana dessa mesma histria
Existe uma amargura, de certa forma, tanto pessoal como impessoal, na verso shakespeanana dessa lenda essencialmente medieval (da qual Homero nada sabia)  possvel 
que Tersites, o Caliban da demagogia, tenha levado Shakespeare  sombria aceitao final de Caliban, por parte de Prspero "este bloco / de escurido  minha propriedade" 
* Trilo est para o amor assim como Heitor est para a guerra, Ulisses para a arte de governar e Aquiles para a supremacia agonstica so todos canastres, maus 
atores  Em estupidez, Agammnone, Nestor e Ajax equiparam-se muito bem, enquanto Crssida e Helena so prostitutas, uma troiana, a outra, espartana Isso  forte 
demais para uma stira, at mesmo para pardia A atmosfera de Tro"</o e Cre"sstda nada tem de amena, ningum sorri com indulgncia diante dos atos e tormentos, 
das posturas e das falas nesse ambiente tumultuado Pndaro, torturado por uma infeco venrea,  o emblema oposto de Tersites ser que preferimos as lamrias do 
alcoviteiro ou as tiradas virulentas de Tersites?
* A Tempestade e A Comedia dos Erros Traduo de Carlos Alberto Nunes Coleo Universidade de Bolso So Paulo Tecnopnnt, s d , p 101  [N T]
Os prazeres de Trilo e Crssida, embora estranhos, so abundantes, a exuberncia da inventividade de Shakespeare manifesta se a cada instante Quanto a Trilo, talvez 
seja o personagem menos interessante da pea J no incio, ele se encontra cego de amor, isto , est de tal maneira consumido pelo ardor que sente por Crssida 
que no conseguimos distinguir entre o personagem e o sentimento Colendge, em um dos comentrios mais infelizes sobre a obra de Shakespeare, pedenos que acreditemos 
na superioridade moral de Trilo, com relao a Crssida, Shakespeare demonstra o absurdo de tal julgamento Crssida, vulgarmente falando, ontem e hoje,  para 
Trilo o mesmo que para Diomedes objeto de desejo Trilo, pncipezmho troiano mimado e vaidoso, superestima-se como amante, e Colendge deixa-se levar pelo estratagema, 
chegando at a invocar a noo de "energia moral", enquanto afirma que Crssida afunda na desonra
Seja qual for a distncia social que separa os amantes, em momento algum, Trilo aventa a possibilidade de casar-se com Crssida, ou mesmo de ter com ela uma relao 
estvel O cime de Trilo - muito maior,  claro, do que o de Otelo, ou o de Leontes, em Conto do Inverno - antecipa a comdia proustiana que trata do desejo possessivo 
de Swann por Odette, e de Mareei por Albertine Para Tersites e, at certo ponto, para Ulisses, a situao  cmica, mas Trilo no seria capaz de dizer, conforme 
Swann  "E pensar que passei por tudo isso por uma mulher que nada tinha a ver comigo, que sequer fazia o meu estilo"" Crssida tem muito a ver com Trilo, e faz 
bem o seu estilo - e o estilo de Diomedes, tambm - e de todos que vierem depois de Diomedes Ela no  superior a Trilo, e por que haveria de ser? Astutamente, 
Shakespeare corrige a Cnseyde de Chaucer, como assinalou, de maneira surpreendente, E Talbot Donaldson, no livro The Swan at tbe Well (1985), um estudo da relao 
de Shakespeare com o seu mais autntico precursor O narrador de Chaucer em Troilus and Cnseyde encontra-se perdidamente apaixonado pela protagonista, conforme observa 
Donaldson, ao passo que o prprio Chaucer, embora fascinado pela dama, faz-lhe
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L
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TR1LO  E  CRSSIDA
certas restries Porm, vale lembrar, comparada a Crssida, Cnseyde resiste muito mais ao assdio de Trilo
Ambas as heronas - em Chaucer e em Shakespeare - encontramse socialmente isoladas, tendo apenas Tio Pndaro, vido cafeto, como conselheiro  Embora, na verso 
shakespeanana, a beldade possua um atrevimento mais gracioso, concordo com Donaldson, que ambas, to difamadas, desfrutam da admirao e do afeto dos poetas que 
as criaram, no caso de Shakespeare, uma admirao um tanto voluptuosa Porm, Shakespeare , necessariamente, bem mais chulo se padres normativos pudessem ser aplicados 
aos personagens da pea (e no podem), Crssida seria uma prostituta - mas quem no o , em Trtlo e Crstida? Trilo, imaturo, capaz de enganar a si mesmo, pode 
no ser um garoto de programa, como Ptroclo, amante de Aquiles, mas prostitui-se em nome da honra militar, em nome de uma mascuhmdade autocentrada, que pode ser 
comercializada   De Crssida, ele quer apenas uma coisa, e apenas para si, sendo esse, basicamente, seu conceito do amor corts Ao perd-la - por questes estritamente 
circunstanciais -, Trilo no envida o menor esforo no sentido de resistir a tais circunstncias Ele discute e luta para manter Helena ao lado de Paris (seu irmo), 
mas, nitidamente, considera Crssida inferior a Helena, pois deter Helena d mais glria a Tria do que seria o caso com Crssida
Shakespeare tambm segue Chaucer no que diz respeito  conscincia dos personagens quanto ao seu papel na histria literria, mas o efeito dramtico em Shakespeare, 
comparado  percia da narrativa de Chaucer,  um tanto curioso, e leva-nos a indagar a viso que o prprio Shakespeare teria de Trilo e Crssida Tudo leva a crer 
que estejamos ainda sob o efeito do xito de Hamlet, com sua audaciosa teatralidade, especialmente na cena em que Hamlet sada os atores e, de repente, impele-nos 
 Guerra dos Teatros Como pode um encenador lidar com uma cena dessas?
TRILO
Oh luta excelsa"
corn a lealdade a lealdade desavir-se,
por querer ser mais leal1 Os mais sinceros apaixonados dos futuros tempos, por Trilo ho de jurar os sentimentos Quando seus versos cheios de protestos, de juras 
e de smiles grandiosos carecerem de imagens, a verdade, lassa de tanta iterao, tais como to fiel quanto o ao, como  lua as plantas, ao dia a luz, ao companheiro 
a rola, o ferro ao m, ao prprio centro Sim, depois de esgotadas as imagens, como penhor mais alto da verdade ho de ver-me citado, finalmente, por ela prpria, 
assim "To verdadeiro quanto Trilo", coroando, desse modo, seus versos e santificando os nmeros CRSSIDA
Profeta possais ser
Se falsa eu me tornar, ou de um cabelo me afastar da verdade, quando o tempo ficar velho e esquecido de si prprio, e quando as gotas de gua j tiverem gasto as 
pedras de Tria e o esquecimento cego houver devorado tantos burgos, vindo a se confundir possantes reinos com o nada empoeirado que a memria venha, de falsidade 
em falsidade, em meio a todas as amantes falsas, mcrepar-me de falsa E quando houverem dito "Falsa como o ar, o vento, as guas, a incontvel areia, ou falsa como 
para a ovelha a raposa, ou como o lobo para o bezerro, o tigre para o cervo, para o filho a madrasta   " sim, que digam,
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da falsidade o corao tocando "Falsa como Crssida1" PNDARO
Vamos, vamos O contrato est feito Selai-o, selai-o Servirei de testemunha Dai-me a mo, a vossa tambm, prima Se em qualquer tempo um de vs se mostrar infiel para 
o outro, j que tive tanto trabalho para aproximar-vos, que at o fim do mundo todos os pobres medianeiros tragam meu nome, chamai-os de Pndaro Que todos os homens 
constantes sejam Trilos, as mulheres falsas, Crssidas, e todos os alcoviteiros, Pndaros Dizei amm
[in n ]
Digamos "amm" a todos os Pndaros, mesmo se acharmos que no vale a pena equacionar Trilo e constncia, Crssida e mulheres falsas Shakespeare interrompe a ao 
da pea e nos faz perceber o quanto ele (e ns) deve(mos) a Chaucer A referida cena no expressa patbos, mas auto-alienao Trilo, Crssida e Pndaro vem-se a 
si mesmos como artistas que desempenham papis em uma histria clebre, com muita fama ainda  sua espera O efeito no  cmico nem satrico, e o diretor deve orientar 
os atores no sentido de representarem a cena com toda franqueza, como se os personagens desconhecessem estar afirmando a prpria artificialidade  Anteriormente, 
na mesma cena, Shakespeare prepara-nos para essa ingenuidade dramtica, criando um grande hiato entre as extraordinrias observaes feitas tanto por Trilo quanto 
por Crssida e a sua prpria - e palpvel - falta de potencial cognitivo e emocional, o que lhes possibilita eloqentes articulaes No contexto,  espantoso que 
esses amantes ambiciosos possam proferir palavras to contundentes - uma vez descontextualizadas
TRILO
[   ] Nisto, minha senhora,  que consiste a monstruosidade do amor em ser infinita a vontade e limitada a execuo em serem ilimitados os desejos, e o ato, escravo 
do limite
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TRILO  E  CRESSIDA
CRSSIDA
Dizem que os amantes se prontificam a realizar mais coisas do que so capazes, reservando, contudo, habilidades que jamais tero oportunidade de exercitar, prometem 
executar mais de dez, mas s chegam a realizar menos do que a dcima parte de um
[in n]
Quem (esteja amando ou no) pode esquecer que  "infinita a vontade e limitada a execuo", que so "ilimitados os desejos, e o ato, escravo do limite"? Tenho memria 
prodigiosa, especialmente com relao  obra de Shakespeare, mas sempre custo a lembrar-me de que essa fala mordaz pertence a Trilo "Vontade" aqui sugere "luxna", 
Trilo no nos parece ter o perfil do metafsico do amor, tampouco da luxna, mas Shakespeare atribui-lhe falas impressionantes No que tm de mais intensas, tais 
falas transcendem o contexto srdido da pea, na segunda cena do quinto ato, quando Trilo e Ulisses espionam o encontro entre Crssida e Diomedes, enquanto Tersites 
espiona os espies Shakespeare  nossa maior autoridade nos males do amor, da paixo Trilo, sublime e doente de amor por Crssida,  aqui exemplo clssico da defesa 
contra o cime, na negao levada ao limite metafsico "Essa  Crssida"" Ulisses, friamente, responde que sim, provocando, em Trilo, um surpreendente rompante
No,  a Crssida, apenas, de Diomedes Se a beleza tem alma, no  ela, se a alma conduz  f, e esta for santa, se a santidade  a mxima delcia dos deuses imortais, 
se a unidade houver uma certa ordem no era ela Oh loucura do verbo, que excogita razes contra e a favor, na prpria causai Bfida autoridade, onde revolta pode 
a razo fazer sem detrimento, e a forma da razo assumir o erro, sem revolta causar Esta, a um s tempo,
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 e no  Crssida Dentro da alma trava-se-me uma luta muito estranha, de tal modo que fica o indissolvel mais separado do que o cu e a terra, sem que, no entanto, 
mostre a larga brecha dessa separao o mais pequeno pertuito que passar deixasse o fio de Aracne, to sutil, quando rompido Evidncia, Oh evidenciai Forte como 
as portas de Pluto" Crssida  minha, pelos liames do cu a mim ligada Evidncia, evidncia to possante quanto o alto cu" Abertos, dissolvidos, frouxos esto 
os liames do cu alto, e apertados em ns por cinco dedos os detritos da f, do amor os restos, as migalhas, fragmentos, as relquias engorduradas de sua f corroda, 
a Diomedes agora esto ligados
[Vii]
A partir das palavras "Evidncia, Oh evidenciai" temos aqui o lamento de um amante "trado", mas, at ento, a crise parece ser metafsica demais para Trilo Estamos, 
mais uma vez, diante de um paradoxo central s "comdias sombrias", ou "peas-problema" shakespeananas a fora da fala transcende o contexto Tersites  o intrprete 
ideal de tal contexto "Ser que ele ainda vai mostrar jactncia, apesar do que viu"" Ao negar o que est diante dos olhos, Trilo antecipa a negao hegeliana, com 
a rejeio da tirania do fato O idealismo dialtico de Trilo  bem mais drstico "Esta, a um s tempo, /  e no  Crssida" De natureza psicolgica, e no filosfica, 
a viso dupla de Trilo tem menos a ver com o desmascaramento do xtase do auto-engano petrarquiano do que com a ignorncia humana (ou presuno) que propicia
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TRILO  E  CRESSIDA
a traio sexual Shakespeare permite-nos simpatizar um pouco, mas no muito, com Trilo, especialmente quando o amante carola volta a considerar Crssida como objeto 
de desejo
os detritos da f [de Crssida], do amor os restos, as migalhas, fragmentos, as relquias engorduradas de sua f corroda, a Diomedes agora esto ligados
[V n]
Os "restos", claramente, designam a Crssida consubstanciai, assim como o seu juramento a Trilo, Trilo  to corts quanto Crssida  fiel   Da nossa parte, ficamos 
perdidos em meio s ambigidades   a luxna vence, mas a energia da vida no ser julgada por padres escusos Shakespeare nega-se a ser Chaucer, um tanto ou quanto 
apaixonado por sua Cnseyde, e (como sempre) nega-se a ser moralista  Se Aquiles, o heri, no passa do lder covarde de um bando de assassinos, se Ulisses  um poltico 
demagogo, se Heitor  um trapalho que morre por uma armadura espalhafatosa, se Trilo nada tem de Romeu, sendo apenas uma verso pobre de Merccio, o que haveria 
Crssida de ser, seno uma rameira troiana"  exceo de Cassandra, que  louca, nessa pea, as mulheres so prostitutas, e os homens gigols   E com que desenvoltura 
desempenham suas funes" A amargura generosa de Shakespeare aqui decorre da noo de que a mente  profundamente contaminada pela luxna, aquilo que D H Lawrence 
condenava como "sexo na cabea", o que nada mais  que uma outra verso do que William Blake chamava, em tom satrico, "pensar com a genitlia" O esprito em Tria, 
tanto quanto em todo o tempo e lugar, sofre do mal identificado por Hamlet   O lema de Trilo e Crssida bem poderia ser os versos extraordinrios do Ator Rei, em 
Hamlet
E ainda est para ficar provado
Se o fado guia o amor, ou este o fado.
[III.1.]
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Nada fica provado, seja em Hatnkt ou em Trilo e Crssida Hamlet, precursor de Nietzsche na transposio de todos os valores, ainda rema em Tria, assim como o far 
em toda a obra shakespeanana subsequente Na evoluo entre o primeiro Hamlet (escrito por volta de 1588) e Hamlet (1601), vemos o Fantasma de Shakespeare passar 
de provvel crente na ressurreio a questionador da mesma Destitudo de pai e filho, Shakespeare escreve uma verso final de Hamlet que parece ir alm da f crist, 
propiciando uma transcendncia estritamente secular Nada  conseguido gratuitamente, e o nuhsmo das "comdias-problema"  parte do custo dessa converso Contudo, 
trata-se de um custo revestido de um jbilo estranho o que h de mais importante em Trilo e Crssida, Bem Est o cjue Bem Acaba e Medida por Medida  a exuberncia 
negativa nelas encontrada,  quase como se tais peas tivessem sido escritas a partir de uma fuso de Hamlet e Falstaff
Se Trilo e Crssida tem um vilo, este no ser o insignificante Aquiles Depois de Tersites, o personagem mais genial da pea  Ulisses, que jamais diz aquilo em 
que acredita, e jamais acredita no que diz Ulisses no  o melhor retrato do poltico segundo Shakespeare (vrios clrigos disputam tal honra com vrios reis), 
mas deve ter constrangido muitas figuras ilustres da corte, o que, mais uma vez, poderia explicar o fato de Shakespeare no ter conseguido encenar a pea no Teatro 
Globe Ulisses representa o Estado, seus valores e interesses,  a noo da ordem em Tria, o Contrato com a Grcia, no sentido de Gingnch Suas trs grandes falas, 
todas comprometidas pelo contexto, qualificariam-no para liderar o Partido Republicano nos Estados Unidos, se no a Coligao Crist Abertamente maquiavlico, Ulisses 
 mais do que um sofista excepcional Possui grande energia, que outro demagogo, defensor da lei e da ordem, ter defendido, de maneira to convincente, a opresso 
da hierarquia" Por seu intermdio, fala a eterna voz do Bem da sociedade
426
TRILO  E  CRESSIDA
Todas as coisas no poder se abrigam, o poder, na vontade, que se abriga, por sua vez, na cobia Ora, a cobia, esse lobo de todos, tendo o apoio redobrado da fora 
e da vontade, transforma logo em presa o mundo todo, para a si mesmo devorar por ltimo
[I i" ]
A linguagem de Ulisses  bastante diferente da vil retrica de Tersites, mas a essncia  a mesma Quem  o verdadeiro niilista, Ulisses ouTersites? Um frio cortante 
emana das palavras de Ulisses quando este fala como mestre da espionagem ehsabetana, como Walsmgham ou Cecil, de quem Shakespeare, com toda certeza, suspeitava 
de haver exterminado Chnstopher Marlowe e torturado Thomas Kyd Quando ouvimos as palavras de Ulisses, podemos imaginar por que Shakespeare ocultou essa pea brilhante
Num vigilante Estado h providncia que conhece as partculas mais nfimas de todo o ouro de Pluto, o fundo alcana dos mais negros abismos, consonante fica com 
o pensamento e, como os deuses, descobre a idia nos seus beros mudos H na alma dos Estados um mistrio com que jamais ousa meter-se a histria de mecanismo muito 
mais divino do que possa exprimir a voz ou a pena Todas as relaes havidas entre vs e Tria, senhor, so tanto vossas
como nossas
[IH.iii.]
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Esse trecho sublime  duplamente blasfemo, uma vez que se volta contra o Servio de Inteligncia e (por implicao) contra o Mistrio Divino em nome do qual o aparato 
estatal professava operar, pois Igreja e Estado eram, ontem e (cada vez mais) hoje, uma s instituio  possvel que Shakespeare tenha escrito essa fala perigosa 
para seu prprio prazer, um protesto contra o mal que havia destrudo seus colegas dramaturgos Pode tambm ter sido provocada pela declarao abertamente polmica 
feita por Ulisses a Aquiles pouco antes, talvez o momento mais potico da pea, se extrado do contexto
ULISSES
O tempo, meu senhor, carrega s costas um alforje de esmolas para o olvido, monstro que a ingratido toma gigante Essas migalhas so os grandes atos do passado, 
que ficam devorados no instante em que so feitos, esquecidos to logo que se afirmam A constncia, caro senhor,  a nica que o brilho sempre conserva da honra 
J ter feito  estar fora da moda, como cota de armas enferrujadas, monumento de zombaria apenas O caminho do presente tomai, porque em picada to estreita caminha 
sempre a glria, que uma pessoa, s, andar consegue Assim, ficai no atalho, porque o cime tem mil filhos que em briga vivem sempre Se cedeis o lugar ou do caminho 
direto vos desviais, a um tempo todos se precipitam, como em cheia as guas, e para trs vos deixam Ou, tal como um ginete valoroso cado na dianteira, transformai-vos
428
TR1LO  E  CRSSIDA
em capacho da abjeta retaguarda,
que vos amassa e esmaga, o que eles fazem
no presente, conquanto muito menos
do que fizestes antes, sobrepuja
todos os vossos atos Porque o tempo
corn estalajadeiros muito em moda
se assemelha, que aos hspedes apertam
de leve a mo, no instante da partida,
e de braos abertos ao que chega
tratam de segurar, como se em fuga,
porventura, estivesse A boa-vinda
sempre sorri, o adeus sai suspirando
Oh" Remunerao no queira o mrito
pelo que j passou
Pois a beleza, o nascimento, o esprito,
a robustez, o mrito no ofcio,
a caridade, o amor, as amizades,
so escravos do tempo difamante,
por demais invejoso Um trao, apenas,
da natureza a todos faz parentes
 que todos louvores sempre tecem
ao mais recente adorno, embora feito
de material j velho, e em mor conceito
tm a poeira sob fina capa de ouro
do que o ouro empoeirado O olhar mais prximo
aprecia o mais prximo objeto
[111 m ]
Essa sabedoria selvagem  resumida, com extraordinria acnmnia, nas palavras "Um trao, apenas, / da natureza a todos faz parentes", uma reduo de toda a individualidade 
e realizao pessoal expressa ante o lamento de Aquiles "Comoi Esquecidos estaro meus feitos?" E irnico que Shakespeare tenha aqui escrito a formulao definitiva 
da tristeza a que sua obra  menos suscetvel Nesse texto sardmco, to aberta-
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#HAROLD   BLOOM
mente cioso de Ben Jonson (que informa Ajax, tanto quanto Malvho, em NottedeReis), talvez, a advertncia de Ulisses seja mais uma bofetada em Jonson, cujo desejo 
de se celebrizar como dramaturgo somava-se ao ressentimento diante da superioridade de Shakespeare S podemos conjeturar, pois o "gentil" Shakespeare, com perspiccia, 
absteve-se de responder publicamente s crticas de Jonson A inveja e a difamao do tempo so universais, no apenas jonsonianas, e, sem dvida, Shakespeare transcende 
a Guerra dos Teatros, quando "a caridade, o amor, as amizades" desaparecem no esquecimento, enquanto "O olhar mais prximo / aprecia o mais prximo objeto"
Essa fala, a mais marcante de Ulisses, tem um aspecto, ao mesmo tempo, animador e desconcertante Considerar o olvido, o esquecimento total, um "monstro que a ingratido 
torna gigante"  associar "Essas migalhas [que] so os grandes atos / do passado, que ficam devorados / no instante em que so feitos" com a "ingesto" de Crssida 
por seus amantes, associao essa que reitera as imagens da pea nas quais luxna e gula se fundem  Numa fantasmagona de extremo vigor, a caridade ilusria do tempo, 
"esmolas para o olvido", cede ao tempo, estalajadeiro em moda, que nos aperta de leve a mo no momento da partida, e abraa aquele que chega Tudo na pea - as delcias 
do amor, a ascenso e a queda de reputaes em tempos de guerra, a oratria persuasiva do "raposo" Ulisses - fica resumido na pungente formulao "Aboa-vmda / sempre 
sorri, o adeus sai suspirando" No gesto simblico do ofcio do alcoviteiro, tais palavras cobrem toda a ao, e anunciam as opes da pea  Pndaro ou Tersites? 
O pblico no haver de enlouquecer, como Cassandra, e surpreende-se alienado com relao a todos os gregos e todos os troianos Tersites  um redutlvo contador 
de verdades, por demais execrvel e marginalizado para lograr qualquer identificao por parte do pblico Quanto a Pndaro,  rejeitado por Trilo, como se o pobre 
cafeto fosse responsvel por Crssida se voltar para Diomedes, no  para menos, a essa altura, Trilo est um tanto ensandecido, alm de totalmente autocentrado 
Nenhuma outra pea de Shakespeare chega ao desfecho com uma amargura to explcita e, pode-se dizer, com um insulto direto ao pblico Pergunto-me, porm, se mesmo 
uma platia sofisticada e intelectualizada como a que frequen-
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TRILO  E  CRSSIDA
tava o ptio das Inns of Court* teria tolerado o ultraje contido na identificao final que Pndaro, destrudo pela sfilis, proclama
Vs que o salo pisais do alcoviteiro, por Pndaro chorai o dia inteiro Se lgrimas vos faltam, peo vossos suspiros, no por mim, por vossos ossos Irmos e irms, 
que  porta estais de guarda, meu testamento vem a, no tarda J feito ele estaria, se no fosse temer um pato de Winchester no alcouce At l you suar para aliviar-me, 
legando-vos meus males neste carme
[Vx]
O "pato de Winchester", que queria dizer prostituta sifiltica, no  platia que aprecie Pndaro - mas quem haveria de ser? Talvez Shakespeare pretendesse encenar 
Trdo e Crssida no Teatro Globe, ou em qualquer outro espao, e, quem sabe, uma verso da pea no tenha levado alguma figura ilustre a advertir o sempre circunspecto 
Shakespeare de que, pelo menos nessa pea, ele fora longe demais Todo o quinto ato, gradualmente violento e desinteressante, pode ter sido a reao do dramaturgo 
a esse dilema Repito no dispomos de prova alguma de que a pea shakespeanana Trilo e Crssida tenha sido encenada, onde quer que seja, antes do sculo XX, embora 
alguns estudiosos acreditem na possibilidade de a mesma ter fracassado no Teatro Globe, o que me parece bastante improvvel Como drama, a pea possui a estranha 
aura do proibido, como se Shakespeare aqui ousasse invadir o domnio do Estado, prtica inteiramente contrria a tudo que ele escreveu Chego a pensar na hiptese 
de o quinto ato ter tido, originalmente, um outro final, escrito enquanto Shakespeare ainda alimentava esperanas de ver a pea encenada no Globe Medida por Medida 
aprofun-
Faculdade de Direito [N T ]
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da-se ainda mais em questes de alienao social e milismo, mas, a meu ver,  obra de carter menos pessoal Os crticos que defendem a hiptese de Trilo e Crssida 
dividir preocupaes e sofrimento com os Sonetos parecem-me corretos Apesar da linguagem magnfica, Trilo e Cre"ssida deixa a desejar em termos do maior talento 
de Shakespeare a inveno do humano Nessa pea, algo que no conseguimos definir o impele contra a sua prpria fora como dramaturgo
432
21
BEM  EST O  QUE BEM ACABA
Se considerarmos o verdadeiro mrito dramtico e literrio de Bem Est o <\ue Bem Acaba, constataremos que se trata da comdia shakespeanana mais subestimada, especialmente 
quando comparada a obras anteriores, como Os Dois Cavalheiros de Verona e A Megera Domada At o presente, assisti a apenas uma montagem de Bem Est o c\ue Bem Acaba 
e, como a pea prossegue em sua longa histria de impopularidade, dificilmente, terei a oportunidade de rev-la encenada Basicamente, um equvoco de interpretao 
perdura desde o tempo de Samuel Johnson, mestre entre os crticos shakespeananos Tanto quanto Johnson, no conseguimos tolerar Bertram, o jovem nobre - e grosseiro 
- a quem a admirvel Helena ama No se trata, absolutamente, da nica relao desequilibrada em Shakespeare, de modo geral, as mulheres escolhem mal seus parceiros 
Porm, a escolha feita em Bem Est o (\m Bem Acaba parece ser a mais exasperante do cnone Bertram no possui uma s qualidade que o salve, cham-lo de criana mimada 
no seria anacronismo Samuel Johnson repudiava, acima de tudo, o final feliz, em que Bertram se resigna ao contentamento da vida domstica
No consigo tolerar Bertram, nobre desprovido de generosidade, jovem desprovido de verdade, covarde que se casa com Helena e que a abandona, um libertino, quando 
ela sucumbe de tanta crueldade, ele foge para casa, para um segundo casamento, 
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#HAROLD  BLOOM
acusado por uma mulher a quem fez mal, defende-se mentindo, e ainda acaba bem
Shakespeare teria apreciado a ironia de Johnson, de que Bertram "acaba bem" Bem Est o cfue Bem Acaba  de um rano, com todo o ambiente corts, comparvel ao encontrado 
em Trilo e Cmsida e em Medida por Medida, at mesmo o ttulo expressa uma sofisticada amargura Sendo Bertram nada mais do que um esnobe de cabea oca, o foco de 
interesse da pea recai sobre Helena, e sobre Parolles, soldado impostor, cujo nome, bem a calhar, quer dizer "palavras", e que  objeto de uma verdadeira demolio, 
mais nos termos do cdigo moral de Johnson do que de Shakespeare Muitos crticos no gostam de Parolles - no sei por qu, trata-se de um esplndido patife, mais 
do que transparente na percepo de qualquer pessoa de bom-senso, o que, claro est, no se aplica a Bertram Os papis de Parolles e Helena so os mais importantes 
da pea O mximo que um diretor pode conseguir com Bertram  faz-lo lembrar um Clark Gable ainda jovem, soluo adotada por Trevor Nunn na montagem a que assisti 
So numerosos os mancebos inconvenientes em Shakespeare, em termos de nuhdade, Bertram  especialmente nxio
Yeats, lamentando o fato de sua amada, Maud Gonne, ter preferido desposar o rebelde MacBnde, vivenciou o princpio de Shakespeare, de que mulheres gloriosas escolhem 
homens sofrveis ou vazios
O certo  que a mulher bonita come
Doida salada quando mata a fome,
E o Como da Abundncia est perdido
Uma vez que todos conhecemos exemplos vivos de unies incompatveis,  sempre um prazer recorrer a Shakespeare em busca de entendimento sobre essa "doida salada" 
Supostamente, desejosa de vingar-se do pai, que a submetera ao ritual das trs caixas, de bom grado, Prcia aceita Bassmo, amvel e imprestvel caa-dotes, e diz
" W B Yeats Poemas Traduo e Introduo de Paulo Vizioli So Paulo Companhia das Letras, 1994, p 95 [N T]
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BEM   ESTA  O  QUE  BEM  ACABA
Ai de mim, por que dizer "escolher"! No posso nem escolher quem quero, nem recusar quem no quero, pois os desejos de uma filha viva esto submetidos  vontade 
de um pai morto *
[I u]
Tolamente, Jlia, em Os Dois Cavalheiros de Verona, apaixona-se por Proteu, mas, vale lembrar, um amante protico assume tantos disfarces que uma mulher bem mais 
esperta poderia cometer o mesmo engano Hero, em Muito Barulho por Nada, casa-se com o fraco Cludio, mas  demasiadamente jovem para notar que ele  vazio J em 
Noite de Reis, temos um Shakespeare belo e desvairado a charmosa e ensandecida Viola apaixona-se pelo absurdo Orsino, enquanto Olvia morre de amores poi Sebastio, 
simplesmente, porque este  irmo gmeo de Viola, sendo outro ensandecido, Sebastio deixa-se devorar tranqilamente O caso de Helena  bem diferente, e a paixo 
romntica que nutre por Bertram parece ser, ao mesmo tempo, a ironia culminante dos casais cmicos shakespeananos e algo que se aproxima de Keats
HELENA
[   ] No conservo na [imaginao] traos fisionmicos alm dos de Bertram Estou perdida Vida no h onde Bertram no se ache Mas  o mesmo que amar um fulgente 
astro e querer despos-lo Est to alto" Posso alegrar-me em sua luz radiosa e dela receber algum reflexo, mas no mover-me nunca em sua esfera Minha ambio, desta 
arte, se castiga Deve morrer de amor a cora tmida que aspirava a um leo para consorte
* A Comtimdo Erros e O Mercador de Veneza Traduo de Barbara Heliodora R,ode Janeiro Nova Fronteira, 1990, p  149 [N T]
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ir
BEM  ESTA  O  QUE   BEM  ACABA
Admirvel, a um tempo, e doloroso era v-lo a toda hora, desenhar-lhe na tela do meu peito os lindos cachos, o arco dos superclios, o olhar de guia, neste peito 
to vido das linhas do menor trao de seu doce rosto Mas partiu, s restando  minha idolatra paixo simples relquias
[I i]
O grande, ltimo soneto de Keats, "Fulgente astro, quisera ser to firme"", faz ecoar a devoo de Helena ao seu "fulgente astro", e pode-se dizer que o patbos do 
poema de Keats capta a ironia de Shakespeare Aqui, porm, a ironia de Helena volta-se contra a sua prpria "idolatra / paixo", a venerao petrarquiana do jovem 
nobre ao lado do qual crescera Aqui, "imaginao" sugere, tanto da parte de Helena quanto de Shakespeare, algo negativo, algo que, de maneira consciente, promove 
o auto-engano
Shakespeare procura comover-nos com a capacidade que Helena tem de amar (exatamente o que comoveu Keats), ao mesmo tempo em que constatamos que essa mulher admirvel 
comeu uma "doida salada" para matar a fome Bertram  "superior" a Helena, na escala social, e, talvez, em aparncia fsica, ademais,  ela o "fulgente astro", e 
ele pouco melhor do que Parolles, pois enquanto as suas realizaes limitam-se  esfera militar, Parolles  um soldado fanfarro, um impostor, mentiroso, parasita, 
muito mais interessante do que o beligerante e mulherengo Bertram Portanto, a primeira questo de Bem Est o cjue Bem Acaba seria como pode Helena se enganar tanto? 
Podemos tentar recompens-la do erro de julgamento alegando que Bertram  imaturo, e que ir se modificar, mas Shakespeare indica-nos o oposto a criana mimada h 
de  se tornar cada vez mais monstruosa, apesar da me, da esposa e do
" Muito Barulho por Nada e Bem Esta o <{ue Bem Acaba Traduo de Carlos Alberto Nunes So Paulo Edies Melhoramentos s d Todas as citaes referem se a essa edio 
[N T]
Rei - na verdade, como que para os provocar A obstinada Helena vence, mas paga muito caro conforme o pblico, sem dvida,  levado a concluir Em sua incrvel mestna 
na representao de personagens femininos (to convincentes quanto os masculinos), Shakespeare reformula a questo, tomando-a bem mais interessante quem  Helena"
Dispomos de informaes sobre o pai de Helena, falecido, mdico ilustre e amigo do Rei, mas no me recordo de qualquer referncia  me de Helena A Condessa, me 
de Bertram, criou Helena como filha adotiva, e o amor entre a me de Bertram e a jovem  o sentimento mais admirvel da pea Shakespeare  bastante competente quando, 
em suas peas, prescinde de pais e mes, sempre que tais figuras no so relevantes aos seus propsitos Nada sabemos da me de Gonenl, Regan e Cordlia,  quase 
como se a mulher do Rei Lear fosse to nula quanto, por exemplo, o primeiro mando de Lady Macbeth ou a me de lago (at mesmo lago, supostamente, teve me) No you 
aqui agradar a formalistas e materialistas, especulando sobre a infncia de Helena, muito menos a de lago1 Mas  importante acentuar o amor que Helena sente pela 
viva, Condessa de Rossilho, protetora da rf Freud, shakespeanano tambm nesse particular, divide em dois tipos os objetos do desejo narcisista e projetado, a 
escolha de Helena em favor de Bertram passa, veementemente, por ambos Quanto ao narcisismo, Bertram, amigo de infncia,  quem Helena desejava ser (rebento legtimo), 
ao passo que em termos de projeo, Bertram representa os pais perdidos, o dele prprio e o de Helena Portanto, o amor de Helena  predeterminado com uma intensidade 
incomum mesmo a Shakespeare, em cuja obra a contingncia do amor carnal est quase sempre patente No importa quem Bertram  ou deixa de ser Helena est fadada a 
am-lo
Por conseguinte, devemos basear nosso entendimento de Bem Est o cfue Bem Acaba na constatao de que a capacidade de julgamento de Helena no  nem boa nem m, 
corn efeito, sequer  questo de julgamento Helena, enquanto vida tiver, estar apaixonada por Bertram, pois trata-se de uma questo de identidade, de algo que ela 
sempre foi Shakespeare, que, com certeza, era infeliz no matrimnio, demonstra que casamento, raramente,  uma questo de escolha Sempre me
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BEM   ESTA  O  QUE   BEM  ACABA
apraz dizer aos meus alunos que a unio mais feliz em Shakespeare  a de Macbeth e Lady Macbeth, feitos um para o outro" Por que se casam Otelo e Desdmona, num 
casamento de tal modo desequilibrado que permite a terrvel interferncia de lago" No podemos responder a essa pergunta, em carter definitivo, assim como no temos 
como identificar o motivo central da maldade de lago Algo parece ausente dos relatos que Otelo e Desdmona fazem de seu amor, mas esse algo  fundamental  natureza 
do casamento, a instituio humana mais singular, dentro e fora da obra shakespeanana No casamento, Shakespeare sempre sugere, no somos ns que escrevemos,  a 
histria que nos escreve
No faz sentido analisar Parolles em relao a Falstaff, rei da espintuosidade e da liberdade, embora muitos crticos cometam esse erro O magnfico Falstaff  maior 
do que as peas que levam o nome de Henrique IV no ttulo e, conforme argumento ao longo deste livro, aproxima-se, mais do que qualquer outro personagem, da representao 
do centro vital de Shakespeare, como pessoa Embora no seja o cosmo que  Falstaff, Parolles  o centro espiritual de Bem Est o que Bem Acaba, emblema do azedume 
que subjaz ao mundo da corte A amargura da pea est condensada na promessa de sobrevivncia de Parolles, aps ser descoberto e humilhado
PAROLLES
Ainda assim, agradeo Se no peito tivesse grande corao, agora teria ele estourado Foi-se o ttulo de capito, mas como qualquer deles you tratar de comer, beber 
e ao sono calmamente entregar-me Minha vida vai depender, de agora em diante, apenas do que realmente sou Os que na conta se tiverem de biltres tomem nota,
pois  certeza revelar-se burro todo lorpa que  gente por bamburro Brio, arrefecei Espada, cria ronha" Parolles vai deixar de ter vergonha A vida continua a ser 
nsonha you segui-los
[IV111 ]
Podemos estranhar, mas no objetaremos s palavras "Minha vida / vai depender, de agora em diante, apenas / do que realmente sou" Na fala anterior, Parolles pergunta 
"Quem no seria esmagado por uma conjura"", o que, igualmente, nos causaria espcie Dentro do contexto, as palavras "a vida continua a ser nsonha" assumem uma aura 
especial mas podem, tambm, provocar um calafrio Em sua queda, Parolles no chega a ganhar a nossa simpatia, mas oferece-nos a gama de suas possveis identidades 
Talvez no sejamos soldados fanfarres, covardes, tagarelas, mas todos tememos desgraas e privaes, receamos sucumbir como Abishag, de Robert Frost, ou como Parolles 
O poema de Frost intitulado "Provide, Provide" tem o esprito das palavras de Parolles "you segui-los"
Contudo, por que esto Parolles e Helena em uma mesma pea" Por que esto juntos, se so opostos, talvez diametralmente opostos" O elo entre os dois personagens 
 Bertram, cujo lado negativo no se deve a Parolles, pois o primeiro pouco melhora, depois que o segundo  descoberto Se Parolles no existisse, Bertram teria procurado 
a companhia de qualquer outro parasita, qualquer outro canalha bajulador A nica caracterstica autntica em Bertram  seu desejo de glria militar, pois mesmo as 
suas relaes com mulheres parecem mais uma conseqncia da caserna do que uma busca Defensores de Bertram tentam v-lo como vtima da adulao de Parolles, mas 
a tese  insustentvel A funo de Parolles na pea no  a de anjo mau de Bertram, antes, ele representa o que Shakespeare sempre detestou modismos bobos, bajulao 
calculista, bazfia, mentira A singularidade e a importncia de Parolles advm de sua transparncia, na pea, os personagens de boa ndole
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percebem, imediatamente, o interior de Parolles. A falta de viso de Bertram sugere falta de mrito, e est relacionada  averso que o personagem sente por Helena, 
sentimento que remonta ao convvio entre os dois, desde a infncia. Todos conhecemos um ou dois Parolles; espantoso, mais uma vez,  a tolerncia de Shakespeare 
corn o patife falastro, cuja obstinada sobrevivncia, por mais abjeta,  aceitvel ao dramaturgo, tomando-se, na verdade, crucial ao fracasso de Bertram e ao triunfo 
de Helena. Parolles e, de uma maneira bem mais complexa, Helena so os elementos que levam ao que h de mais contundente e sutil em Bem Est o tjue Bem Acaba-, uma 
viso austera da natureza humana, que  tambm extremamente tolerante com relao a essa mesma austeridade. E como se Shakespeare, por espontnea vontade, evitasse 
o abismo niilista de Trilo e Crssida e Medida por Medida; no entanto, tal opo tem um custo: o autor v-se obrigado a atribuir maior valor a uma gerao mais 
madura (o Rei, a Condessa, o velho nobre Lafeu, o bobo Lavache) e a Helena, esta como um retrocesso aos princpios da referida gerao. Ao optar pela velha-guarda, 
Shakespeare oferece-nos uma alternativa de sabedoria, muito bem expressa na observao, em prosa, feita por um dos nobres franceses:
A teia de nossa vida  composta de fios misturados: de bens e de males. Nossas virtudes  se tornariam orgulhosas sem os aoites de nossos defeitos, como os nossos 
vcios desesperariam, se no fossem alentados pela virtude.
[IV.iii.]
Poucos pensamentos teriam articulao mais sutil e, em ltima anlise, mais perturbadora do que a que vemos acima. Na teia da vida de Bertram e Parolles no h fios 
misturados,- a observao aplica-se a Helena, nossa "representante". Admirada por George Bernard Shaw como mulher atirada, ps-lbsen, Helena no  chegada a sorrisos 
e, nesse ponto, no faz muito o estilo de Shaw. E absolutamente contumaz, quase monomanaca em sua fixao de conquistar o reluzente (e falso) Bertram. Sendo sua 
determinao de conquistar Bertram to desmedida,
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BEM   EST  O   QUE   BEM   ACABA
chegamos a nos indagar por que no sentimos por ele uma certa simpatia, principalmente, diante da aliana entre Helena e o Rei, que, atravs de ameaas, obriga o 
jovem a se casar. Bertram  vtima de uma injustia desumana: um prmio, uma recompensa de conto de fadas exigido por Helena por haver curado o Rei de Frana. Isso 
deveria parecer-nos algo abominvel, mas, como Bertram  abominvel, no nos consternamos.  admirvel a arte de Shakespeare, ao lidar com a contumcia de Helena,- 
a personagem leva a termo seu estranho projeto com verve e sprezzatura-.
BERTRAM
Am-la, -me impossvel, nem pretendo
esforar-me para isso. REI
A ti te ofendes,
mostrando-te indeciso nessa escolha. HELENA
Alegra-me saber que estais curado,
senhor,- deixai o resto.
[H.iii.]
"Deixai o resto"  expresso excelente, um misto de desespero e tirocnio, pois Helena sabe, tanto quanto o Rei, que a honra e o poder real esto em jogo. Provocada, 
a autoridade fala em tom que pressagia o Deus severo de Paraso Perdido, de Milton:
Refreia o orgulho e nosso alvitre acata,
que em teu bem, s, se esfora. No ds crdito
a esse desdm, mas faze que trabalhe
para tua fortuna a vassalagem,
e que o dever te obriga e nossa fora.
Se no, de nossa graa te afastamos
para sempre, atirando-te  vertigem
da mocidade e aos erros da tolice,
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e o dio e a vingana sobre ti lanamos em nome da justia, sem piedade.
[Il.iii.]
A retaliao de Bertram, aps haver capitulado, , condignamente, infantil: "[...] Para a guerra da Toscana / prefiro ir, sem jamais subir ao tlamo/da que hoje 
 minha esposa". O momento mais tocante da pea, no final do segundo ato, sobrepe o orgulho ferido de Bertram ao desespero contido de Helena:
HELENA
Nada vos digo,
senhor, seno que sou vossa fiel serva. BERTRAM
Deixai,- no faleis nisso. HELENA
E que hei de sempre
me esforar por suprir o que no pde
me dar humilde estrela, em tudo digna
me mostrando da sorte inesperada. BERTRAM
Deixai. Estou com pressa. Voltai logo
para casa. HELENA
Perdoai-me, por obsquio,
senhor. BERTRAM
Que pretendeis dizer com isso? HELENA
No mereo a fortuna que me coube,-
no me atrevo a dizer que me pertence.
No entanto,  minha mesmo. Qual medroso
ladro, hei de roubar modestamente
do que me deu a lei.
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BEM   EST  O   QUE   BEM   ACABA
BERTRAM
Que mais quereis?
HELENA
Um quase nada... Muito... Nada! Nada!
No vos direi, senhor, o que me ocorre...
No,- you dizen
s estranhos e inimigos se despedem
sem se beijarem. BERTRAM
Por favor, depressa!
Montai logo a cavalo. HELENA
Vossas ordens,
meu bom senhor, sero obedecidas.
[H.v.]
Ele  a fortuna que a ela coube (e da qual ela  devedora), em termos sexuais,- e, ao ser por ele rejeitada, ela  se torna "medroso / ladro", disposta a roubar 
algo 
que, por lei,  seu. O ritmo e as pausas da voz de Helena so aqui extremamente artsticos, e resgatam-nos muita admirao por ela, se no por sua capacidade de 
julgamento. A carta de despedida que Bertram, mais tarde, escreve a Helena completa, ao mesmo tempo, o desprezo que sentimos por ele e a nossa crescente cumplicidade 
corn ela:
"Quando conseguires o anel que trago no dedo, e que jamais sair dele, e quando puderes mostrar-me um filho nascido de teu ventre, que tenha sido gerado por mim: 
ento poders dar-me o nome de esposo. Mas esse "ento" vale por um "nunca"".
[III..]
Na prtica, a carta  o convite que leva ao estratagema da cama, a substituio de uma mulher pela outra, no escuro, o que viabiliza inusitadas solues, aqui e 
em Medida por Medida. O ditado - no escuro
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#HAROLD  BLOOM
todos os gatos so pardos - expressa, de um lado, a stira que Shakespeare faz da propenso masculina a no distinguir uma mulher da outra, de outro, uma mensagem 
um tanto ou quanto amarga Quando, em Medida por Medida, Isabela submete-se ao estratagema da cama, permitindo que Manana a substitua, instigada pelo "duque de esconderijos 
esconsos", sua cumplicidade moral no nos assusta, pois, conforme quase a totalidade dos personagens da pea, ela  um tanto desequilibrada Mas incomoda-nos o fato 
de a prpria Helena ser a proponente do estratagema da cama, em que ela ter um desempenho sexual em nome de outra pessoa Nosso constrangimento  ainda maior diante 
do que ela diz, ao prever o encontro com Bertram, por ela ludibriado
[   ]  estranhos homens,
que vos mostrais, assim, to carinhosos
[corn o que tendes] dio, quando as formas
lascivas dos sentidos enganados
a tenebrosa noite deixam sujai
Desse modo a luxna se alimenta
corn o que repulsa lhe produz violenta
Mas depois voltaremos a esse assunto
[IVv]
O azedume dessa fala advm do pragmatismo nela contido, haver na literatura alguma viso feminina mais fria, mais desapaixonada, da lascvia masculina? A pungente 
expresso de Helena - "formas / lascivas" - ecoar em Medida por Medida, quando o hipcrita ngelo relacionar assassinato e procnao ilcita "Fora o mesmo / perdoar 
a quem um ser j feito rouba /  Natureza, e dar de mos s rdeas / da luxna que faz cunhar a imagem / do cu, quando proibida" * Temos, em ambos os casos, o sentido 
duplo de "insolncia" e lascvia", e a fora da percepo de Helena depende, em parte, do seu entendimento de
! Medida por Medida e Conto ao Inverno Traduo de Carlos Alberto Nunes Vol VII  So Paulo Edies Melhoramentos s d   p 57 [N T]
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BEM  ESTA  O  QUE  BEM  ACAU
que a sensualidade masculina , ao mesmo tempo, pungente, no-diferenciada e misgma Embora Helena prometa que "depois voltaremos a esse assunto", infelizmente, 
isso no ocorrer O que ela nos diz, citando o ttulo,  o que a pea como um todo nos informa
Pacincia um pouco No falta muito para que de novo tenhamos o vero, quando as roseiras se cobrirem de flores e de espinhos, agradveis ficando, a um tempo, e agudas 
Precisamos partir, a nossa carruagem j se acha pronta, o tempo nos convida  sempre bom tudo o que acaba bem O fim coroa a obra A trajetria mais difcil importa 
maior glria
[IV.v]
Esse trecho agndoce, que propositadamente, alude a vrios provrbios, tem por objetivo justificar o atrevimento de Helena, cuja lascvia no deve ser subestimada 
Uma coisa  o estratagema da cama, admissvel, se indispensvel, mas fingir-se de morta, para conseguir a piedade da Condessa e me adotiva, do Rei e de Lafeu,  
algo bem mais grave A ttica de Helena prefacia a do mais-que-dbio Duque, em Medida por Medida, quando este, cruelmente, engana Isabela e os demais personagens 
corn respeito  morte de Cludio No que Helena seja sdica, como o Duque - a questo  que ela no desistir da determinao de fazer tudo acabar para ela, conquistando 
o relutante Bertram Para o pblico, tal projeto h de parecer um tanto doentio, e Shakespeare oferece-nos inmeras indicaes de estar ciente de nossa ambivalncia, 
no quanto  prpria Helena, mas com respeito  sua impenitente misso
A pea protege Helena do nosso ceticismo ao apresentar sua monomama em dimenses hericas Haver algum personagem na obra shakespeanana, feminino ou masculino, que 
lute de maneira to acirrada, e com tanto sucesso, para superar todo e qualquer obstculo 
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satisfao de uma ambio" Somente os heris-viles equiparam-se a Helena - Ricardo in, lago, Edmundo, Macbeth - e todos so, eventualmente, mortos ou derrotados 
Helena triunfa, ainda que sua recompensa deixe um pouco a desejar E como  complexa a luta  qual ela se submete, recapitular a peleja de Helena  constatar que 
sua contenda para conquistar Bertram encerra toda a estrutura da pea,  exceo da saga de Parolles, cuja derrota e subsequente determinao de sobreviver constituem 
um eco pardico da vitria e da determinao de Helena em obter a mo de Bertram Freud deve a Shakespeare uma proporo escandalosa da sua suposta originalidade 
Segundo um desses conceitos, a satisfao, se no a felicidade, depende da realizao de nossas ambies mais profundas, quando crianas Helena obtm satisfao 
e, presumivelmente, ser feliz Contudo, Shakespeare, deliberadamente, deixa-nos apreensivos com esse dilogo final entre mando e mulher
HELENA
 bondoso gentil-homem,
quando eu era como esta senhonta
vos achei sobremodo [generoso]
Vosso anel est aqui, e aqui a carta
que me escrevestes Nela pode ler-se
"Quando do dedo o anel me arrebatares,
e um filho meu tiveres   " Est feito
E ora quereis ser meu com mais direito? BERTRAM
Se ela isso demonstrar,  rei, eu juro
que lhe dedicarei o amor mais puro HELENA
Se tudo claro eu no deixar depois,
haja eterno divrcio entre ns dois"
[Vi..]
Vejo me obrigado a discordar de Nunes caso contrario a observao de Bloom perde o sentido O original registra aqui a palavra kmd i e bondoso generoso e no pressuroso" 
como entendeu Nunes [N T]
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BEM   EST  O  QUE   BEM   ACABA
Esses dsticos so dos mais azedos em Shakespeare, provocando um efeito alienante e cmico Entre todas as ousadias de Helena, a mais ultrajante  " bondoso gentil-homem, 
/ quando eu era como esta senhonta / vos achei sobremodo generoso", indireta, no contexto, de tamanho mau gosto que algo em ns esfria com relao a Helena J o 
intolervel Bertram sai de cena com uma fala cuja falsidade, ridcula, muito lhe convm "juro / que lhe dedicarei o amor mais puro" O dstico final do Rei (fora 
o Eplogo) expressa as restries de Shakespeare e do pblico
Tudo parece bem, sendo o fim doce, que importa que o comeo amargo fosse? [minha nfase]
[V m]
O Eplogo vai mais longe, colocando-nos na posio dos atores, de maneira que nosso aplauso  se torna uma irnica celebrao da pea, dos artistas e das restries 
irnicas do dramaturgo
Representada a pea,  o rei mendigo Tudo acabar bem,  o que vos digo, se palma nos baterdes Alegria vireis achar aqui dia por dia Bastem-vos nossas boas intenes, 
dai-nos as mos, eis nossos coraes
[Eplogo]
Os atores tomam-se platia, e a sua satisfao, seja ela qual for, depende de ns Embora a seqncia de composio das trs comdiasproblema seja objeto de disputa 
entre os especialistas, Bem Est o cfue Bem Acaba, a meu ver, ser melhor compreendida como transio entre Trtlo e Crssida e Medida por Medida Bem Est no se 
equipara a essas duas obras-primas do nnlismo, mas, por intermdio de Helena e Parolles, transporta-nos de Ulisses e Tersites a Lcio e Bernardmo, da idia de
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#HAROLD  BLOOM
ordem em Tria  idia de ordem em Viena. Inexiste idia de ordem na Frana e na Itlia de Bem Est o cjue Bem Acaba. Ficamos com as seguintes alternativas: conforme 
Helena, superamos todos os obstculos para fazermos valer nossa vontade, ou, conforme Parolles, somos expostos e, apesar de tudo, demonstramos a fora de vontade 
necessria para sobrevivermos. Seria essa uma alternativa, verdadeiramente, superior  outra? Shakespeare, nessa que  a mais livre - ainda que a mais leve - das 
trs comdias-problema, no nos propicia qualquer resposta inequvoca.
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MEDIDA POR MEDIDA
Escrita, pelo que consta, entre o final da primavera e o final do vero de 1604, a arrebatadora pea intitulada Medida por Medida pode ser considerada o adeus de 
Shakespeare  comdia, pois j no poderemos classific-la como tal. Tradicionalmente rotulada de "pea-problema", ou "comdia sombria", terminologia aplicada tambm 
a Tro e Crssida e Bem Est o cfue Bem Acaba, peas que a precederam, Medida por Medida vai alm das precursoras, em termos de insipidez, parecendo mesmo purgar 
Shakespeare de qualquer resqucio de idealismo do qual Tersites e Parolles j no o houvessem remido. Argumentei, anteriormente, que Tersites  o centro, bem como 
o coro, em Trilo e Cre"ssida, e que Parolles seria o centro de Bem Est o que Bem Acaba. A figura paralela em Medida por Medida seria Lcio, no tivesse ele natureza 
boa demais e sensatez em excesso, para ser o eptome do mundo corrupto de Medida por Medida. O papel emblemtico aqui cabe ao sublime Bernardino, o assassino, sempre 
embriagado, que fala apenas sete ou oito frases em uma nica cena, mas que pode ser tomado como o gnio cmico dessa pea genuinamente instigante. Loucura, termo 
adequado  celebrao que constitui Noite de Reis, no se aplica a Medida por Medida, pea cuja acrimnia  de uma intensidade inigualvel em Shakespeare.
Todos temos (ou, pelo menos, deveramos ter) determinadas peas do cnone shakespeariano que nos so favoritas, por mais que veneremos Falstaff, Hamlet, Lear e Qepatra. 
As minhas so Medida por Medida
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#HAROLD   BLOOM
e Macbetb o intenso azedume da primeira e a economia cruel da segunda cativam-me como nenhuma outra obra literria poderia faz-lo A Viena de Lcio e Bernardmo e 
o inferno de Macbeth so vises incomparveis da enfermidade humana, da deturpao sexual, no caso de Medida por Medida, e da imaginao horrorizada consigo mesma, 
no caso de Macbeth O fato de Medida por Medida, embora no esquecida, no ser extremamente popular est relacionado ao seu contedo equvoco jamais sabemos ao certo 
como apreender a pea Sem dvida, o desatino da cena final deixa-nos atnitos Isabela, a herona, detentora de uma castidade apocalptica, no fala uma vez sequer 
ao longo dos ltimos
85 versos, concludos pela surpreendente proposta de casamento do Duque, idia to ensandecida quanto tudo o mais nessa pea, a um s tempo, inacreditvel e convincente 
Shakespeare, somando ousadia  ousadia, deixa-nos moralmente sem flego, e aturdidos em nossa imaginao, como se desejasse acabar com o gnero da comdia, levando-o 
s ltimas conseqncias, alm da farsa, muito alm da stira, quase alm da ironia, no que esta tem de mais custico A perspectiva cmica,  qual Shakespeare se 
volta (em busca de um alvio?) aps o triunfo da reviso de Hamlet, em 1601, chega ao fim nesse desvairado scberzo, depois do qual a tragdia haveria de retornar, 
em Otelo e nas obras que se sucederam Segundo meu entendimento, o esprito de lago paira sobre Medida por Medida, uma indicao de que,  poca, Shakespeare j trabalhava 
em Otelo A viso destruidora que lago tem da sexualidade humana adequa-se  Viena de Medida por Medida, cidade de Lcio, "tipo folgazo", de Mistress Overdone, "alcoviteira", 
de Pompeu, alcoviteiro que  se torna aprendiz do "carrasco" Abhorson, acima de tudo, cidade de Bernardmo, "prisioneiro dissoluto" que, sabiamente, mantm-se embriagado, 
pois, nessa pea enlouquecida, ficar sbrio  ser o mais louco dos loucos
Medida por Medida, de maneira mais especfica do que qualquer outra obra do cnone, envolve o pblico em algo que sou levado a considerar uma invocao e uma evaso 
simultneas da f e da moral crists Decididamente, a evaso  mais perceptvel do que a invocao, e, no que toca s referncias crists, no vejo como no considerar 
a pea uma blasfmia Em ltima anlise, a blasfmia figura desde o ttulo, com a
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MEDIDA  POR MEDIDA
aluso direta ao Sermo da Montanha "corn a medida que medis sereis medidos", uma reverberao das palavras "corn o julgamento que julgais sereis julgados" A referncia 
ocasionou uma interpretao to desatinada quanto a prpria pea, embora bem menos interessante crticos com tendncias evangelizadoras fazem-nos crer que Medida 
por Medida  uma excelsa alegoria da Redeno Divina, na qual o dbio Duque seria Cristo, o amvel Lcio seria o diabo, a neurtica e sublime Isabela (incapaz de 
distinguir entre formcao e incesto) seria a alma humana, destinada a casar-se com o Duque e, assim, tomar-se a Esposa de Cristo" Johnson e Colendge, ambos cristos, 
jamais chegariam a tal concluso, e tampouco Hazlitt, que no era crente, mas que era filho de um ex-pastor Sensatez, quanto  interpretao de Medida por Medida, 
comea com o reconhecimento, por parte de Hazhtt, de que, se a pea revela um Shakespeare moralista, trata-se de "um moralista no sentido em que a natureza  moralista" 
A natureza, como moralista (pelo menos, nessa pea), parece seguir o conselho dbio oferecido pelo Duque a ngelo
[   ] no cedendo
jamais a natureza um s escrpulo
de suas excelncias, sem que exija
para si, como deusa previdente,
no jeito dos credores, no s os juros,
mas tambm a gratido *
[L]
Vicncio, Duque de Viena, resolve fugir um pouco da realidade, e entrega sua cidade-estado ao governo de ngelo "O castigo e a clemncia, agora, em Viena" ficam 
delegados a ngelo, tmulo caiado que proclama a virtude quem formcar e gerar filhos ilegtimos ser decapitado O espintuoso Lcio chama Mistress Overdone, a alcoviteira, 
de "senhora Mitigao", mas a mitigao do desejo passa a ser crime capital
* Medida por Medida e Conto do Inverno Traduo de Carlos Alberto Nunes Vol VII  So Paulo Edies Melhoramentos, s d Todas as citaes referem se a essa edio 
[N T]
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#HAROLD   BLOOM
em Viena Cludio  condenado  morte, em conseqncia de haver apanhado "duas trutas em um no particular" Comprometido com Julieta, mas sem hav-la ainda desposado, 
Cludio afirma a moralidade da natureza
Tem sede a Natureza - como os ratos
que em seu prprio veneno se comprazem -
de algo diablico, e, ao beber, morremos
[In]
Uma lei incrvel, imposta aos cdigos de Viena por Shakespeare, prev a pena de morte a quem mantiver relaes sexuais antes do casamento, e o estranho Duque Vicncio 
finge deixara cidade, para que essa clusula descabida possa ser posta em prtica por seu substituto, ngelo, cuja conduta sexual no passaria inclume por uma verificao 
rigorosa Shakespeare no se d ao trabalho de atribuir qualquer motivo  abdicao do Duque, as bobagens de Vicncio, em todo o decorrer da pea, fazem-no uma espcie 
de precursor anarquista de lago No temos aqui um Otelo, a ser derrubado pelo Duque, mas este parece conspirar, com grande imparcialidade, contra todos os seus 
sditos, com propsitos que nada tm de polticos ou morais   Seria Vicncio, conforme sugere Anne Barton, com tanta perspiccia, um substituto do prprio Shakespeare, 
na capacidade de autor de comdias" Em caso afirmativo, a comdia vai alm da estripulia marxista (refiro-me a Groucho, no a Karl), e os propsitos de Shakespeare 
seriam pouco mais definidos do que os do Duque Esse scherzo marca o fim da comdia para Shakespeare, ainda que um riso estranho emerja em dados momentos no restante 
de sua obra
O desejo sexual, desastroso em Trdo e Crssida, toma-se objeto de uma comdia das mais infelizes em Medida por Medtda Um intenso e precioso desespero informa a 
pea, e no ser infundado pensar que tal desespero seja o do prprio autor, pelo menos no que concerne  imaginao Relendo a pea, detecto uma exausto da experincia, 
uma sensao de que o desejo fracassou No temos como saber se, ao repelir
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MEDIDA  POR MEDIDA
a viso de incesto universal, Isabela expressa o cerne da pea, embora seja essa a concluso implcita a que chega Marc Shell, no livro TbeErtd oj Kmship (1988), 
o melhor e mais abrangente estudo de Medida por Medida H algo de errado com a Viena de Vicncio, sem dvida, mas pretender que "a mitigao do tabu do incesto" 
(conforme quer Shell) fosse um remdio para Viena, em qualquer poca - inclusive na de preucj -;  um tanto ou quanto drstico Mas Shakespeare  bastante drstico 
nessa pea, que chega a competir com Hamht em termos do "poema ilimitado", rompendo com formas tradicionais de representao Em Trdo e Cre"ssida, vimos Shakespeare 
negar aos seus personagens uma dimenso interior, indo de encontro  sua prtica como dramaturgo amadurecido Em Medida por Medida, cada personagem possui uma dimenso 
interior abissal, porm, como Shakespeare, propositadamente, os mantm bastante opacos, no temos acesso ao seu consciente, o que nos deixa um tanto frustrados Como 
conseqncia, Medida por Medida no tem personagens secundrios de certo modo, o papel de Bernardino  to importante quanto o do Duque ou o de Isabela At mesmo 
Lcio, o "tipo folgazo", mais sensato do que qualquer outro personagem da pea (conforme observou Northrop Frye), vitupera com um propsito que nos escapa Eu costumava 
colorir a minha percepo de filmes ruins imaginando o efeito da presena de Groucho Marx na ao Nesse esprito (embora Medida por Medida seja uma grande pea, 
, em ltima anlise, opaca), s vezes, imagino o que ocorreria se colocssemos Sir John Falstaff na Viena de Vicncio O sbio de Eastcheap, com sua afiada inteligncia 
discursiva, alm de ser o rei da espintuosidade, com sua galhofa, destruiria todo o elenco, contudo, Falstaff talvez sasse de cena desanimado e confuso diante 
da impossibilidade de reduzir o projeto do Duque a um sentido realista, epicunsta O escrnio de Falstaff constituiria uma reao adequada ao poema carola do Duque, 
que serve de preparao ao estratagema da cama, por meio do qual ngelo h de pagar por "sua fraude antiga" com relao a Manana
Quem maneja o gldio duro deve ser severo e puro,
#HAROLD  BLOOM
modelo, em tudo impecvel, excelente, inabalvel
[III.il.]
Percebemos que "Shakespeare" aqui no fala srio, no entanto, o Duque refora a ironia contida no ttulo da pea Colendge, o mais inveterado dos bardlatras, dizia 
que, dentre todas as peas, s Medida por Medtda causava-lhe sofrimento Em um ensaio que, passado mais de um sculo, continua a ser a melhor crtica da pea, Walter 
Pater, com grande astcia, contrasta Medida por Medida e Hamlet
A pea, ao contrrio de Hamlet, no aborda questes que perseguem um indivduo dotado de temperamento excepcional, mas trata to-somente da natureza humana Medida 
por Medtda coloca-nos diante de um grupo de pessoas atraentes, transbordantes de desejo, expoentes da fora revigorante e geradora da natureza, que levam uma vida 
brilhante e efervescente na velha corte da cidade de Viena, oferecendo-nos o espetculo da plenitude e riqueza da vida, o que, para alguns entre ns, parece beirar 
a devassido Por trs desse grupo de pessoas, por trs de suas aes, Shakespeare incute-nos o sentido da tirania da natureza e das circunstncias Ento, o que existir 
do lado de c - do nosso lado, o lado do espectador - oposto a esse pano de fundo, em que os bonecos se sentem verdadeiramente felizes ou infelizes? Que filosofia 
de vida? Que tipo de justia?
"To-somente da natureza humana", "fora revigorante e geradora da natureza", "beirar a devassido", "tirania da natureza" a litania de Pater sugere, exatamente, 
o que nessa pea significa ser "transbordante de desejo" ter uma fora que impele tanto a ordem pblica quanto a moralidade crist a escolher entre a nulldade e 
a hipocrisia A "filosofia de vida" que existe "do nosso lado, o lado do espectador",  o fluxo epicunsta de sensaes, o "tipo de justia", conforme sugere Marc 
Shell, envolve revanche, a lei de Talio, olho por olho A expresso medida
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MEDIDA  POR MEDIDA
por medida pode ser resumida em olho por olho a virgindade de Julieta custa a cabea de Cludio, a investida de ngelo contra a castidade inabalvel de Isabela custa-lhe 
o estratagema da cama, a zombaria de Lcio dirigida ao Duque disfarado de Frade custa-lhe o casamento forado com uma prostituta Talvez Shakespeare devesse ter 
intitulado a pea Olho por Olho, mas ele no quis abrir mo da blasfmia contra o Sermo da Montanha, camuflada o bastante para escapar da verso da lei de Talio 
que predominava  sua poca, que dera cabo de Marlowe e submetera Kyd  tortura, barbaridades que, supostamente, pesariam sobre Shakespeare, mesmo durante seus ltimos 
dias em Stratford
Os precursores do nnlismo europeu do sculo XIX, das profecias de Nietzsche e dos obcecados de Dostoievsky, so Hamlet e lago, Edmundo e Macbeth Mas Medida por Medida 
supera as quatro Grandes Tragdias como a obra-prima do nnlismo Tersites, em Tro e Crssida, mesmo em suas invectivas mais escabrosas, defende valores ausentes, 
valores que, implicitamente, condenam a debilidade moral dos demais personagens da pea, mas na Viena de Vicncio no existem valores, uma vez que os padres de 
moralidade civil ou religiosa, explcitos ou implcitos, so hipcritas ou irrelevantes  A rebeldia cmica de Shakespeare contra a autoridade  tamanha que o prprio 
atrevimento da pea  se tornou a melhor defesa contra a censura e o castigo Shell argumenta, de maneira brilhante, que a descabida lei contra a fornicao constitui 
um paradigma shakespeanano de todas as leis da sociedade, simulacro que serve de base para o mal-estar da civilizao Embora ache a hiptese um tanto radical, reconheo 
que Shell capta, melhor do que ningum desde Pater, a extravagncia implcita em Medida por Medida Nenhuma outra obra shakespeanana fica to distante da sntese 
ocidental entre a moralidade crist e a tica clssica, e a alienao com respeito  prpria natureza parece-me ainda mais contundente Na minha leitura, o desespero 
espiritual contido nas peas Rei Lear e Macbeth as distancia mais do cristianismo do que nos casos de Hamlet e Otelo, assim como as distancia do ceticismo naturalista 
de Montaigne, totalmente isolado do nnlismo Medida por Medida, no limiar de Otelo, Rei Lear e Macbeth, alimenta mais desconfiana com relao  natureza,  razo, 
 sociedade e  revelao do que as tragdias que se seguiriam No fundo dessa comdia
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#HAROLD  BLOOM
abrem-se sucessivos fundos, numa descida sem retorno. Deve ser por isso (conforme veremos) que a cena final pouco pretende nos convencer de suas solues e reconciliaes, 
implementadas pelo dbio Duque.
Em termos da trama, pode-se dizer que o pobre Cludio  o causador do conflito, ao sugerir a Lcio que Isabela seja recrutada para obter a misericrdia de ngelo:
implora-lhe por mim que arranje amigos junto de to severo governante, que ela prpria o assedie,- tenho algumas esperanas, que sua mocidade linguagem muda encerra 
e irresistvel, que os homens emociona. Ela  dotada, tambm, da arte preciosa, quando quer de palavras valer-se e do discurso, de persuadir o ouvinte.
[Hi.]
Talvez, Cludio no tenha plena conscincia da implicao de suas palavras. O que expressariam? Como devemos entender aqui o sentido do verbo "assediar? "Emocionar" 
e Valer-se" tm, certamente, sentido ambguo, e o discurso de Cludio prefigura o forte apelo sexual que as palavras de Isabela sempre exercem sobre os homens. O 
desejo sadomasoquista de ngelo pela novia  mais palpvel do que a luxria do Duque, mas a diferena entre os dois  uma questo de intensidade, no de qualidade. 
Quando vemos Isabela em cena pela primeira vez, a jovem expressa o desejo "de que seja realmente bem severa / a disciplina da ordem das devotas de Santa Clara", 
na qual ela est prestes a ingressar. De certo modo, o inconsciente apelo sexual exercido por Isabela fica implcito nesse desejo de disciplina severa, pressagiando 
a rejeio da
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MEDIDA  POR MEDIDA
oferta de ngelo, de trocar a cabea do irmo de Isabela por sua virgindade, medida por medida:
Se eu me sentisse acaso na iminncia de morrer, aceitaria como sendo rubis as marcas todas do chicote, e me despiria para entrar na tumba como em um leito h muito 
cobiado sem conseguir que o corpo me polussem.
[Il.iv.]
Se o Marqus de Sade escrevesse to bem assim, poderia ter competido com esse trecho, mas, na verdade, escrevia muito mal. Contudo, as palavras de Isabela antecipam 
o tom do Marqus, e provocam o sadismo de ngelo (e o nosso, se formos capazes de admiti-lo). Uma das mais eficazes ousadias de Shakespeare  o fato de Isabela 
ser sua personagem feminina mais provocante, at mesmo bem mais sedutora do que Clepatra, profissional da seduo. Lcio, flneur, "folgazo", atesta o potencial 
de perversidade contido na inocncia de Isabela, fazendo lembrar ao pblico que, em seu vocabulrio, "novia" tambm significava jovem prostituta", e que "convento" 
era sinnimo de bordel. ngelo e o Duque, estranha parceria, so levados pelo pedido de Isabela, igualmente, a uma sublime luxria, ngelo, no momento em que ela 
lhe apresenta o pleito, o Duque ao observar, como falso Frade, a cena de grande histeria sexual em que Isabela e Cludio entram em conflito ao discutir o preo da 
virtude da jovem.  difcil decidir quem  mais antiptico, ngelo ou o Duque Vicncio, mas os espectadores do sexo masculino tendero a fazer ecoar as palavras 
de ngelo: "Fala com tal bom-senso, que os sentidos, / concordes, me desperta". Empson, interpretando "senso" no sentido de "racionalidade" e "sensualidade", comenta: 
"a grande ironia [...]  que a frieza de Isabela, seu prprio racionalismo, deixa ngelo
Em ingls elisabetano, respectivamente, "nun e "nunnery". [N.T.]
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#HAROLD  BLOOM
excitado" Talvez, mas  a pureza da jovem que mais o excita, e os prazeres da profanao constituem o desejo mais ardente de ngelo O que, para um sadomasoquista 
reprimido, poderia ser mais provocante do que a oferta de Isabela, na esperana de demov-lo
mas com sinceras preces, dirigidas ao firmamento, que ho de ao seu destino chegar antes de o sol nascer, com preces enunciadas por virgens de almas puras votadas 
ao jejum, e a quem no turbam cuidados temporais
[II H ]
Buscar no corpo de Isabela a gratificao temporal de sua lascvia  a resposta inevitvel de ngelo
[   ] A prostituta,
corn a dupla fora que a arte e a natureza
lhe conferem, jamais pde abalar-me,
mas agora me sinto dominado
por esta jovem pura
[II n]
Parece que, para ngelo, o Paraso seria um convento [nunnery], em que pudesse atuar na qualidade de confessor (e inspetor), em ngelo, ouvimos a voz da sensualidade 
masculina, pela primeira vez, quando este apresenta, aberta e vigorosamente, o ultimato  jovem freira cuja sensualidade o faz delirar
Mas j que principiei, you soltar rdeas ao instinto sensual consente logo no que requer o meu desejo ardente, pra com essas sutilezas, esses rubores dispensveis, 
que s servem
MEDIDA  POR MEDIDA
para banir o que eles ambicionam, resgata o irmo, cedendo aos meus desejos o corpo, do contrrio, no somente vai morrer ele a morte commada e, ante a recusa tua, 
ora acrescida de morosa agonia Amanh traze-me a resposta, se no, por esta mesma paixo que me domina, eu me transformo para ele num tirano
[II iv]
Essa "Investida do Reprimido" enseja um belssimo melodrama, especialmente quando o contexto cnico  cmico, por mais azeda que seja a comdia ngelo  um mau elemento 
- quanto a isso Shakespeare no faz qualquer concesso, at o final da pea No resta dvida de que, pelo menos a essa altura da ao, em seu ardor, ngelo estaria 
disposto a torturar o irmo para deflorar a irm Sena, tambm, um caso de medida por medida" Mais uma vez, o grande Marqus de Sade no pde se igualar a Shakespeare, 
nem em concepo psquica nem em eloqncia A fuso feita por Sade de autoridade poltica, domnio mental e tortura sexual  antecipada por ngelo, cujo nome  to 
irnico quanto a funo que lhe  delegada, ou a misso de erradicar a fornicao e a bastardia
Por si s, ngelo j bastaria como estranho admirador da estranha Isabela, mas Shakespeare quer superar-se e, portanto, recorre ao Duque, disfarado na cena central 
da pea (ato in, cena I), de uma eloqncia incrvel, que reverbera ainda mais quando examinada fora do contexto Encontramos essa caracterstica singular anteriormente, 
em certas falas de Ulisses, em Trilo e Crsstda, mas no com a intensidade constatada na resposta do Duque s palavras de Cludio "Espero ainda viver mas estou 
pronto / para a morte" Eis o conselho espiritual do suposto Frade uma triste litama capaz de comover duas sensibilidades bastante distintas, Samuel Johnson e T S 
Eliot
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#HAROLD  BLOOM
MEDIDA  POR MEDIDA
CLUDIO
Espero ainda viver, mas estou pronto
para a morte
DUQUE
Contai certo com a morte,
desse modo, tanto ela como a vida
 se tornaro mais doces Dialogai
corn a vida deste modo Em te perdendo,
perderei o que os tolos, to-somente,
cuidam de preservar S s um sopro
submetido s influncias mais variadas
do tempo, que visitam a toda hora
tua casa com aflies Es simplesmente
um joguete da morte, pois s cuidas
de evit-la e no fazes outra coisa
seno correr para ela No s nobre,
pois quanto de conforto podes dar-nos,
se nutre de baixezas, nem valente
podes chamar-te, ao menos, pois tens medo
do dardo brando e frgil de um gusano
mesquinho Teu melhor repouso  o sono,
que invocas to freqente, no entretanto,
mostras pavor insano de tua morte,
que outra coisa no  Tu no s tu,
pois vives em milhes de gros nascidos
da poeira Feliz, tambm no s,
pois s cuidas de obter o que te falta,
olvidando o que tens No s constante,
porque tua compleio, segundo as fases
da lua, est sujeita a variaes
Se s rico, s pobre, porque tal como o asno
vergado sob o peso de tanto ouro
s levas tua riqueza uma jornada,
vindo a morte, depois, descarregar-te
Amigos no possuis, porque tuas prprias entranhas, que por pai te reconhecem, e at mesmo o que os rins verter costumam, o reumatismo, as lceras e a gota te amaldioam 
por no darem cabo logo de ti No tens nem mocidade nem velhice, no sendo, por assim dizer, mais do que um sono aps a sesta, que sonha com ambas, porque a to 
ditosa juventude envelhece  fora, apenas, de suplicar esmolas  impotente decrepitude Quando s velho e rico, careces de afeio, calor, beleza, que os bens te 
tornem gratos Que merece, pois, o nome de vida nisso tudo? Mais de mil mortes essa vida oculta, no entanto temos tanto medo  morte, que  o que, no fim da conta, 
tudo iguala
[in . ]
Johnson e Ehot detiveram-se na inquietante musicalidade cognitiva dessa grande fala (embora, no contexto, um tanto vazia)
No tens nem mocidade nem velhice, no sendo, por assim dizer, mais do que um sono aps a sesta, que sonha com ambas
Johnson observa
O trecho expressa uma imaginao primorosa Na juventude, ocupamo-nos de pensar esquemas para o futuro, e deixamos passar a felicidade que est diante de ns, na 
velhice aproveitamos a languidez da idade, recordando prazeres e feitos da juventude, de maneira que nossa vida, jamais ocupada de
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questes presentes, faz lembrar o sono aps a sesta, em que os eventos da manh se misturam aos desgnios da noite.
Blasfemo, o discurso do Duque-Frade em nada sugere alento cristo. O tom da fala causa uma forte impresso, chegando mesmo a remeter-nos aos solilquios de Hamlet, 
mas o vazio encontrado no centro do ser, que tanto atormenta Hamlet, para o Duque-Frade, pode ser algo bastante positivo. Se ele est falando srio, ento, trata-se 
de uma pessoa um tanto desequilibrada, o que pode muito bem ser o caso. Northrop Frye resume o contedo dessa passagem, observando que a mesma aconselha Cludio 
a morrer o mais breve possvel, pois viver  contrair inmeras doenas desagradveis. No entanto,  difcil desconsiderar a fala do Duque/ a mesma expressa uma grandiosidade 
que lhe acentua o niilismo, em eterna sonoridade. As palavras configuram uma atitude epicurista, fazendo lembrar a polmica contra o temor da morte em Lucrcio, 
corn uma pitada de estoicismo  moda de Sneca. Embora dotada de musicalidade irrelevante, a eloqncia do Duque, momentaneamente,  fonte de inspirao para Cludio, 
cuja resposta dbia, bastante a calhar,  comparvel ao discurso do Duque, que no diz o que quer dizer e no quer dizer o que diz.
De todo o corao vos agradeo. Desejando viver, agora o vejo, s procurava a morte, e, nesse empenho afinal, acho a vida. Pois que venha!
[Ill.i.]
Para ns, de imediato, nem o prprio Duque nem a sua fantasmagrica litania fazem sentido, porque Shakespeare assim o deseja. Lcio est certo: Vicncio , de fato, 
o "duque de esconderijos esconsos", dado a disfarces, provocaes sdicas e desgnios dbios. Podemos concluir que, sendo o nico personagem racional e simptico 
nessa comdia absurda ( exceo do extraordinrio Bernardino), Lcio, em seus constantes ataques verbais ao Duque, fala por ns, na platia, e por Shake-
MEDIDA  POR MEDIDA
speare, se  que algum outro personagem, alm de Bernardino, pode expressar a carncia de afeto do dramaturgo em meio a tanta loucura. Suponhamos que Lcio esteja 
totalmente certo, conforme diversos crticos observaram antes de mim, especialmente Marc Shell. Nesse caso, o desejo do Duque por Isabela adquire a devida ressononcia,- 
o que, em ngelo, era a "Investida do Reprimido" toma-se, em Vicncio, uma fuga desesperada do libertinismo, das distores sexuais que ele compartilha com sua 
Viena de alcoviteiras e prostitutas. A fuga da podrido sexual da cidade , claramente, uma fuga de si mesmo, e a cura, acredita Vicncio, est na inocente e tentadora 
Isabela, cuja obsesso porcastidade talvez seja reversvel - pelo menos, ele assim espera. Shell argumenta que Lcio retrata as ms intenes do Duque,- a meu ver, 
podemos levar o argumento mais longe. Nenhum outro personagem em Shakespeare tem motivao to estranha (ou mesmo ausncia de motivao) como Vicncio, e muito da 
sua opacidade desaparecer se Lcio estiver falando a verdade, em lugar de calnias. Lcio no deixa Vicncio em paz: " isso, Frade, eu sou como espinho do mato: 
seguro mesmo". Um folgazo v-se refletido no outro: o amante da luz encontra o amante dos esconderijos esconsos. Quem melhor do que Lcio conhece a Viena de Mistress 
Overdone, Kate Keepdown e Pompeu? Devemos acreditar em Lcio, que diz ao Frade: "no conheces o Duque como eu,- ele  mais mulherengo do que pensas", ou em Vicncio, 
que cai na defensiva:
 poder!  grandeza! Milhes de olhos
falsos em ti se fixam! Grandes maos
de notcias circulam, tendenciosas,
sobre tuas aes. Cabeas loucas
sem conta te atribuem os prprios sonhos
ociosos, e com suas fantasias
te colocam no potro.
[Vi.]
Vicncio enuncia queixas tpicas das celebridades do mundo da poltica e do teatro, na presente era do jornalismo instantneo. Lcio,
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oflneur,  um jornalista na Viena de Vicncio, e suas mentiras celebram verdades que doem. Quem poderia dar crdito aos protestos do Duque dirigidos ao (autntico) 
Frei Toms: "[...] no creiais que o dardo frgil / do amor possa furar um peito forte", ou "[...] como velho / leo que no deixa a toca pela caa"? Vicncio  
Viena,-  o mal que ele prprio pretende curar. Tomo essa grande formulao emprestada a Karl Kraus, que em nada agradou Sigmund Freud, ao observar que a psicanlise 
era, em si, o mal que a mesma buscava aliviar. A Viena de Shakespeare  uma piada pr-freudiana em cima de Freud, uma vingana contra o apoio veemente que Freud 
ofereceria ao delicioso argumento de que todas as peas atribudas ao malnascido "homem de Stratford" foram roubadas do ilustre Conde de Oxford. Vicncio  o tpico 
freudiano herege que se rebela contra o patriarca e seduz suas pacientes enquanto proclama a pureza cientfica da transferncia psicanaltica. Nessa tica, Isabela 
seria a tpica, bela musa da psicanlise, histrica, perturbada e perturbadora, a mulher vienense exaltada e explorada por Freud e seus discpulos. A maneira como 
Vicncio lida com Isabela, convencendo-a a colaborar no estratagema da cama, e enganando-a sobre a execuo de Cludio, configura um procedimento de transferncia, 
um condicionamento psquico destinado a prepar-la para se apaixonar pelo pai espectral, o falso Frade/obstinado Duque.
O que nos faz voltar  fala que comea com as palavras "Contai certo com a morte", fase inicial da campanha do Duque para seduzir Isabela, ocasio em que ele pretendia 
aterrorizar o irmo da jovem, levando-o a insistir tanto para que ela cedesse ao Duque, que a jovem pura  levada a responder ao pobre irmo com uma irritao absolutamente 
histrica. Novamente, detectamos, em Vicncio, um preldio de lago, embora ele carea da aterradora lucidez do alferes de Otelo. O subsentido da fala "Contai certo 
corn a morte"  captado por Eliot, que usa o trecho "No tens nem mocidade / nem velhice, no sendo, por assim / dizer, mais do que um sono aps a sesta, / que sonha 
corn ambas", como epgrafe de Gerontion, hino  dessecao da decrepitude, rapsdia da negao. O Duque fala em seu prprio nome, como um reducionista grosseiro 
que subtraiu da vida o sentido. Cada um de ns  um servo, um tolo, uma
MEDIDA  POR MEDIDA
vtima/ somos indignos, covardes, letrgicos, confluncia de tomos,- estamos detidos entre o passado e o futuro, em um presente ilusrio, pobres, enlouquecidos, 
sem amigos e sujeitos a mil mortes. Somos as nossas ansiedades - nem mais, nem menos. Assim  o homem que assedia Isabela, e no nos surpreende o fato de jamais 
sabermos se ela vai ceder ao Duque ou no, sendo ela a mais louca dos loucos de Viena. Sabemos, porm, por que ele a deseja,- a sensibilidade do Duque  um vazio 
de tamanhas propores que, talvez, a ferrenha castidade da jovem possa, ao menos, nele provocar alguma energia.
Tanto quanto ns, Vicncio escuta, s escondidas, o notvel dilogo entre irmo e irm, a saudao mais azeda feita por Shakespeare s alegrias dos laos de fraternidade. 
Respondendo  pergunta de Isabela, "Careces de coragem para morrer?", Cludio diz, com uma falsidade extasiante:
Se eu tiver de morrer, a noite eterna buscarei como a noiva muito amada que ao peito carinhoso eu aconchegasse.
[IH.i.]
Fossem tais versos pronunciados por Antnio, ou Coriolano, o contedo seria diferente. No contexto, recebem a resposta merecida, em que Isabela expressa sua homenagem 
 morte:
Falou agora o meu irmo,- o tmulo de meu pai emitiu esses conceitos. Sim, vais morrer.
[Hl.i.]
Se Hamlet tivesse uma irm,  possvel que ela tivesse proferido palavras como essas. Isabela  apenas a voz do pai falecido, alimentando-se da vida. E Cludio, 
no auge de sua eloqncia, suplica-lhe pela vida, mesmo  custa da honra da irm, em um trecho que seria lembrado
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por Milton (talvez, involuntariamente), quando o ardiloso Belial defende a passividade, durante o debate no Inferno, em Paraso Perdido-.
CLUDIO
Mas morrer e ir quem sabe l para onde? ficar rgido e frio e decompor-se,- tomar-se este calor sensvel numa pouca de argila argamassada, o esprito radioso mergulhar 
num mar de fogo ou morar em paragens tiritantes, de gelo espesso,- ficar preso em ventos impenetrveis e soprar com fora sempre crescente em tomo deste mundo 
suspenso,- ou ser mais miservel, ainda, do que esses miserveis que os incertos pensamentos uivando representam... E por demais horrvel! A existncia terrena mais 
penosa e repugnante, que a misria, a priso, a idade, as doenas possam tomar mais grave,  um paraso em confronto com tudo o que tememos da morte.
[Ill.i.]
Esse xtase do temor, lucreciano, vai alm do sadismo de Isabela, oferecendo, em primeiro lugar, uma resposta  citada fala do Duque que inicia com as palavras 
"Contai certo com a morte", como se Cludio necessitasse de tempo para assimilar o aviso. Isabela, entretanto, no precisa de tempo algum para explodir, com indignao:
ISABELA Oh animal!
hipcrita sem f! Velhaco infame! Queres ter vida  custa de meu vcio? No ser quase incesto obter as bases
MEDIDA  POR MEDIDA
da vida  custa da honra de uma irm?
Que devo crer? No queira o cu que minha
me houvesse abusado de meu pai,
que o sangue dele nunca poderia
ter gerado aleijo bruto como este. "
Pois me recuso a tudo. Morre! Extingue-te!
Se, ajoelhando-me, fosse ainda possvel
mudar o teu destino, deixaria
que ele se realizasse. Por tua morte
direi mil oraes, mas serei muda
para salvar-te a vida.
[Ill.i.]
Deixando de lado a clara preferncia de Isabela pelo pai, com relao  me, e esquecendo, por um momento, sua maldade, podemos considerar esse espantoso rompante 
o cerne da pea (segundo Marc Shell). Contudo, a reao  menos histrica do que parece: conforme j apontei, para Isabela, todo e qualquer coito  "quase incesto", 
e sua inteno de  se tornar noiva de Cristo , sem dvida, autntica. Ser que ela fala somente em seu nome, ou as palavras expressariam a verdadeira voz da cognio 
e do sentimento em Medida porMedida7 Na Viena de Vicncio, como na de Freud, realidade resume-se a sexo e morte, embora a Viena de Vicncio esteja mais prxima da 
frmula: sexo = incesto = morte. Tal equao encerra a nica idia de ordem em Medida por Medida, assim como expressa a viso redutiva de Hamlet antes da viagem 
martima e do seu ressurgimento no quinto ato. Mas em Medida por Medida nada temos que se compare  conscincia intelectual de Hamlet. Antes, estamos no meio do 
caminho entre Hamlet e lago. Vicncio no possui a mente transcendental de Hamlet nem a vontade diablica de lago, ainda que ferva da febre sexual do primeiro e 
do instinto manipulador do segundo. Hamlet escreve A Ratoeira, lago arma uma ratoeira para Otelo, e Vicncio, comediante em potencial, faz casamentos: Cludio e 
Julieta, ngelo e Mariana, Lcio e Kate Keepdown,
A pea dentro da pea, para "pegar" Cludio. [N.T.]
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Vicncio e Isabela. com Vicncio, Shakespeare leva s ltimas conseqncias a pardia do estraga-prazeres que pretende resgatar a ordem em uma Viena que no tolera 
a idia de ordem. E o que seria a Viena do Duque, seno a Londres de Shakespeare, ou a Nova York de hoje, ou qualquer outra desordem vital do humano?
Bernardino  o gnio dessa desordem, qualificando-se como imaginao central (e grande glria) da pea. No primeiro ato, Cludio afirma que ele e Julieta carecem 
apenas de "atos [ordens] exteriores",- fora isso, so, para todos os efeitos, marido e mulher. ngelo, com severidade, permite  "fornicadora" Julieta "apenas / 
o necessrio,- nada de suprfluo". O Duque, igualmente, brinca com o sentido de "ordem", ao ordenar a decapitao de Bernardino:
Pelo voto e minha ordem, eu vos ampararei, se vos guiardes por minhas instrues. Fazei executar Bernardino esta manh e enviai a ngelo a cabea desse infeliz.
[IV.ii.]
Mas, sublime, Bernardino recusa-se a cooperar: "Pois eu juro que no h quem possa convencer-me de morrer hoje". Em ltima anlise, na Viena de Vicncio, a idia 
de ordem  a idia de morrer,- rejeitando toda e qualquer ordem, Bernardino recusa-se a morrer, e Shakespeare confere apoio a Bernardino, quando faz o Duque, mais 
tarde, perdoar o assassino confesso. Mas quem  Bernardino, e o que faz ele na pea mais singular escrita por Shakespeare? O personagem  apresentado por meio de 
uma aluso irnica ao Eclesiastes: "Coma muito ou coma pouco, o sono do trabalhador  gostoso, enquanto a fartura do rico no o deixa dormir" (5:11). Ao receber 
a sentena de morte das mos do Preboste, Cludio responde  pergunta "Onde se encontra / Bernardino?":
Mergulhado em modorra to pesada como o sono inocente que domina
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MEDIDA  POR MEDIDA
os membros fatigados de um viajante,- no quer ser despertado.
[IV.ii.]
O "viajante"  tambm o sofredor, o pobre trabalhador cujo sono  gostoso. Bernardino  culpado, e est bbado, mas o "bem" a que o Preboste se refere ("Que bem 
lhe vir disso?")  "apenas" uma decapitao ao cair da tarde, a idia de ordem em Viena. Descobrimos mais a respeito de Bernardino pouco antes de, finalmente, v-lo 
e ouvi-lo pela primeira vez:
DUQUE
Quem  esse Bernardino que deve ser executado  tarde?
PREBOSTE
Um bomio incorrigvel, criado e educado aqui mesmo/ est
preso h nove anos. DUQUE
Por que motivo o duque ausente no o ps em liberdade ou
no mandou execut-lo? Sempre ouvi dizer que era esse o seu
costume. PREBOSTE
 que os amigos do prisioneiro sempre conseguiam protelao,-
e, de fato, at o governo do senhor ngelo,- o caso dele parecia
duvidoso. DUQUE
E agora, est esclarecido? PREBOSTE
Mais do que evidente,- ele prprio confessou. DUQUE
Revelou arrependimento na priso? Mostra-se abalado?
PREBOSTE
 um indivduo para quem a morte no  mais de temer do que o sono da embriaguez,- despreocupado, indiferente e sem temor
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do passado, do presente ou do futuro,- insensvel  idia da morte e irremediavelmente mortal.
DUQUE
Ele necessita de conselhos.
PREBOSTE
Nem quer ouvir falar nisso,- sempre teve a liberdade da priso,- se lhe derem licena para evadir-se, no a aceitar,- embriaga-se muitas vezes ao dia, se  que 
no fica dias inteiros na borracheira. Por mais de uma feita o acordamos, como para execut-lo, apresentando-lhe uma ordem falsa, sem que isso o
emocionasse no mnimo.
[IV.ii.]
O grande Bernardino recusa-se a aceitar as regras que vigoram na Viena de Vicncio, no se deixando afetar, seja pela morte, seja pela misericrdia. Bernardino passa 
nove anos em estado de torpor, do qual desperta apenas para recusar tanto a fuga quanto a execuo. Talvez, nada exista de mais engraado em Medida por Medida do 
que as palavras do Duque-Frade, absolutamente confuso: "Ele necessita de conselhos", ou seja, mais consolo mrbido, do tipo expresso no trecho "Contai certo com 
a morte". com extraordinria argcia dramtica, Shakespeare prepara-nos para a cena hilria, deixando que Vicncio se engane a respeito do poder que exerce sobre 
Bernardino: "[...] Mandai chamar o vosso executor, e fora com a cabea de Bernardino! you j confess-lo e prepar-lo para uma morada melhor". Mas, quando ouvimos 
as palavras "fora com a cabea de Bernardino!", parece-nos que estamos diante de Alice no Pais das Maravilhas, ou Alice no Pas dos Espelhos. Quase sempre, Vicncio 
fala besteira, o que o pblico, eventualmente, constata. Uma das funes de Bernardino , precisamente, expor tais besteiras,- a outra funo do assassino condenado 
 representar, com memorvel franqueza, a incorrigvel natureza humana, em Viena e no mundo, invulnervel  opresso da ordem. A comdia em Medida por Medida atinge 
o ponto mximo na apoteose de Bernardino, que merece ser citada na ntegra:
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MEDIDA  POR MEDIDA
ABHORSON
Ol, malandro, vai buscar Bernardino. POMPEU
Mestre Bernardino! E preciso que vos levanteis para serdes
enforcado! Mestre Bernardino! ABHORSON
Vamos com isso, Bernardino! BERNARDINO (dentro)
A peste vos tire o flego! Quem est fazendo tamanho barulho?
Quem sois? POMPEU
Amigos vossos, homem: o carrasco. E preciso que tenhais a
bondade de vos levantar e de vos deixar matar.
BERNARDINO (dentro)
Sai da, malandro, que eu estou com sono. ABHORSON
Dizei-lhe que  preciso que ele se levante, sem perda de tempo. POMPEU
Mestre Bernardino, por obsquio, ficai acordado, at serdes
executado,- dormireis depois. ABHORSON
Ide l dentro e trazei-mo. POMPEU
J vem vindo, senhor,- j vem vindo,- j ouvi barulho de palha. ABHORSON
O machado est no cepo, maroto? POMPEU
Tudo pronto, senhor.
(Entra Bernardino.) BERNARDINO
Ento, Abhorson! Quais so as ltimas? ABHORSON
Em verdade, senhor, o que eu desejara agora  que fsseis fazer
471
#HAROLD  BLOOM
barulho com vossas oraes Vede aqui a ordem de execuo j chegou
BERNARDINO
Vo para o inferno" Bebi a noite toda, no me acho preparado POMPEU
Pois tanto melhor, senhor" Porque quem bebe a noite toda e  enforcado pela manh, dorme muito mais pesadamente o dia seguinte
ABHORSON
Vede, senhor, a vem vindo vosso pai espiritual Ainda pensais que estamos brincando"
(Entra o Du(jue, disfarado como antes ) DUQUE
Senhor, induzido por minha caridade, ao saber com que pressa deveis partir desse mundo, vim para aconselhar-vos, confortar-vos e rezar convosco BERNARDINO
Comigo, irmo? Absolutamente Passei a noite toda bebendo, preciso de mais tempo para preparar-me, se no, eles me macetam o crebro No consinto em morrer hoje, 
est decidido
DUQUE
Oh, senhor" Mas  preciso" Por isso mesmo, suplico-vos pensar na viagem que ides empreender BERNARDINO
Pois eu juro que no h quem possa convencer-me de morrer hoje DUQUE
Mas ouvi-me BERNARDINO
Nem mais uma palavra Se tendes alguma coisa a dizer-me, vinde  minha cela, porque de l eu no saio hoje
(S,) (Entra o Preboste)
472
MEDIDA  POR MEDIDA
y   DUQUE
Incapaz para a vida e para a morte Oh corao de pedra" PREBOSTE Ide atrs dele, trazei-o sem demora para o cepo!
[IV m
Jamais tive a oportunidade de ver essa cena, to profunda e ultrajante, condignamente dirigida e representada Hoje em dia, quando sentenas de morte se multiplicam 
diariamente nos Estados Unidos, recomendo o exemplo de Bernardmo aos que aguardam execuo recusem a dignidade obscena da civilizada morte por gs, injeo letal 
e eletrocusso, uma vez que enforcamento e fuzilamento (pelo menos, por ora) esto fora de moda Que se recusem a morrer e, assim, forcem-nos a macetar-lhes o crebro, 
conforme a sugesto de Bernardmo Essa  a viso de Shakespeare, aqui expressa pelo contumaz e irnico Bernardmo e pelo bando de desatinados, Abhorson, Pompeu, o 
Preboste e o egrgio Duque, que se esquece de que no , na verdade, um frade, principalmente quando cede  recusa de Bernardmo a cooperar com a execuo
DUQUE
No est preparado para a morte, execut-lo nesse estado fora condenvel, sem dvida
[IVm]
Essa incua idiotice, tpica em Vicncio, fica a anos-luz de distncia das palavras de Pompeu, que expem a loucura da nossa sociedade "Mestre Bernardmo, por obsquio, 
ficai acordado, at serdes executado, dormireis depois" Bernardmo jamais estar preparado para a execuo e sua eloqncia esclarece tudo o que h de errado no universo 
de Medida por Medida  "No consinto em morrer hoje, est decidido" Trata-se da nica certeza nessa pea em que Vicncio no faz o menor sentido, seja como Duque 
ou Frade em que a castidade ferrenha de Isabela  se torna
473
#HAROLD  BLOOM
um convite irresistvel ao sexo, e em que o estratagema da cama  muito mais santificado do que no caso da aventura de Helena, em Bem Est o cjue Bem Acaba Para 
mim, o ponto alto da pea  o momento em que o Duque diz - "Mas ouvi-me " - e Bernardino responde "Nem mais uma palavra" A comdia moral contida nessa comdia est 
na resposta que Shakespeare oferece queles espectadores capazes de se deixarem levar por Vicncio Somente depois de termos testemunhado a rebeldia de Bernardmo, 
Shakespeare permite ao Duque-Frade descer  sdica degradao de mentir a Isabela, dizendo-lhe que o irmo fora executado ngelo - quem diria" -  bastante exato, 
quando afirma, referindo-se a Vicncio "Seus atos revelam loucura"
Medida porMedtda chega ao fim com uma coda desvairada, a cena nica que constitui todo o quinto ato, na qual o Duque perdoa ngelo, Bernardino e Cludio, e toma-se 
o alcoviteiro geral, no caso de Lcio, por vingana Nada  mais significativo na cena do que o silncio total de Bernardino, ao ser trazido ao palco para ser perdoado, 
e de Isabela, no momento em que fica do lado de Manana para pedir clemncia para ngelo Isabela sequer responde  proposta de casamento feita pelo Duque, que suprime 
o desejo obsessivo da jovem de ingressar no convento Mas suas ltimas palavras, em defesa de ngelo, so to estranhas quanto tudo o mais na pea
Quanto a ngelo,
no chegou a dar corpo a seus intentos, sepultemo-los, pois, tal como a intentes que em caminho morreram Pensamentos no so vassalos, e os intentos nunca passam 
de pensamentos
[Vi]
Em sua loucura, Isabela deve ser sria, Shakespeare no pode s-lo Uma inteno homicida fica perdoada, quando, na verdade, era bem mais do que um simples pensamento 
ngelo havia, de fato, ordenado a execuo de Cludio, e a ordem fora dada depois de ngelo haver,
474
MEDIDA  POR MEDIDA
supostamente, deflorado Isabela Segundo Isabela, aquilo que no acontece, seja qual for a razo,  apenas um pensamento, e no um vassalo
isto , algum a servio de Vicncio   As imagens de morte e
sepultamento, evidentemente, aplicam-se a todos os intentes, a todos os pensamentos Em Isabela no existe vida E Shakespeare no nos diz por que e como ela sofreu 
tamanha perda Irracional, ela no precisa responder  proposta do Duque, e, presumivelmente, tal nulidade significa que ele h de conquist-la A perspectiva dos 
casamentos de Vicncio e Isabela, de ngelo e Manana no  das mais promissoras Nem mesmo a unio forada entre Lcio e a prostituta Kate Keepdown promete ser menos 
saudvel Desconheo outra obra em toda a literatura ocidental que seja to niilista quanto Medida por Medida, comdia que destri a comdia O que permanece  a esplndida 
imagem de Bernardino, o assassino dissoluto que traz ao ser humano um pingo de esperana de resistir ao Estado, recusando-se a morrer segundo a vontade de quem quer 
que seja
475
#PARTE VII
AS GRANDES TRAGDIAS
#23
HAMLET
As origens da pea mais clebre escrita por Shakespeare so to obscuras quanto so confusas as suas questes textuais. Temos conhecimento da existncia de um Hamkt 
anterior, revisto e superado pela pea de Shakespeare, mas no dispomos da referida obra e tampouco sabemos quem a escreveu. A maioria dos estudiosos acredita que 
o autor da referida pea tenha sido Thomas Kyd, que escreveu A Tragdia Espanhola, arqutipo da "pea de vingana". Entretanto, no meu entendimento, Peter Alexander 
estava certo quando deduziu que o prprio Shakespeare teria escrito Ur-Hamlet, o que teria ocorrido at 1589, incio de sua carreira de dramaturgo. Embora a opinio 
da academia seja, em grande parte, contrria, a hiptese de Alexander sugere a possibilidade de Hamlet (pea que, em sua forma final, oferece ao pblico um novo 
Shakespeare) ter passado por uma gestao de mais de uma dcada.
A pea  imensa,- sem cortes, alcana a marca de quase quatro mil linhas, sendo raramente encenada em toda a sua extenso. A opinio de T. S. Eliot, em voga no passado, 
de que Hamlet , "artisticamente, sem dvida, um fracasso" (que obra literria, ento, seria, artisticamente, um sucesso?) parece decorrer da desproporo entre 
o Prncipe e a pea. Hamlet teria uma conscincia que no caberia em Hamlet; tragdia de vingana no pode conter a maior representao de um intelectual criada 
no Ocidente. Mas Hamlet no , na verdade, a tragdia de vingana que finge ser.  teatro do mundo, como A Divina Come"dia,
479
#HAROLD  BLOOM
Paraso Perdido, Fausto, Ulisses ou Em Busca do Tempo Perdido As tragdias anteriores escritas pelo prprio Shakespeare pouco pressagiam Hamlet, e as obras subsequentes, 
embora a Hamlet se remetam, so bastante diferentes, tanto em esprito como em tom Nenhum outro protagonista, nem mesmo Falstaff ou Clepatra, equipara-se a Hamlet, 
em suas infinitas reverberaes
O fenmeno "Hamlet", isto , do Prncipe fora do contexto da pea,  inigualvel na literatura ocidental Dom Quixote e Sancho Pana, Falstaff e, talvez, Mr Pickwick 
aproximam-se de Hamlet, na qualidade de invenes literrias que  se tornaram mitos independentes Tal aproximao pode ser estendida a certas figuras da literatura 
clssica, entre as quais, Helena de Tria, Ulisses e Aquiles Mas Hamlet  um caso  parte, possui algo de transcendental que o acerca da figura bblica do Rei Davi, 
ou de figuras espirituais ainda mais elevadas Carisma, a aura dos iluminados,  propriedade de Hamlet, seja dentro ou fora da pea escrita por Shakespeare Raro na 
literatura secular, o ser carismtico , estranhamente, infrequente na obra shakespeanana Supe-se que Henrique V tenha carisma, mas o personagem vulgariza essa 
importante caracterstica, assim como o faz Jlio Csar Lear j perdeu muito de seu carisma quando o encontramos no incio da pea, e Antnio toma-se um caso clssico 
de evanescncia de carisma Clepatra  to histnmca e narcisista que a apoteose carismtica de sua morte no nos convence de todo, e Prspero encontra-se por demais 
comprometido com a sua mgica para alcanar qualquer dimenso verdadeiramente carismtica Hamlet, mais do que ningum, disputa com o Rei Davi e o Jesus do Evangelho 
de Marcos o ttulo de o mais carismtico entre os carismticos Poderamos acrescentar o Jos da Autora J - e quem mais" Temos Hadji Murad, de Tolstoy, projeo da 
velhice sonhadora do prprio autor, e temos Sir John Falstaff, que s ofende os virtuosos, embora os que por ele se sintam ofendidos faam tamanho coro de desaprovao 
que lograram diminuir o carisma do grande mestre da espintuosidade
A grandeza de Hamlet jamais foi discutida, o que, mais uma vez, suscita a pergunta, difcil de ser respondida "ser que Shakespeare estava ciente da riqueza com 
que investira o Prncipe"" Muitos estudiosos
480
HAMLET
afirmam que Falstaff escapa ao controle de Shakespeare, o que parece bvio, ainda que no possamos saber se Shakespeare previra a imensa e instantnea popularidade 
de Falstaff Em a Segunda Parte de Henncjue IV, Falstaff figura com tanto destaque quanto na Primeira Parte, mas Shakespeare, com certeza, sabia que o "gordanchudo 
Jack" de As Alegres Comadres de Wmdsor era um impostor, e no Falstaff, o gemo carismtico Seremos capazes de imaginar Hamlet, mesmo um Hamlet pardico, presente 
em qualquer outra pea de Shakespeare" Onde o localizaramos" Que contexto poderia abarc-lo" Os grandes viles - lago, Edmundo, Macbeth - seriam destrudos pela 
brilhante ironia de Hamlet Nenhum outro personagem das grandes tragdias ou dos romances poderia pisar o palco ao lado de Hamlet, alguns dentre eles podem at conter 
ceticismo, mas no um misto de ceticismo e carisma Ao lado de qualquer um deles, Hamlet estaria sempre na pea errada - mas a questo  que ele j est na pea errada 
A corte podre de Elsinore  ratoeira pequena demais para pegar Hamlet, embora ele para l retorne,
para matar e ser morto
Contudo, grandeza no  a nica questo, Rei Lear encerra o cosmos psquico mais vasto em toda a obra shakespeanana, mas , deliberadamente, uma pea arcaica, ao 
passo que o papel de Hamlet  o menos arcaico em Shakespeare No se trata apenas de Hamlet surgir depois de Maquiavel e Montaigne, Hamlet surge depois de Shakespeare, 
e ningum ainda conseguiu ser ps-Shakespeare No pretendo aqui dizer que Hamlet seja Shakespeare, ou mesmo uma projeo de Shakespeare Mas diversos crticos j 
apontaram, com correo, paralelos entre o relacionamento de Falstaff e Hal, e o de Shakespeare e o jovem nobre (provavelmente, o Conde de Southampton), nos Sonetos 
Os moralistas recusam-se a admitir que Falstaff, mais do que Prspero, capta a essncia do esprito shakespeanano, da minha parte, se tivesse que especular a respeito 
da auto-representao em Shakespeare, o paradigma seria Falstaff No entanto,  Hamlet o filho mais querido de Shakespeare, assim como Hal  o de Falstaff A afirmao 
no  minha, mas de James Joyce, o primeiro a identificar Hamlet, o Prncipe da Dinamarca, com Hamnet, o nico filho que Shakespeare teve, e que morreu aos onze
481
#HAROLD  BLOOM
anos de idade, em 1596, quatro ou cinco anos antes do surgimento da verso final de A Tragdia de Hamlet, Prncipe da Dinamarca, na qual o pai de Hamnet Shakespeare 
fazia o papel do Fantasma do pai de Hamlet.
Quando assistimos a uma encenao de Hamlet, ou lemos o texto da pea, logo constatamos que o Prncipe transcende a pea. Para muitos de ns, transcendncia constitui 
uma noo difcil, especialmente quando inserida em um contexto secular, como no caso da dramaturgia shakespeariana. Algo em Hamlet parece exigir (e fornecer) evidncias 
relacionadas a esferas que esto alm dos nossos sentidos. Os desejos de Hamlet, seus ideais e aspiraes, encontram-se quase que absurdamente perdidos na atmosfera 
ptrida de EIsinore. Cludio, o trapaceiro, no  "inimigo"  altura de Hamlet, embora o Prncipe assim o defina. O miservel usurpador  totalmente desbancado pelo 
sobrinho. Se em Hamlet (conforme creio firmemente) Shakespeare faz a reviso do Ur-Hamlet, escrito por ele prprio cerca de uma dcada antes,  bastante possvel 
que ele pouco tenha retocado o personagem de Cludio, enquanto Hamlet  objeto de uma verdadeira metamorfose. A maldade de Cludio nada tem do gnio de lago, Edmundo 
e Macbeth.
O demnio criado por Shakespeare, lago, ancestral do Satans, de Milton,  o "autor" da farsa trgica Os Cimes de Otelo e O Assassinato da Esposa, Desmona. Essa 
pea, que no , de forma alguma, idntica  pea Otelo, escrita por Shakespeare, encontra-se apenas parcialmente inserida na tragdia shakespeariana, pois lago 
no a conclui. Furioso com Emlia, que lhe estraga o ltimo ato, ele a mata, e recusa-se a dar qualquer explicao, afirmando: "E doravante no direi palavra". 
Hamlet, dramaturgo mais metafsico do que lago, escreve o quinto ato da pea por ele mesmo protagonizada, e jamais sabemos, ao certo, se  Shakespeare ou Hamlet 
o autor principal dessa pea que pelos dois  escrita. Seja l quem for o Deus de Shakespeare, o de Hamlet parece ter sido um autor de farsas, e no de comdias, 
no sentido cristo. Deus, na Bblia hebraica, principalmente emj, escreve melhor por meio de perguntas retricas. Hamlet  dado a perguntas retricas, mas, diferentemente 
das
*  Otelo. Traduo de Onestaldo de Pennafort. Quarta Edio. Rio de Janeiro: Relume Dumar, 1995, p. 235. [N.T.]
482
HAMLET
formuladas por Deus, as indagaes retricas de Hamlet nem sempre se constituem em respostas. O Deus hebreu, pelo menos no texto de J,  basicamente, irnico. Hamlet, 
nitidamente irnico, no busca um Deus irnico, mas um Deus irnico  o que Shakespeare lhe oferece.
corn muita percepo, Harry Levin, remoendo esse tema, descreve Hamlet como uma pea obcecada pela palavra "questo" (empregada dezessete vezes), e pelo questionamento 
sobre "a crena em fantasmas e sobre os cdigos de vingana". Da minha parte, prefiro abordar essa obsesso por questionamento de modo diferente. A principal divergncia 
observada entre o Hamlet shakespeariano e o Hamlet histrico ou lendrio advm de uma alterao, bastante sutil, dos motivos que levam o Prncipe a agir. Tanto nos 
anais compilados pelo dinamarqus Saxo Grammaticus como na lenda francesa de Belleforest, o Prncipe Amleth, desde o incio do relato, corre perigo de vida, nas 
mos do tio assassino, e, com astcia, finge-se de tolo e louco, para sobreviver. E possvel que em Ur-Hamlet Shakespeare tenha seguido esse paradigma, mas pouco 
resta do mesmo no Hamlet final. Cludio sente-se plenamente satisfeito por ter o sobrinho como herdeiro,- podre como est a Dinamarca, Cludio tem tudo o que sempre 
desejou: Gertrudes e o trono. Houvesse Hamlet ficado impassvel aps a visita do Fantasma, no teriam sofrido mortes violentas Polnio, Oflia, Laertes, Rosencrantz, 
Guildenstern, Cludio, Gertrudes e o prprio Prncipe. Todos os acontecimentos da pea dependem da reao de Hamlet ao Fantasma, reao essa to dialtica quanto 
tudo o mais em Hamlet. A questo em Hamlet ser sempre o prprio Hamlet, pois Shakespeare construiu um personagem cuja conscincia  a mais ambivalente e dividida 
que uma pea coerente pode conter.
O primeiro Hamlet de Shakespeare deve ter sido marloviano, um personagem capaz de superar a si mesmo (conforme j apontei), um anti-Maquiavel auto-indulgente, um 
orador cujas metforas incitavam os ouvintes  ao. O Hamlet maduro  muito mais complexo. Fascinado e fascinante, Shakespeare desvia-se das fontes, no adota o 
nome histrico do pai de Hamlet (Horwendil), e atribui ao pai e ao filho o mesmo nome, o nome dado ao nico filho do autor. Peter Alexander,
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#i-iAKULD  BLOOM
HAMLET
corn a sagacidade habitual, observa, em Hamlet, Fatber and Son (1955), que o Fantasma  guerreiro digno de uma saga islandesa,  enquanto o Prncipe  um intelectual 
universitrio, representante de uma nova era Dois Hamlets se confrontam, tendo quase nada em comum, exceto os nomes O Fantasma espera que Hamlet seja uma nova verso 
do velho Hamlet, assim como Fortimbrs  uma reimpresso do velho Fortimbrs Ironicamente, os dois Hamlets se contemplam como se o Edas estivesse encontrando Montaigne 
a Idade Antiga vislumbra a Renascena, com as estranhas conseqncias que seriam de se esperar
Podemos constatar que o Fantasma nada tem de Horwendil, mas possui muitas caractersticas do Amleth da saga islandesa    valente, beligerante, e to competente 
ao manipular o filho intelectual como o fora no combate aos inimigos  O Prncipe Hamlet, ctico, intelectual da Renascena, leitor de Montaigne e freqentador dos 
teatros londrinos, distancia-se tanto do Hamlet de Belleforest como do protagonista da verso original, de autoria do prprio Shakespeare em 1601, no papel do Fantasma, 
Shakespeare dirige-se a Hamlet como teria se dirigido ao prprio filho, Hamnet, quase adulto  O Fantasma fala de Gertrudes como um mando apaixonado, mas surpreendemo-nos 
ao constatar que a referncia aqui no  a Horwendil, pai, mas a Amleth, que, na lenda originria, acaba destrudo em conseqncia do amor excessivo dedicado  segunda 
esposa, que o trai Ao inverter as geraes, Shakespeare confere  histria um grau de problematizao que toma a verso final de Hamlet extremamente complexa, mas 
que, ao mesmo tempo,  capaz de nos conduzir  sada do labirinto
corn uma sagacidade joyciana, o Hamlet de 1588-89 toma-se o pai do Hamlet de 160O-160 , surgindo nesta como o Fantasma que exige vingana imediata mas que obtm, 
em vez de vingana, a expiao pelo sangue, que h de consumir cinco atos e quatro mil versos Quanto ao Fantasma da verso de 1588-89 (vamos cham-lo de Horwendil), 
p demos constatar que, em 160O-1601, no h espao para ele O Fantasma Horwendil deve ter sido bastante repetitivo, e gritos do tipo "Hamlet" Vingai-vosi" teriam 
virado piada junto ao pblico   O Fantasma
Hamlet no  uma piada, antes,  Amleth, o Heracles dinamarqus, esprito astuto e sanguinrio  absolutamente transcendental a ironia de Shakespeare, quando faz 
esse Rei Hamlet ser o pai do personagem mais inteligente de toda a literatura Para dar cabo de Cludio no so necessrios um espantoso intelecto nem uma conscincia 
das mais sensveis, e o Prncipe Hamlet sabe, melhor do que ns, que no  talhado para a tarefa que lhe foi atribuda Se Hotspur ou Douglas houvessem morto Henrique 
IV, o Prncipe Hal seria mais do que qualificado para o papel do vingador e, prontamente, teria se desincumbido da misso Comparado ao Hamlet de 1601, Henrique V 
no passa de um hipcrita, um Maquiavel - ainda que dotado de grande presena de esprito, graas aos ensinamentos de Sir John Falstaff Hamlet, Falstaff de si mesmo, 
no  um simples apndice de uma tragdia de vingana Antes, conforme ocorre com Falstaff (embora em menor escala), Hamlet ocupa o centro mental da pea Os dois 
teros das falas do texto que no so pronunciadas por Hamlet so, no entanto, a seu respeito, e poderiam ter sido por ele escritas Em lngua inglesa, a expresso 
" como Hamlet sem o Prncipe da Dinamarca" tomou-se proverbial, querendo dizer"algo vazio" ou "insignificante" Falstaff, conforme observei anteriormente, foi o 
primeiro grande experimento shakespeariano quanto  gerao de significado Hamlet  o experimento aperfeioado, a prova de que significado no  gerado pela repetio, 
por acidente ou erro, mas pela transcendentalizao do secular, uma apoteose que representa a aniquilao de todas as certezas do passado cultural
Cerca de doze anos mais tarde (1588-89, 160O-1601), Shakespeare, provavelmente, voltou a representar o papel do Fantasma em Hamlet Tudo o que sabemos, com certeza, 
sobre o primeiro Hamlet  que j inclua a figura do Fantasma do pai de Hamlet Tenho minhas suspeitas de que, ao revisar a pea, Shakespeare tenha diminudo consideravelmente 
o papel do Fantasma, em decorrncia da crescente intenonzao de Hamlet No quero dizer que o Fantasma fosse o centro da pea, como ator, Shakespeare jamais teve 
a pretenso de desempenhar um Papel principal Por que atuou como o Fantasma? Evidentemente,
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#HAROLD  BLOOM
especializava-se na representao de homens maduros, inclusive reis (embora o nico papel que sabemos ter sido por ele encenado, alm do personagem do Fantasma do 
pai de Hamlet, foi Ado, em Como Gostais) Poderia o fato de Shakespeare fazer o papel do Fantasma sugerir um comprometimento pessoal? Stephen Dedalus, personagem 
de James Joyce, assim o achava, conforme constatamos em seu brilhante devaneio sobre Hamlet, na cena da Biblioteca, em Ulisses, a qual, segundo Richard Ellmann, 
expressa a interpretao joyciana da pea A meu ver, a pesquisa deve partir de um momento anterior Quais seriam as implicaes de Shakespeare ter escolhido o nome 
do filho com base em Amleth, de Belleforest, ou melhor, em Hamlet, o Homem Verde, conforme a figura  se tornara conhecida no folclore ingls?
No tempo em que Shakespeare era menino, uma jovem chamada Kate Hamlet, ou Hamnet, afogou-se no Rio Avon, perto de Stratford, supostamente, em conseqncia de uma 
desiluso amorosa Podemos conjeturar uma relao dessa jovem com Oflia, mas qualquer relao com Hamnet Shakespeare ser mera coincidncia,  bastante improvvel 
que Shakespeare tenha escolhido o nome de seu filho como tributo a essa jovem Aparentemente, o nome foi uma homenagem prestada por Shakespeare a um amigo, Hamnet, 
ou Hamlet Sader, mas qualquer ingls chamado Hamnet/Hamlet, em ltima anlise, invocava a figura lendria de Amleth, conforme o jovem Shakespeare, dado  leitura, 
bem o sabia Amleth era famoso por sua esperteza e loucura, das quais dependeu seu grande triunfo Teria sido o primeiro Hamlet uma tragdia? Ser que o Prncipe morria, 
ou tal evento surgiria mais tarde, como o preo da apoteose do personagem enquanto conscincia e intelecto? O Amleth lendrio, segundo Belleforest, casa-se com 
a filha do rei da Bntnia e, ento, vinga-se do pai, matando o tio Torna-se, assim, uma espcie de heri britnico, e podemos imaginar Shakespeare escrevendo o primeiro 
Hamlet tendo em mente certas esperanas com respeito ao filho, ento uma criana de trs ou quatro anos de idade Quando Shakespeare escreve a verso final de Hamlet, 
Hamnet Shakespeare j est morto h quatro anos, e o fantasma do menino de onze anos no consta da pea Joyce/Stephen, no entanto, no concorda Hamlet, o
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HAMLET
Prncipe Dinamarqus, e Hamnet Shakespeare so gmeos, e Shakespeare seria, portanto, o pai de seu mais clebre personagem
Mas seria o Fantasma o autor da pea? Shakespeare, com toda ateno, e com muita astcia, apresenta-nos um pai e um filho totalmente diferentes um do outro, nas 
figuras do velho Hamlet e do Prncipe Sabemos que o Rei Hamlet fora um temido guerreiro, liderem tempo de guerra, apaixonado (ou sexualmente atrado) pela esposa 
Das qualidades que tomam o Prncipe notvel, nenhuma poderia ser atribuda ao pai guerreiro Como puderam Hamlet e Gertrudes gerar um filho to intelectual a ponto 
de ser impossvel contextualiz-lo, mesmo na pea shakespeanana? Na verdade, o Prncipe Hamlet parece-se to pouco com o pai quanto com o tio usurpador Shakespeare 
confere a Hamlet um pai adotivo na figura do bobo da corte, Yonck, uma vez que o prprio Hamlet  dado a freqentes gracejos, fato que o aproxima do mais perigoso 
dos farsantes lago
No sabemos se a misteriosa transformao observada entre o quarto e o quinto ato de Hamlet deixa transparecer Shakespeare despedindo-se da sua prpria juventude, 
mas, decerto, trata-se de uma despedida com relao ao Hamlet por ele criado quando jovem O nome Amleth  derivado do nrdico antigo, querendo dizer"tolo", ou"esperto 
que finge ser tolo" Passada a cena do cemitrio, nada da "atitude extravagante" de Hamlet perdura e, na referida cena, a loucura aparece transformada em intensa 
ironia dirigida s mrbidas imagens da morte Por que Shakespeare escreveu a cena do cemitrio, visto que a evocao a Yonck pouco contribui para o avano da ao 
da pea? A pergunta ser relevante somente se a repetirmos diante de vrias outras cenas dessa pea extraordinria, que, com quase quatro mil linhas,  demasiadamente 
longa para ser encenada (Chegamos a duvidar que tenha sido montada sem cortes em Londres,  poca de Shakespeare, embora seja possvel que produes nas universidades 
de Oxford e Cambndge tenham utilizado o texto na ntegra )
Podemos supor - embora para quase todos os shakespeananos modernos tal suposio seja uma heresia - que, pelo menos dessa feita, Shakespeare tenha escrito, em parte, 
para satisfazer algum interesse estritamente pessoal, sabendo que precisaria cortar o texto a cada
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#HAROLD   BLOOM
montagem. Pode ser esse o motivo da diferena entre as 3.80O linhas encontradas no texto do segundo in-cjuarto e a omisso de 230 dessas linhas no Primeiro Flio. 
O fato de o Primeiro Flio conter 80 linhas no encontradas no segundo in-cfuarto pode ser uma indicao de que Shakespeare continuava a revisar Hamkt depois de 
1604-1605, quando surgiu o segundo m-cfuarto. Para mim, o Flio pode ter sido a ltima verso teatral da pea autorizada por Shakespeare, embora, com 3.650 linhas, 
o texto ainda seria longo demais para o palco londrino. O Hamlet completo, com 3.880 linhas, tem a vantagem de nos fazer lembrar que a pea no  apenas "a Mona 
Lisa da literatura" como, tambm, um elefante branco, uma anomalia no cnone shakespeariano.
Quero propor que Shakespeare jamais deixa de revisar Hamlet, desde a primeira verso, por volta de 1587-89, quase at a poca de seu recolhimento em Stratford. Pelo 
que consta, o segundo in-cjuarto foi impresso a partir do prprio manuscrito do autor, enquanto o texto do Primeiro Flio encerra a verso final da pea, preservada 
por atores contemporneos de Shakespeare. A idia de obsesso, sem dvida,  enunciada por essa que vem a ser a mais pessoal e contumaz dentre as trinta e nove peas 
shakespearianas. Sendo, de acordo com Kierkegaard, um mestre da ironia, Shakespeare talvez sentisse alguma satisfao em decorrncia do fato de que somente A Tragdia 
Espanhola, de Kyd, pea que, na viso de alguns estudiosos, teria influenciado Hamkt, gozava de sucesso comparvel ao das peas do Prncipe Dinamarqus e de Falstaff. 
A no ser entre especialistas, A Tragdia Espanhola  obra morta,- jamais tive a oportunidade de assistir a uma montagem do texto, tenho conhecimento de poucas produes, 
e duvido que seria capaz de tolerar v-la encenada, embora tenha suportado algumas montagens de Tfo Andrnico. Hamlet sobrevive a tudo, at mesmo a Peter Brook, 
e a imortalidade de Falstaff transcende at a melhor das peras de Verdi. Ser que podemos aquilatar o que Hamlet significava para Shakespeare?
Dificilmente, conseguiremos estabelecer as tendncias religiosas de Shakespeare, seja no incio ou no fim de sua vida. Ao contrrio do pai,
HAMLET
ue era catlico, Shakespeare manteve-se sempre ambguo nessa questo perigosa, e Hamlet no  obra catlica nem protestante. com efeito, ea a meu ver, no  nem 
crist nem anticrist, pois o ceticismo de Hamlet no apenas excede uma possvel origem em Montaigne como  se torna, no quinto ato, algo estranho e fascinante, algo 
que no conseguimos rotular. O pblico no questiona Fortimbrs, que comanda os ritos de guerra, nem Horcio, que invoca os anjos. De quem seria Hamlet soldado, 
e por que a invocao a anjos no  inadequada? A pea chega ao fim com uma epifania secular, bastante original, quando um esplendor transcendental parece emanar 
da exaltao em que os soldados transportam o corpo d Hamlet. Acabamos de testemunhar a tentativa de suicdio de Horcio, impedida por Hamlet, com o intuito de 
fazer do companheiro seu bigrafo, algum capaz de limpar o nome do Prncipe. Contudo, no  Horcio, mas Fortimbrs quem pronuncia as ltimas palavras: "Atirem 
os soldados". A saraivada ser parte dos ritos de guerra, celebrando Hamlet, presumivelmente, como um novo Fortimbrs.  difcil deixar de pensar que Shakespeare 
termina a pea com uma ironia to condizente com Hamlet, personagem, em si, altamente irnico, alm de ser objeto de ironia por parte de terceiros. Horcio e Fortimbrs 
no so irnicos, e Shakespeare, lamentavelmente, abandona-nos quando no permite a Hamlet o comentrio final a respeito de algo que parece irnico, mas que, talvez, 
transcenda a ironia, conforme hoje a entendemos.
A meu ver, os "problemas de enxerto", que determinados crticos, como Empson e Graham Bradshaw, identificam em Hamlet, no elucidam a pea, pois Shakespeare aqui 
no enxerta A Tragdia Espanhola, de Kyd, mas revisa um texto anterior, de sua prpria autoria. Desde os estudos de J. M. Robertson, muito tem-se especulado sobre 
o Ur-Hamlet, e bem menos sobre a primeira verso de Hamlet. Ainda que a pea original seja de Shakespeare, o Prncipe, em 1587 ou 1588, no passava de uma caricatura 
grosseira, comparado ao Hamlet de 160O-1601. O desafio de Shakespeare no era tanto o de inserir Hamlet em um contexto apenas inadequado, mas o de criar um Hamlet 
mais sutil, imerso em um contexto deveras deteriorado. Podemos supor que o primeiro Hamlet
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shakespeariano fosse bastante parecido com o Amleth de Belleforest: um espertalho dotado de herosmo arcaico, cujas reflexes recaem menos sobre si mesmo do que 
sobre os perigos que o cercam. O segundo Hamlet, revisionista, , pelo menos, dois seres em um s: figura do folclore e contemporneo de Montaigne. Tanto melhor: 
o perene fascnio de Hamlet acaba com a distino entre Saxo Grammaticus e os Ensaios de Montaigne. No temos como saber se tudo isso comeou como uma brincadeira 
da parte de Shakespeare, mas o fato  que a coisa funcionou - e continua a funcionar.
O Hamlet de 1601 no nos parece talhado para a vingana, pois sua independncia intelectual e grandeza de esprito no se prestam  misso imposta pelo Fantasma. 
Talvez seja o momento de indagarmos se a hiptese da reviso de um Hamlet anterior, de autoria do prprio Shakespeare, no elucidaria um enigma que consta da verso 
final. Como em Belleforest, o Hamlet dos primeiros quatro atos  um jovem com cerca de vinte anos, aluno da Universidade de Wittenberg, para onde deseja regressar, 
e onde convive com Horcio, nobre amigo, e os malfadados colegas Rosencrantz e Cuildenstern. Laertes, da mesma gerao que Hamlet, pelo que consta, deseja regressar 
 Universidade de Paris. Mas o Hamlet do quinto ato (aps um intervalo de apenas poucas semanas) tem trinta anos (segundo o coveiro) e aparenta, pelo menos, os trinta 
. sete anos que o prprio Shakespeare tinha  poca. Supe-se que, recorrendo  verso antiga, o autor tenha iniciado a pea com um Hamlet menor de idade (conforme 
em Belleforest e no Ur-Hamkt shakespeariano), e que o processo de reviso tenha gerado o Hamlet maduro que encontramos no quinto ato. Comprometido, at certo ponto, 
corn a concepo de Hamlet delineada na primeira verso, Shakespeare, com confiana, deixa a contradio perdurar. Quando batizou o filho Hamnet, Shakespeare tinha 
apenas vinte e um anos de idade, e no mais do que vinte e cinco anos quando escreveu o Ur-Hamlet. Shakespeare desejava duas coisas ao mesmo tempo: salientar a noo 
de um Hamlet jovem e, ao final, mostrar um Hamlet amadurecido.
No livro O Nascimento a Tragdia (1873), Nietzsche apresenta uma memorvel interpretao de Hamlet, definindo o personagem no
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HAMLET
como um indivduo que pensa demais, mas como algum que pensa com
extrema clareza:
O arroubo do estado dionisaco, com a conseqente aniquilao das restries e dos limites da existncia, contm, enquanto perdura, um elemento htrtjico no qual 
submergem todas as experincias pessoais do passado. Esse hiato de conscincia separa a realidade cotidiana da dionisaca. Porm, to logo ressurge na conscincia, 
a realidade cotidiana provoca uma nusea: um estado de esprito asctico, debilitado, resulta dessa condio. Nesse sentido, o indivduo dionisaco assemelha-se 
a Hamlet: ambos tm viso profunda, que lhes permite enxergar a verdadeira essncia das coisas,- ambos adquiriram conhecimento, e a nusea decorrente inibe-lhes 
a ao,- e qualquer ao da parte deles seria incapaz de alterar a eterna natureza das coisas,- consideram ridculo, ou humilhante, o fato de serem chamados a corrigir 
um mundo que est fora de eixo. O conhecimento aniquila a ao,- a ao depende dos vus da iluso: eis a doutrina de Hamlet, e no essa balela do sonhador que pensa 
demais e que, devido a um excesso de opes, no consegue agir. No  a reflexo - absolutamente -, mas o conhecimento, a percepo da verdade terrvel, que interfere 
corn a motivao de agir, tanto em Hamlet como no indivduo dionisaco.
Chegaramos a concluses singulares (e muito elucidativas) se aplicssemos os conceitos de Nietzsche a outro indivduo dionisaco, o nico personagem shakespeariano 
capaz de competir com Hamlet em termos de amplitude de conscincia e agudeza de intelecto: Sir John Falstaff. Sem dvida, Falstaff fora, um dia, capaz de enxergar 
a verdadeira essncia das coisas (muito antes de o conhecermos). O ex-combatente foi capaz de enxergar a realidade da guerra, descartara a honra e a glria das campanhas 
blicas, considerando-as iluses perigosas, e entregara-se ao ldico. Ao contrrio de Hamlet, Falstaff no paga com nusea o preo do conhecimento. Em Falstaff, 
conhecimento no inibe
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a ao,- antes, empurra a ao para o lado, como algo irrelevante no atemporal mundo ldico. Hotspur o diz bem:
[...] E onde se encontra
seu filho, to ligeiro e tresloucado,
o Prncipe de Gales? Onde o bando
que o acompanha e que o mundo ps de parte,
mandando que no pare?
[Primeira Parte de Henrique IV, IV.i.]
Como um Falstaff de si mesmo, Hamlet est quase sempre a brincar, embora seja to violento, e Falstaff, apesar de todo estardalhao, to pacfico. Os crticos de 
orientao marxista confundem seu prprio materialismo com a materialidade de Sir John e, erroneamente, vem o mestre da espirituosidade como oportunista. Todo 
o investimento de Falstaff, ao contrrio de Hamlet,  consignado  espirituosidade por si s. Contrastemo-los em dois grandes momentos, Hamlet no cemitrio, Falstaff 
na taverna:
"
HAMLET
Essa caveira j teve uma lngua, j pde cantar um dia,- olha como esse idiota a atira ao solo, qual se fosse a queixada de Caim, que cometeu o primeiro assassinato! 
Pode ter sido o crnio de um poltico, que esse asno subjuga agora,- de algum que desejasse enganar a Deus, no pode?
HORCIO
Bem pode ter sido, senhor.
HAMLET
Ou de um corteso que dizia "born dia, caro senhor! Como passa o meu bom senhor?" Pode ter sido o senhor de Tal-e-tal, que elogiava o cavalo do senhor de Tal-e-tal 
quando pretendia pedi-lo, no  verdade?
HORCIO
Verdade, senhor.
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HAMLET
HAMLET
 isso mesmo,- e agora pertence aos vermes, descarnado e golpeado nos queixos pela p do coveiro,- eis uma bela evoluo, se tivssemos o poder de v-la. Custou 
to pouco formar esses ossos, que agora s servem para jogar malha? Os meus doem s de pensar nisso.*
[V.i.]
FALSTAFF
Fazes sempre citaes execrveis,- s capaz de corromper um santo. Tu me tens prejudicado muitssimo, Hal; Deus te perdoe. Antes de conhecer-te, Hal, ignorava tudo,- 
e agora, para dizer toda a verdade, valho pouco mais que um pecador. Preciso deixar esta vida, e hei de deix-la. Por Deus, se o no fizer, no passarei de um rematado 
velhaco,- no quero ir para o inferno por causa de nenhum filho de rei da Cristandade.
[Primeira Parte de Henrique IV, I.ii.]
A que resultado chegaremos se colocarmos em confronto direto as palavras "Antes de conhecer-te, Hal, ignorava tudo,- e agora, para dizer toda a verdade, valho pouco 
mais que um pecador" e "eis uma bela evoluo, se tivssemos o poder de v-la"? Seria uma contenda entre gnios da espirituosidade - mas que tm pouco em comum! 
corn genialidade cmica, Falstaff faz de si mesmo o objeto do gracejo, embora v alm do gracejo, investindo contra a carolice puritana. A alegria autntica de Falstaff 
ope-se ao sombrio humor de Hamlet, que, ao mesmo tempo, investe contra a mortalidade e todas as nossas pretenses. O humor de Falstaff sugere entretenimento, o 
de Hamlet, transformao.
O Ur-Hamlet de Thomas Kyd, verdadeiro fantasma que assombra os estudos shakespearianos, jamais foi encontrado porque jamais existiu.
Hamlet e Macbetb. Tradues de Anna Amlia Carneiro de Mendona e Barbara Heliodora. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1995. Todas as citaes referem-se a 
essa edio. [N.T.]
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Thomas Nashe, divulgando o trabalho de Robert Greene, amigo infeliz, escreveu um texto obscuro que tem sido mal interpretado pela maioria dos especialistas, incapazes 
de perceber a crtica feita por Nashe (e Greene)  Escola de Marlowe, que inclua Marlowe, Shakespeare e Kyd:
Retomo meus estudos sobre entretenimento para dirigir-me, breve e cordialmente, a alguns dos nossos reles tradutores.  prtica comum nos dias de hoje entre um grupo 
de autores ardilosos, que lidam em todas as artes e dominam nenhuma, abandonarem o ofcio de Noverint, para o qual nasceram, e se arvorarem em empreitadas artsticas, 
quando mal seriam capazes de passar para o latim seus piores versos, se obrigados a faz-lo,- ocorre que Sneca, lido em traduo  luz de vela, faz nascer muitas 
expresses felizes, como "o sangue  um mendigo" e outras. E se o abordarmos, com amabilidade, em uma manh de inverno, ele nos oferece Hamlets inteiros, alm de 
punhados de solilquios trgicos. Mas, que pena! Tempus eax rerum, o que h de durar para sempre? O mar, esvaziado gota a gota, com o tempo, h de secar, e Sneca, 
vertendo sangue, verso a verso, pgina a pgina, um dia h de morrer em nosso palco,- famintos, seus seguidores imitam o Kid da fbula de Esopo, que desiste da ocupao 
de raposa e segue novo ofcio. Tais indivduos, abrindo mo do reconhecimento e da estima, intrometem-se em tradues italianas. Que o fracasso de seu desempenho 
seja constatado por todo e qualquer cavaleiro imparcial versado naquele idioma, ao examinar os panfletos escritos por esses senhores e vendidos a dois centavos!
Eis o comentrio de Peter Alexander sobre esse texto propositadamente obscuro:
 difcil identificar alguma informao precisa em meio a tamanha algazarra,- contudo, parece clara, entre as produes dos
A referncia apresenta dois sentidos: em nvel literal, kid-fox, "raposa jovem",- em sentido irnico, alude a Kyd, sobrenome de Thomas. [N.T.]
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HAMLET
dramaturgos incultos, a incluso de uma pea intitulada Hamlet, que, segundo Nashe, muito deve a tradues da obra de Sneca,- e mais, um desses dramaturgos seria 
Kyd, pois Nashe faz meno ao nome, apesar do fato de nem Esopo nem Spenser (Nashe refere-se  cloga de maio, encontrada no Sbepbeards Calendar) se encaixarem na 
situao descrita. Concluir, com base nessa afirmao, como muitos estudiosos o fazem, que Kyd seja o autor do primeiro Hamlet  suposio insustentvel, considerando-se 
a afirmao em si, e questionvel diante de provas que surgiram posteriormente. Nashe refere-se a um "grupo" de autores,- que Kyd era um desses autores e Hamlet 
uma das peas escritas por eles  o mximo que esse trecho, deliberadamente, provocador nos esclarece.
corn base nisso, eu gostaria de propor uma nova viso da carreira de Shakespeare. No livro Politics, Placjue, and Sbakespeares Tbeater: The Stuart Years (1991), 
Leeds Barroll recomenda cautela na datao de peas shakespearianas a partir de supostas referncias a questes contemporneas, e aventa a hiptese de que, em sua 
fase madura, Shakespeare escrevesse somente quando os teatros estavam em funcionamento,- isto , sua arte dramtica alternava-se, entre perodos inativos e rompantes 
de intensa criao e produtividade, chegando a fases de esforo supremo, ao produzir Rei Lear, Macbetb e Antnio e Clepatra em apenas catorze meses.
Barroll questiona tambm o mito cultuado entre especialistas de que Shakespeare teria se recolhido em Stratford aps escrever A Tempestade, em 1611, quando estava 
corn apenas quarenta e sete anos de idade. Shakespeare viveu mais cinco anos e, at 1613, com a colaborao de John Fletcher, escreveria mais trs peas: Henric/uc 
VIII, Cardnio (pelo que consta, desaparecida) e Os Dois Nobres Parentes. A partir dos cinqenta anos, Shakespeare recusa-se a trabalhar para o teatro e, sem dvida, 
podemos consider-lo inativo durante os dois ltimos anos de vida. Desconhecemos a causa da morte de Shakespeare, aos cinqenta e dois anos, embora um relato da 
poca aponte, como motivo imediato, uma bebedeira na companhia de dois velhos amigos, Ben Jonson e Michael Drayton, o que parece condizente com o socivel Shakespeare 
fals-
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taffiano Fala-se tambm de uma longa enfermidade, possivelmente de natureza venrea, o que , igualmente, vivel Talvez a sade deteriorada enfraquecesse a disposio 
de escrever Seja qual for o motivo da interrupo do processo criativo do autor, o argumento de Barroll  vlido A Tempestade no  uma despedida, e Shakespeare 
jamais escreveu to bem como nos trechos a ele atribudos de Os Dois Nobres Parentes, que apenas por uma questo acidental  se tornou a obra derradeira
No esprito de Barroll, proponho uma reviso no que concerne ao nosso entendimento do incio da carreira de Shakespeare como dramaturgo Tudo leva a crer que o Ur-Hamlet 
tenha sido escrito antes de 1589, talvez em 1588 Nesse caso, a pea teria precedido todas as que caracterizam o perodo de aprendizado, inclusive as trs partes 
de Henncfue VI (1589-91), Ricardo in (1592-93) e Tito Andrntco (1593-94) No sabemos quando Kyd escreveu A Tragdia Espanhola, mas pode ter sido entre 1588 e 1592 
Jamais entendi como e por que os estudiosos de Shakespeare consideram A Tragdia Espanhola uma forte influncia em Hamlet A Trage"dia Espanhola gozava de grande 
popularidade, mas  uma pea ruim, tola, pessimamente escrita, o que qualquer leitor pode logo constatar  difcil ir alm das primeiras pginas, e inadmissvel 
que a pea tenha impressionado Shakespeare Ser mais racional supor que a primeira verso de Hamlet tenha influenciado A Tragdia Espanhola, e que qualquer efeito 
do esqulido melodrama de Kyd encontrado no Hamlet em sua verso final demonstre Shakespeare recuperando algo que sempre lhe pertencera
Provavelmente, jamais ser possvel provar que Peter Alexander estava certo ao defender a tese de que Shakespeare escreveu o Ur-Hamlet, mas as provas circunstanciais 
reforam a deduo de Alexander Quando Shakespeare uniu-se ao grupo teatral que, em 1594,  se tornaria a companhia do Lorde Chamberlam, as trs peas acrescentadas 
ao repertrio da troupe foram A Megera Domada, Tito Andrwco e Hamlet, em momento algum a companhia encenou A Tragdia Espanhola ou qualquer outra pea de Kyd Alm 
da presena do Fantasma, no sabemos o que constava do primeiro Hamlet, mas o Shakespeare da fase pr-Tito Andrnico fica longe de ser o mesmo da fase ps-Falstaff, 
e tenho minhas dvidas sobre o fascnio que a primeira verso de Hamlet seria capaz de
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HAMLET
causar Shakespeare deve ter sentido um certo acanhamento, ao retomar uma obra que pode ter sido a primeira de suas peas, conforme j observei, fontes da poca indicam 
que o grito do Fantasma - "Hamleti Vingai-vos"" - tomara-se objeto de chacota Mais interessante do que isso  considerar o que teria atrado Shakespeare na histria 
de Hamlet O primeiro registro de Hamlet  encontrado na obra de Saxo Grammaticus, Danish History, escrita no sculo XII, em latim, e disponvel em uma edio parisiense 
a partir de 1514 Shakespeare dificilmente teria lido Saxo, mas, sem dvida, teve acesso  obra do escritor francs Belleforest, intitulada Histoires Trafiques, cujo 
quinto volume (publicado em
1570) continha a saga de Hamlet, elaborada com base no relato de Saxo O herico Horwendil, tendo morto o Rei da Noruega em luta corporal, recebe, como recompensa, 
Gerutha, filha do Rei da Dinamarca, o casal gera um filho, Amleth Fengon, irmo de Horwendil, por despeito, mata o heri e casa-se com Gerutha, estabelecendo uma 
relao incestuosa Amleth, para garantir a prpria vida, finge-se de morto, resiste ao assdio de uma mulher enviada com o propsito de seduzi-lo, apunhala um amigo 
de Fengon escondido no quarto de Gerutha, censura a me, exigindo que se arrependa, e  enviado por Fengon  Inglaterra, onde seria executado Durante a viagem, Amleth 
adultera o conduto enviado por Fengon e, assim, condena  morte os dois guardas que o acompanhavam De volta  Dinamarca, Amleth mata Fengon com a prpria espada 
do usurpador e  reconhecido pelo povo como Rei da Dinamarca
 exceo do enredo, o Amleth de Belleforest pouco faz lembrar o Hamlet de Shakespeare, e podemos presumir que,  medida que Shakespeare revisava a pea, Hamlet 
se parecesse cada vez menos com o animalesco personagem da obra-fonte Seja l o que for que tenha atrado Shakespeare  figura de Amleth/Hamlet, a atrao deve 
ter surgido cedo na vida do poeta, pois, em 1585, ele batiza o filho com o nome de Hamnet, supostamente, em homenagem ao heri dinamarqus Convicto de que Peter 
Alexander est certo ao atribuir Ur-Hamlet a Shakespeare, considero crucial a questo do atrativq que o enredo e o personagem da histria de Amleth representavam 
para o pai de Hamnet, antes de iniciar a carreira de dramaturgo
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O Amleth de Belleforest no deixa de ter suas habilidades: luta muito bem,  obstinado no propsito de vingana e chega a conquistar o trono da Dinamarca. Contudo, 
ningum escolheria o nome de um filho apenas por causa da valentia de um determinado heri,- somos levados a suspeitar a existncia de algum outro motivo.
O Amleth de Belleforest, com todas as suas falhas,  merecedor de uma verso nrdica, primitiva, da bno da vitalidade. Podemos conjeturar que Shakespeare tenha 
visto em Amleth uma verso nrdica da figura bblica do Rei Davi, heri carismtico que passa por uma srie de tribulaes na conquista do trono e da "Bno". Mas 
o Rei Saul no  Fengon, e o Davi bblico est bem mais prximo do Hamlet shakespeariano do que do lendrio Amleth, cuja espirituosidade e valentia, embora autnticas, 
so grotescas, tendo como pano de fundo a mitologia do Edas. Shakespeare, sempre preocupado com a perda de status social, pode ter batizado o filho com o nome 
de Hamnet como uma espcie de amuleto que auxiliasse a recuperao social da famlia, tomando Amleth como modelo de perseverana na defesa da honra familiar e da 
valorizao do relacionamento entre pais e filhos.
Tudo leva a crer qut o primeiro Hamlet shakespeariano, escrito entre
1588 e 1589, fosse bastante semelhante ao Amleth de Belleforest, um vingador romano, no estilo de Sneca, inserido em contexto nrdico. Nas peas de Shakespeare, 
o processo de interiorizao de personagens s apresenta fora caracterstica a partir do triunfo cmico que  Falstaff, ainda que indcios marcantes do referido 
processo j possam ser percebidos em Bottom, e uma verso grotesca e ambivalente do mesmo seja visvel em Shylock. Mas no temos por que supor que o Ur-Hamlet (personagem) 
de Shakespeare fosse dotado de um intelecto sublime. Depois de Falstaff, Hal e Bruto, Shakespeare decide rever sua prtica de dramaturgo, retornando ao princpio 
da carreira, talvez, um tributo a Hamnet, o filho que falecera. Existe um forte sentimento elegaco na verso final de Hamlet, que pode ter sido retocada aps a 
morte do pai de Shakespeare, em setembro de 1601.O pesar pelas mortes de Hamnet e de John Shakespeare pode estar refletido na tristeza de Horcio (e do pblico) 
quanto  situao de Hamlet. O mistrio de Hamlet, e da
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HAMLET
prpria pea, depende da noo da tristeza como mecanismo de reviso, e talvez, do processo de reviso, em si, entendido como uma espcie de nostalgia por um Shakespeare 
mais jovem. Aos trinta e seis anos, Shakespeare parece perceber estar diante de um momento mximo, transcendental, e concentra aqui todo o seu talento, na ocasio 
em que se volta para um esforo revisionista de uma intensidade jamais observada antes (ou depois) em sua carreira.
Marlowe, h muito, fora exorcizado,- com o Hamlet de 160O-1601, Shakespeare toma-se precursor de si mesmo, e revisa no apenas o Ur-Hamlet mas toda a obra subseqente, 
at Jlio Csar. O drama interior da pea tem carter revisionista: Shakespeare volta a algo que estava alm da sua capacidade inicial e cria um protagonista que, 
ao chegar ao quinto ato, tem uma relao com o Hamlet do primeiro ato que, por sua vez, constitui um paralelo exato  relao do autor com o Ur-Hamlet. Para Hamlet, 
reavaliar o prprio interior substitui o projeto de vingana. A nica vingana vlida da pea  a que Nietzsche, o terico da reviso, identifica como a vingana 
do arbtrio contra o tempo, contra o "existiu. "Assim eu quis", Shakespeare parece dizer, enquanto Hamlet  se torna o modelo implcito para A Genealogia da Moral, 
de Nietzsche. A percepo mais shakespeariana de Nietzsche  puro Hamlet: s encontramos palavras para expressar o que j est morto em nosso corao, de modo que 
todo ato da fala conter sempre um certo desdm. O resto  silncio,- fala  perturbao, traio, inquietao, tormento nosso e de terceiros. com Hamlet, Shakespeare 
chega a um impasse tambm observado em Noite de Reis, em que Feste  herdeiro de Hamlet.
No existe um Hamlet "real", assim como no existe um Shakespeare "real": o personagem, tanto quanto o autor,  um espelho d"gua onde contemplamos o nosso prprio 
reflexo. Trabalhando a convergncia de opostos, Shakespeare mostra-nos toda a Humanidade - e ningum -, ao mesmo tempo. No temos escolha, a no ser dar toda a liberdade 
a Shakespeare, e ao Hamlet por ele criado, uma vez que so incomparveis.
Anne Barton observa que Hamlet deve tanto s peas anteriores de Shakespeare quanto ao Ur-Hamlet. Mesmo que Peter Alexander esteja
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certo (conforme venho aqui insistindo), que o Ur-Hamlet seria uma dessas obras anteriores, Hamlet e Hamlet devem mais s peas Henrique IV e a Falstaff do que ao 
Hamlet embrionrio. A interiorizao como mecanismo de liberdade  o dom mais sutil do Hamlet maduro, apesar de todo o sofrimento, e a espirituosidade passa a se 
confundir com tal interiorizao e com tal liberdade, primeiro, em Falstaff, depois, em Hamlet. Desde as peas do incio da carreira, como a srie Henrique VI, 
j podemos constatar a existncia de um impulso interior, embora a arte de Shakespeare ainda seja crua demais para pr em prtica esse impulso de maneira plena. 
Marlowe no foi capaz de oferecer subsdios a Shakespeare no aprimoramento da arte da interiorizao (ainda que Barrabs seja um monstro maravilhoso, o nico papel 
teatral que eu sempre quis representar). Chaucer fora, e o fizera: o Vendedor de Indulgncias de Chaucer  um verdadeiro abismo humano, dotado de um interior to 
profundo quanto o de lago, ou Edmundo. A Mulher de Bath estabelecera um paradigma para Falstaff, e o Vendedor de Indulgncias pode ter feito o mesmo por lago. Porm, 
nenhum personagem chauceriano contribuiu para o desenvolvimento de Hamlet, no do Hamlet conforme hoje o vemcs, embora a ironia do Hamlet de 160O-1601 apresente 
caractersticas de Chaucer. Tais componentes irnicos concorrem para causar o estranho efeito que Graham Bradshaw compara a Pirandello.- Hamlet parece uma pessoa 
de carne e osso, por algum motivo desconhecido, presa dentro de uma pea de teatro, obrigada a representar mesmo sem querer faz-lo. Bradshaw, por estar amarrado 
 tradio equivocada que aponta Kyd como o autor do Ur-Hamlet, relaciona o referido efeito  reao do pblico do Teatro Globe ao ver Hamlet "preso" ao antigo sucesso 
de Kyd. O efeito Pirandello (para no falar do efeito Beckett, como em Fim de Jogo) ser exacerbado se o novo protagonista shakespeariano estiver inserido ha respectiva 
obra anterior.
O ldico em Falstaff  to importante quanto o teatral em Hamlet; em relao inversa, Falstaff  infinitamente mais ldico do que Hamlet, e o Prncipe, muito mais 
teatral do que o cavaleiro "gordanchudo". O Hamlet final , conscientemente, teatral/ e  possvel que o primeiro fosse dotado de uma teatralidade melodramtica 
(segundo Bradshaw).
50O
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Podemos dizer que, intelectualizado e irnico, o Hamlet maduro est ciente de uma identificao com a sua prpria verso anterior, mais tosca. com efeito, existe 
um interessante desdobramento: o Hamlet maduro deve lidar no apenas com o Fantasma, mas tambm com o fantasma do primeiro Fantasma, e com o fantasma do primeiro 
Hamlet. Isso vai alm de Pirandello, e sugere explicaes sobre a atitude de Hamlet que, habituado a questionar tudo, pouco questiona a vingana, mesmo sentindo-se 
to desestimulado a lev-la a termo.
Mas isso  tpico da conscincia de Hamlet, pois a mente do Prncipe  to privilegiada que os julgamentos, as atitudes e os valores mais contrrios podem n-ela 
coexistir de maneira coerente, to coerente que, para todos os homens e para muitas mulheres, Hamlet representa, praticamente, tudo. Hamlet encarna o valor da personalidade, 
ao mesmo tempo em que rejeita o valor do amor. Se Hamlet  seu prprio Falstaff (na sofisticada concepo de Harold Goddard),  um Falstaff que pode prescindir de 
Hal, assim como pode prescindir da pobre Oflia, ou mesmo de Horcio, a no ser como o sobrevivente que h de relatar a histria do Prncipe. O elemento comum entre 
a mestria ldica de Falstaff e a dramaturgia de Hamlet  a utilizao da espirituosidade como um antdoto contra Maquiavel, isto , como defesa contra um mundo corrompido.
No sabemos at que ponto era ldica a natureza de Shakespeare, mas conhecemos as peas teatrais por ele criadas e, assim, podemos reconhec-lo mais em certas observaes 
feitas por Hamlet do que nas de Falstaff.  impossvel vislumbrar Falstaff instruindo atores, ou mesmo assistindo  encenao de uma pea, uma vez que, para Sir 
John, a realidade  uma pea.  um prazer ver Falstaff representando o Rei Henrique IV e Hal, mas seria entediante assistir a Falstaff atuando como Falstaff, pois 
ele  autntico demais para conseguir realizar tal feito. Um dos dilemas inerentes  interpretao de Hamlet  que jamais sabemos ao certo quando ele est representando 
o papel de Hamlet, a despeito da "atitude extravagante". A mimese, isto , a imitao que o ator faz de um ser humano,  algo que preocupa Hamlet, mas no  problema 
que aflija Falstaff. Hal, apesar da brutalidade com que trata Falstaff, algo
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inconcebvel em Hamlet (imaginem Hamlet rejeitando Horciol), possui um interesse mimtico comparvel ao de Hamlet - e.g., ao promover peas-dentro-da-pea -, embora 
o faa com uma hipocrisia que seria objeto do desprezo de Hamlet. Mas se tivesse  se tornado rei, Hamlet no teria sido to-somente um Fortimbrs com mais presena 
de esprito, ou seja, um Henrique V. Como seu prprio Falstaff, Hamlet, supostamente, ingressaria na esfera mais elevada do ldico, isto , na arte. E voltamos ao 
paradoxo de que Hamlet poderia ter escrito Hamlet, ao passo que Falstaff acharia redundante escrever Falstaff. Falstaff  imanente ao extremo, transbordante de vida, 
na proporo inversa observada em lago e Edmundo. Conforme j assinalei, Falstaff  gerao de significado,- Hamlet, to negativo quanto espirituoso, obstrui, ou 
confunde significados, exceto no mundo da transcendncia.
Auden, intelectual cristo que preferia Falstaff a Hamlet, reconheceu em Falstaff "um smbolo cmico da ordem espiritual da Caridade", constatao que muito me perturba, 
pois Auden chega ao ponto de identificar caractersticas de Cristo em Falstaff, ambos rejeitados pelo mundo. Se seguirmos Kierkegaard, preferindo o apstolo ao gnio, 
daremos preferncia a Dom Quixote, em detrimento de Hamlet, conforme o faz Auden. Contudo, parece-me estranho o fato de Auden considerar Falstaff apstolo, em lugar 
de gnio, uma vez que no h apstolos em Shakespeare. Kierkegaard, dinamarqus espirituoso e melanclico como Hamlet, no  personagem dos mais shakespearianos, 
justamente, por no ser um apstolo. Auden, felizmente, tampouco o era, possuindo um esprito falstaffiano forte o bastante para ser perdoado por seqestrar Sir 
John em nome da Ordem Crist da Caridade.
Haveria, na obra shakespeariana, personagens to autnomos quanto Falstaff e Hamlet? Um conjunto que reunisse os maiores, certamente, incluiria Bottom, Shylock, 
Rosalinda, lago, Lear, Macbeth, Clepatra e Prspero. No entanto, todos esses personagens, por mais complexos, dependem mais do mundo que os cerca nas respectivas 
peas do que Falstaff e Hamlet. Falstaff, sem dvida, escapou a Shakespeare,- mas inclino-me a pensar que Shakespeare no tenha conseguido escapar a Hamlet, construdo 
de dentro para fora, enquanto Falstaff teve incio
502
HAMLET
em um processo de construo externa para, em seguida, ser interiorizado, talvez contrariamente aos planos iniciais do prprio autor. Hamlet, a meu ver,  desgnio 
de Shakespeare, resultado de longa ponderao, ao contrrio da surpresa que foi Falstaff. Se alguma figura shakespeariana ocupa todo o espao simblico disponvel 
em sua respectiva pea, seriam essas duas, embora apenas Hamlet tenha sido criado, originalmente, com tal funo. Roubar a cena  seu nico papel,- diferentemente 
de Falstaff, Hamlet no se rebela contra as idias de tempo e de ordem. Falstaff  feliz consigo mesmo e com a realidade, Hamlet  infeliz nos dois aspectos. Os 
dois ocupam uma posio central na inveno do humano por Shakespeare.
E caracterstico do triunfo shakespeariano o fato de que a obra literria mais original do Ocidente, talvez de toda a literatura mundial, tomou-se de tal modo familiar 
que temos a impresso de t-la lido antes, mesmo ao encontr-la pela primeira vez. Hamlet, como personagem (ou papel, se o leitor assim preferir),  to familiar 
- e original - como a pea por ele protagonizada. Samuel Johnson, para quem Hamlet no constitua um grande problema, elogiou a "variedade" da pea, o que se aplica, 
igualmente, ao protagonista. Tanto quanto a pea, o Prncipe se destaca na obra shakespeariana, em parte, porque a rotina no lhe banaliza a infinita variedade.* 
Trata-se de um heri que, a rigor, poderia ser considerado um vilo: frio, calculista, homicida, solipsista, niilista. No entanto, de imediato, tais adjetivos identificam 
lago, no Hamlet. A conscincia  a principal caracterstica de Hamlet,- trata-se do personagem mais consciente e atento de toda a literatura. Temos a impresso 
de que nada escapa a essa figura ficcional. Hamlet  um Henry James espadachim, um filsofo pretendente ao trono, profeta dotado de uma sensibilidade muito a nossa 
frente, pertencente a uma era futura.
Bloom alude  descrio que Enobarbo faz de Clepatra (ato II, cena ii), em Antnio e Clepatra. [N.T.]
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Embora Shakespeare tenha escrito dezesseis peas depois de Hamlet, o que a posiciona, portanto, ligeiramente aps o momento central da carreira do dramaturgo, a 
pea , sem sombra de dvida, ao mesmo tempo, o alfa e o mega do autor Nela encontramos toda a obra
shakespeanana drama histrico, comdia, stira, tragdia, romance
acabamos por remedar Polnio, se tentarmos categorizar esse "poema ilimitado" com essa expresso, Polnio quer dizer apenas que a poesia dramtica no precisa se 
ater s restries neoclssicas de Ben Jonson, com respeito s unidades de tempo e lugar, e Hamlet, ironicamente, destri qualquer idia coerente de tempo, de maneira 
ainda mais drstica do que ser o caso de Otelo E, pelo que parece, Shakespeare sabia que "poema ilimitado"  a expresso que melhor classifica o gnero literrio 
da verso final de Hamlet, que  e no  a tragdia do Prncipe Goethe, cuja obra Fausto tanto deve a Hamlet,  o melhor professor de "poemas ilimitados" O apocalipse 
demonaco que constitui a Segunda Parte de Fausto  absolutamente ilimitado, e, ainda assim, perde muito de sua aura quando comparado de perto a Hamlet Proponho 
aqui que o "poema ilimitado" de Shakespeare seja to pessoal, extravagante e arbitrrio quanto a Segunda Parte de Fausto, e que possua uma singularidade ainda mais 
abrangente do que a singular obra de Goethe O Ur-Hamlet "desaparecido" era, decerto, uma tragdia de vingana, tanto quanto Tfo Andrntco ou Jlio Csar (se considerarmos 
esta ltima como A Vingana e Marco Antnio), mas a verso triunfal de Hamlet encerra o drama cosmolgico do destino humano, e a questo da vingana no passa de 
uma mscara que esconde o impulso primordial da pea Quanto a ns, podemos esquecer a "indeciso" de Hamlet, bem como o seu "dever" de matar o tio que usurpara o 
trono O prprio Hamlet leva algum tempo para conseguir faz-lo, quando, no incio do quinto ato, j no  preciso lembrar-se o Fantasma se foi, a imagem mental do 
pai no tem mais fora, e constatamos que, na magnitude da pea, hesitao  sinnimo de conscincia Trata-se mesmo da hesitao da prpria conscincia, pois Hamlet 
inaugura a dramaturgia da conscincia exacerbada que Pirandello e Beckett apenas reproduziriam, embora em tom mais desesperado, e que Brecht buscou em vo subverter 
Tambm o
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HAMLET
impulso marxista de Brecht aparece hoje apenas reproduzido, por exemplo, na pea Angels m America, de Tony Kushner, que pretende demonstrar no haver indivduos 
isolados, mas que s expressa patbos autntico quando Roy Cohn, o heri-vilo, surge em cena, isolado como qualquer outra conscincia na tradio de Hamlet
Dificilmente poderemos refletir sobre ns mesmos, sobre nossas identidades distintas, sem pensarmos em Hamlet, a despeito de estarmos ou no cientes de tal prtica 
O mundo de Hamlet no , primordialmente, o da alienao social, ou da ausncia (ou presena) de Deus Antes,  o mundo do crescente eu interior que ele, s vezes, 
tenta rejeitar, mas que por ele  celebrado quase que continuamente, embora de maneira implcita A diferena entre Hamlet e seus legatnos, todos ns, pouco tem 
de histrica, pois em mais este aspecto ele est muito  nossa frente, sempre nos escapando Experimentao  a caracterstica singular da conscincia sempre borbulhante 
de Hamlet, se no  capaz de conhecer totalmente a si mesmo,  porque  uma fonte eterna de sensibilidade, reflexo e sentimento, jorrando sem parar Para Hamlet, 
conforme observou Oscar Wilde, o esttico nada tem de mstico, ao contrrio, constitui o nico elemento moral ou normativo da conscincia Wilde dizia que, por causa 
de Hamlet, o mundo tomara-se triste Em Hamlet, a autoconscincia faz exacerbar a melancolia,  custa de todos os demais sentimentos
Hamlet jamais ser identificado como "o dinamarqus alegre", contudo, uma conscincia dotada, permanentemente, de tanta vida no pode ser categorizada apenas como 
"melanclica" Mesmo nos momentos mais sombrios, a dor de Hamlet apresenta uma certa indefinio A idia de "luto hesitante"  quase um oxmoro, mas o essencial em 
Hamlet  jamais se comprometer inteiramente com qualquer posicionamento, atitude, misso, ou com qualquer coisa que seja, conforme atesta o seu prprio discurso, 
nenhum outro personagem, em toda a literatura, altera seu decoro verbal com tanta presteza Hamlet no possui um centro Otelo tem seu "ofcio" de guerreiro honrado, 
Lear tem majestade de rei, Macbeth tem uma imaginao proftica que salta  frente de sua prpria
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#HAROLD  BLOOM
ambio Hamlet  inteligente demais para identificar-se, exclusivamente, com um nico papel, e a prpria inteligncia no gozar de privilgios exclusivos, quando 
colocada lado a lado  imparcialidade final do Prncipe E praticamente impossvel categorizar Hamlet, Falstaff, que, para todos os efeitos,  to inteligente quanto 
Hamlet, identifica-se com a liberdade do intelecto e com o ldico Uma faceta de Hamlet  independente, e alimenta-se de uma espintuosidade e uma disposio ldica 
amargas, mas outras facetas so dependentes, e no nos  possvel encontrar o ponto de equilbrio
Fosse a pea crist, ou mesmo no-cnst, poderamos dizer que Hamlet tem a Bno, como as figuras bblicas de Davi, Jos e o astuto Jac Hamlet, mais do que Falstaff 
ou Clepatra,  o maior dos carismticos shakespeananos, mas carrega a Bno como se fosse uma maldio A contragosto, Cludio nos informa que Hamlet  querido 
pelo povo dinamarqus, e a grande maioria do pblico compartilha dessa afeio O problema  que a Bno vem a ser "mais vida em um tempo sem limites", e, embora 
Hamlet encarne esse vitalismo herico, , tambm, o representante da morte, regio inspita delimitada pelo tempo Shakespeare cria Hamlet como uma dialtica de qualidades 
antitticas que permanecem sem resoluo mesmo aps a morte do heri No ser exagero afirmar que Hamlet  a prpria criatividade shakespeanana, a prpria arte do 
poeta-dramaturgo Hamlet , tambm, a morte para Shakespeare, o filho e o pai mortos Tal afirmao pode parecer fantasiosa, mas  absolutamente factual Se um personagem 
representa, a um s tempo, a prpria arte e a perspectiva de aniquilamento do autor, provavelmente, h de encarnar o mais equvoco e polivalente dos papis oheri-vilo 
Hamlet  um heri transcendental, um novo homem, como fora o Rei Davi, no Livro de Samuel, mas , igualmente, um novo vilo, precursor direto de lago e Edmundo, 
o vilo-dramaturgo que, para escrever, vale-se no apenas das palavras mas das vidas das pessoas Talvez seja mais adequado considerar Hamlet um vilo-heri, pois 
sua transcendncia, em ltima anlise, triunfa - ainda que, na prtica, ele seja responsvel pela morte de oito persona-
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HAMLET
s inclusive a dele prprio Um palco vazio, a no ser pelas presenas de um Horcio plido, um Fortimbrs dado  bravata e Osnc, o almofadinha,  a conseqncia final 
do pragmatismo de Hamlet
Ao fazer de Hamlet uma convergncia de opostos, Shakespeare  de uma espintuosidade que jamais poder ser superestimada ainda que a questo tenha provocado quatro 
sculos de leituras errneas, muitas das quais  diga-se de passagem, extremamente criativas  So inmeras as pistas enganosas no labirinto das interpretaes de 
Hamlet o homem que pensa demais, que no consegue tomar decises, cuja virtude o coloca alm do feito dele esperado, ou do mundo que o cerca J tivemos o Hamlet 
do Alto Romantismo e do Baixo Modernismo, e agora temos o Hamlet-Foucault, ponto culminante do Hamlet francs de Mallarm, Laforgue e T S  Eliot  Essa pardia de 
Hamlet prevalecia na minha juventude, durante a Era de Eliot Tratava-se de um Hamlet neocnsto, chamado s ameias de Elsmore (ou de Yale), para enfrentar o Fantasma, 
lembrana nostlgica de uma espiritualidade perdida Francamente, tal interpretao  absurda, a no ser para os que aceitam a noo de Eliot de que o diabo  prefervel 
a uma existncia secular desprovida de sentido   Auden foi mais perspicaz, ao ver em Hamlet (corn certo desgosto) um gnio da transcendncia secular, noo que bem 
define o enigmtico intelectual criado por Shakespeare, uma vez que o referido personagem pratica uma corrupo mais sutil do que aquela observada na podre corte 
e no Estado - e que lhe causa tamanha consternao Essa atitude dbia, ao mesmo tempo secular e transcendental,  caracterstica do prprio Shakespeare  presente 
nos Sonetos, e aparece com um cunho mais pessoal em Hamlet do que na trade Trilo e Crsstda, Bem Est o que Bem Acaba e Medida por Medida Falstaff pode ter sido 
mais querido por Shakespeare (assim como por ns deveria s-lo), mas, evidentemente, para seu criador, Hamlet era questo mais pessoal Podemos concluir (corn algumas 
restries) que Hamlet  a prpria conscincia de Shakespeare, sem receio de com isso nos tomarmos aquelas entidades terrveis os Bardolatras do Alto Romantismo
Hamlet recusa-se a agir precipitadamente, em parte, sua liberdade consiste em no se antecipar, em no tomar atitudes prematuras Nesse
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sentido, ser que o personagem no expressa o arrependimento irnico de Shakespeare por ter escrito Ur-Hamlet cedo demais, nos pnmrdios da carreira de poeta e dramaturgo" 
A despeito de acreditarmos ou no ter sido Hamlet o autor do grande monlogo do Ator Rei (ato in, cena u), ter o trecho a mesma relao com O Assassinato de Gonzaga 
e com Ur-Hamht? Considerando o que ali  negado, a passagem pode ser um comentrio de Shakespeare sobre o fracasso de seu Hamkt prematuro Ler a verso final de 
Hamlet (e assistir a uma encenao) como uma obra que passou por um processo de reviso  apreender a reviso que Hamlet faz de si mesmo Que fascnio as ironias 
da histria literria devem ter exercido sobre Shakespeare" Chego a suspeitar que o primeiro Hamlet shakespeanano tenha precedido e mesmo incitado A Tragdia Espanhola, 
de Kyd, sendo Shakespeare, nesse caso, ao mesmo tempo idealizador e revisor da tragdia de vingana Outra ironia interessante  o fato de Ben Jonson, que iniciou 
a carreira de dramaturgo como ator, ter atuado no papel de Jernimo, o vingador que protagoniza A Trage"dia Espanhola, pea que, mais tarde, teria trechos revistos 
pelo prprio Jonson Shakespeare fez, no Teatro Clobe, o papel do Fantasma do pai de Hamlet (e, possivelmente, atuou como Ator Rei) Ser que ele se sentia incomodado 
por ter representado o Fantasma no Ur-Hamlet, que, em dado momento, exclamava "Hamlet" Vingai-vos""?
A questo do revisionismo em Hamlet pode ser abordada de maneira bastante distinta se considerarmos que Shakespeare no estaria revisando um texto mtico - o Hamlet 
de Kyd - mas um Hamlet anterior, escrito pelo prprio Shakespeare A reviso da conscincia  o mecanismo principal de Hamlet, seria essa reviso imposta ao personagem 
pelo autor, ao confrontar, com grande constrangimento, os fracassos do incio de sua carreira de dramaturgo" Alm dos aspectos pardicos em Tto Andrmco - e das 
indiretas a Kyd e Marlowe -, a pea, que mais parece um necrotrio, impede a nossa identificao com qualquer de seus personagens O "efeito de distanciamento" em 
Brecht (grande plagiador), com certeza, foi apreendido a partir de Tto Andrmco, cujo protagonista nos aliena desde o incio da ao, com o chocante sacrifcio 
do filho de Tamora, seguido da chacina do prprio filho Qualquer
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espectador ou leitor h de preferir Aaro, o Mouro, a Tto, uma vez que a violncia de Aaro  humorstica, enquanto a de Tto  dolorosa
Suponho que Shakespeare tenha escrito no apenas em resposta a Marlowe e Kyd, mas tambm ao sentimento que trazia consigo pelo primeiro Hamlet, presumivelmente um 
vingador ardiloso Parte do mistrio que sempre cerca Hamlet  o porqu de o pblico espectador e leitor assim como o povo da Dinamarca, tanto am-lo At o quinto 
ato Hamlet expressa grande amor pelo pai morto (ou melhor, por sua imagem), mas no nos convence de amar (ou jamais ter amado) qualquer outra pessoa O Prncipe no 
sente o menor remorso por ter morto Polnio, nem por lev-ar Oflia  loucura e ao suicdio, com tanta perversidade, tampouco por enviar Rosencrantz e Cuildenstern, 
desmerecidamente, ao encontro da morte No acreditamos em Hamlet quando esbraveja contra Laertes, afirmando amar Oflia, pois a natureza carismtica parece excluir 
o arrependimento, exceto quanto ao que ainda no foi realizado O crnio do pobre Yonck no evoca pesar, mas repulsa, e o adeus do filho diante da me morta  frio 
"Adeus, pobre rainha"" Temos o tributo desmedido ao fiel e querido Horcio, embora subvertido quando o prprio Hamlet, irado, impede o suicdio do companheiro pesaroso, 
no por afeio, mas para incumbi Io da tarefa de contar a histria do Prncipe da Dinamarca garantindo a boa reputao de Hamlet na posteridade Recentemente tem 
havido uma "frente contra Hamlet", capitaneada por Alistair Fowler mas mesmo que Hamlet seja um heri-vilo, ser sempre o heri da conscincia no mundo ocidental
A mternalizao do ser  uma das maiores invenes de Shakespeare, especialmente porque ocorreu antes que estivssemos prontos para tal Constatamos um crescente 
ser interior no protestantismo, mas nada em Lutero nos prepara para o mistrio de Hamlet, cala fundo o seu interior "Mas eu tenho no peito o que no passa" Talvez, 
em funo do aprendizado que fora o seu primeiro Hamlet, Shakespeare jamais dramatize, diretamente, a essncia de Hamlet Antes, o autor oferece-nos sete solilquios 
extraordinrios, que nada tm de piegas, so apenas, no mais das vezes, mal dirigidos, mal encenados, mal enunciados O maior de
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todos, o "ser ou no ser", na montagem mais recente de Hamlet a que assisti - a pardia grotesca feita por Ralph Fiennes -, foi motivo de tamanho embarao para os 
respectivos diretor e ator, que Fiennes no mais que balbuciou grande parte do monlogo fora de cena, surgindo no palco somente para dizer, de modo atropelado, as 
palavras finais. Todavia, esse solilquio  o ponto nodal de Hamlet, ao mesmo tempo, tudo e nada, um embate entre a plenitude e o vazio. Trata-se da base de tudo 
o que o personagem dir no quinto ato, e pode ser considerado uma antecipao das palavras proferidas por Hamlet no momento da morte, uma prolepse da sua transcendncia.
E extremamente difcil fazer generalizaes a respeito de Hamlet, pois toda observao  plausvel de uma observao contrria. Hamlet  o paradigma da dor, mas 
expressa seu pesar com uma verve esfuziante, e sua perene espirituosidade faz com que ele parea vivaz, mesmo estando de luto. Em parte, isso decorre de uma energia 
verbal comparvel  de Falstaff. s vezes, ponho-me a imaginar como seria, se Shakespeare tivesse confrontado Falstaff com o Prncipe Hamlet, e no com o Prncipe 
Hal. Mas, como j citei, Harold Goddard, com genialidade, diz que Hamlet  seu prprio Falstaff, alm do que, imaginar Falstaff como Horcio  algo bastante perturbador. 
Contudo, no meu entendimento, Falstaff constitui a ponte que liga o Ur-Hamlet a Hamlet. Precisamente, por ter criado Falstaff, entre 1596 e 1598, Shakespeare foi 
capaz de revisar o Hamlet de 1588 (a despeito de quem tenha sido o verdadeiro criador do personagem), chegando  verso de 160O-1601. Conforme observou Swinburne, 
Falstaff e Hamlet tm as conscincias mais abrangentes no apenas entre todos os personagens de Shakespeare mas de qualquer outro autor. Em ambos, a amplitude da 
conscincia est aliada ao que W. B. Yeats elogiava em William Blake: "o belo, risonho discurso". A diferena  que, freqentemente, o riso de Falstaff  solto e 
autntico, demonstrando que o personagem tem f na linguagem e em si mesmo. J o riso de Hamlet pode ser desconcertante, pois resulta de uma total falta de f, tanto 
na linguagem quanto em si mesmo. Talvez, a objeo mais contundente a Hamlet tenha sido expressa por W. H. Auden, que parece no simpatizar muito com o Prncipe 
da Dinamarca:
Hamlet carece de f em Deus e nele prprio. Conseqentemente, define a sua prpria existncia a partir de terceiros, e.g., sou o homem cuja me se casou com meu 
tio, que matou meu pai. Ele gostaria de  se tornar um heri trgico grego: uma criatura que  fruto de uma situao. Da sua incapacidade de agir, pois s pode "fingir", 
i.e., encenar as possibilidades.
Tal percepo  de uma agudeza sem par: Hamlet gostaria de ser dipo ou Orestes, mas (data venia Freud) a eles nada tem de semelhante. Todavia, acho difcil conceber 
Hamlet como "uma criatura que  fruto de uma situao", pois. questes externas pouco importam a esse heri da interiorizao. E por isso que no h uma nica cena, 
ou uma determinada passagem, que seja central em Hamlet. Como o mais livre dos artistas de si mesmo em toda a obra shakespeariana, Hamlet jamais sabe o que  estar 
preso a qualquer contingncia, nem mesmo quando o Fantasma o oprime. Como podemos acreditar em seus protestos de no ser livre (ou em quaisquer de suas queixas), 
que partem de uma conscincia que parece estar na escuta de si mesma, mesmo em momentos de silncio? Se Hamlet nos confunde, mudando, praticamente, a cada frase 
que fala, como podemos reconciliar suas metamorfoses com a idia de ele ser "uma criatura que  fruto de uma situao"? com sutileza, Auden diz que Hamlet gostar 
de  se tornar tal criatura, portanto, presumivelmente, no o , embora a inteno de faz-lo o reduza  funo de ator. Mas ser que ele fica assim reduzido? Richard 
Lanham conclui que, em Hamlet, autoconscincia no pode ser distinguida de teatralidade. Como no caso de Auden,  difcil refutar este argumento, o que (pelo menos 
para mim)  se torna algo doloroso de aceitar, lago e Edmundo so grandes atores, embora homicidas,- Hamlet  outro caso, apesar do potencial homicida. Uma pea em 
que os nicos sobreviventes so Horcio, Fortimbrs e Osric  mais do que sangrenta. O Hamlet que surge no quinto ato no est fingindo,- de regresso da jornada 
martima, amadureceu uma dcada, e se a sua conscincia ainda  teatral, produz um teatro diferente, i.e., sinistro, transcendental e sublime, no qual o abismo entre 
encenar e ser algum j no existe.
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Isso nos traz de volta ao que o Hamlet maduro sempre nos conduz, a um processo de auto-avaliao,  transformao, decorrente, em primeiro lugar, da escuta a ns 
mesmos, ato contnuo, da ao do arbtrio Hamkt, seja qual for a sua primeira verso,  pea em que o protagonista faz uma profunda auto-avaliao No se trata de 
autoconstruo, para Foucault, o eu  construdo, para Shakespeare  dado, estando sujeito a mutaes  O grande tema, ou o mais freqente, em Shakespeare  a transformao 
seus maiores viles, de Ricardo in a ago, Edmundo e Macbeth, passam por transformaes radicais antes do trmino de suas carreiras O Ur-Hamlet jamais ser encontrado, 
pois est jmbncado no palimpsesto do Hamlet final O escrnio, de si mesmo e dos outros,  um dos recursos cruciais de Hamlet, e ele escarnece a vingana a tal ponto 
que  se torna impossvel distinguir a tragdia da stira Hamlet percebe que sua dor e seu gnio cmico esto em conflito, at que ambos so dominados no mar No quinto 
ato, o protagonista j no  cmico nem melanclico o "estar pronto", ou disposto,  tudo Assim, Shakespeare, desarmando a crtica de cunho moral, absolve Hamlet 
da matana que ocorre no desfecho da ao As mortes de Gertrudes, Laertes, Cludio e do prprio Hamlet so causadas pelos expedientes de Cludio, ao contrrio das 
mortes de Polnio, Oflia, Rosencrantz e Guildenstern Estas ltimas podem ser atribudas  teatralidade homicida de Hamlet,  mescla singular dos papis de comediante 
e vingador nele observada Mas nem mesmo Cludio  morto por um ato de vingana - trata-se to-somente da entropia final dos ardis por ele prprio tramados
Portanto, no podemos considerar Hamlet culpado do que ocorre na cena final, e essa purgao, ensejada pelo ato revisno,  percebida pela platia como uma msica 
transcendental, com Horcio invocando o canto dos anjos, e Fortimbrs, os ritos da guerra Ser mero devaneio supor que Shakespeare, revisando a si mesmo, sentir-se-ia, 
igualmente, purgado da dor da morte do filho, Hamnet" O falecido Kenneth Burke ensinou-me a sempre indagar o que o autor pretende ao escrever a obra? Burke referia-se, 
primordialmente,  pessoa do autor, no ao artista, mas acatou, com muita elegncia, a reviso que propus  questo Ensinoume tambm a aplicar a Hamkt a grande 
mxima de Nietzsche "O que
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expressamos com palavras j est morto em nossos coraes Sempre haver algo desprezvel no ato da fala" Observao alguma poderia se aplicar tanto a Hamlet e to 
pouco a Falstaff As palavras de Falstaff s expressam o que est vivo em seu corao, e para Sir John o ato da fala no traz em si desprezo algum A espintuosidade 
de Falstaff o faz sobreviver  verdade, j a espintuosidade de Hamlet, por ele abandonada durante a transio para o quinto ato, desaparece de cena, e Hamlet toma-se 
uma personalidade sublime destinada a perecer diante da verdade Ao revisar Hamlet, Shakespeare livra-se de Hamlet, e pode voltar a ser Falstaff
A verso final de Hamlet (se assim pudermos identific-la) tem algo que a difere das demais peas de Shakespeare, que perfazem um total de trs dzias  possvel 
que tal diferena sempre tenha sido percebida, mas s passa a ser registrada a partir de 1770, quando Henry MacKenzie enfatiza a "extrema sensibilidade da mente" 
de Hamlet Para MacKenzie, Hamlet possua a "majestade da melancolia" Samuel Johnson parece mais tocado por Oflia do que por Hamlet, e, com frieza, observa "ao 
longo da pea, [o Prncipe]  mais instrumento do que agente" Tal noo no , necessariamente, contrria ao entendimento que os romnticos ingleses e alemes teriam 
de Hamlet, mas Johnson est a aros-luz de distncia de um Hamlet romantizado Em nosso excesso de entusiasmo pelo Hamlet romntico, o heri hesitante que predomina 
na crtica, desde Goethe e Hazlitt, Emerson e Carlyle, at A C Bradey e Harold Goddard, perdemos a noo da estranheza do personagem, de sua perene singularidade, 
apesar de tantos imitadores Seja qual for a relao entre Hamlet e Shakespeare, Hamlet est para outros personagens literrios e dramticos assim como Shakespeare 
est para outros autores uma personalidade nica, diferenciada pela grandeza cognitiva e esttica O Prncipe e o poeta-dramaturgo so os gnios das transformaes, 
Hamlet, como Shakespeare,  agente, e no instrumento de transformaes Nesse ponto, Samuel Johnson cochilou
Freqentando teatros ao longo de uma vida, um espectador h de constatar alguma semelhana entre representaes de Lear, Otelo e
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Macbeth, mas a diferena entre um Hamlet e outro ser sempre estar recedora O Hamlet mais memorvel que tive a oportunidade de ver em cena foi o de John Gielgud, 
que captou a nobreza carismtica do Prncipe, embora, talvez, s custas da inquieta intelectualidade do personagem Sempre haver tantos Hamlets quanto atores, diretores, 
espectadores, leitores e crticos Hazlitt proferiu uma verdade mais do que romntica, com as palavras "Hamlet somos ns" Certamente,"ns"estende-se a Dostoievsky, 
Nietzsche e Kierkegaard e, mais tarde, Joyce e Beckett Sem dvida, Hamlet rouba para si a conscincia literria ocidental, apropnando-se dos limites do autoconhecimento, 
impedindo-nos a passagem que leva ao transcendental A questo  que poucos de ns possumos real capacidade especulativa e criativa, ainda que compartilhemos uma 
cultura essencialmente literria (ora desaparecendo nas universidades e, em breve, talvez, na sociedade como um todo) O que Hamlet tem de mais universal  a natureza 
e o fascnio do luto nele observados Inicialmente centrada no pai morto e na me perdida, no incio do quinto ato, a dor de Hamlet j no fica restrita ao epicentro, 
torna-se ubqua, infinita
Como sabemos, Shakespeare sofreu perdas, ocorridas mais prximo aos anos de 160O-1601, quando Hamlet j estava concluda, do que em
1587-89, ocasio em que a primeira verso da pea teria sido escrita Porm, se a dor maior de Shakespeare adveio da morte do filho Hamnet, o luto aparece de tal 
modo transmutado na tristeza de Hamlet que chega a ser irreconhecvel Parte do fascnio exercido por Hamlet decorre do descaso nele observado, embora dotado de uma 
conscincia absolutamente crtica, Hamlet parece, ao longo do quinto ato, levado por uma onda de indiferena e apatia, como se estivesse disposto a aceitar - mas 
se recusasse a implementar - todas as alteraes que ocorrem em seu ser Em Shakespeare, o dramaturgo, tambm observamos uma espcie de descaso, mas, conforme Hamlet, 
trata-se mais de uma predisposio  mudana do que mera displicncia Da, mais um paralelo pode ser traado entre um Hamlet universal e o dramaturgo que alcana 
a universalidade retomando uma obra, resultado de um esforo anterior, na qual, talvez, fracassara Hamlet, que eu saiba, sempre fora, para Shakespeare, o ideal do 
texto dramtico, e no  mera coincidncia que
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HAMLET
a verso final de Hamlet prepara Shakespeare para as grandes tragdias
bsequentes Of!o, Lear, Macbetb, Antnio e Oepatra e Coriolano A natu-
a de Hamlet, pelo menos antes do quinto ato, apresenta um triunfo
selvagem, e a apoteose trgica do Prncipe parece ter provocado um
certo triunfo em Shakespeare, o poeta-dramaturgo Em grande estilo, a
morte de Hamlet , de certo modo, um triunfo, Shakespeare, em ltima
anlise, triunfa com a verso final de Hamlet (e de Hamlet), e garante
para si a liberdade de prosseguir no gnero "tragdia"
Tanto o nico filho como o pai de Shakespeare estavam mortos quando da concluso de Hamlet, mas a pea no me parece mais obcecada com a morte do que o restante 
da obra shakespeanana, anterior e posterior  tragdia do Prncipe da Dinamarca Tampouco Hamlet parece to preocupado com a morte quanto tantos outros personagens 
shakespeananos, as mortes que ocorrem  volta de Hamlet, conforme observa Horcio, foram "causadas por traies ardilosas" A diferena entre a verso final de Hamlet 
e as peas anteriores (inclusive a presumvel primeira verso) seria a prpria questo temtica da transformao, pois Hamlet  a personificao da mudana E a transformao 
final  sempre a morte, da, talvez, nossa tendncia a identificar na pea uma intensa relao temtica com a morte  impossvel no ficarmos perplexos d"ante de 
um personagem dramtico que se transforma cada vez que fala, mas que, ao mesmo tempo, preserva sua identidade a ponto de jamais ser confundido com qualquer outra 
figura shakespeanana
Na maioria das vezes, as tentativas de reconstituio de Ur-Hamlet fracassam porque partem do pressuposto de ter sido Kyd o autor da pea, a qual passa, portanto, 
a ser vista como uma verso da Tragdia Espanhola Sendo Ur-Hamlet de autoria de Shakespeare, na verdade, sua primeira pea, as indicaes mais teis com respeito 
ao contedo da mesma sero encontradas nas primeiras obras do dramaturgo,  exceo das comdias a tetralogia composta das trs partes de Henrique VI e Ricardo in, 
bem como Tito Andrmco, que pode ser vista como reao pardica da parte de Shakespeare contra a referida tetralogia, terrivelmente marloviana Nessas cinco peas, 
apenas dois personagens
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#HAROLD  BLOOM
so memorveis Ricardo e Aaro, o Mouro (este em Tto), e ambos constituem verses de Barrabs, o Maquiavel, heri-vilo em O Judeu de Malta, de Marlowe Acredito 
que o jovem Shakespeare, estupefato diante das duas partes de Tamerlo, ambas encenadas em 1587, comea, em 1588, a escrever Hamlet, uma imitao de Tamerlo, absorve 
o grande impacto causado, em 1589, por O Judeu de Malta, e conclui o Ur-Hamlet  sombra de Barrabs Conforme demonstrei anteriormente, Aaro, o Mouro,  flagrante 
pardia de Barrabs, e, embora muitos estudiosos discordem de mim, a pea inteira (Tto Andrnico)  uma escancarada pardia de Marlowe Hamlet, mesmo na verso de 
160O-1601,  um heri-vilo, antecipando lago, e, em 1588-89,  provvel que se tenha assemelhado a Barrabs, em termos de astcia, embora sempre na busca legtima 
da autopreservao e da vingana
HAMLET
Teria sido a primeira verso de Hamlet escrita por Shakespeare uma tragdia? Teria Hamlet sobrevivido de modo tnunfante, como ocorre nas antigas histrias, ou teria 
morrido, como na verso de 160 P No temos como saber, mas suspeito que o primeiro Hamlet fosse intitulado A Vingana de Hamlet, em vez de A Histria Trgica de 
Hamlet, Prncipe da Dinamarca A exceo do fim reservado ao protagonista, deve ter havido pouca diferena entre os enredos da primeira e da ltima verso de Hamlet, 
a grande diferena estaria no prprio personagem principal Em
1588-89, ele seria pouco mais do que uma caricatura marloviana, semelhante a Ricardo in e a Aaro, o Mouro Em 160O-1601, Hamlet  o herdeiro da mtrospeco shakespeanana, 
pice de uma srie de personagens iniciada com Faulconbndge, o Bastardo, em Rei Joo, Ricardo II, Merccio, Juheta, Bottom, Prcia e Shylock, e que atinge uma primeira 
apoteose com o advento de Falstaff A seguir, Henrique V, Bruto e Rosalinda abrem caminho para uma segunda apoteose, com Hamlet, que, por sua vez, enseja Feste, 
Malvlio, lago, Lear, Edgar, Edmundo, Macbeth, Clepatra, Imognia e Prspero  possvel que a sensao de que Hamlet transcende os limites da pea resulte da grande
ao
formao nele observada, comparada ao relativamente pequeno desenvolvimento do enredo ao longo dos primeiros quatro atos Quanto quinto ato, tudo leva a crer que 
pouco se assemelhe ao da verso de
1589 o que, mais uma vez, explica por que o ltimo ato chega a parecer uma outra pea, se contrastado com os demais
Harry Levm observa que "a linha que divide os dramas histricos das tragdias no precisa ser to marcada como sugere a classificao do Flio" Mas a verso final 
de Hamlet , indiscutivelmente, uma tragdia, a morte de Hamlet deve ser apreendida como trgica Uma vez que o Amleth folclrico e histrico era um espertalho, 
um "Bobo" que se fazia de louco, primeiro, para sobreviver, depois, para reconquistar o remo, uma grande manobra foi necessria para transform-lo em heri-trgico, 
e duvido que Shakespeare,  poca, com apenas vinte e cinco anos, fosse capaz de se desviar de Marlowe com tamanha percia Tem mais sentido imaginarmos uma histria 
de vingana, com forte teor cmico, na qual um Hamlet bastante jovem ludibria os inimigos e consegue atear fogo na corte de Elsinore, chegando, assim, a um final 
feliz, ao contrrio do usurpador Ricardo in e seus companheiros maquiavlicos Barrabs, o Judeu, e Aaro, o Mouro Porm, conforme Ricardo in e Aaro,  provvel 
que o primeiro Hamlet devesse tanto a Barrabs quanto a Tamerlo A influncia de Barrabs seria visvel em termos de uma auto-mdulgncia impudente, compartilhada 
pela platia De Tamerlo, viria a retrica, uma linguagem elevada e agressiva, por si s uma forma de ao, "persuaso potica" capaz de convencer ou subjugar os 
inimigos
Ricardo in e Aaro, o Mouro, exercem sobre ns um certo apelo sinistro, embora no tenham a energia e o sublime atrevimento de Barrabs Talvez o primeiro Hamlet 
nos causasse espcie, por ser um heri (como em Belleforest) que tinha o lado sinistro e feroz dos protagonistas do Eda e das sagas nrdicas A ousadia e a mtrepidez 
de Tamerlo poderiam ter sido acrescentadas  astcia de Barrabs, para se chegar a esse efeito sinistro Faltaria "apenas" aquilo que mais associamos a Hamlet a 
conscincia que nos tem iluminado h quatro sculos A concepo final de Hamlet  ps-falstaffiana, surgindo, tambm, depois de Rosalinda e Bruto, precursores do 
Prncipe, em termos de capacidade intelectual Em sua astcia,
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Hamlet tem algo de Puck,- o Hamlet cujo confronto com as foras celestiais  maior do que com Cludio, e que sabe que a corrupo est tanto em si mesmo quanto 
no Estado dinamarqus, encontra-se muito alm da espirituosidade e da auto-indulgncia. Nada pode parecer mais estranho do que a idia de Hamlet, em qualquer verso 
que seja, ter sido iniciada como a primeira pea de Shakespeare, pois a complexa obra-prima de 1601 mais sugere um trabalho final do que uma reviso.
Como personagem, Hamlet deixa-nos aturdidos por seu potencial infinito. Haver limites para Hamlet? A ntrospeco  sua caracterstica mais original/ o eu interior, 
em constante mutao, o sonho da conscincia infinita, jamais foi retratado de maneira to plena. Os grandes personagens shakespearianos, antes da verso revista 
de Hamlet, so criaes cmicas, inclusive Shylock e Henrique V (conforme demonstrado em outros captulos deste livro). O prprio Hamlet  um grande comediante, 
e a tragdia Hamlet contm elementos farsescos. Todavia, praticamente durante todo o decorrer da pea, Hamlet insiste em se considerar um fracasso, na verdade, um 
protagonista tragicamente derrotado, conforme  possvel que ele tenha nascido, para Shakespeare. A quase que universal iluso (ou fantasia) de que, de certo modo, 
Hamlet disputa com Shakespeare a autoria da pea pode refletir a luta do dramaturgo com o protagonista recalcitrante.
Que viso teremos de Shakespeare, se supusermos que ele tenha iniciado a carreira escrevendo um Hamlet por ele prprio considerado um fracasso, e alcanado a apoteose 
esttica com uma outra verso de Hamlet, cerca de doze anos mais tarde? No deixa de ser relevante a hiptese de Shakespeare ter baseado averso amadurecida de 
Hamlet em outra verso, por ele considerada malsucedida. Nesse caso, teramos um outro fantasma na pea.- o espectro do primeiro Hamlet. Apegamo-nos excessivamente 
 meia-verdade de um Shakespeare comercial, interessado somente no dinheiro e na fama,- tanto quanto o amigo Ben Jonson, Shakespeare sabia que a grande arte exigia 
trabalho rduo, de modo que ambos tinham de desafiar os autores clssicos, ao mesmo tempo em que seguiam seus prprios caminhos. A comdia brotava em Shakespeare
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HAMLET
corn relativa facilidade, e  possvel que Falstaff lhe tenha surgido com turalidade de uma revelao. Mas Hamlet e Rei Lear foram resultados de intensos processos 
de reviso, ao longo dos quais desaparece uma identidade e nasce outra, mais nova. A respeito desse novo ser, temos a enas as evidncias que so as peas escritas 
depois de Hamlet, uma srie de realizaes das quais a comdia pura foi banida. Se Hamlet perece em sacrifcio oferecido s foras transcendentais, tais foras pertenciam, 
exclusivamente, ao prprio Shakespeare, ou melhor, foram-lhe cedidas, em troca do desprendimento trgico do protagonista.
"A Dinamarca  uma priso", diz Hamlet; porm, nenhum outro personagem em toda a obra de Shakespeare parece to livre quanto o Prncipe Herdeiro da Dinamarca. Conforme 
j observei, de todos os "artistas livres de si mesmos" (segundo Hegel), Hamlet  o mais livre. Figurativamente, a pea , a um s tempo, priso e liberdade para 
o protagonista trgico, que, s vezes, acredita nada poder fazer em Elsinore, outras vezes, teme fazer demais, receia tomar-se um Nero e transformar Gertrudes em 
Agripina, ao mesmo tempo me, amante e vtima. A gama de liberdades disponveis a Hamlet  atordoante: poderia casar-se com Oflia, suceder Cludio no trono (se 
suportasse a espera), matar Cludio a qualquer momento, partir para Wittenberg sem permisso, organizar um golpe poltico (sendo to querido pelo povo), e at mesmo 
dedicarse a reescrever textos teatrais. Tanto quanto o pai, Hamlet poderia dedicar-se ao adestramento militar, conforme o fez o jovem Fortimbrs, ou voltar a mente 
privilegiada, cada vez mais, para a especulao filosfica ou hermtica. Oflia o descreve, ao lamentar-lhe a perda do juzo, como tendo sido nobre, valente e letrado, 
exemplo de conduta para toda a Dinamarca. Se A Tragdia de Hamlet, Prncipe da Dinamarca  o poema ilimitado", alm de gneros e convenes literrias, ento, o 
protagonista  o personagem ilimitado, mais do que os precursores de grande envergadura, como Davi, na Bblia, e Bruto, na tradio Clssica. Porm, que grau de 
liberdade ser permitido a Hamlet dentro de uma
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tragdia" Que projeto dramtico poder abarc-lo" Dar cabo de Cludio no esgota a capacidade de Hamlet, e vingana no  motivao suficiente para o maior heri 
da conscincia ocidental Como representar um novo tipo de ser humano, especialmente, um ser humano com a autenticidade e o desprendimento de Hamlet"
Nietzsche,  sombra de Hamlet, falava da vingana do arbtrio contra o tempo Tal vingana depende de uma reviso do eu, e confere ao eu aquilo que Hart Crane chamava 
de "infncia renovada" A infncia de Hamlet, como a de qualquer outra pessoa, bem que podia ser revista e renovada Para sempre, o Prncipe h de encarar a morte 
tendo beijado Yonck, o Bobo do rei, substituto do pai, com mais freqncia do que beijara Gertrudes ou Oflia, quanto mais o terrvel pai-guerreiro "Ele era um 
homem, e, pelo seu todo ", Hamlet faz certas restries ao pai, embora no duvidemos que o Prncipe jamais ver algum "igual" ao pai Quem seria o pai de Hamlet" 
Quando teria sido o incio do "incesto" e do "adultrio" cometidos por Gertrudes" Uma vez que a pea nada diz a respeito (embora seja possvel que a primeira verso 
fosse menos ambgua), nem ns nem Hamlet podemos esclarecer a questo Na verdade, Cludio adota o sobrinho como filho, assim como Claudius, o imperador romano, adotou 
Nero, quando se casou com a me de Nero, Agnpma Ser que Hamlet tem receio de, ao matar Cludio, estar matando seu verdadeiro pai" A hiptese faz parte da argumentao 
perspicaz apresentada porMarc Shell no livro CbddrenoftheEarth (1993) "A singularidade de Hamlet no est no desejo inconsciente de cometer parncdio e incesto, 
mas na recusa consciente de faz-lo" Gertrudes e Hamlet morrem na mesma cena (alm de Cludio e Laertes), mas  notvel que Hamlet s mata Cludio quando sabe que 
est morrendo, e que a me j est morta
A D Nuttall, descartando, diplomaticamente, a hiptese de alguns estudiosos - que Hamlet no seria uma pessoa e sim uma seqncia de imagens -, observa "um dramaturgo 
que se v diante de um pblico que se nega a inferir e clama por imagens ser levado ao desespero" Indo um pouco alm de Nuttall, proponho que a arte de Shakespeare, 
a partir do Hamlet de 160O-1601, passa a depender de inferncias, com
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ma intensidade jamais vista antes, e no apenas no teatro A liberdade de Hamlet pode ser definida como a liberdade de inferir, e com Hamlet aprendemos o valor da 
liberdade intelectual Na prxis de Hamlet, a inferncia toma-se o mecanismo sublime da deduo, metafrico porque salta  frente cada vez que as circunstncias 
se alteram, a inferncia  tambm, o mecanismo que conduz o pblico  conscincia de Hamlet Perscrutamos as circunstncias que o cercam, confiamos em seu instinto 
mais do que ele prprio, e deduzimos sua grandeza, sua singularidade Hamlet  muito mais do que Falstaff e o Prncipe Hal reunidos, Hamlet tem a capacidade de deduzir 
a partir da negao, algo que, em lago e Edmundo, leva ao fracasso, mas que, em Hamlet, independe do arbtrio e, portanto,  livre
Hoje em dia, Hamlet no nos parece mais fictcio do que Montaigne, quatro sculos serviram para estabelec-los como personalidades autnticas, assim como Falstaff 
parece-nos tanto uma realidade histrica quanto Rabelais  Para sobreviver  atual onda de auto-recnmmao, basta  cultura ocidental ser um pouco mais como Hamlet 
No dispomos de qualquer outra imagem do limite da cognio humana to expressiva e influente como Hamlet, o Scrates de Plato  a figura que mais se aproxima  
Ambos raciocinam bem demais para sobreviver Scrates, pelo menos em Montaigne, chega quase a constituir uma alternativa pragmtica a Jesus   A conexo entre Hamlet 
e Jesus  bastante complexa, Shakespeare, como sempre, evita tanto a f quanto a dvida Uma vez que o Jesus do Evangelho de Marcos, como o Jav da Autora J,  um 
personagem literrio, atualmente adorado como Deus (em termos meramente pragmticos), temos o enigma de que Hamlet pode ser analisado de modo semelhante ao que utilizamos 
para falarmos de Jav, Scrates ou Jesus Professores universitrios da disciplina outrora chamada "Literatura" no mais consideram "reais" os personagens literrios 
ou dramticos, mas isso no tem a menor importncia, pois leitores e espectadores (e crentes) comuns continuam a busca da personalidade E intil tentar convenc-los 
de que  um equvoco a identificao com Hamlet, Jav ou Jesus A realizao mais impressionante de Shakespeare, por menos intencional que fosse,  ter posto  nossa
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disposio, em Hamlet, um paradigma universal do nosso desejo de identidade. Hamlet, para alguns de ns, oferece a esperana de uma transcendncia estritamente secular,- 
para outros, sugere a sobrevivncia do esprito, em termos mais tradicionais. Talvez Hamlet tenha substitudo o Scrates de Plato e Montaigne como o Cristo dos 
intelectuais. Auden discordaria, atribuindo tal papel a Falstaff, mas no consigo ver o rebelde Sir John, amante da liberdade, expiando os males de quem quer que 
seja.
O maior enigma de Hamlet decorre da aura de transcendncia que dele emana, mesmo nos momentos mais violentos, caprichosos, insanos. Alguns crticos recriminam Hamlet, 
afirmando que, na melhor das hipteses, o personagem  um heri-vilo, mas revoltar-se contra Hamlet  como soprar a areia contra o vento.  impossvel desmistificar 
Hamlet; vem de longussima data o seu misterioso fascnio. Entre os personagens ficcionais, Hamlet ocupa a posio correspondente  de Shakespeare entre os escritores: 
o centro do centro. Jamais vi um ator - nem mesmo John Cielgud - roubar, para sempre, o papel, alijando outros intrpretes do mesmo. Seria essa centralidade apenas 
uma construo da histria cultural, ou estaria ela implcita no texto shakespeariano? Hamlet e a autoconscincia ocidental tm-se confundido ao longo dos dois ltimos 
sculos, no mbito da sensibilidade romntica. E h inmeros indcios de que, cada vez mais, a autoconscincia global identifica-se com Hamlet, inclusive na sia 
e na frica. O fenmeno pode nem mesmo ter carter cultural localizado, assim como rock and roll e blue jeans fazem parte de uma cultural internacional. Hamlet - 
o Prncipe, mais do que a pea - tomou-se um mito: de tanto falarmos dele, tomou-se figura lendria.
Conforme ocorre com Falstaff,  mais fcil definir o que Hamlet no  do que o que . Ao final,  um quietista, e no um fiel aguerrido, mas tal passividade  a 
mscara de algo inexprimvel, embora possa ser sugerido. No se trata do niilismo, que, no incio, pontua a pea/ tampouco seria objetividade, nem mesmo quando o 
personagem est "representando um papel". No desfecho da ao, o palco est coberto de indcios - bem como de cadveres. Por que Hamlet se preocupa com
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HAMLET
sua reputao pstuma? Em momento algum  to ardente como ao exigir de Horcio que continue vivo - no pela alegria de viver, e apesar do sofrimento que  a vida 
-, apenas para salvaguardar o bom nome do Prncipe. Somente no final da pea o pblico assume alguma importncia para Hamlet, que necessita de ns para conferirmos 
valor e sentido  sua morte. Sua histria precisa ser contada, e no apenas a Fortimbrs, e deve ser relatada por Horcio, o nico que a conhece verdadeiramente. 
Ser que Horcio compreende algo que nos escapa? Hamlet, ao morrer, no ama quem quer que seja - nem o pai, nem a me, nem Oflia, nem Yorick -, mas sabe que Horcio 
lhe quer muito bem. A histria s pode ser contada por algum que aceite Hamlet como ele , sem julg-lo. E apesar dos protestos moralistas de alguns crticos, Hamlet 
consegue aquilo que deseja. Somos Horcio, e o mundo ama Hamlet, apesar dos crimes e dos erros por ele cometidos, apesar do tratamento brutal, praticamente homicida, 
que dispensa a Oflia. Perdoamos Hamlet porcjue perdoamos a ns mesmos, embora saibamos que no somos Hamlet, pois nossa conscincia jamais ter a amplitude da sua. 
Adoramos (no sentido secular) essa conscincia quase infinita,- o que mais tarde chamaramos de Romantismo foi criao de Hamlet, ainda que tenham sido necessrios 
dois sculos para que o autoconhecimento do Prncipe  se tornasse universalmente prevalente, e quase trs sculos at que Nietzsche afirmasse que Hamlet era dotado 
do "conhecimento verdadeiro, da viso da verdade terrvel", isto , o abismo entre a realidade mundana e o devaneio dionisaco de uma conscincia infinita. Nietzsche 
estava fundamentalmente certo,- Horcio  estico, Hamlet no o . O pblico, tanto quanto seu representante, Horcio,  mais ou menos cristo e, talvez, bastante 
estico. Hamlet, perto do final da pea, adota um discurso com caractersticas, ligeiramente, crists, mas descarta qualquer consolo cristo em favor de uma conscincia 
dionisaca, e as aluses por ele feitas ao Novo Testamento expressam eloqentes desvios de interpretao, contrrios tanto  perspectiva protestante quanto  catlica. 
Tivesse tempo, Hamlet diz, "poderia contar-nos" - o qu? A morte o impede de faz-lo, mas temos uma pista nas palavras proferidas logo a seguir: "seja tudo como 
for".
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"Seja tudo como for"  o refro de Hamlet, palavras que contm uma fora tcita, de uma sugestividade espantosa. Ele no explicitar seus sentimentos por meio de 
palavras, pois "cada fato   idia to avesso, / Que os planos ficam sempre insatisfeitos". Contudo, no corao de Hamlet existe algo imortal, algo sempre pronto, 
sempre disposto, que sobrevive  mortalidade da carne. Quando Jesus dirigiu-se, com bondade, ao sonolento Simo Pedro, no disse "o estar pronto  tudo", pois Jesus 
estava com Jav, e somente Jav era tudo. Para Hamlet, existe apenas o "estar pronto", que se traduz na disposio de deixar tudo como for, no por falta de confiana 
em Jav, mas por confiar numa conscincia prevalente. Tal conscincia pe em suspenso, ao mesmo tempo, a confiana farisaica de Jesus na ressurreio do corpo e 
o ctico princpio da realidade do aniquilamento. "Seja tudo como for"  uma suspenso - no  negao nem afirmao. O que Hamlet nos poderia contar  que conseguiu 
perceber o que representava, isto , o entendimento, por parte de um dramaturgo, do significado de encarnar a tragdia que no se  capaz de escrever.
Pelo que consta,  poca de Shakespeare, Falstaff era at mais famoso do que Hamlet; ao longo dos sculos posteriores, a preferncia do pblico tem sido pelo Prncipe, 
no apenas em relao ao cavaleiro gordanchudo mas a qualquer outro personagem fictcio. A universalidade de Hamlet parece constituir a chave do enigma que caracteriza 
a sua personalidade,- quanto menos Hamlet se afeioa s pessoas, inclusive  platia, mais nos afeioamos a ele. Trata-se do caso de amor mais estranho do mundo,- 
Jesus retribui o nosso amor, mas Hamlet no pode faz-lo. Os sentimentos bloqueados, segundo o diagnstico do Dr. Freud, de natureza edipiana, na verdade, refletem 
um quietismo transcendental para o qual, felizmente, no dispomos de rtulo. Hamlet est alm de ns, alm de qualquer outro personagem em Shakespeare ou em toda 
a literatura, a menos que o leitor concorde comigo, e considere personagens literrios o Jav da Autora J e o Jesus do Evangelho de Marcos. Quando chegamos a Lear, 
compreendemos que o inatingvel em Hamlet
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est relacionado ao mistrio da realeza, algo to caro ao patrono de Shakespeare, Jaime 1. Mas temos dificuldade em ver Hamlet como rei, e poucos espectadores e 
leitores concordariam com o juzo de Fortimbrs   de que o Prncipe seria como o Velho Hamlet e o prprio Fortimbrs: mais um monarca propenso a cortar cabeas. 
Sem dvida, a grandeza de Hamlet decorre de sua personalidade,- tal constatao remonta a quatro sculos. August Wilhelm von Schlegel, em 1809, observou, com correo: 
"Hamlet no acredita firmemente nem nele prprio nem em qualquer outra coisa" - inclusive Deus e a linguagem, acrescentaria eu. No podemos nos esquecer de Horcio, 
 claro, embora, reconhecidamente, elogiado por Hamlet mais do que merece,- mas, a funo de Horcio parece ser a de representar o amor que o pblico sente por Hamlet. 
Horcio  nossa ponte para o alm, para aquela transcendncia negativa, estranha - embora inconfundvel - com que a tragdia  concluda.
O ceticismo de Hamlet com respeito  linguagem coexiste com um domnio verbal maior at do que o de Falstaff.  sempre impressionante lembrar que Shakespeare utilizou 
mais de 21.OOO palavras, enquanto Racine fez uso de menos de 2.OOO. Um estudioso alemo teve o cuidado de contar quantas dessas 21.OOO palavras fazem parte do vocabulrio 
de Hamlet, mas no ser preciso sabermos o nmero exato. A pea  a mais longa do cnone shakespeariano porque cabe a Hamlet uma grande quantidade de falas,- da 
minha parte, gostaria que fosse ainda mais longa, para que Hamlet pudesse se pronunciar sobre outros tantos assuntos. Falstaff, embora rei da espirituosidade, carece 
de conscincia autoral independente,- Hamlet rompe essa barreira, e no apenas ao revisar O Assassinato de Gonzaga, transformando-a em A Ratoeira, mas quase toda 
vez que fala das coisas que existem entre o cu e a terra. G. Wilson Knight, com muito brilho, definiu Hamlet como o nosso embaixador da morte,- nenhum outro personagem 
literrio fala sobre o alm com tanto conhecimento,  exceo do Jesus do Evangelho de Marcos. Harry Levin foi o primeiro a analisar a eloqncia de Hamlet, que 
esgota os recursos incomparveis da sintaxe e do lxico da lngua inglesa. Outros crticos enfatizaram as mudanas de tom do discurso de Hamlet,
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as sbitas variaes de registro, as alteraes entre racionalismo e emoo. Quanto a mim, sempre fico comovido com as maneiras to variadas com que Hamlet ouve-se 
a si mesmo. No se trata apenas de uma questo de retrica ou de conscincia verbal,- trata-se da essncia da grande originalidade de Shakespeare no que tange  
construo do personagem, do pensamento, da personalidade. Ethos, logos, pathos - a base trplice da retrica, da psicologia e da cosmologia - sempre nos surpreendem 
no falar de Hamlet, que se altera cada vez que se ouve a si mesmo. E notrio que A Tragdia de Hamlet, Prncipe da Dinamarca possui extraordinria teatralidade. 
O prprio Hamlet  mais consciente dessa teatralidade do que Falstaff. Mais do que Hamlet, Falstaff preocupa-se com os que a ele assistem, seja ao seu lado, no 
palco, ou na platia,- todavia, por mais que se divirta, Falstaff  menos teatral do que Hamlet. Talvez a diferena resulte do fato de Falstaff ser mais brincalho,- 
conforme Dom Quixote e Sancho Pana, Falstaff  homo ludens, enquanto a ansiedade domina Hamlet. Mas a diferena parece ir alm disso,- o Hamlet anti-Maquiavel pode 
at ser considerado um personagem antiMarlowe, ao passo que Falstaff apenas toma o estilo de Marlowe irrelevante. Barrabs, o judeu de Malta, heri-vilo marloviano 
que mais me agrada,  um excntrico que se diverte sozinho,- porm,  semelhana dos personagens de histria em quadrinhos, como quase todos os protagonistas de 
Marlowe, muitas das falas de Barrabs parecem pairarlhe acima da cabea, uma legenda dentro de um balo branco. Hamlet  algo radicalmente novo, mesmo para Shakespeare: 
a teatralidade do personagem implica um niilismo perigoso por ser, paradoxalmente, to natural. Mais at do que o pardico Hamm, em Fim de Jogo, de Beckett, Hamlet 
 uma ratoeira ambulante, encarnando as ansiedades que refletem os males de Elsinore. lago  bastante crtico, mas Hamlet  a crtica personificada, intrprete teatral 
de sua prpria histria. com astcia mais sutil do que a de qualquer outro dramaturgo, anterior ou posterior a ele, Shakespeare no nos permite saber ao certo que 
falas Hamlet teria interpelado ao revisar O Assassinato de Gonzaga, criando A Ratoeira. Hamlet promete escrever doze ou dezesseis linhas, mas somos levados a crer 
que tenha escrito nmero bem maior, inclusive o memorvel trecho em que o Ator Rei diz que etbos no  demnio, que carter no
 destino, e sim acidente, e que eros  estritamente acidental. Sabemos que Shakespeare atuou como o Fantasma do pai de Hamlet,- teria sentido que o mesmo indivduo 
fizesse o papel do Ator Rei, mais uma representao do pai morto. E maravilhoso imaginar o prprio Shakespeare declamando versos, supostamente, escritos por Hamlet:
Intenes so escravas da memria, So fortes, mas tm vida transitria,- Qual fruto verde que se ostenta, duro, E h de cair quando ficar maduro.  fatal que esqueamos 
de nos dar O que a ns mesmos temos de pagar: Aquilo que juramos na paixo, Finda a mesma, perdeu a ocasio. A violncia das dores e alegrias Destri as suas prprias 
energias. Onde h prazer, a dor pe seu lamento,- Se a mgoa ri, chora o contentamento. O mundo no  firme, e  bem freqente O prprio amor mudar constantemente,- 
E ainda est para ficar provado Se o fado guia o amor, ou este o fado. Se o grande cai, no mais possui amigos,
Sobe o pobre, e no tem mais inimigos.
E tanto o amor  morte se escraviza
Que amigos tem quem deles no precisa,-
Quem na dor prova o amigo que  tratante
Prepara um inimigo nesse instante.
Mas, para terminar como o comeo,
Cada fato   idia to avesso,
Que os planos ficam sempre insatisfeitos,-
As idias so nossas, no os feitos.
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No fao a menor idia de como a platia haveria de receber esses vinte e seis versos impregnados de metafsica psicolgica. Trata-se de um dos trechos mais densos 
em Shakespeare,- o enredo de A Ratoeira no depende desses versos, e suponho que Hamlet os tenha escrito como uma espcie de assinatura, como algo que um outro dinamarqus 
melanclico, Kierkegaard, chamou de "O Ponto de Vista do Meu Trabalho de Autor". Os ltimos versos so cruciais:
Cada fato   idia to avesso,
Que os planos ficam sempre insatisfeitos,-
As idias so nossas, no os feitos. ~ "
Nossos "planos" so nossos desgnios, produtos da vontade, mas nosso destino ope-se ao nosso carter, e aquilo que pretendemos realizar no tem relao com os 
"feitos", com os resultados. Desejo e destino so contrrios, e, assim, todo pensamento se anula. O niilismo de Hamlet , deveras, transcendental, superando o niilismo 
dos personagens de Dostoievsky, bem como o augrio de Nietzsche, de que s encontramos palavras para expressar o que j est morto em nosso corao, e que s vale 
a pena expressar o que no pode ser expresso. Por isso, talvez, Shakespeare tenha incomodado tanto Witrgenstein. Estranhamente, Witrgenstein estabeleceu uma comparao 
entre Shakespeare e sonhos, considerando-os equivocados, absurdos, fragmentados, irreais, exceto quando examinados de acordo com normas prprias e exclusivas. "No 
 verossmil", Witrgenstein dizia da obra de Shakespeare, preferindo ignorar a verdade que Shakespeare nos faz enxergar e pensar no que jamais poderamos enxergar 
nem pensar no fosse por ele. Hamlet, enfaticamente, no  verossmil,- porm, mais do que qualquer outro personagem fictcio, faz com que pensemos no que jamais 
conseguiramos pensar no fosse ele. Witrgenstein negaria, mas eis o motivo de sua desconfiana com relao a Shakespeare: mais do que qualquer filsofo, Hamlet 
nos faz ver o mundo de uma maneira nova, mais profunda do que, normalmente, estamos dispostos a faz-lo. Witrgenstein quer acreditar que Shakespeare, como criador 
de linguagem, construiu um heterocosmo, um sonho. Mas a verdade  que o cosmo
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de Shakespeare transformou-se no de Witrgenstein, e no nosso, e no podemos dizer que Elsinore, de Hamlet, ou Eastcheap, de Falstaff, no sejam verossmeis. A questo 
 a seguinte: ser a vida fiel a Hamlet, ou a Falstaff? s vezes, na pior das hipteses, s vezes, na melhor, a vida pode ser fiel a ambos,- da a questo crucial: 
ser Witrgenstein fiel a Hamlet, ou Bloom a Falstaff?
Reconheo que no  preciso ser um formalista ou um historicista para saber que o propsito de ser fiel a Hamlet ou Falstaff  absurdo. Para o leitor ou espectador 
que recorre  obra de Shakespeare como um meio de trabalhar pela comunidade e melhorar o ambiente na vizinhana, sem dvida, meu discurso ser absurdo,- serei uma 
espcie de Dom Quixote da crtica literria. O falecido Anthony Burgess, no livro Nothincj Like tbe Sun, esplndido romance a respeito de Shakespeare, atribui ao 
bardo um comentrio fino, nietzschiano: "A tragdia  um bode, a comdia  o Priapo do vilarejo e a palavra morrer  o ato de unio entre os dois gneros". Hamlet 
e Falstaff teriam sido mais felizes ao expressarem a questo, mas o sentido sexual contido na palavra morrer resgata a prosa de Burgess, e vale lembrar que Shakespeare 
no ficava circunscrito a ditames de gnero, e que fez uso do pobre Polnio para debochar dos que se submetiam s convenes dos gneros literrios. A tragdia, 
sugeriu, certa vez, Aldous Huxley, deve omitir a verdade plena, mas Shakespeare quase refuta Huxley. John Webster escreveu tragdia de vingana,- Shakespeare escreveu 
Hamlet. Em Webster, no h personalidades, ainda que tantos de seus personagens morram com uma eloqncia quase shakespeariana. A vida deve ser fiel a Shakespeare, 
para que a personalidade tenha valor, seja um valor. Valor e patbos no combinam muito bem,- contudo, quem melhor do que Shakespeare conseguiu tantas vezes conciliar 
esses dois elementos? O que, afinal,  a personalidade? O dicionrio diria: qualidade que diferencia o ser humano de um objeto, ou de um animal, ou conjunto de caractersticas 
que distinguem uma pessoa. Tal definio no  das mais elucidativas, especialmente com relao a Hamlet ou Falstaff, que no passam de papis para atores, conforme 
nos garantem os formalistas. E atores podem ser tomados de paixo por um papel, mas ser que o mesmo
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ocorreria com tantos entre ns que jamais pisaram o tablado? O que quer dizer "a personalidade de Jesus", quando nos referimos ao Evangelho de Marcos e ao Jesus 
norte-americano? Ou o que queremos dizer com "a personalidade de Deus", quando nos referimos ao Jav da Autora J e ao Deus norte-americano, notoriamente benvolo 
aos membros do Partido Republicano e aos neoconservadores? A meu ver, temos mais clareza com relao  personalidade de Hamlet, mesmo quando comparada  percepo 
que temos da personalidade do nosso melhor amigo, ou de algum dolo pelo qual temos especial apreo. Shakespeare convence-nos de que conhecemos o que h de melhor 
e mais ntimo em Hamlet, algo natural que remonta a um perodo anterior s nossas primeiras lembranas. Hamlet possui uma fagulha que  seu princpio de individuao, 
uma identidade cuja prova de existncia  a prpria singularidade do discurso do personagem,- no seria tanto o discurso, mas o lxico por ele empregado, a seleo 
cognitiva das palavras, uma escolha sempre impulsionada pela busca da liberdade, com relao a Elsinore, ao Fantasma, ao mundo. Tanto quanto Falstaff, Hamlet, implicitamente, 
define personalidade como exerccio de liberdade, mais matriz do que produto da liberdade. No entanto, conforme j argumentei, Falstaff est livre de um superego 
repressor, ao passo que Hamlet, ao longo dos primeiros quatro atos, fica  merc do superego. Na bela metamorfose, na purgao do quinto ato, Hamlet quase se liberta 
do que lhe pesa sobre o ego, embora isso lhe custe morrer muito antes da morte.
Em O Grande Gatsby, Nick Carraway, narrador conradiano criado por Fitzgerald, registra que a personalidade  uma srie de gestos bem-sucedidos. Walter Pater teria 
aprovado tal definio, mas a mesma tem srias limitaes. Talvez Jay Gatsby exemplifique a definio proposta por Carraway, mas quem afirmaria que a personalidade 
de Hamlet  composta de uma srie de gestos bem-sucedidos? William Hazlitt, conforme j assinalei, definiu-se em favor da introspeco: "Hamlet somos ns". O palco 
de Hamlet, Hazlitt sugeria,  o teatro da mente, e os gestos de Hamlet, portanto, partem do recndito do seu ser, to prximo do ntimo de todos ns. Confrontando 
a complexidade dessa representao, ao mesmo tempo, universal e nica, T. S. Eliot chega 
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uroreendente concluso de que Hamlet  um fracasso esttico. Suponho e rijOt( sofrendo de suas prprias mazelas, tenha reagido negativamente  enfermidade do esprito 
de Hamlet, sem dvida, o mal mais enigmtico de toda a literatura ocidental. A metafsica potica de Hamlet, como vimos, estabelece: carter e destino so antitticos, 
porm, no desfecho da pea, somos levados a crer que o carter do Prncipe definiu-lhe o destino. Teramos, ento, o drama da liberdade da personalidade, ou do destino 
do personagem? O Ator Rei diz que tudo  acidental,- Hamlet, no quinto ato, d a entender que no existem acidentes. Em quem devemos acreditar? O Hamlet do quinto 
ato parece curado, e afirma que o estar pronto, disposto,  tudo. A meu ver, isso significa que personalidade  tudo, desde que purificada atravs de um segundo 
nascimento. Mas Hamlet tem pouca vontade de sobreviver.
O sublime cannico depende de uma estranheza que nos envolve, muito embora tenhamos tanta dificuldade de assimil-la. Qual seria a viso de mundo, a atitude do Hamlet 
que, no incio do quinto ato, est de volta da viagem martima? Aturdido, Hamlet muda, constantemente, de opinio, entre ser tudo e nada ser, alternoncia que nos 
atormenta a vida e a literatura. Conforme Shakespeare, Hamlet no se posiciona, e  por isso que comparaes de ambos com Montaigne so to equivocadas. Conhecemos 
o significado do ceticismo de Montaigne, mas nos perdemos diante do ceticismo de Hamlet e de Shakespeare. No existe terminologia que defina, exatamente, a atitude 
de Hamlet no quinto ato com respeito  vida e  morte. Podemos arriscar vrias noes - estoicismo, ceticismo, quietismo, niilismo -, mas nenhuma se aplica de maneira 
absoluta. Penso que a idia de "desprendimento"  a que mais se aproxima, mas percebo que s consigo definir a palavra quando me refiro a Hamlet. Quietismo, meio 
sculo aps Hamlet, definiria uma vertente do misticismo religioso na Espanha, mas Hamlet no  mstico, nem estico, e tampouco cristo. Parte para a catstrofe 
final com uma obstinao suicida, e evita o suicdio de Horcio com base na constatao egosta de que a "felicidade" do amigo deve ser adiada, para permitir que 
a histria do Prncipe seja contada e recontada. E, ao morrer, preocupa-se com a prpria reputao,- seu "manchado nome", caso Horcio no sobreviva para limp-lo, 
 objeto da derradeira angstia
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como o "eu verdadeiro" ou o "eu mesmo", de Whitman, o Hamlet final est, a um s tempo, dentro e fora, observando e refletindo. Mas se os ares marinhos curaram-no 
do mal de Elsinore, o que o leva de volta  corte e  catstrofe final? Temos a impresso de que se o Fantasma ressurgisse no quinto ato, Hamlet o empurraria de 
lado,- a obsesso pelo pai morto j no existe, e, embora ainda considere a me uma prostituta, j no mais se incomoda com ela. Purificado, ele se permite assistir 
 verso italiana que Cludio faz de A Ratoeira, pondo em prtica o princpio: "Seja o que for!" Talvez, o melhor comentrio a respeito da questo seja a variao 
criada por Wallace Stevens: "Que parecer termine em ser somente". Contudo, temos de voltar  questo do mal de Elsinore, e  cura pela viagem martima.
Decerto, qualquer pessoa que tenha estudado o problema das imagens em Hamlet ter especulado sobre o "abcesso", objeto de brilhante trocadilho criado por Robert 
Browning.  possvel que Hamlet, precursor de personae inventadas por Browning, esteja fazendo jogo com as palavras "abcesso" e "impostura":
Este  o abcesso da paz e da opulncia, Que arrebenta por dentro e no exibe Qual a causa da morte.
[IV.iv]
O mal de Elsinore  o mal de todo tempo e lugar. Todo Estado tem algo de podre, e os que tm sensibilidade semelhante  de Hamlet, cedo ou tarde, vo-se rebelar. 
A tragdia de Hamlet, em ltima anlise,  a tragdia da personalidade: o carismtico no consegue deixar de se submeter  autoridade do mdico,- Cludio  mero 
acidente,- o nico inimigo loquaz de Hamlet  o prprio Hamlet. Quando Shakespeare rompe com as caricaturas marlovianas, e assim toma-se Shakespeare, prepara o 
abismo de Hamlet para si. Sendo tudo, Hamlet sabe tambm
c Wallace Stevens Poemas Traduo e Introduo de Paulo Henrique? Bntto. So Paulo: Companhia das Letra?, 1988, p 23 [N T]
"*Em lngua inglesa, respectivamente, imposthume e imposture [N T]
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HAMLET
ue no  nada. Enquanto est no mar, ele recorre a esse nada, e regressa desprendido, niilista, quietista, seja l o que for. Hamlet morre preocu-
ado com o "manchado nome", como se a volta ao turbilho de Elsinore neutralizasse a profunda mudana por que passara. Mas a preocupao  relativa: a melodia transcendental 
da cognio ressurge em tom festivo ao fim da tragdia de Hamlet, consolidando o triunfo secular - "o resto  silncio". O que jamais descansa, e o que vigora antes 
do silncio,  o valor singular da personalidade de Hamlet, o que tambm podemos denominar "sublime cannico".
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OTELO
O personagem de lago [...] pertence a uma classe, ao mesmo tempo, comum e tpica em Shakespeare, a saber: de indivduos dotados de uma mescla de intensa atividade 
intelectual e total ausncia de princpios morais, e que ganham evidncia s custas de terceiros, tentando confundir as fronteiras prticas entre o bem e o mal, 
baseando-se em padres forados de sofisticao especulativa. Algumas pessoas, rnais inocentes do que sbias, acham o personagem de lago antinatural. Shakespeare, 
que era to bom filsofo quanto poeta, discordaria. Bem sabia que o fascnio pelo poder, que vem a ser o mesmo que o fascnio pelo mal,  inato ao ser humano. Para 
que Shakespeare chegasse a tal constatao, no seriam necessrias demonstraes de lgica,- bastava-lhe observar as crianas brincando na lama ou matando moscas 
por diverso. Poderamos perguntar queles que consideram lago antinatural por que se do ao trabalho de v-lo no palco, seno pelo interesse que o personagem suscita, 
pela maneira com que lhes agua a curiosidade e a imaginao? Por que sempre lemos nos jornais relatos de incndios terrveis e assassinatos brbaros, se no pelo 
mesmo motivo? Por que tantas pessoas assistem a execues e a julgamentos, ou por que as classes menos favorecidas, quase universalmente, divertem-se com esportes 
brbaros e com a crueldade praticada com animais, seno pela tendncia natural da mente a valorizar experincias emocionantes,
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OTELO
a querer ser provocada e estimulada ao mximo? Sempre que foge ao controle do ser humano, ou ignora o sentido do dever moral, no h excesso que esse princpio no 
seja capaz de cometer, chegando mesmo a prescindir de qualquer motivo, seja de ordem emocional ou racional, lago  to-somente um exemplo extremo, isto , de atividade 
intelectual doentia, de total indiferena ao bem e ao mal, ou melhor, dando preferncia a este ltimo, por condizer com suas inclinaes pessoais, por conferir 
tamanho mpeto aos seus pensamentos e foco s suas aes. Vale observar, tambm (para o agrado dos que recorrem s mximas de Rochefoucault para medir as aes humanas), 
que lago  quase to indiferente ao seu prprio destino quanto ao d outras pessoas, que se arrisca por vantagens pequenas e duvidosas, e que  se torna engodo e 
vtima 
de sua prpria paixo - um incorrigvel fascnio pelo mal, uma nsia por situaes difceis e arriscadas. O "Alferes"  um filsofo que acredita que uma mentira 
que cause uma morte vale mais do que uma aliterao ou uma anttese, que prefere atentar contra a paz no seio de uma famlia a assistir s palpitaes do corao 
de uma pulga em uma bomba de ar, que trama a runa de amigos como um exerccio de raciocnio, e que apunhala indivduos em um beco escuro para acabar com o tdio.
William Hazlitt
Visto que se trata da tragdia de Otelo, embora seja lago o centro da pea (nem mesmo Hamlet e Edmundo parecem ocupar tanto espao em seus respectivos textos dramticos), 
devemos resgatar a questo da dignidade e da glria de Otelo no incio da trama. Uma nociva tradio da crtica moderna, que vai desde T. S. Eliot e F. R Leavis 
at o Neo-Historicismo atual, roubou o esplendor do heri, com efeito, a tal ponto acentuando a importncia de lago, que ficam justificadas as palavras de Otelo: 
"Finda  a misso de Otelo."*
Oleo, o Mouro de Veneza Traduo de Onestaldo de Pennafort. Edio bilnge Quarta edio, revista Rio de Janeiro Editora Relume Dumar, 1995. Todas as citaes 
referem-se a essa edio [N.T.]
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A partir de cerca de 1919, generais perderam a estima da elite, embora nem sempre a da plebe O prprio Shakespeare submete o brio militar  crtica cortante de Falstaff, 
que no poupou o sentimento de nostalgia pela honra militar Mas Falstaff, embora presente em um cantinho da conscincia de Hamlet, est ausente de Oco
A figura do palhao mal aparece na pea, ainda que o Bobo, em Rei Lear, o porteiro bbado, em Macbetb, e o vendedor de figos (e spides) em Antnio c Clepatra atestem 
a persistncia da tragicomdia em Shakespeare depois de Hamlet Apenas Oco e Conolano excluem o riso, como que para proteger da perspectiva falstaffiana dois grandes 
capites Quando Otelo, sem dvida, a espada mais gil do lugar, quer separar uma briga de rua, basta um comando "Embainhai vossas armas reluzentes, / para que no 
as embacie o orvalho
Fica um tanto ou quanto difcil reconhecer o esplendor de Otelo na pea, uma vez que ele cai, to prontamente, na conversa de lago Shakespeare, conforme o fizera, 
na Primeira Parte de Henrique IV, e voltaria a faz-lo, logo a seguir, em Rei Lear, atribui-nos a responsabilidade da inferncia J no incio da pea, lago afirma 
a Rodrigo, sempre crdulo, que odeia Otelo, e revela o nico motivo real para esse dio, o que Satans, em Milton, chamaria de "mrito no reconhecido" Satans  
filho legtimo de lago, gerado por Shakespeare na Musa de Milton lago, h muito "alferes" de Otelo (ou porta-bandeira, t e, terceiro no comando), foi pretendo no 
processo de promoo, e Cssio toma-se lugar-tenente do general A deciso de Otelo no tem, no texto, qualquer justificativa, o apreo do general pelo "honesto 
lago", veterano das "grandes guerras" de Otelo, permanece inabalado Na verdade, a posio de lago como porta-bandeira, tendo jurado morrer antes de permitir que 
as cores de Otelo sejam capturadas em batalha, atesta no apenas a confiana de Otelo mas a fidelidade de lago no passado Paradoxalmente, a devoo quase religiosa 
por Otelo, um deus da guerra, por parte do fiel lago, pode ser inferida como causadora da preterio lago, conforme apontou, com perspiccia, Harold Goddard, est 
sempre em guerra,  um piromanaco moral, que ateia fogo  realidade Para Otelo, profissional competente, que preserva a superioridade das armas ao
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discernir, com clareza, os campos de guerra e de paz, o bravo e fiel alferes seria incapaz de substitu-lo em caso de morte ou invalidez lago no pra de lutar, 
e no admite ser pretendo por Cssio, um tanto inexperiente, mas que  corts, diplomtico e conhecedor dos limites
da guerra
Apesar da sensatez que, decerto, caracterizava seu tirocnio militar, Otelo enganou-se com lago, artista to livre de si mesmo A catstrofe primeira da pea  o 
que eu chamaria de "a queda de lago", que estabelece um paradigma para a queda de Satans, em Milton O Deus de Milton, assim como Otelo, rebaixa o mais devotado 
dos seus servidores, e o magoado Satans rebela-se Incapaz de derrubar o Ser Supremo, Satans derrota Ado e Eva, mas o sutil lago vai mais longe, pois seu nico 
Deus  o prprio Otelo, cuja queda  se torna a vingana maior de lago, arrasado pela rejeio, talvez, como conseqncia da mesma, sofrendo de impotncia sexual 
e 
de um forte sentimento de perda e fracasso, de no mais ser aquilo que fora lago  o maior estudo shakespeariano sobre ausncia ontoteolgica, uma sensao que se 
segue ao vazio de Hamlet e que precede o mergulho de Edmundo, ainda mais frio, nas profundezas do nnlismo Otelo era tudo para lago, porque a guerra era tudo, sem 
Otelo, lago  nada, e ao guerrear contra Otelo, lago luta contra a ontologia
A tragdia, como gnero dramtico, no , necessariamente, metafsica, mas lago, que afirma ser to-somente crtico, , tambm, to-somente metafsico Sua grande 
bravata - "Nunca mostro quem sou"" - contradiz, propositadamente, So Paulo "corn a graa de Deus, sou quem sou" com lago, Shakespeare retorna a Maquiavel, embora 
no a uma nova verso de Aaro, o Mouro, ou de Ricardo in, ambos recriaes de Barrabs, o Judeu de Malta, mas a um personagem que est anos-luz alm de Marlowe 
A auto-satisfao que sentem Barrabs, Aaro, o Mouro, e Ricardo in, com respeito  sua prpria maldade,  pueril, comparada ao orgulho de lago ao se realizar como 
psiclogo, dramaturgo e esteta (o primeiro da era moderna), enquanto assiste  derrocada de Otelo, o deus da guerra, reduzido  incoerncia homicida O sucesso de 
lago no gnero da tragdia de vingana supera o de Hamlet ao revisar
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O Assassinato de Gonzaga, criando A Ratoeira Consideremos o feito de lago sua genialidade  o elemento responsvel pelo desenho desse noturno, sua melhor obra Ele 
h de morrer torturado, calado, mas ter deixado, como memorial, uma realidade mutilada
Auden, em um de seus ensaios mais enigmticos, identifica, em lago, a apoteose da figura do "brincalho", o que, no meu entendimento, s pode ser explicado desde 
que o lago de Auden seja o de Verdi (i e, de Boito), assim como o Falstaff de Auden  opertico, e no dramtico No devemos diminuir a genialidade de lago, trata-se 
de um grande artista, e no de um brincalho O Satans criado por Milton  um telogo fracassado, e um grande poeta, da mesma maneira, lago brilha como telogo niilista 
da morte de Deus, e como experiente teatrlogo Somente a Hamlet, Falstaff e Rosahnda, Shakespeare atribuiu mais espintuosidade e intelecto do que a lago e Edmundo, 
enquanto em termos de sensibilidade esttica, somente Hamlet supera lago Uma vez aceita a obsesso de lago, semelhante  de Ahab - Otelo  Moby-Dick que h de ser 
arpoada -, a caracterstica mais singular de lago, surpreendentemente,  a liberdade Grande improvisador, ele age com vigor e senso de oportunidade, ajustando sua 
trama s ocasies que se apresentam Se encenasse Otelo, eu faria a arte diablica objeto do crescente fascnio e da confiana do ator que representasse o papel de 
lago Ao contrrio de Barrabs e sua prole, lago  um inventor, um indivduo propenso a experimentos, sempre disposto a testar mecanismos at ento desconhecidos 
Auden, em um momento mais inspirado, contemplou em lago um cientista, e no um brincalho Satans, explorando o abismo msondvel em Paraso Perdido, opera segundo 
o esprito de lago Quem, antes de lago, na literatura ou na vida, dominou com tanta mestna as artes da desinformao, desorientao e desordem? Todo esse talento 
converge para o projeto de destruio elaborado por lago, em que Otelo regnde ao caos original, ao Tohu e Bohu de onde viemos
Mesmo a leitura mais superficial de Cntio, fonte utilizada por Shakespeare, revelar lago como uma inveno radical de Shakespeare, e no mera adaptao do perverso 
porta-bandeira da histria original O Alferes de Cntio apaixona-se, perdidamente, por Desdmona, mas
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no consegue seduzi-la, pois a jovem ama o Mouro O annimo Alferes conclui que o fracasso  conseqncia da paixo de Desdmona por um, igualmente annimo, Capito 
(Cssio, em Shakespeare), e decide livrar-se do suposto rival, provocando o cime do Mouro e tramando, em conluio com este, o assassinato de Desdmona e do Capito 
Na verso de Cntio, o Alferes espanca Desdmona at a morte, na presena e com o consentimento do Mouro Mais tarde, o Mouro, arrependido, e sofrendo com a saudade 
da esposa, despede o Alferes, que s ento passa a odiar o general Shakespeare transforma a histria, ao estabelecer, para a trama e para lago, um novo ponto de 
partida o fato da promoo no concedida O impacto ontolgico dessa rejeio  fruto da inveno de Shakespeare, constituindo, na verdade, o trauma que enseja a 
criao de lago, muito mais do que um mero Alferes perverso, um gnio do mal que cria a si mesmo depois de uma grande Queda
O dbito que o Satans criado por Milton tem com lago  tamanho que somos tentados a interpretar a catstrofe de Otelo em termos da Queda de Ado, e a ver no declnio 
de Lcifer indcios da concepo de lago Porm, ainda que o Mouro de Shakespeare seja batizado, Otelo no  pea crist, assim como Hamlet no  tragdia doutrinria 
sobre culpa, pecado e orgulho lago, jocosamente, invoca uma "entidade do inferno", mas ele no  apenas um ser diablico lago  a Eterna Guerra (como percebeu Goddard), 
e provoca, em mim, admirao e temor idnticos queles que sinto diante do juiz Holden, sempre que releio o livro Bloof Mendtan, Or, Tbe Evenmg Redness m tbc West 
(1985), de Cormac McCarthy O juiz, personagem baseado na figura histrica de um poltico que se utilizava da retrica para obstruir os trabalhos do legislativo, 
e que, no Mxico e no Sul dos EUA, massacrava e escalpelava ndios,  a encarnao da guerra Os assustadores pronunciamentos desse personagem configuram uma miniteologia 
da questo de lago, e, talvez, revelem a influncia de lago em Blood Mendian, descendente norte-americano de Melville e Faulkner, ambos mtoxicados por Shakespeare 
"A guerra", diz o juiz, " o meio mais puro de profetizar [ ] A guerra  Deus", pois trata-se do jogo supremo o conflito de vontades "ago  o gnio do arbtrio que 
renasce a partir do desprezo que a guerra
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demonstra pela vontade. Ser preterido por Cssio  ter o arbtrio anulado, e a sensao de poder pessoal ultrajada. A vitria do arbtrio vai requerer, portanto, 
a restaurao do poder, e, para lago, o nico poder  o da guerra: mutilar, matar, humilhar, destruir a divindade do outro, o deus da guerra que lhe traiu a devoo 
e a confiana. O juiz Holden criado por Cormac McCarthy  um novo lago, quando proclama que a guerra  o jogo que nos define:
Os lobos eliminam-se uns aos outros, meu caro. Que outra criatura poderia faz-lo? E no seria a raa humana ainda mais predatria? Nas coisas do mundo, a ordem 
natural  nascer, florescer e morrer, mas com os homens no pode haver declnio, e a lua sinaliza a chegada da noite. O esprito do homem se esgota no auge da sua 
realizao. Seu meridiano , a um s tempo, sua obscuridade e sua noite. Ele gosta de jogos? Ento, que jogue para valer.
Para lago, o que antes era o culto da guerra - enquanto ele adorava Otelo como deus da guerra -, toma-se o jogo da guerra, a ser jogado em toda parte, exceto no 
campo de batalha. A morte da devoo toma-se o nascimento da inveno, e o oficial preterido toma-se o poeta das brigas de rua, das facadas em becos escuros, da 
desinformao e, acima de tudo, da destruio de Otelo, sendo tamanha a dilacerao do grande general, que ele volta ao abismo de onde sara, o caos que lago associa 
 origem africana do Mouro. No  essa a viso de Otelo com respeito  sua herana cultural (tampouco a de Shakespeare), mas a interpretao de lago prevalece, 
ou quase prevalece, pois, conforme argumentarei a seguir, as malfadadas palavras de Otelo antes do suicdio sugerem um certo resgate de dignidade e coerncia, embora 
no de grandeza perdida, lago, sempre escapando ao entendimento de Otelo, no escapa ao nosso, visto que somos mais lago do que Otelo,- a viso de lago no que tange 
 guerra,  vontade e  esttica da vingana deflagra a pragmtica do nosso entendimento do humano.
No chegaremos a uma avaliao justa de Otelo se subestimarmos lago, perfeitamente capaz de destruir tantos entre ns, caso sasse da
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ca e entrasse em nossa vida. Otelo  uma grande alma, irremediavelente diminuda em intelecto e vigor por lago. Hamlet, conforme observou A. C. Bradey, teria conseguido 
livrar-se de lago sem mais delongas. Em um ou dois dilogos, Hamlet perceberia quem lago era, e o levaria ao suicdio, por meio da pardia e da galhofa. Falstaff 
e Rosalinda fariam o mesmo, Falstaff com alarde, Rosalinda com sutileza. S o humor pode constituir defesa contra lago, e  por isso que Shakespeare exclui da 
pea qualquer matiz cmico, exceto a hilaridade saturnina de lago. Mesmo nesse particular, existe uma diferena: Barrabs e os personagens shakespearianos que o 
imitam celebram seu triunfo em cumplicidade-com a platia, ao passo que lago, no auge de sua performance, parece to distante de ns quanto de suas vtimas. Algo 
no personagem parece dizer-nos: Voc ser o prximo", e estremecemos de pavor. "Em seu grande talento potico, no h deficincias", disse Swinburne, referindo-se 
a lago. Profeta do Ressentimento, lago anuncia Smerdyakov, Svidrigailov e Stavrogin, em Dostoievsky, e todos os ascetas do esprito desprezados por Nietzsche.
No entanto, lago  muito mais do que isso,- entre todos os viles da literatura, ele tem a honra nefasta de ocupar uma posio inatingvel. O rival mais prximo, 
Edmundo, ao morrer, deixa transparecer um certo arrependimento, gesto ainda mais enigmtico do que o voto de silncio feito por lago ao final da trama. Por maior 
que fossem seu intelecto e sua arte, por si s, no haveriam de lev-lo  maldade herica,- o personagem detm um fascnio que est alm da cognio e da percepo. 
A esfera pblica propiciou a Marlowe o personagem de Guise, em Massacre em Paris, mas Guise no passa de um moleque travesso, comparado a lago. Nem mesmo o Diabo 
- em Milton, Marlowe, Goethe, Dostoievsky, Melville, ou qualquer outro escritor - pode competir com lago, cujos descendentes norte-americanos vo de Chillingworth, 
em Hawthorne, e Claggart, em Melville, ao Misterioso Estranho, de Mark Twain, ao Shrike, de Nathanael West, e ao juiz Holden, de Cormac McCarthy. Na literatura moderna 
personagem algum supera lago, que continua a ser o Demnio do Ocidente, um grande psiclogo, dramaturgo, crtico e telogo da negatividade. Shaw, com inveja de 
Shakespeare, afirmava,
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referindo-se a lago, que "o personagem carece totalmente de coerncia", sendo, ao mesmo tempo, um "vilo grosseiro" e um sujeito refinado e sutil. Poucos concordam 
corn Shaw, e os que questionam a verissimilitude de lago, geralmente, consideram Otelo uma representao falha. A. C. Bradey, sempre um crtico notvel, apontou 
Falstaff, Hamlet, lago e Clepatra como os personagens "mais maravilhosos" criados por Shakespeare. Se me for permitido acrescentar Rosalinda e Macbeth, para formar 
uma sxtupla maravilha, aceito a seleo feita por Bradey, pois estes personagens so as maiores invenes de Shakespeare, e todos so capazes de levar a natureza 
humana ao seu limite mximo, sem, contudo, violar tal limite. A espirituosidade e o humor de Falstaff, a intensidade carismtica de Hamlet (ainda que ambivalente), 
e a fluidez do esprito de Clepatra tm contrapartidas equilibradas na imaginao proftica de Macbeth, no controle que Rosalinda exerce sobre as mais diversas 
perspectivas e na capacidade de improvisao de lago. No sendo, simplesmente, grosseiro nem, simplesmente, sutil, lago est sempre a recriar a prpria personalidade.- 
"Nunca mostro quem sou!" Os que questionam a possibilidade de um mercenrio de vinte e oito anos de idade ser dotado de negatividade to sublime devem questionar, 
tambm, a possibilidade de um ator de trinta e nove anos, Shakespeare, criar um "monstro" to convincente (conforme Otelo, ao final, refere-se a lago).  consenso 
que Shakespeare tenha abandonado a carreira de ator pouco antes de escrever Ofe/o,- pelo que consta, teria pisado o palco pela ltima vez em Bem Est o cfue Bm Acaba. 
Haveria alguma relao entre o fim da carreira de ator e a inveno de lago? Entre Bm Est o cjue Bem Acaba e Otelo, Shakespeare escreveu Medida por Medida, seu 
adeus  comdia. O enigmtico Duque Vicncio, em Medida por Medida, conforme j registrei, parece dotado de algumas das caractersticas de lago, e pode, igualmente, 
ser resultado de uma sensao de alvio, da parte de Shakespeare, por no mais ter de atuar em cena. Sem dvida, ator verstil e competente, sem, no entanto, jamais 
ter sido estrela da companhia, Shakespeare, talvez, nas improvisaes de Vicncio e lago, esteja celebrando novas possibilidades de utilizao das energias de ator. 
 possvel que, ao exaltar Falstaff, Hamlet, lago e Clepatra, Bradey estivesse reagindo positivamente ao alto grau de teatralidade inserido
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nesses papis. Sagaz e espirituoso, Falstaff, com seu histrionismo, desoerta sagacidade e espirituosidade nos outros. Hamlet, autor de tragdias interage com todos 
os que lhe cruzam o caminho, levando-os  auto-revelaco Clepatra est sempre representando um papel - em seu modo de viver amar e morrer - e nunca saberemos se 
"sai do papel" quando est sozinha com Antnio, pois Shakespeare jamais deixa o casal a ss, exceto em um nico, breve momento. Talvez, antes da queda que sucedeu 
 rejeio por Otelo, lago ainda no houvesse descoberto sua genialidade dramtica,- essa ser a maior conseqncia prtica da queda, uma vez que a sensao de fracasso 
tenha superado o trauma inicial. Na primeira vez que o vemos, no incio da pea, lago j exibe a liberdade do ator:
Espera l! Se o sirvo  a fim de que ele
a seu turno tambm sirva  minha vingana.
Nem todos neste mundo podem ser
patres,- nem todos os patres do mundo
devem ser bem servidos. ,
Hs de ver muito servidor submisso
que, encantado com a prpria servido,
consome a sua vida como os asnos
servem ao dono: a troco de forragem.
Uma vez velhos, d-se-lhes a baixa.
Chicote em tais honestos serviais!
Outros h que mascaram as maneiras
e as carantonhas do devotamento
e, simulando bem servir aos amos,
servem apenas ao seu prprio bem.
Quanto mais bem fornidos s expensas
dos patres, mais lhes fingem vassalagem.
Dobram-se em reverncias diante destes,-
mas  a si mesmos que eles prestam culto.
Esta  a minha gente! Esses, sim, tm carter!
E, em verdade, te digo... eu sou um desses!
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Somente o ator, lago nos garante, possui "carter",- os demais indivduos so ingnuos. Mas esse  apenas o comeo da carreira do ator,- a essa altura, lago est 
to-somente decidido a fazer algum mal, despertando Brabncio, pai de Desdmona, e provocando brigas de rua. Sabe que est contemplando uma nova vocao, mas ainda 
no se deu conta da prpria genialidade. Enquanto lago ganha fora, Shakespeare oferece-nos a viso da precria grandeza de Otelo, e da virtude inigualvel de Desdmona. 
Antes de analisar o Mouro e a esposa, gostaria de deter-me mais um pouco em lago, personagem que requer tanta capacidade de inferncia quanto Hamlet e Falstaff.
Ricardo in e Edmundo tm pais,- Shakespeare no confere antepassados e antecedentes a lago. Podemos apenas inferir o relacionamento prvio entre o alferes e seu 
capito. E o que podemos inferir sobre o seu casamento com Emlia? Temos, ainda, o curioso equvoco de lago, na primeira vez em que se refere a Cssio: "desses 
que no podem ver sequer um rabo de saia". A descrio no sugere tanto um engano da parte de Shakespeare, mas um sinal da preocupao obsessiva de lago com o casamento 
como forma de condenao, pois Bianca, obviamente,  meretriz e no esposa de Cssio. Emlia, personagem desenvolvida na medida certa, ser instrumento da ironia 
que arruinar o triunfo de lago, ainda que a vitria da mulher lhe custe a vida. Quanto ao relacionamento desse estranho casal, Shakespeare oferece-nos sugestes 
tocantes. Ainda no princpio da ao, lago afirma algo em que nem ele nem ns acreditamos, no porque admiramos Emlia, mas porque Otelo est acima disso:
[...] E  voz corrente
que ele j andou fazendo as minhas vezes
dentro dos meus lenis. Se  verdade, no sei. -
Mas s pela suspeita, neste caso
procederei como quem tem certeza.
[I.iii.]
Mais tarde, lago expressa suspeita semelhante com relao a Cssio. "temo / que o tal de Cssio ande com o olho em cima / tambm do meu barrete de dormir". Podemos 
deduzir que lago, talvez impotente, em
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conseqncia da fria de ter sido preterido no processo de promoc militar, esteja propenso a suspeitar do envolvimento de Emlia com todos os personagens masculinos 
da pea, sem, no entanto, incomodarse com o que estiver, de fato, acontecendo. Emlia, consolando Desdmona aps o primeiro ataque de cime de Otelo contra a esposa 
casta, resume o seu prprio casamento:
No  num ano, nem ser em dois,
que a gente pode conhecer um homem.
Todos eles so s estmagos, e ns
no passamos de simples alimento.
Se esto famintos, com avidez nos comem,-
em ns mesmas vomitam se esto fartos.
[Ill.iv.]
Essa  a viso ertica que prevalece em Trilo e Crssia, aqui, transferida para uma realidade mais elevada, embora no menos azeda, pois o mundo de Otelo pertence 
a lago. No ser convincente dizer que Otelo  um homem normal e lago um anormal,- lago  o gnio do seu tempo e lugar, e  todo vontade. Sua obsesso pelo ato de 
destruir  a nica fora criativa da pea. Sem dvida, trata-se de uma constatao um tanto sombria, mas Otelo , com certeza, a pea mais dorida de Shakespeare. 
Rei Lear e Macbetb so ainda mais sombrias, mas, em ambos os casos, o sombrio est afeto ao sublime. O nico elemento sublime em Otelo  lago. A concepo que Shakespeare 
tinha de lago era to bem delineada que as alteraes constatadas no texto do Flio, com relao ao do m-fuarto, embora acentuem o desenho de Emlia, em primeiro 
lugar, e de Otelo e Desdmona, em segundo, mal afetam lago. Shakespeare no sentiu necessidade de revisar o personagem de lago, perfeio do mal e gnio do dio. 
No h dvida quanto  centralidade de lago na pea: a ele so atribudos oito solilquios, a Otelo apenas trs.
Edmundo  mais esperto e ardiloso do que qualquer outro personagem em Rei Lear, mas  destrudo pela perseverana e resistncia de Edgar, que evolui de vtima crdula 
a vingador implacvel. lago, que detm, ainda mais, o comando da ao, , finalmente, destrudo por Emlia,
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o vento, foi a nica eventualidade que lago no pde prever. E a incapacidade de apreender o que havia de mais nobre na esposa - o quanto ela amava Desdmona e dela 
se orgulhava -  o erro do qual lago jamais se perdoar. Esse  o verdadeiro subtexto da ltima fala que lago se permite, dirigida tanto a ns quanto a Otelo e Cssio.-
OTELO
Podereis saber desse monstro a razo
por que me quis colher alma e corpo, em seu lao? IAGO
 escusado indag-lo. O que sabeis, sabeis.
E doravante no direi palavra.
[V.ii.]
O que sabemos ns, alm do que sabem Otelo e Cssio? A extrema ironia dramtica de Shakespeare transcende at mesmo a referida pergunta, permitindo-nos saber algo 
sobre lago que o alferes, a despeito de toda genialidade, desconhece. lago se enfurece por ter sido incapaz de prever, apesar de sua imaginao dramtica, a ira 
da esposa diante da probabilidade de Desdmona no apenas ser morta mas, tambm, difamada. A teia do esteta tem toda a magia estratgica da guerra, mas no comporta 
a franca indignao de Emlia. Na esfera em que deveria ser mais discernente - dentro do prprio casamento - lago  obtuso e cego. O exmio psiclogo que dilacera 
Otelo, e que to bem manipula Desdmona, Cssio, Rodrigo e todos os demais, enfurecido, cai na cilada por ele prprio preparada para a sua principal vtima, o Mouro, 
e  se torna mais um assassino que mata a prpria esposa. Ao final, enforca-se na prpria corda.
Sendo lago o dono do mundo, no posso deix-lo para trs,- portanto, a ele voltarei, mas, primeiramente, gostaria de fazer uma reflexo a respeito dos inmeros enigmas 
de Otelo. Enquanto atribuiu a Hamlet, Leare Macbeth eloqncia quase constante e sobrenatural, Shakespeare conferiu a Otelo capacidade de expresso curiosamente 
heterognea, a
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OTELO
um s tempo, singular e desarticulada, e, propositadamente, falha. A teatralidade de lago  magistral, a de Otelo, problemtica, brilhantemente problemtica. O Mouro 
afirma ter sido guerreiro desde os sete anos de idade,- mesmo supondo que a afirmao seja hiperblica, temos de convir que Otelo tem plena conscincia de que sua 
grandeza foi conquistada  custa de muito suor. Seu profissionalismo  de uma intensidade extraordinria, o que parece, em parte, inevitvel, pois, a rigor, Otelo 
 um mercenrio, um soldado negro a servio do Estado veneziano. Contudo, apesar de toda a fama, Otelo denota certa insegurana, s vezes, manifesta em seu discurso 
rebuscado e barroco, satirizado por lago como "frases empoladas de termos de militana".
Comandante militar que compara os prprios pensamentos s "frias correntes impetuosas" do mar do Ponto (Mar Negro), Otelo s  capaz de ver a si mesmo atravs de 
uma perspectiva grandiloqente. Apresenta-se como figura lendria, mtica, mais nobre do que qualquer romano da era clssica. O poeta Anthony Hecht acredita que 
somos levados a reconhecer, em Otelo, "uma vaidade ridcula e descontrolada", mas a perspectiva aguada de Shakespeare impede tais interpretaes monolticas. Otelo 
tem um ar do Jlio Csar de Shakespeare; ambos demonstram uma ambigidade que dificulta a demarcao entre vaidade e grandeza. Os que vem em Csar e Otelo deuses 
da guerra (e.g., respectivamente, Antnio e lago) sero incapazes de contemplar-lhes as falhas Mas Cssio ou o lago de depois da queda podem dar-se ao trabalho de 
identificar as fraquezas disfaradas de divindade. Otelo, conforme Csar, costuma referir-se a si mesmo na terceira pessoa, hbito desconcertante, seja na literatura 
ou na vida. Todavia, tanto quanto Jlio Csar, Otelo acredita em si mesmo como mito, e, at certo ponto, ns tambm devemos acreditar, pois na linguagem que lhe 
sai da alma existe uma nobreza autntica. Que existe, igualmente, uma certa opacidade, no temos como negar,- a tragdia de Otelo , precisamente, o fato de lago 
conhec-lo melhor do que ele prprio se conhece.
Otelo  um grande comandante, conhecedor da guerra e seus limites, mas que conhece pouco mais do que isso, e que no pode saber que pouco sabe. Possui um ego grandioso, 
em termos de magnitude, mas v
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a si mesmo de longe, por assim dizer,- de perto,  incapaz de confrontar o vazio que existe no centro do seu ser. A percepo de lago com respeito a esse abismo 
, s vezes, comparada pelos estudiosos  de Montaigne,- da minha parte, prefiro compar-la  de Hamlet, pois, sob um aspecto,  semelhana do infinitamente verstil 
Prncipe da Dinamarca, lago est muito alm do ceticismo, chegando j ao niilismo. O insigbt mais brilhante de lago  que se ele foi reduzido a nada em decorrncia 
da promoo de Cssio, Otelo estar muito mais vulnervel, ao prescindir do intelecto e da capacidade estratgica de lago. Na viso do alferes, qualquer pessoa pode 
ser pulverizada e, em termos da pea em questo, ele est certo. Nenhum personagem possui a ironia e a espirituosidade necessrias para det-lo: Otelo demonstra 
uma teatralidade consciente, mas  desprovido de humor, e Desdmona  um milagre de sinceridade. A terrvel dor causada por Otelo decorre da astuta omisso de qualquer 
fora contrria a lago. Em Ret Lear, Edmundo tampouco confronta qualquer personagem cujo intelecto o ameace, at ser aniquilado pela fina ironia de haver ele prprio 
criado o vingador annimo que outrora fora seu bobo, Edgar. Em qualquer hiptese, Otelo  impotente diante de lago,- tal impotncia  o elemento mais angustiante 
da pea,  exceo, talvez, da dupla fragilidade de Desdmona, com relao ao marido e a lago.
E importante frisar a grandeza de Otelo, apesar de todas as deficincias do personagem com relao  linguagem e ao temperamento. Implicitamente, Shakespeare celebra 
Otelo como um ser gigantesco, um esplendor ontolgico, portanto, como um homem guindado por seu prprio mrito a uma eminncia real, embora precria. Mesmo se duvidarmos 
da possibilidade da nobreza militar, Otelo, de modo plausvel, representa esse ideal perdido. Otelo  sempre a anttese de lago, que afirma "Nunca mostro quem sou!", 
at dilacerar-se sob a influncia desse mesmo lago. Obviamente, Desdmona escolheu mal seu marido, mas a escolha confirma que o esplendor de Otelo foi conseguido 
 custa de muito esforo. Atualmente, quando tantos crticos nas universidades renderam-se  moda francesa da negao do eu, alguns recorrem a Otelo a ttulo de 
ilustrao. Tais crticos subestimam a sutileza da arte de
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OTELO
Shakespeare,- Otelo, com efeito, provoca a observao lacaniana de
Calderwood:
Em vez de um cerne pessoal identificvel no centro do seu ser, Otelo, com as palavras "eu sou", parece ter em seu interior uma espcie de companhia teatral, um 
"ns somos".
Se, no incio, ou no final da pea, Otelo  to-somente a soma total das descries que faz de si prprio, ento, pode ser considerado um verdadeiro festival de 
personalidades. Porm, o tratamento na terceira pessoa por ele dispensado s suas auto-imagens no sugere um "ns somos", mas um perene romantismo no modo como o 
personagem v a si mesmo e se descreve. At certo ponto, Otelo encanta a si mesmo, assim como encanta Desdmona. Desesperadamente, Otelo deseja e precisa ser o protagonista 
de um romance shakespeariano, mas toma-se o heri vitimado da mais sofrida das tragdias domsticas de Shakespeare. John Jones observa, com argcia, que, na verso 
em m-juarto, Lear  personagem tpico de romance, s depois sendo transformado na figura trgica que encontramos no texto do Flio. Como o bobo de lago, Otelo constitui, 
para Shakespeare, um grande problema de representao. Como podemos acreditar no herosmo, na grandeza e na natureza benvola de um protagonista to catastrfico? 
Sendo Desdmona a imagem de amor mais admirvel em Shakespeare, como podemos simpatizar com o indivduo incoerente que a destri, que faz da jovem a mais infeliz 
das esposas? O romance, seja ficcional ou verdico, depende do conhecimento parcial, ou impreciso, das circunstncias. Talvez, seja esse o caso de Otelo, mesmo em 
sua fala final, mas Shakespeare, habilmente, enquadra o romance de Otelo na tragdia Ofeio, e assim resolve a questo da representao favorvel.
Otelo no  um "poema ilimitado", acima de distines de gnero, e os elementos de romance encontrados nos trs personagens principais fazem da pea uma tragdia 
bastante incomum. lago triunfa porque est inserido na pea certa para um vilo ontoteolgico, e a caridosa Desdmona encaixa-se igualmente bem na trama. Otelo parece 
deslocado,
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mas tal questo encerra, em si, o dilema sociopoltico do personagem, um mouro herico no comando das foras armadas de Veneza, sofisticada em sua decadncia - ontem 
e hoje. Shakespeare combina mercenarismo e romance em seu retrato de Otelo, e a mistura  inconsistente, mesmo levando-se em conta a competncia mpar do autor. 
No entanto, seremos injustos com Otelo, se nele reconhecermos apenas violncia e maldade. lago, altamente crtico, tem um entendimento de Otelo bem mais aguado 
do que a maioria de ns:
por natureza, o Mouro  confiante... Julga honesto a quem lhe parea honesto...
No so muitas as criaturas em Shakespeare, ou na vida real, "por natureza [...] confiante[s]". Engana-se, redondamente, quem supe que Otelo deva ser interpretado 
como ridculo ou mesquinho. Trata-se de um indivduo admirvel, um grande homem que, em pouco tempo,  destrudo. As recriaes de Heitor, Ulisses e Aquiles, feitas 
por Shakespeare em Trilo e Crssida, haviam sido complexas pardias dos originais homricos (na verso de George Chapman), mas Otelo  genuinamente homrico,-  
o personagem shakespeariano que mais se aproxima dos heris de Chapman. Dentro de suas bvias limitaes, Otelo, de fato,  "nobre": seu consciente, antes da queda, 
est sob firme controle, sendo justo e absolutamente digno, dotado de perfeio inata. com correo, Reuben Brower disse, referindo-se a Otelo: "Sua simplicidade 
herica , tambm, uma cegueira herica. Tal caracterstica faz parte do heri "ideal" da metfora shakespeariana". A referida metfora, no mais homrica, estende-se 
ao profissionalismo de um grande soldado mercenrio, um negro herico a servio de uma sociedade branca altamente decadente. O extraordinrio profissionalismo de 
Otelo constitui, ao mesmo tempo, sua imensa fora e a liberdade trgica que lhe enseja a queda. O amor entre Desdmona e Otelo  sincero, mas poderia terminar em 
catstrofe mesmo na ausncia do gnio demonaco de lago. Otelo no faz o tipo domstico: a carreira militar o realiza plenamente. Desdmona, convincente em sua total 
inocncia, apaixona-se pelo guerreiro em Otelo, que se apaixona pelo sentimento que ela alimenta
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OTELO
ele pelo efeito que sua lendria carreira exerce sobre a jovem. O omance entre os dois  o romance que existiu, previamente, na vida de Otelo- o casamento no lhe 
altera a natureza, embora altere seu relacionamento com Veneza, no sentido extremamente irnico de tom-lo, mais do nunca, um intruso.
O personagem de Otelo sofreu ataques de T. S. Eliot, F. R. Leavis, e de tantos adeptos, mas os modismos, na crtica shakespeariana, sempre passam, e o nobre Mouro 
sobrevive aos detratores. Todavia, Shakespeare confere a Otelo o mistrio de ser um heri dotado de falhas graves, um Ado livre demais para cair. De certo modo, 
Otelo  a representao mais tocante da vaidade e do temor masculinos com relao  sexualidade feminina e, por conseguinte, da equao masculina entre os medos 
da traio e da morte. Leontes, em Conto do Inverno, , at certo ponto, um estudo sobre o homossexualismo reprimido,- portanto, seu cime violento  diferente do 
de Otelo. Espantamo-nos quando Otelo, em sua apologia final, diz-se no propenso ao cime, e o consideramos um tanto ou quanto cego. Jamais, porm, duvidamos de 
seu valor, o que toma ainda mais estranho o fato de o cime insano de Otelo ser to parecido com o de Leontes. O grande insigbt de Shakespeare com relao ao 
cime masculino  que o mesmo se trata de uma mscara que oculta o medo de castrao na morte. Os homens acham que para eles jamais haver tempo e espao suficientes, 
e encontram na questo da infidelidade feminina, real ou imaginria, um reflexo do prprio fim, a constatao de que a vida h de continuar sem eles.
Para Otelo, o mundo  um teatro onde  possvel testar a sua reputao profissional,- esse, o mais valente dos soldados, no teme morrer em ao, o que s lhe aumentaria 
a glria. Mas ser trado pela esposa, e, ainda, com um subordinado, Cssio, seria terrvel morte metafrica,  qual a reputao do comandante no sobreviveria, 
principalmente, se considerarmos a viso de Otelo com respeito ao seu prprio mito. Shakespeare  sublimemente demonaco, transcendendo at a genialidade de lago, 
ao tomar a vulnerabilidade de Otelo consonante com a mgoa de lago por ter sido preterido no momento da promoo, lago afirma: "Nunca mostro quem sou!",- a perda 
de digni-
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dade ontolgica, da parte de Otelo, teria sido ainda maior se Desdmona o tivesse "trado" (coloco a palavra entre aspas porque a metfora implcita  um triunfo 
da vaidade masculina). Conscientemente, Otelo, ao se casar com Desdmona, pe em risco a auto-imagem construda a duras penas, e tem premonies corretas do caos 
se o amor fracassar:
Pobre querida! Quero ser maldito, se no te amo! E no dia em que eu deixar de te amar, que o universo se converta de novo em caos.
"" "     "       "       "        [Ill.iii.]
Uma indicao anterior das incertezas de Otelo constitui um dos momentos mais sutis da pea:
Fica sabendo, lago: se no fosse
este amor que a Desdmona consagro,
jamais poria freios e fronteiras
 minha vida aventurosa e errante,
nem por todo o tesouro que h nos mares!
[I..]
A complexidade psicolgica de Otelo deve ser reconstruda pela platia, a partir de runas, por assim dizer, pois Shakespeare no nos fornece o quadro completo. 
Existe a sugesto de que, no fosse por Desdmona, Otelo jamais se teria casado, e ele mesmo descreve um namoro em que permanecera, basicamente, passivo:
Tudo isso eu relatava e, interessada, Desdmona me ouvia atentamente.
Para atender a ocupaes caseiras, s vezes se afastava por instantes. Mas logo as despachava, e, avidamente, voltava a devorar minhas palavras. Notando-lhe isso, 
um dia, num momento
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OTELO
oportuno, achei meios de lev-la
a me pedir, de todo o corao,
que lhe contasse, inteira, a minha histria,
de que ela ouvira apenas alguns trechos,
sem muito seguimento. Eu a atendi.
E vi que dos seus olhos arrancava
muitas e muitas lgrimas sentidas,
quando lhe referia amargos transes
da minha mocidade... Ao acabar
a minha narrativa, emocionada,
me compensou com um mundo de suspiros...
E jurou-me que achava tudo aquilo
"maravilhoso, muito comovente"
e "imensamente digno de pena".
Disse-me que antes no o houvesse ouvido,
embora lamentasse ainda mais
no ter nascido homem, para ser
igual ao que tal feitos praticara.
Agradeceu-me, ento. E, finalmente,
declarou que se, um dia, por acaso,
algum amigo meu a pretendesse,
eu no teria mais do que ensin-lo
a repetir-lhe a minha histria toda,
para que ele ganhasse o seu amor.
Tal confisso ouvindo, eu lhe falei...
Ela me amou pelos perigos que corri,
e eu a amei pela pena que ela teve.
[I.iii.]
Trata-se, na verdade, de mais do que mera "sugesto", sendo quase uma proposta direta, da parte de Desdmona. com a concorrncia, em Veneza, circunscrita a tipos 
como Rodrigo, Desdmona, de bom grado, deixa-se seduzir pelo romance ingnuo e arrebatador da autobiografia
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#HAROLD   BLOOM
de Otelo, que nela provoca "um mundo de suspiros". O Mouro no  apenas nobre,- a saga de sua vida faz "[u]ma menina que sempre foi meiga" (segundo Brabncio, seu 
pai) "deixar-se apaixonar por algum que, antes disso, /ela no fitaria sem horror!". Desdmona, figura do Alto Romantismo, sculos  frente de seu tempo, cede ao 
fascnio da conquista, se  que se pode usar o verbo ceder para descrever entrega to voluntria e direta. Nenhum outro par em Shakespeare  to diferente entre 
si, ou to marcado para a tragdia. Mesmo em uma Veneza ou Chipre sem lago, como transcorreria um romance to improvvel como esse? O ponto alto da paixo entre 
Otelo e Desdmona  o encontro em Chipre:
OTELO
Minha bela guerreira! DESDMONA
Oh! Meu querido Otelo! OTELO
O meu prazer iguala esta maravilhosa
surpresa de te achar aqui  minha espera!
Abenoada alegria da minha alma!
Se para mim agora as tempestades
sero seguidas de uma tal bonana,
ento rujam os ventos insofridos
at que a morte acorde - e as naus nos mares
se levantem ao pice das vagas
to altas como o Olimpo, e dessa altura
despenhem-se depois nos mais profundos
abismos infernais! Morrer neste momento
era o supremo bem, pois to feliz me sinto
que temo de uma vez ter esgotado
todo o quinho de bem-aventurana
que o meu destino ignoto
me tenha reservado! DESDMONA
Deus h de permitir
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OTELO
que o nosso amor e seus prazeres todos na medida do tempo aumentem sempre.
OTELO
Que assim seja, assim seja!  delcias do amor!
Eu no sei exprimir o meu contentamento...
aperta-me a garganta...  bom demais...
(Beijando-a.}
Que isto... e mais isto... sejam para sempre
a nica dissononcia entre ns dois.
[H.i.]
De tal momento de glria s se pode cair, mesmo que a fala seguinte no fosse de lago, prometendo, em um aparte, fazer desafinar essa "bela melodia". Shakespeare 
(conforme j apontei, seguindo meu mestre, Samuel Johnson) busca a comdia e o romance naturalmente, mas chega  tragdia por meio da violncia e da ambivalncia. 
 possvel que Otelo tenha sido to dorida para Shakespeare quanto o  para ns. Ao pr em cena a precria nobreza de Otelo e o frgil romantismo de Desdmona em 
confronto com o sdico esteticismo de lago (antepassado de todos os crticos literrios da atualidade), o poeta-dramaturgo inflige contra si mesmo violento golpe. 
Tenho a satisfao de trazer, novamente,  baila a especulao romntica, hoje desprezada, de que Shakespeare estaria expressando, nas grandes tragdias, especialmente 
em Otelo, um desespero pessoal, um grande sofrimento ertico. Obviamente, Shakespeare no  Lord Byron, que exibe por toda a Europa o corao sangrando,- contudo, 
a imensa agonia que sentimos ao ver Otelo matar Desdmona  informada no apenas por uma intensidade exterior mas, tambm, interior. O assassinato de Desdmona  
o elo entre o cosmo transbordante de Hamlet e o vazio cosmolgico de Lear e Macbeth.
A pea Hamlet e a mente de Hamlet tm a mesma identidade, uma vez que tudo que acontece ao Prncipe da Dinamarca parece encerrar a sua identidade. Mas no podemos 
dizer que exista identidade entre a mente
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de lago e a pea Ofelo, pois as vtimas de lago possuem grandeza prpria. Contudo, at ser impedido por Emlia, lago detm o controle da ao,- a Otelo e Desdmona 
restam apenas a tragdia. Em 1604, um observador annimo comenta: "nas tragdias shakespearianas o cmico assume o controle, sempre que o trgico hesita". Esse comentrio, 
extremamente perspicaz, refere-se a Hamlet, que "a todos agradou", mas aplica-se, ainda mais sutilmente, a Otelo, em que Shakespeare, o comediante, comanda lago, 
ao mesmo tempo em que se esfora para ampliar os limites da arte trgica. No sabemos que ator da companhia de Shakespeare representava o papel de lago, contracenando 
corn Burbage, como Otelo, mas pergunto a mim mesmo se no seria o grande palhao Robert Armin, supostamente, responsvel pelos papis do porteiro bbado, em Macbetb, 
do bobo, em Rei Lear, e do campons que traz as spides, em Antnio e Clepatra. O impacto dramtico em Otelo  causado pelo fato de deleitarmo-nos com o triunfo 
exuberante de lago, ainda que temamos as conseqncias da sua perversidade. O Barrabs de Marlowe, personagem que se diverte sozinho, imitado por Aaro, o Mouro, 
e Ricardo in, parece uma verso grosseira de Maquiavel, se o compararmos ao sofisticado lago, que rene caractersticas de Barrabs e Hamlet, de modo a aumentar 
a sua capacidade de introspeco. Em Hamlet, deparamo-nos com um eu interior sempre crescente, mas lago no tem um eu interior, apenas um fecundo abismo, tal e 
qual seu descendente, o Satans criado por Milton, que, no fundo de cada abismo, encontrava outro, cada vez mais profundo. A descoberta de Satans  desesperadora,- 
a de lago  alegremente diablica. Shakespeare inventa em lago um sublime poeta cmico, de natureza sdica, um arconte do niilismo que sente prazer em devolver s 
trevas o deus da guerra. Ser possvel inventar lago sem que tal feito traga ao inventor grande satisfao? Ser que no apreciamos lago, apesar da ambivalncia 
de nossos sentimentos por ele?
O personagem de lago no  demais para a pea em que est inserido,- antes, tem a estatura exata, ao contrrio de Hamlet, cujas dimenses transcenderiam at a mais 
grandiosa das peas. J registrei que Shakespeare fez alteraes significativas nas falas de Otelo, Desdmona e
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OTELO
Emlia (e de Rodrigo, tambm), mas no nas de lago,-  como se soubesse que lago prescindia de reviso. Nenhum vilo, em toda a literatura, iguala-se a lago, concepo 
impecvel que dispensa retoques. Swinburne o disse bem: "o mau mais perfeito, o demnio mais potente, [...] reflexo da figura de Prometeu, iluminada pelo fogo do 
inferno". Um Prometeu satnico pode parecer algo por demais afeto ao Alto Romantismo, mas, com efeito, o piromanaco lago incentiva Rodrigo:
Isso! Gritos de alarma! Assim como os de quem, numa grande cidade,  noite, v um incndio.
[U.]
Segundo o mito, Prometeu rouba o fogo para nos libertar,- lago rouba a ns mesmos, lenha que alimenta a fogueira, lago  um autntico Prometeu, por mais negativo 
que seja, pois quem pode negar a poesia contida no fogo de lago? Os heris-viles de John Webster e Cyril Tourneur so meros nomes impressos em folha de papel, contrastados 
corn lago,- falta-lhes o fogo de Prometeu. Quem em Shakespeare, exceto Hamlet e Falstaff,  to criativo quanto lago? Os trs so capazes de perceber o que qualquer 
pessoa (e qualquer personagem) traz na alma. Talvez lago seja a recompensa exigida pelo Negativo para contrabalanar Hamlet, Falstaff e Rosalinda. Para evitar que 
tudo voe pelos ares, a espirituosidade extrema, assim como a ironia extrema, necessita de um controle interno: o desprendimento de Hamlet, a exuberncia de Falstaff, 
a graa de Rosalinda. lago  nada - a no ser crtico,- no pode haver controle interior quando esse interior  um abismo. A nica emoo de lago  o crescente/rsso" 
 medida que ele descobre a sua genial capacidade de improvisao.
Visto que a trama de Otelo , essencialmente, a trama de lago, a improvisao deste constitui a alma e o cerne da pea. A resenha escrita por Hazlitt sobre o lago 
representado por Edmund Kean, em 1814, da qual obtive a epgrafe deste captulo,  a melhor anlise da excepcional capacidade de improvisao de lago, chegando ao 
pice ao apontar que
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lago "apunhala indivduos em um beco escuro para acabar com o tdio". Proftica, essa noo projeta lago  Era de Baudelaire, Nietzsche e Dostoievsky, um tempo 
que, em muitos aspectos, perdura at o presente, lago no  a verso jacobiana de um rebelde italiano, apenas mais um descendente dos Maquiavis de Marlowe. A grandeza 
de lago  estar muito  frente de ns, embora todo noticirio, seja em jornais ou na televiso, apresente relatos sobre seus tantos discpulos, operando nas mais 
diversas maneiras, desde crimes isolados de sadomasoquismo at casos de terrorismo internacional e massacres. Os seguidores de lago esto em toda parte,- tenho acompanhado, 
corn grande interesse, muitos de meus ex-alunos, tanto na graduao quanto na ps-graduao, que seguem a carreira de "iagosmo", dentro e fora das universidades. 
Os grandes intelectuais do sexo masculino criados por Shakespeare (cornparveis a Rosalinda e Beatriz, entre as personagens femininas) so apenas quatro: Falstaff 
e Hamlet, lago e Edmundo. Entre esses, Hamlet e lago so, alm de intelectuais, estetas, isto , indivduos cuja conscincia crtica  dotada de fora quase sobrenatural, 
sendo que, em lago, o esteta predomina, em cumplicidade com o niilista e o sdico.
Enfatizo o gnio teatral e potico de lago com o intuito de chegar a uma apreciao do personagem que, espero, seja esttica sem ser sadomasoquista, risco sempre 
presente na satisfao que o pblico sente diante das revelaes de lago. No h outra figura de destaque em Shakespeare com a qual nos identifiquemos menos,- no 
entanto, lago est to alm do mal quanto do bem, conforme observou Swinburne, com tanta propriedade. Robert B. Heilman, talvez subestimando Otelo (o heri, no 
a pea), repara o equvoco, ao apontar no haver apenas um caminho que leve a lago: "Como um joo-ningum espiritual, lago  universal, ou seja, pertence a muitos 
locais e a muitas pocas". Swinburne, em sua estima por lago, talvez, influenciado pelo sadomasoquismo de sempre,"deduz que a atitude de lago no inferno seria semelhante 
 de Farinata, de p no tmulo: "como se pelo inferno sentisse grande desprezo". No h parte do Inferno de Dante que lago no pudesse habitar, de to vasta a sua 
capacidade de perpretar o mal.
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Ao reconhecer em lago um gnio capaz de provocar o caos em terceiros, talento que surge a partir da devastao ontolgica nele causada por Otelo, corro o risco de 
interpretar o personagem como um telogo negativo, por demais semelhante ao Satans miltoniano que por lago foi influenciado. Conforme tenho acentuado ao longo do 
presente estudo, Shakespeare no escreve um teatro cristo ou religioso,- no  Caldern ou (para falar em poetas-dramaturgos menores) Paul Claudel ou T. S. Eliot. 
Tampouco  Shakespeare (ou lago) um herege,- fico perplexo diante do debate crtico em tomo da questo de Shakespeare ter sido protestante ou catlico, pois suas 
peas teatrais no so nem uma coisa nem a outra, lago apresenta elementos gnsticos hereges, assim como sero os casos de Edmundo e Macbeth, mas Shakespeare no 
era gnstico, nem hermeticista, nem ocultista.  sua maneira excepcional, foi o mais inquisidor e universal dos observadores, possivelmente, inclusive no que diz 
respeito ao esoterismo espiritual, ainda que sempre levado pelos propsitos de descobrir ou inventar. Otelo  cristo convertido,- a religio de lago  a guerra, 
em todas as frentes - nas ruas, nos campos de batalha, no abismo que  o seu prprio interior. Guerra em todas as frentes  uma religio, cujo maior dos telogos 
literrios foi por mim citado acima: o juiz Holden, na obra intitulada Blood Meridian, de Cormac McCarthy. O juiz imita lago ao propor uma teologia do arbtrio, 
cuja expresso mxima  a guerra, contra tudo e contra todos. lago afirma jamais ter encontrado um indivduo que soubesse amar a si mesmo, o que significa que o 
amor-prprio  o exerccio da vontade de acabar com o prximo. lago  autodidata no exerccio da vontade, pois, de incio, no tem a inteno clara de matar. A 
princpio, existe um sentimento de revolta, decorrente de uma perda de identidade, acompanhado de um desejo, ainda incipiente, de vingana contra o deus a quem lago 
servira.
A maior realizao de Shakespeare em Otelo  a extraordinria mutao de lago, impulsionada pela capacidade de o personagem ouvir-se a si mesmo, ao longo de oito 
solilquios e dos respectivos apartes. Indo de ensaios hesitantes a descobertas delirantes, a curva de desenvolvimento do personagem de lago atinge um ponto de triunfo 
quase total, sendo to-somente interrompida pela interveno herica de Emlia.
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Muito da grandeza da teatralidade de Otelo est encerrada nesse triunfo, do qual, involuntariamente, participamos. Bem encenada, Otelo ser um trauma para a platia, 
ainda que momentneo. Rei Lear , igualmente, catastrfica (Edmundo sempre triunfante at o advento do duelo com Edgar), mas Lear  pea complexa, multifacetada, 
de vastas propores, e no apenas quanto ao enredo duplo. Em Otelo, lago est sempre no centro da teia, constantemente tecendo a trama, agarrando-nos com sua magia 
inspita. Nesse particular, a nica comparao possvel  Prspero, mago luminoso que, em parte, serve de resposta a lago.
corn efeito, lago pode ser considerado um mau intrprete de Montaigne, ao contrrio de Hamlet, que faz de Montaigne um espelho da natureza. Kenneth Gross comenta, 
corn perspiccia: "na melhor das hipteses, lago  uma imagem distorcida do pirronismo inquisidor e humanista de Montaigne". Pirronismo, isto , ceticismo radical, 
 convertido por Hamlet em desprendimento,- lago transforma pirronismo em guerra contra a existncia, em um mpeto que parece negar qualquer justificativa para a 
existncia. A exaltao do arbtrio, em lago, emana de um vazio ontolgico to grande que emoo alguma seria capaz de preencher:
Virtude uma figa! De ns mesmos depende sermos deste ou daquele feitio. O nosso corpo  uma horta de que o nosso arbtrio  o hortelo. De forma que, se quisermos 
plantar nele urtigas ou semear alface, criar hissopos ou mondar tomilho, cultivar nele um s gnero de ervas, ou espcies variadas, tom-lo estril pelo nosso cio 
ou fertiliz-lo com o nosso amanho,  em ns mesmos, na nossa prpria vontade que esto o alvitre e o poder para tanto. Se na balana da nossa vida no houvesse 
o prato da razo para equilibrar o outro prato das paixes, os nossos humores e a baixeza dos nossos instintos nos levariam s mais absurdas conseqncias. Mas temos 
a razo para esfriar nossas paixes impetuosas, os aguilhes carnais, os apetites desenfreados. Donde concluo que o que chamas amor no  mais nem menos do que o 
enxerto de um grelo.
[I.iii.]
564
OTELO
Aqui, "virtude" significa algo como "fora mscula", enquanto "razo", para lago,  apenas a ausncia de emoo nele prprio observada. Esse trecho, em prosa,  
o centro potico de Otelo, pressagiando a converso do protagonista, sob a influncia de lago, a uma viso de sexualidade redutiva e doentia. No podemos duvidar 
do amor de Otelo por Desdmona,- no entanto,  possvel depreender insinuaes de que Otelo reluta em consumar o amor pela esposa. Na minha leitura, o casamento 
no chega a ser consumado, apesar do ardente desejo de Desdmona. lago faz troa da "fraqueza" de Otelo, o que denota mais a impotncia do prprio lago do que a 
de Otelo,- porm, nada que o general diz ou faz sugere qualquer ardor por Desdmona. Isso, com certeza, concorre para a explicao da fria assassina do heri, 
uma vez instigado ao cime por ao de lago, e toma o referido cime mais plausvel, pois Otelo, realmente, no sabe se a esposa , de fato, virgem, e teme a descoberta 
da verdade - seja ela qual for. Por que Otelo se casa, se no deseja Desdmona? lago no ser capaz de esclarecer a questo, e Shakespeare delega-nos a atribuio 
de faz-lo, segundo o nosso entendimento, sem jamais oferecer-nos os dados necessrios para tal. Mas Bradshaw tem toda razo, quando afirma que, em ltima anlise, 
Otelo atesta o fato de Desdmona ter morrido virgem:
Como estar teu rosto, desditosa?
To lvida que ests! Como a tua camisa...
No Juzo Final, quando nos encontrarmos,
ser por causa desse teu semblante
que minha alma ruir, precipitada
l dos Cus para os braos
das frias infernais!
Como ests fria, minha filha, fria,
to fria! Como a tua castidade...
[V..]
Mesmo que Otelo esteja delirando, devemos, ao menos, acreditar que fala srio: Desdmona morre no apenas fiel a ele, mas "fria, / [...]
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#HAROLD  BLOOM
Como a tua castidade".  difcil saber, ao certo, o sentido que Shakespeare atribui s palavras de Otelo, a menos que a vtima jamais tivesse, de fato, chegado a 
ser mulher de Otelo, nem mesmo na nica noite em que o relacionamento sexual poderia ter ocorrido. Quando promete no "derramar-lhe o sangue", Otelo quer dizer que 
vai asfixi-la, mas as palavras expressam uma ironia assustadora: nem Otelo, nem Cssio, nem quem quer que seja haver de deflorar Desdmona. Para Bradshaw, existe 
aqui a "terrvel pardia tragicmica de uma morte ertica", algo que to bem se presta  faanha teatral de lago.
Gostaria de deixar um pouco a questo levantada por Bradshaw, para explorar uma outra, sobre a qual lago exerce pouca influncia: por que Otelo tanto reluta em consumar 
o casamento? Quando, na terceira cena do primeiro ato, o Duque de Veneza aceita a unio entre Otelo e Desdmona, e envia Otelo a Chipre para comandar a defesa da 
ilha contra uma iminente invaso turca, o Mouro deseja apenas que a esposa seja abrigada com conforto e dignidade durante o perodo em que ele estiver fora. E a 
ardente Desdmona que pede para acompanhar o marido:
Assim, nobres senhores, se me deixo, como traa da paz, ficar aqui, ao passo que ele parte para a guerra, dos ritos desse amor fico privada. E sua ausncia para 
mim ser doloroso intervalo em minha vida.
Deixai-me, pois, segui-lo!
[I..]
Supostamente, ao falar em "ritos", Desdmona refere-se  consumao do casamento, e no  batalha,- contudo, embora apoie a solicitao da esposa, Otelo deixa bem 
claro que no arde de desejo por ela:
Sufragai-lhe o pedido! O cu me  testemunha de que o no rogo para contentar
566
OTELO
os apetites da paixo, tampouco para acalmar o fogo dos sentidos,
tais ardores em mim j se apagaram
corn a mocidade... No ser tambm
por gosto puro, ainda que justo, e sim
para corresponder com uma ternura igual
aos votos da sua alma! E Deus preserve
o vosso generoso esprito da idia
de que os altos e graves interesses
do Estado possam ser descurados por mim
pelo fato de a ter em minha companhia.
No! Se os volteis brincos e caprichos
do Amor um dia vierem a embotar,
corn lascivo torpor,
o meu nimo e a minha inteligncia,
e o prazer conspurcar os meus deveres,
que o meu elmo nas mos das cozinheiras
se transforme em panela
e que, por fim, minha reputao
seja afrontada com os mais vis ultrajes!
[I.iii.]
Esses versos, longe de serem os mais eloqentes de Otelo, vo alm do que o momento exige em termos de decoro e discrio, e em nada favorecem Desdmona. Otelo  
por demais enftico, e a situao continua um tanto estranha, quando ele a convida a sair de cena ao seu lado:
Vem, Desdmona! Tenho uma hora apenas
para passar contigo,
para atender ao nosso amor e aos nossos
preparativos e disposies.
Que remdio, seno obedecer ao tempo!
567
#HAROLD  BLOOM
Se a mencionada "hora" tiver sentido literal, o "amor" no ser agraciado com mais do que vinte minutos do tempo desse general to ocupado. Mesmo com a ameaa 
turca, o Estado, sem dvida, haveria de permitir  sua maior patente militar uma ou duas horas para um primeiro encontro romntico com a esposa. Quando chega a 
Chipre, onde j est Desdmona, Otelo informa-nos: "a guerra terminou. Os turcos soobraraml". Isso deveria ensejar tempo suficiente para um j adiado encontro sexual, 
especialmente diante do decreto em favor das comemoraes da vitria. Talvez seja mais decente aguardar a chegada da noite/ aps atribuir a Cssio o comando da viglia, 
Otelo diz a Desdmona: "[...] Vem, meu amor. Efetuada a compra, /  lcito gozar o que dela nos vem. / E ainda no nos foi dado esse supremo bem", e sai de cena, 
acompanhado da esposa. lago trama uma bebedeira, envolvendo Cssio, Rodrigo e Montano, o governador de Chipre, em meio  qual Cssio fere Montano. Logo em seguida, 
alarmado pelo badalar dos sinos, Otelo volta  cena, trazendo consigo Desdmona. No nos ser revelado se houve tempo suficiente para os "ritos", mas Otelo manda 
Desdmona de volta  cama, e informa que vai supervisionar, pessoalmente, a feitura do curativo do ferimento de Montano. No podemos precisar aqui quais seriam as 
prioridades de Otelo, mas, claro est, o general opta por atender ao governador, em lugar de cumprir o dever conjugai.
As primeiras insinuaes de lago, com respeito a um suposto relacionamento entre Desdmona e Cssio, no teriam qualquer efeito se Otelo soubesse que a jovem era 
virgem. E, justamente, por no sab-lo que Otelo  se torna to vulnervel. "Por que me casei!", ele exclama, e aponta os prprios comos" quando diz a Desdmona: 
"Di-me a cabea, aqui", o que a pobre esposa, inocente, atribui ao cansao, tendo Otelo passado a noite cuidando do governador ferido,- " das noites em claro", 
ela diz, e esboa a inteno de fazer uma atadura com o leno fatal, que ele, ento, empurra de lado, e que vai ser, mais tarde, encontrado por Emlia. A essa altura, 
Otelo j pertence a lago, e  incapaz de dirimir a dvida agindo da maneira que seria a mais sensata: deitando-se com Desdmona.
A questo, um labirinto que desnorteia o pblico, muitas vezes, sequer  abordada por diretores de Otc/o, que nos deixam em dvida
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OTELO
uanto ao seu posicionamento diante da mesma, ou que, talvez, sequer ercebam que a complexidade do problema exige interpretao. Shakespeare no estava imune a descuidos, 
mas jamais com relao a algo to crucial, pois a tragdia, como um todo, depende da referida questo. Lamentavelmente, como pessoas, Desdmona e Otelo pouco se 
conhecem, e, em termos sexuais, so dois estranhos. A ousada sugesto que Shakespeare nos apresenta  que Otelo estaria por demais receoso, ou inseguro, para arriscar-se 
naquela primeira noite em Chipre, e evita, adia a prova, preferindo cuidar de Montano. A outra sugesto seria de que lago, conhecendo muito bem Otelo, tenha provocado 
a bebedeira e a briga, de modo a distrair o general, impedindo-o de consumar o casamento, caso contrrio as maquinaes de lago seriam totalmente em vo. Essa interpretao 
confere a lago um conhecimento extraordinrio de Otelo, mas tal constatao no ser surpresa para ningum. Podemos indagar por que Shakespeare no nos esclarece 
a questo, mas vale lembrar que o pblico que o cercava era muito mais capacitado  compreenso auricular do que ns. A platia shakespeariana sabia ouvir,- a maioria 
de ns no o sabe, sendo nossa cultura, exageradamente, visual. Shakespeare, sem dvida, no concordaria com Blake, que jamais se interessava pelo que pudesse ser 
explicitado e tomado acessvel ao idiota, mas aprendera com Chaucer a ser sutil e reticente. Antes de analisar, finalmente, o triunfo de lago, sinto-me no dever 
de responder  pergunta que eu mesmo formulei: por que Otelo se casa, se o amor que sente por Desdmona  to-somente uma reao  paixo que a jovem sente por ele? 
Otelo nos diz que h nove meses se encontra em Veneza, longe dos campos de batalha, e, portanto, fora do seu ambiente costumeiro. No pleno desempenho de suas funes, 
estaria imune ao charme de Desdmona, e  franca paixo da jovem pelo mito que ele representava. O idealismo dos dois toma-se iluso mtua: o idealismo  belo, 
mas a iluso teria sido desfeita mesmo se Otelo no tivesse preterido lago, mesmo que, portanto, ainda gozasse da devoo do subordinado, e no fosse alvo do dio 
e do desejo de vingana do mesmo, lago encarrega-se de demonstrar a Otelo que a incapacidade de o general conhecer Desdmona, como pessoa e como mulher, decorre 
da falta
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#HAROLD  BLOOM
OTELO
temem e odeiam as mulheres e a sexualidade no  nem freudiana nem verdadeira, embora a averso  alteridade seja freqente, tanto nos homens quanto nas mulheres. 
Os amantes em Shakespeare, de ambos os sexos, existem em grande variedade,- infelizmente, Otelo no est entre os mais psiquicamente equilibrados. Stephen Greenblatt 
aventa a hiptese de que a converso de Otelo ao cristianismo aumenta a tendncia do Mouro a desprezar a sexualidade, leitura plausvel de questes que a pea coloca 
em evidncia. lago parece dar-se conta disso, e intui a relutncia de Otelo em consumar o casamento,- porm, nem mesmo assim seria lago um componente interno da 
psique de Otelo. Nada supera o poder contaminador de lago, uma vez deflagrada a sua campanha, de maneira que  mais correto afirmar que Otelo passa a representar 
lago, do que pretender ver lago como um aspecto de Otelo. De certo modo, a arte de Shakespeare, manifestada atravs da runa de Otelo nas mos de lago,  por demais 
sutil para ser parafraseada no ato crtico. lago insinua a infidelidade de Desdmona, primeiramente, sem o fazer de maneira direta, apenas cercando a questo de 
um lado e de outro:
IAGO
Eu posso estar errado em minhas conjecturas,
senhor. Pois vos confesso
que, em mim,  uma segunda natureza
o vezo inveterado
de descobrir em toda parte abusos.
E, como os ciumentos, com freqncia
chego a dar forma e realidade a coisas
que no existem. E por isso que vos peo
- e espero tal da vossa inteligncia -
que no deis ateno a quem  to propenso
a julgar tudo mal. E nem vos aflijais
por vagas suspeies sem fundamento.
Em nada serviria ao vosso prprio bem,
 vossa paz de esprito, a mim mesmo,
 minha condio e ao meu decoro,
que eu viesse a revelar-vos... o que penso.
OTELO
Que queres insinuar?
IAGO
Que a boa fama,
para o homem, senhor, como para a mulher,
 a jia de maior valor que se possui.
Quem furta a minha bolsa me desfalca
de um pouco de dinheiro.
 alguma coisa e .nada. Assim como era meu,
passa a ser de outro, aps ter sido de mil outros.
Mas o que me subtrai o meu bom nome
defrauda-me de um bem que a ele no enriquece
e a mim me torna realmente pobre.
OTELO
Ainda hei de desvendar teus pensamentos.
IAGO
No lograreis isso, ainda que tivsseis
meu corao batendo em vossas mos.
E tanto mais enquanto ele pulsar em mim! OTELO
Ah! IAGO
Meu senhor, livrai-vos do cime!
 um monstro de olhos verdes, que escarnece
do prprio pasto de que se alimenta.
Que felizardo  o como
que, cnscio de que o , no ama a sua infiel!
Mas que momentos infernais padece
o que, amando, duvida, e, suspeitando, adora! OTELO
Oh, misria!
[U]
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#HAROLD  BLOOM
O dilogo seria intolervel, no fosse to convincente. lago manipula Otelo, explorando o que o Mouro tem em comum com o Deus ciumento dos judeus, cristos e muulmanos: 
a vulnerabilidade  traio. Tanto Jav como Otelo tomam-se vulnerveis por se arriscarem em um relacionamento: Jav com os judeus, Otelo com Desdmona. lago, 
cujo lema  "Nunca mostro quem sou!", triunfa ao transferir a Otelo essa negatividade, at o Mouro esquecer que  um ser humano e tomar-se a encarnao do cime, 
uma pardia do Deus vingador. Subestimamos lago quando o consideramos apenas um dramaturgo do humano e um psiclogo genial,- sua fora maior  como ontotelogo negativo, 
profeta diablico com vocao para a destruio. lago no  o demnio cristo, nem pardia do mesmo,-  um artista livre que cria a si prprio, singularmente capaz, 
por meio de sua experincia e genialidade, de armar ciladas para espritos maiores que o seu, e subjug-los a partir de suas prprias falhas. Em peas que contam 
corn a presena de gnios  sua altura - um Hamlet, ou um Falstaff -, lago no passa de um rebelde frustrado. Porm, em meio a tolos e vtimas - Otelo, Desdmona, 
Cssio, Rodrigo e mesmo Emlia, at ser transformada pela ira -, lago mal precisa pr em prtica todo o seu poderio. Dentro dele arde um fogo permanente, e a hipocrisia 
que lhe reprime a intensidade satrica, nos contatos com os que o cercam, evidentemente, causa-lhe grande sofrimento.
Da o grande alvio, o xtase, que o personagem demonstra em seus extraordinrios solilquios e apartes, em que aplaude o prprio desempenho. Ainda que, por fora 
de retrica, lago invoque uma "entidade do inferno", nem ele nem ns temos motivos para crer que algum demnio o esteja ouvindo. Embora casado, alferes estimado 
e, supostamente, ."honesto", lago  figura to solitria quanto Edmundo, ou Macbeth, depois que Lady Macbeth enlouquece. Prazer, para lago,  o sadomasoquismo; para 
Otelo, consiste em exercer, condignamente, o comando. Otelo ama Desdmona, ainda que, basicamente, em resposta ao amor que a jovem revela pelo passado triunfante 
do heri. Preterido, ou seja, anulado, lago decide converter seu sadomasoquismo em "contratriunfo", que h de faz-lo comandar o comandante, e trans-
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OTELO
formar em divindade degradada o deus por ele at ento venerado. O caos que Otelo, com razo, tanto temia, caso deixasse de amar Desdmona,  o elemento natural 
que cerca lago desde a promoo de Cssio. Desse caos, lago surge como um novo demiurgo, um mestre da
destruio.
Ao propor lago como ontotelogo, desenvolvo a tese defendida por A. C. Bradey sobre o "ressentimento" do alferes preterido, e aduzo a idia de que, no caso de grandes 
negaes, o ressentimento pode  se tornar o nico mecanismo de liberdade, como se d com os discpulos de lago encontrados em Dostoievsky: Svidrigailov e Stavrogin. 
Tais personagens podem parecer insanos, se comparados a lago, mas dele herdaram a lucidez inspita e a poltica do arbtrio. Ren Girard, terico da inveja e da 
discriminao, v no discurso de lago a expresso de um cime de natureza sexual por Otelo. A noo  parte do ardil do prprio lago, o que acrescenta uma ironia 
desnecessria  reduo que Girard faz de toda a obra shakespeariana a "um teatro da inveja". Tolstoy, que se sentia profundamente ofendido por Shakespeare, queixava-se 
da motivao de lago: "H muitos motivos, mas so todos vagos". Sentir-se trado por um deus, seja Marte ou Jav, e buscar a reparao do amor-prprio ferido, a 
meu ver, constituem os motivos mais justificveis para qualquer vilo,- da o desgnio de fazer o deus retornar ao abismo no qual o vilo j se encontra. Em seu 
estranho cristianismo racionalista, Tolstoy no era capaz de reimaginar o cristianismo negativo de lago.
lago est entre os "atores" shakespearianos mais talentosos, sendo comparvel a Edmundo e Macbeth, e chegando quase ao nvel de Rosalinda, Clepatra, Hamlet e Falstaff, 
os quatro grandes carismticos. O carisma negativo  um estranho dom,- na obra de Shakespeare, tal carisma  representado, de maneira singular, por lago, e a maioria 
das posteriores reencarnaes literrias do referido carisma muito devem a lago. Edmundo, apesar de sua prpria natureza, possui uma caracterstica de Domjuan, o 
distanciamento, a ausncia da hipocrisia que  fatal quelas grandes hipcritas, Goneril e Regan. Macbeth, cuja imaginao proftica  dotada de uma fora universal, 
cativa a nossa simpatia, por mais sanguinrios que sejam seus atos. O apelo que lago exerce sobre
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#HAROLD   BLOOM
OTELO
ns advm da fora do negativo, que nele ocupa a totalidade do ser, e que, em Hamlet, ocupa apenas uma parte. Todos temos nossos deuses a quem adoramos, e por quem 
jamais aceitaramos ser rejeitados. Os Sonetos tm por base a dolorosa rejeio do poeta, por parte de um jovem nobre, rejeio essa que  mais do que ertica, e 
que parece estar expressa na execrao pblica de Falstaff durante a coroao de Hal. Para entendermos Otelo, e apreendermos as implicaes das palavras abaixo, 
ser preciso imaginarmos a humilhao de lago ao ser preterido por Cssio:
[...] No obstante ter-lhe horror como s penas infernais, vejo-me constrangido, para atender s circunstncias do momento, a iar para ele a bandeira da Amizade. 
S a bandeira!
[Li.]
O alferes, ou porta-bandeira, que, no campo de batalha, defenderia com a prpria vida as cores de Otelo, expressa acima seu repdio pela "religio" de outrora, 
em palavras absolutamente centrais  pea. A devoo ao deus da guerra passa a ser apenas uma bandeira, ainda que, a essa altura, a vingana seja um desejo e no 
um projeto. Como deus da guerra, por mais grandioso, Otelo  figura menos temida do que o Deus dos judeus, cristos e muulmanos, mas, com aguado instinto ontolgico, 
lago associa o cime de um deus ao do outro:
Simulando esquec-lo, deixarei
o leno, de propsito, no quarto
de Cssio, a fim de que ele possa ach-lo.
Para o bom ciumento, ninharias,
bagatelas to leves como o ar,
valem como verdades do Evangelho.
O leno ajudar... J sob o efeito
do meu veneno o Mouro est mudado.
Nesses temperamentos, as suspeitas
agem como peonhas, que a princpio
i
l
i
provocam nuseas apenas, mas depois, atuando sobre o sangue, logo queimam como poos de enxofre. Bem que eu disse!
(Entra Otelo.)
[Ill.iii.]
Mesmo invertida, a smile funciona perfeitamente bem: verdades do Evangelho valem muito para o Deus ciumento, mas ninharias, bagatelas to leves como o ar, podem 
provocar Jav, que, em Nmeros, conduz os israelitas atravs do deserto. Otelo enlouquece, e o mesmo ocorre com Jav em Nmeros. O orgulho de lago, ao afirmar "Bem 
que eu disse!", enseja uma melodia crtica que  nova at mesmo em Shakespeare, e que vai gerar a esttica de John Keats e Walter Pater. J totalmente obcecado, 
Otelo cambaleia sobre o palco, sendo saudado pelo mais belo rompante do triunfo de lago:
Vejam como ele vem!
Nem papoula ou mandrgora, nem todas
as poes soporferas do mundo
podem restituir-te o sono calmo
em que ontem te embalavas!
[Ill.iii.]
Se fossem apenas a expresso de um regozijo sdico, tais palavras no nos desfeririam golpe to mortal,- uma nostalgia masoquista mistura-se  satisfao de destruir, 
enquanto lago sada, a um s tempo, seu prprio feito e a conscincia que Otelo jamais haver de recuperar. A arte de Shakespeare, sutil como lago, atinge aqui o 
ponto mximo, pois -nos dado perceber que Otelo desconhece a verdade porque desconhece a prpria esposa. Seja qual for o motivo da hesitao de Otelo, no sentido 
de consumar o casamento, ele se v agora incapaz de faz-lo, e, assim, no poder apurar a verdade sobre Desdmona e Cssio:
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OTELO
Mesmo que a toda a tropa, incluindo os faxineiros, ela houvesse entregado o gozo do seu corpo, ainda assim eu podia ser feliz, desde que o no soubesse. Mas agora! 
Agora e para sempre, adeus, sossego da alma! Adeus, contentamento! Adeus aos batalhes de esvoaantes penachos coloridos,  flama das batalhas
- que transforma a ambio em herosmo! Relinchantes corcis! Estrdulas fanfarras! Estrpitos! Rufar de tambores marciais! Altssonos clarins e pfanos! Pendes! 
Estandartes reais e flmulas ao vento, adeus! adeus! Adeus s pompas e apetrechos gloriosos da guerra! Nunca mais os relmpagos de fogo dos engenhos mortferos que 
atroam em formidandos roncos, contrafazendo a clera de Jpiter! Nunca mais! Nunca mais! Finda  a misso de Otclol
[Ill.iii.]
Esse adeus s armas,  moda de Hemingway, expressa, precisamente, a preocupao de Hemingway com relao  freqente mescla de machismo e inteno de esconder o 
medo da impotncia. No houve tempo, desde a cerimnia de casamento, seja em Veneza ou em Chipre, para um encontro sexual entre Desdmona e Cssio, mas Cssio atua 
como uma espcie de mediador entre Otelo e Desdmona. No fundo, o adeus de Otelo remete-se aqui a qualquer possibilidade de consumao sexual entre ele e Desdmona,- 
a melodia da glria militar perdida tem um contracanto no qual a mquina marcial  mais eloqente do que os canhes. Se  finda a misso de Otelo, o mesmo ocorre 
corn a sua hombridade, e com esta, vai-se o orgulho, a pompa, a glria que
citaram a paixo de Desdmona. Reinstala-se "o caos, e desaparece a identidade ontolgica de Otelo, no momento maior da vingana de lago marcado pela sublime pergunta 
do vilo: "Ser possvel, meu senhor?". O que se segue  a hora decisiva da pea, na qual lago percebe, pela primeira vez, que Desdmona deve ser morta por Otelo:
OTELO Infame!
Trata j de provar que o meu amor no passa de uma rameira! D-me uma prova ocular, que eu quero ver com estes meus prprios olhos! Seno, fora melhor teres nascido 
co que enfrentar minha clera, eu te juro!
IAGO
Mas chegastes a tanto? OTELO
Faz que eu veja!
Ou pelo menos prova-o de tal forma
que a prova nem sequer deixe uma fresta,
por mnima que seja,
por onde a menor dvida se esgueire!
Do contrrio, ai de ti! IAGO
Nobre senhor... OTELO
Se hs de caluni-la e a mim me torturares,
no faas nunca mais uma orao, sequer.
No tenhas mais escrpulo nenhum,-
procura acumular horrores sobre horrores,-
pratica os mais abominveis atos,
capazes de mover o cu e de abalar
a terra, - que ainda assim nada acrescentars
 tua maldio de mais terrvel que isto!
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#HAROLD  BLOOM
At esse momento, as maquinaes de lago tinham por objetivo a destruio da identidade de Otelo, justa reparao pelas perdas incorridas. Subitamente, lago depara-se 
corn uma grave ameaa que acaba por  se tornar uma oportunidade: ele ou Desdmona, um dos dois, haver de morrer, sendo que a morte de Desdmona haveria de coroar 
a destruio de Otelo. Como satisfazer a exigncia de Otelo por uma "prova ocular"?
IAGO
E podeis t-las.
Mas, como? Sim, que provas sugeris?
Ficar embasbacado, a espiar por um buraco,
e v-la ser coberta? OTELO
Oh! Morte! Inferno! IAGO
A mim se me afigura que seria,
sobre enfadonha, empresa bem difcil
fazer com que eles vos proporcionassem
espetculo tal. Diabos os levem,
se, por alheios olhos, se deixarem
surpreender numa postura dessas!
E agora? Que fazer? E que quereis que eu diga?
E que outra prova vos satisfaa?
Como disse,  impossvel ver a coisa.
Nem que estivessem to luxuriosos
como bodes e cabras, to ardentes
como macacos e desenfreados
como lobos no cio - e estpidos e broncos
tais quais os aldees que se embebedam!
Mas, se fortes indcios e evidncias,
veementes como probabilidades
que conduzem  porta da certeza,
vos satisfazem... isso podeis ter.
[Hl-iii.]
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OTELO
A nica prova ocular irrefutvel  aquela que Otelo jamais tentar obter, como lago bem o sabe, pois o Mouro no haver de testar a virgindade da esposa. Shakespeare 
mostra-nos o cime masculino centrado em obsesses visuais e temporais, devido ao receio que tm os homens de no poder contar com tempo e espao suficientes. lago 
manipula, com firmeza, o grande temor de Otelo, e posiciona-se, por assim dizer, diante da nica porta capaz de levar  verdade, a "porta" de entrada para Desdmona. 
O melhor dos psiclogos no poderia superar lago, no controle de Otelo, quando o alferes aproveita-se do momento exato para mencionar o "leno", com o qual "Cssio 
esteve enxugando / a sua barba, hoje [..".]", e acrescenta: "ou eu muito me engano, / ou era mesmo o tal da vossa esposa". O melhor dos dramaturgos no poderia superar 
lago, que to bem sabe explorar o gesto teatral de Otelo, ajoelhando-se para jurar vingana:
OTELO
Assim meus pensamentos sanguinrios,
no seu curso veloz, sem olhar para trs,
sem refluir jamais para um amor humilde,
iro avante, at que possam desaguar
no vasto sorvedouro da vingana! (Ajoelha-se.)
Por este cu marmreo e com esta reverncia,
que  a dos votos sagrados, nisso empenho
minha palavra! IAGO
No vos levanteis!
Sede-me testemunhas,
cintilaes do cu que, eternamente,
refulgis e pairais l em cima sobre ns,
sempre, por toda a parte, onde quer que estejamos!
Testemunhai que aqui consagra lago
todo o engenho e o labor do seu entendimento,
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#HAROLD  BLOOM
mo para executar, corao para amar,
tudo, a servio do ultrajado Otelo!
Que ele ordene o que for, e cegamente
eu obedecerei! Seja para matar!
(Ercjuem-se.) OTELO
Eu te agradeo a oferta de tal voto,
no com palavras vs de gratido,
porm, do fundo da alma. E desde j
te ponho  prova: dentro de trs dias
quero ouvir-te dizer que Cssio j no vive, IAGO
Pois j morreu, morreu o meu amigo!
J que assim ordenais, assim ser.
Mas que ela, que ela viva! OTELO
Antes maldita seja!
Maldita! Descarada! Dissoluta!
Vamos l para dentro.
Quero assentar contigo um meio fulminante
de dar a morte quele belo diabo.
Doravante sers o meu tenente! IAGO
Sou vosso para sempre!
[IH.iii.]
Isso  grande teatro, sendo lago o diretor: "No vos levanteis!". Trata-se, tambm, de uma contrateologia, que vai alm da negociata de Fausto com o diabo, pois 
os astros e os elementos servem de testemunhas de um pacto assassino, que culmina com a reverso do quadro inicial, em que lago fora preterido. As palavras "Doravante 
sers o meu tenente!" tm um sentido bastante diverso do que Otelo  capaz de captar, ao passo que a resposta "Sou vosso para sempre!" sela o destino astral de Otelo. 
Resta to-somente a queda e a derrocada de todos os envolvidos na trama.
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OTELO
Shakespeare promove imenso patbos ao s revelar Desdmona em toda a sua natureza e esplendor quando temos certeza de que est condenada. Para Samuel Johnson, a morte 
de Cordlia era insuportvel,- a morte de Desdmona, na minha experincia como leitor e espectador,  ainda mais dolorosa. Shakespeare faz da cena um sacrifcio 
religioso, dotado de contedo contrateolgico to sombrio quanto o niilismo de lago e o cime "divino" de Otelo. Embora, em seu desespero, Desdmona se declare crist, 
ela no morre como mrtir,- na verdade,  apenas mais uma vtima de algo que poderia ser chamado de religio de Moloque, pois  sacrificada ao deus da guerra antes 
adorado por lago: o Otelo por lago reduzido  incoerncia. "Finda  a misso de Otelo"; uma relquia rota de Otelo mata em nome dessa misso, pois  a nica que 
ele conhece, e ele agora  apenas um espectro do que fora.
Recentemente, Millicent Bell desenvolveu o argumento de que a tragdia de Otelo  epistemolgica, mas s lago tem intelecto suficiente para que uma tese desse tipo 
conte com a devida sustentao, e lago no demonstra grande interesse nos processos que o levam ao conhecimento das coisas. Otelo, assim como Rei Lear e Macbetb, 
 uma radical viso do mal,- Hamlet  a tragdia shakespeariana sobre um intelectual. Embora Shakespeare jamais se comprometesse com temas especificamente cristos, 
em Macbetb, ele se aproxima de uma tragdia gnstica, ou hertica, conforme veremos adiante. Otelo no tem uma dimenso transcendental, talvez, porque a religio 
da guerra no o permita. lago, que faz um novo pacto com Otelo no momento em que se ajoelham lado a lado, vivera e lutara segundo algo que, a seu ver, seria um 
pacto com o general - at ser preterido por Cssio. Adepto do fogo da batalha, lago, sentindo-se injustiado por seu deus, causa-lhe a degradao, reduzindo-o a 
um "honrado assassino", na paradoxal viso do prprio Otelo, expressa ao final da pea. Poder tal degradao permitir a dignidade necessria a um protagonista trgico?
A. C. Bradey considerava Otelo inferior a Hamlet, Rei Lear e Macbetb, principalmente, porque, em Otelo, no temos as foras universais
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#HAROLD  BLOOM
invadindo os limites do humano. A meu ver, essas foras pairam acima de Otelo, mas manifestam-se (ainda que to-somente) no plano intermedirio que separa a relao 
que existia entre lago e Otelo, antes do incio da trama, do processo de degradao observado posteriormente. lago  figura terrvel porque possui habilidades fantsticas, 
talentos dignos de um fiel devotado cuja f foi transformada em niilismo. Caim, rejeitado por Jav em favor de Abel,  pai de lago, assim como lago  o precursor 
do Satans de Milton, lago mata Rodrigo e fere Cssio, mas a idia de lago esfaquear Otelo  to inconcebvel para o prprio lago quanto para ns. Quando somos rejeitados 
por nosso deus, temos de atingi-lo espiritual ou metafisicamente, e no apenas fisicamente. O maior triunfo de lago  que o Otelo derrotado sacrifica Desdmona em 
nome do Otelo deus da guerra, do guerreiro solitrio pelo qual, desavisada, ela se apaixonara. Talvez, por isso, Desdmona no oferea qualquer resistncia, e se 
defenda de maneira to dbil, tanto com relao  virtude quanto  vida. Assim,  acentuada a vitimao da personagem, e o horror que sentimos diante do quadro 
torna-se maior. Ainda que a crtica no se tenha dado conta, a guerra e a violncia (seja ou no organizada) no eram temas caros a Shakespeare. As grandes mquinas 
mortferas criadas pelo dramaturgo tm finais amargos: Otelo, Macbeth, Antnio, Coriolano. O guerreiro predileto de Shakespeare  Sir John Falstaff, cujo lema : 
"Dem-me vida!". O lema de Otelo poderia ser: "Dem-me honra!", que pudesse justific-lo matar a esposa que jamais conheceu, ato, supostamente, no cometido "corn 
dio, mas em defesa da honra". Mesmo dotado de terrveis defeitos, e de um verdadeiro vazio interior, Otelo  o melhor exemplar de soldado mercenrio disponvel 
naquele momento. Aquilo que lago um dia havia venerado era algo bastante real, embora mais vulnervel do que o prprio lago supunha. com muita sutileza, Shakespeare 
insinua que a remota nobreza de Otelo e a incoerente brutalidade mais tarde por ele demonstrada so duas faces do deus da guerra, de um deus da guerra que permanece 
o mesmo. E finda a misso de Otelo, em parte, porque ele se casa. O ressentimento reprimido - e no o ardor fsico - instiga Otelo  desforra pela autonomia perdida, 
alegando defesa da honra.
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OTELO
Q triunfo mais verdadeiro de lago surge quando Otelo perde a noo dos limites da guerra, e abraa a campanha permanente de lago contra a autenticidade. O credo 
de lago - "Nunca mostro quem sou!" - toma-se o grito sufocado de Otelo. A celeridade da inevitvel queda de Otelo arece constituir, ao mesmo tempo, o nico ponto 
fraco e o grande mpeto de persuaso da pea, mpeto esse to persuasivo quanto o
prprio lago.
A morte de Desdmona inspira tamanho pathos que Shakespeare corre o risco de garantir, para sempre, a nossa antipatia por Otelo:
DESDMONA     -
Enxotai-me, senhor,
no me mateis! OTELO
Rasteja, prostituta! DESDMONA
Ou matai-me amanh!
Deixai que eu viva s por esta noite!
OTELO
No! Se resistes... DESDMONA
Meia hora ao menos! OTELO
No se interrompe o que se comeo". DESDMONA
O tempo de dizer uma orao! OTELO
Agora  tarde!
[V.H.]
Como em uma pera, Shakespeare permite a Desdmona, na hora da morte, a oportunidade de desobrigar Otelo, o que seria algo incrvel, no fosse ela, segundo a tocante 
definio de Alvin Kernan, "a palavra shakespeariana que significa amor". Somos levados a crer que essa ter
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#HAROLD  BLOOM
sido a mais pura das jovens, to fiel ao prprio assassino que as ltimas palavras, exemplares, so quase irnicas, diante da degradao de Otelo.- "[...] D lembranas 
minhas /ao meu senhor querido... adeus... adeus...". E-nos praticamente impossvel suportar a idia de que Otelo rejeite a ltima demonstrao de amor da jovem: 
"E como o que ela disse /  mentira, ela ir arder no inferno! / Quem a matou fui eu!". Os influentes ataques da crtica moderna a Otelo, da parte de T. S. Eliot 
e F. R. Leavis, so fundamentados na argumentao (se  que se trata de um argumento) do somatrio de brutalidade, estupidez e culpabilidade observado no personagem. 
Mas Shakespeare concede a Otelo um memorvel resgate, ainda que parcial, em uma extasiante e derradeira fala: --
Um momento! Antes de irdes, escutai-me
uma ou duas palavras. Bons servios
prestei eu a Veneza, e isto  sabido.
Quanto a esta parte,  s. Mas quando relatardes
estes funestos acontecimentos,
descrevei-me qual sou, sem nada atenuar,
nem tampouco agravar, com maligno intuito.
Assim fazendo, falareis de um homem
que, sem saber amar, amou profundamente,
e, sem ser ciumento, compelido
ao cime enlouqueceu.
De um homem cuja mo, como a do ndio pobre,
sem lhe saber o preo, atirou fora
a mais preciosa prola da tribo.
De algum que, de olhos baixos, nada afeito
sequer  emoo, lgrimas verte
prodigamente, como as rvores da Arbia
vertem sua resina perfumosa...
Escrevei isso... E acrescentai ainda
que, uma vez, cr^ Alepo, como um turco
perverso, ao espancar um veneziano,
do alto do seu turbante
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OTELO
ousasse dirigir ultrajes a Veneza, pela goela agarrei o co circuncidado e o castiguei assim!
(Apunhala-se.)
[V..]
Bastante problemtico, esse clebre rompante  causador de grande controvrsia crtica, mas a interpretao de Eliot e Leavis, de que Otelo, no fundo, tenta aqui 
se animar, no procede. O Mouro  um dos personagens shakespearianos mais divididos,- no devemos levar a srio a absurda falta de viso expressa nas palavras "um 
homem / que, sem saber amar, amou profundamente", nem o cmulo do auto-engano, quando afirma no ser ciumento. No entanto, comove-nos a verdade contida nas palavras 
"compelido / ao cime enlouqueceu". E nenhum crtico sensato deixar de se impressionar com a sentena que Otelo exara para si mesmo: que  se tornara inimigo de 
Veneza, e, portanto, deve morrer. Seu suicdio nada tem de romano: Otelo passa a sentena e encarrega-se da execuo. Resta-nos indagar o que Veneza faria, tivesse 
ele se permitido viver. Arrisco-me a conjeturar que Otelo busca impedir a provvel deciso poltica da cidade-Estado: poup-lo e dele fazer uso na prxima ocasio 
de perigo. Cssio no  nenhum Otelo, o Estado no tem substituto  altura do Mouro, e, com efeito, voltaria a empregar seus servios, sem dvida, ainda que mediante 
algum mecanismo de controle. Todas as falhas que lago percebera e explorara em Otelo esto presentes nessa fala final, mas est presente, tambm, uma viso, um julgamento 
final, em que Otelo abandona a nostalgia das guerras gloriosas, e, pateticamente, busca expiar o que no pode ser expiado - pelo menos, no com um adeus s armas.
S7
#25
REI  LEAR
l) ei Lear, assim como Hamlet, em ltima anlise, confunde a crtica.
JL VDe todas as peas shakespearianas, essas contm uma magnitude que, talvez, transcenda os limites da literatura. Rei Lear e Hamlet, como o texto bblico da tradio 
de Jav (o mais antigo do Pentateuco) e o Evangelho de Marcos, anunciam o princpio e o fim da Natureza e do destino humanos. Tal afirmao pode parecer um tanto 
exagerada, mas est absolutamente correta/ a Ilada, o Alcoro, a Divina Comdia, de Dante, e o Paraso Perdido, de Milton so as nicas obras comparveis no mbito 
do que ainda podemos chamar de tradio ocidental. Isto significa que Hamlet e Rei Lear tomaram-se uma espcie de Escritura Secular, ou mitologia, destinos surpreendentes 
para duas peas teatrais que quase sempre foram objeto de sucesso comercial.
A leitura de Rei Lear, em especial,  experincia rara. Sentimo-nos, a um s tempo, constrangidos e  vontade,- para mim, nenhuma outra experincia individual pode 
ser to gratificante. Enfatizo a questo da leitura, mais do que nunca, porque, invariavelmente, quando assisto a montagens da pea, arrependo-me. Diretores e atores 
so derrotados pela pea, e, infelizmente, chego a concordar com Charles Lamb: devemos ler e reler Rei Lear e evitar as encenaes, sempre aqum do texto. Essa 
posio coloca-me em choque com a crtica acadmica do presente sculo, e com todos os profissionais de teatro que conheo, mas, nesse particular, oposio  sinal 
de verdadeira amizade. Para o bem da teoria,
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REI  LEAR
o papel de Lear deveria ser encenvel,- se no somos capazes de faz-lo, a falha est em ns, e no declnio de nossa cultura cognitiva e letrada. Bombardeados pela 
televiso, por filmes e computadores, nossos ouvidos, internos e externos, tm dificuldade em apreender o zumbido dos pensamentos de Shakespeare, que escapam  nossa 
mente. Sendo A Tragdia do Rei Lear, provavelmente, o mximo da experincia literria, no podemos nos dar ao luxo de perder a capacidade de confront-la. O sofrimento 
de Lear cala fundo em quase todos ns, pois os tormentos do conflito entre geraes so, necessariamente, universais.
O sofrimento dej j foi apontado como paradigma para a provao de Lear,- houve tempo em que aceitei tal paralelo, lugar-comum na crtica, mas hoje em dia ele no 
me convence. O paciente J, na verdade, no  to paciente, apesar de sua reputao, e Lear  o prottipo da impacincia, embora diga o contrrio e, de modo comovente, 
pea pacincia a Gloucester, cego. A desproporo entre o sofrimento de J e de Lear  considervel, pelo menos, at Cordlia ser morta. A meu ver, Shakespeare tinha 
em mente outro modelo bblico: o Rei Salomo. No me refiro a Salomo em toda a sua glria - em Reis, Crnicas e, indiretamente, em Cntico dos Cnticos - mas ao 
monarca idoso, no fim de seu reinado, sbio, mas exacerbado, o suposto pregador do Eclesiastes e de A Sabedoria de Salomo, nos Livros Apcrifos, o suposto autor 
de Provrbios. Presumivelmente, Shakespeare ouvira, quando jovem, leituras de trechos da Bblia dos Bispos, e, j maduro, teria lido a Bblia de Genebra. Visto que 
escreveu Rei Lear enquanto estava a servio do Rei Jaime I, que gozava da reputao de ser o tolo mais sbio da cristandade, Shakespeare, talvez, tenha concebido 
Lear sob a influncia da grande admirao que Jaime tinha por Salomo, o mais sbio dos reis. Admito que poucas pessoas associem, prontamente, Lear a Salomo, mas 
o prprio Shakespeare deixa clara a associao ao fazer com que Lear se refira a esse clebre trecho de A Sabedoria de Salomo, 7:1-6:
Eu tambm sou mortal como todos os outros, descendente do primeiro ser que foi formado da terra. Fui feito de carne no ver*"
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#HAROLD  BLOOM
de minha me, em dez meses,- fui solidificado no sangue, fruto do smen de um homem e do prazer que acompanha o sono. Quando nasci, respirei o ar comum. Ca sobre 
a terra que recebe a todos igualmente e chorei como todos os outros. Fui envolto em fraldas e cercado de cuidados, porque nenhum rei comeou a viver de outra forma. 
A entrada e a sada da vida  igual para todos.
(Bblia de Genebra)
Sem dvida esse  o trecho aludido por Lear, no comovente sermo a Gloucester:
LEAR
Se quer chorar por mim, tome meus olhos,-
Eu o conheo bem,- seu nome  Gloucester,-
Pacincia. Ns nascemos chorando.-
Sabe que logo que cheiramos ar
Ns gritamos. Oua o meu sermo. GLOUCESTER
Ai, ai, que dia triste! LEAR
Nascidos, ns choramos por chegar
A este palco de tolos.
[IV.vi]
Depois de Salomo, o reino foi dividido, conforme no caso de Lear. Mas no creio que a questo da catstrofe de reinados tenha levado Shakespeare a recorrer ao idoso 
Salomo para a construo do personagem de Lear. Shakespeare buscou algo que atualmente no costumamos enfatizar nas anlises crticas do Rei Lear: um paradigma 
de grandeza. Hoje em dia, quando analiso a pea em sala de aula, comeo
! Rei Lear. Traduo de Barbara Heliodora. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1998. Todas as citaes referem-se a essa edio. [N.T]
590
REI  LEAR
insistindo na grandeza inicial de Lear, pois meus alunos tm dificuldade de perceb-la, de to fora de moda que est a sublimidade patriarcal. Lear , ao mesmo tempo, 
pai, rei e uma espcie de deus mortal,-  a imagem da autoridade masculina, talvez a ltima representao do Homem Branco Europeu Falecido. Salomo reinou durante 
cinqenta anos, e, para Jaime I, era o arqutipo do governante: glorioso, sbio, rico, ainda que a atrao de Salomo por mulheres no fosse observvel em Jaime, 
sexualmente indeciso. Lear no , em absoluto, um retrato de Jaime,- o patrono real de Shakespeare, com toda certeza, tinha simpatia - mas no empatia - por um 
Lear que divide o reino. A grandeza de Lear, porm, seria do interesse de Jaime, que, tanto quanto Lear, considerava-se Rei, dos ps  cabea. Acho que Jaime reconheceria 
no idoso Lear o idoso Salomo, ambos octogenrios, ambos necessitados e carentes de amor, ambos dignos de amor.
Quando interpreto Rei Lear em sala de aula, comeo lembrando aos alunos que, no decorrer dos dois primeiros atos, por menos simptico que seja, Lear  muito estimado 
por Cordlia, pelo Bobo, por Albany, Kent, Gloucester e Edgar - isto , por todos os personagens que na pea so bons - assim como  odiado e temido por Goneril, 
Regan, Comwall e Oswald, os viles menores da pea. O grande vilo da histria, o extraordinrio e incrvel Edmundo,  frio, indiferente a Lear, assim como ao prprio 
pai, Gloucester, ao meio-irmo Edgar, e s amantes, Goneril e Regan. Shakespeare  absolutamente genial ao fazer com que Edmundo e Lear no troquem uma palavra 
sequer na pea, pois os dois personagens so antteses apocalpticas: o rei  todo sentimento,- Edmundo carece de qualquer afetividade. O ponto crucial que a pea 
logo pe em evidncia, at onde podemos entender,  que Lear  digno de amor, e muito amado por aqueles que merecem o nosso apreo e a nossa aprovao.
Claro est, qualquer pessoa pode ser amada e ainda querer mais. Algum como Rei Lear, que conhea to pouco a si mesmo, ter uma carncia de afeto quase apocalptica, 
especialmente com relao  nica filha amada, Cordlia. Desde logo, a pea enfatiza no apenas a bondade de Lear e o ressentimento de Goneril e Regan, cansadas 
de serem
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#HAROLD BLOOM
preteridas pela irm, mas tambm - e de modo mais marcante - a recalcitrncia de Cordlia diante da contnua solicitao de um amor total, que vai at mesmo alm 
do apreo sincero que ela sente pelo pai to emocional. A personalidade austera de Cordlia  uma espcie de reao  afetividade transbordante de Lear. Uma das 
peculiaridades do enredo duplo desenvolvido por Shakespeare  que Cordlia, apesar de ter importncia fundamental para o Rei, desempenha, na pea, uma funo bem 
menos crucial do que Edgar, personagem respectivo no enredo paralelo. Shakespeare salta vrios reinados de modo a permitir que Edgar suceda Lear como rei da Britnia. 
Segundo a tradio, ainda corrente  poca de Shakespeare, ao Rei Edgar era atribuda a melanclica faanha de ter livrado a Britnia dos lobos que a infestaram 
depois da morte de Lear.
H quatro grandes papis em A Tragdia do Rei Lear, embora a maioria das montagens da pea no os aponte. O papel de Cordlia, a despeito de toda a sua dimenso 
pattica, no  um dos quatro/ tampouco tm os papis de Goneril e Regan a grandeza dramtica dos papis de Lear e do Bobo. Os personagens de Edmundo e Edgar, meio-irmos 
antiteticamente posicionados, requerem atores de talento e fora, tanto quanto os papis de Lear e do Bobo. Tive a oportunidade de ver alguns Edmundos convincentes,- 
h muitos anos, em Nova York, vi o melhor de todos, Joseph Wiseman, que salvou uma montagem infame, em que Louis Calhem, no papel de Lear, remetia-me  sua atuao 
anterior bem mais adequada, como Embaixador Trentino, em Diabo a Quatro, dos irmos Marx. Wiseman fez um Edmundo que era uma mistura de Leon Trotsky e Dom Giovanni, 
mas a interpretao foi extremamente bem-sucedida, e o texto da pea justifica muito bem a estranha mescla.
Muitos leitores e ouvintes de Shakespeare vem-se, perigosamente, cativados por Edmundo, assim como por lago, mas  Edgar, obstinado e reprimido, na verdade, o grande 
enigma, papel to difcil que jamais vi um nico Edgar aceitvel. A pgina de rosto da primeira edio in-cjuarto de Rei Lear atribui um destaque raramente concedido 
pela crtica a Edgar:
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REI  LEAR
Sr. William Shakespeare: A Verdadeira Histria da vida e morte do Rei Lear e suas trs Filhas. Incluindo a vida infeliz de Edgar, filho e herdeiro do Conde de Gloucester, 
e a sombria identidade por ele simulada como tom de Bedam...
Em Shakespeare, "sombrio" sugere melancolia ou depresso, tipo de loucura simulada por Edgar em seu disfarce como tom de Bedam. O Conde de Kent disfara-se de 
Caio para servir Lear. Edgar, realizando, no enredo paralelo, a fuga correspondente, humilha-se, descendo ao fundo da estratificao social. Por que o personagem 
adota o disfarce mais inferior possvel? Ser uma autopunio por ter sido to ingnuo, por ter compartilhado da inabilidade do pai de perceber a brilhante dissimulao 
de Edmundo? A abnegao de Edgar na pea  de tamanha desproporo que somos levados a reconhecer nele uma recalcitrncia comparvel  de Cordlia, ainda que muito 
mais exacerbada. Seja como louco ou pobre campons, Edgar rejeita a prpria identidade por questes que vo alm de aspectos prticos. A manifestao mais extraordinria 
dessa rejeio  a relutncia constante de Edgar em revelar-se a Gloucester, seu pai, mesmo no momento em que Edgar salva o Conde cego das garras do desprezvel 
Oswald, e do suicdio, aps a derrota de Lear e Cordlia. Somente quando est perto de recuperar o status perdido, pouco antes de desafiar Edmundo para um embate 
mortal, Edgar revela-se a Gloucester, pedindo a bno paterna antes do duelo. O embate, em que se d o reconhecimento,  uma das grandes cenas que Shakespeare deixa 
de escrever, sendo relegada ao relato que Edgar faz a Albany depois que Edmundo sofre o ferimento mortal. Por que Shakespeare preferiu no dramatizar o evento?
Uma resposta de cunho teatral seria que as complicaes do enredo duplo, por si s, eram to substanciais que Shakespeare teria declinado de arriscar mais complexidade. 
Mas a audcia shakespeariana  tamanha que me faz duvidar de tal resposta. Lear desperta lcido, e reconcilia-se com Cordlia, em uma cena que a todos encanta. 
A reconciliao entre tdgar e Gloucester, ainda que a emoo intensa aniquile o cego sofredor, seria cena quase to comovente quanto a de Lear e Cordlia.
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#HAROLD  BLOOM
REI  LEAR
Embora atribuamos maior importncia ao Bobo, ou ao sedutor - e assustador - Edmundo, o subttulo da pea leva-nos a Edgar, que h de herdar o reino destrudo. A 
renncia de Shakespeare, ao abster-se de escrever a cena em que Edgar se revela a Gloucester, necessariamente, acentua mais o personagem de Edgar, que apresenta 
o relato da mesma, do que o do pai. com tal procedimento, e para atender s exigncias do enredo paralelo, Shakespeare mostra-nos muito da personalidade de Edgar, 
embora j tenhamos bastante conhecimento sobre o referido papel, exemplo de pathos e valor de um amor filial bem mais abrangente que o de Cordlia. Volto, portanto, 
 questo da humilhao voluntria a que Edgar se submete.
Se pudssemos falar de um cerne potico, em lugar de dramtico, para a tragdia em questo, escolheramos o encontro entre um Lear louco e um Gloucester cego (ato 
IV, cena vi). Justificadamente, Sir Frank Kermode assinala que o encontro em nada contribui para o andamento do enredo, ainda que expresse o que h de melhor na 
arte de Shakespeare. Como espectadores ou leitores, concentramos nossa ateno em Lear e Gloucester, mas  Edgar que estabelece o tom do quarto ato, com as palavras 
que o iniciam: "Mudana triste  a que deixa o bom,- / O pior s melhora". No entanto, a entrada de Gloucester, cego, toma sombrio qualquer consolo, levando Edgar 
a repensar: "Quem pode,  Deus, dizer "Isto  o pior"?". S ser pior quando "o pior" j estiver morto em nossos coraes. Gloucester, cego e marginalizado,  figura 
paterna cuja sugestividade  capaz de ensejar um novo esclarecimento com respeito  loucura e ao abandono de Lear. Loucura e cegueira formam grande paralelo  tragdia 
e ao amor, paralelo que consolida a pea como um todo. Loucura, cegueira, amor e tragdia se unem em avassaladora perplexidade.
"E no foi um amor avassalante / Que os arrastou para a fatalidade?", pergunta Yeats, em "Pscoa,  1916". A despeito da relevncia dessa indagao para MacDonagh 
e MacBride, Conolly e Pearse, a mesma
c W. B Yeats, Poemas Seleo, Traduo, Introduo e Notas de Paulo Vizioli. So Paulo. Companhia das Letras, 1992, p 91  [N.T]
pode ser aplicada a Lear. Nessa que  a mais trgica das tragdias, o amor  fatal, seja o de Lear por Cordlia, ou o de Edgar pelo pai (Gloucester), e pelo padrinho, 
Lear. E a luxria no se sai melhor,- quando Edmundo, agonizante, reflete que, apesar de tudo, foi amado, o sentimento sbito expresso pelo personagem nos surpreende, 
mas no nos agrada a palavra "amado", utilizada para descrever a paixo assassina de Goneril e Regan.
Em Hamlet, assim como em Macbetb, existe uma conscincia central. Em Ofelo, existe, ao menos, um niilismo dominante. Mas Rei Lear  uma pea dividida. Antes de Lear 
enlouquecer, sua conscincia escapa ao nosso entendimento: a total falta de autoconhecimento do personagem, somada ao seu grande"autoritarismo, impede-nos de compreend-lo. 
Depois, atordoado e atordoante, Lear parece mais divindade derrotada do que ser humano, salomnico em termos da glria perdida, e semelhante a Jav em sua ira. A 
conscincia central da pea pertence, forosamente, a Edgar, que tem mais falas do que qualquer outro personagem,  exceo de Lear. Edmundo, mais brilhante at 
mesmo do que lago, menos improvisador e mais estrategista do mal, est imerso em um niilismo mais profundo do que o de lago, mas nenhum personagem - seja heri ou 
vilo - ser preponderante na tragdia de Lear. Shakespeare, contrariando historicistas de ontem e hoje, nessa pea, mais do que em qualquer outra, transcende o 
contexto. O excesso e o abandono total esto sempre presentes no texto shakespeariano/  exceo de Edmundo, os personagens de Rei Lear amam ou odeiam demais.
Edgar, cuja romaria de abnegao culminar em vingana, acaba atnito diante da ineficcia do seu amor, um amor que cresce em amplitude e intensidade, mas que h 
de lhe trazer, como novo rei, apenas mais sofrimento. Edmundo, que tenta, desesperadamente, fazer algum bem, apesar da insistncia em afirmar sua natureza m,  
retirado de cena, para morrer, sem saber se Cordlia foi salva. Nenhum formalista ou historicista teria a pacincia de responder  minha pergunta, mas em que estado 
de autoconhecimento encontra-se Edmundo ao morrer? Bastante forte antes da derrota para Edgar, a noo de identidade de Edmundo fraqueja ao longo da cena de sua 
morte. Lear e Edgar tm identidades extremamente complexas, que parecem constituir novas
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#HAROLD   BLOOM
manifestaes de amor excessivo. Shakespeare insinua que o nico amor autntico  o que existe entre pais e filhos, ainda que a conseqncia bsica de tal amor seja 
a destruio. As noes antitticas de Natureza exploradas na pea (segundo Lear e Edmundo) no se sustentam, se analisarmos, criteriosamente, a evoluo dos protagonistas 
no quarto e no quinto atos. As palavras de Edgar "Quando for hora" sero interpretadas erradamente  se tornadas como consolo estico, quanto mais como consolo cristo. 
Shakespeare faz ecoar as palavras de Hamlet "O estar pronto  tudo",** irnica inverso das palavras de Jesus, referindo-se  sonolncia de Pedro: "O esprito est 
pronto, mas a carne  fraca". Logo depois, Edgar sugere, conforme observa W. R. Elton, "que resistir e aguardar a hora no  tudo". No desfecho da pea, em sua sabedoria, 
Edgar resigna-se ao "peso do passado", submisso que envolve a aceitao, ainda que relutante, da coroa, e a terrvel misso de livrar a Britnia dos lobos que a 
infestam.
O amor, como observou Samuel Johnson,  a sabedoria dos tolos e a tolice dos sbios. Ao fazer tal observao, o maior dos crticos de lngua inglesa no se referia 
 tragdia de Lear, mas bem poderia t-lo feito, pois o comentrio , ao mesmo tempo, prudente e shakespeariano e esclarece os limites do amor na pea. Edgar toma-se 
sbio, mas, para ele, amor ainda  tolice, causando-lhe dor inconsolvel pelo sofrimento de suas duas figuras paternas. Sobre um palco de tolos, ao final, restam 
somente trs sobreviventes: Kent, de bom grado, em breve ir juntar-se a Lear, seu senhor, enquanto Albany, bastante abalado, abdica em favor de Edgar. A unio 
corn Goneril seria mais do que suficiente para exaurir um personagem mais forte do que Albany, e Kent, a rigor, mal pode ser considerado um sobrevivente. Edgar  
o centro, e podemos indagar por que levamos tanto tempo para perceber que, se excluirmos Lear, Edgar ser a figura principal da pea. O amor excessivo que Lear sente 
por Cordlia tem, inevitavelmente, uma natureza opressora, at que a imagem da autoridade  destruda - e no resgatada, como o querem os
* I.t.,"ripcntssisalt". [N.T.] **] c, "nadmtss is ali". [N.T.]
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REI   LEAR
crticos que foram uma interpretao crist dessa pea paga. O amor servil de Edgar prepara-o a agir contra Edmundo, como um vingador contumaz, bem como a ser um 
monarca habilitado a atuar em tempos difceis,- contudo, os desgnios da pea estabelecem que o amor de Edgar ser to catastrfico quanto o de Lear. Em A Tragdia 
do Rei Lear, amor no traz cura,- na verdade, amor causa de conflito,  tragdia em si. Em ReiLear, os deuses no exterminam seres humanos por prazer,- antes, fazem 
Lear e Edgar sofrer por excesso de amor, e Goneril e Regan por excesso de luxria e inveja. A Natureza, para Edmundo, uma deusa, o destri atravs da vingana "natural" 
perpetrada por seu prprio irmo, pois Edmundo  imune ao amor e, portanto, engana-se quanto  divindade.
Para Samuel Johnson, o quinto ato de Rei Lear era insuportvel, por desafiar a justia divina e, portanto, ofender a moral, mas  possvel que o grande crtico interpretasse 
erroneamente a prpria reao. O que a pea, na verdade, desafia  a nossa idealizao universal do valor do amor em famlia - isto , o valor pessoal e social do 
amor. A pea expressa profunda angstia com relao  sexualidade humana, e um desespero piedoso quanto ao carter mutuamente destruidor do amor paterno e filial. 
O amor materno permanece fora da tragdia, como se o amor natural, em sua mais forte expresso, fosse intolervel, mesmo no contexto da sublimidade negativa que 
prevalece na pea. Uma rainha para Lear, a menos que fosse como a mulher de J, laconicamente aconselhando Lear a maldizer os deuses e morrer, aduziria um peso insuportvel 
a uma trama que j causa tanta dor.
Para Hazlitt, era impossvel descrever a pea em si, assim como o efeito que a mesma causa  mente humana. De modo surpreendente (para um crtico to atento a questes 
psicolgicas), Hazlitt afirma: "Nada que dissermos poder fazer jus ao tema, nem mesmo quilo que ns prprios pudermos conjeturar a respeito". Hazlitt toca no aspecto 
mais incrvel da pea: algumas das conjeturas a respeito de Rei Lear parecem estar alm da nossa capacidade de expresso. A meu ver, esse efeito resulta do golpe 
universal que a pea desfere contra o valor do amor filial.  doloroso trabalhar essa questo - mas tudo  doloroso na tragdia ReiLear. Recorrendo a Nietzsche, 
no se trata de afirmar que
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#HAROLD  BLOOM
a dor tem significado, mas que o significado, em si, toma-se doloroso na pea.  injusto dizer que as mutaes de Lear so redentoras,- no pode haver redeno 
onde o amor  idntico  dor. Nessa obra, qualquer tentativa de mitigar as trevas ser uma inverdade crtica. Quando Edgar diz, referindo-se a Lear, "Tem filhas 
quais meu pau", a tragdia fica compactada em cinco palavras.
Se desarticularmos essa compactao gnmica, o que teremos? No seria, creio eu, um paralelo entre duas inocncias (de Lear e de Edgar) e duas culpas (das filhas 
mais velhas de Lear e a culpa de Gloucester), pois Edgar no considera o pai culpado. As palavras "Tem filhas quais meu pai!" no se referem, absolutamente, a Goneril 
e Regan, apenas ao paralelo entre Lear e Cordlia, de um lado, e Edgar e Gloucester, de outro. Entre os quatro, existe amor, s amor, mas existe tambm tragdia, 
s tragdia. Sutilmente, Edgar aponta o elo entre a sua austera recalcitrncia e a de Cordlia. No fosse a recalcitrncia inicial de Cordlia, no haveria tragdia 
- mas, nesse caso, Cordlia no seria Cordlia. No fosse a obstinao de Edgar, o anjo vingador que extermina Edmundo no surgiria do interior de um inocente. Podemos 
at estranhar o alto grau de humilhao a que Edgar se sujeita, mas, assim no fosse, Edgar no seria Edgar. E no existe consolo: Cordlia  morta, e Edgar, desesperado, 
submete-se ao peso que  a monarquia.
Alguns crticos adotam atitude mais otimista, defendendo a idia de redeno atravs do amor, e enfatizando que todos os viles da pea so punidos pela justia. 
Os monstros das profundezas tm o fim que merecem: Oswald  morto por Edgar,- Comwall  ferido, mortalmente, por um empregado que defende Gloucester; Regan  envenenada 
por Goneril, que se mata com um punhal,- Edmundo  ferido por Edgar (conforme o pblico j esperava). Mas o extermnio dos maus no nos causa qualquer satisfao. 
Exceto Edmundo, os personagens perversos so por demais brbaros, e at mesmo Edmundo, por mais fascinante que seja, merece, tanto quanto os outros, ser acusado 
de crimes contra a humanidade. As mortes no tm significado -- nem mesmo a de Edmundo, pois sua regenerao tardia impede que Cordlia seja salva. A morte de Cordlia, 
que nos causa dor indescritvel, no entanto, esgota
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REI   LEAR
todo o seu significado na dor. Lear e Gloucester, surpreendentemente, morrem mais de alegria do que de dor. A alegria que mata Lear  delirante: ele parece ter uma 
alucinao, e pensa que Cordlia no est morta, ou, ainda, que ressuscitou. A alegria de Gloucester tem por base a realidade, mas, para todos os efeitos, os extremos 
de felicidade e angstia que o fazem sucumbir so indistinguveis. "Tem filhas quais meu pai!": Lear e Gloucester so mortos pelo amor paterno, pela intensidade 
e autenticidade desse amor. Briga entre irmos,- traio de pais pelas filhas, e por um filho natural,- um filho sincero e uma filha devota incompreendidos por pais 
dignos,- sexo sempre repudiado como luxria: qual ser o verdadeiro legado dessa tragdia sobre a qual, continuamente, fazemos reflexes de cunho moral? Uma nica 
forma de amor  vlida: a que prevalece, ao final, entre Lear e Cordlia, Gloucester e Edgar. Tal valor, se deixarmos de lado noes irrelevantes de moralismo transcendental, 
nada tem de negativo: pode ser mais forte do que a morte, embora leve to-somente  morte, ou a uma espcie de vida vegetativa, no caso do extraordinrio Edgar, 
o sobrevivente entre os sobreviventes na obra de Shakespeare.
Ningum pode considerar A Tragdia do Rei Lear uma aberrao no cnone shakespeariano: a pea desenvolve-se a partir de aspectos encontrados em Hamlet, Trlo e 
Crssida, Medida por Medida e Otelo, e constitui, nitidamente, um preldio a certos aspectos de Macbetb, Antnio e Qepatra e Timo de Atenas. Apenas Hamlet, em 
toda a dramaturgia shakespeariana, parece mais ligada do que Rei Lear s preocupaes constantes do autor, e, em ltima anlise, as duas obras se entrelaam. Ser 
que Hamlet, ao morrer, sente amor por algum? A aura transcendental, emanada no momento em que Hamlet expira, a sensao que temos com respeito  liberdade carismtica 
do Prncipe da Dinamarca, fundamenta-se, precisamente, no fato de ele se livrar de todo e qualquer vnculo, seja com o pai, com a me, com Oflia ou at mesmo 
corn o pobre Yorick. Em todo o quinto ato, Hamlet menciona apenas uma vez a palavra pai, e o faz ao referir-se ao selo real, utilizado para expedir a execuo de 
Rosencrantz e Guildenstern. A nica referncia feita por Hamlet  pessoa do pai
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ocorre quando o Prncipe diz que Cludio matou "meu rei" e prostituiulhe a me. O adeus de Hamlet a Gertrudes no  dos mais afetuosos: "Adeus, pobre rainha!". Temos 
de considerar Horcio, naturalmente, cujo grande apreo por Hamlet leva-o quase ao suicdio, sendo impedido por Hamlet, embora o nico propsito do Prncipe seja 
garantir um sobrevivente que se encarregue de limpar-lhe o nome. Nada que acontece na tragdia Hamlet contribui para uma viso positiva do amor. O amor, em todas 
as suas expresses, seja de natureza familiar, ertica ou social,  transformado por Shakespeare, mais do que por qualquer outro autor, no maior dos valores dramticos 
e estticos. No entanto, mais do que qualquer outro autor, Shakespeare priva o amor de quaisquer valores, supostamente, prprios.
A crtica implcita que Shakespeare faz ao amor no pode ser classificada como mero ceticismo. A crtica literria, conforme aprendi com Samuel Johnson,  a arte 
de explicitar, elegantemente, o implcito, e aceito correr o risco de insistir em algo, para tantas pessoas, bvio. "No escolhemos a quem podemos amar", clebre 
verso de Auden, pode ter sido influenciado por Freud, e Sigmund Freud, como o tempo h de provar, nada mais  do que um tardio William Shakespeare, "o sujeito de 
Stratford", conforme o prprio Freud a ele se referia, em tom reprobatrio, ao defender a causa do Conde de Oxford, gnio da fraude. Existe um amor que pode ser 
evitado, e existe um amor mais profundo, inescapvel e terrvel, absolutamente central  inveno do humano feita por Shakespeare. Parece mais correto falar em inveno, 
em lugar de reinveno, porque o tempo que antecedeu a influncia de Shakespeare foi um tempo em que no "ramos totalmente humanos, nem conhecamos a ns mesmos", 
como dizia Wallace Stevens. O amor irremedivel, que destri qualquer valor que a esse amor se oponha, foi, e ainda , uma obsesso romntica. Mas a representao 
do amor, em Shakespeare e por Shakespeare, configurou a maior contaminao literria responsvel pelo Romantismo.
A. D. Nuttall, mais do que qualquer outro crtico no sculo XX, esclarece alguns dos paradoxos centrais  representao shakespeariana. Trago sempre comigo duas 
observaes de Nuttall: Shakespeare est
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REI  LEAR
muito  nossa frente, iluminando os modismos intelectuais com mais brilho do que estes podem ilumin-lo, e Shakespeare permite-nos enxergar uma realidade que sempre 
esteve diante de ns, mas que seramos incapazes de perceber sem ele. Os historicistas - de ontem, hoje e amanh - no gostam que eu acrescente a Nuttall a percepo 
de que a diferena entre o que Shakespeare sabia e o que ns sabemos decorre, surpreendentemente, do advento do prprio Shakespeare. Ele  o que sabemos porque somos 
o que ele sabia: ele teve filhos, e ns tomamo-nos pais. Se Shakespeare, como todos os seus contemporneos, bem como todos os nossos, for apenas um ser socialmente 
circunscrito, histrinico e fictcio, e, portanto, no um autor autnomo, tanto melhor.  possvel que Borges tenha arriscado um paradoxo  moda de Chesterton, mas 
afirmou uma verdade mais literal do que figurativa: Shakespeare  todo o mundo e no  ningum. Ns tambm o somos, mas Shakespeare  mais. Concordo, plenamente, 
corn os que acham que Shakespeare foi o mais precrio dentre os que se autoforjaram. Mas, em ltima anlise, sabedoria no  produto de energias sociais, sejam essas 
quais forem. Fora cognitiva e capacidade de empatia so atributos individuais. Witrgenstein tentou, desesperadamente, ver Shakespeare como gerador de linguagem, 
e no gerador de pensamento, mas o pragmatismo do prprio Shakespeare no reconhece tal distino. A obra shakespeariana gera algo que rene linguagem e pensamento, 
em uma postura que no afirma nem subverte a tradio ocidental. Tal postura, entretanto, paira acima das categorias da nossa crtica.
A opresso social, obsesso da Escola do Ressentimento,  preocupao secundria em Shakespeare. A questo da opresso, pura e simplesmente, talvez seja para ele 
mais importante, porm, mais no mbito pessoal do que social, mais interno do que externo. Os grandes homens e mulheres criados por Shakespeare no correm ao encontro 
de seus destinos por questes de poder e de Estado, e sim porque suas vidas interiores encontram-se destrudas pela ambivalncia, pela ambigidade, pelos dissabores 
do amor em contextos familiares. Se no formos como Edmundo, teremos o impulso de nos imolar nas lminas das geraes, parafraseando Blake. Edmundo  imune a tal 
impulso, mas est preso dentro de um crculo que o toma mais um dos "tolos do
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tempo". O tempo, antagonista de Falstaff e nmese de Macbeth, em Rei Lear,  anttese da natureza. Edmundo, que no pode ser destrudo pelo amor, sentimento que 
jamais ter,  destrudo pela roda da vicissitude, por ele posta em movimento ao vitimar o meio-irmo. Edgar, sofredor contumaz, no ser derrotado, e seu senso 
de oportunidade toma-se agudo no momento em que, acompanhado de Gloucester, depara-se com o valento Oswald.
O melhor princpio para se ler Shakespeare -nos oferecido por Emerson: "Shakespeare  o nico bigrafo de Shakespeare,- mas nem ele prprio pode revelar coisa alguma, 
exceto ao Shakespeare que trazemos dentro de ns". Discordo, um pouco, de Emerson, pois acho que s Shakespeare coloca Shakespeare dentro de ns. No creio que eu 
seja aquela coisa monstruosa, atualmente to criticada pelos pseudomarxistas shakespearianos: um "humanista essencialista". nico membro de uma seita gnstica, pestanejo 
diante da idia de um Shakespeare disposto a subverter a ideologia renascentista, e que sugere a possibilidade de revoluo. Marxistas essencialistas, feministas 
e heideggerianos franceses querem que eu aceite um Shakespeare construdo  imagem deles. O Shakespeare que trago dentro de mim, a despeito de como tenha em mim 
se alojado, aponta-me uma subverso mais profunda e antiga - em toda a obra, mas, especialmente, nas quatro grandes tragdias.
Dostoievsky baseou Svidrigailov e Stavrogin em lago e Edmundo, enquanto Nietzsche e Kierkegaard descobriram seu precursor dionisaco em Hamlet, e Melville chegou 
ao Capito Ahab atravs de Macbeth. Os heris niilistas emergem do abismo shakespeariano, assim como Freud, em seus momentos mais surpreendentes. No proponho um 
Shakespeare niilista, tampouco gnstico, mas o ceticismo pode no ser a nica origem da degradao cosmolgica que contextualiza as tragdias Rei Lear e Macbeth. 
O Salomo do Eclesiastes e de A Sabedoria de Salomo, mais niilista, diz, neste ltimo livro, apcrifo, que "nascemos por uma aventura, e vivemos como se assim no 
o fosse". O hertico Milton no acreditava que Deus houvesse do nada criado o mundo,- no sabemos em que Shakespeare no acreditava. Lear, na interpretao de W. 
R. Elton, no  um epicurista materialista, tampouco um ctico (no sentido clssico),- antes, "ao rejeitar a criao ex nihilo, [] um pago
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REI  LEAR
piedoso, um cristo ctico", como condiz a uma pea paga escrita para ser encenada diante de um pblico cristo.  preciso que nos lembremos de que Lear tem mais 
de oitenta nos, e que, consigo, seu mundo chega ao fim. Conforme se d em Macbeth, temos a sensao de um tempo que h de se esgotar. A ressurreio do corpo, que 
Salomo desconhece, , igualmente, desconhecida por Lear, que morre em meio  alucinao de Cordlia haver ressurgido dos mortos.
O personagem central da pea  Lear, no Edmundo, mas, como j afirmei mais de uma vez, Edgar , tambm, figura central, e, ironicamente, o Edgar que surge mais 
ao final da trama  criao involuntria de Edmundo. O humor soturno (ou simulado) de tom de Bedam  emblemtico: diz respeito ao filsofo, ao bobo, ao louco, 
ao niilista, ao hipcrita - ao mesmo tempo, todos e nenhum. O horror  intensificado  medida que a tragdia  se torna mais violenta, e Edgar, cada vez mais severo, 
divide esse horror com Lear. Nada ameniza a imagem que Edgar faz da sexualidade, ao passo que Edmundo, frio e devasso,  de uma indiferena total: "corn qual ficarei? 
/ Ambas? uma? ou nenhuma?". Um encontro com Goneril e Regan - ao mesmo tempo - haveria de desconcertar at Ricardo in, ou Aaro, o Mouro, mas  algo perfeitamente 
natural para Edmundo, que atribui a sua vivacidade, franqueza, capacidade de conspirar e seu esprito inquieto ao fato de ser bastardo:
Por que chamam-nos baixos e bastardos, Que no prazer natural da luxria Somos compostos com mais fora e vio Do que os leitos exaustos, tediosos, Do a uma tribo 
inteira de idiotas
Concebidos em meio de um cochilo?
[Lu-]
Esse  Edmundo com sua "fora e vio", e no o homem mortalmente ferido que afirmar "Mas passou, e eu tambm". Edgar, nesse segundo momento, assumir postura oposta 
ao "prazer natural da luxria":
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Os deuses, justos, tomam nossos vcios Em instrumentos de nossa tortura,- O local negro em que te concebeu Custou-lhe os olhos.
[V.iii.]
Agonizante, Edmundo aceita a colocao, que pode ser considerada um tanto desconcertante, pois "o local negro" no parece remeter a um leito adltero, e sim ao que 
Lear estigmatiza em sua loucura:
Da cintura pra baixo so centauros Mesmo mulheres mais para cima: Deuses so s da ilharga para cima,- Para baixo s h demos, negro inferno,  a fonte do enxofre 
- queima, escalda, Fede e consome.
[IV.vi.]
Admirvel filho de Gloucester e afilhado de Lear, vingador justo e futuro rei, Edgar, no entanto, em vrios aspectos, emerge debilitado de sua longa privao. Um 
srio dano  o pavor que ele sente diante da sexualidade feminina, "o local negro". E alto o preo pago pela demorada imerso no humor sombrio de tom de Bedam. 
A prova a que Edgar se submete lhe custa um violento golpe na psique,- com efeito, a pea como um todo  golpe maior do que a tradio crtica se tem dignado a 
admitir. A crtica feminista, e as abordagens por ela influenciadas, pelo menos, levam em conta a retrica da histeria e do trauma masculinos que comandam a aparente 
misoginia do drama de Lear. Digo "aparente" porque a averso de Lear e Edgar a toda e qualquer sexualidade  a mscara que encobre uma alienao ainda mais profunda, 
decorrente menos de excesso de amor entre familiares do que de uma perplexidade diante desse tipo de amor. Edmundo  brilhante e hbil, mas a sua maior vantagem 
sobre os demais personagens da pea  o total desapego com
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relao a afeto entre familiares, desapego que faz crescer o fascnio fatal que ele sente por Goneril e Regan.
Ser a perspectiva de Shakespeare, em Rei Lear, irremediavelmente, masculina? Na pea, Cordlia  a nica mulher que no  um demnio, sendo vista por alguns praticantes 
da crtica feminista como vtima de Lear, como a filha oprimida do incio ao final da pea. Essa no , absolutamente, a percepo que Cordlia tem do seu relacionamento 
corn o pai, e, da minha parte, prefiro acatar Cordlia do que os crticos. Contudo, a perturbao observada nesses crticos configura reao autntica e condizente 
corn essa pea, que nos despoja totalmente, todos ns, homens e mulheres, espectadores e leitores. A incapacidade de Johnson no sentido de tolerar a morte da virtuosa 
Cordlia  uma outra forma dessa mesma reao. Quando Nietzsche afirma que temos a arte para que a verdade no nos faa sucumbir, faz  arte homenagem bastante duvidosa,- 
em todo caso, a mxima  esvaziada em Rei Lear, em que a verdade nos faz sucumbir. O sagaz oxmoro freudiano - "romances familiares" - perde o sentido no contexto 
de Rei Lear, em que o amor entre familiares oferece-nos apenas a chance de fazer uma opo diante de alternativas destruidoras. Podemos viver e morrer como Gloucester, 
Lear e Cordlia, ou como Goneril, Regan e Edmundo,- ou podemos sobreviver, como Edgar, destino mais sombrio do que o de todos os demais.
Em Shakespeare, o substantivo Valor" no apresenta o sentido altivo que tem para ns, significando, apenas, "estimativa", ou mesmo "previso de gasto", ambas acepes 
de natureza comercial, emprestadas, de modo meio grosseiro, s relaes humanas. s vezes, chego a crer que a nica coisa de que temos certeza a respeito de Shakespeare, 
o indivduo,  que seu tino comercial era superior ao de qualquer outro autor, anterior ou posterior a ele. Shakespeare utiliza o substantivo "amor" e seus derivados 
corn parcimnia. Johnson observa que, ao contrrio de qualquer outro dramaturgo, Shakespeare recusa-se a fazer do amor um agente universal:
O amor  apenas um dentre muitos sentimentos, e, no tendo grande influncia na vida como um todo, desempenha uma
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funo reduzida na dramaturgia de um poeta que tira as suas idias da vida real e s exibe aquilo que est diante de seus olhos. Ele sabia que qualquer outro sentimento, 
em dose normal ou exorbitante, causaria felicidade ou calamidade.
Johnson fala aqui do amor de natureza sexual, e no familiar, uma distino que Shakespeare, at certo ponto, ensinou Freud a anular. Segundo Freud, o desejo reprimido 
de cometer incesto com Cordlia  causa da loucura de Lear. Cordlia, ainda segundo Freud, encontra-se taciturna e calada no incio da pea em decorrncia do desejo 
que sente pelo pai. com certeza, o romance familiar entre Sigmund e Anna Freud influencia essa interessante, embora errnea, interpretao. O excesso de amor da 
parte de Lear vai alm da ligao com Cordlia, incluindo o Bobo e outros personagens. A adorao de Lear, por parte de Kent, Gloucester, Albany e, principalmente, 
do afilhado, Edgar,  dirigida no apenas  grande imagem da autoridade mas ao emblema central do amor entre familiares, ou patriarcal (se o leitor assim o preferir). 
O sentimento exorbitante, ou o impulso do amor familiar, tanto em Lear como em Edgar, causa a calamidade. A tragdia mais exacerbada, seja em Atenas ou no Teatro 
Globe, ter natureza domstica, ser uma tragdia de sangue, em duplo sentido. Ao final de uma encenao, ou da leitura do texto de Rei Lear, no queremos admitir 
que o domstico , necessariamente, trgico, mas talvez seja essa a grande afirmao niilista da pea.
Leo Tolstoy esbravejava contra Rei Lear, de um lado, porque o profundo niilismo da pea o incomodava, de outro, devido a uma certa inveja artstica e, ainda, talvez 
o escritor russo tivesse a premonio de que a cena de Lear na charneca seria semelhante aos seus prprios momentos finais em vida. Aos que crem que a justia divina 
prevalece neste mundo, ReiLear h de ofender. Sendo, ao mesmo tempo, a menos secular e a menos crist das peas shakespearianas, a tragdia de Lear mostranos a todos 
como "bobos", no sentido shakespeariano, exceto aqueles
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dentre ns que so inveterados viles. Em Shakespeare, "bobo" quer dizer "tolo", "querido", "louco", "bobo da corte" ou, principalmente, Vtima". O sofrimento de 
Lear no  redimvel nem redimido. Estrategicamente situando a pea nove sculos antes de Cristo (na era de Salomo), Shakespeare sabe que seu pblico  (mais ou 
menos) cristo e, assim, cria um rei pago, lendrio, que perde a f nos deuses. Aos que pensassem como Jaime I, a desesperana da pea provocaria a idia de que 
a revelao crist era profunda necessidade humana. Porm, quero crer que os jacobianos cticos (contingente mais numeroso do que a crtica moderna admite) seriam 
incitados  concluso oposta-, a f  absurda, ou irrelevante, no que diz respeito  sombria viso da realidade contida na pea. Shakespeare, como sempre, fica  
margem de qualquer reducionismo, e no temos como saber em que ele acreditava ou desacreditava,- contudo, o tema de Rei Lear permite-nos to-somente quatro perspectivas: 
a do prprio Lear, a do Bobo, a de Edmundo e a de Edgar. S mesmo algum comprometido com a evangelizao atravs da literatura haveria de obter consolo junto a 
essa que  a mais trgica das tragdias. A pea  uma tempestade, sem a subseqente bonana.
Lear  o personagem shakespeariano mais sublime e difcil de ser interpretado. Quanto a Hamlet, figura incomensurvel, por ser, a um s tempo, carismtico e excepcionalmente 
inteligente, temos, ao menos, uma idia da distncia que dele ficamos. Lear, cuja grandeza e autoridade essencial escapam-nos ao entendimento, surpreendentemente, 
 sempre figura "conhecida", por ser smbolo da paternidade em si. Extremamente hiperblico, dotado de eloqncia insana, Lear sempre exige mais amor do que lhe 
pode ser dedicado (dentro dos limites humanos); portanto, raras so as ocasies em que ele fala sem entrar no campo do inexprimvel. Nesse sentido, Lear  o oposto 
de Hamlet, que parece dizer tudo o que pode ser dito, muito mais do que qualquer um de ns seria capaz de faz-lo. Lear confunde-nos, segundo o desgnio do prprio 
Shakespeare, porque, de certo modo, consegue dizer o que nenhum outro personagem, nem mesmo Hamlet, poderia dizer. Das primeiras palavras pronunciadas por Lear na 
pea ("No entanto falaremos de intenes / Secretas") s ltimas (""Sto vendo isso? / Olhai pra ela, olhai
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para os seus lbios! / Olhai ali, olhai"), tudo o que ele diz nos perturba. A fora retrica de Lear , em grande parte, responsvel pela mudez e recalcitrncia 
de Cordlia: "Infeliz, no sou capaz de botar / Na boca o corao". Nas perversas Goneril e Regan, o efeito  contrrio: tudo o que dizem  artificial, rebuscado, 
falso, detestvel, como, por exemplo, na resposta de Goneril: "Um amor que corta o flego e a palavra",- e na de Regan: "Pois minha nica felicidade / Reside em 
vosso amor".
A fora verbal de Lear quase sempre rouba a espontaneidade de seus interlocutores. A exceo  o Bobo, o personagem mais incrvel em Shakespeare, o terceiro elemento, 
juntamente com Cordlia e Lear, na verdadeira famlia da pea, no que constitui uma comunidade de amor. Em Hamlet, os autnticos laos de famlia so com Yorick, 
no passado, e com Horcio, no presente. Uma das funes do Bobo de Lear , precisamente, a de Horcio com relao a Hamlet: fazer a mediao, junto ao pblico, 
de um personagem que, sem a referida mediao, estaria alm do nosso entendimento, no caso de Hamlet, por estar longe demais, no de Lear, por estar to perto que 
nos distorce a viso. Muito do que sabemos sobre Hamlet nos  comunicado por Horcio, assim como o Bobo humaniza Lear, tomando-nos acessvel o temvel Rei. Horcio 
sobrevive a Hamlet, embora contrariado. O Bobo desaparece, deixando-nos perplexos, ensejando mais uma elipse shakespeariana que desafia o pblico a refletir sobre 
o significado desse que  o mais estranho dos personagens. Presena fascinante que leva Lear a mergulhar na loucura, o Bobo toma-se uma ausncia que perturba, embora 
no mais o rei, e sim o pblico. O Bobo, novamente como Horcio, tem funo crica, algo a mais do que a de simples personagem. Se retirarmos o Bobo e Horcio das 
respectivas peas, no haveria grandes alteraes em termos de estrutura de enredo, mas perderamos nossos representantes, pois ambos so os verdadeiros porta-vozes 
dos nossos sentimentos. Horcio tem grande afeio por Hamlet,- fora desse, seu outro atributo  a capacidade de inferir. O Bobo quer muito bem a Lear e Cordlia, 
e por eles  querido,- fora disso,  uma mistura incrvel de sabedoria cruel e terror sagaz. Horcio conforta-nos, mas o Bobo
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nos exaspera, enquanto leva Lear  loucura, como punio por sua grande tolice. Shakespeare utiliza o Bobo de vrias maneiras, uma das quais, nitidamente, sugere 
a preferncia de Erasmo pela loucura em lugar do saber.  possvel que Blake estivesse pensando no Bobo de Lear, ao escrever o Provrbio do Inferno: "Se o Bobo persistisse 
na tolice, tomar-se-ia sbio".
Lear tem por ele grande apreo, e o trata como criana, mas o Bobo no tem idade definida, e recusa-se a amadurecer. Ser ele humano, um elfo, um diabrete? Suas 
palavras diferem radicalmente das palavras dos outros bobos da corte em Shakespeare; parece mesmo pertencer ao mundo do alm. Mas a extrema ambivalncia do Bobo 
corn relao a Lear, fundada na indignao diante do exlio de Cordlia e da autodestruio do Rei,  um dos grandes exemplos da inveno do sentimento humano por 
Shakespeare. S encontramos o Bobo na quarta cena da pea, quando Lear percebe que o mesmo est ausente h dois dias, e  informado, pelo Terceiro Cavaleiro: "Desde 
que a nossa jovem foi para a Frana, senhor, o Bobo vem sofrendo muito". "No vem nada de nada,- agora, fale", advertncia que Lear dirige a Cordlia no incio da 
pea, ressoa no questionamento que o Bobo faz a Lear ("Ser que pode fazer uso de nada, Vov?") e na resposta de Lear ("Claro que no, rapaz. Nada pode ser feito 
de nada"). Esses interlocutores so pagos, mas parecem at zombar da doutrina crist sobre a criao ex mbilo. "Tu descascaste o juzo pelos dois lados e no deixaste 
nada no meio", uma das mais contundentes observaes do Bobo, expressa o cerne das tribulaes da pea,- Lear abre mo de sua soberania, ao dividir a parte central 
do reino, que caberia a Cordlia, entre a regio norte, de Goneril, e a parte sul, sede da tirania de Regan. Lear, que outrora fora tudo, agora  nada:
LEAR
Quem me conhece? Isto no  Lear,- E assim que ele anda, fala, olha? S fraco de razo, e co" o critrio Em letargia - Desespero? Jamais! Quem poder dizer-me quem 
eu sou?
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BOBO
A sombra de Lear.
[Liv.]
Do nada, Lear eleva-se  loucura, incitado pelo contnuo sarcasmo do Bobo:
LEAR
Meu corao! Acalma, que eu sufoco!
BOBO
Isso, Vov; grita com ele, como o pateta fez com as enguias que botou na torta ainda vivas. Batia nos cocos das coitadas e gritava: "Pra baixo, sem-vergonhas,- 
pra baixo!" Foi um irmo dela que, s por bondade, passou manteiga no feno do cavalo.
[Il.iv.]
A loucura de Lear  sempre objeto de debate,- o desgosto sofrido junto a Goneril e Regan toma-se, involuntariamente, um pavor  sexualidade feminina, e o Rei parece 
atribuir os tormentos que o afligem a aspectos femininos por ele identificados em sua prpria natureza. O melhor comentrio a respeito dessa complexa questo  de 
Janet Adelman, no livro SuffocatinlMotbers, de 1992, em que a estudiosa chega a afirmar que, com a morte de Cordlia, o prprio Shakespeare resgata sua "masculinidade 
ameaada". O argumento, ao mesmo tempo, sutil e radical, pode ser aplicado a Flaubert, com relao a Emma Bovary, e at ao protofeminista Samuel Richardson, que 
leva Clarissa Harlowe ao declnio suicida e  morte. Dentre os crticos que ora enfatizam a culpabilidade do prprio Lear pelos desastres ocorridos, Adelman  a 
mais bem-sucedida e loquaz. Considero curiosa ironia o fato de a crtica feminista ter-se voltado para a ambivalncia do Bobo, no que toca a Lear, e, ao faz-lo, 
ter ido alm do Bobo, que, afinal, jamais deixa de amar seu Rei. Para a crtica feminista, Lear  mais algoz do que vtima. Quem  incapaz de ver Goneril e Regan 
como monstros das profundezas est cooptado por uma ideologia segundo a qual todo indivduo do sexo masculino  culpado, inclusive Shakespeare e Lear. Isso nos traz
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de volta ao dilema fundamental da crtica shakespeariana desenvolvida nela Escola do Ressentimento, seja de orientao feminista, marxista ou historicista (inspirada 
em Foucault). Os processos de contextualizao no so exclusivos de Shakespeare,- aplicam-se to bem (ou to mal) a autores menores e maiores, e se o impulso que 
est por trs de uma abordagem  feminista, tais processos aplicam-se a todos os autores do sexo masculino, indiscriminadamente. A noo de que Shakespeare, como 
qualquer outro homem, sofre de fantasias de origem materna no contribui, em absoluto, para explicar como e porque ReiLear pode ser considerada a mais contundente 
e inescapvel das obras literrias. O Bobo  melhor crtico de Lear do que todos os detratores de agora porque, ao contrrio destes, aceita a sublimidade e a singularidade 
do Rei.
No ponto de vista do Bobo, sem dvida, Lear  culpado, mas somente por no ser suficientemente paternalista para aceitar a resistncia de Cordlia em expressar amor. 
Nessa perspectiva, Lear  culpado de ter renunciado  paternidade-, dividir o reino e abrir mo da autoridade real significa, tambm, abandonar Cordlia. O terror 
visionrio do Bobo no  antifeminista nem feminista,- , curiosamente, nietzschiano, na medida em que insiste que a imagem da paternidade  o terreno neutro necessrio 
para que origens e fins se confundam. E o Bobo est certo, seja com relao  queda de Lear, seja quanto ao pavor de que o prprio cosmo centrado em Lear entre 
em declnio juntamente com o Rei. Apocalptico e preciso em suas predies, o Bobo, ironicamente, s  compreendido pelo pblico (e por Kent), quase nunca por Lear, 
que o escuta mas no o ouve, e que  incapaz de identificar-se com o trapalho que o Bobo est sempre a invocar. Mas que fora impulsiona o Bobo? Depois que Lear 
divide as terras de Cordlia entre Goneril e Regan,  tarde demais para que quaisquer advertncias surtam efeito, e o Bobo disso tem pleno conhecimento. A ambivalncia 
impera no Bobo,- no entanto, punir Lear, tomando-o cada vez mais louco, de nada adianta, a no ser  trama em si:
BOBO
Se fosses meu bobo, Vov, eu te surrava por ficares velho antes do tempo.
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#HAROLD BLOOM
LEAR
Como  que ? BOBO
Tu no deverias ter ficado velho antes de ficares sbio.
LEAR
Que eu no fique louco, cu,- no louco! Mantm-me temperado. Louco, no!
[I.v.]
O Bobo e Lear formariam um trio com o agente funerrio, nesse grande coro espiritual que entoa o caos. Quando um cavalheiro diz a Kent, no incio do terceiro ato, 
que o Bobo faz de tudo para arrancar as mgoas do corao de Lear, somos levados a crer que se trata de um equvoco. E quando Kent conduz Lear e o Bobo a uma choupana, 
abrigo contra a iminente tempestade, Shakespeare permite ao Bobo uma profecia premonitria de William Blake:
Noite assim esfria at cortes,
E eu fao profecia antes de ir:
Quando padre s no bem pensar
E cervejeiro no mais batizar,-
Se o nobre do alfaiate for tutor,
No queimar bruxa e sim sedutor,-
Quando na lei ganhar o bem feito
E no dever o homem que  direito/
Se a lngua no viver caluniando
corn os ladres chegando sempre em bando,-
Se a usura mostrar suas mazelas,
E as putas construrem s capelas,
Este remo de Albion vai mostrar
A confuso que isso vai armar:
Pra quem viver, o dia h de chegar
No qual os ps vo servir para andar.
612
REI  LEAR
Essa profecia ser feita por Merlm, mas eu vivo antes do tempo
dele.
[III..]
Estranho e maravilhoso, esse canto exuberante transcende a situao angustiante de Lear e a malcriao do prprio Bobo. Quem  o Bobo, para proferir palavras como 
essas? E o que leva Shakespeare a tal rompante? Depois da profecia, o Bobo pra de infernizar Lear, assume um comportamento que faz lembrar criana abandonada e, 
em breve, desaparece da pea, misteriosamente.  provvel que Shakespeare pensasse estar parodiando Chaucer nos versos iniciais do trecho em questo, e at mesmo 
citando-o nos versos "Este reino de Albion vai mostrar / A confuso que isso vai armar" (erroneamente atribudos a Chaucer); no entanto, Shakespeare vai muito alm 
da pardia, fazendo aqui a condenao, oblqua e contundente, da Inglaterra jacobiana, onde padres, cervejeiros, nobres e alfaiates so todos criticados alegremente. 
O tom humorstico vai muito bem, e a "confuso" no "reino de Albion", onde as coisas entraro nos eixos, encerra uma ironia genial, resultando no grande anticlmax 
em que os ingleses havero de usar os ps para andar! "Essa profecia ser feita por Merlin,- mas eu vivo antes do tempo dele" so palavras condizentes com a concluso 
desse canto do absurdo, alm de associar o Bobo  magia de Merlin. Embora encurralado no "fim de jogo" de Lear, o Bobo no est sujeito s imposies do tempo e, 
presumivelmente, escapa da pea, rumo a outra era, deixando um eco de sua presena nas palavras sofridas de Lear - "Enforcado o meu bem!" -, ditas no incio de sua 
fala logo antes de morrer, momento em que as identidades de Cordlia e do Bobo se misturam na confuso de Albion.
H cerca de uma dcada, eu precisava defender Lear da antipatia de muitas das minhas alunas, mas isso j no  preciso.  possvel que a crtica feminista continue 
insatisfeita com a conduta do velho Rei louco por mais uma dcada. No entanto, acho que conseguir menos adeptos
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#HAROLD  BLOOM
a partir do incio do sculo XXI, pois Lear  protagonista digno do milnio e dos tempos que viro. Sem dvida, a sua catstrofe o enfurece contra a me interior.
Todavia, ele tem plena conscincia da necessidade de "adoar" a "imaginao" - a volta de Cordlia o cura, e no por mero egosmo. No  Shakespeare que destri 
Cordlia, e sim Edmundo (tardiamente cancelando a ordem expedida), que est longe de ser porta-voz de Shakespeare. Proponho que Edmundo seja uma representao de 
Christopher Marlowe, encrenqueiro, rival e predecessor de Shakespeare, ainda que a influncia de Marlowe tenha terminado muito antes, com o advento de Faulconbridge 
(o Bastardo), Bottom, Shylock, Prcia e, principalmente, Falstaff. Em Edmundo, Marlowe retorna, de maneira brilhante, mas como uma sombra controlada por Shakespeare, 
como anttese de Lear, como personagem que no pode sequer falar ao grande Rei. Edmundo  fascinante, mais lago do que lago, por ser um estrategista, e no um improvisador. 
E o personagem mais frio criado por Shakespeare, assim como Lear  o mais emocional, mais turbulento,- o bastardo de Gloucester  irresistvel, e no apenas para 
Goneril e Regan, por ele apaixonadas, e que por ele morrem. Condignamente encenado, Edmundo  o vilo jacobiano mais sublime,- esse Maquiavel, frio, sofisticado, 
e dotado de uma indiferena assustadora, teria conseguido impor a sua fora, no fosse a volta triunfante de Edgar, como denunciante e vingador. Edmundo e Edgar 
so os irmos mais interessantes do cnone shakespeariano. J abordei a recriao irnica e involuntria que Edmundo faz de Edgar, mas, sendo um contracanto do outro, 
manterei em perspectiva o heri mximo da pea, enquanto considero o principal vilo. Edmundo  mais ardiloso do que qualquer outro personagem da trama, e, com 
facilidade, engana Edgar,- porm, o purgatrio, em que Edgar, fazendo-se passar por tom de Bedam, guia o pai cego, produz um heri cuja justia, com toda naturalidade, 
d cabo de Edmundo, no momento em que o crculo se fecha. A interao entre Edmundo e Edgar toma-se a dialtica do destino de Lear (e da Inglaterra), mais do que 
do de Gloucester, pois Edgar  afilhado de Lear e sucessor involuntrio, ao passo que Edmundo  a negao do velho Rei, em todos os aspectos.
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REI  LEAR
No precisamos ser Goneril ou Regan para acharmos Edmundo fascinante (e perigoso), sempre pronto a surpreender leitores e espectadores incautos. William R. Elton 
v em Edmundo um avano shakespeariano com respeito  tradio seiscentista de Dom Juan, culminada pela grande pea de Molire (1665). Elton observa, tambm, uma 
diferena crucial entre Edmundo e lago: Edmundo, paradoxalmente, v a si mesmo predeterminado pela condio de bastardo, ao mesmo tempo em que insiste em se declarar 
livre - ao passo que lago  verdadeiramente livre. Como seria estranho se Shakespeare tivesse apresentado lago como um bastardo, ou mesmo includo em Otdo dados 
sobre o pai do Alferes! J a condio de filho natural, em Edmundo,  crucial, ainda que, nesse particular, Shakespeare confunda as expectativas de seu tempo. Elton 
cita um provrbio renascentista segundo o qual bastardos podem ser bons por acaso, mas sero maus por natureza. O Bastardo Faulconbridge, magnfico heri de Vida 
e Morte do Rei Joo, no  bom por acaso, mas por ser, praticamente, a reencarnao do pai, Ricardo Corao de Leo, enquanto o terrvel Dom Joo, em Muito Barulho 
por Nada, tem uma maldade natural, claramente baseada no fato da ilegitimidade. Edmundo, de modo brilhante, rene aspectos das personalidades de Faulconbridge e 
Dom Joo, embora seja at mais fascinante do que Faulconbridge, e bem mais perverso do que Dom Joo de Arago.
Embora, ao contrrio de lago, no seja capaz de reinventar a si mesmo, Edmundo orgulha-se de se responsabilizar por sua prpria amoralidade, por seu oportunismo. 
Em Muito Barulho por Nada, Dom Joo diz: "No posso esconder quem sou",- j em Rei Joo, Faulconbridge, o Bastardo, afirma: "Eu sou quem sou, que importa a minha 
origem". As palavras de Faulconbridge "Eu sou quem sou" contrastam com as de lago "Nunca mostro quem sou"". Edmundo, fagueiro, proclama: "Eu seria o que sou se 
a mais casta estrela do firmamento brilhasse no meu bastardamente". Para Edmundo, eu sou"  sempre um pronunciamento positivo, embora o personagem seja, em outros 
aspectos, uma negao to forte quanto lago. Precisamente por causa desse nico ponto posi-
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#HAROLD  BLOOM
tivo com relao  sua existncia, Edmundo passar por uma transformao final, enquanto o ato final que atesta a liberdade de lago ser o silncio total, por ele 
escolhido no momento em que  escoltado para ser torturado at a morte. Segundo lago, tudo depende da vontade - no caso dele, sem sombra de dvida.
Edmundo surge, na terceira cena do quinto ato, trazendo Lear e Cordlia como prisioneiros. Essa  apenas a segunda vez que ele divide o palco com Lear, e ser a 
ltima. Seria de se esperar que se dirigisse a Lear (ou a Cordlia), mas ele evita faz-lo, aos dois referindo-se na terceira pessoa, mesmo ao expedir-lhes ordens. 
Claro est, Edmundo no quer interagir com Lear, pois trama a morte de Cordlia, e, talvez, do prprio Rei. No entanto, ainda que complexas, nenhuma das implicaes 
do enredo duplo  capaz de explicar o porqu disso, e sempre me pergunto o motivo que levaria Shakespeare a evitar o referido confronto. Podemos conjeturar que ele 
no precisava do confronto, mas nessa pea necessidades no determinam coisa alguma. Shakespeare  nossa Escritura, tomando o lugar da prpria Escritura, e devemos 
aprender a ler sua obra como os cabalistas liam a Bblia, considerando o significado de cada ausncia. O que pode nos revelar, sobre Edmundo e Lear, o fato de Shakespeare 
no ter encontrado algo que os dois pudessem dizer um ao outro?
Edmundo, apesar da sofisticao, do carisma, no inspira o amor de quem quer que seja, exceto a paixo mortal, competitiva e voraz de Gonenl e Regan. E Edmundo no 
as ama, assim como no ama ningum, nem a si mesmo. Talvez, Lear e Edmundo no tenham o que falar porque Lear fica absolutamente atnito, frustrado pelo seu amor 
desmedido por Cordlia e pelo dio de Goneril e Regan, filhas desnaturadas, como ele as chama. Em contrapartida, para Edmundo, o amor nada tem de natural, ainda 
que o Bastardo exulte em ser filho natural de Gloucester. Entretanto, nem mesmo o referido contraste pode explicar a nossa curiosa sensao de que, de certo modo, 
Edmundo no est na mesma pea que Lear e Cordlia.
Quando Goneril beija Edmundo (ato IV, cena ii), ele, galantemente, aceita o gesto como um beijo da morte, pois  irnico demais para no
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REI   LEAR
degustar a jura que ele prprio faz: "Seu at a morte". Ainda mais impressionante  o solilquio com que ele encerra a primeira cena do quinto ato:
A ambas as irms jurei amor, E o cime cria em todas duas Presas de vbora. com qual ficarei? Ambas? uma? ou nenhuma? Eu no posso Gozar nenhuma "stando a outra 
viva. Se a viva, enlouquece a irm Goneril; Mas no posso com esta ter sucesso "Stando vivo o marido. E ora usaremos De sua autoridade pra batalha,- e, acabada, 
Que a interessada em ver-se livre dele lhe apresse o fim. Quanto  misericrdia Que planeja pra Lear e Cordlia, Finda a batalha, os dois em nossas mos Jamais vero 
perdo,- pois meu porvir Eu quero defender, no discutir.
Negatividade to fria assim, mesmo em Shakespeare,  rara. Edmundo  absolutamente sincero quando pergunta, de maneira direta: "corn qual ficarei? /Ambas? uma? ou 
nenhuma?". Sua indiferena  sublime, e a questo  aventada como algo menor, qual um nobre moderno que se pergunta se deve convidar duas princesas, uma, ou nenhuma 
para jantar. Um encontro com Goneril e Regan, ao mesmo tempo, desconcertaria o maior dos libertinos, mas essa negao chamada Edmundo  algo extremamente enigmtico. 
A teologia negativa de lago baseia-se na adorao inicial de Otelo, mas Edmundo  totalmente livre de qualquer vnculo, qualquer afeto, seja quanto s duas princesas 
(vboras), quanto ao meio-irmo, ou a Gloucester - em particular. Gloucester  um estorvo, assim como Lear e Cordlia so estorvos. Evidentemente, Edmundo prefere 
no presenciar a mutilao dos olhos do pai, mas isso no quer dizer que tenha a mnima preocupao com o incidente. Contudo, conforme apontou Hazlitt,
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#HAROLD  BLOOM
Edmundo no  hipcrita como Goneril e Regan/ seu maquiavelismo  totalmente puro, e carece de qualquer motivao edipiana. A noo de Freud a respeito de romances 
familiares no se aplica a Edmundo. lago tem liberdade para reinventar a si mesmo a cada minuto, e tem paixes, por mais negativas que sejam. Edmundo no tem paixo 
alguma,- jamais amou e jamais amar quem quer que seja. Nesse particular,  o personagem shakespeariano mais original.
Resta-nos saber o porqu dessa negao ser to fascinante, o que nos traz de volta ao acentuado contraste entre Edmundo e Lear, e entre Edmundo e o Bobo. O nico 
desejo de Edmundo  o poder,- porm, perguntamo-nos se a palavra desejo se aplica a Edmundo. Ricardo in deseja o poder,- lago busca o poder para dobrar Otelo, para 
destru-lo, para reduzir ao caos o deus mortal da guerra. Ulisses, decerto, busca o poder para superar Aquiles, de modo a prosseguir na destruio de Tria. Edmundo 
 a mais marloviana dessas grandes negaes, algum que busca o poder sem ter um propsito definido, assim como o soldado Macbeth no deseja tanto usurpar o poder, 
antes, rendendo-se  sua prpria imaginao,  idia da usurpao. Edmundo aceita a predeterminao inerente ao bastardo, na verdade, glorifica essa condio, mas 
isso  tudo o que ele aceita. Est convicto de sua superioridade natural, que inclui o domnio da linguagem manipuladora, mas no  um retrico marloviano, como 
Tamerlo,- tampouco intoxica-se com a prpria maldade, como Ricardo in e Barrabs. E figura marloviana no por ser semelhante a certos personagens de Marlowe, mas 
porque, a meu ver, foi criado  imagem do prprio Christopher Marlowe. Marlowe morreu aos vinte e nove anos, em 1593, no momento em que Shakespeare escrevia Ricardo 
in, pea cujo protagonista  marloviano,- a pea seguinte seria Ttto Andrnico, que parodia Marlowe no personagem de Aaro, o Mouro. Em 1605, quando Rei Lear  escrita, 
Marlowe estava morto h doze anos, mas Como Gostais, escrita em 1599, encontra-se repleta de indiretas a Marlowe. Sobre Shakespeare e Marlowe no h relatos da poca 
que tenham sobrevivido at o presente, mas  bastante improvvel que Shakespeare no conhecesse o colega que nascera no mesmo
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REI  LEAR
ano que ele, que fora seu precursor direto, e inventor da tragdia inglesa em versos brancos. No contexto pr-cristo de Rei Lear, Edmundo , com certeza, ateu, 
um naturalista libertino, conforme acentua Elton, papis para os quais a vida de Marlowe serviria de exemplo a seus contemporneos. O indivduo Christopher Marlowe, 
ou melhor, a lembrana que Shakespeare tinha do colega, pode constituir a chave do estranho fascnio exercido por Edmundo, do carisma que tanto nos impede de por 
ele sentir apenas antipatia.
Mesmo que a identificao entre Marlowe e Edmundo aqui proposta seja mero tropo crtico, da minha parte, fica a sugesto de que a fora que move Edmundo  o niilismo 
marloviano, a revolta contra a autoridade e a tradio, pelo simples prazer de se revoltar, pois revolta e natureza tomamse, assim, convergentes. Para Edmundo, 
revolta  algo herico, e ele arma a trama de modo que a sua superioridade natural o leve  coroa, seja como esposo de Regan ou Goneril, seja como nico monarca, 
caso elas acabem destruindo-se mutuamente. Depois que Goneril mata Regan e se suicida, Edmundo sofre uma transformao radical. A primeira noo que transparece 
 a forte predeterminao ensejada pela condio de bastardo. Ao saber que seu ferimento mortal foi causado por Edgar, indivduo do mesmo nvel social, Edmundo comea 
a reconciliar-se com a vida que est prestes a deixar para trs, pronunciando a clebre frase que expressa a sua resignao: "O crculo fechou-se. Estou aqui".
As palavras "Estou aqui" reverberam o tom sombrio em que aqui iniciei, ao dizer que nascer bastardo era comear a vida com um ferimento mortal. Edmundo  um tanto 
indiferente  morte, mas no busca o prprio fim, como o fazem Goneril e Regan, que parecem apaixonar-se por ele, exatamente, por buscarem um golpe mortal. Em nenhum 
outro momento da literatura, mesmo na obra shakespeariana, somos torturados com a intensidade do suspense no estilo de Hitchcock que envolve a lenta transformao 
de Edmundo ao agonizar, transformao que ocorre tarde demais para salvar Cordlia. Edmundo, reagindo ao extraordinrio relato feito por Edgar sobre a morte do pai 
de ambos, confessa-se comovido, e hesita, prestes a suspender a execuo de Cordlia. Ele s supera qualquer
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#HAROLD  BLOOM
hesitao quando os corpos de Goneril e Regan so trazidos  cena, e sua reao constitui o momento mximo de transformao de um personagem em toda a obra shakespeariana:
Ento Edmundo foi amado: Uma por mim envenenou a outra, E depois se matou.
[V.iii.]
Fora do contexto, a situao em si  to afrontosa que chega a ser hilria. O niilista agonizante consola a si mesmo com a idia de que, apesar de tudo, havia sido 
amado. Edmundo no diz que gostava das filhas de Lear, ou de qualquer outra pessoa, mas a prova de afeto o comove. No contexto, a fora mimtica do momento  enorme. 
Um intelecto frio, poderoso e triunfante como o de lago, subitamente, assusta-se, quando ouve a si mesmo,- de modo semelhante, a vontade de mudar surpreende Edmundo. 
"[...] farei algum bem /Apesar de mim mesmo", ele diz,, portanto, em ltima anlise, ele acha que a sua natureza continua a mesma, o que seria um posicionamento 
mais marloviano do que shakespeariano. Mas Edmundo est enganado, pois a sua natureza se modifica, embora tarde demais para impedir a catstrofe final. Ao contrrio 
de lago, Edmundo deixa de ser uma negao pura. E irnico que gostemos menos de Edmundo quando este se volta, to tardiamente, para o bem. A modificao  convincente, 
mas Edmundo deixa de ser Edmundo. Hamlet morre em sua apoteose,- lago, contumaz, morre como lago, calado. No sabemos quem  Edmundo ao morrer/ ele tampouco o sabe.
O enredo paralelo de Rei Lear aduziria grande complexidade a essa que  a mais comovente dentre todas as peas shakespearianas, ainda que a soturna histria de Gloucester, 
Edgar e Edmundo no complementasse as tribulaes de Lear e suas filhas. Em Rei Lear, o mecanismo da ao  o sofrimento: sofremos com Lear e Gloucester, com Cordlia 
e Edgar,
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RE!  LEAR
e nosso sofrimento no  mitigado quando os perversos so derrubados, um a um: Comwall, Oswald, Regan, Goneril e, finalmente, Edmundo. Creio que Shakespeare s 
nos permita um caminho - o do sofrimento  ( porque a imensa (embora decadente) vitalidade de Lear tem a
capacidade de provocar-nos um pathos absolutamente inevitvel (a no ser que por Lear nutrssemos algum ressentimento de cunho ideolgico). Investigar as extremas 
oscilaes do afeto de Lear  projeto doloroso, mas a grandeza da pea no pode ser apreendida integralmente sem tal empreitada, pois uma leitura criteriosa identificar 
no sofrimento de Lear uma espcie de ordem, embora no uma idia de ordem,- somente a entropia, humana e natural, ser formalizada. Viso alguma
nem o ceticismo de Montaigne, nem a redeno crist - ser
apropriada a esse surto de vitalidade suprema, que leva ao sofrimento profundo e  morte sem sentido. Os testas convictos podero negar o niilismo de Rei Lear ou 
Hamlet, mas tal negao no vem ao caso, pois Shakespeare nem desafia nem endossa esperanas de ressurreio. O sofrimento alcana a plenitude da representao em 
Rei Lear; a esperana no  sequer representada. Esperana  Cordlia, enforcada sob ordens de Edmundo,- Edgar sobrevive para combater lobos, e para viver uma desesperana 
herica. E isso, no "o estar pronto",  tudo.
Um drama assim to desconsolado s  bem-sucedido porque no conseguimos resistir-lhe ao mpeto, no qual o elemento central  a terrvel grandeza do afeto de Lear. 
 possvel negar a autoridade de Lear, como alguns hoje em dia o fazem, mas  inevitvel constatar o ardor de seus sentimentos. Em toda a literatura mundial, sagrada 
ou secular (distino que a pea anula), nada causa dor maior do que a gama dos pronunciamentos de Lear. A crtica corre o risco de ser irrelevante, se evitar o 
confronto direto com a grandeza,- Lear  um desafio constante aos limites da crtica, e exige-nos afeto: "Para tomar mais amplo o nosso dote, / Pondo em debate 
a natureza e o mrito". Jamais deparei com uma crtica digna de Lear que no partisse da questo do afeto, por mais difcil que nos seja (assim como para Cordlia) 
expressar, verbalmente, amor. A ao crucial em Rei Lear  o sofrimento, de natureza domstica, mais do que poltica. Como converter sofrimento, ainda que intensa-
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#HAROLD  BLOOM
mente dramtico, em prazer esttico, sem com isso pura e simplesmente gratificar o sadismo da platia? Os seguidores jacobianos de Shakespeare - Webster, Tourneur 
e Ford - dependem, inteiramente, de uma indubitvel eloqncia, e a conseqncia visvel disso na obra  um certo sadomasoquismo triunfal. Uma platia mais ou menos 
normativa no h de sentir apelo sexual diante da cena em que os olhos de Gloucester so arrancados, nem ao ver Lear cambaleando pelo palco, trazendo nos braos 
o cadver de Cordlia, enforcada. O amor no redime - nesse ponto Shakespeare  absolutamente claro -, mas a candente representao do amor gache, frustrado, mal 
compreendido, transformado em dio ou indiferena (viz. Goneril, Regan e Edmundo), pode constituir imenso valor esttico. Lear, em seus rompantes de fria e loucura, 
e em momentos de clareza epifnica,  a maior figura do amor que se busca desesperadamente e que  grosseiramente negado jamais posta no papel ou no palco.  a imagem 
universal da falta de sabedoria e do potencial de destruio que existem no amor paterno, em sua dimenso mais ineficaz, implacvel na convico de estar fazendo 
o bem, totalmente desprovido de autocrtica, desenfreado, at destruir o ente mais querido, bem como o mundo que o cerca.
Estou ciente de que a afirmao que acabo de fazer  inadequada, pois aplica-se quase to bem  Morte ao Caixeiro Viajante, de Arthur Miller (a verso ps-lbsen 
de Rei Lear), quanto  incomensurvel tragdia de Shakespeare. A diferena  que Lear  uma das "grandes almas acorrentadas", como diria Chesterton, assim como Hamlet, 
Otelo, Macbeth, Clepatra e -  sua maneira - Falstaff, aps ser rejeitado pelo Prncipe Hal. Rei Lear , tambm, a imagem mxima da autoridade real legtima e, 
de um modo mais misterioso, a imagem do Jav estranho e assustador criado por J, o(a) mais antigo(a) autor(a) hebraico(a). A morte de Lear  a morte do pai, do rei, 
da parte da divindade que  pai e rei, como o Urizen de Blake. Nada, seja em Shakespeare ou na vida, desaparece totalmente, mas, depois de Lear, dissipa-se algo 
em termos da representao do pai-rei-deus na literatura ocidental. A defesa esttica e espiritual do Deus de Milton, em Paraso Perdido, no convence, e o culpado 
 tanto Shakespeare quanto Milton (por Shakespeare to
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REI   LEAR
influenciado), a despeito da obstinada prudncia de Milton. Sinto pelo Satans de Paraso Perdido contnua afeio, apesar de este ser uma imitao vergonhosa de 
lago, que lhe  intelectualmente superior. O Deus de Milton , para mim, intragvel: est sempre a repreender e amaldioar, bradando contra os "ingratos", uma vergonhosa 
imitao do Rei Lear, sem, no entanto, exibir a fria enlouquecida do rei, diante da rejeio do amor exigido. Lear preenche o palco, com um pathos rigorosamente 
modulado,- o Deus de Milton  uma avalanche de desafios  stira, todos autocongratulatrios.
No h Rei Lear em nossos tempos,- a escala individual tomou-se por demais reduzida. Atualmente, a grandeza de Lear , em parte, responsvel pelo enorme valor que 
o personagem tem para ns, mas Shakespeare impe limites severos a essa grandeza. A morte de Lear no pode constituir a nossa redeno, assim como no serve de redeno 
para Edgar, Kent e Albany. Para Edgar,  a catstrofe final: padrinho e pai esto mortos, e um Albany arrependido (e que tem muito do que se arrepender) abdica a 
coroa em favor de um Edgar infeliz, o sucessor real mais relutante em Shakespeare, pelo menos, desde o infantil Henrique VI. Albany, cheio de remorso, e Kent, idoso, 
que, na morte, em breve estaro unidos ao Rei, no representam o pblico-. Edgar, o sobrevivente, sim, e seu tom de desespero acompanha-nos quando samos do teatro 
desconsolados.
Shakespeare nega  morte de Lear a aura transcendental conferida a Hamlet agonizante. Horcio invoca o canto dos anjos, no momento do descanso do Prncipe, ao passo 
que os que sobrevivem a Lear ficam perplexos, arrasados, encarando o que poderamos chamar de perda do amor. J mencionei a dificuldade de interpretar a pea em 
sala de aula durante os anos feministas (as dcadas de 1970 e 1980), e tentar demonstrar a alunas cticas e at mesmo hostis que Lear, no paradoxo shakespeariano 
mais sombrio,  a suprema encarnao do amor. O momento pior dessa dificuldade j passou, nesse apocalptico fim de sculo, mas sempre reconheo o valor da experincia 
pedaggica, pois a mesma leva-me, precisamente,  infinda relevncia de Lear: mostrar o que h de mais sombrio, de mais inaceitvel e de mais inexorvel no amor. 
 fascinante que, de incio, Lear atribua a recalcitrncia de
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#HAROLD  BLOOM
Cordlia em fazer coro s hiprboles das irms ao orgulho que ela chama de simplicidade. Lear e as trs filhas sofrem de uma pletora de "orgulhos", embora a verdadeira 
preocupao de Cordlia seja com o que John Keats chamaria a santidade dos seus sentimentos. Freud, com toda a sua peculiaridade, achava que Lear ardia em um desejo 
reprimido por Cordlia, talvez porque o grande analista se sentisse exatamente assim com relao  sua Anna. Lear, no entanto, parece incapaz de reprimir qualquer 
sentimento que seja. Trata-se, simplesmente, do expressionista mais violento em toda a obra shakespeariana:
Que seja! E co"a verdade pra seu dote! Pois pelo brilho sagrado do sol, Os mistrios de Hcate e da noite, Pelos cursos dos astros aos quais ns Devemos o existir 
e a finitude, Aqui renego o cuidado paterno, Todo o poder da consanginidade, E como estranha a mim e ao meu amor A tenho para sempre. O Cita brbaro, Ou o que faz 
dos filhos alimento S por gula, ter junto ao meu peito Tanta piedade, alvio e boas-vindas Quanto essa outrora filha.
[Li.]
Essas palavras so de tal modo terrveis que chegam a beirar a comdia grotesca - no fosse Lear quem as pronunciasse. De incio, a pea pe em evidncia uma srie 
de rompantes verbais, que, presumivelmente, contribuem para fazer de Regan e Goneril duas hipcritas afetadas, e de Cordlia, a favorita, uma pessoa que aprende 
o dom do silncio paciente. J sugeri que o modelo de Lear  o Salomo sombrio, encontrado em Eclesiastes e em A Sabedoria de Salomo, um expressionista cansado 
de eros, e de tudo o mais. As cruis palavras de Lear a Cordlia - "Melhor seria / No nasceres do que no me agradares" -
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so preldio condizente com uma trama em que, para todos os personagens, melhor seria no ter nascido. No  que tudo seja vaidade,- tudo  nada, menos do que nada.
Ser Lear culpado, ou mero fruto do seu tempo e lugar? "Ele sempre se conheceu muito pouco", Regan diz a Goneril, que responde: "O melhor e mais firme de sua vida 
sempre foi impensado". Das doze figuras principais em Rei Lear, oito morrem antes do final da pea (Lear, Cordlia, Edmundo, Gloucester, Goneril, Regan, Comwall 
e Oswald), e o Bobo desaparece. Os sobreviventes, Edgar e Albany, pertencem a um outro tempo/ Kent, que em breve h de embarcar em sua ltima jornada, sem dvida, 
seria considerado por Goneril um indivduo de atitudes "impensadas", noo que aqui parece sugerir "entusiasmo", e no "impetuosidade" ou "destempero". As atitudes 
impensadas de Lear, mesmo quando extremamente destrutivas, resultam do entusiasmo, em contraste com o brilhantismo frio e calculista de Edmundo. Embora tendam  
hiprbole, verdadeiras tempestades mentais, as metforas mais freqentes de Lear so, em parte, resgatadas por essa mesma grandiosidade, que reflete a magnitude 
da alma do Rei. Saliento aqui o resgate de uma figura de retrica porque nessa pea de extrema desolao pessoa alguma  salva, nem mesmo Lear. Cordlia, herona 
trgica, no requer resgate, e a grande mudana observada em Lear, os lampejos de compaixo e sensibilidade social, no fundo, so conseqncias de seu entusiasmo, 
e no as transformaes apontadas por Bradey e a maioria dos crticos que o seguiram. Edmundo confirma o paradigma shakespeariano da transformao final decorrente 
de uma auto-escuta, mas Lear  algo diferente, mesmo em Shakespeare:  o mais impressionante dentre todos os originais criados pelo poeta.
Nenhum outro personagem shakespeariano  representante to legtimo da Autoridade, com efeito, da autoridade suprema. A Era do Ressentimento, em que o pobre Caliban 
 exaltado, fica perplexa e frustrada diante de Lear, que insiste em ser o principal smbolo de paternidade no Ocidente. com sabedoria de gnio, Shakespeare concede 
a Lear apenas filhas, e a Gloucester apenas filhos. Lear j se sai mal com filhas
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#HAROLD  BLOOM
- quanto mais com filhos! O que Shakespeare poderia fazer com uma Rainha Lear? Teria ela, como a lacnica esposa de J, aconselhado o marido desesperado, dizendo: 
"Renegue a Deus e morra"? Sabiamente, a Rainha  falecida antes do incio da ao, sendo mencionada por Lear uma nica vez, para incrementar a bravata em uma de 
suas tantas imprecaes contra as filhas. Lear no  um estudo da redeno, mas do ato de ultrajar e sofrer ultraje,-  a perfeio shakespeariana no exerccio da 
potica do ultraje, superando at mesmo Macbeth, na capacidade de cativar junto ao pblico uma identificao involuntria. A morte  o ultraje mximo por que cada 
um de ns deve passar, e a verdadeira profecia de Lear no denuncia a ingratido filial, mas a Natureza, a despeito de ele insistir que fala em nome da Natureza.
Sempre ultrajado, exceto durante o breve idlio em que se reconcilia com Cordlia, Lear apela, primordialmente, queles que tm plena conscincia da prpria mortalidade. 
O ressentimento, justificado ou no,  parte da psicologia social; a sensao de ser ofendido no precisa de qualquer componente social. Morremos como indivduos, 
a despeito de nossa generosidade e de nossa conscincia social. A intimidade peculiar que o Rei Lear tem conosco, como nosso pai morto, depende, em parte, de nossa 
empatia com respeito a essa referida sensao de ofensa. Hamlet, sempre adiante de ns, lida com poderes sobrenaturais, apesar de todo o seu ceticismo (e do nosso). 
Lear confunde-nos por estar to prximo de ns, apesar de toda a sua grandeza. Exceto para os que tm firmes convices transcendentais (Lear perde as suas), o nico 
fenmeno que pode ser anteposto  mortalidade (alm do estoicismo herico)  o amor, seja de natureza familiar ou ertica. Nessa pea, conforme ressaltei ao analisar 
o personagem de Edgar, o amor  catastrfico. Problemas decorrentes do amor domstico destroem Lear e Gloucester,. o desejo assassino e suicida que Goneril e Regan 
sentem por Edmundo, a mais desgarrada das almas, s poderia lev-lo, agonizante,  concluso de que fora amado. Shakespeare, sem qualquer remorso, faz do amor, a 
um s tempo, algo ultrajante e ultrajado, em um cosmo centrado na questo da grandeza (carente) de Lear.
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REI  LEAR
Deve ser a minha prpria sensao de ultraje que me diz que os exemplos supremos da terceira idade em Shakespeare so Lear e Falstaff, uma desvairada justaposio. 
Lear lamenta-se por ser idoso,- Falstaff evita negar a prpria idade, afirmando-se eternamente jovem. Brincar em campos de batalha, fazer travessuras com Doll Tearsheet, 
envaidecer Gadshill por  se tornar salteador, encenar esquetes em tavernas - ser esse o estilo de vida de um velho? Ser que Shakespeare tinha a intuio de que 
no passaria dos cinqenta e dois anos? Tenho em mim bastante . do esprito do sculo XIX para ver em Falstaff o retrato do artista como velho: extremamente inteligente, 
cmico, bondoso, vivaz, apaixonado como o autor dos Sonetos, rejeitado e melanclico. O personagem de Lear, criado bem mais tarde, no , absolutamente, uma projeo 
autobiogrfica. Nem mesmo o Bobo (especialmente o Bobo?) pode fazer Lear rir. Em Falstaff, a velhice  derrotada, at que o fracasso ertico faz de Sir John, novamente, 
uma criana que morre enquanto brinca com flores. A coroa de flores com que Lear adorna a prpria cabea  o triunfo de sua loucura, mais um episdio em uma velhice 
que  uma verdadeira derrocada.
Sempre que Lear se recorda de que tem mais de oitenta anos, o contraste com Falstaff fica acentuado, e Shakespeare, desse modo, aumenta a distncia entre si e Lear. 
Falstaff, mesmo depois de rejeitado, esfora-se para no internalizar o sofrimento, ao passo que Lear parece no ter defesa contra seu prprio patbos. Lear  o cerne 
do mundo que o cerca, como enfatizava Arthur Kirsch, ao comparar Lear e Koheleth, o pregador do Eclesiastes, sempre examinando seu prprio corao e sempre ali encontrando, 
como no mundo, a vaidade das vaidades. A coragem de Lear , certamente, sua qualidade mais cativante, mas  sumamente importante reconhecer outros aspectos de sua 
grande personalidade, para no passarmos a v-lo apenas como uma montanha de patbos, e sim como o mais trgico de todos os personagens dramticos. E a grande imagem 
da autoridade, mas ele mesmo deprecia essa imagem, com grande deliberao: "Um co  obedecido se ocupa um cargo". A verdadeira grandeza de Lear  outra: mesmo 
em sua espantosa teimosia, ele  sempre honesto, e seu exemplo ensina o afilhado Edgar a "S
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de emoo, no de dever, falar", palavras pronunciadas no final da pea. Em sua fria infinita, Lear  infinitamente franco,- seu esprito grandioso no abriga a 
duplicidade. Rei da cabea aos ps, ele  o menos maquiavlico dos monarcas shakespearianos,  exceo de Henrique VI, mais talhado para eremita do que rei.
Shakespeare arrisca o paradoxo de que o pior dos polticos por ele criado  o governante mais poderoso. Lear  nobre demais para se prestar  dissimulao, assim 
como Cordlia, sua verdadeira filha. A grandeza que os dois tm em comum  sua mtua tragdia, quando o que h de melhor  posto a perder. Eis um dos segredos da 
tragdia shakespeariana: nelas estamos alm do bem e do mal, porque no somos capazes de estabelecer entre o bem e o mal uma distino meramente natural, ainda que 
Lear e Edmundo, em suas maneiras opostas, creiam que isso seja possvel. A imensa generosidade de esprito observvel em Lear, que faz com que ele ame em demasia, 
o impele a exigir amor demais. Outros modismos acadmicos e teatrais surgiro, mas Lear sempre h de ressurgir como o maior dos cticos criados por Shakespeare, 
superando at mesmo Hamlet, como embaixador da morte junto a ns.
Charles Lamb, meu precursor na convico de que "Lear , basicamente, impossvel de ser representado no palco", insistia que a grandeza do personagem  uma questo 
de dimenso intelectual, por exemplo, quando o Rei identifica sua idade com a dos cus. Lamb queria dizer que a imaginao de Lear, embora enferma,  mais saudvel 
do que a de Macbeth, e que a mesma ainda tem algo da fora proftica da imaginao do Rei Escocs. Lear no  dos maiores intelectos inventados por Shakespeare; 
nessa pea, intelecto  reservado a Edmundo. Mas a imaginao de Lear, e a linguagem por ela engendrada,  a maior e a mais normativa em todo o cnone shakespeariano. 
Aquilo que Lear imagina, imagina muito bem, mesmo na loucura, na fria do inferno que ele invoca para si mesmo. Sem Lear, a inveno do humano feita por Shakespeare 
no teria feito jus  capacidade de representao do poeta. Como pode a crtica categorizar a questo da grandeza em um personagem literrio? A servio de ideologias, 
a crtica, atualmente, sequer tenta faz-lo, mas, para ser adequada a Shakespeare, qualquer anlise
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REI  LEAR
racional e sensvel deve encarar a questo da grandeza, tanto nos protagonistas como no criador. Rei Lear, pedra de toque do sublime, esvazia-se se a grandeza de 
Lear for reduzida ou negada.
Na vida, muitas vezes, somos enganados,- a grandeza de amigos e figuras polticas no sobrevive a um exame mais criterioso. Aqueles que partem de uma premissa que 
nega a existncia da grandeza talvez no percebam a grandeza de Lear. Mas que pessoas sero essas, que no tm sequer o sonho da grandeza? Por assim sonhar, Johnson 
gostava imensamente de Falstaff, e, tambm, porque Falstaff mantinha longe a melancolia, demnio que atormentava o crtico. Nenhum de ns poder amar Lear: no somos 
Cordlia, Edgar, o Bobo, Gloucester, Kent, nem Albany, to culpado. Mas duvido que algum possa deixar de perceber a sublimidade de Lear. Shakespeare emprega toda 
a sua exuberante genialidade na construo da grandeza de Lear, esplendor que vai alm do de Salomo. As falas de Lear estabelecem medidas que personagem algum pode 
aproximar,- os limites da capacidade de afeto do ser humano so sempre superados pelo Rei. Sentir o sofrimento de Lear  chegar ao ponto mximo da nossa prpria 
angstia e dor/ a terrvel intimidade em que Lear insiste em penetrar -nos intolervel, como atestou Johnson. J salientei que essa intimidade decorre do fato de 
Lear usurpar a experincia de cada um de ns com relao ao pai, ou  paternidade. Agora, esboarei melhor o argumento. O "Lear pai", graas  ousadia de Shakespeare, 
sempre invoca o Deus Pai, metfora ocidental hoje em dia renegada em todas as universidades bem como nas igrejas mais esclarecidas. No espero que crticos feministas 
(de ambos os sexos) aceitem tais evocaes, mas repudiar Lear  um gesto que h de custar caro, pois algo mais do que o patriarcado cai por terra com a runa do 
Rei Lear. Em toda a literatura, inclusive na Bblia, no h voz que expresse sentimentos mais sinceros do que a de Lear, e descartar a grandeza de Lear  abandonar 
parte de nossa capacidade de sentir emoo.
A linguagem de Lear atinge a apoteose nos extasiantes dilogos com um Gloucester cego (ato IV, cena vi), quando o rei enlouquecido entra em cena "enfeitado fantasticamente 
corn flores selvagens". Essa centena de versos constitui uma das investidas de Shakespeare contra os limites
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da arte, principalmente, porque o patbos neles contido no tem precedentes. Depois que Gloucester reconhece a voz de Lear, o rei canta uma denncia to extrema contra 
as mulheres que ele mesmo pede blsamo para adoar-lhe a imaginao doentia:
Rei dos ps  cabea: ^
Quando eu olho, v o sdito tremer.
Perdo a vida desse. Qual seu crime?
Adultrio?
No morrer: por adultrio? No:
A garria o comete, e a mosca de ouro
D-se  luxria  minha frente.
Que grasse a cpula,- o bastardo Edmund (sic)
Foi melhor pra seu pai que minhas filhas
Geradas legalmente. Eia aos devassos!
Faltam-me tropas. A que assim cicia
Fala de neve no rosto entre as pernas,
Finge virtude mas sacode toda
Ouvindo o nome do prazer,-
Nem puta nem garanho se atira
corn apetite mais escandaloso.
Da cintura para baixo so centauros
Mesmo mulheres mais pra cima:
Deuses so s da ilharga para cima,-
Pra baixo s h demos, negro inferno,
 a fonte do enxofre - queima, escalda,
Fede e consome,-  s vergonha,- pah!
D-me um pouco de almscar, boticrio,
Pradoar a imaginao.
[IV.vi.]
Shakespeare, que, em absoluto, no tinha dio s mulheres, arrisca esse momento extremo, precisamente, porque a autoridade de Lear fracassa no que se achava mais 
slida-, no relacionamento do Rei com
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REI   LEAR
as filhas. Goneril e Regan roubam-lhe a autoridade,- a natureza das duas aproxima-se da idia que Edmundo, e no Lear, tem da natureza,- portanto, a repulsa do rei 
enlouquecido parte da prpria natureza, e no est ligada  idia mas ao fato da diferena sexual. O pblico, de ambos os sexos, que assistia s peas de Shakespeare 
conhecia a gria segundo a qual "inferno" significava Vagina", mas  possvel que Lear tenha chocado at os que se divertiam com a representao da loucura. Nenhum 
exorcismo que se aplicasse exclusivamente s mulheres poderia resolver os problemas de Lear,- todo velho, conforme escreveu Goethe,  um Rei Lear, exorcizado pela 
prpria natureza. As palavras "adoar a imaginao" contm o pathos mais tocante desse trecho, uma vez que sugerem o mesmo Lear que, em breve, proclama a Gloucester: 
"[...] Nisso se v / A grande imagem da Autoridade: / Um co  obedecido se ocupa um cargo".
Esse Lear , to-somente, louco como William Blake era louco: profeticamente, contrrio  natureza e  sociedade. Edgar, desesperado ante o sofrimento do padrinho, 
diz, em um aparte, "Razo na loucura", mas essa no , necessariamente, a perspectiva do pblico. Mais uma vez, como William Blake, a profecia de Lear faz convergir 
razo, natureza e sociedade em uma grande imagem negativa, a autoridade inautntica desse grande palco de bobos. Nascemos chorando, sabendo, como Lear, que a criao 
e a queda so simultneas. Essa constatao perdura em Macbetb, em que, novamente, a ao se d no mundo que os gnsticos antigos denominavam kenoma, ou "vazio". 
O que pode constituir paternidade no kenoma? Os espelhos e a paternidade so igualmente abominveis, de acordo com Borges, o gnstico moderno, porque multiplicam 
as imagens de homens e mulheres. A terrvel sabedoria de Lear, longe de ser patriarcal,  to antipatriarcal quanto A Sabedoria de Salomo e o Eclesiastes, cujo 
conceito de "vaidade"  semelhante ao de Vazio" observado nos gnsticos. "No vem nada de nada" poderia ser o lema da paternidade na pea de Lear. Somente Cordlia 
pode refutar tal desespero, e Lear profetiza o que h de mais sombrio na trama, quando ressurge da loucura para ver Cordlia e dizer: "Sei que s esprito. Quando 
morreste?".
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MACBETH
A tradio teatral fez de Macbeth a mais desventurada das peas shakespearianas, especialmente para os que nela atuam. O prprio Macbeth pode ser visto como o mais 
desventurado dos protagonistas shakespearianos, precisamente por ser o mais imaginoso. Verdadeira mquina mortfera, Macbeth  dotado de inteligncia abaixo da mdia, 
mas a sua capacidade de fantasiar  tamanha que mais se parece com a do prprio autor. Pea alguma de Shakespeare - nem mesmo Rei Lear, Sonho de uma Noite de Vero 
ou A Tempestade - cerca-nos de to profunda fantasmagoria. Em Sonho de uma Noite de Vero e A Tempestade a magia  absolutamente crucial, ao passo que, em Rei Lear, 
no h magia ou bruxaria aparentes, embora cheguemos a suspeitar da presena de tais elementos, pois a ao apresenta uma intensidade alucinatria.
Em Macbeth, embora ubqua, a bruxaria no  capaz de alterar os fatos, mas a alucinao  capaz de faz-lo - e o faz. A magia tosca encontrada na pea  fruto exclusivo 
da criao de Shakespeare, que, mais do que nunca, d asas  imaginao, em busca do limite moral da mesma (se  que tal limite existe). No estou sugerindo que 
Macbeth represente Shakespeare, assim como Falstaff e Hamlet, com grande complexidade, podem representar determinados aspectos interiores do poeta-dramaturgo. Mas 
no sentido renascentista da palavra "imaginao" (diferente do nosso), Macbeth pode ser visto como um representante da imaginao de Shakespeare, faculdade que deve 
ter assustado Shakespeare, e
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MACBETH
que a ns causa terror, quando lemos ou assistimos a uma montagem dessa pea, que tanto depende dos horrores da imaginao. Imaginao (ou fantasia)  questo ambgua 
para Shakespeare e seus contemporneos, implicando, ao mesmo tempo, verve potica, como uma espcie de substituto da inspirao divina, e um abismo aberto em meio 
 realidade, quase um castigo pela permuta do sagrado pelo secular Shakespeare atenua a aura negativa da fantasia em outras peas, mas no em Macbeth, que vem a 
ser a tragdia da imaginao. Embora a pea .proclame, em triunfo, "O tempo est livre", quando Macbeth  morto, as inescapveis reverberaes que sentimos ao fechar 
o livro, ou ao deixar o teatro, pouco tm a ver com a nossa liberdade.
Ao morrer, Hamlet toma-se livre, talvez, fazendo crescer a nossa sensao de liberdade, mas a morte de Macbeth liberta-nos bem menos. A reao universal a Macbeth 
decorre do fato de identificarmo-nos com ele, ou, pelo menos, com a sua imaginao. Ricardo in, lago e Edmundo so heris-viles, mas ser um equvoco assim classificar 
Macbeth. Para os trs heris-viles, perversidade  motivo de prazer, enquanto Macbeth sofre intensamente ao constatar que causou - e que est fadado a seguir causando 
- o mal. De modo chocante, Shakespeare faz de ns Macbeths,- nossa identificao com o personagem , igualmente, involuntria e inevitvel. Todos possumos, embora 
em graus distintos, imaginao proftica,- em Macbeth, esse tipo de imaginao tem um valor absoluto. O personagem nem bem se d conta de uma ambio, uma aspirao, 
ou um desejo, e j  capaz de ver a si mesmo cometendo o crime que, equivocamente, satisfaz a referida ambio. Macbeth aterroriza-nos, em parte, porque nossa imaginao 
tem um lado assustador, fazendo-nos parecer assassinos, ladres, usurpadores ou estupradores.
Por que no conseguimos resistir  identificao com Macbeth? O protagonista domina a pea de maneira to absoluta que no temos a quem mais recorrer. Lady Macbeth 
 personagem forte, mas Shakespeare a retira do palco aps a quarta cena do terceiro ato, exceto por ocasio do breve momento em que ela surge, em estado de loucura, 
no incio do quinto ato. Shakespeare mata Merccio para impedi-lo de roubar a cena em Romeu e Julieta, e faz da morte de Falstaff objeto do
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#HAROLD  BLOOM
relato de terceiros, para impedir que Sir John ofusque um Hal "certinho", no final de Henrique V. Depois que Lady Macbeth sai de cena, a nica e grande presena 
no palco  Macbeth. Sabiamente, Shakespeare no tenta individualizar Duncan, Banquo, Macduff e Malcolm. Em suas breves aparies, o porteiro bbado, o filho de Macduff 
e a prpria Lady Macduff so mais marcantes do que todos os coadjuvantes da pea, envoltos em uma mesma cortina de fumaa. Uma vez que a Macbeth cabe um tero das 
falas, e que o papel de Lady Macbeth , por assim dizer, truncado, a inteno de Shakespeare quanto  recepo da pea parece clara: cabe-nos empreenderuma jornada 
ao mais nefasto interior de Macbeth, onde encontramos a ns mesmos, naquilo que temos de mais autntico e estranho, como assassinos em esprito e do esprito.
O horror contido na pea, analisado por Wilbur Sanders com tanta competncia,  proposital e salutar. Se somos levados a nos identificar com Macbeth, ainda que 
ele nos aterrorize (e aterrorize a si mesmo),  porque somos, igualmente, aterrorizantes. Na contramo da frmula trgica aristotlica, Shakespeare inunda-nos com 
temorepena, no para nos purgar, mas com um propsito sem propsito, o qual interpretao alguma ser capaz de explicar. A sublimidade de Macbeth e de Lady Macbeth 
 irresistvel,- trata-se de personalidades convincentes e valorosas, alm de profundamente apaixonadas. Alis, com incomparvel ironia, Shakespeare apresenta-os 
como o casal mais feliz de toda a sua obra dramtica. E os dois nada tm de demonacos, a despeito dos terrveis crimes que cometem e da merecida catstrofe que 
sobre eles se abate. A pea em que esto inseridos  de tal modo abreviada (aproximadamente, a metade da extenso de Hamlet) que no temos tempo de confrontar-lhes 
a descida ao inferno.
Macbetb apresenta uma espantosa unidade de enredo, personagens, tempo e lugar, costurados com mais percia do que em qualquer outra pea shakespeariana. O cosmo 
da trama  mais drstico e alienado at mesmo do que o de Rei Lear, em que a Natureza  ferida to profundamente. Rei Lear  pr-crist, enquanto Macbetb, nitidamente 
medieval e catlica, parece menos localizada na Esccia do que no kenoma, o vazio cosmolgico do mundo, segundo a descrio dos antigos hereges
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MACBETH
gnsticos. Shakespeare tinha algum conhecimento de gnosticismo, atravs da Hermtica de Giordano Bruno, embora, a meu ver, haja pouca, ou mesmo nenhuma, possibilidade 
de uma influncia direta de Bruno em Shakespeare (apesar das interessantes conjeturas de Francs Yates). No entanto, o horror gnstico ao tempo parece ter-se infiltrado 
em Macbetb, vindo da natureza absolutamente universal da conscincia de Shakespeare. Somos atirados no mundo de Macbetb, um calabouo que serve tanto aos tiranos 
quanto s vtimas. Se Rei Lear  pr-crist, Macbetb , estranhamente, ps-crist. Como vimos, insinuaes crists rondam os pagos em Lear, ainda que sem propsito 
ou conseqncia. Apesar das aluses desesperadas feitas por vrios personagens, Macbetb nega qualquer pertinncia  revelao crist. Macbeth  o "homem sanguinrio", 
abominado nos Salmos e em outros trechos da Bblia, mas, dificilmente, poder ser relacionado  perversidade bblica. Seus crimes nada tm de, especificamente, anticristos,- 
ofendem toda e qualquer viso do sagrado e do moral de que a histria humana tem conhecimento. Talvez, por isso, Trono de Sangue, de Akira Kurosawa, seja a melhor 
verso cinematogrfica de Macbetb, embora a mesma tanto se distancie das especificidades da pea shakespeariana. A tragdia de Macbeth, assim como a de Hamlet, de 
Lear e de Otelo,  to universal que um contexto estritamente cristo ser-lhe- inadequado.
Em diversas oportunidades tenho aqui apresentado minha concluso de que Shakespeare, em toda a sua obra, propositadamente evita (ou mesmo toma confusos) os parmetros 
cristos, estando longe de ser um poeta-dramaturgo devoto,- no h Sonetos Religiosos compostos por Shakespeare. At o Soneto 146 ("Pobre alma, centro do meu barro 
em erro")* trata-se de um poema ambguo, especialmente, o dcimo primeiro verso, crucial: "Compra o divino ao vender hora impura". Ser que Shakespeare "acreditava" 
na ressurreio do corpo? No saberamos, mas nada encontro nas peas ou nos poemas que indique uma viso sobrenaturalista da parte do autor,- antes, encontro mais 
o que sugere um niilismo pragmtico. No h conforto espiritual maior a ser obtido
Traduo de Jorge Wanderley, op cit., p. 323. [N.T.]
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junto a Macbetb com relao a qualquer das outras grandes tragdias. com sutileza, Graham Bradshaw defende a hiptese de que o terror em Macbeth  cristo, mas 
endossa as reflexes de Nietzsche sobre a pea em Aurora (1881). Eis a seo 240, de Aurora-.
Da moralidade da cena - Aquele que imagina que o teatro de Shakespeare produziu efeito moral e que a viso de Macbeth afasta irresistivelmente dos perigos da ambio, 
engana-se: engana-se ainda se pensa que o prprio Shakespeare sentiu como ele. Quem possui verdadeiramente uma ambio furiosa, contempla a, voluptuosamente, a 
sua imagem,- e quando o heri aparece, vtima da sua paixo, isso constitui primeiramente o mais condimentado ingrediente na bebida ardente desta volpia. Sentiu 
o poeta de outra maneira? com que altivez real, sem nada de libertino, o ambicioso percorre a sua carreira, uma vez realizado o seu audacioso crime! E s ento 
que ele exerce a sua atrao "demonaca" e impele as naturezas semelhantes a imit-lo:
- demonaco quer dizer aqui: com desprezo de interesse e da vida em benefcio de uma idia e de um instinto. Pensais pois que Tristo e Isolda deram uma lio contra 
o aulrio porque morreram os dois? Seria virar os poetas de cabea para baixo: eles que, sobretudo como Shakespeare, so apaixonados da paixo em si e de modo 
algum das disposies mrbidas que a acompanham quando o corao no tem na vida mais do que uma gota no fundo do copo. Eles no tomam a srio a falta e o seu fim 
terrvel, Shakespeare, tal como Sfocles (no Ajax, Filocteto, dipo): to fcil teria sido, nos casos precedentes, fazer da falta a alavanca do drama, justamente 
como procuraram evit-lo. O poeta trgico deseja to pouco prevenir contra a vida atravs da imagem que d! Ele exclama, pelo contrrio: "O encanto de todos os encantos 
 esta existncia apaixonada, mutvel, perigosa, sombria e muitas vezes incadeada (sic) de sol! E a aventura de viver, - tomais este ou aquele partido na vida, ele 
manter sempre esta caracterstica!"
- Assim fala ele, do interior de uma poca agitada e forte que
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semi-embriaga e atordoa com a sua abundncia de sangue e de energia, - de uma poca pior do que a nossa: eis por que somos obrigados a modificar e a adaptar a ns 
o objectivo (sic) de um drama Shakespeareano (sic), quer dizer a no o compreender.*
Nietzsche remete-se aqui  mxima de William Blake: a grande arte  amoral, "exuberncia  beleza". Decerto, Macbetb excede em sangue e energia,- o terror da pea 
pode ser mais cristo do que grego, ou romano, mas  to primevo que me parece mais xamanista do que cristo, assim como o "divino", no Soneto 146, parece-me mais 
platnico do que cristo. Dentre todas as peas shakespearianas, Macbeth  a grande "tragdia de sangue", no apenas quanto aos assassinatos, mas quanto s implicaes 
da sanguinria imaginao do protagonista. Macbeth, o usurpador, move-se em meio a uma fantasmagoria de sangue: sangue  o componente bsico de sua imaginao. Macbeth 
percebe que  o sangue que lhe faz oposio, e que essa fora oposta o impele a derramar mais sangue: "Haver sangue. /Dizem que o sangue pede sangue".**
Macbeth pronuncia essas palavras em seguida ao confronto com o fantasma de Banquo e, como de hbito, a coerncia de sua imaginao  mais forte do que a confuso 
instalada em seu raciocnio. Ausurpao perpetrada por Macbeth extrapola os princpios polticos do reino e pe em risco a bondade natural do casal, por eles abandonada, 
e que Macbeth eliminaria, at em nvel cosmolgico, se fosse capaz de faz-lo. Essa bondade natural e a acepo bsica da palavra "sangue" podem ser consideradas 
crists, mas o cristianismo  religio revelada por Deus, e Macbeth revolta-se contra a natureza borde imaginada. Essa noo toma o cristianismo to irrelevante 
em Macbeth como em Rei Lear, e em todas as tragdias shakespearianas. Otelo, cristo convertido, no peca contra o cristianismo, mas contra a sua prpria natureza, 
enquanto Hamlet, embora sendo, ele prprio, a apoteose dos dons naturais, no consegue
Aurora. Traduo de Rui Magalhes. Porto- RS - Editora, Lda., s.d., p. 155-6 [N.T.] *Madetb. Traduo de Manuel Bandeira. Segunda Edio. So Paulo: Editora Brasdiense,
1989. Todas as citaes referem-se a essa edio. [N.T.]
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agir de acordo com eles. No estou aqui propondo que Shakespeare seja gnstico, niilista, ou um vitalista nietzschiano trs sculos antes de Nietzsche. Mas, como 
dramaturgo, ele  tudo isso - tanto quanto cristo. Conforme j dei a entender, Macbetb no  uma celebrao da imaginao de Shakespeare,- tampouco tragdia crist. 
Ao escrever Macbetb, Shakespeare, que sabia tudo o que sabemos - e muito mais - (a humanidade jamais desistir de tentar alcan-lo), h muito exorcizara Marlowe 
e, junto com Marlowe, a tragdia crist. Macbeth nada tem em comum com Tamerlo ou Fausto. A natureza que Macbeth mais fere  a dele prprio, mas, embora logo 
se d conta disso, recusa-se a seguir Lady Macbeth, na trajetria de loucura e suicdio.
Tanto quanto Sonho de uma Noite de Vero e A Tempestade, Macbeth  pea visionria, tragdia visionria, por mais difcil que nos seja aceitar a hiptese de um gnero 
dramtico to estranho. Macbeth  um profeta involuntrio, quase um mdium, extremamente vulnervel aos espritos da noite. Lady Macbeth, de incio, mais arrojada 
do que o marido, entra em declnio psquico por motivos de ordem visionria. O potencial dos Macbeth  to sublime - sendo eles as figuras de ardor ertico que so 
-, que as suas ambies polticas e dinsticas parecem estar, grotescamente, aqum do seu desejo mtuo. Por que anseiam pela coroa? O Ricardo in criado por Shakespeare, 
ainda marloviano, busca a satisfao que uma coroa pode lhe proporcionar, mas o casal Macbeth no apresenta um maquiavelismo aodado, tampouco so sdicos ou to-somente 
obcecados pelo poder. O desejo ardente que sentem um pelo outro  tambm o desejo pelo trono, desejo esse que constitui uma vingana nietzschiana contra o tempo 
e contra a irrefutvel declarao do tempo: "passou". Shakespeare no esclarece a questo de o casal no ter filhos. Lady Macbeth menciona ter amamentado uma criana 
j falecida,- presumivelmente, a criana seria sua. No temos qualquer informao de que Macbeth seja seu segundo marido, mas ele bem pode o ser. Ele a exorta a 
ter apenas filhos homens, por admirar-lhe a coragem
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MACBETH
"mscula", mas, na prtica, os dois parecem no querer ter filhos, e Macbeth ainda manda matar Fleance, filho de Banquo, e destri os filhos de Macduff. Freud, mais 
brilhante ao analisar Macbetb do que Hamlet, considera a ausncia de filhos a maldio que leva Macbeth a matar e usurpar. Shakespeare deixa a situao um tanto 
indefinida,-  difcil imaginarmos Macbeth como pai, sendo ele to dependente de Lady Macbeth. Antes de enlouquecer, ela parece ser no apenas esposa, mas
me de Macbeth.
De todos os protagonistas trgicos criados por Shakespeare, Macbeth  o menos livre. Conforme salienta Wilbur Sanders, em suas aes, Macbeth parece empurrado. Estejam 
Nietzsche e Freud certos ou no, Shakespeare, ao acreditar que somos impelidos por foras involuntrias, antecipa Nietzsche nessa convico. Sanders segue Nietzsche, 
ao concluir que Macbeth carece de vontade prpria, em contraste com Lady Macbeth, que  pura vontade, at o momento em que se desintegra. A perspectiva de Nietzsche 
pode constituir uma indicao do modo diferente com que os Macbeths almejam a coroa: ela a deseja,- ele nada deseja. Paradoxalmente, ela se desintegra, ao passo 
que ele  se torna cada vez mais assustador, aterrorizando a todos, inclusive a si mesmo,  medida que se transforma no nada por ele prprio projetado. E, no entanto, 
esse nada  sempre um sublime negativo, cuja grandeza faz jus  dignidade da perspectiva trgica. O enigma de Macbetb, como drama, estar sempre relacionado  intrigante 
simpatia que o protagonista desperta. Shakespeare previu a nossa cumplicidade com Macbeth, uma espcie de Mr. Hyde, enquanto ns somos Dr. Jekyll. A fascinante 
narrativa de Stevenson deixa claro que Hyde  mais jovem do que Jekyll, to-somente porque a carreira de Jekyll  curta, com relao ao mal, embora longa, com 
relao ao bem. A estranha sensao de que, de certo modo, em seus atos, Macbeth  mais jovem do que ns  anloga  fico de Stevenson. Por mais (ou menos) virtuosos 
que formos, receamos que Macbeth, como Mr. Hyde, possa instigar o nosso potencial de cometer o mal. O pobre Jekyll acaba transformando-se em Mr. Hyde, no mais conseguindo 
retornar  sua verdadeira identidade,- a arte de Shakespeare reside na capacidade de nos sugerir um destino semelhante.
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Ser Shakespeare- de uma maneira ou de outra -, igualmente, um Dr. Jekyll, e Macbeth seu Mr. Hyde? Como poderia deixar de s-lo, se considerarmos o sucesso com 
que Shakespeare alcana o sublime negativo universal, ao imaginar aquilo que Macbeth imagina? Tanto quanto Hamlet, com quem tem estranha afinidade, Macbeth projeta 
uma aura de intimidade: com o pblico, com os malfadados atores e com o autor. Segundo os crticos formalistas - de ontem e hoje -, personagem algum  maior do 
que a pea em que est inserido, uma vez que o personagem  "apenas" um papel a ser representado por um ator. Espectadores e leitores so menos formalistas: Shylock, 
Falstaff, Rosalinda, Hamlet, Malvlio, Macbeth, Clepatra (e tantos outros) podem, perfeitamente, ser transferidos a contextos diferentes daqueles que os cercam. 
Sancho Pana, como demonstrou Kafka na extraordinria parbola "A Vejdade sobre Sancho Pana", pode tomar-se o criador de Dom Quixote. E preciso que surja entre 
ns um novo Kafka, ainda mais borgesiano, para mostrar-nos Antnio como criador de Shylock, ou o Prncipe Hal como o pai de Sir John Falstaff.
Considerar Macbeth maior do que a pea por ele protagonizada em nada deprecia esta que  a minha favorita em toda a obra dramtica de Shakespeare. A conciso de 
Macbeth  cruel, e os estudiosos que a supem truncada, ou parcialmente escrita por Thomas Middeton, deixam de perceber a sombria inteno de Shakespeare. O elemento 
que, notoriamente, domina essa pea, mais do que qualquer outra do cnone shakespeariano,  o tempo, no o tempo no sentido misericordioso cristo, i.e., como eternidade, 
mas o tempo voraz, a morte encarada, niilisticamente, como o fim. At o presente, crtico algum foi capaz de distinguir entre morte, tempo e Natureza em Macbetb; 
Shakespeare funde de tal modo esses elementos que ficamos absolutamente aturdidos. Ouvimos vozes que conclamam a frmula da salvao, embora jamais de modo convincente, 
se comparadas  de Macbeth, ao falar da noite e do tmulo. A rigor, os indivduos presentes em Macbetb so "guerreiros cristos", como certos crticos gostam de 
acentuar, mas o catolicismo medieval escocs de tais personagens  superficial. O reino,
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conforme o caso de ReiLear,  uma espcie de deserto cosmolgico, uma Criao que implica a perda da graa.
Macbeth  uma espcie de noturno,- a Esccia da pea  mais uma regio mitolgica setentrional do que a terra do monarca que  patrono de Shakespeare. Sem dvida, 
o Rei Jaime I motivou alguns aspectos da pea, mas no o ponto central: que a noite usurpou o dia. O assassinato  a ao mais caracterstica em Macbeth, e as vtimas 
no so apenas o Rei Duncan, Banquo, Lady Macduff e seus filhos. Nitidamente, todos
- os personagens so alvos potenciais do casal Macbeth. Shakespeare, quem sabe, em Tito Andrnico, tendo ironizado as atrocidades cometidas em cena aberta nas obras 
de outros dramaturgos, em Macbeth, lida com a questo do assassinato de modo bem mais sutil. No se trata, exatamente, de sermos ns, espectadores, as vtimas em 
potencial. Pior do que isso, o Macbeth que temos dentro de ns pode nos levar a cometer um ou dois assassinatos mentalmente.
No me ocorre qualquer outra obra literria dotada da capacidade de contagiar de Macbeth, exceto Moby-Dick, de Herman Melville, romance pico profundamente influenciado 
pela pea shakespeariana. Ahab  outro manaco visionrio, obcecado com o que lhe parece uma ordem maligna universal. Ahab destri a mscara das aparncias naturais, 
como c faz Macbeth, mas a Baleia Branca no  vtima fcil. Tanto quanto Macbeth, Ahab enfurece-se diante do demnio que o engana, mas o profeta de Ahab, o arpoador 
prseo de nome Fedallah,  bem mais ambguo do que as Bruxas. Identificamo-nos com o Capito Ahab de modo menos ambivalente do que com o Rei Macbeth, visto que 
Ahab no  assassino nem usurpador,- em todo caso, Ahab  to destruidor quanto Macbeth: todos a bordo do Pecjuod,  exceo de Ismael, o narrador, sucumbem em conseqncia 
da busca comandada por Ahab. Melville, perspicaz intrprete de Shakespeare, toma emprestado para Ahab a imaginao fantasmagrica e proftica de Macbeth, de maneira 
que tanto Ahab quanto Macbeth tomam-se destruidores do mundo. A charneca escocesa e o Oceano Atlntico se confundem: tomam-se contextos onde foras sobrenaturais 
desafiam uma conscincia sublime,
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que tenta, em vo e sem sorte, resistir, sendo fragorosamente derrotada. Talvez, Ahab, Prometeu norte-americano, seja mais heri do que vilo, ao contrrio de Macbeth, 
que deixa de merecer a nossa admirao, embora jamais a nossa involuntria simpatia.
3
Para Hazlitt, a "nica certeza [de Macbeth]  o momento presente".  medida que a ao da pea transcorre rumo  catstrofe, tal certeza toma-se cada vez mais comprometida, 
e a ansiedade apocalptica de Macbeth leva Victor Hugo a identific-lo com Nimrod, o primeiro caador de almas encontrado na Bblia. O paralelo parece justificado: 
a chocante vitalidade de Macbeth confere ao mal fora e majestade bblicas, engendrando o paradoxo de que a pea parece crist no por exprimir benevolncia, mas 
porque as idias do mal nela contidas desafiam explicaes meramente naturalistas. Somente a mais negativa das teologias, uma teologia que exclua a Encarnao, poder 
ser aplicada a Macbeth. O cosmo de Macbeth, como o de Moby-Dick, desconhece o Salvador,- a charneca e o mar so imensas mortalhas, de onde os mortos no ressuscitaro.
Deus  banido de Macbeth e de Moby-Dick, assim como de Rei Lear. Banido, no negado ou morto,- Macbeth reina em um vazio cosmolgico em que Deus est perdido, longe 
demais para ser invocado. Assim como em Rei Lear, em Macbeth, os momentos da criao e da perda da graa se confundem. A natureza e o homem passam a sofrer a ao 
do tempo a partir do ato da criao. Ningum quer ver as Bruxas excludas de Macbeth, devido  sua importncia dramtica, mas a viso cosmolgica que prevalece na 
pea as toma um tanto desnecessrias.
Entre o que Macbeth imagina e os atos por ele praticados existe to-somente um intervalo de tempo, durante o qual o protagonista parece carecer de vontade prpria. 
As Bruxas, musas de Macbeth, passam a responder pela vontade do protagonista,- no podemos conceb-las aparecendo a lago ou a Edmundo, ambos dotados de grande vontade 
prpria. Estes no so vazios,- Macbeth o . O que se sucede com Macbeth  inevitvel, a despeito de toda a sua culpa, e pea
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MACBETH
alsuma de Shakespeare segue uma cadncia to acelerada, nem mesmo as farsas escritas em incio de carreira (conforme Coleridge j observava) Talvez, tal ritmo incremente 
o horror da pea,- a mente parece incapaz ante o universo da morte, cosmo digno da fantasmagoria de Macbeth e das Bruxas.
Shakespeare confere pouca capacidade de cognio aos personagens de Macbeth, e ao protagonista menos que a todos. A fora do intelecto de Hamlet, lago e Edmundo 
no concerne a Macbeth, nem  pea por ele protagonizada. Em Macbeth, Shakespeare dispersa a energia mental, de maneira que nenhum personagem, isoladamente ou em 
grupo,  capaz de chegar a um entendimento da tragdia em questo. Em Macbeth, o intelecto est ausente, tendo abandonado tanto os humanos quanto os espritos, e 
erra como bem quer, percorrendo, caprichosamente, os cantos mais remotos do vazio cosmolgico. Coleridge detestava a cena do Porteiro (ato II, cena in), com as 
clebres batidas  porta, e preferia no dar ouvidos  premncia cognitiva das mesmas. O intelecto bate  porta, e entra em ao, no primeiro e nico momento cmico 
da pea. Shakespeare recorre ao principal comediante de sua companhia (presumivelmente, Robert Armin) para introduzir um toque de amenidade em uma pea que usa o 
sobrenatural e a fantasmagoria da morte e do poder para nos intimidar:
O PORTEIRO
Irra! Batem deveras! Homem que fosse porteiro do Inferno teria grande prtica de dar  chave. (Batem.) Toe, toe, toe! Quem , em nome de Belzebu? - E um lavrador 
que se enforcou porque esperava uma boa colheita. - Entra, homem dependente do tempo, e traze lenos em quantidade, porque aqui hs de suar na labuta. (Batem.) Toe, 
toe, toe! Quem , em nome do outro demnio? -  f, um jesuta capaz de jurar por qualquer um dos pratos da balana contra o outro prato,- que traiu quanto pde 
por amor de Deus, mas no conseguiu intrujar o Cu. Entra, jesuta. (Batem.) Toe, toe, toe! Quem ? -  um alfaiate ingls que vem para c porque achou meio de furtar 
aparas no .-
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pano de uns cales franceses. - Entra, alfaiate. Aqui podes esquentar bem o teu ferro de engomar. (Batem.) Toe, toe, toe! No h um minuto de sossego! Quem ? Mas 
este lugar  frio demais para Inferno. No quero mais saber de ser porteiro do demo. Tive foi a idia de dar entrada a alguns sujeitos de todas as profisses que 
l se vo por caminho de flores  fogueira eterna. (Batem.) Um momento, um momento! Por favor, lembrai-vos do porteiro.
[Il.iii.]
Em alegre embriaguez, o Porteiro abre a Macduff e Lennox as Portas do Inferno: o matadouro onde Macbeth exterminara o bondoso Duncan. E cabvel imaginarmos o prprio 
Shakespeare arrepiando-se com as palavras "um lavrador que se enforcou porque esperava uma boa colheita", uma vez que investir em gros era uma das formas de especulao 
financeira que mais agradava ao poeta. Grande humor decorre do contraste proftico entre o Porteiro e Macbeth. Responsvel pela guarda das "Portas do Inferno", o 
Porteiro, fazendo estardalhao, sada um jesuta, que seria algum como o Padre Garnet, que afirmava ter o direito de dar respostas equvocas, de modo a evitar a 
auto-incriminao durante o processo sobre a Conspirao da Plvora, no incio de 1606, ano da primeira montagem cnica de Macbetb. Historicizar Macbeth como uma 
reao  Conspirao da Plvora, a meu ver, prejudica o esclarecimento da pea, pois o comentrio de Shakespeare sempre transcende o momento histrico em que est 
inserido. Mais tarde, na quinta cena do quinto ato, quando a Floresta de Birnam avana em direo a Dunsinane e o protagonista comea a "desconfiar das profecias 
/ Equvocas do demo, que nos mente / Sob a cor da verdade", somos levados a contrastar o porteiro com o prprio Macbeth, que nos faz lembrar o empregado beberro. 
De Quincey limitava a sua anlise das batidas  porta em Macbetb ao impacto cnico causado pelas mesmas, mas, como mestre da retrica, deveria ter prestado mais 
ateno ao dilogo do Porteiro com Macduff, em que o primeiro brinca com a idia da "mentira", ao explicar que o lcool provoca trs efeitos:
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MACBETH
PORTEIRO
Ora, meu senhor, nariz vermelho, sono e vontade de urinar. Quanto  luxria, a bebida incita-a e reprime-a ao mesmo tempo: provoca o desejo, mas impede-lhe a execuo. 
Por isso se pode dizer que a bebida em demasia  um verdadeiro logro para a luxria, pois suscita-a e frustra-a, instiga-a e corta-a, persuade-a e desanima-a, arma-a 
e desarma-a. Em concluso: engambela-a, adormecendo-a, derruba-a e vai-se embora.
[Il.iii.]
A embriaguez  vista como uma mentira, pois, a um s tempo, provoca a luxria e nega ao homem a capacidade de pratic-la. Ser que devemos nos indagar se Macbeth, 
como lago, recorre a assassinatos porque sua performance sexual est comprometida? Para qualquer pessoa dotada de uma imaginao proftica intensa como a de Macbeth, 
o desejo, ou a ambio, corre  frente da vontade, alcanando, precipitadamente, o destino. A forte paixo que une o casal Macbeth apresenta estranha intensidade, 
possivelmente, ligada ao fato de no terem filhos, de modo que o Porteiro pode estar, involuntariamente, tocando em um assunto por ele ignorado, mas que no escapa 
s dedues do pblico.
A ferocidade de Macbeth como mquina mortfera  maior do que a de outros facnoras shakespearianos, como o Mouro Aaro, Ricardo in, Antnio e Coriolano, estes ltimos 
corn suas proezas romanas nos campos de batalha. A possvel impotncia de lago estaria relacionada  humilhao de ter sido preterido por Cssio. Mas se a hombridade 
de Macbeth foi tolhida, no h aqui um Otelo a ser culpado,- a perda sexual, se  que ela existe,  causada por ele prprio, por uma imaginao de tal modo impaciente 
corn a lentido do tempo, que acaba por extrapolar cada evento. Pode ser esse um dos elementos por trs do escrnio expresso por Lady Macbeth, como se a hombridade 
de Macbeth s pudesse ser recuperada com o assassinato de Duncan adormecido, a quem Lady Macbeth no consegue matar porque o bom rei a faz lembrar o pai dormindo. 
O crescente niilismo de Macbeth, que culmina na imagem da vida como um conto significando nada, talvez tenha mais
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afinidade com a depreciao que lago faz da realidade do que com a energia fria de Edmundo.
A. C. Bradey detectava em Macbeth, mais do que em qualquer outra pea de Shakespeare, forte "ironia sofocliana", ou seja, o fato de o pblico estar bem mais ciente 
do significado das palavras do protagonista do que ele prprio. Concordo com Bradey, que Macbeth seja a obra-prima da ironia shakespeariana, indo mesmo alm da 
ironia dramtica, ou sofocliana. As palavras de Macbeth sempre significam mais do que ele se d conta, mas a sua imaginao tambm est sempre  frente das palavras, 
de maneira que o espao entre a conscincia e a imaginao do personagem, grande desde o incio, toma-se, em ltima anlise, extraordinrio. Quando esse espao 
 assim to vasto, o desejo sexual, especialmente nos homens, tende a manifestar todas as vicissitudes tpicas do referido instinto. A questo pode at mesmo estar 
presente no desabafo de Lady Macbeth, antes da cena do banquete dominada pelo fantasma de Banquo:
Nada ganhamos, no, mas, ao contrrio, Tudo perdemos quando o que queramos, Obtemos sem nenhum contentamento: Mais vale ser a vtima destruda Do que, por a destruir, 
destruir com ela O gosto de viver.
[III..]
A loucura de Lady Macbeth no  apenas conseqncia do trauma causado pelo sentimento de culpa,- o marido afasta-se dela (embora jamais se volte contra ela) depois 
que Duncan  morto. Seja qual for o significado do pacto de "grandeza" mtua firmado entre os dois, na prtica, a sutil ironia de Shakespeare reduz essa grandeza 
a um processo de esfriamento sexual - uma vez usurpada a coroa. Os gritos alucinados de Lady Macbeth - "Para a cama!" - expressam um pathos assustador, e as palavras 
- "Dessexuai-me"-, pronunciadas ainda no primeiro ato, carregam terrvel e irnico pressgio. No  exagero afirmar que o
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entendimento de escritor algum, quanto  sexualidade humana, possa ser comparado ao de Shakespeare, em termos de alcance e preciso. O pavor que sentimos, sejamos 
platia ou leitores, quando nos submetemos  experincia de Macbeth, na minha opinio, tem forte natureza sexual, mesmo porque o assassinato  se torna, cada vez 
mais, 
um mecanismo de expresso sexual por parte de Macbeth. Incapaz de gerar crianas, Macbeth as extermina.
Ainda que seja comum apontar Macbeth como a mais aterrorizante das obras shakespearianas, minha percepo de que o terror da pea tem origem e caractersticas de 
ordem sexual h de parecer excntrica. Sem dvida, a violncia presente na pea exerce maior impacto sobre ns do que sobre o pblico contemporneo de Shakespeare. 
Muitos - se no a maioria - dos que compareciam ao teatro para assistir a uma produo de Macbeth acotovelavam-se para ver execues pblicas em Londres, inclusive 
esquartejamentos e decapitaes (estas mais civilizadas). Como vimos, o jovem Shakespeare, em Ttto Andrnico, parece esbaldar-se com atrocidades, ao mesmo tempo, 
para satisfazer o gosto do pblico e para zombar desse tipo de satisfao. Mas as barbaridades de Tito Andrnico produzem um efeito bastante distinto da selvageria 
de Macbeth, que jamais nos far rir:
[...] pois Macbeth (merece o nome), Zombando da Fortuna, e com a brandida Espada, fumegante da sangrenta Carnificina, abre passagem como O favorito do valor e enfrenta 
O miservel. Sem lhe dar bons dias, Descose-o de um s golpe desde o umbigo At s queixadas, corta-lhe a cabea, Crava-a numa seteira.
[I.ii.]
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No me recordo de qualquer outra aluso, em Shakespeare, a algum morto em conseqncia de um corte que o rasgasse desde o umbigo at o queixo, golpe cujo relato 
introduz a assombrosa ferocidade de Macbeth. "[NJoivo de Belona", Macbeth  consorte da deusa da guerra e, com seus golpes atrozes, leva a termo a referida tarefa. 
Apesar da mtua considerao, o amor do casal denota certos problemas. Nas fontes utilizadas por Shakespeare, Lady Macbeth havia sido casada anteriormente, havendo 
indicaes de que chorava a morte de um filho, fruto do primeiro casamento. A paixo mtua entre ela e Macbeth depende da realizao do sonho de "grandeza" que compartilham, 
algo que parece ter sido prometido por Macbeth no incio do relacionamento dos dois, visto que ela disso o faz lembrar quando ele hesita. O domnio que ela exerce 
sobre ele, expresso no irado questionamento da hombridade do protagonista, decorre de uma srie de frustraes - da ambio frustrada, da maternidade frustrada, 
talvez, do prazer sexual frustrado. E possvel que Victor Hugo, ao incluir Macbeth na descendncia de Nimrod, o primeiro caador de almas da Bblia, estivesse aventando 
a idia de que poucos dentre tais descendentes ficaram conhecidos como bons amantes. Macbeth v a si mesmo sempre como um soldado, ou seja, como assassino profissional 
e no um indivduo cruel. Tal percepo lhe permite manter uma estranha passividade, mais prxima do sonho do que do sonhador. Notrio exemplo de coragem, e assim, 
nada covarde, Macbeth, no entanto, encontra-se em perptuo estado de pavor. Pavor de qu? Em parte, pavor de tomar-se impotente, um medo relacionado tanto  imensa 
capacidade da imaginao do protagonista quanto ao sonho de grandeza por ele compartilhado com Lady Macbeth.
Os crticos costumam identificar um elemento de violncia sexual no assassinato de um Duncan adormecido. O prprio Macbeth sugere tal interpretao ao comparar seus 
movimentos antes do assassinato aos "furtivos passos/[...] do raptorTarqnio", que violenta a casta Lucrcia, herona do poema shakespeariano. Ser que temos aqui 
um raro momento em que Shakespeare se refere  sua prpria obra, uma vez que muitos na platia reconheceriam a aluso a O Rapto de Lucrcia, poema mais clebre  
poca de Shakespeare do que nos nossos dias? Se assim
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for Shakespeare aproxima a prpria imaginao da de Macbeth, no momento que precede o primeiro crime do protagonista. Basta lembrar o nmero de personagens mortos 
em cena na obra shakespeariana e refletir sobre a razo pela qual no nos  permitido ver Macbeth apunhalar Duncan. O fato de no assistirmos  chacina propicia-nos 
imaginar, com horror, a localizao e o nmero das facadas desferidas contra um Duncan adormecido, um homem que , ao mesmo tempo, primo, convidado, rei e, simbolicamente, 
pai de Macbeth. Segundo entendo, em Mio Csar, Bruto golpeia Csar nos rgos genitais, o que confere um tom de horror  lenda de que Bruto seria filho natural 
de Csar. Macbeth descreve o corpo de Duncan em linguagem que nos remete s palavras de Antnio diante do cadver de Csar, embora o fraseado de Macbeth denote mais 
intimidade:
[...] Aqui jazia
Duncan, a pele, branca como prata,
Dourada do seu sangue, e assemelhavam
As punhaladas uma brecha aberta
Na natureza para dar entrada
 runa assoladora.
[H.iii.]
Macbeth e "runa" so a mesma coisa, e a insinuao sexual contida nas palavras "brecha aberta" e "entrada"  contundente, estabelecendo um contraponto s recriminaes 
de Lady Macbeth ante o fato de Macbeth recusar-se a devolver os punhais  cena do crime, o que implicaria nova viso do cadver de Duncan. "Homem fraco!", ela exclama, 
e, ao retornar para o lado do marido, j livre dos punhais, faz insinuao direta  impotncia sexual: "[...] Tua firmeza / Abandonoute . Talvez, o nico desejo 
que resta a Macbeth  o de se perpetuar no tempo, e ele se condena a ser "o pobre ator", demasiadamente ansioso, sempre perdendo as deixas, lago e Edmundo, com 
procedimentos diversos, so dramaturgos que encenam obras de sua prpria autoria, at lago ser desmascarado por Emlia e Edmundo receber o golpe mortal
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do cavaleiro annimo, Edgar disfarado. Embora lago e Edmundo desempenhem, com brilho, os papis por eles mesmos criados, ambos revelam a sua genialidade, em primeiro 
lugar, como conspiradores. Macbeth conspira continuamente, mas no  capaz de fazer a trama correr de acordo com a sua vontade. Comete erro aps erro, e fica cada 
vez mais revoltado com o fato de que as suas idias mais sanguinrias, uma vez executadas, deixam atrs de si pistas que sempre o colocam em risco. Malcolm, Donalbain, 
Fleance e Macduff fogem, e sua sobrevivncia  um pesadelo para Macbeth.
E o pesadelo persegue Macbeth; tal perseguio, mais do que a violncia do protagonista,  o verdadeiro enredo dessa que  a mais terrvel das peas shakespearianas. 
Desde menino, fico perplexo diante das Bruxas, que instigam o embevecido Macbeth a um projeto, ao mesmo tempo, sublime e culposo. Surgem-lhe no caminho porque, com 
seus poderes naturais, elas o conhecem muito bem. No se pode negar que as Bruxas tenham existncia prpria, mas vale lembrar, mais uma vez, que Macbeth tem mais 
poder implcito sobre elas do que elas sobre ele. As Bruxas nada acrescentam quilo que j est na mente de Macbeth. No entanto, sem dvida, levam-no a entregar-se, 
inteiramente,  sua ambiciosa imaginao. Talvez, sejam as Bruxas, na verdade, responsveis pelo fato de Macbeth ficar to impassivo ao confrontar a fantasmagoria 
que, segundo Lady Macbeth, sempre o visitara. Nesse sentido, as Bruxas assemelham-se s trs Nornas, ou Parcas, conforme acreditava William Blake: criaturas sempre 
a contemplar o tempo, atuando sobre aqueles a quem ensinam a, junto a elas, contemplar. Auxiliadas por Lady Macbeth, convencem Macbeth a render-se, ou melhor, preparam-no 
para a tentao  violncia profana que h de vir por intermdio da esposa.
Sem sombra de dvida, a pea absorve o cosmo das Bruxas, e no um universo cristo. Hcate, senhora dos feitios,  a divindade da noite e, embora chame Macbeth 
de filho "ingrato", na prtica, os atos deste o tomam fiel seguidor da perversa feiticeira. Ao reler Macbeth, percebemos uma energia sobrenatural mais intensa no 
protagonista do que em Hcate ou nas trs Bruxas. A simpatia equvoca e compulsiva que sentimos por ele baseia-se, em parte, no fato de Shakespeare tom-lo o
MACBETH
nico foco de interesse (humano) na pea,  exceo de Lady Macbeth, prematuramente retirada de cena, e, tambm, no temor de que a -maeinao de Macbeth seja a nossa. 
Contudo, o componente mais marcante nessa simpatia irracional est relacionado  sublimidade de Macbeth. Grandes pronunciamentos surgem, continuamente, nos momentos 
mais conturbados, e uma fora, que no  divina nem m, parece escolh-lo para ser porta-voz de profecias:
[...] Alis
[Duncan] Reina com tal brandura, exerceu sempre
Suas altas funes com tal pureza,
Que as virtudes que o exornam clamariam
Como anjos clarinantes contra o crime
Monstruoso do seu assassinato.
E semelhante a um nu recm-nascido
Cavalgando a tormenta, ou a querubins
Arrebatados sobre os invisveis
Correios do ar, a compaixo ferira
De to brutal horror todos os olhos,
Que as lgrimas fariam abater-se
O vento.
[l.vii.]
Aqui, como em outros trechos, percebemos que a eloqncia proftica de Macbeth no lhe  inadequada,- sua linguagem e imaginao convm a um profeta, o que exacerba 
o horror de sua desintegrao, processo ao longo do qual ele  se torna o mais sanguinrio dos tiranosviles shakespearianos. No entanto, perguntamo-nos como e por 
que essa grande voz irrompe na conscincia de Macbeth, visto que, sem dvida, surge sem ser convidada. Sabemos que ele  propenso a transes,- Lady Macbeth diz-. 
"Tomai o que estais vendo, nobres pares, / Como coisa habitual". Transes visionrios sobre ele se abatem involuntariamente, e as suas fortes intuies esto relacionadas 
 imaginao proftica e  ateno que as Bruxas lhe demonstram. Nenhum outro perso-
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nagem shakespeariano  to misterioso, nem mesmo o hermtico mago, Prspero.
Tudo isso produz sobre ns um efeito extraordinrio, pois somos Macbeth, embora no sejamos assassinos nem mdiuns - ele sim. Tampouco somos transmissores de energias 
transcendentais, de vises e vozes,- Macbeth , igualmente, poeta e matador natural.  incapaz de raciocinar e comparar, pois imagens que estejam alm da razo e 
da comparao so para ele incompreensveis. Podemos dizer que Shakespeare atribuiu seu prprio intelecto a Hamlet, sua vitalidade a Falstaff, sua espirituosidade 
a Rosalinda. A Macbeth, evidentemente, Shakespeare concede o que poderamos chamar de componente passivo de sua imaginao. No devemos concluir que o autor de Macbeth 
tenha sido vitimado por sua prpria imaginao, mas  difcil deixar de ver Macbeth, o personagem, como vtima de algo sobrenatural que nos escapa completamente. 
A dignidade trgica de Macbeth depende da capacidade que o personagem tem de fazer valer a sua percepo de formas de vida desconhecidas, de foras que esto alm 
de Hcate e das Bruxas, mas que no so semelhantes ao Deus e aos anjos cristos. Tais foras so o prprio trgico sublime, e Macbeth, involuntariamente, sente-se 
to  vontade em meio s mesmas que nos contamina com sublimidade, assim como as foras desconhecidas o contaminam. Os crticos jamais chegaram a um consenso quanto 
 identificao dessas foras,- a meu ver, devemos concordar com Nietzsche: os preconceitos da moralidade so irrelevantes a tais espritos. Se, de um lado, ao 
assumir o comando da pea, aterrorizam-nos, de outro, trazem-nos alegria, um imenso prazer que se deixa contaminar pelo demonaco.
Em parte, devido a essa excepcionalidade, Macbeth equipara-se a Hamlet e a Rei Lear e, tanto quanto estas, transcende os limites da arte. Contudo, Macbetb desafia 
a anlise crtica de maneira bastante diversa das outras duas peas. O interior de Hamlet  um abismo,- o sofrimento de Lear mal parece humano,- no entanto, Macbeth 
 absolutamente humano.
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Apesar de sua violncia, Macbeth coloca-se bem mais prximo a ns do aue Hamlet e Lear. O que nos toma to ntimo esse usurpador? At mesmo grandes atores saem-se 
mal no papel, com raras excees, lan McKellen tendo sido o melhor Macbeth a que tive oportunidade de assistir. No entanto, at McKellen parecia preocupado com 
a precariedade do papel, decorrente da grande identificao com o pblico. Acho que nos identificamos com Macbeth porque reconhecemos a noo de desrespeito  
natureza humana. Macbeth, em mais uma demonstrao de espantosa originalidade,  a primeira pea expressionista. A conscincia de Hamlet  maior do que a nossa, 
mas no a de Macbeth,- na verdade, parece ter exatamente a dimenso da nossa, de qualquer um de ns. E como j pude acentuar, o elemento proftico encontrado na 
imaginao de Macbeth clama a nossa percepo, o nosso entendimento universal de que o terrvel est prestes a acontecer, e que no nos resta escolha, a no ser 
participar.
Quando Malcolm, no final da pea, refere-se ao "carniceiro morto" e  "diablica / Rainha", ficamos em incmoda posio, pois, embora obrigados a concordar com 
o filho de Duncan, consideramos inadequada a qualificao feita a Macbeth e Lady Macbeth. Sem dvida, a ironia em Macbeth no resulta de perspectivas conflitantes, 
mas de divises dentro do prprio eu interior - de Macbeth e do pblico. Quando Macbeth afirma "as faculdades se me paralisam", temos de concordar, e perguntamo-nos 
at que ponto o mesmo se d conosco. Samuel Johnson dizia que em Macbeth "os fatos so por demais grandiosos para admitir a influncia de disposies particulares". 
Visto que ningum mais do que Johnson temia o que ele prprio chamava de "perigosa influncia da imaginao", devo concluir que o maior de todos os crticos no 
queria admitir que a disposio particular da imaginao proftica de Macbeth predetermina os eventos da pea.  elucidativo examinar alguns momentos em que aparece 
verbalizada essa capacidade da mente de Macbeth de saltar  frente.
Em um aparte arrebatador, ainda no incio da pea, Macbeth apresenta-nos a natureza extraordinria de sua imaginao:
Esta insinuao sobrenatural
No pode ser m, no pode ser boa.
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Se m, por que certeza de sucesso
Me d neste comeo de verdade?
Pois sou Tane de Cawdor. E se boa,
Por que assim cedo  imagem pavorosa
Que os cabelos me eria e faz meu firme
Corao palpitar contra as costelas,
Fora do que  normal na natureza?
Os temores presentes so mais fracos
Do que as horrveis imaginaes.
Meu pensamento, onde o assassnio  ainda
Projeto apenas, move de tal sorte
A minha simples condio humana,
Que as faculdades me paralisam
E nada existe mais seno aquilo
Que no existe.
[I.iii.]
No verso "A minha,simples condio humana", vrios so os sentidos sugeridos pela palavra "simples": nico, isolado, vulnervel. A fantasmagoria em tomo do assassinato 
de Duncan ser to intensa que "nada existe mais seno aquilo / Que no existe", e as "faculdades [...] paralisam". A melodia dramtica deste trecho, incapaz de 
escapar ao ouvido,  difcil de ser descrita. Macbeth fala consigo mesmo como se estivesse em transe, no limite entre o trauma e a profecia. Profeta involuntrio 
do horror, ele antev o que vai acontecer, embora o assassinato seja "ainda / Projeto". O tributo s "horrveis imaginaes"  absoluto, e a implicao  que a vontade 
 irrelevante. Que Macbeth esteja  beira da loucura pode parecer evidente, mas tal julgamento seria um equvoco.  a decidida Lady Macbeth quem enlouquece,- o proftico 
Macbeth tomarse- cada vez mais irado, mas no h de  se tornar insano. Os parmetros da mente enferma oscilam, constantemente, na obra shakespeanana. Ser que Hamlet, 
em dado momento, no fica, realmente, louco? Lear, Otelo, Leontes e Timo passam por momentos de desequilbrio mental,
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MACBETH
mas a Lady Macbeth no ser permitida qualquer recuperao. Talvez fosse para ns, um alvio, se Macbeth enlouquecesse, mas ele no pode enlouquecer, mesmo porque 
representa todas as nossas fantasias, inclusive a nossa capacidade de prever situaes que, ao mesmo tempo, desejamos e tememos.
No castelo, tendo Duncan como alteza e convidado, Macbeth inicia um solilquio, no estilo de Hamlet, mas logo reverte a um estilo que  todo seu:
Se no houvesse mais que pratic-lo, Seria bem faz-lo sem delonga. Se o golpe detivesse em suas redes Todas as conseqncias, e lograsse Triunfar com a morte dele,- 
se o assassnio Fosse aqui tudo e o fim de tudo - aqui, Nestas praias do tempo, eu arriscara Minha vida futura.
[I.vii.]
Depois que a imagem da compaixo, "semelhante a um nu recmnascido", vinda de alguma regio transcendental, surge na viso de Macbeth, o anfitrio usurpador expressa 
mais uma fantasia, esta relacionada  sua prpria vontade:
[...] Outro acicate no possuo Para os flancos picar do meu intento Se no esta ambio, que ao arrojar-se com demasiado impulso, vai cair Do outro...
[I.vii.]
Nesse momento, Lady Macbeth entra em cena, e Macbeth no completa a metfora. "Do outro" o qu? No seria "lado", pois seu cavalo, que  todo vontade, j teve os 
flancos esporeados, de modo que a ambio,
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evidentemente, encontra-se agora, por assim dizer, em outro banco de areia, ou litoral, tendo fixado o desejo de assassinar Duncan. Trata-se de uma imagem central, 
e Shakespeare cuida para que a mesma permanea fantasmagrica, ao impedir-nos de assistiro assassinato em si. A caminho do ato regicida, Macbeth tem uma viso que 
o transporta, definitivamente,  regio onde "nada existe mais seno aquilo / Que no existe":
E um punhal o que enxergo, com o seu cabo
Voltado para mim? Vem, que eu te empunho!
no te seguro,  certo, mas te vejo
Sempre. No s, fatal viso, sensvel
Ao tato como  vista? Ou s apenas
Imaginria criao da mente
Que a febre exalta? Vejo-te, contudo,
To palpvel na forma como estoutro
Que saco neste instante.
Apontas-me o caminho em que eu seguia,
E de arma semelhante ia servir-me.
Ou bem so estes olhos um joguete
Dos meus demais sentidos, ou bem valem
Por eles todos: no me sais da vista,
E h agora em tua lmina, em teu cabo
Gotas de sangue que antes no havia.
Mas no h tal?  a trama sanguinria
Que toma corpo ante os meus olhos. Nste
Momento a natureza  como morta
Em metade do mundo. Hora em que os sonhos
Maus se insinuam sob os cortinados,-
Em que celebra a bruxaria os ritos
De Hcate plida,- e descarnado
Assassnio, alertado pelo bobo,
Seu sentinela, com furtivos passos,
 semelhana do raptor Tarqnio,
Move-se em direo  sua vtima
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MACBFTH
Como um fantasma. Tu, slida terra, Firmemente assentada, oh no escutes Meus passos, nem aonde eles se encaminham. Pois receio que as tuas mesmas pedras, A conversarem 
de meu paradeiro, Roubem a esta hora o horror que ela revela! Eu ameao e ele dorme... Um frio bafo Sobre o calor da ao sopra a palavra.
(Toque de sino.)
Um golpe, e  tudo: o sino me convida. No o"ouas, Rei, no o ouas, que esse toque Te chama para o Cu - ou para o Inferno!
[H..]
Esse magnfico solilquio, que culmina com toque de sino, sempre foi considerado a apoteose da arte shakespeariana. Macbeth est de tal modo habituado a ter vises 
que no demonstra surpresa ou medo diante do punhal imaginrio, e tenta agarrar essa "imaginria criao da mente". As palavras "imaginria criao" sugerem, com 
sutileza, o cosmo gnstico de Macbetb, obra de algum demiurgo cujos equvocos frustram a prpria idia de criao. com uma coragem fantstica, metafsica (a qual, 
ao ser por ns admirada, envolve-nos na culpa de Macbeth), o protagonista responde  fantasmagoria sacando o punhal, e, assim, admitindo uma identidade com os seus 
prprios anseios profticos. Como em Rei Lear, aqui, o significado bsico da palavra bobo  Vtima", mas Macbeth contempla a possibilidade de que seus olhos, antes 
de serem vtimas, valem pelo conjunto dos outros sentidos.
O momento de bravura  superado por um novo fenmeno na histria das vises de Macbeth, quando a alucinao se materializa e gotas de sangue manifestam-se na lmina 
e no cabo. "No h tal?", Macbeth se pergunta, e deixa-se levar por um de seus freqentes rompantes de eloqncia. Ao entregar-se  feitiaria de Hcate, Macbeth 
identifica a sua aproximao do leito de Duncan com os "furtivos
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#HAROLD  BLOOM
passos" do "raptor Tarqnio", ao acercar-se da vtima, conforme consta do poema shakespeariano, ORaptodeLucrcia. Macbeth no ir violentar Duncan - a no ser pelo 
fato de lhe aniquilar a vida -, mas suponho que a aluso causasse certa comoo no pblico. Volto a dizer, esse tipo de atrevimento  a assinatura de Shakespeare, 
estabelecendo a cumplicidade do autor com a imaginao do protagonista. A afirmao "Um golpe, e  tudo" expressa o grande momento proftico,- quanto a ns, participamos 
de tudo, ativamente, e sabemos que Duncan j est morto, antes mesmo de sofrer as estocadas.
Somente aps o assassinato seguinte, de Banquo, e depois do confronto com o fantasma deste, os pronunciamentos profticos comeam a dar lugar a expresses que sugerem 
que o usurpador se sente mais ultrajado do que ultrajante:
Outrora muito sangue foi vertido, Nas velhas eras, quando as leis humanas No haviam purgado os maus instintos Da grei, tomando-a boa. Ai, depois disso, Quantos 
crimes terrveis, demasiado Terrveis, quantos no se cometeram! Foram-se os tempos em que, aberto o crnio, O homem morria e pronto! tudo estava Acabado. Hoje a 
vtima, com vinte Ferimentos mortais, sai de seu tmulo, Toma a nossa cadeira!  mais estranho Do que o prprio homicdio.
[Ill.iv.]
Uma vez que contextos morais, conforme nos adverte Nietzsche, so, simplesmente, irrelevantes em Macbetb, a crescente impresso do protagonista de ter sido ultrajado 
talvez no seja to ultrajante quanto parea. As Bruxas o enganam, mas, como sabemos, so entidades propensas  equivocao,- concordo com a observao de Bradshaw, 
que elas "so caprichosas e infantis, no menos preocupadas com pilotos e
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MACBETH
castanhas do que com Macbeth e a Esccia". Longe de comandarem o kenoma, i.e., o vazio cosmolgico no qual est inserida a ao da pea, as Bruxas so meras integrantes 
do mesmo, bem menos importantes do que Macbeth. Um mundo que fracassa ao ser criado no apresenta, absolutamente, uma natureza crist. Embora Hcate tenha um certo 
poder nessa natureza, constatamos a presena de uma fora demirgica mais intensa operando na pea. Shakespeare no identifica essa fora, apenas refere-se  mesma 
como "tempo",- porm, trata-se de um tempo altamente
- metafrico, no o "tempo antigo", os "bons tempos de outrora", quando para se acabar com uma pessoa bastava esmagar-lhe o crnio, mas o "agora", quando os fantasmas 
dos mortos nos perturbam.
Esse "agora"  o mundo vazio da pea, no qual ns, o pblico, somos atirados, e essa sensao de "ser atirado" constitui o terror de que falam Wilbur Sanders e Graham 
Bradshaw. Quando Macduff foge para a Inglaterra, Macbeth gela-nos o sangue com um juramento:"[...] Desde agora / Andem sempre acertados os primeiros / Impulsos 
de minh"alma com os de minha / Mo". Visto que tais impulsos ho de determinar o massacre de Lady Macduff, seus filhos e todas as "criaturas infelizes" da casa 
dos Macduff, devemos deduzir que a alma de Macbeth  idntica  alma da pea. Ao decapitar Macbeth, Macduff, na figura do vingador, proclama: "A ptria  livre", 
mas nisso jamais poderemos acreditar. A Macbeth pertence o mundo, exatamente, como ele o imaginava - apenas o reino pertence a Malcolm. Rei Lear, cuja ao se localiza, 
igualmente, em um vazio cosmolgico,  por demais multifacetada para ser reduzida a uma nica afirmao, mesmo que pronunciada pelo prprio Rei, mas Macbeth resume 
seu mundo e a pea na fala mais clebre da mesma:
E morta... No devia ser agora. Sempre seria tempo para ouvir-se Essas palavras. Amanh, volvendo Trs amanh e trs amanh de novo. Vai, a pequenos passos, dia 
a dia, At a ltima slaba do tempo
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#HAROLD  BLOOM
Inscrito. E todos esses nossos ontens Tm alumiado aos tontos que ns somos Nosso caminho para o p da morte. Breve candeia, apaga-te! Que a vida E uma sombra ambulante: 
um pobre ator Que gesticula em cena uma hora ou duas, Depois no se ouve mais,- um conto cheio De bulha e fria, dito por um louco, Significando nada.
[V.v.]
O suicdio da esposa acaba de ser-lhe informado. Macbeth no expressa dor, pelo menos, no de alguma maneira que sejamos capazes de entender. Em vez de uma elegia 
 Rainha Macbeth, temos uma marcha fnebre, niilista, um caminhar de bobos, de vtimas universais, a pequenos passos. A "breve candeia" , ao mesmo tempo, o sol 
e a vida, no mais o grande "lao" aludido na magnfica evocao de Macbeth, logo antes do assassinato de Banquo:
Vem,  tu, grande noite veladora,
E o tenro olhar do compassivo dia
Venda,- com as mos sangrentas e invisveis
Rompe, destri o lao que me torna
To plido. A luz baixa, as gralhas rumam
Aos seus ninhos na mata.
As criaturas do dia j se inclinam
Ao sono, enquanto os lbregos agentes
Da noite vo movendo-se  procura
Da presa. No te espantes do que digo.
Tem-te tranqila. As coisas comeadas
No mal, no mal se querem acabadas.
[Ill.iii.]
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MACBETH
Nessa imagem, a noite  um falco real rasgando o sol, e a imaginao de Macbeth, inteiramente apocalptica. Na cantilena "Amanh, volvendo / Trs amanh e trs 
amanh de novo", o teor  ps-apocalptico, assim como o ser no momento em que Macbeth receber a notcia de que a Floresta de Birnam move-se em direo a Dunsinane:
[...] Comeo
A me sentir cansado deste sol, E desejara ver neste momento Espedaada a mquina do mundo!
[V.v.]
Nesse sol, vida  sombra ambulante, uma encenao, como o pobre ator que gesticula em cena uma hora ou duas, e sobre o qual, depois que deixamos o teatro, nada mais 
ouvimos. No entanto, trazendo comigo, h meio sculo, os ecos da interpretao que Ralph Richardson conferiu a Falstaff, concluo (como Shakespeare, e no Macbeth, 
assim o desejava) que Richardson h de ser por mim ouvido enquanto vida eu tiver. O maior gesto verbal de Macbeth , precisamente, a reviso dessa metfora: a vida 
j no  um pobre ator, mas um conto dito por um louco, necessariamente niilista. A linguagem magnfica de Macbeth e da pea por ele protagonizada , assim, reduzida 
a "bulha e fria", mas a expresso ser refutada pelo esplendor vocabular do prprio Macbeth. E como se ele, em ltima anlise, recusasse a si mesmo qualquer simpatia, 
recusa essa que platia alguma seria capaz de pr em prtica.
Gostaria de voltar, pela ltima vez,  questo do temor reverente que Macbetb nos inspira. G. Wilson Knight foi o primeiro crtico a comparar uma reflexo de Lafeu, 
o velho sbio de Bem Est o <\w Bem Acaba, verbalizada na terceira cena do segundo ato, e Macbetb.
LAFEU
Dizem que j no h milagres, e a esto os nossos filsofos que deixam ordinrias e familiares as coisas sobrenaturais e
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#HAROLD  BLOOM
inexplicveis. Da resulta brincarmos com os fenmenos mais terrveis, barricando-nos por trs de nosso suposto conhecimento, quando devramos ceder ao medo do 
desconhecido.
[Il.iii.]
Wilbur Sanders, remetendo-se a Wilson Knight, considera Macbeth a pea shakespeariana em que mais nos "submetemos a um temor desconhecido". Da minha parte, diria 
que no caso de Macbetb medo  a reao correta, assim como diante de Hamlet nossa reao  a perplexidade. Seja como for, Macbetb no nos propicia uma catarse, apesar 
de todo o temor que inspira. Sendo compelidos a internalizar Macbeth, o "temor desconhecido", em ltima anlise,  de ns mesmos. Se nos submetemos a esse temor 
- e Shakespeare no nos permite muita escolha -, seguimos Macbeth em um niilismo bastante distinto das jornadas ao abismo" empreendidas por lago e Edmundo. Estes 
so niilistas convictos, seguros de si. Macbeth jamais se sente seguro, tampouco sentimo-nos ns, seus colegas involuntrios.
A observao mais surpreendente a respeito do medo em Macbetb pertence a Wilson Knight:
Enquanto Macbeth est em conflito consigo mesmo, prevalece o sofrimento, o mal, o medo,- quando, no fim da pea, ele e os que o cercam se identificam, abertamente, 
corn o mal, Macbeth enfrenta o mundo sem temor,- e tampouco parece ligado ao mal.
Percebo onde Wilson Knight quer chegar, mas  preciso explicitar um pouco mais a questo. O desenvolvimento de Macbeth o faz sair de um estado de pavor, decorrente 
das profecias, a um estado de expectativa e perplexidade, no qual a sensao de ter sido ultrajado substitui o medo. Podemos at deixar de lado a idia do "mal", 
aqui redundante, como, por exemplo, dizer que Hitler e Stalin eram do mal. Quando  trado pelas alucinaes e profecias, Macbeth expressa um desespero profundo 
e
* Nunes, op. cit p. 147 [N T.]
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MACBETH
contundente, como um ator nervoso, que sempre perde as suas deixas. O usurpador prossegue com os assassinatos, e no consegue qualquer vitria sobre o tempo ou 
o eu interior. Chego a pensar na possibilidade de Shakespeare ter tido acesso aos fragmentos gnsticos e maniquestas cujos resqucios podem ser encontrados nos 
escritos dos Padres da Igreja por eles citados apenas com o propsito de denncia, mas duvido que Shakespeare fosse dado  leitura eclesistica. Por mais intensamente 
que nos identifiquemos com ele, Macbeth  mais assustador do que -qualquer criatura por ele confrontada, da a insinuao de que podemos ser mais assustadores do 
que qualquer coisa que nos cerca. E o reino de Macbeth, como o nosso, pode encerrar um contexto pavoroso:
O VELHO
Setenta anos vivi e guardo memria
De horas terrveis e de estranhas coisas.
Mas so todas nonadas se as comparo
A esta noite espantosa. ROSS
Ah, meu bom velho!
Vs como os cus, turbados pelo humano
Feito, ameaam o palco do sangrento
Drama: pelo relgio  dia, e entanto
A tenebrosa noite afoga ainda
A lmpada viajora. Ser acaso
Influio da noite ou remitncia
Do dia envergonhado esta escureza
A sepultar a terra quando a vivida
Luz devia beij-la? O VELHO
Isto que vemos
 contranatural, do mesmo modo
Que o crime perpetrado. Tera-feira
Passada, ao remontar-se em altaneiro
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#HAROLD  BLOOM
Vo, foi um falco preado e morto
Por um mocho rateiro. ROSS
E, coisa muito
Estranha e certa, os dois corcis de Duncan,
Soberbos e velozes, os mais belos
De sua raa, enfurecidos subitamente,
Despedaaram suas baias,
Lanaram-se ao ar livre, refugando
Toda obedincia, como em declarada
Guerra ao gnero humano. O VELHO
E mutuamente
Se devoraram! ROSS
Como, para assombro
Destes meus olhos, vi!
[Il.iv.]
O contexto aqui  o assassinato de Duncan,- porm, j no incio da pea, um capito ferido diz, referindo-se a Macbeth e Banquo, com admirao: "[...] pareciam 
/ Dois refertos canhes com dupla carga / A redobrar dobradamente os tiros / Sobre o adversrio,- a menos que quisessem / Banhar-se em sangue ou consagrar um novo 
/ Glgota, que sei eu?". O que significa "consagrar um novo / Glgota"? Glgota, repositrio de crnios, Calvrio, onde Jesus sofreu na cruz. Shakespeare estabelece 
um paralelo chocante. Estamos no princpio da pea, e as palavras referem-se aos ainda bons capites, Macbeth e Banquo, patrioticamente lutando por Duncan e pela 
Esccia, ainda que estejam criando uma regio de carnificina, local para uma nova Crucificao. Graham Bradshaw descreve com aptido o horror prprio da natureza 
em Macbetb, e Robert Watson aponta a afinidade gnstica da mesma. Shakespeare provoca em ns, propositadamente, grande estranheza, no tanto para induzir-nos a uma 
reao asctica, mas para compelir-nos
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MACBETH
a fazer uma escolha entre Macbeth e o vazio cosmolgico, o kenoma dos gnsticos. Escolhemos Macbeth, forosamente, e a preferncia custa-
nos caro.
Sobre a grandeza esttica de Macbetb, no resta a menor dvida. A bem da verdade, a pea no chega a ter o alcance e a profundidade de Hamlet e Rei Lear, a brilhante 
pungncia de Ofco, ou o panorama infinito de Antnio e Ccfara,- no entanto, das grandes tragdias, essa  a que mais aprecio. A fora de um Shakespeare amadurecido 
deixa-se transparecer na internalizao, e das peas que o poeta escreveu essa  a mais internalizada, cuja ao se baseia na imaginao plena de culpa que compartilhamos 
corn Macbeth. Nenhuma metodologia crtica aplicvel, indistintamente, a Thomas Middeton, John Fletcher ou Shakespeare haver de aumentar nosso entendimento de William 
Shakespeare. No sei se Deus criou Shakespeare, mas sei que Shakespeare  o grande responsvel pela nossa criao. Para ns, seu pblico perptuo, Shakespeare  
uma espcie de deus mortal; os instrumentos que utilizamos para medi-lo se despedaam quando a ele aplicados. Macbetb, conforme constatam os melhores crticos, no 
chega a nos mostrar que os crimes contra a natureza so reparveis quando uma ordem social legtima  restaurada. Em Macbeth, natureza  crime, embora no no sentido 
cristo que urge ser a natureza salva pela graa, ou por penitncia e perdo. Como em Rei Lear, no temos aonde ir em Macbetb; no h santurio disponvel. Macbeth 
excede-nos, em energia e tormento, mas tambm nos representa, e o descobrimos dentro de ns, cada vez mais vivo, quanto mais fundo mergulhamos.
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#27
ANTNIO E CLEPATRA
P?1-^ A. C. Bradey, apenas quatro personagens shakespearianos so "inesgotveis": Hamlet, Clepatra, Falstaff e lago. Alguns leitores, ou espectadores, podem-se 
perguntar por que essa pequena lista no inclui papis de Rei Lear-, o do prprio Rei, Edmundo, Edgar, ou o do Bobo. H que se admitir que, talvez, Shakespeare tenha 
dividido a sua genialidade entre esses quatro papis de Rei Lear, pea, certamente, to inesgotvel quanto Hamlet. Que, de todas as representaes femininas criadas 
por Shakespeare, Clepatra  a mais complexa e impressionante  consenso universal. No entanto, os crticos em muito discordam a respeito da personagem. Ocorre que 
o controle exercido por Shakespeare, com relao s diferentes perspectivas atravs das quais a protagonista  vista,  de tal astcia (talvez mais nessa do que 
em qualquer outra pea), que o pblico se v diante de uma enigmtica gama de julgamentos e interpretaes viveis. Se Antnio, definitivamente, no entende Clepatra, 
ser que ns conseguiremos entend-la? Rosalie Colie observou, com sutileza, que jamais vemos Antnio e Clepatra a ss. Na verdade, eles tm um nico e breve encontro 
a ss, ocasio em que ele est enfurecido com ela. Como se comportavam quando estavam em relativa harmonia? Ser que continuavam representando, um fazendo do outro 
platia? Juntamente com Hamlet, Falstaff e lago, o casal est entre os personagens de maior intensidade dramtica em todo o cnone shakespeariano, e, em ltima 
anlise,
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ANTNIO  E  CLEPATRA
Clepatra rouba a cena de Antnio,- s um Hamlet ou um Falstaff contracenariam com ela de igual para igual. Clepatra jamais deixa de representar Clepatra, e a 
viso que ela tem do prprio papel, necessariamente, relega Antnio  posio de coadjuvante. Ela  o centro da pea, e no ele, j decadente mesmo antes da primeira 
cena do primeiro ato; ela, no entanto, no se permitir parecer decadente. Arqutipo da estrela, primeira celebridade mundial, Clepatra  superior a seus amantes 
- Pompeu, Csar, Antnio -, conhecidos to-somente por seus feitos e seus fins trgicos. Ela no coleciona feitos - tampouco precisa faz-lo,- sua morte  mais triunfal 
do que trgica, e Clepatra, para sempre, ser clebre.
Depois das quatro grandes tragdias de domesticidade e sangue, Antnio e Clepatra descortina o vasto panorama da luta entre Oriente e Ocidente, em uma seqncia 
de inmeras cenas. Estranhamente, Samuel Johnson achava que, em Antnio e Clepatra, "personagem algum  delineado com nitidez", observao que melhor se aplica 
a Macbetb, em que somente os protagonistas no se confundem no lusco-fusco que os cerca. Cada personagem em Antnio e Clepatra  individualizado, de Enobarbo, figura 
crica, ao campons, que, no final da ao, traz as spides fatais para Clepatra. A pea conta com mais de uma dezena de papis menores, todos muito bem delineados, 
alm dos papis de Otvio Csar, antigo aliado de Antnio, e Enobarbo, o subordinado mais prximo a Antnio.
As personalidades de Clepatra e Antnio so de tal modo complexas e intensas que parecem servir de concluso  grande fase em que Shakespeare se preocupa sobremaneira 
corn o eu interior, iniciada doze anos antes, com Faulconbridge (em Rei Joo), Ricardo II, Prcia e Shylock, e que floresce com Falstaff, criado uma dcada antes 
de Clepatra. Coriolano, que segue Clepatra,  o "drago solitrio", dotado de um verdadeiro abismo interior, e os protagonistas dos chamados romances, escritos 
no final da carreira do dramaturgo, no configuram representaes realistas. Sem dvida, ser simplista a suposio de que os catorze meses consecutivos, em que 
Rei Lear, Macbeth e Antnio e Clepatra foram escritas, teriam esgotado qualquer autor, mesmo
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#HAROLD  BLOOM
um Shakespeare. Sou o mais fervoroso dos bardlatras, mas tenho de admitir que, depois do colapso de Antnio e a apoteose de Clepatra, Shakespeare fica um tanto 
arredio a novas incurses ao interior do ser humano.
John Dryden, no Prefcio da clebre verso que fez de Antnio e Clepatra, intitulada Tudo por Amor (1678), permite-se um leve tom reprobatrio, com relao aos 
ilustres protagonistas:
Aquilo que  preciso para intensificar e elevar o pathos no me  propiciado pelo enredo, pois os crimes de amor que os dois cometem no decorrem de real necessidade 
ou fatal ignorncia,- antes, so absolutamente voluntrios, uma vez que a paixo est, ou deveria estar, sob a razo.
Duvido que a situao de Antnio e Clepatra causasse ao prprio Dryden qualquer sentimento pattico, mas ele, de fato, considerava a paixo mtua dos protagonistas 
algo condenvel e catastrfico. No vejo a menor utilidade em definirmos o relacionamento de Clepatra e Antnio como "mutuamente destrutivo", ainda que Shakespeare, 
certamente, mostre-nos que o convvio contribui para a destruio do casal. Contudo, em um mundo de poder e traio, em que tanto est em jogo, Otvio, sem dvida, 
teria devorado os dois de qualquer maneira, talvez com menos celeridade do que ocorre na verso shakespeariana da histria. Tudo por Amor, exuberante ttulo criado 
por Dryden, no serviria para a pea de Shakespeare; nem mesmo Tudo por Luxaria seria ttulo apropriado. Antnio e Clepatra so, ambos, polticos carismticos,- 
so to apaixonados por si mesmos que a compreenso da realidade do outro, por menor que seja, toma-se algo maravilhoso. Ocupam todo o espao da ao,- todos os 
demais, inclusive Otvio, so reduzidos  condio de platia. Existe, decerto, um fantasma que jamais aparece nessa pea: Jlio Csar, o nico capaz de reduzir 
o clebre casal a coadjuvantes, embora jamais a meros espectadores. Talvez tenha sido com Jlio Csar, a pea e o personagem, que Antnio e Clepatra aprenderam 
a jamais ouvir o que os outros dizem, inclusive o que um diz ao outro. A cena de
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ANTNIO  E  CLEPATRA
morte de Antnio chega a ser hilariante nesse particular, quando o heri, agonizante, tenta dar conselhos a Clepatra, enquanto ela o interrompe, continuamente, 
e, em dado momento, chega at a responder-lhe o pedido - "me deixa falar um pouco" - com as palavras: "No, deixa-me falar".* Uma vez que o conselho de Antnio 
h de se mostrar intil (alis, como costuma ser o caso), as interrupes de Clepatra no tm conseqncias graves,- porm, pelo menos nessa oportunidade, Antnio 
quase deixa o papel de Antnio, o heri hercleo, ao passo que Clepatra jamais deixa de representar Clepatra. Da a imensa dificuldade - e fascnio - do papel 
para qualquer atriz, que deve, ao mesmo tempo,^representar Clepatra, em si, e Clepatra fazendo o papel de Clepatra. Recordo-me da jovem Helen Mirrem saindo-se 
melhor do que qualquer outra Clepatra nessa dupla misso.
Ser que Antnio e Clepatra "se amam", como diramos ns, em linguagem nada shakespeariana? Ser que nos amamos uns aos outros? Aldous Huxley, em um de seus ensaios, 
observa que empregamos a palavra amor para descrever uma espantosa gama de relacionamentos, que vo desde o sentimento que nutrimos por nossas mes ao que sentimos 
por algum que espancamos em um bordel - ou coisa que o valha. Julieta e Romeu se amam, de fato, mas so muito jovens, sendo que ela tem uma natureza incrivelmente 
boa, dotada de uma generosidade de esprito incomparvel na obra shakespeariana. Jamais poderemos dizer que Antnio e Clepatra causam o tdio mtuo, apesar de se 
sentirem, sem sombra de dvida, entediados, inclusive eroticamente, com todos que os cercam. Atrao mtua pode no ser amor, mas, decerto,  romance, aqui definido 
como algo misterioso, capaz de surpreender. Clepatra, em particular, tem seus clebres antdotos contra a rotina conjugai, notoriamente decantados por Enobarbo. 
Antnio, igualmente, um deus mortal, tem a sua aura, espcie de corpo astral, que, ao final, parte ao som da msica de Hrcules, o som dos obos que vem debaixo 
do palco. Para Antnio no h substituto, conforme constata
*Ant"/o e Clepatra. Traduo e Notas de Jos Roberto O"Shea. So Paulo: Editora Mandarim, 1997. Todas as citaes da pea referem-se a essa edio. [N.T.]
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#HAROLD  BLOOM
Clepatra, uma vez que com a morte dele chega ao fim a era de Jlio Csar e Rompeu,- nem mesmo Clepatra haver de seduzir o primeiro grande "Diretor-Presidente" 
da Histria: o Imperador Augusto.
A pergunta, ento,  a seguinte: de que vale a atrao mtua, ou romance, se assim quisermos chamar? com certeza, implica menos complexidade, menos sofrimento do 
que o romance familiar que aflige Lear e Edgar. com uma astcia imensurvel, Shakespeare altera Plutarco, fazendo com que Antnio seja abandonado pelo deus Hrcules, 
e no por Baco. Um heri dionisaco no pode ficar consignado ao passado, como a carreira mais do que nietzschiana de Hamlet est sempre a demonstrar. Um heri hercleo 
no seria arcaico para os contemporneos de Shakespeare como o  para ns, mas Antnio , nitidamente, figura ultrapassada. Lear e Edgar no esto sujeitos s diferentes 
perspectivas do pblico, na mesma proporo que Clepatra e Antnio. Uma dessas perspectivas - defendida por indivduos extremamente limitados - reduz o casal a 
uma prostituta e um velho tonto,- para os que reduzem Antnio e Clepatra a tal viso, o que mais interessaria nessa pea? Um Antnio dionisaco questionaria todos 
os valores, sexuais ou sociais, de modo mais contundente do que um Antnio hercleo  capaz de faz-lo. Se a pea contm alguma crtica a valores, a mesma est encarnada 
em Clepatra, elevada  apoteose depois que Antnio se esfacela. Ele deixa de ser um deus, e ela, ento, toma-se uma deusa.
O que haveremos de fazer com uma deusa egpcia, mesmo se estivermos imunes  redutiva perspectiva romana que, freqentemente, leva ao caricato recurso opertico 
de interpretar Clepatra como rameira? Se minha interpretao de Rei Lear pode ser considerada criativa e correta, ento, o romance familiar, longe de ter valor 
positivo,  exposto como um pesadelo apocalptico. O amor de natureza romntica pode ser considerado o elemento catalisador da queda de Antnio, semelhante  de 
Osris, mas seria difcil, como venho tentando demonstrar, decidir se esse amor  algo positivo ou catastrfico, tomando por base o declnio e a queda de Antnio. 
Clepatra  um caso  parte, e sua histria, certamente, envolve um aumento de valor. Mas seria esse valor o amor? A questo  das mais difceis, verdadeiro desafio 
quilo que
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ANTNIO  E  CLEPATRA
costumvamos chamar de crtica literria.  vivel argumentar que a Clepatra que surge no quinto ato no  apenas mais competente do que nunca, como atriz, mas 
 se torna dramaturga, pondo em prtica um talento que floresce em decorrncia da morte de Antnio. O papel que ela cria para si mesma  bastante complexo, e uma 
das 
facetas do mesmo  descobrir que sempre esteve apaixonada por Antnio, de modo que a perda, para ela,  grande. Na verdade, ao morrer, ela casa-se com Antnio, 
em um momento sublime, pungente, ainda que nos faa lembrar a reao de Edmundo ao ver os corpos de Goneril e Regan:
"[...\todos os trs agora/ Casam-se num instante".
A existncia, lembremo-nos de Nietzsche, s se justifica como fenmeno esttico. Mas, apesar de ser um velho esteta, no creio que, para Shakespeare, o amor s se 
justifique como valor esttico, embora parea (a meu ver) ser essa a carga que pesa sobre A Trage"dia de Antnio e Clepatra, pelo menos, conforme reescrita por 
Clepatra no ato em que ela j no tem com quem competir por espao cnico. O futuro rival de Clepatra, na atividade de dramaturgo, George Bernard Shaw, que afirmava 
sentir apenas desprezo pela mente de Shakespeare quando comparada  sua,  bastante mordaz, embora improcedente, no Prefcio que escreve para Csar e Clepatra, 
pea de sua autoria:
Fao uma objeo, de ordem tcnica, ao uso da atrao sexual como tema trgico. A experincia demonstra que atrao sexual s funciona na veia cmica. Toleramos 
a idia de Mistress Quickly empenhar prata por amor a Falstaff, mas no a idia de Antnio fugir da batalha de cio por amor a Clepatra.
Convenhamos, Shaw seleciona, justamente, um dos piores episdios do processo de decadncia de Antnio, mas, a rigor, Antnio e Clepatra no pode ser considerada 
uma tragdia, nos moldes de Rei Lear ou Otelo. Mais at do que as peas subseqentes, Antnio e Clepatra no tem gnero dramtico definido, e a veia cmica presente 
na pea , em grande parte, responsvel por essa indefinio. Enobarbo responde a Shaw, quando
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chama Clepatra de maravilhosa obra-prima, referindo-se  energia demonaca da rainha egpcia,  sua exuberncia narcisista, cuja vitalidade quase se equipara  
de Falstaff. Shaw abominava Falstaff, e associava a figura de Clepatra, na concepo shakespeariana, a Falstaff,- a associao procede, mas a justificativa  equivocada. 
Clepatra, basicamente irnica e propensa  comdia, at mesmo  pardia, teria ensinado Antnio a rir, assim como Falstaff educara Hal, com a diferena de que 
Falstaff no utiliza o sexo como meio de negociao, como o faz Clepatra. Antnio, decerto, j no vive seus dias de glria, seno em sbitas lembranas e epifanias, 
e Shakespeare aqui aperfeioava o modelo de decadncia pessoal estabelecido previamente com Jlio Csar. E quanto a Clepatra, como podemos ns, ou mesmo ela prpria, 
demarcar a fronteira entre o seu interior e exterior? Ela , sem dvida, a personagem mais histrinica da histria do teatro, indo muito alm dos experimentos de 
Pirandello. E desnecessrio indagar se o amor que Clepatra sente por Antnio  autntico, at mesmo no momento em que ela morre, pois a pea, propositadamente, 
confunde histrionismo e paixo. Em Shakespeare, o romance familiar tem grande valor, embora negativo,- e no Shakespeare do final da carreira, o valor atribudo ao 
amor de natureza romntica depende de uma fuso entre teatricalidade e narcisismo. A prpria arte  natureza, e o amor assume valor es-
tritamente artstico.
Embora o fascnio de Antnio e Clepatra comece com o carinhoso adeus de Shakespeare  inveno do humano por ele prprio engendrada, a pea seduz, por ser infinitamente 
multifacetada, nesse particular, remetendo-nos a Hamlet. Em Hamlet, Shakespeare  obrigado a restringir ao heri (infinito) muito da versatilidade da pea, enquanto 
em Antnio e Clepatra, em que pese as mltiplas faces de Clepatra, a versatilidade est calcada, em primeiro lugar, no fato de uma realidade histrica estar sendo 
substituda por outra, o que ocorre, alis, de modo convincente e exuberante. Um tempo de herosmo - a era de Jlio Csar - cede
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ANTNIO   E  CLEPATRA
lugar  iminente disciplina da Roma de Augusto. Shakespeare, como de costume, no nos revela de que lado est, mas o contraste entre a perptua intensidade de Clepatra, 
a melodia fnebre de Antnio e a eficincia mal-humorada de Otvio Csar pode fornecer subsdios para deduzirmos a preferncia do poeta. Em Macbetb, Shakespeare 
no nos deixa escolha, a no ser mergulhar no interior do heri-vilo. Antnio e Clepatra, escrita logo a seguir, permite-nos pouca intimidade com os amantes marcados 
pelo destino, e lana-nos ao exterior,  viso que o mundo tem do casal, e  viso que temos de seu mundo. Esse movimento - do interior ao exterior -  estabelecido 
logo no incio da pea, nas queixas^que Filo faz a Demtrio, ambos oficiais de Antnio:
No, o tonto do nosso general Passa da conta,- os olhos to altivos, Que em guerra dominavam legies E como ao de Marte faiscavam, Ora se abatem, ora se desviam 
Do seu dever, da sua devoo, Para um rosto escuro,- o corao De guerreiro, que no fragor bestial Das batalhas rompia-lhe no peito Fivelas da couraa, j perdeu 
A tempera e agora  fole e leque Esfriando o calor daquela egpcia.
(Clarinada Entram Antnio, Clepatra, suasDemutS,
o Se"cjuito e Eunucos <\w a abanam.) Olha, repara s. Esto chegando,- Nele vers o trplice pilar Do mundo inteiro aos ps, qual um palhao De uma rameira. V!
[I--]
Se no reconhecemos aqui um tonto e uma rameira egpcia  porque algo em ns impede-nos de sermos bons soldados romanos:
673
#HAROLD  BLOOM
CLEPATRA
Se for amor,
Mesmo, diz-me quanto. ANTNIO
Ser mendigo
Qualquer amor capaz de ser medido. CLEPATRA
Eu demarco at onde sou amada. ANTNIO
Nesse caso, ters de descobrir
Novo cu, nova terra.
[Li.]
Ela o provoca, ele responde em grande estilo, mas as declaraes no
convencem:
Roma que nas guas do Tibre afunde,- Desabe a grande abbada do imprio! Aqui  o meu posto. Reinos so barro,- A terra abjeta nutreJera e homem.
[I.i-J
S mesmo algum que reunisse as perspectivas de Falstaff e Hamlet seria convincente ao pronunciar tais palavras,- talvez Antnio no esteja em frias no Egito, mas 
fala como se estivesse. Logo, porm, pensamentos romanos, como se queixa Clepatra, vm  mente de Antnio, com a chegada de um mensageiro depois do outro. Ao longo 
da pea, os mensageiros surgem amide e, invariavelmente, falam a verdade, provendo as inalterveis regras do jogo. Concluindo, com toda razo, que "o feitio / 
Dessa rainha tenho de quebrar", Antnio parte para Roma, mas s depois que Clepatra representa sua primeira grande cena, no papel de "matador, Antnio fazendo o 
"touro":
CLEPATRA Vai, interpreta a cena
ANTNIO  E  CLEPATRA
De dissimulao to magistral,- Que pura honra tudo parea.
ANTNIO
Fazes subir meu sangue/ peo, basta.
CLEPATRA
Pode ficar melhor, mas j est bom.
ANTNIO
Por esta minha espada...
CLEPATRA
E pelo escudo. Ests j progredindo. Mas melhorar ainda podes. V, Charmian, como este Hrcules romano Enverga bem a ira.
ANTNIO Eu vos deixo.
CLEPATRA
Gentil senhor, s mais uma palavra: Senhor, ns precisamos separar-nos, Nada disso,- senhor, fomos amantes, Mas no  isso/ disso sabeis bem O que era mesmo que 
eu... Minha memria toda  um Antnio, No recordo mais nada.
ANTNIO
No fosse o capricho vosso sdito, Diria que o capricho, em si, sois vs.
CLEPATRA
Trabalho fatigante, trazer tal Capricho to prximo ao corao, Como o faz Clepatra. Mas, senhor, Perdoai-me, pois contra mim se volta Minha graa, se a vs no 
vos agrada. Daqui, vos chama a honra,- e portanto, Do meu desatino no tenhais pena,
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#HAROLD  BLOOM
E que todos os deuses vos escoltem! Que os louros da vitria caiam sobre A vossa espada e que o sucesso fcil Aos vossos ps se prostre! ANTNIO Vamos,- vinde.
Nossa separao fica e se vai: Ficando aqui, comigo vs vireis,- Daqui partindo, aqui eu ficarei. Vamo-nos!
[l.iii.]
O momento  propcio  pergunta: como  Antnio visto por Clepatra, especialmente quando ambos esto no apogeu? Leeds Barroll, com sagacidade, prope:
Ela o v como [...] algo vindo dos cus. No apenas grande, mas gigantesco, no arrebatador, mas pitoresco, no poderoso, mas retumbante - um gigante chegado ao 
mundo. No o dinomico deus Hrcules, mas o esttico deus Atlas, colossal em sua imobilidade.
No trecho da pea que acabo de citar, Antnio aparece como um Hrcules dinomico, mesmo sendo alvo de brincadeiras, sempre perigoso, a um s tempo, deus mortal e 
poltico romano. No encalo de Pompeu e Jlio Csar, o relacionamento ertico de Antnio com Clepatra  instvel como aliana poltica, plausvel de traio mtua, 
no momento e ao preo certos. Nessa pea to selvagem, o amor no  trado por ser vendido:  honrado, ao ter a perda ertica compensada pelo ganho de poder. Ainda 
que o neguem repetidas vezes, Clepatra e Antnio conhecem bem as regras do jogo. Ela jamais as desrespeita,- ele, sim, mas no porque seu amor por ela seja maior 
do que o dela por ele.
Em Antnio e Clepatra temos o crepsculo de Antnio,- seu esprito fica intimidado na presena de Otvio Csar. Sendo apenas um militar, Antnio  desbancado pelo 
primeiro "burocrata imperial" da Histria,
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ANTNIO  E  CLEPATRA
herdeiro da astcia, embora no da generosidade, do tio e pai adotivo, llio Csar. O pblico nota certo cansao em Antnio, uma exausto fsica com respeito a 
Roma e a assuntos romanos. Antes poltico sagaz (em Jlio Csar, do prprio Shakespeare), Antnio agora  um trapalho, incapaz de aceitar ou dar bons conselhos. 
Seu maior erro  renegociar a aliana com Otvio com base em algo to instvel como o casamento por interesse poltico com Otvia, irm do futuro imperador romano. 
A medida altera o jogo poltico, tomando-o uma espcie de roleta russa, e Antnio est fadado a disparar contra si mesmo - isto , ao retornar para Clepatra, pagar 
caro. Fascinado pela rainha egpcia, e entediado com Otivia, Antnio no perder tudo por amor (ou luxria), mas por mudanas em si mesmo, mudanas essas que ele 
jamais compreender. Supostamente, personagem algum em Shakespeare superaria Falstaff, Hamlet, lago e Lear no que tange a mudanas induzidas pelo que aqui tenho 
chamado de "auto-escuta",- mas Antnio - que, certamente, no se iguala queles em termos de autoconscincia -  o maior exemplo desse tipo de susceptibilidade metamrfica 
em toda a obra shakespeariana. De modo geral, os estudiosos esquecem que a Clepatra de Shakespeare fica mais prxima  de Plutarco, segundo North, do que Antnio,- 
isso se d, em parte, porque (por questes familiares) Plutarco no apreciava muito a figura histrica de Antnio, embora reconhecesse algumas das boas qualidades 
do heri. Para Plutarco, o fracasso de Antnio na Batalha de cio foi, at certo ponto, motivado pela covardia, concluso nada condizente com o Antnio shakespeariano, 
cuja coragem jamais se abala, ao contrrio do seu discernimento, de sua habilidade poltica e do autocontrole com relao a erotismo.
Ainda que, na pea, Antnio jamais se equipare a Clepatra, Shakespeare cria, com o personagem, uma espcie de runa magnfica, tomada ainda mais sublime  medida 
que desmorona. Sem dvida, esse Marco Antnio  por demais multiforme para ser to-somente figura trgica, assim como Clepatra  verstil e divina demais para ser 
vista apenas como herona trgica, uma Cordlia ou uma Lady Macbeth. Em seu declnio e derrota, Antnio transcende limitaes pessoais, sendo humanizado com uma 
exuberncia que surpreende, at mesmo em Shake-
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#HAROLD  BLOOM
speare. Pathos e grandeza confundem-se, inexoravelmente, enquanto o prdigo Antnio despenca, um processo que talvez configure a maior criao de catstrofe em Shakespeare, 
sem paralelo em toda a literatura ocidental. A melodia sublime que acompanha a autodestruio de Antnio seria a maior realizao potica da pea, mas nada pode 
superar a grandiosa harmonia da cena da morte de Clepatra, que pode ser considerada responsvel por uma mudana definitiva no autor. Depois de Antnio e Clepatra, 
algo vital abandona Shakespeare.
O Antnio segundo Plutarco, a despeito de brutalidades e malfeitorias cometidas, distingue-se pelo respeito  honra e pela capacidade de merecer o afeto da tropa. 
Contudo, na opinio do prprio Plutarco, Antnio fora, em seu tempo, o mais caprichoso dos romanos, sucumbindo a Clepatra, o maior dos caprichos:
O amor por Clepatra, que agora lhe surgira na vida, veio a ser a leviandade mxima que lhe faltava. Tal amor transformou em loucura paixes at ento ocultas, ou 
adormecidas, e sufocou, corrompeu, virtudes capazes de oferecer resistncia  tentao.
Embora no considere a viso de Plutarco muito elucidativa, cito Plutarco apenas para salientar que Shakespeare no exclui a perspectiva plutarquiana da pletora 
de perspectivas disponveis ao seu pblico, quanto ao relacionamento entre os protagonistas da pea. Uma das mais belas ironias criadas por Shakespeare  que Antnio 
 mais interessante, mais cativante, quando perde a noo de identidade:
ANTNIO
Eros, ainda podes me enxergar? EROS
Sim, meu nobre senhor. ANTNIO
Algumas vezes vemos uma nuvem
Que parece um drago, em outras vezes,
Um vapor, como um urso ou um leo,
Torres e cidadela, rocha erguida,
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ANTNIO   E  CLEPATRA
Montanha com dois picos, cabo azul com rvores, que o mundo cumprimentam, E enganam nossos olhos com o ar. J viste esses sinais,- so os prenncios Do negro 
espetculo da noite.
EROS
J vi, sim, meu senhor.
ANTNIO
O que agora parece um cavalo, Fugaz qual pensamento, logo a nuvem N Desfaz, tomando to indistinguvel Quanto gua na gua.
EROS
De fato, senhor.
ANTNIO
Eros, meu bom rapaz, teu capito  agora um desses corpos. Aqui estou, Antnio,- mas, no tenho, meu rapaz, Como manter visvel esta forma.
[IVxiv.]
 extraordinrio que Antnio, militar arrogante, fanfarro, fale aqui como Hamlet! Temos de convir que Eros no  Polnio, mas Antnio tampouco est sendo irnico. 
Escutando as prprias palavras, que expressam a dvida de que Eros ainda possa reconhec-lo como heri, Antnio divaga a respeito do desaparecimento de sua identidade, 
como nuvem que se desfaz. A dvida de Antnio no decorre de simples peripcia dramtica, mas de um processo de transformao e declnio por ele sofrido ao longo 
de quatro atos, em preldio ao suicdio. A melodia fnebre que aqui ouvimos  a mais prolongada em Shakespeare, e talvez constitua o mais elaborado estudo de nostalgia 
de toda a sua obra dramtica. Trata-se de mais uma grande inveno shakespeariana, uma marcha fnebre to extensa e variada que ser mpar em toda a literatura ocidental 
subseqente. Para garantir o nosso comprometimento, Shake-
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#HAROLD  BLOOM
speare precisa convencer a si mesmo, e a ns, de que seu heri hercleo  grandioso o bastante para merecer tais exquias. O Antnio de Plutarco jamais poderia incitar 
tamanha magnificncia. Shakespeare mostranos que um "mundo" se vai com Antnio/ Otvio o faz melhor que ningum:
A queda de algo to grande devia Causar maior estrondo. O mundo inteiro Devia ter lees mandado s ruas, E cidados s tocas. Morto Antnio, No  fim dele s; aquele 
nome Meio mundo encerrava.
[Vi.]
O "meio mundo" a que se refere Otvio corresponde  parte oriental do territrio romano, mas a queda aqui mencionada est mais ligada a uma questo temporal do que 
espacial. com a morte de Antnio, termina a era de Jlio Csar e Pompeu, que tivera incio com a morte de Alexandre, o Grande. Para Shakespeare, tratava-se de 
um tempo de Hrcules, herico,- conforme j observei, Antnio aqui parece arcaico, vestgio de um tempo em que carisma e exuberncia ainda eram capazes de superar 
qualquer obstculo. Demagogo, poltico cruel e grande conquistador, Antnio  o triunfo final de Shakespeare sobre Tamerlo, o Grande, caricatura esbravejante criada 
por Marlowe. lago havia superado Barrabs, o judeu de Malta,- Antnio ofusca Tamerlo, Prspero ir alm de Dr. Fausto, e, assim, Shakespeare faz Marlowe sair de 
cena. A morte de Antnio, passada a ironia da fracassada tentativa de suicdio, gera intensa melodia, em contraste com o pattico questionamento de Tamerlo sobre 
a necessidade de morrer. Mesmo assim, no creio que o pblico receba a morte de Antnio como trgica: no se trata da morte de Hamlet ou Lear, ou de Falstaff, segundo 
o relato de Mistress Quickly, em Henrique V.  imenso o patbos do momento em que Antnio morre, esforando-se, desesperadamente, para aconselhar Clepatra, assim, 
recuperando um pouco de dignidade. com efeito, de
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ANTNIO   E  CLEPATRA
certo modo, Antnio vem morrendo desde o incio da pea, e um declnio que se estende ao longo de quatro atos, necessariamente, em muito dilui o efeito trgico. 
Contudo, Shakespeare tem o cuidado de mostrar-nos o grande vazio que a morte de Antnio provoca na realidade que o cerca, especialmente para Clepatra, embora os 
demais personagens tambm o sintam.
Ser que Clepatra se engana? Estariam os demais personagens, igualmente, enganados? Conforme se d com Falstaff e Hamlet (embora Antnio no tenha o mesmo brilho), 
essas indagaes levam-nos a uma questo central em Shakespeare: qual o valor da personalidade, especialmente quando a fora da mesma  palpvel, como no caso de 
Antnio? E catastrfico o destino de Antnio, passando tste por tantas humilhaes antes de morrer, enquanto Clepatra permanece acima de qualquer humilhao, em 
virtude de sua morte ritualizada. Mesmo assim, a personalidade de Antnio  mais um triunfo shakespeariano: o delicado equilbrio entre as qualidades desse heri 
hercleo dificilmente poderia ser retratado de modo mais convincente. Sendo alguns dos gestos mais caractersticos de Antnio, simplesmente, maravilhosos, o pblico 
concorda com a premissa bsica da pea: a vitalidade do personagem excede os seus atos, mesmo os mais condenveis. O carisma infinito de Hamlet, por ser de natureza 
intelectual e espiritual,  maior do que o de Antnio, mas Hamlet encontra-se isolado, a no ser pela presena de Horcio. Antnio  o maior dos capites shakespearianos 
- maior at mesmo do que Otelo e Coriolano -, por ser dotado de uma personalidade que domina todos os aspectos do mundo que o cerca, inclusive a conscincia de Otvio, 
seu inimigo. E tal personalidade, como a de Clepatra,  de uma comicidade exuberante, sendo a tragdia em questo mais engraada do que qualquer uma das grandes 
comdias shakespearianas. A genialidade de Shakespeare, impiedosa em Lear, Otelo e Macbetb, entrega-se, de corpo e alma, a Antnio e Clepatra, a mais rica das trinta 
e nove peas do cnone. Grande parte dessa riqueza  constituda pela poesia, e as personalidades de Antnio e Clepatra so um grande poema, hercleo e ertico, 
noes de ordem em meio quela violenta desordem que tambm  uma espcie de ordem. Conforme j
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#HAROLD  BLOOM
salientei, Clepatra, dotada de mais crebro, espirituosidade e astcia, aproxima-se de Falstaff, mas Antnio supera qualquer um na intensidade exagerada de sua 
poesia. No creio haver outro personagem masculino que tanto fascinasse o autor, nem mesmo Hamlet e Falstaff. Antnio  o desejo em Shakespeare de ser diferente, 
de estar em outro lugar,-  a alteridade da arte shakespeariana levada ao extremo, na representao da versatilidade possvel a um heri cujo interior se encontra 
em constante mutao, embora carea da fora intelectual de Hamlet e Falstaff. Entusiasmo, de natureza cmica e, ao mesmo tempo, divina,  a essncia de Antnio.
Antnio e Clepatra , notoriamente, pea hiperblica, e, para fazer jus  mesma, qualquer montagem de qualidade ou qualquer anlise textual atenta sero sempre 
experincias empolgantes, embora exaustivas. Analisar a pea em sala de aula, mesmo nas turmas mais brilhantes, , para mim, uma espcie de provao gloriosa. Hamlet, 
Falstaff e lago consomem bastante energia interpretativa, mas as respectivas peas contm momentos de calmaria, de descanso. Antnio e Clepatra no pra, transbordante 
de esprito inventivo, demonaca na fora mltipla de sua poesia.  quase consenso crtico que, nessa pea, podemos encontrar tudo o que Shakespeare  capaz de realizar 
em dramaturgia. Desconheo qualquer outro drama, de quem quer que seja, que se aproxime de Antnio e Clepatra, em termos de abrangncia e energia. Se o maior dos 
talentos assombrosos de Shakespeare foi a habilidade de inventar o humano, e, com certeza, creio que o foi, ento, Antnio e Clepatra, mais do que Hamlet ou Rei 
Lear, deve ser considerada a obra-prima, a no ser pelo fato de que as perspectivas constantemente mutveis, caleidoscpicas, acabam por confundir-nos. Anlises 
crticas ou representaes cnicas de Clepatra ou Antnio parecem fadadas a ser incompletas, mas assim Shakespeare o pretendia, como se tivesse  se tornado impaciente 
corn atores e pblico. Pea com um nmero impressionante de mudanas de cenas, Antnio e Clepatra parece no ter episdios de menor
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ANTNIO  E  CLEPATRA
- nortncia, ou dispensveis, mesmo quando os protagonistas no esto em cena. Janet Adelman argumenta, com sensatez, que tal fato contribui para o clima de incerteza 
prevalente na pea, e sugere que Shakespeare, intencionalmente, confere opacidade a determinados aspectos dos protagonistas. Pode ser, mas o contrrio tambm  plausvel: 
uma vez que ao pblico  negada qualquer perspectiva privilegiada, a ironia dramtica prolifera-se e foge ao nosso controle. As incertezas multiplicam-se porque 
os prprios protagonistas, extremamente histrinicos, raramente sabem se esto sendo autnticos ou se representam seus papis. Nesse sentido, os personagens so 
transparentes: atores encenando papis, tendo o mundo inteiro como platia. E o mundo est sempre presente em seus pensamentos,- a palavra mundo  refro ao longo 
da pea. Se deixamos de saber quando desempenhamos o nosso prprio papel, possivelmente, vamos parecer mais opacos do que somos.
Falstaff  o centro das peas em que atua, embora a crtica especializada faa campanha para reduzir-lhe a magnitude. Hamlet encontra menos resistncia junto aos 
crticos, que lhe conferem a devida importncia,- quanto a lago, parece improvisar a construo de Otelo. J Antnio e Clepatra, como um todo,  to multifacetada 
e exuberante que os protagonistas jamais a subjugam,- o mundo prevalece, e a pea, mais do que qualquer outra de Shakespeare,  um heterocosmo em si. Clepatra e 
Antnio fazem parte de um mesmo mundo,- desejam ser o mundo, e a est a sua tragdia. Otvio vence porque representa Roma, e Roma engolir a maior parte do mundo. 
Shakespeare nem endossa nem protesta contra o imperialismo romano,- quando, vitorioso, Otvio proclama: "Chega o tempo da paz universal" - a perspectiva por ns 
adotada determinar o grau de ironia detectado. O novo Csar encerra a pea com um ambguo tributo aos inimigos mortos:
Ao lado do amado Antnio sepultai-a. Tmulo algum da terra abraar To clebre par. Eventos grandiosos Tais quais estes abalam quem os fez, E no  sua histria, 
em piedade,
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#HAROLD  BLOOM
Menor que a glria dele que os levou A ser to lamentados. Nosso exrcito, Na mais solene pompa, seguir O fnebre cortejo e, ento, a Roma. Vem, Dolabella,- segue 
o protocolo Cabvel nesta grande cerimnia.      ---.
[V..]
Qual , exatamente, o sentido das palavras de Otvio? No fundo, ele sada a prpria vitria, enquanto, elegantemente, expressa "piedade" pelo mais clebre dos casais. 
 cabvel a interpretao de que Otvio pretendia exibir, ao menos, Clepatra, se no Antnio, na marcha triunfal ao retornar a Roma, e  diante da impossibilidade 
de faz-lo que ele expressa o citado lamento, um lamento por ele mesmo. Mas no temos como saber se Shakespeare desejava que o pblico permanecesse to distante 
do vencedor romano. Mesmo se a Histria assim o permitisse, como assimilaramos a noo de Antnio e Clepatra como Imperador e Imperatriz, primeiro, do Oriente, 
mais tarde, do "mundo"? Se assim fosse, no haveria a pea, e Shakespeare exulta com as oportunidades que lhe so oferecidas pelos protagonistas, titnicos, exuberantes, 
cheios de vida, indiferentes s conseqncias do seuglamour. O mundo fala muito dos defeitos dos dois, e o pblico no pode dizer que o mundo esteja totalmente errado. 
Mas as grandes figuras da pea - Antnio, Otvio, at o jovem Pompeu - jamais falam em nome do mundo e do pblico. So os subordinados, no exrcito e na corte, com 
quem nos identificamos, que o fazem, como no dilogo entre o "brao direito" de Antnio, Enobarbo, e Menas, que serve a Pompeu:
MENAS
[...] J nos conhecemos, senhor. ENOBARBO
No mar, creio eu. MENAS ...
Decerto, senhor.
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ANTNIO  E  CLEPATRA
ENOBARBO
Tens te sado bem, no mar. MENAS
E tu, na terra. ENOBARBO
Elogiarei qualquer homem que me elogiar, embora no se possa
negar o que tenho feito na terra.
MENAS
Nem o que eu tenho feito no mar. ENQBARBO
Sim, h algo que deves negar, para tua prpria segurana: tens
sido no mar um grande ladro. MENAS
E tu, na terra. ENOBARBO
A esse respeito, nego meus servios na terra. Mas d-me a tua
mo, Menas,- se nossos olhos tivessem competncia para tal,
aqui poderiam flagrar dois ladres se abraando.
[H.vi.]
A frase "Elogiarei qualquer homem que me elogiar" , no contexto, altamente cmica,- fora do contexto,  de uma sabedoria soturna. Antnio, Otvio e Pompeu fazem 
um pacto e dividem o mundo,- os comandantes e oficiais que lhes executam as ordens demonstram belo companheirismo, invalidando a retrica de seus lderes e admitindo 
a pirataria na terra e no mar. Sua perspectiva  a do mundo: a luta entre Oriente e Ocidente, Clepatra/Antnio e Otvio,  uma disputa entre piratas, travada em 
uma escala sublime. O foco central de Antnio e Clepatra no  a relao dos clebres amantes, nem a luta dos dois contra Otvio. O mundo  o centro, personificado 
por todos aqueles que no so comandantes supremos de um imprio, ou pelo menos de uma faco (Pompeu). Otvia, entregue pelo irmo a Antnio em um casamento por 
interesse poltico, toma-se a imagem do mundo, enquanto Antnio observa o adeus relutante da jovem ao irmo:
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#HAROLD  BLOOM
ANTNIO
Sua lngua
Ao corao no quer obedecer,
Tampouco poder seu corao
A lngua instru-la:  tal pena
De cisne, que, ao boiar no ponto mximo
Da mar, no se volta a lado algum.
[III..]
O mundo, conforme Otvia,  incapaz de escolher entre mar alta e mar baixa: ela e o mundo so qual "pena / De cisne" que "no se volta a lado algum". A metfora 
criada por Antnio, sugerindo grande distanciamento, atesta-lhe a infinita capacidade de empatia, e contribui para explicar o afeto que ele inspira  tropa. No entanto, 
as implicaes da metfora no so favorveis a Antnio - nem a Otvio, nem a Clepatra. Enobarbo, ao ser informado de que Otvio eliminara Lpido e Pompeu, mais 
uma vez, fala em nome do pblico:
Ento, mundo, ficaste reduzido A duas queixadas, e se atirares Nelas toda a comida que tiveres, Havero de ranger.
[III.v.]
"Queixadas", mandbulas: e depois de devorarem toda a comida que o mundo tiver, havero de engolir-se mutuamente. Tal e qual o mundo, algo em ns resiste  idia 
de tomar partido,- Shakespeare tem todo o cuidado de evitar que isso ocorra, apesar do grande vitalismo que empresta a Clepatra e Antnio. Quando Antnio retorna 
ileso da desesperada, breve vitria sobre Otvio, Clepatra o sada com a exuberncia de sempre:
[...]  bravura infinda,
Tu sais sorrindo, livre, dessa grande
Cilada do mundo?
[IV. viu.]
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ANTNIO   E  CLEPATRA
Pouco tempo depois, a frota de Antnio e Clepatra entrega-se a Otvio, provocando, pela ltima vez, a fria herclea de Antnio. Qual seria, ento, a "grande / 
Cilada do mundo", capaz de surpreender a "bravura infinda", .c, a coragem incomparvel desse descendente de Hrcules? Ser a guerra, o conluio de Clepatra com 
Otvio, ou apenas a mutabilidade do mundo? O mundo no escolhe Otvio, mas, nessa que  a mais teatral das peas, temos o teatro do mundo, e o pblico, empanzinado 
da riqueza shakespeariana, finalmente, merece um pouco de paz, com a morte dos dois heris, antes de voltar ao teatro para assistir a um outro tipo de pea - Corolano 
ou Pendes. Quem precisa do mundo inteiro como platia, e
N
Clepatra e Antnio no se satisfazem com menos, em .ltima anlise, chegar ao esgotamento, como no caso de Antnio, ou escolher um teatro ntimo para seu momento 
de glria, como o faz Clepatra. Ningum fez mais pelo teatro do que Shakespeare, sendo que, nessa pea, ele  mais generoso do que nunca, mas o autor comea a perceber 
que o pblico  para ele uma cilada, e que, em breve, dele exigir menos, no mais. De incio, Shakespeare ama o mundo,- mais tarde, na carreira do autor, vemos 
que o amor de Falstaff pelo mundo  propenso ao desdm. O poeta que escreve Antnio e Clepatra no ama nem odeia o mundo - tampouco o teatro,- na verdade, comea 
a mostrar sinais de cansao com relao a ambos. A glria de Antnio e Clepatra no  a ambivalncia nem a ambigidade: de todas as peas shakespearianas, essa 
constitui o maior poema. Hoje em dia, o texto da pea  bastante encenvel, quando devidamente dirigido e representado, mas, de certo modo,  grandioso demais para 
qualquer palco, embora mais condizente com um palco de porte do que com o melhor dos estdios.
Clepatra, sem sombra de dvida, figura do quilate de Falstaff e Hamlet,  a personagem feminina de maior vitalidade em Shakespeare, superando at Rosalinda. Antnio 
no pode ser inteiramente apreendido, devido ao proposital distanciamento mantido por Shakespeare. Clepatra, mesmo que as vrias perspectivas que pesam sobre ela 
se dissolvessem,
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#HAROLD  BLOOM
jamais poderia ser apreendida, pelos mesmos motivos que nos fazem pensar que conhecemos Falstaff, e que sempre nos obrigam a repensar o personagem. Na mais drstica, 
e brilhante, das recentes interpretaes crticas, Janet Adelman argumenta que, em Clepatra, Shakespeare reinventa "o mistrio feminino, tomando-o um suprimento 
eternamente regenerador, que, "quanto mais colhe, mais cresce"". Nesse mistrio, segundo Adelman, Shakespeare fundamenta a "identidade totalmente masculina [de Antnio], 
capaz de extravasar suas prprias limitaes". Trata-se de assertivas impressionantes, mas no seriam idealizantes? Antnio tem uma boa morte, expressando amor e 
zelo por Clepatra, mas Shakespeare mantm o heri dentro dos limites da identidade romana: "Romano, por romano bravamente / Batido". A morte de Falstaff, infantil 
e com ecos do Salmo 23, enquanto o personagem brinca com flores e com as pontas dos prprios dedos, extravasa todos os limites, embora alguns crticos (Wyndham 
Lewis, Auden e Empson) duvidem que a identidade de Falstaff seja totalmente masculina. E uma bela morte romana, a de Antnio, mas assemelha-se mais  morte de Bruto 
e Cssio do que  de Falstaff e  do transcendental Hamlet. Podemos convir que Clepatra, na verdade, regenera-se continuamente, mas sua fora no  transfervel, 
seja a Antnio, seja ao pblico. Shakespeare inventou as noes de que pensamos mais em amantes  medida que aumenta a distncia que nos separa deles, e que, quando 
os perdemos, principalmente diante da morte, temos uma sensao de xtase que parece engrandec-los, mas que, na verdade, os diminui. Proust foi o melhor aluno de 
Shakespeare no aprendizado desse processo to irnico, quando Albertine transforma-se em um Antnio para o narrador, algo sublime e enigmtico. Alguns crticos ressaltam 
que Clepatra s se apaixona por Antnio no quinto ato, depois que ele est morto. Isso me parece um pouco cruel, mas, a bem da verdade, a afeio de Clepatra s 
comea a alcanar o auge no final do quarto ato, quando Antnio morre, de maneira um tanto incmoda, nos braos da Rainha. Como figura poltica e dinstica, Clepatra 
preocupa-se com o Egito e com os filhos, mas as preocupaes so postas de lado quando ela calcula as conseqncias, para o Egito e para os filhos, da humilhao 
a que seria
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ANTNIO   E  CLEPATRA
submetida se fosse exibida aos romanos como trofu de guerra. Segundo Histria (Plutarco), Otvio executou somente o filho mais velho de Antnio, mas, na segunda 
cena do quinto ato, ele ameaa executar toda a prole de Clepatra, se, atravs do suicdio, ela frustrar-lhe o triunfo. Apesar das grandiosas representaes hollywoodianas 
de triunfos romanos, a maioria de ns desconhece as provaes a que os reis e generais derrotados eram submetidos, expostos  perversidade da populao e levados 
a execues sumrias. Clepatra, de acordo com os planos de Otvio, supostamente, no seria executada, mas constituiria um espetculo permanente, uma exaltao 
ao vencedor: "Em Roma, sua vida em nosso triunfo/Seria eterna". Shakespeare descreve com uma energia toda especial a recusa de Clepatra em ceder a tal infmia:
CLEPATRA
Iras, e agora, tu o que achas disso?
Assim como eu, sers boneca egpcia
Exibida em Roma. Trabalhadores
Vulgares, de aventais sujos, martelos
E rguas, vo erguer-nos  viso
De todos. Em seu hlito grosseiro,
Fedendo a comida podre, haveremos
De ficar envolvidas e foradas
Seremos a seu bafo deglutir. IRAS
Que nos livrem os deuses! CLEPATRA
Ora, mais que certo, Iras, oficiais
Ousados vo pegar-nos por rameiras,
E poetas comuns ho de compor
Baladas dissonantes sobre ns.
Comediantes sagazes, de improviso,
Vo nos jogar em cena a apresentar
Nossas festas de Alexandria,- Antnio,
Um bbado,- eu verei algum
689
#HAROLD  BLOOM
guri-Clepatra, aos guinchos, meninando A minha grandeza com ar de puta.
[V.ii.]
Shakespeare, decerto, sabia que no teatro romano, como no teatro europeu continental do seu tempo, meninos no eram, forosamente, utilizados para representar papis 
femininos,- ser que temos aqui a queixa do autor, de que a Serpente do Nilo tivesse de se submeter  pardia de um guri, aos guinchos, "meninando-lhe" a grandeza 
no tablado do Teatro Globe? Uma pea que, em termos de imagens, identifica Clepatra com terra e fogo, ao final, faz a protagonista exultar: "sou fogo, e ar", assim 
escapando a Otvio, "senhorio do universo". O mundo - quanto mais Otvio - deseja triunfar sobre Clepatra, mas Shakespeare, finalmente, toma partido, e nega ao 
mundo qualquer prazer sdico e faz de Clepatra o triunfo da pea. Personagem algum em Shakespeare tem morte to digna, verdadeiro ritual de exaltao. Ficamos comovidos 
quando Fortimbrs, supondo que Hamlet fosse da estirpe do prprio Fortimbrs, ou do velho Hamlet, ordena que o corpo do Prncipe seja honrado com um funeral militar,- 
no entanto, a suposio  to absurda que chega a nos parecer irnica, embora sejamos simpticos  idia de uma apoteose que - bem o sabemos-seria ridicularizada 
por Hamlet. Prncipe da ironia, ele jamais negaria consolo ao pblico. Mas a metamorfose de Clepatra  outra questo,- Shakespeare compe para ela a melodia fnebre 
mais extraordinria. Mas que Clepatra  a dele? O que, exatamente,  celebrado no ritual de Clepatra?
Clepatra morre como representante dos antigos deuses-governantes do Egito, muito embora Shakespeare soubesse o que sabemos, isto , que a Rainha era de origem macednica, 
descendente de um dos generais de Alexandre, o Grande. Entretanto, apenas a aparncia da morte  litrgica,- o propsito  simples e extremamente tocante: encontrar 
Antnio. No trecho abaixo, Clepatra fala com arte de dramaturgo,- a elegia a Antnio  pessoal somente at certo ponto, pois ela lamenta a perda da grandeza, sua 
paixo pblica:
Mais nobre dos homens, -   -
Queres morrer? Comigo no te importas?
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ANTNIO  E  CLEPATRA
Ficarei neste mundo to inspido,
Na tua falta no mais que uma pocilga?
Ah! Vede, minhas aias, a coroa
Da terra se derrete.
(Morre Antnio.)
Meu senhor?
Ah! Murchou a guirlanda desta guerra,
O plo do soldado est cado,-
Meninos^e meninas ora esto
No nvel dos adultos,- distines
Se acabam, e no h mais maravilhas
Na visita da lua.
[IV.xv.]
"Distines se acabam" significa que o valor, sempre dependente de distines, j no existe, pois o plo do soldado, agora tombado, constitua o padro de medida. 
O anseio de Clepatra por uma sublimidade perdida no chega a ser indcio do surgimento de uma nova mulher, transcendental, substituindo a obra-prima de histrionismo 
que conhecemos anteriormente. Ela ainda  atriz bastante para atuar na ltima cena, a maior de todas,  qual o falecido Antnio serve de motivao. No estou aqui 
a questionar a proximidade dos dois, tomada mais intensa do que nunca pela ausncia do amante, mas para reforar a percepo de que, conforme Antnio, e a prpria 
Clepatra, somos incapazes de separar a paixo autntica da representao que a Rainha faz desse sentimento. Shakespeare, com uma inteligncia inigualvel, deixa-nos 
atnitos at mesmo diante das falas mais comoventes de Clepatra:
No mais que uma mulher qualquer, domada Por msera paixo, qual uma jovem Leiteira, servial das mais humildes. Deveria lanar meu cetro contra Os deuses injunosos, 
e dizer-lhes Que este mundo ao deles se igualava,
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#HAROLD  BLOOM
At roubarem nossa jia rara. Tudo de nada vale: pacincia E tolice, impacincia  para co Danado,- ento,  mesmo pecado, Correr  morada oculta da morte, Antes 
que at ns a morte ouse vir? Mulheres, como estais? Ora, animai-vos! Charmian, mas que  isso? Minhas nobres Meninas! Ah, mulheres! Ah, mulheres! Olhai, nossa luz 
gastou, apagou-se. Damas, coragem, vamos sepult-lo,- E depois, o que  nobre, o que  audaz, Faremos, em alto estilo romano, E a morte, ao nos levar, vai se orgulhar. 
Vamo-nos, o invlucro daquele Grande esprito agora est gelado. Ah, mulheres, mulheres! Ora vamo-nos, Porque amigo j no temos assim, Somente deciso, mais breve 
fim.
[IV.xv.]
Como demarcar aqui os limites do histrionismo? A "platia" de Clepatra, nesse momento,  Iras e Charmian - alm do pblico -, mas, acima de tudo, a Rainha  platia 
de si mesma, pois Antnio, seu maior f (depois dela prpria), j no vive. Iras e Charmian, e ns mesmos ficamos bastante comovidos, mas talvez Clepatra fique 
mais ainda, pois comove-se a si mesma, com tal intensidade que o efeito  se torna, em si, mais um atributo esttico. No conseguimos atingir as profundezas do borbulhante 
eu interior de Clepatra. Isso ajuda a explicar aqui o abandono da interiorizao, depois das infinitas exploraes do eu interior realizadas nas grandes tragdias. 
Mesmo no caso de Macbeth, conhecemos os limites do histrionismo do personagem, e estremecemos ao nos identificarmos, involuntariamente, com a fora da sua imagina-
692
ANTNIO  E  CLEPATRA
co. com Clepatra, jamais sabemos onde pra a auto-representao e, portanto, admiramo-la, embora recusemos qualquer identificao. Isso no diminui Clepatra, 
mas a toma um tanto excntrica, mesmo quando  mais fascinante. Shakespeare conhecia as suas prprias criaes,- como quase sempre ocorre, demoramo-nos a alcan-lo. 
Em Clepatra, vigor cmico compete com energia ertica,- consider-la herona trgica  reduzi-la. Quando um infeliz mensageiro a informa que Antnio se casara 
corn Otvia, ela recorda a declarao anterior de Antnio - "Roma que nas guas do Tibre afunde!" - e responde  altura: "Que se afunde / O Egito no Nilo!" Shakespeare 
no nos mostra a volta de Antnio ao Egito, aos braos de Clepatra. Talvez prefira mostrar-nos, atravs de eventos, o desgaste do relacionamento do casal, inclusive 
a catastrfica insistncia, por parte de Clepatra, em participar de uma batalha naval em cio, e, mais ainda, a sua extraordinria performance com Tdio, embaixador 
de Otvio:
CLEPATRA
Gentil mensageiro,
Relata ao grande Csar, em meu nome:
Beijo a mo vencedora,- estou pronta
A deitar a seus ps minha coroa,
De joelhos,- diz que de sua voz,
Que todos obedecem, haverei
De ouvir o julgamento do Egito. TDIO
Escolhestes o mais nobre caminho.
Quando a sabedoria entra em conflito
corn a sorte, e a primeira se atem
Ao que  possvel, nada poder
Afet-la. Deixai que, em vossa mo,
Eu possa meu respeito demonstrar. CLEPATRA
Muitas vezes, o pai do vosso Csar,
Depois de meditar sobre a conquista
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#HAROLD  BLOOM
ANTNIO  E  CLEPATRA
De reinos, levou seus lbios a esta Mo indigna, fazendo chover beijos.
[Ill.xiii.]
Podemos supor que o momento no  tanto de traio quanto de dissimulao, pois Clepatra deve saber que Antnio est prestes a surpreend-la (como, de fato, ocorre), 
a ordenar o aoite de Tdio e saud-la como "um tanto passada", "volvel", e mais:
Encontrei-te poro fria no prato
Do Csar defunto,- no, eras sobra
De Cneo Pompeu, fora as horas ardentes,
Na lngua do povo no registradas,
Que em luxria passaste. Estou certo,
Mesmo que possas supor o que seja
A castidade, tu no a conheces.
[Ill.xiii.]
A despeito das mtuas artimanhas engendradas, esto por demais presos um ao outro para conseguirem se desvencilhar, e nenhum dos dois acredita que ser positivo 
o desfecho da situao em que se encontram. A cena mais grandiosa em que atuam juntos ocorre no mausolu, onde Clepatra se refugiara e para onde Antnio  iado. 
corn uma mescla impressionante de grande comdia e pathos terrvel, o dilogo desafia a parfrase crtica:
ANTNIO
Morrendo, estou morrendo, Egito,- apenas
Aqui fao esperar a morte um pouco,
At que, aps milhes de beijos dados,
O pobre e derradeiro eu tenha te
Selado sobre os lbios. CLEPATRA
Eu no ouso,
Querido, meu senhor, peo perdo,-
No ouso, por receio de ser presa. O cortejo imperial do afortunado Csar jamais por mim ser adornado, Enquanto cobra, faca, ou veneno Possurem a picada, fio, 
efeito. A salvo estarei: tua esposa, Otvia, De olhar imperturbvel e tranqilo, No gozar a honra de humilhar-me,- Vem, vem, Antnio - aias, ajudai-me - Precisamos 
trazer-te para cima. Acudi, bons amigos.
ANTNIO Ah! Depressa, Ou morto estarei.
CLEPATRA rduo exerccio!
Como meu senhor pesa! Nossa fora Se esgota no pesar que causa o peso. Tivesse eu o poder da grande Juno, Trazido aqui serias por Mercrio, De asas fortes, ao lado 
do deus Jpiter. Vem, devagar - quem fica desejando Coisas  tolo - Ah! Ento, vem, vem.
(Antnio  iado at Clepatra.) E bem-vindo, bem-vindo! Morre s Aps viver, revive com meus beijos,- Se meus lbios tivessem tal poder, Assim os gastaria.
TODOS
Quadro triste!
ANTNIO
Morrendo, Egito, estou morrendo. D-me Vinho, e me deixa falar um pouco.
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#HAROLD  BLOOM
ANTNIO  E  CLEPATRA
CLEPATRA
No, deixa-me falar, e deixa que eu Grite tanto que a prfida Fortuna Quebre a roda, irada com minha ofensa.
[IV.xv.;
Em momento algum Clepatra  to cmica como aqui, ou mais vulnervel a uma perspectiva moralista, capaz de distorc-la ao ponto de tom-la irreconhecvel. O pobre 
Antnio quer um ltimo beijo, mas ela tem receio de deixar o mausolu e descer ao seu encontro, o que  perfeitamente compreensvel,- no entanto, o mau gosto e a 
falta de sensibilidade da Rainha, ao invocar Otvia nesse momento grotesco e terrvel, so mais do que dbios. E mau gosto e falta de sensibilidade chegam ao extremo 
quando Antnio repete as palavras "Morrendo, Egito, estou morrendo", e pede vinho, para poder "falar um pouco". Clepatra, porm, exclama: "No, deixa-me falar", 
e enuncia uma retrica bombstica, de alto histrionismo. Samuel Johnson considerava detestveis as palavras "que a prfida Fortuna / Quebre a roda", mas o grande 
crtico moralista negava-se a aceitar a estranha hilaridade da pea. Antnio morre com o mximo de dignidade que lhe  possvel, diante de uma Clepatra delirante, 
e sabedor de haver falhado at no suicdio. O mundo est sempre presente, e Shakespeare negocia uma diviso final de honrarias entre Clepatra e o mundo, no quinto 
ato, no qual Antnio, bela sombra, marca presena por meio da ausncia, presena essa maior em nossa lembrana do que quando o vimos no palco.
Sempre uma figura complexa, Clepatra, no quinto ato,  mais sutil do que nunca, no dilogo travado com Dolabella, a quem ela quase seduz, como de hbito. Ela parte 
da descrio do "sonho" com Antnio, um catlogo de atributos divinos que lhe ressaltam a grandeza de esprito: "Os seus prazeres eram tal golfinho, / Que mostra 
o dorso acima do
696
elemento / Em que vive". O trecho serve de preldio ao dilogo crucial que determina o suicdio de Clepatra:
CLEPATRA
Tu achas que j houve,
Ou pode haver um homem como esse
corn quem sonhei? DOLABELLA
Gentil senhora, no. CLEPATRA
Mentes at os deuses escutarem.
Porm, se h, ou se j houve tal homem,
Ele estaria bem alm do sonho.
A natureza no possui substncia
Para competir em formas fabulosas
corn a imaginao,- mas, um Antnio
Foi mesmo obra-prima da natureza,
Desafio e carrasco da inveno. DOLABELLA
Ouvi-me, boa senhora:
Vossa perda  assim como vs: grande,
E vs a suportais condignamente.
Talvez, eu no alcance o meu propsito,
Pois sinto, por reflexo j do vosso,
Um pesar que me parte o corao. CLEPATRA
Obrigada, senhor. Sabes, acaso,
O que Csar comigo vai fazer? DOLABELLA
Repugna-me dizer-vos, sabei disso. CLEPATRA
Mas, por favor, senhor... DOLABELLA
Ainda que homem honrado...
697
#HAROLD   BLOOM
CLEPATRA
Quer me exibir na marcha triunfal. DOLABELLA
Quer, minha cara dama, disso eu sei.
[V.ii.]
Temos a impresso de que Dolabella seria o prximo amante da Rainha, se o tempo e as circunstncias assim o permitissem, mas o tempo, em Shakespeare,  implacvel. 
Em Tudo por Amor, de Dryden, existe entre Dolabella e Clepatra forte atrao, e, para contrabalanar, Dryden acrescenta um flerte entre Ventdio e Clepatra. Na 
concepo de Shakespeare, Dolabella, poltico ambicioso (conforme em Plutarco), fica de tal modo abalado diante da dor e da paixo expressas por Clepatra que  
capaz de arriscar a prpria carreira, confirmando o pesadelo da Rainha: ser exibida em uma marcha triunfal. Na cena seguinte, com Otvio, ela  extremamente hbil, 
dissimulando ira ao ser surpreendida escondendo do conquistador metade da fortuna da coroa. Convencido de que ela quer sobreviver, Otvio se retira, permitindo  
Rainha a oportunidade de morrer e buscar a transfigurao. Para voltar ao Cidno, e "ter com Marco Antnio", ela pede que as aias lhe tragam os "melhores trajes".
O ponto mximo dessa pea maravilhosa  o interldio com o campons, que precede a apoteose do suicdio de Clepatra. A cena refora o argumento de Janet Adelman, 
que a "insistncia" de Shakespeare "na questo da infinita mutabilidade do mundo milita contra a experincia trgica". Antnio e Clepatra contm inmeras perspectivas 
distintas, mas a do campons  a mais desconcertante. Ele domina o dilogo, pois, embora o charme da Rainha, de incio, dissolva-lhe a misoginia, em seguida, essa 
mesma misoginia volta a consolidar-se, quando ele no consegue dissuadir Clepatra de seu intento. Poucos dilogos da literatura mundial apresentam a pungncia e 
a sutileza desse, em que o campons oferece a Clepatra a spide fatal:
CAMPNIO
Muito bem,- nada deis a ela, eu vos peo, pois no merece ser alimentada.
698
ANTNIO   E  CLEPATRA
CLEPATRA Ela me comer?
 extremamente difcil categorizar pergunta to infantil: "Ela me comer?" Talvez, antes de ascender  morte e  transfigurao divina, Clepatra precise mergulhar 
no elemento ldico, na essncia falstaffiana quq  o segredo de sua capacidade de seduo. Quando o campons repete "desejo-vos bom proveito da cobra", ouvimos 
algo alm de uma misoginia flica,- ouvimos, talvez, a profecia da transformao a que Clepatra submeter o xtase da morte, tomando-o uma epifania ertica, em 
que ela oferece o seio a Antnio e aos filhos que tivera com os conquistadores romanos. A arte de Clepatra confunde-se com a de Shakespeare, em um fulgor que 
ofusca os enganos das diversas formas de amor em Shakespeare.
O melhor epitfio de Clepatra impressiona por ser pronunciado por Otvio, bem menos propenso do que Dolabella a ser vtima do encantamento da Rainha:
Ela parece estar dormindo, pronta A pegar outro Antnio com a forte Rede dos seus encantos.
-       [V.ii.]
No sendo um "outro Antnio", Otvio supera-se a si mesmo nesse tributo  capacidade de seduo de Clepatra. A essa altura, o pblico , ou deveria ser, o mundo, 
tomado de mltiplas perspectivas. "Ela me comer?" esbarra em "desejo-vos bom proveito da cobra", mas ambas as falas so postas um pouco de lado pela nossa tnue 
esperana de ainda haver um Antnio para ela pegar.
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#PARTE VIII
O EPLOGO TRGICO
#28
CORIOLANO
A insolncia do poder  mais forte do que o apelo da necessidade. A submisso a uma autoridade ilegtima, e mesmo a resistncia  mesma, nada tem que possa instigar 
ou favorecer a imaginao,- a presuno de se ter o direito de insultar ou oprimir o prximo traz consigo um marcante ar de superioridade. Preferimos ser opressores 
a oprimidos. O fascnio pela conquista do poder e a admirao pelos que o detm so naturais ao ser humano: o primeiro o faz tirano, o segundo, escravo. O mal revestido 
de orgulho, pompa e circunstncia  mais atraente do que o bem abstrato. Coriolano queixa-se da volubilidade do povo,- no entanto, quando no  mais possvel reforar 
seu orgulho e obstinao  custa do povo, o heri insurge-se contra a ptria.
William Hazlitt
Coriolano, mais at do que Jlio Csar e Henrique V,  o grande drama poltico do cnone shakespeariano. Tal fato interessa-me menos do que a natureza experimental 
da pea, que parece constituir novas alternativas formais, com relao s cinco grandes tragdias: Hamlet (1601), Otelo (\604), Rei Lear (\ 605), Macbeth (1606) 
e Antnio e Clepatra (1606). Shakespeare completou quarenta anos de idade aps ter escrito as trs ltimas peas mencionadas em pouco mais de um ano. Conolano (1607) 
tem como protagonista um soldado imbatvel, literalmente, um
703
#HAROLD  BLOOM
exrcito reduzido a um s homem, a maior mquina mortfera criada por Shakespeare. O fato de Coriolano no ser totalmente antiptico ao pblico (a despeito de tendncias 
polticas)  um triunfo da arte shakespeariana, pois, de todos os grandes protagonistas, esse  o mais limitado, em termos de conscincia.
Notoriamente, vtima de me dominadora e ansiosa, Coriolano  um adulto sempre menino. Exceto no campo de batalha, na melhor das hipteses, ele  um desastre em 
potencial. Ao confrontar a multido de plebeus romanos,  perfeitamente capaz de insult-los e enfurec-los. Shakespeare, conforme Anne Barton, com tanto brilho, 
demonstrou, tem o cuidado de diferenciar a plebe em Coriolano da que atua em Jlio Csar, e que segue Jack Cad em Henrique VI. Eis o que diz Barton sobre os plebeus 
em Coriolano: "preocupam-se com motivao, tanto a que os impele quanto a que move os opressores, e no so obtusos". com efeito, no constituem uma turba, e Shakespeare 
no se coloca contra eles. Caio Mrcio (nome verdadeiro de Coriolano)  mais bem talhado para ser general dos vlcios, inimigos romanos, do que para lder romano, 
ironia permanentemente reforada por Shakespeare. Na tica de Caio Mrcio, a plebe romana no merece po nem circo. Na tica da plebe, ele representa uma ameaa 
 sua sobrevivncia. Shakespeare, embora Hazlitt jamais o admitisse, concede certas justificativas ao pleito do povo, no confronto que a pea leva a termo. A plebe 
 cruel e inflamvel, mas Caio Mrcio a provoca, e o povo tem razo em expuls-lo de Roma. A venerao que o protagonista tem pela "honra" nega qualquer valor s 
vidas dos plebeus. Contudo, ele  mais inimigo de si mesmo do que do povo, e a tragdia que o derruba no decorre do medo e da fria da plebe, mas de sua prpria 
natureza e formao.
Conforme j salientei, ao longo de catorze meses, Shakespeare cria Lear, o Bobo, Edgar, Edmundo, Macbeth e Lady Macbeth, Antnio e Clepatra. Comparado a esse grupo, 
seja em termos de personalidade ou carter, Caio Mrcio chega a ser insignificante. Teria Shakespeare esgotado a capacidade de reinventar o humano, pelo menos, no 
gnero trgico? O interior de Caio Mrcio  diminuto, e, em todo caso, inacessvel a ns e a qualquer outro personagem da pea, inclusive ao
704
l CORIOLANO
prprio protagonista. O que, ento, Shakespeare busca alcanar com Coriolano? Norman Rabkin, em lcida anlise, v em Mrcio uma coerncia com protagonistas trgicos 
que o sucederam:
Ao aceitar o nome Coriolano, Mrcio aceita o reconhecimento pblico pelos atos por ele praticados e, necessariamente, fica [publicamente] comprometido. Como Lear, 
Macbeth, Bruto e Hamlet, Coriolano nos faz perceber o quanto o heri  criado a partir dos feitos realizados, e definido pelos eventos em que se , envolve.
Mas sero Lear, Macbeth, Bruto e Hamlet criados e definidos conforme o entendimento de Rabkin? Todos esses personagens contm uma certa substncia, que se destaca, 
enquanto Coriolano  bastante vazio. A paixo de Lear, a imaginao de Macbeth, a nobreza de Bruto e a conscincia infinita de Hamlet precedem as suas realizaes 
e duram mais do que eventos. No  possvel visualizarmos Coriolano em contexto ou circunstncias diferentes daqueles em que se encontra, e, no entanto, ele no 
consegue transcender contexto nem circunstncias. Essa , exatamente, a tragdia de Coriolano, e esse, e no a poltica,  o principal interesse de Shakespeare na 
pea. Recorro, mais uma vez, s palavras de Chesterton que sempre me perseguem: os protagonistas shakespearianos mais vitais so "grandes espritos acorrentados".
Coriolano encontra-se acorrentado em conseqncia de sua natureza e das circunstncias, mas no podemos dizer que seja um grande esprito. Educado pela me para 
ser um menino-Marte, ele jamais amadurece, a despeito do mpeto no sentido de alcanar autonomia. Ao ser exilado pela multido, ele desafia as massas, com seu memorvel 
discurso:
 matilha de ces de hlito imundo Como o do poo envenenado! Odeio-os Como s carcaas que, desenterradas, Corrompem-nos o ar. Eu os renego,- Fiquem aqui com suas 
incertezas
705
#HAROLD  BLOOM
Que at boatos fazem palpitar! Que o farfalhar das plumas do inimigo Enchem de horror! Tero poder ainda Pra banir os fiis - at que um dia Sua ignorncia (que 
no pensa, sente) Que s poupou vocs, vai entreg-los Como os mais humilhados dos cativos A uma nao que os vena sem um golpe. Por vocs eu desprezo Roma e parto: 
Existe um mundo fora destes muros!*
[Ill.iii.]
Fora do contexto, o discurso  magnfico/ na pea, parece mais pattico do que herico. Coriolano deveria mesmo partir para o exlio, para ter a chance de amadurecer 
"fora destes muros". Em vez de faz-lo, conforme observa Hazlitt com cruel satisfao, Coriolano busca os vlcios, e os lidera em campanha contra Roma, empreitada 
nada honrosa, a menos que "honra" signifique to-somente proeza militar, a despeito da causa. Anne Barton defende uma posio quase isolada, ao afirmar que Coriolano 
sente-se em casa junto aos vlcios, sendo estes mais arcaicos do que os romanos, alm de venerarem a guerra. Custa-me aceitar essa noo, visto que um ponto-chave 
da pea  o fato de Coriolano, em ltima anlise, ficar sem ptria: no suporta a idia de retornar a Roma, e no pode permanecer a servio dos vlcios. O argumento 
de Barton  que Coriolano, embora morra antes de poder "reconstruir a sua vida", aprende a verdade: os plebeus tambm tm direitos. Hazlitt parece-me mais prximo 
da realidade da pea, ao observar que Coriolano vive e morre na "insolncia do poder". A tragdia de Coriolano  no haver lugar para ele na comunidade social, seja 
dos vlcios ou dos romanos. Mas por que Shakespeare decidiu escrever essa tragdia to peculiar  a questo que eu gostaria de abordar.
* Coriolano. Traduo de Barbara Heliodora. Rio dejaneiro: Editora Nova Fronteira, 1995. Todas as citaes se referem a essa edio. [N.T.]
706
CORIOLANO
 notria a preferncia de T. S. Eliot por Coriolano, com relao a Hamlet, estranhamente, o crtico insistia ser CorioiMO a melhor tragdia shakespeariana. Acho 
que Eliot  aqui perverso, mesmo que acreditasse, sinceramente, ser Hamlet "um fracasso esttico". A arte retrica de Shakespeare  reprimida em Coriolano; comparada 
a Rei Lear, Macbetb ou Antnio e Clepatra, essa tragdia mais tardia  quase insignificante. A mesma fascina, justamente, por afastar-se do xtase criativo observado 
nos catorze meses que lhe precederam a concepo. Ao longo dos anos em que venho ministrando disciplinas sobre a dramaturgia shakespeariana, tenho encontrado, inicialmente, 
grande resistncia a Coriolano-, na verdade, para leitores e espectadores, o gosto pela pea costuma ser cultivado, i.e., no-espontneo.
Lida ou assistida em seguida s grandes tragdias, Coriolano pode parecer mais complexa do que de fato . Shakespeare, em Coriolano e Timo de Atenas (esta, flagrantemente, 
inacabada), desenvolve um trabalho experimental, criando protagonistas um tanto ou quanto antipticos, embora, em sua genialidade, o dramaturgo tenha descoberto 
meios de tom-los simpticos apesar de seus defeitos. Coriolano no  Bruto,- patriotismo no conta muito para Mrcio, uma vez comparado  questo da honra pessoal. 
Em Macbeth, Shakespeare havia experimentado as aplicaes do sentimento de ultraje de um heri-vilo. Coriolano sentese ultrajado em sua honra, ao ser expulso de 
Roma, e a revolta de Timo decorre da ingratido universal que o cerca. Tanto Coriolano quanto Timo so ultrajantes, mas, devido  convico que ambos tm de que 
foram ultrajados, solidarizamo-nos com ambos em momentos cruciais. Eis mais um aspecto da originalidade de Shakespeare, mais um meio de inventar o humano.
Eugene Waith e A. D. Nuttall, de modos diferentes, porm complementares, chamaram a ateno da crtica  viso extraordinria de Coriolano no comando dos vlcios, 
expressa por Comnio, general romano, diante dos tribunos temerosos por haverem banido o heri hercleo:
707
#HAROLD  BLOOM
 o deus deles. E os lidera qual coisa Feita por deusa no que a natureza Que faz homens melhores, e o seguem Contra ns como crianas, to confiantes Quanto menino 
atrs de borboleta Ou quem mata uma mosca.
[IV.vi.]
Waith discorre a respeito da "postura sobre-humana" de Coriolano, levando-nos, novamente, aos paradoxos que caracterizam o personagem: ao mesmo tempo, um deus e 
uma criana, verdadeiro meninoMarte! Nuttall, com uma observao, a meu ver, aplicvel a toda a obra shakespeariana, aponta o mito hermetista - o ser humano como 
um deus mortal - presente nas palavras "qual coisa / Feita por deusa no que a natureza". Nos captulos introdutrios do presente livro, identifico nessa noo do 
homem como deus mortal a cosmologia mais provvel de Shakespeare, e, aqui, recorro a Nuttall para, mais uma vez, invoc-la. Coriolano pretende agir "qual homem autor 
de si mesmo / Sem parentes". Tendo a me que tem, e tendo sido educado da maneira como ela o educou, Coriolano no ser capaz de concretizar tal inteno. Contudo, 
o autntico herosmo do personagem  sua tentativa de  se tornar o deus mortal Coriolano, e no o sempre infantil Caio Mrcio. Internamente rido, quase vazio, Coriolano 
, no entanto, dotado de uma vontade herica.
Essa ltima afirmao poderia, talvez, ser aplicada a lago, mas Coriolano nada tem de vilo, nem mesmo de heri-vilo. Trata-se de personagem to singular e original 
que  bastante difcil descrev-lo. Kenneth Burke sugeria que encarssemos a pea como uma "tragdia grotesca". Timo de Atenas, sem dvida, pode assim ser classificada, 
mas o imenso patbos que Coriolano provoca em ns no parece ter carter grotesco. Shakespeare, com grande sutileza, no nos oferece qualquer alternativa aceitvel 
ao sentido que a palavra "honra" tem para Coriolano, nem mesmo quando nos mostra como essa noo de "honra" toma-se
708
COR10LANO
limitada e frustrante, uma vez desafiada. A me, os amigos e os inimigos do heri, sejam romanos ou vlcios, no nos parecem nada simpticos, e ningum,  exceo, 
talvez, de T. S. Eliot,  capaz de se identificar com Coriolano. Hazlitt - que dizia: "ns somos Hamlet" - poderia, talvez, ter afirmado que somente o Duque de 
Wellington seria confundido com Coriolano.
Coriolano, diria eu,  um mecanismo de defesa, da parte de Shakespeare, contra outra criao sua, Antnio, heri hercleo bem mais interessante. Uma vez que Coriolano 
foi escrita logo aps Antnio e Clepatra, Shakespeare estaria plenamente consciente da falta de continuidade entre esses dois protagonistas com caractersticas 
de Hrcules. Antnio, embora em declnio, mantm toda a complexidade e algumas das virtudes que lhe garantem uma grande personalidade. Se  que Coriolano tem alguma 
personalidade, a mesma  por demais danosa, a terceiros e a ele prprio. Clepatra, at mais do que Antnio, extrapola os limites da personalidade. A partir de Coriolano, 
Shakespeare afasta-se da problemtica da personalidade: Timo est mais prximo dos ideogramas satricos de Ben Jonson do que de personagens shakespearianos, desde 
Launce, em Os Dois Cavalheiros de Verona, a Clepatra. E o gnero denominado pelos crticos "romance" parece ter, em si, certa precedncia sobre a mimese,- at mesmo 
Imognia, Leontes e Prspero esto no limite entre a personalidade realista e o ser simblico. Talvez Caliban e Ariel sejam personalidades, mas Caliban  apenas 
meio-humano, e Ariel, um esprito. Parte do grande fascnio que Coriolano exerce sobre mim  o fato de aqui Shakespeare, por assim dizer, mudar de ares, abandonar 
algo at ento central  sua arte dramtica. A partir de Coriolano, personagem algum  artista livre de si mesmo. Clepatra, espantoso ato de inveno humana,  
o adeus de Shakespeare ao seu talento mais raro. Bem que eu gostaria de saber o porqu desse fenmeno. Estaria Shakespeare cansado do prprio sucesso, retumbante, 
no processo de inveno do humano? A introspeco, maior legado deixado pelo poeta-dramaturgo ao ser ocidental, desaparece em Coriolano, e jamais ser o que fora 
antes. A morte do imenso eu interior de Clepatra nada tem de
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#HAROLD  BLOOM
banal, ela sofre uma verdadeira metamorfose, de modo que no temos sequer motivo de dor ou decepo. Uma maneira de verificar a mudana por que passa Shakespeare 
 contrastar a indagao de Clepatra diante da spide mortal - "Ela me comer?" - com a afirmao de Coriolano - "Eu [fiz tudo] sozinho!" -, derradeira vangloria 
dirigida aos vlcios. A pergunta fantstica, ingnua, de Clepatra presta-se a infinita meditao, encanta-nos, e enche-nos de renovada admirao quanto  sua personalidade,- 
a bazfia de Coriolano  pueril, e expressa uma pungncia infinitamente menor.
Todas as reflexes a respeito do desenvolvimento de Shakespeare levam-nos a reconhec-lo como o mais enigmtico dos dramaturgos. A poesia de Coriolano , condignamente, 
rspida, at estridente, visto que a pea prima pela invectiva. O autor exerce aqui pleno controle sobre forma e contedo, talvez at demais. Nem mesmo Shakespeare 
 capaz de manter Rei Lear, Macbeth e Antnio e Clepatra, totalmente, sob controle - aqui e ali aparecem "sinais de rebeldia". Lear, Edmundo, Macbeth e Clepatra, 
todos, escapam do criador, assim como Falstaff, Hamlet e lago so exemplos de diabretes que fogem com a coroa de Apoio. Em Coriolano, no circula qualquer energia 
transcendental,- o prprio Caio Mrcio  pobre de intelecto, e desprovido de imaginao. A pea confirma o domnio de um dramaturgo altamente profissional sobre 
sua matria potica-, percebemos que Coriolano faz, exatamente, aquilo que Shakespeare quer que ele faa. Entretanto, apesar de causar impacto, e da argcia formal 
corn que  construda, a pea no chega a ser um engrandecimento da vida. Parece at que Shakespeare pretendia tosomente superar Ben Jonson, uma vez que Coriolano 
pode ser vista como a obra que Jonson apenas se aproxima de criar em A Queda de Sejanus (1605), por sua vez, uma tentativa inepta de superar Jlio Csar. Coriolano 
continua a comover estudiosos e crticos, embora no a maioria dos leitores e espectadores, pouco impressionados pela perfeio da pea como exemplo de tragdia 
neoclssica. Todavia, Jonson jamais fez sombra a Shakespeare, como durante tanto tempo o fizera Marlowe, e, antes de mais nada, Coriolano  um recuo pessoal do autor 
corn respeito
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CORIOLANO
s suas prprias realizaes anteriores. Shakespeare havia se superado nas cinco grandes tragdias,- nem mesmo um gnio como ele voltaria a se aventurar naquele 
abismo interior. O recuo quanto  interiorizao propicia a Shakespeare (e a ns) a pea intitulada Coriolano, decerto, a mais estranha das trinta e nove atribudas 
ao dramaturgo ingls. Recorro aqui  noo de estranheza em duplo sentido: excepcionalidade e, tambm, novidade em termos de um esplendor esttico, menor, porm, 
singular. Abrindo mo de muita coisa, Shakespeare alcana a perfeio formal, de um tipo que jamais voltaria a utilizar.
O patbos provocado pelo temvel Coriolano  exacerbado sempre que ns (ou Shakespeare) consideramos o heri em conjugao com a indominvel Volmnia, sua me, provavelmente 
a personagem feminina mais inconveniente em toda a obra shakespeariana, sem excluirmos Goneril e Regan. Sendo Volmnia, como todos os demais personagens da pea, 
dotada apenas de um exterior, dispomos de poucas pistas que possam explicar como uma me de famlia que vivia nos primrdios de Roma pde tomar-se figura digna 
de Strindberg (a feliz comparao foi feita por Russell Fraser). Nessa que  a mais estranha das peas escritas por Shakespeare, Volmnia  a figura mais surpreendente, 
longe de ser mera reproduo da tpica me dominadora. Vangloria-se de ter enviado Caio Mrcio aos campos de batalha quando este era ainda jovem (vem-nos  mente 
Otelo, como menino-guerreiro), e adora ver sangue, mesmo que seja o do prprio filho:
[sangue] cai melhor num homem Que o ouro do trofu. O seio de Hcuba Amamentando Heitor no foi to belo Quanto a testa de Heitor a cuspir sangue Na espada grega 
que menosprezava.
, [I.iii.]
71!
#HAROLD  BLOOM
Demonstraes patolgicas e grotescas como essa no ficam longe da stira, conforme  o caso de tantos outros trechos de Coriolano. com uma me assim, Coriolano, 
por mais grosseiro que seja, merece o perdo do pblico. Nunca tive a oportunidade de assistir a uma montagem cmica dessa tragdia, tampouco de Tito Andrnico, 
mas chego a me perguntar o que Shakespeare pretende com a descrio do heri-mirim, Coriolano filho, brincando no jardim:
VALRIA
[...] Como est seu filhinho?
VIRGLIA
Eu lhe agradeo, senhora,- muito bem.
VOLMNIA
Prefere ver espadas e ouvir tambores a olhar para seu mestre-escola.
VALRIA
Palavra que  bem filho do pai dele! Mas garanto que  um menino muito bonitinho. Juro que na quarta-feira fiquei a olhar para ele uma meia hora: tem semblante to 
resoluto. Eu o vi correr atrs de uma borboleta dourada, e tomou a correr, caiu de pernas para o ar, levantou-se de novo, e tomou a apanh-la: e talvez porque 
o tombo o deixasse zangado, ou por outro motivo, trincou os dentes e rasgou-a em pedaos. Digo-lhe que a estraalhou!
VOLMNIA
 repente como os do pai.
VALRIA
No h dvida de que seja uma criana nobre.
[I.iii.]
Estraalhar borboletas com os dentes pode at ser bom treinamento para um indivduo adquirir o gnio beligerante do pai, mas em nada ajudar a prepar-lo para 
o convvio social. Talvez seja esse o cerne da questo: a plebe romana, dentro de uma dcada, aproximadamente, ver-se- diante de um novo Caio Mrcio. Nesse nterim, 
enquanto o heri marcha de volta para casa, sua me e um amigo fazem um
712
CORIOLANO
"nventrio de cicatrizes, a serem exibidas ao povo, no momento em que o heri for apresentado como candidato a cnsul:
MENNIO
Verdadeiras? Eu juro que verdadeiras. Onde ele foi ferido? (Aos Tribunos) Deus salve vossas mercs! Mrcio est vindo para casa! com mais razes para orgulhar-se. 
(A Volmnia) Onde ele foi ferido?
VOLMNIA
No ombro e no brao esquerdo: haver grandes cicatrizes para mostrar ao povo quando se apresentar para a eleio.^Ele recebeu, quando venceu Tarqunio, sete ferimentos 
no corpo.
MENNIO
Um no pescoo e um na coxa - o que faz nove que eu saiba.
VOLMNIA
Ele j tinha recebido, antes desta ltima expedio, vinte e cinco ferimentos recebidos (sic). MENNIO
Agora so vinte e sete: cada talho o tmulo de um inimigo.
(Gritos e uma clarinada.) Ouam, as trompas!
[H.i.]
Pode um dilogo como esse ser encenado a no ser numa comdia? Mais tarde, vir a cena em que Coriolano e a plebe se execram mutuamente, em confronto que beira o 
cmico.  difcil estabelecer de que modo devemos entender Volmnia, que tanto deve  terrvel Juno de Virglio. Shakespeare explicita a ascendncia quando Volmnia 
recusa o convite para uma ceia:
A ira  a minha carne,- me comendo, you morrer do alimento. Agora, vamos No chorem,- lamento certo  o meu, De fria, como Juno. Vamos, vamos.
[IV.ii.]
713
(j
#HAROLD  BLOOM
Tal me, tal filho/ Coriolano, tambm, come a si mesmo e, assim, h de morrer do alimento. O trecho s no  cmico porque, como Juno, na Eneida,  um tanto assustador. 
Mas o que nada tem de cmico, sendo, na verdade, em ltima anlise, at trgico,  o confronto entre Coriolano e Volmnia, quando ela o exorta a voltar atrs na 
deciso de comandar os vlcios em um ataque a Roma:
VOLMNIA
[...] No h homem
Mais preso  me: no entanto, eu matraqueio
Como um mendigo.
[Viu.]
Sendo esse o seu pior momento na pea, Volmnia, aqui, vai alm do comportamento e da linguagem inconvenientes,- com efeito, o discurso ser responsvel pela morte 
de Coriolano, que assim responde:
[...] Me,  me!
O que fez? Veja como os cus se abrem, E os deuses, vendo esse quadro anormal, Se riem dele. Ai, me, ai minha me! Pra Roma conquistou bela vitria,- Mas sobre 
o seu filho, creia, creia, Prevaleceu s com grande perigo, Ou talvez morte pra ele. Que venha.
[Viu.]
Como tragdia, isso me parece mais do que grotesco. Janet Adelman, em uma leitura brilhante dessa cena, conclui: "a sujeio no traz qualquer recompensa, no estimula 
o afeto, nem a empatia com o pblico,- propicia apenas o total colapso do indivduo, o terrvel triunfo de Volmnia". Onde no h consolo, nem mesmo empatia na 
dor, ser que existe a experincia esttica da tragdia? Em Coriolano e Timo de Atenas, Shakespeare oferece-nos o crepsculo da tragdia. Tudo tem o seu preo, 
e as cinco grandes tragdias muito custaram a Shakespeare.
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CORIOLANO
Ler Re< l**r e Macbeth, atentamente, ou assistir a boas montagens das esmas (o que  raro) so experincias extasiantes, a menos para aqueles l" so apticos ou 
ensimesmados. Escrever Rei Lear e Macbetb , no mnimo, uma demonstrao de que o autor no  frio nem solipsista. Na transio para Conolano e Timo de Atenas, 
Shakespeare percebe que transps uma fronteira, e descobre que j no quer trabalhar, exclusivamente, com a tragdia ou a comdia.
715
#29
TIMO DE ATENAS
Tudo leva a crer que Timo de Atmas seja uma obra inacabada, por motivos ainda no esclarecidos. A pea jamais foi encenada  poca de Shakespeare, e certos trechos 
da mesma parecem no ter sido revistos. Recentemente, especialistas vm atribuindo a autoria de vrias cenas a Thomas Middeton, mas as evidncias apresentadas no 
so das mais convincentes, e alguns desses mesmos estudiosos pretendem atribuir grande parte de Macbetb a Middeton, o que me causa total desconfiana. Por menos 
acabada que seja, Timo de Atenas pode ser bastante eficaz no palco. Duke Ellington escreveu uma belssima partitura para a pea, que acompanhava o texto shakespeariano 
na ltima montagem a que assisti, e que contava com a esplndida atuao de Brian Bedford. Na minha opinio, a pea presta-se mais  encenao do que  leitura, 
sendo intensamente dramtica, embora tenha seus altos e baixos. Grande parte dos trechos finais da pea  consignada s imprecaes de Timo, muito mais custicas 
do que as de Coriolano. Talvez essas imprecaes tenham entediado o dramaturgo, sendo, na verdade, cansativas quando lidas, mas Bedford tomou-as vibrantes no palco. 
Conforme o caso de Trilo e Cre"ssida, que tampouco foi encenada  poca de Shakespeare, o autor parece ter aqui subestimado sua arte dramtica. Timo de Atenas, 
ao contrrio de Trilo e Crssida, no  um grande poema, mas ambas prestam-se bem ao palco. Como homem de teatro, Shakespeare era to hbil que devia saber que 
esses dois textos eram altamente
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TIMO  DE  ATENAS
encenveis. Como vimos,  possvel que questes polticas tenham impedido a montagem de Trilo e Crssida. No caso de Timo de Atenas, suponho que Shakespeare tenha 
sentido uma certa rejeio  obra que estava prestes a terminar e deixou-a de lado, para buscar uma espcie de cura artstica, trabalhando em um texto que viria 
a ser denominado Pricles, e que inauguraria o ltimo subgnero dramtico ao qual o dramaturgo se dedicaria, os chamados romances.
Embora classificada como tragdia, Timo de Atenas fica entre a stira e a farsa. Assim como Corio/ano pode ter sido iniciada como uma reao  pea de Jonson intitulada 
A Queda de Sejanus, pelo que parece, Timo de Atenas seria, igualmente, uma tentativa de superar Ben Jonson, na stira de natureza moral. Conforme j assinalei, 
Coriolano e Volmnia no so "pessoas", mas ideogramas jonsonianos,- Timo nem isso o , sendo mais caricatura. Diversos estudiosos apontam uma caracterstica singular 
a Timo entre os personagens shakespearianos: no possuir famlia. Desprovido de pai, me, esposa, filhos, e mesmo de uma amante, Timo no tem origens. Descobrimos, 
no decorrer da pea, que certa vez ele salvara Atenas, com o auxlio da espada e do dinheiro. com certeza, Timo comeara a vida como soldado, chegando, mais tarde, 
a general; jamais somos informados sobre a origem de sua fortuna. A atitude do personagem com relao  sexualidade vai da indiferena, inicialmente,  averso 
total,- a pea, nesse particular, nica em Shakespeare, no tem papis femininos, exceto prostitutas.
Sendo eu o Bardlatra Brontossauro Bloom, sobrevivente de uma antiga espcie de crticos shakespearianos, no hesito em apontar a profunda amargura que encontro 
em Timo de Atenas, inclusive uma forte animosidade contra a idia da gratificao sexual. Ao esbravejar diante das prostitutas de Alcibades, Timo demonstra-se 
totalmente obcecado pela noo de doena venrea, conforme Pndaro, no Eplogo de Troio e Crissida. Uma fria exagerada permeia Timo de Atenas, uma certa loucura 
que vai alm da revolta de Timo diante da ingratido que o cerca. O distanciamento que Shakespeare cultivara em CorioidHO desaparece em Timo de Atenas, em aspectos 
cruciais, a pea  uma ferida aberta. Como
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#HAROLD   8LOOM
sempre, nada sabemos sobre a intimidade de Shakespeare,- portanto, desconhecemos se tal ferida era de ordem pessoal. Porm, em Timo de Atenas, mais at do que em 
Rei Lear, Shakespeare antecipa a feroz indignao de Jonathan Swift. O nico propsito da pea  alcanar essa indignao, apesar da seguinte ambigidade, sempre 
presente: ser a indignao do protagonista a reao de um idealista que se v enganado ou a de um tolo? Hazlitt, possivelmente contrapondo-se  censura de natureza 
moral que Samuel Johnson destinara ao perdularismo de Timo, d incio  tradio romntica que exalta o protagonista:
[...] Timo no tem prazer em odiar a si mesmo ou a terceiros. Toda a sua misantropia, por mais veemente,  forada. Para livrar-se dos escorreges da sorte, das 
tribulaes da paixo e da adversidade, tudo o que ele deseja  baixar  tranqilidade do tmulo. Para isso, convergem seus pensamentos,- nisso, encontra ele a hora 
e o lugar do romantismo. Cava a prpria cova  beira-mar, planeja o prprio funeral em meio  pompa da desolao, e constri um mausolu com os elementos.
O Timo pensado por Hazlitt  contemporneo do pobre-diabo que protagoniza o romance Frankenstein, de Mary Shelley, e o trecho acima aplicar-se-ia muito bem  criatura 
de Frankenstein, se esta fosse transferida da calota glacial rtica para o litoral grego. O Timo do Alto Romantismo tem exercido grande influncia na crtica literria, 
desde Hazlitt (1816), passando por Swinburne (1880), at atingir o apogeu, com G. Wilson Knight, na obra Tbe Wbeel ofFire (1930):
Em pea alguma podemos encontrar um domnio de tcnica to marcante, to pleno - quase primrio, em termos do impacto causado pelo efeito arquitetnico. Pea alguma 
[...] tem a fora dessa de Timo. [...] Nenhuma estrutura dramtica criada por Shakespeare  submetida a peso e a impacto semelhantes. Por causa dessa pea, Hamlet, 
Trilo e Crssida, Otelo e Rei Lear tomaram-se universais,- Timo de Atenas as engloba e as transcende.
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TIMO  DE  ATENAS
Seria maravilhoso se assim o fosse, mas o texto shakespeariano no -ustifica o exagerado elogio de Wilson Knight. Tive o privilgio, na
- ventude, de ver Knight atuando em trechos escolhidos de Timo de Atenas- o crtico-ator conferia a Timo toda a sublimidade de Lear, mas os sons da performance 
no ficaram em meus ouvidos depois que sa do teatro. J tive bons alunos que fizeram associaes entre Timo e Lear, mas tal interpretao no sobrevive  anlise 
criteriosa. Timo de Atenas  estudo marcante, extremamente expressionista, mas Shakespeare, sem dvida, chegou  concluso de que a obra era um equvoco - e estava 
certo. Por mais encenvel que seja, a pea  o nadir da arte trgica shakespeariana. Como fbula dramatizada, cuja moral seria, supostamente, o problema da ingratido, 
a pea careceria de ressononcia shakespeariana, seno pelo fato de que a intensidade elegaca da mesma faz lembrar a grande srie de tragdias que Shakespeare criou 
contra a sua prpria natureza, visto que seu gnio pendia para a comdia. Falstaff e Rosalinda surgem, naturalmente, da exuberncia de Shakespeare; Hamlet e Lear 
nascem de partos difceis. Timo de Atenas est longe de ser o ponto mximo da tragdia,- com efeito, o mausolu onde a pea descansa abriga as primeiras grandes 
tragdias europias desde os tempos ureos de Atenas.
Timo  a caricatura mais expressiva da pea, a nica, na verdade, que provoca algum interesse. Temos Flvio, o fiel intendente de Timo, Apemanto, descrito na lista 
de personagens como "filsofo intratvel", e Alcibades, aqui diminudo com relao aos papis desempenhados em Plato e Plutarco. Os demais so parasitas, bajuladores 
e prostitutas,- nem mesmo Macbeth  figura central em sua respectiva pea como o  Timo. Coriolano carece de dimenso interior, mas no se compara a Timo, que 
carece, simplesmente, de tudo, at irromper no primeiro ataque de fria (ato 111, cena iv), ocasio em que pede ao intendente que convoque todos os parasitas, bajuladores 
e falsos amigos a um banquete final, que consistir de gua morna e pedras dispostas em travessas
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#HAROLD  BLOOM
cobertas. Depois de jogar a gua na cara dos convidados e atirar-lhes as pedras, Timo, finalmente, alcana uma eloqncia contundente, no adeus a Atenas:
Ainda uma vez desejo contemplar-te.  muro, que circundas esses lobos, afunda-te na terra! No protejas Atenas doravante! Incontinentes ficai, matronas! Filhos, 
rebelai-vos! Loucos escravos, arrancai dos bancos
os graves e enrugados senadores  .
e emiti opinio no lugar deles. Vire-se num momento em lixo pblico a virginal pureza, e que isso seja feito  vista dos pais. Falidos, sede firmes, no devolvendo 
coisa alguma,- antes cortai as goelas dos credores. Servos, roubai, que vossos graves amos
*-
no cessam de pilhar com mos abertas,
servindo-se da lei. Vai para a cama
de teu amo, empregada, que a patroa
se encontra no bordel. Tira a muleta
de teu pai paraltico, menino
de dezesseis, e estoura-lhe os miolos.
Temor, piedade, reverncia aos deuses,
paz, justia, verdade, deferncia
domstica, descanso matutino,
vigilncia pacfica, costumes,
instruo, profisses e ofcios vrios,
hierarquias, usanas, leis vetustas:
confundi-vos no que vos for contrrio.
Que impere a destruio. Pestes que os homens
exterminais, acumulai as vossas
febres terrveis e devastadoras
720
TIMO  DE ATENAS
sobre Atenas, madura para a runa.
Fria citica, deixa os senadores
aleijados, porque nos membros mostrem
igual claudicao  dos costumes.
Na medula e no esprito dos moos,
luxria, te insinua, porque possam
nadar contra a corrente da virtude
e na depravao se afoguem todos!
Sarnas e pstulas, polu o seio
dos atenienses, para que a colheita
seja lepra geral. Que o hlito infecte
o hlito,- desse modo a sociedade
ser como a amizade: s veneno.
S levarei de ti minha nueza,
cidade detestvel. Toma isso
Tambm de mim, com maldies em conta.
Retira-se Timo para a floresta
onde as feras mais cruis sero, decerto,
mais piedosas que toda a humanidade.
Sede,  deuses! com todos sem piedade,
os de fora e os de dentro da cidade,
fazendo que o dio de Timo aumente
de instante a instante contra toda a gente.
Amm.*
[IV..]
Apesar de longo, o trecho apresenta slida unidade, sendo difcil dividi-lo em citaes estanques,- na verdade, a fala expressa certo alvio retrico, surgido depois 
de trs atos um tanto ou quanto ineptos. Uma vez que Timo, a partir desse momento, h de vituperar at o final da pea, ficaremos cansados de seus discursos injuriosos,- 
esse primeiro
" Trilo e Crsida e Timo de Atenas. Traduo de Carlos Alberto Nunes Vol X So Paulo Edies Melhoramentos, s.d. Todas as citaes referem-se a essa edio. [N.T]
721
#HAROLD  BLOOM
rompante, porm, tem muita fora, e merece a nossa apreciao. Sendo Timo apenas uma espcie de personagem de histria em quadrinhos, ser legtimo substituirmos 
Londres por Atenas, e o nobre ateniense por um Shakespeare quarento. Em 1607, Londres est "madura para a runa", onde "leis vetustas" confundem "no que vos for 
contrrio" - e "Que impere a destruio!" No quero dizer que Shakespeare, como Timo, esteja prestes a se isolar em alguma floresta, mas o vigor da denncia cvica 
aqui presente parte do autor, no de Timo. Quando Lear pragueja, jamais confundimos o grande Rei com Shakespeare, porque o interior de Lear  infinito, e temos 
a oportunidade de nos familiarizarmos com ele. As emoes de Lear so mais intensas do que as nossas, mas so, tambm, nossas. A fria de Timo fica distante de 
ns, e Shakespeare no envida qualquer esforo no sentido de personalizar o protagonista. Mais at do que no caso de Coriolano, Shakespeare foge da tragdia e dos 
seres trgicos, cujo interior cresce perpetuamente. Na prxima vez que ouvimos Timo urrar, ficamos pouco mais convencidos de que um indivduo de carne e osso  
quem fala:
 gerador bendito!  sol! da terra tira umidade ptrida e infecciona todo o ar que se respira c nesta rbita de tua irm! Dois gmeos que do mesmo ventre provm,- 
para eles quase idntico a gestao e o nascimento foram; mas d-lhes sorte diferente em tudo.
Que desprezado seja o mais pequeno pelo maior. A natureza, sempre por males assediada, s consegue suportar a fortuna revelando desprezo  natureza. Eleva este mendigo, 
abaixa o nobre. Desprezo hereditrio seja o love do senador,- do pobre, honras nativas. E a pastagem que deixa o gado ndio,-
722
TIMO  DE  ATENAS
nas secas, emagrece. Quem, quem ousa,
em pura humanidade, levantar-se
e dizer: "E um adulador este homem?"
Se um for, todos o so, que os degraus todos
da fortuna o de baixo deixa brandos.
Inclina-se dos sbios a cabea
ante o imbecil dourado. Tudo  oblquo.
Em nossa natureza amaldioada
nada  plano, tirante, to-somente,
a franca vilania. Odiadas sejam,
por isso, as festas todas, sociedades,
reunies dos homens, pois Timo odeia
seus semelhantes, sim, at ele prprio.
Que a destruio apanhe a humanidade.
D-me razes, terra!
[IV.iii.]
Tendo dedicado toda a vida ao magistrio de nvel superior, nunca me esqueo das palavras: "Inclina-se dos sbios a cabea / ante o imbecil dourado". Brilhante e 
escabrosa, essa fala beira o desespero, sendo complementada pela ironia de que, cavando a terra em busca de razes, Timo encontra ouro:
E se houver, porventura, quem exija melhor coisa de ti, molha-lhe a boca com o mais pronto veneno que tiveres. Que vejo? Ouro faiscante, ouro amarelo, o precioso 
metal. No, deuses! Nunca! No vos fiz votos frvolos. Razes, cus serenos. S com isto eu deixaria o negro, branco,- o repelente, belo,- o injusto, justo,- o 
baixo, com nobreza,- o novo, velho, e corajoso o pulha. Deuses, por que isto? Para que isto, deuses?
723
#HAROLD   BLOOM
Oh! isto desviar de vossas aras sacerdotes e servos, da cabea dos docentes tirar o travesseiro. Este escravo amarelo os sacrossantos votos anula e quebra, lana 
a bno nos malditos, amvel deixa a lepra, d estado aos ladres e lhes concede
ttulos e homenagens lado a lado dos senadores, faz que novamente se case a viva idosa. A que seria pelo hospital de chagas repugnantes com nuseas vomitada, isto 
embalsama, deixando como abril cheio de aroma. Vamos, poeira maldita, prostituta comum da humanidade, que a discrdia nas naes introduzes, you fazer-te voltar 
a ser o que s.
[IV.iii.]
Mais uma vez,  inegvel a fora convincente da linguagem, sendo difcil tirar da cabea palavras como: "Vamos, poeira maldita, prostituta / comum da humanidade". 
Os crticos apontam paralelos entre trechos como esse e as imprecaes de Lear que denunciam a corrupo financeira e a sexualidade desmedida, mas Lear tem o humanitarismo 
de clamar por um perfume que lhe "adoce a imaginao". Timo, ao confrontar as prostitutas de Alcibades, vai mais longe, satisfazendo uma imaginao sexual doentia:
Prossegue sendo o que s: uma rameira. Amor nenhum te vota nenhum dos que te buscam,- d-lhes doenas, guardando para ti o prazer deles. Tempera-os bem com tuas 
horas lbricas, deixando prontos todos os escravos
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TIMO  DE  ATENAS
para os banhos de estufa,- a mocidade de faces rseas leva  dieta extrema da cura pela fome.
[IV.iii.]
Ento, Shakespeare-Timo (que mais poderamos cham-lo?) incita Alcibades a submeter Londres-Atenas a um grande massacre.
. Porque, matando s celerados, tu nasceste para conquistar minha ptria. Guarda esse ouro. Parte! Aqui tens mais ouro... Parte logo. S como peste planetria, como 
quando Jove semeia seus venenos no ar de alguma cidade corrompida. Que no se esquea de ningum teu gldio. Apiedado no fiques da velhice veneranda por suas barbas 
brancas:  um usurrio. Desce tua espada na matrona fingida,- s nas vestes revela honestidade-,  alcoviteira. No enternea as faces da donzela o gume do teu gldio, 
que esses seios de leite, que provocam pelas grades das janelas os olhos dos mancebos, no se encontram na lista da piedade: como horrveis traidores os condena. 
Nem o lactente poupes, cujo riso em covinhas a compaixo esgota dos homens imbecis. Por um bastardo deves tom-lo, que um obscuro orculo fadou a te esgorjar depois 
de grande:
retalha-o sem remorsos. Jura guerra ^
contra tudo,-couraa pe nos olhos
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#HAROLD  BLOOM
e nos ouvidos, para que no cheguem at onde ests os gritos das matronas, das donzelas, das crianas, nem a vista dos sacerdotes a sangrar em sua vestimenta sagrada. 
Aqui tens ouro para pagar teus homens. Destri tudo, e uma vez aplacada a tua fria, a ti mesmo destri. No fales, parte!
[IV.iii.]
O trecho  de tal modo ultrajante que chega a ser grotesco, conforme o prprio Shakespeare, sem sombra de dvida, reconhece. A stira comea a surtir efeito contrrio, 
sobre Timo e o autor, quando nos deparamos com a sugesto de o lactente ser retalhado "sem remorsos". Mas Shakespeare no se d por satisfeito, e retoma a questo 
do horror que sente o protagonista pela sexualidade. Aps instar os seguidores de Alcibades a ser "sempre rameiras", Timo supera a si mesmo, em uma litania sobre 
doenas venreas que me faz pensar, juntamente com o falecido Anthony Burgess, que o prprio autor tivesse sofrido na pele algum desses males:
Semeai a consumpo
at nos ossos dos homens,- deixai fracas
suas pernas alertas,- a energia
destru dos cavaleiros,- tomai rouca
a voz do juiz, para que no prossiga
na defesa de causas ilegtimas
nem em tom de falseie grite as suas
sofistarias. Recobri de lepra
o sacerdote que perora contra
a condio da carne, sem dar crdito
a seus prprios discursos. Venha abaixol
Que lhe caia o nariz! Tirai a ponte
de quem, para caar seus interesses,
726
TIMO  DE  ATENAS
no percebe o bem pblico. Bem calvos deixai os biltres de madeixas belas, e que de vs receba fundas marcas o fanfarro soldado que da guerra no trouxe cicatriz. 
Empestai todos, para que vossa atividade possa destruir e deixar seca a prpria fonte da gerao. Tendes aqui mais ouro. Destru os mais, e que isto vos destrua, 
cobrindo a lama a todos!
[IV.iii.]
Esse hino  sfilis  absolutamente incomparvel. Wilson Knight, tomado de um entusiasmo visionrio, elogia "a unidade do praguejar em Timo, antagonizado, violentamente, 
pela sade - fsica e social". Por mais que admire Wilson Knight, fico atnito diante do seu posicionamento, e quero crer que Shakespeare tenha superado a suposta 
agonia, ao express-la de modo to magnfico. Na veemncia da fala de Timo, constatamos um ponto eqidistante entre a profecia acusatria e a autostira, mas  
esse, exatamente, o eterno dilema do protagonista, e a grande genialidade dessa pea to intensa. O vituprio de Lear, mesmo quando mais desatinado, mantm certo 
decoro monrquico,- Timo est alm de qualquer comedimento - social ou poltico -, e no dispe de um interior que o refreie, O que fazer com tamanho dio, especialmente 
quando Shakespeare no nos prepara para tal, tampouco oferecenos qualquer explicao para o pavor que Timo sente pela sexualidade? Todos ns, certamente, aceitamos 
a denncia contra a juiz corrupto, o sacerdote mpio e o soldado covarde, mas a destruio perpetrada pela sfilis parece desproporcional como punio ao pecado 
da ingratido. Shakespeare envida poucos esforos para distanciar-nos (ou a ele prprio) de Timo. Alcibades, embora soldado brioso, , com certeza, um dos raros 
fracassos shakespearianos, em termos de caracterizao,- o carisma do futuro amante de Scrates no  focalizado por Shakespeare.
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#HAROLD  BLOOM
"Esperamos um Prncipe Hal, de origem ateniense ou, ao menos, um Hotspur, e somos agraciados com um molengo bem-intencionado. Resta-nos Apemanto, o filsofo Cnico, 
mas este tampouco inspira em Shakespeare grande mpeto criativo. Apemanto quer verificar se Timo tomara-se um Cnico autntico, ou apenas um indivduo dado a lamrias. 
A espirituosidade abandona Shakespeare, quando os dois velhos amalucados batem boca,- nesse momento, sentimos saudade de Rosalinda, a quem Apemanto parodia, oferecendo 
a Timo uma nspera:*
APEMANTO
Nunca conheceste o meio-termo da humanidade,- apenas seus extremos. Quando vivias em teus dourados e teus perfumes, todos riam de ti, por teu excesso de delicadeza,- 
agora nesses trapos no a conheces, sendo desprezado pelo excesso oposto. Aqui tens uma nspera,- come-a.
TIMO
No me alimento do a que tenho dio.
APEMANTO
Odeias as nsperas?
TIMO
Sim, quando se parecem contigo.
APEMANTO
Se tivesses odiado mais cedo as nsperas dos intrometidos, terias agora mais amor a ti mesmo. Conheceste em algum tempo algum esbanjador que tivesse sido amado depois 
de ter perdido tudo o que possura?
TIMO
E quem j conheceste que tivesse sido amado sem esses recursos de que falas?
APEMANTO
Eu mesmo.
Em ingls, "mediar", formando um trocadilho com a palavra "mtMtr (Indivduo intrometido, indiscreto). [N.T.]
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TIMO  DE  ATENAS
TIMO
Compreendo-te, tinhas recursos para sustentar um co.
APEMANTO
Que  que no mundo todo te parece mais semelhante aos teus
aduladores?
TIMO
As mulheres. Mas os homens, os homens so a prpria coisa.
[IV.iii.]
" Esse ser o ponto alto do dilogo entre os dois,- a partir daqui, aos gritos, passaro a trocar insultos. No palco, a interao apresenta certa intensidade, mas 
pouco enseja em termos de riqueza de linguagem ou idias.
Felizmente, Shakespeare volta  luta, conferindo a Timo dois momentos finais de grande eloqncia, antes da misteriosa e, aparentemente, voluntria morte do ateniense. 
O primeiro  a bno final a Atenas:
No retorneis,- porm dizei a Atenas que Timo fez sua ltima morada no limite da praia do mar salso, que diariamente ho de cobrir as ondas turbulentas com sua 
branca espuma. Ide at l, fazendo que  se torne vosso orculo a pedra de meu tmulo. Lbios, fazei cessar o amargo verbo, pondo fim  linguagem. Corretivo do mal 
a peste seja, sempre ativo. De todos seja a morte o galardo. Morre,  sol! Cessou o reino de Timo.
[V.i.]
Em contraste com esses versos, os dois epitfios que Timo escreve para si mesmo so ineptos. Como vimos, a emoo causada pelas mortes
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#HAROLD BLOOM
de Cordlia e Lear era demais para Samuel Johnson/ a morte de Timo no nos causa grande impacto, seja enquanto a assistimos, da platia, seja depois que deixamos 
o teatro. Shakespeare, dotado de grande capacidade de autocrtica, decerto, percebia que, esteticamente, a pea estava aqum de suas realizaes dramatrgicas. Talvez 
ele tenha at voltado aos versos enunciados pelo Poeta, no incio da pea:
[...] A poesia
se assemelha  resina, quando escorre do tronco original. S surgem chispas da pedreira, quando esta  percutida,- mas nossa nobre flama toma impulso de si mesma 
e, no jeito das correntes avolumadas, arrebenta os diques.
[I..]
A flama da poesia no chega a resgatar Timo a Atenas. Era tempo de Shakespeare embarcar rumo a "guas nunca sulcadas ou a paragens/[...] nunca sonhafdas]", da 
fase final, visionria, de sua carreira.
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PARTE IX
OS ROMANCES
#30
PRICLES
Shakespeare trabalhou em Pendes durante o inverno de 1607-1608, mas os estudiosos no conseguem definir, precisamente, a participao do autor ingls na composio 
da pea. Por mais truncados que tenham sido, ao longo da histria editorial do texto, os primeiros dois atos so apenas sofrveis, e no podem ser de autoria de 
Shakespeare. A nica verso que temos da pea  um m-Quario, bastante esprio, mas, provavelmente, a inadequao de grande parte do texto no seria o motivo pelo 
qual Pricles foi excluda do Primeiro Flio. Ben Jonson, que participou da organizao do volume, havia denunciado a pea como "trama inspida". Supostamente, Jonson 
e os colegas de Shakespeare que editaram o Flio teriam conhecimento de que o principal autor dos dois primeiros atos da pea era um tal George Wilkins. Wilkins 
era escritor mercenrio, talvez, uma espcie de parasita de Shakespeare, e este, possivelmente, teria esboado os dois atos em questo, para que Wilkins os desenvolvesse. 
Mesmo para os padres londrinos da poca, Wilkins era um pulha, assduo freqentador de prostbulos - na verdade, ocupao bastante relevante para um co-autor de 
Pricles, embora as memorveis cenas do bordel sejam obra de Shakespeare.
Pendes no  apenas uma pea com altos e baixos (e truncada),- , tambm, um tanto estranha, em termos de gnero, contendo trechos recitados pelo poeta medieval 
ingls John Gower, que desempenha runo crica, alis, pessimamente, nos dois primeiros atos, embora com
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#HAROLD  BLOOM
mais brilho a partir do terceiro Pendes faz uso freqente da mmica, no estilo de O Assassinato de Gonzaga, pea reescnta por Hamlet com o ttulo A Ratoeira Mais 
estranho  o fato de a narrativa apresentar natureza episdica assistimos a certos episdios da vida de Pncles, da esposa Tasa e da filha do casal, Marina Os episdios 
apresentados no observam, a rigor, um encadeamento, como no caso dos dramas histricos, da tragdia e da comdia, na verdade, Shakespeare havia esgotado tais gneros 
Depois de Antnio e Clepatra, constatamos um retrocesso com respeito  investigao do lado interior do ser humano, e g , em Conolano e Timo de Atenas
Sena absurdo perguntar Que tipo de personalidade tem o Pncles de Shakespeare? Bibliotecas inteiras foram escritas sobre a personalidade de Hamlet, mas Pncles  
totalmente desprovido de personalidade Mesmo Marina, que possui todas as virtudes, no tem personalidade prpria, no mundo emblemtico de Pendes, Prncipe de Tiro, 
no h espao para o pathos individual No se trata de Shakespeare estar aqui fugindo do humano, mas ele passa a criar e representar algo diferente da realidade 
compartilhada por Falstaff, Rosalmda, Hamlet, Clepatra, Shylock e lago Como pai e filha, Pncles e Marina so universais De um lado, o importante  Pncles ser 
o pai da jovem, que a perde e a reencontra, de outro, a relevncia de Marina  ser a filha que se separa do pai e que com ele, mais tarde, reencontra-se No estou 
querendo dizer que sejam arqutipos ou smbolos, apenas que o relacionamento dos dois  tudo o que interessa a Shakespeare Lear, em si,  tudo e nada, e Cordlia, 
embora em mbito mais restrito,  personagem de grande complexidade  Como personagens, Pncles  real apenas o bastante para sofrer traumas, e Marina  forte apenas 
o bastante para resistir  perdio, no entanto, ambos apresentam poucos indcios de vontade prpria, raciocnio e desejo Benjonson estava certo Pncles e Marina 
so figuras em "trama inspida", uma velha histria contada e recontada As duas encenaes de Pncles a que assisti, uma trinta anos depois da outra, foram produes 
estudantis, e ambas confirmaram o que os crticos h muito vm afirmando at mesmo os dois primeiros atos da pea so encenveis    exceo da incrvel cena do 
reencontro de
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PERICLES
Pncles com Marina, no quinto ato, e, no quarto ato, das duas cenas do bordel, grotescas e hilariantes, quase nada da pea pode ser considerado dramtico, no entanto, 
o palco, de certo modo, transforma at a inpcia de George Wilkins Tal fenmeno deixa-me um tanto perplexo, pois problemas de direo e atuao teatral fazem-me 
abraar a causa de Charles Lamb antes ler Shakespeare (especialmente nos dias de hoje) a ver suas peas parodiadas e deformadas Pncles seria a exceo, trata-se 
da nica pea shakespeariana que prefiro ver encenada a fazer uma releitura, e isso no se deve apenas ao fato de o texto ter sido truncado ao longo do tempo Talvez 
por ter concordado que os dois primeiros atos fossem escritos por outra pessoa, Shakespeare redime-se da omisso, pondo em prtica, nos trs atos subsequentes, a 
experincia teatral mais radical desde a ltima verso de Hamlet, escrita entre 160O-1601 Pncles , sem dvida, uma pea estranha, mas no chega a conter o espantoso 
hiato, em termos de representao, que Shakespeare insere em Hamlet, que vai desde a segunda cena do segundo ato at a segunda cena do terceiro ato Mas o que, ento, 
 representado nos trs ltimos atos de Pendes?
Recitando o Eplogo, Gower diz que Pncles, Tasa e Marina so "Guiados pelo cu, rumo  alegria", de maneira que a pea apresenta o triunfo da virtude sobre a Fortuna, 
graas  interseo dos deuses, especialmente Diana Na fase final da carreira, Shakespeare parece devoto (um tanto tardiamente) de Diana Dramaturgo algum, entretanto, 
saberia, melhor do que Shakespeare, que  impossvel levar a termo, com sucesso, uma representao cnica da castidade triunfal, seja na virgindade ou no matrimnio 
O poema shakespeanano intitulado A Fnix e a Tartaruga  altamente relevante a esse tema
O amor tem e no tem razo, Se algo que se vai, permanece
A possibilidade de encenar as razes do amor sempre constitui, para Shakespeare, um desafio e mantm sua arte em constante mutao Como representar o mistrio da 
castidade no matrimnio - "Se algo
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#HAROLD  BLOOM
que se vai, permanece" - permanecer uma questo de grande complexidade. Gower e Prides tm tamanha capacidade de afastar-nos do nosso mundo ("exceto nas cenas 
do bordel!), que a pea chega a responder  pergunta retrica formulada pelo Alcoviteiro: "O que teremos ns a ver com Diana?" (ato IV, cena ii).
A rigor, h em Prides somente duas divindades, Netuno e Diana - e Diana vence. O que devemos depreender dessa vitria? Netuno oprime Pricles, de modo quase semelhante 
 opresso de Possidon com relao a Odisseu. Northrop Frye, observando a forma processionria de Prides, registra que o modo de representar a ao faz dessa 
pea uma das primeiras peras ocidentais e, a seguir, compara-a aos poemas A Terra Devastada e "Marina", de T. S. Eliot. Concordo que o triunfo de Diana tenha aspectos 
operticos, assim como a vitria de Marina sobre empregados e clientes do bordel. No entanto, a leitura que Frye faz da pea, assim como a interpretao barroca 
da mesma proposta por Wilson Knight, parece-me um tanto distante do vazio, estranho e proposital, que encontro em Prides, e que tanto me faz lembrar A Terra Devastada 
e "Marina".
Esse despojamento de um dom caracterstico , em Shakespeare, uma espcie de kenosis,- o mais sofisticado de todos os poetas-dramaturgos abre mo de sua fora criativa, 
de sua originalidade -  Deus tomando-se homem, por assim dizer. Frye considera Prides "primitiva, em termos psicolgicos", mas isso s se aplica na medida em 
que Shakespeare, propositadamente, abre mo de investigar o interior dos personagens,- porm, em Prides, Shakespeare no espera do pblico qualquer reao "primitiva". 
Afastamo-nos da verossimilhana shakespeariana, mas no da verdade shakespeariana. Gower est sempre presente, lembrando-nos de que estamos diante de uma pea de 
teatro, e sua mensagem, por mais redundante, no nos conduz a uma "trama inspida",  autoridade do arqutipo, mas ao prprio Shakespeare. Platia alguma assiste 
a uma montagem do texto desconhecendo o autor, e sem perceber como a pea difere das que a precedem no cnone, em nmero superior a trinta. Tampouco podemos ler 
Prides, hoje em dia, sem constatar que o criador de Hamlet, Falstaff e Clepatra apresenta-
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PRICLES
nos um protagonista que no passa de uma nulidade, um nome impresso na pgina. Ao estudar Shakespeare, partimos da perplexidade, e a ela sempre voltamos, e o prprio 
Shakespeare, como poeta-dramaturgo,  a maior causa de perplexidade em Prides.  plausvel supor que a idia da pea tenha partido de Shakespeare, e que o poeta, 
avesso ao contedo dos dois primeiros atos, tenha-os delegado a um companheiro,
Wilkins.
Prides tem incio em Antioquia, cujo fundador e governante, Antoco, o Grande, radiante, coleciona cabeas dos pretendentes  mo de sua filha, executando-os por 
no serem capazes de decifrar uma determinada charada, o que revelaria o relacionamento incestuoso dos dois. Ao conseguir decifrar a tal charada, Pricles de Tiro 
foge, temendo pela prpria vida. Depois de viajar at Tarso, onde livra da fome a populao local, o heri desenxabido sofre o primeiro naufrgio, e v-se no litoral 
de Pentpolis, onde se casa com Tasa, a princesa da terra. Uma vez superadas essas questes iniciais, Shakespeare assume o comando do texto, a partir do terceiro 
ato. Pricles e Tasa, ela prestes a dar luz a filha do casal, Marina, embarcam de regresso a Tiro,- Netuno d sinais de sua fria e temos o prazer de ouvir a voz 
de Shakespeare, quando Pricles recorre aos deuses, pedindo-lhes proteo contra a tempestade:
 deus desta desolao! Reprime tuas ondas que o cu e o inferno banham! E tu, que tens imprio sobre os ventos, aprisiona-os no bronze, aps os teres
invocado do abismo. Impe silncio
a teus terrveis e ensurdecedores
troves, apaga docemente tuas
chamas sulfreas e geis!*
[IH.i.]
"  Pendes. Traduo de Carlos Alberto Nunes. So Paulo: Ed.ouro S.A., s.d. Todas as citaes referem-se a essa edio. [N.T.]
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#HAROLD  BLOOM
Eis o Shakespeare de Herman Melville, embora, enunciados por Ahab, esses versos seriam convertidos em desafio. Pricles no  Ahab, e aceita a morte (aparente) de 
Tasa, em decorrncia do parto de Marina. Em seguida, Pricles cede  superstio do marinheiro, de que um morto a bordo pode causar o naufrgio do navio, e determina 
que o caixo da esposa seja atirado ao mar. O adeus de Pricles  mulher tambm foi assimilado pela imaginao de Melville:
Ti veste um parto horrvel, cara esposa,-
sem luz, sem fogo. Os brutos elementos
se esqueceram de ti. Tempo no tenho
de te depor no tmulo, de acordo
corn os ritos sacros, sendo necessrio
que, apenas posta no caixo, te jogue
nas ondas, onde, em vez de monumento
e de lmpadas sempre e sempre acesas,
pese a baleia vomitante e as guas
barulhentas em teu delgado corpo,
que entre as simples conchinhas vai quedar-se.
[in.,.]
Decidido a transgredir o realismo mimtico, Shakespeare no nos revela se Tasa est, de fato, morta. Quando, na cena seguinte, a mulher  reanimada, ou ressuscitada, 
por Cerimo de Efeso, onde, pelo que consta, o caixo atraca, suas primeiras palavras so "O cara Diana", invocando a deusa dos efsios. Na cena seguinte, em Tarso, 
entregando a pequena Marina aos cuidados do governador, Cleo, e sua esposa, Dionisa (que Pricles havia salvo da fome), o Prncipe de Tiro jura, "em nome de Diana", 
no se barbear at que Marina se case. Ento, Tasa segue para o templo de Diana em Efeso, onde assume a funo de grande devota da deusa. As reconciliaes finais 
da pea ali ocorrero, e acho importante salientar que Shakespeare, ao exaltar Diana dos efsios, evita os mecanismos das chamadas Peas de Milagre crists. E como 
se So Paulo jamais tivesse pisado em Efeso: a divindade que persegue os
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PRICLES
chamados romances^ escritos por Shakespeare em fim de carreira, permanece fora da tradio crist. E possvel que o autor, perto de morrer, tenha-se voltado para 
o catolicismo de seu pai,- porm, tanto quanto a suposta converso de Wallace Stevens no leito de morte, o suposto gesto teria sido mais um exemplo de desencontro 
entre a fora da imaginao e a vida pessoal.
Sempre que penso em Pricles, o que vem  minha mente no  a cena final, no templo de Diana, em que Tasa reencontra Pricles e Marina, mas os dois brilhantes episdios 
que tratam do desafio de Marina, no bdrdel, e a cena sublime do reencontro entre Marina e Pricles, a bordo, no incio do quinto ato. Se o restante de Pricles estivesse 
 altura dessas cenas, a pea poderia ser colocada entre as melhores escritas por Shakespeare, mas, infelizmente, no  esse o caso. O quinto ato, naquilo que tem 
de melhor e pior, faz lembrar um Perls ofPauline jacobiano, com Marina sempre prestes a ser morta ou estuprada. Pelo crime de ofuscar a filha de seus guardies, 
Marina deve ser morta, a mando destes,  beira-mar. Na ltima hora,  salva por piratas, mas  por eles vendida a um bordel em Mitilene. O grande Flaubert, no fim 
da vida, supostamente, aventava a possibilidade de localizar um romance de sua autoria em um "bordel de provncia". Voltando ao esprito da "azeda" Medida por Medida, 
Shakespeare supera todos os rivais, no vigor com que retrata a mais antiga das profisses:
ALCOVITEIRO
Boult! BOULT
Senhor? ALCOVITEIRO
Vai fazer uma pesquisa em regra no mercado. Mitilene est
cheia de galantes. Perdemos muito dinheiro nesta estao, por
falta de moas. ALCOVITEIRA
Nunca estivemos com tanta falta de gente. Presentemente s
temos trs coitadas, que no podem fazer mais do que fazem, "-
739
#HAROLD  BLOOM
que pelo efeito do trabalho incessante valem tanto como se
estivessem podres. ALCOVITEIRO
Da a necessidade de arranjarmos gente fresca, por mais caro
que tenhamos de pagar. Quem no desempenha sua profisso
corn conscincia, nunca poder ir para diante. ALCOVITEIRA
Tens razo,- no  criando uns pobres bastardos, como eu, que,
segundo penso, vi crescerem mais ou menos uns onze... BOULT
Sim, at aos onze anos, para depois solt-los. Mas, afinal: terei
de passar uma revista no mercado? ALCOVITEIRA
Que mais nos resta, homem, seno isso mesmo? A mercadoria
que temos, um vento forte a deixar em pedaos, to
lamentavelmente estragada est toda ela. ALCOVITEIRO
S falais a verdade/ so muito insalubres, em conscincia.
O pobre Transilvaniano que se deitava com a pequena Michela
j morreu. BOULT
Sim, ela o enganou  maravilha,- fez dele um assado para os
vermes. Mas j you percorrer o mercado.
[IV.ii.]
Somente nas cenas de bordel Shakespeare volta a um mimetismo artstico, to interessante no mundo inspido de Pricles. Pndaro, a Alcoviteira e Boult tm personalidade/ 
Pricles, Tasa e Marina no tm. Ante a virtude de Marina, extraordinria, divina (comparvel  de Diana), os devassos da pea acabam por se curvar, ao mesmo tempo 
em que encenam uma modalidade de ironia desde ento muito imitada. Pndaro prenuncia atitudes de Peachum e Lockit na pera do Mendigo, de Gay: "Quem no desempenha 
sua profisso com conscincia, nunca poder ir para diante". O vento da mortalidade sopra sobre as prostitutas
740
PRICLES
exaustas e o cliente da Transilvnia - e sobre o prprio Shakespeare (segundo alguns bigrafos). Prevendo excelente clientela para Marina, a Alcoviteira faz o comentrio 
mais potico da pea: "Sei que ele h de surgir das sombras, e espalhar moedas ao sol". Os trs no sabem, entretanto, que Marina  sua nmese. Os homens deixam 
o bordel perguntando-se: "Vamos ouvir o canto das vestais?", e, em breve, os trs alcoviteiros encontram-se em uma posio comparvel  dos infelizes raptores, no 
conto "O Resgate do Pele-vermelha", de O. Henry-.
ALCOVITEIRO
Sim, quisera, por dois tantos do que ela possa valer, que nunca
tivesse posto os ps aqui. ALCOVITEIRA
A peste que a carregue! Ela seria capaz de gelar o deus Prapo, de reduzir a nada uma gerao inteira. Precisamos fazer com que seja violada ou desembaraar-nos 
dela. Em lugar de fazer o que deve com os clientes e de mostrar as habilidades de nossa profisso, sai-nos com sutilezas, com suas razes de mestre, preces e 
genuflexes. Seria capaz de fazer do diabo um puritano, se ele se propusesse a comprar um beijo dela.
BOULT
Por minha f,  preciso que eu a desonre, antes que ela nos faa perder todos os cavalheiros, ou deixe podres todos os nossos
blasfemadores.
[IV.vi.]
Os alcoviteiros sabem muito bem que no conseguiro dobrar Marina/ a comicidade da preocupao fala mais alto do que a bravata, e nem eles prprios nem ns acreditamos 
que Boult haver de desonrar a jovem. Chega, ento, Lismaco, governador de Mitilene, disposto a roubar a castidade de Marina, mas acaba indo embora, apaixonado 
por ela e enojado diante das prprias intenes. O prximo a apaixonar-se  Boult, que espalha em Mitilene a notcia de que Marina vai ensinar canto, dana, tecelagem 
e corte e costura, to logo seja deslocada para
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#HAROLD  BLOOM
a companhia "de mulheres honestas". Obviamente, devemos encarar a castidade de Marina como algo mstico, ou oculto,- no pode ser violada, porque Diana protege seus 
devotos. Depois do reencontro com a famlia, Marina pode casar-se com Lismaco, por dois motivos: ele agora sabe que o nvel social dela , no mnimo, igual ao 
dele, e Diana (em Pricles) aceita a castidade dentro do matrimnio como alternativa de vida para uma de suas vestais. A comdia que consta das cenas do bordel  
das melhores escritas por Shakespeare,- a solidez da estrutura dramtica  preservada pela ironia da condio invulnervel de Marina, ao constatarmos a total incapacidade 
dos trs experientes alcoviteiros, diante de uma donzela incorruptvel. O trio descobre que  como se estivesse diante da prpria Diana, que, decerto, a todos derrotar.
Resta, ento, o clmax de Pricles, a magnfica cena do reencontro entre pai e filha, o evento crucial, em funo do qual a pea inteira  engendrada. Pricles, 
informado por Cleo sobre a morte de Marina, entra em estado de choque. Maltrapilho e faminto, ele jaz sobre o tombadilho do navio, semelhante a Hunter Gracchus, 
em Kafka, no navio moribundo. Mas Gracchus  o Judeu Errante, eternamente preso dentro de um crculo, enquanto Pricles est prestes a se ver livre de uma sucesso 
de catstrofes. Parece-me estranho que, para salientar o fato de que Pricles e Marina no incorrem em incesto, alguns crticos estabeleam uma comparao entre 
Pricles e Marina, de um lado, e Antoco, o Grande, e sua amante (a filha annima), de outro. O "perigo" est na mente dos crticos, no na pea, pois  o prprio 
Lismaco que autoriza Marina a atuar como "terapeuta"junto a Pricles,- alm do mais, o governador arrependido est apaixonado pela donzela, e no pretende, absolutamente, 
abraar a profisso do trio de alcoviteiros. E em sua vocao mstica, como devota de Diana, que Marina se aproxima do moribundo Prncipe de Tiro. Sem dvida, temos 
aqui, implicitamente, um contraste entre incesto e o mais puro amor entre pai e filha, mas essa questo  por demais bvia, para merecer anlise crtica.
Os versos da referida cena (mais de 150) encerram um dos trechos mais sublimes da arte dramtica shakespeariana. Desde a primeira saudao feita por Marina ao pai 
- "Salve, senhor! Ouvi-me!" - e da
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PRICLES
reao traumtica deste, empurrando-a para o lado, at o momento em que Pricles adormece, ao som da melodia das esferas celestiais, Shakespeare arrebata-nos. Emprego 
aqui essa expresso um tanto antiquada porque a mesma expressa a minha percepo, como professor, com respeito  reao intensa de meus alunos - to semelhante 
 minha - diante da cena em questo. Shakespeare faz do lento processo de reconhecimento de laos familiares verdadeira lio de suspense.  medida que o dilogo 
se desenrola, temos, primeiramente, um clmax quando Pricles comea a perceber a semelhana entre a esposa morta e a jovem que est  sua frente:
J sofri por demais, sendo foroso que procure nas lgrimas alvio. Minha esposa querida parecia-se com esta jovem, e assim podia ser hoje minha filha. Minha esposa 
tinha a testa alta assim, a mesma altura, essa voz argentina, o porte ereto/ os olhos, lindas jias, em escrnios tinha como estes,- era uma outra Juno no andar 
e, como agora, seus discursos nunca os ouvidos me saciavam, nunca,
por mais que os escutassem.
[V.i.]
A fala inicia a partir de lembranas do nascimento de Marina, em pleno mar, e a suposta morte de Tasa. Mas a expresso de um homem eternamente apaixonado, pelos 
olhos, pelo andar, pela voz da mulher, irrompe, em cadncia curiosamente virgiliana (a meu ver, proposital), e prepara-nos o esprito para mais um tributo  me 
e  filha:
[--.] Apesar disso,
tens a aparncia da Resignao
743
#HAROLD  BLOOM
no tmulo dos reis, que, desarmada com seu sorriso deixa a adversidade.
[Vi.]
"Adversidade"  a palavra que resume toda a catstrofe sofrida por Pricles, e reverncia  a reao certa ao tributo que o pai aqui faz  filha, ao mesmo tempo 
em que o sorriso desta desfaz a histria das calamidades que sobre ele se abateram.  impressionante que nem aqui, nem mais adiante no dilogo, Shakespeare permita 
a Marina, uma vez sequer, qualquer reao visvel enquanto transcorre o reconhecimento mtuo. Pricles chora quando os nomes de Marina, primeiro, e Tasa, logo depois, 
so mencionados pela jovem, nos ltimos versos que ela enuncia na pea. Mas Marina permanece circunspecta, cerimoniosa como uma devota, e diz, em tom grave: "Minha 
me foi Tasa, falecida / no minuto em que nasci". Pricles, finalmente, d sinais de vida:
 Helicano, honrado amigo! Bate-me, faze-me uma ferida, uma dor! Vamos! para que o grande mar desta alegria que me assoberba no inunde as praias de minha condio 
mortal e, enfim, no me afogue em delcias. Aproxima-te,  tu, que me ds vida, tendo a vida recebido de mim, tu, que nasceste no mar, em Tarso foste sepultada e 
no mar encontrada novamente.  Helicano, ajoelha-te e agradece aos deuses justos com aes de graas mais estrondosas ainda do que os prprios troves que nos ameaam. 
E Marina.
 [Vi.]
 como se, ao sair do trauma, Pricles precisasse de uma prova de sua prpria mortalidade. A viso que, em seguida, ele tem de Diana
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PRICLES
chama-o a feso, a qrna segunda cena de reencontro, em que ele nos presenteia com as palavras: "Oh, vem, querida! Uma vez mais desejo / sepultar-te em meus braos". 
Nesse momento, afinal, Marina expressa emoo, ajoelhando-se diante da me: "J inquieto / se acha meu corao, para no seio / saltar de minha me". A formalidade 
da genuflexo, de certo modo, define o sentimento da jovem, pois ajoelhar-se no  o mesmo que se atirar aos braos da me. A essa altura, depois da epifania que 
envolve Marina e Pricles, Shakespeare d-se por satisfeito (e ns tambm),- sabiamente, a pea chega ao fim, com a notcia de que Marina vai desposar Lismaco 
e que os dois reinaro em Tiro. Pricles, depois de destruir Cleo e a perversa Dionisa, governar em Pentpolis, uma vez que o pai de Tasa (bem a calhar) falecera. 
Surge, ento, Gower, que nos deseja "alegria [...] divina", e chegamos ao fim do processo que instaura os romances shakespearianos. Conforme observou M. C. Bradbrook, 
a pea  "metade espetculo, metade viso". Trata-se de uma frmula bastante problemtica, e Shakespeare arriscou-se muito em Pcrclcs. Mas o que lhe faltaria realizar? 
J havia reanimado a tragdia na Europa, aperfeioado a comdia e o drama histrico. Faltava trabalhar ainda mais a viso, e harmoniz-la com as necessidades da 
representao cnica. Nos romances subseqentes, Shakespeare iria muito alm de Pricles, mas essa pea foi a escola onde ele aprendeu sua arte final.
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#31
CIMBELINE
Pea de encenao difcil, pelo menos nos dias de hoje, Cimbeline tanto confunde quanto encanta. Os crticos romnticos sentiam-se extremamente comovidos pela pea, 
e, como tardio representante da tradio romntica, fascina-me esse drama to floreado. Hazlitt e Tennyson apaixonaram-se por Imognia, personagem quase singular 
nos romances shakespearianos, por ter sua dimenso interior representada com uma fora outrora to caracterstica no dramaturgo. Caliban, em A Tempestade, decerto, 
apresenta uma complexidade interessante, mas  apenas meio-humano, se tanto, apesar da absurda tendncia da crtica recente no sentido de tom-lo um rebelde dotado 
de conscincia ideolgica, uma espcie de defensor da liberdade dos negros. As figuras principais dos romances shakespearianos tendem a apresentar uma construo 
barroca que ainda hoje nos escapa. Leontes, em Conto do Inverno, tem incio como uma anamnese, semelhante a Malbecco, de Edmund Spenser, que "se esquece que  homem 
e passa a se chamar Cime". Prspero, o anti-Fausto criado por Shakespeare, mantm-se um tanto opaco a ns (e a si mesmo), pelo menos enquanto controla a sua hermtica 
magia. Quando quebra o basto mgico e atira o livro ao mar, Prspero toma-se mais profundo, mas, a essa altura, a pea chega ao fim, e s nos resta tentar deduzir 
qual seria a personalidade do governante que est prestes a retornar a Milo, onde a cada trs pensamentos um versar sobre o prprio tmulo. Em Cimbeline, Pstumo, 
marido de
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CIMBELINE
Imognia, abstm-se de uma introspeco capaz de inund-lo, e permanece como figura limtrofe, sempre por realizar o que aqui tenho chamado de auto-escuta.
Cimbeline  pea com muitos altos e baixos, e aspectos que sugerem um certo aodamento, ou mesmo superficialidade. Todavia, o texto, na ntegra, parece ser de autoria 
de Shakespeare, e, em dados momentos, ouvimos claras insinuaes da desaprovao do autor  Londres de
1 609- 1 O.  possvel que Russell Fraser esteja exagerando, ao afirmar que, "em Cimbeline, estreita-se a separao entre dramaturgo e atores", mas bigrafo algum 
de Shakespeare equipara-se a Fraser, no estabelecimento de ligaes entre o homem e a obra, e, com certeza, um certo rano espreita as margens dos romances, embora 
no chegue a invadi-los. com efeito, h algo fora de eixo em Cimbeline, mais do que em Conto do Inverno e A Tempestade, peas que vm logo a seguir. Samuel Johnson, 
talvez, aborrecido com remoques sobre o suposto desequilbrio mental de Shakespeare, notoriamente, descarta Cimbeline:
A pea tem sentimentos nobres, algumas falas convincentes e cenas agradveis, mas tudo  obtido  custa de muita incongruncia. Registrar a tolice da trama, o absurdo 
da conduta, a confuso dos nomes e dos costumes de pocas distintas, bem como a total impossibilidade dos acontecimentos,  desperdiar atividade crtica em algo 
imbecil, em falhas to evidentes que dispensam deteco, to toscas que no valem qualquer desagravo.
Johnson tem e no tem razo: h na pea incongruncias gritantes, mas estas parecem propositais. Choca-nos o fato de Pstumo ser exilado, da antiga Britnia, na 
Renascena italiana, mas Shakespeare est mais interessado em destacar o seu estilo livre, ousado, a sua liberdade quanto aos ditames formais que soterraram as enfadonhas 
tragdias de Ben Jonson, sem deixar qualquer vestgio. No Prefcio para a edio m-quarto de O Alcjuimista, Jonson enfatiza a "grande diferena existente entre aqueles 
que [...] dizem tudo o que lhes vem  mente, por menos apropriado que seja, e os que usam discrio e se submetem a conven-
747
#HAROLD  BLOOM
es". A rixa entre os dois amigos e rivais era antiga, e a resposta de Shakespeare, em Cimbeline, foi dizer tudo o que lhe veio  mente, mais do que nunca, demonstrando 
sublime desdm pela "discrio" jonsoniana. Nada  apropriado, vale tudo nessa pea ensandecida, em que Shakespeare, de fato, parece permitir-se devanear. Talvez 
seja por isso que Imognia (felizmente) tenha escapado de Shakespeare, remetendonos de volta aos personagens de rica dimenso interior, embora esse tipo de incurso 
no seja condizente com Cimbeline.
Mas que tipo de pea  Cimbeline? A pergunta no pretende contemplar questes de gnero dramtico, pois o Shakespeare amadurecido se encontra, quase sempre, alm 
de questes de gnero. Embora classificada junto aos "romances", Cimbeline pouco apresenta em comum com Conto do Inverno ou A Tempestade, muito menos com Pe"ricles. 
Imognia pouco tem a ver com Marina, Perdita e Miranda, alm do reencontro final com o pai (e com dois irmos). Ningum neste sculo (inclusive eu) colocaria 
a pea no mesmo nvel de excelncia de Conto do Inverno e A Tempestade, obras-primas de Shakespeare. Apesar de contar com vrios mecanismos previamente utilizados 
pelo autor, Cimbeline no chega nem perto de Otelo, pea  qual tanto deve, especialmente no que diz respeito ao "mini lago", Gicomo, mero ensaio, comparado  grandeza 
mais do que satnica do destruidor de Otelo. Em parte, o fascnio de Cimbeline decorre da percepo, por parte do leitor (e do espectador), de que h algo errado 
corn a pea, que a mesma no sobrevive a uma anlise minuciosa. No podemos sequer afirmar que o texto "se comporta" como pea de teatro: o enredo  catico, e Shakespeare 
no demonstra qualquer preocupao com probabilidades. Tampouco podemos determinar como  possvel a Imognia compartilhar do mesmo mundo que os viles, Clten 
e Gicomo, que existem em um plano de representao diferente do mimetismo realista no qual ela se insere. Quem sabe, Shakespeare, em Cimbeline, no estivesse disposto 
a agradar a mais ningum, a no ser a ele prprio, embora tenha, eventualmente, agradado tambm a terceiros? Cimbeline  mais poema dramtico do que pea teatral, 
e, mais do que em qualquer outro texto dramtico shakespeariano, nesse constatamos a afirmao da autonomia do esttico.
748
CIMBELINE
Talvez por isso Romzkseja apresentada, ao mesmo tempo, como antiga e moderna, e a Britnia, arcaica e jacobiana. Shakespeare cansara-se da Histria, assim como se 
cansara da comdia e da tragdia.
Cimbeline inicia com um dilogo, na corte, entre dois cavalheiros inominados, um dos quais  estranho ao lugar, o que permite a Shakespeare apresentar informaes 
bsicas a respeito da ao que est por se desenrolar. Somos informados de que o Rei Cimbeline tivera dois filhos, ambos raptados quando ainda no bero, cerca de 
vinte anos antes, nunca mais vistos. A nica descendente do Rei, Imognia, filha e herdeira do trono, rechaa o assdio do filho da madrasta, um tipo grosseiro 
e imbecil, e casa-se, secretamente, com Pstumo, indivduo honrado, rfo criado junto  prpria Imognia, como protegido do Rei. Furioso ante a desobedincia da 
filha, Cimbeline (verdadeira nulidade do princpio ao fim da pea) expulsa Pstumo da Britnia, dando motivo para um lamento que  to caracterstico da Princesa:
No pode a dor da morte ser maior.*
[I..]
O detestvel Clten, filho da perversa Rainha-madrasta,  retratado como um gabola espalhafatoso. At o momento acima mencionado, a cena poderia estar-se desenrolando 
em qualquer corte corrupta, por exemplo, a de Jaime I, benfeitor de Shakespeare. Ento, subitamente, somos transportados a Roma, onde o malvolo Gicomo encontra 
Pstumo, exilado, e aposta no prprio poder (italiano) de seduzir Imognia. De maneira bastante improvvel, Pstumo aceita o desafio, que se baseia no conceito que 
Gicomo tem das mulheres em geral: Se comprardes carne de mulher  razo de um milho a draema, no
* Gmktinc, R da Britnia. Traduo e Notas de Jos Roberto O"Shea. So Paulo: Mandarim,
20OO (no prelo). Todas as citaes referem-se a essa edio. [N.T.]
749
#HAROLD  BLOOM
sabereis como preserv-la do apodrecimento". Mal temos tempo de nos espantar diante da tolice de Pstumo, pois vemo-nos de volta  Britnia, onde a perversa Rainha, 
antepassada da mulher que, em Browning, mata por envenenamento, acredita ter descoberto uma poo mortal, destinada a Imognia, embora o lquido no passe de um 
sonfero, tendo sido manipulado, sensatamente, por um mdico desconfiado das intenes da - bvia - Madrasta Perversa.
O que, alm de Imognia, mantm o nosso interesse na pea s Shakespeare seria capaz de saber; eu, certamente, no sou. O maldoso Gicomo (papel que s o falecido 
Danny Kaye deveria desempenhar) surge na corte britana, calunia Pstumo a Imognia, dizendo-lhe que o marido lhe fora infiel em Roma, e se oferece a deitar-se com 
a Princesa, como vingana contra o marido. A essa altura, ciente da impacincia do pblico, Shakespeare faz o "mini-lago" mudar de ttica, depois que Imognia ameaa 
revelar a Cimbeline as intenes do visitante italiano. A platia fica, simplesmente, atnita quando Gicomo, ento, defendese, afirmando estar, por estima a Pstumo, 
apenas testando a fidelidade de Imognia. Como Imognia aceita, prontamente, a desculpa dada pelo patife, bem como os elogios exagerados que este faz a Pstumo, 
poderamos at supor ser Imognia uma tonta, ou que Shakespeare esteja confiante de que aceitaremos qualquer bobagem que ele nos oferea - o que quase chega a ser 
uma verdade. Temos, ento, a absurda estratgia do Cavalo de Tria, quando Gicomo pede a Imognia que guarde em seu quarto um ba, segundo ele, repleto de presentes 
valiosos para o imperador romano, mas que, na verdade, h de esconder o prprio Gicomo. Quando Imognia concorda com essa tolice, conclumos, erroneamente, sereia 
beia e burra, e concordamos, acertadamente, que o novo lema de Shakespeare poderia ser: "Absurdo, absurdo, oferecei-lhes sempre o absurdo!"
Antes de analisar o momento em que Gicomo pula para fora do ba e pe-se a examinar a bela adormecida e seus aposentos, cabe a seguinte pergunta: Shakespeare consegue 
convencer-nos nessa cena? O incidente remete-nos  plautina Comdia dos Erros. Ser Cimbeline, ento, um romance desvairado, semelhante  comdia ertica, to eficaz, 
Noite de
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CIMBELINE
Reis? Ningum, pelo menos depois de Swinburne, consideraria Cimbeline pea to importante quanto Noite de Reis, uma das doze, ou quinze, obras-primas shakespearianas.
Tudo em Cimbeline  extremamente problemtico, sem dvida, conforme a vontade do prprio Shakespeare. Gicomo e Clten so vilescmicos, Pstumo  um bobalho ingnuo, 
e Cimbeline  bastante cabea-dura para bem merecer a Rainha antiptica e m. J Imognia merecia pea mais condizente com sua dignidade esttica, mas Shakespeare 
parece por demais perturbado para conferir-lhe o contexto merecido, pelo menos nos dois primeiros atos. Apesar de cercada pelo grotesco, Imognia permanece absolutamente 
sublime. Levando a termo um experimento radical, Shakespeare estabelece, em Cimbeline, algo que pode ser visto como um novo tipo de teatro, difcil de ser identificado, 
pois as peas subseqentes no se assemelham a essa, e o teatro moderno nada tem de parecido com a superposio aqui observada, entre a dignidade esttica e o absurdo. 
Temos uma profuso de peas do Teatro do Absurdo, mas os protagonistas das mesmas costumam ser to grotescos quanto os contextos em que so inseridos, mesmo em Pirandello. 
A encantadora Imognia, por quem Hazlitt e Tennyson se apaixonaram, no  vivel em nossos palcos.
Shakespeare oferece-nos eloqente exemplo de anttese, no ato II, cena ii, em que a ao se localiza no quarto de Imognia: a jovem adormece lendo Ovdio, e Gicomo, 
como um palhao de caixa de surpresas, sai do ba, rouba uma pulseira do brao dela (sem que ela desperte!), e, exultante, faz um inventrio do aposento e da princesa 
adormecida. Percebe que a pgina do livro de Imognia est dobrada, exatamente, no trecho que descreve o episdio do estupro de Filomela por Tereu, mas, como "comediante", 
nada tem de estuprador ovidiano, sendo apenas um voyetir, que se limita a constatar: "Aqui, no seio esquerdo, cinco pontos, / Um sinal, com os pingos em vermelho."
Wilson Knight, redondamente enganado, comparava Gicomo a lago e Edmundo, leitura que parece se referir a uma outra pea, simbolicamente idealizada, e no a Cimbeline, 
de Shakespeare. Nada em Gi-
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como est alm da capacidade de qualquer dramaturgo jacobiano, inundado de viles de origem italiana. Na verdade, classificar Gicomo como Vilo-cmico"  superestim-lo,- 
lago e Edmundo so verdadeiros abismos de niilismo, e prestam-se a infinita reflexo. Gicomo  um tresloucado, como o ridculo e desagradvel Clten. Alguns crticos 
consideram-no esperto o bastante para enganar Pstumo, personagem que no  dos mais inteligentes, integrante de um grande conjunto de maridos que, em Shakespeare, 
so indignos das respectivas esposas. Diante das "provas" da suposta infidelidade de Imognia apresentadas por Gicomo, Pstumo toma-se pardia de Otelo, e o solilquio 
corn o qual ele encerra o segundo ato  interessante to-somente naquilo que possa refletir a conscincia do prprio Shakespeare. A fala tem algo contundente demais 
para Pstumo:
Ser que homens no podem ser gerados
Sem que as mulheres faam a metade
Do trabalho? Bastardos somos todos,
E o homem venervel, a quem pai
Chamei, andava sei l eu por onde,
Na hora em que fui gravado. Um cunhador
corn suas ferramentas fez-me falso,-
No entanto, minha me aparentava
Ser a Diana da poca, assim como
Minha esposa, hoje em dia, era sem par.
Oh! Vingana, vingana! O meu legtimo
Prazer ela impediu, e tantas vezes
Implorou-me abstinncia, com pudor
To rseo cuja afvel aparncia
Aqueceria at o velho Saturno,-
Cheguei a ach-la pura como a neve
Poupada pelo sol. Oh! Que diabo!
O macilento Gicomo numa hora -
No foi? - menos at - primeiro encontro?
Nem precisou falar, como um inchado
CIMBELINE
Javali da Germnia, gritou: Oh!
E a cobriu,- resistncia no achou,
Alm daquela que ele desejava
E que ela fingiria. Oh! Se eu pudesse
Em mim achar a parte da mulher -
Porque no h no homem propenso
Ao vcio, eu garanto, que no venha
Da parte da mulher,- seja a mentira,
Sabei,  da mulher,- a adulao
Veio dela,- a traio, dela tambm,-
Lascvia e pensamentos sujos, dela,-
A vingana foi dela,- e a ambio,
Cobia, ostentao, toda a arrogncia,
Os desejos ardentes, a calnia,
A volubilidade, mesmo todos
Os defeitos que um homem poder
Nomear, ou melhor, que s o inferno
Conhece, dela vm, parte ou inteiros,
Melhor dizendo, todos - pois, nem mesmo
Ao vcio so constantes, a toda hora
Trocando um vcio velho por um novo.
you escrever contra elas, detest-las,
E, tambm, maldiz-las,- no entanto,
De dio no h maior capacidade,
Que orar para que lhes faam a vontade.
Nem o diabo melhor vai castig-las.
[H.v.j
 impressionante ouvir do teimoso, embora probo, Pstumo diatribe como essa, com tantos excessos e contradies. Por que Shakespeare atribui a Pstumo um rompante 
to antiptico? Embora simplrio, o marido de Imognia  tido como homem digno, equilibrado, e merecedor de grande estima, bem como da esposa devota. Mais tarde, 
esse
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mesmo heri envia carta a Pisnio, seu criado, ordenando-lhe que mate Imognia.
Pelo que consta, no h como resgatar Pstumo, embora Shakespeare pouco se preocupe com isso. Meredith Skura, em brilhante estudo psicanaltico dos dilemas da pea, 
defende a tese de que Pstumo no  capaz de se encontrar como marido, enquanto no se encontrar como filho, com relao  famlia que perdera,  qual s tem acesso 
em sonho. Conforme aponta Skura, em Cimbeline, as identidades so bastante instveis ( exceo de Imognia, diria eu), talvez, mais do que em qualquer outra pea 
shakespeariana: "As exageradas complicaes em Cimbeline levam-nos a constatar, de modo mais marcante do que nunca, que a "realidade", em ltima anlise, est no 
extremo, e a verdade, no excesso". Sou sempre cauteloso diante de interpretaes freudianas da obra de Shakespeare, mas Skura psicanalisa com grande sensatez os 
dilemas da pea, e no a pea, em si, ou os personagens.
Cimbelme  pungente autopardia, em que voltamos a Rei Lear, Otelo,  Come"dia dos Erros e a uma dzia de outras peas, vistas agora atravs de lentes que distorcem 
a viso. Nossa tica fica de tal modo distorcida, que chego a aceitar a noo proposta por Skura, embora o infeliz Pstumo seja, a meu ver, irredimvel, seno em 
sua penltima fase, quando anseia pelo prprio fim, como meio de reparar a culpa de condenar Imognia  morte (condenao essa que jamais  levada a cabo). At mesmo 
o sagrado Shakespeare compromete-se, e redime Pstumo  custa da sensibilidade da platia. Mas  esse, exatamente, o preo da autopardia,- portanto, eu gostaria 
de reformular a questo do "excesso" em Cimbelme, chamando ateno para o autor, em si. O que pretendia Shakespeare, como dramaturgo, alcanar com a grande autopardia 
que  Cimbeline?
Pstumo no  divertido, nem mesmo como um ideograma. Shakespeare sabia que uma pea de teatro deve ser algo prazeroso,- no entanto, retrata Pstumo como personagem 
dorido, cujo nome se refere, ao
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CIMBELINE
mesmo tempo, aos fatos de ter sido arrancado do ventre da me agonizante e de ser o nico sobrevivente em sua famlia. O que Imognia v em Pstumo no nos  mostrado, 
mas se Clten  a alternativa... isso j nos diz o bastante. Em Cimbeline, Shakespeare  o maior inimigo de si mesmo,- parece cansado de escrever teatro. O miasma 
de fadiga e repulsa que paira em tomo das grandes tragdias e das peas-problema, em Cimbelme, ocupa posio central, onde Shakespeare no  capaz de matar uma 
segunda Cordlia, na figura maravilhosa de Imognia. Depois de escrever cerca de trinta e seis peas, Shakespeare ainda no esgotara a sua capacidade artstica, 
mas buscava um merecido descanso. Sobre Cimbeline, tanto faz dizer que nada funciona, ou que tudo funciona, pois a pea  uma grande elipse, em que muito  omitido,- 
Shakespeare pouco se importaria em suplementar o que faltava.
Ao contrrio do Rei, Pstumo no  uma nulidade, mas configura, por demais, uma autopardia, e, por isso, no podemos afirmar que Gicomo e Clten sejam pardias 
de Pstumo. O que implicaria parodiar o sei/por meio de uma regurgitao do esprito? A pergunta remete-me, novamente, ao solilquio de Pstumo. A exclamao "Oh! 
Vingana, vingana!" parodia Otelo, que  se torna, ele prprio, pardia do Nobre Mouro. Pstumo apresenta aqui sintomas de um mal ainda mais grave, quando quer descobrir 
em si mesmo "a parte da mulher", anseio este que faz pardia a Lear, que, em sua loucura, entrega-se  bysteria passio. Alguns crticos sugerem que Shakespeare ironiza 
os satiristas contemporneos, quando Pstumo, que no tem dotes literrios, jura, em seus escritos, vingar-se das mulheres: "you escrever contra elas, detest-las, 
/ E, tambm, maldiz-las". No pode ser por acaso que os que detestam e maldizem as mulheres so sempre os maridos, apaixonados, depravados ou loucos, cuja insanidade 
decorre do pavor de serem trados. Jamais temos a impresso de que o prprio Shakespeare sofra do mal que aflige Trilo, Otelo, Pstumo, Leontes e tantos outros. 
Contudo, na minha leitura, Pstumo denota certo grau de autopunio da parte do prprio autor.
A autopardia  uma defesa, e, como tal, no  fcil de ser categorizada. O Velho e o Mar est para Hemingway, assim como Cimbeline est para Shakespeare; as obras 
em que Faulkner faz pardia a si mesmo so
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inmeras. Por meio de uma retrica ufana, em Cimbeline, Shakespeare, de maneira chocante, parodia Joo de Gaunt, Henrique V e Faulconbridge, o Bastardo, atribuindo 
 Rainha m e a seu filho imbecil palavras que expressam o desafio que a Britnia faz a Roma. A Rainha, especialmente, revela uma autopunio da parte de Shakespeare, 
pelos arroubos patriticos de outrora:
A ocasio
Que a eles permitiu se aproveitarem De ns agora  nossa. Bem lembrai-vos, .    Senhor, meu soberano, dos reis vossos      .. ,   ,
Ancestrais, da bravura natural --- ---   - .    -   -
Da vossa ilha, tal parque de Netuno, Cercada e guarnecida em toda volta De intransponveis rochas e mar grosso, E de bancos de areia que ao invs De suportar os 
barcos inimigos Tragavam-nos at o mastro grande. Csar uma conquista fez aqui; No fez aqui, porm, sua bravata De "vim, vi e venci". com embarao (Primeiro que 
sofreu) das nossas orlas Foi corrido, batido duas vezes,- Seus navios (brinquedos inocentes) Em nossos tenebrosos oceanos, Como cascas de ovos sobre as ondas
Jogavam, e quebravam-se nas rochas,- Feliz, o singular Cassibelano, Que esteve a ponto (Oh! fortuna impura!) De a espada de Csar dominar, Fez acender em Lud fogos 
de jbilo, E os britanos marchar com destemor.
[Ill.i.]
7M
CIMBELINE
"[P]arke de Netuno"  um pouco demais, e os parnteses da Rainha revelam o absurdo do trecho como um todo. A idia da frota romana quebrando como cascas de ovos 
 algo grotesco, e a ironia de Shakespeare transparece no verso final: "E os britanos marchar com destemor". Na cena seguinte, Shakespeare prossegue em tom custico, 
quando Pisnio, fiel criado, mostra-se chocado ante a ordem de Pstumo: executar Imognia, assim que ela inicie a jornada at Milford Haven, local de um suposto 
encontro com Pstumo. Porm, sempre que Imognia fala, a autopardia  interrompida e voltamos a ouvir a linda voz que reinventou o humano:
Oh! Um cavalo alado! Ouves, Pisnio?
Est em Milford Haven. L, e diz-me
A que distncia fica. Se um sujeito,
Por negcios mundanos, percorrendo
Este trajeto leva uma semana,
No voaria at l eu num dia?
Ento, leal Pisnio, que como eu
Anseias por rever o teu senhor,
Que anseias - Oh! devo me conter -
No, nem tanto quanto eu - sim, tu que anseias,
Embora com menor fervor - Oh! No,
No como eu,- o meu vai alm do alm,-
Fala, fala depressa - conselheiro
Do amor deve os ouvidos entupir,
E asfixiar a audio - a que distncia
Daqui fica o bendito Milford Haven?
Conta-me, no caminho, como Gales
Teve a sorte de herdar tal santurio.
Mas, primeiro, fugir como daqui?
E o lapso que aqui causar nossa ausncia,
Como explicar,- primeiro, sair, como?
Por que buscar escusas antes do ato?
Mais tarde deste assunto trataremos. "
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"P*
CIMBELINE
Por favor, fala logo, quantas milhas A cavalo faremos em uma hora?
[III..]
Quem pode ouvir tais versos sem se apaixonar pela personagem? No entanto, so sombrias as implicaes: clamar por Pgaso  arriscar-se ao destino de caro, e a fala 
dessa mulher, perdidamente apaixonada, vai de encontro ao terrvel solilquio de Pstumo, que ainda reverbera em nossa memria. com a ida de Imognia, supostamente, 
ao encontro de Pstumo, Shakespeare, na metade de pea, presenteia-nos com um magistral coup de tbtre, transportando-nos ao Pas de Gales, onde nos vemos diante 
de uma caverna habitada pelo intrpido Belrio e seus dois filhos adotivos, os prncipes Guidrio e Arvirago, raptados na infncia,- os trs aparecem em cena com 
as novas identidades, respectivamente, Morgan, Polidoro e Cadval. Morgan exalta a glria da vida de caador, prefervel  de nobre da corte e  de soldado, que tanto 
o fez sofrer, mas os jovens mostram-se tristonhos, ansiosos por uma vida de poder e luta. Polidoro, ignorando ser o herdeiro da Britnia, denuncia, veementemente, 
as diferenas entre a velhice e a juventude:
Talvez seja a melhor, mesmo, esta vida, Se uma vida tranqila for melhor,- E mais amena a ti, que conheceste Outra mais dura. Em tudo  condizente
corn essa rigidez da tua idade, Mas, para ns,  cela de ignorncia, Viajar sem jamais sair da cama, Priso do devedor, cujos limites No ousa ultrapassar.
[IH.iii.]
A imagem de um devedor encarcerado  um tanto sombria para o filho de um rei, e tem aqui a pungncia da v fantasia de um rfr, O
irmo caula, Cadval,  ainda mais contundente, ao no idealizar a vida de caador:
Quando tivermos Tua idade, do que ns falaremos? Quando ouvirmos bater a chuva e o vento No sombrio dezembro, de que modo, Nesta caverna fria, passaremos Nossas 
horas geladas? Nada vimos.
-    Somos feras: astutos qual raposa No encalo de sua presa, belicosos Como lobo, na busca de comida. Perseguir o que voa  nosso brio,- Nossa gaiola em coro transformamos, 
Como o pssaro preso, em liberdade, Cantamos servido.
[IH.iii.]
Suponho que tais lamentos sejam interessantes, antes de mais nada, porque interrompem o fluxo da autopardia. A amargura de Morgan, na resposta dada aos jovens, 
revela a longa observao de Shakespeare no que tange  podrido da cidade e da corte, tanto com respeito  sua prpria experincia como  de Southampton:
Mas, como falas!
Se sentisses a usura da cidade
Em tua prpria carne,- o protocolo
Da corte, to difcil de evitar
Como de obedecer, cuja escalada
Ao topo  queda certa, ou to instvel
Que o medo de cair  como a queda,-
A tribulao da guerra, fadiga
Que parece buscar pelo perigo
Somente para obter a fama e a glria, - 
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#HAROLD   BLOOM
Que na prpria busca levam  morte, A um infame epitfio a registrar Um nobre ato. No, no, muitas vezes, Merecemos o mal, fazendo o bem,- Pior, ante a censura, 
nos curvamos. Ah, meus jovens! O mundo pode em mim Ler esta histria. Trago no meu corpo As marcas das espadas dos romanos,- Minha fama era igual  dos melhores. 
Cimbeline por mim tinha afeio E quando se falava de soldado, Meu nome sempre estava ali por perto. Eu era, ento, qual rvore, com galhos Carregados de frutos,- 
mas, na noite, Uma tormenta, ou roubo, dai-lhe o nome Que quiserdes, na terra derrubou Minhas frutas maduras, at mesmo Minhas folhas,- fiquei exposto ao tempo.
[IH.iii.]
No trecho acima, em que constatamos as observaes de Shakespeare, acumuladas ao longo de toda a vida, a autopardia foi expurgada. Sendo o prprio Shakespeare um 
usurrio, vemos aqui indcios de um sentimento de culpa: "Se sentisses a usura da cidade / Em tua prpria carne". A fala, como um todo,  de uma sutileza maravilhosa: 
"[...] o protocolo / Da corte, to difcil de evitar / Como de obedecer". A sabedoria da anttese, com uma das mos, oferece algo e, com a outra, toma de volta:"[...] 
o medo de cair  como a queda",- "a fama e a glria, / [...] na prpria busca levam  morte",- "merecemos o mal, fazendo o bem". Belrio-Morgan, ao contrrio de 
Imognia, no possui um interior; portanto, a reflexo aqui expressa s pode ser a do prprio autor. Por mais amveis que sejam os trs caadores galeses, Shakespeare 
a eles confere pouca individualidade, e a terceira cena do terceiro ato  sempre um surpreendente gesto teatral.
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CIMBELINE
A quarta cena, ainda mais sutil,  centrada em Imognia. Tendo lido a terrvel carta de Pstumo a Pisnio, que contm a ordem de mat-la, Imognia revela impulsos 
suicidas, mas recupera-se logo, e concorda com o plano que expressa mais uma autopardia shakespeariana: a notcia de sua morte ser levada a Pstumo, e, disfarada 
de rapaz, ela buscar trabalho como pajem de Lcio, general romano, a quem Cimbeline negara o pagamento de tributos. E mais: Pisnio entrega a Imognia a poo preparada 
pela Rainha m, dizendo-lhe tratar-se de remdio contra enjo e indigesto, na verdade, um forte sedativo. Shakespeare sobrecarrega-nos com os desdobramentos do 
enredo, mas o faz com propsito; para melhor conhecermos Imognia,  preciso que a jovem reencontre os irmos, garantindo assim o tema da reconciliao familiar 
subjacente a Cimbeline. A meu ver, a complexidade do enredo, crescente, espantosa, desde esse momento at o fim da pea, tambm constitui uma autopardia, visto 
que, depois de Cimbeline, Shakespeare parece to entediado com a questo de enredo quanto com a de caracterizao. O traado de Conto do Inverno  bem mais simples, 
e  Tempestade, praticamente, no tem enredo.
A partir do momento em que Imognia se veste de homem, Cimbeline explode em excessos. O infame Clten parte para Milford Haven, maldosamente trajando roupas de Pstumo, 
decidido a matar o rival e violentar Imognia. Enquanto isso, em frente  caverna de Belrio, a jovem encanta-nos, com uma de suas melhores falas:
Vejo que vida de homem  penosa. Estou exausta, e agora h duas noites Fao o cho minha cama. Adoeceria, Sem minha deciso. O Milford, quando Pisnio da montanha 
te mostrou, Estavas ao alcance da viso.  Jpiter, refgio sempre foge Ao infeliz que busca algum abrigo. Dois mendigos disseram-me que errar O caminho era coisa 
impossvel.
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Pode o pobre mentir, que tanto sofre, Sabendo do castigo? Sim, sem dvida, Se rico raramente diz verdade.
Mentir face  abundncia  bem mais grave Do que em meio  penria, e a falsidade Nos reis  bem pior que nos mendigos. Meu caro senlibr, s um dos infiis. Agora 
penso em ti e no sinto fome, Quando antes por comida desmaiava. Mas o que ser isto? Eis uma trilha. Algum pouso selvagem. E melhor No chamar,- no atrevo-me a 
chamar,- Mas, antes de vencer a natureza, A fome a faz bravia. Fartura e paz Sempre geram covardes,- a escassez E a me da fortitude.  de casa! Se for civilizado, 
ento, que fale,- Se for selvagem, roube ou d. Ol! Ningum responde? you entrar, ento. A espada sacarei,- se meu inimigo Temer espada tanto quanto eu, No vai 
sequer olhar para esta aqui. Dai-me, cu, inimigo bem assim!
[IH.V.]
E notvel a elegncia dessa passagem, que melhor conviria a um texto superior ao de Cimbeline, to sobrecarregado de pardia,- no entanto, sempre vale lembrar, a 
pea jamais parodia Imognia. A suave ironia da situao em que se encontra a jovem, capaz de manter-se charmosa mesmo sob presso,  dirigida, principalmente, a 
ela prpria, embora no poupe o marido, o pai e os homens em geral. O mais extraordinrio aqui  a tonalidade da fala,- Imognia possui a nica voz individualizada 
na pea. O verso final -"Dai-me, cu, inimigo bem assim!"-, referindo-
762
CIMBELINE
se a si mesma,  o melhor momento de comicidade em Cimbeline. Felizmente, na cena seguinte, Imognia alegra-se, e, juntamente com ela, alegra-se a platia. Sabemos 
que ela reencontra os irmos, embora estes sequer saibam que "o jovem" diante deles  mulher. Shakespeare, finalmente, exercendo toda a sua fora criativa, escreve 
corn grande sugestividade, criando o momento em que os trs irmos declaram amor uns aos outros, aproximando-se da verdade. A homenagem que Imognia presta  estirpe 
dos irmos refora a polmica permanente contra a nobreza, subsentido surpreendente (e eficaz) em Cimbeline:
Grandes homens, vivendo em uma corte Limitada conforme esta caverna, Conscientes e virtuosos, que desprezam Os presentes vazios da adulao, No seriam mais nobres 
que estes dois. Que os deuses me perdoem, eu mudaria De sexo, para ser-lhes companheiro, J que Leonato  infiel.
[III.v.]
A fala no expressa, absolutamente, um encmio  plebe,- e a mantm distante de desejos incestuosos. Quando chegamos ao quarto ato, Shakespeare parece ter recuperado 
o equilbrio e, embora os dois ltimos atos sejam ainda mais barrocos e pardicos do que os trs primeiros, a amargura  menos evidente.
A platia respira aliviada, quando Polidoro-Guidrio, primognito de Cimbeline, corta a cabea de Clten, e sada, condignamente, o vilo ridculo:
corn a espada
Que ele prprio brandia ao meu pescoo,
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#HAROLD   BLOOM
Decepei-lhe a cabea. you jog-la No riacho que passa atrs da pedra, Para que chegue ao mar e conte aos peixes Que ele  Clten, o filho da rainha. Pouco me importo.
[IV.ii.]
S mesmo o fato de o autor da execuo ser herdeiro do trono da Britnia permite a Shakespeare a ousadia de criar uma situao em que o filho de uma rainha  decapitado, 
e a cabea atirada aos peixes. No fosse o executor um prncipe, supe-se que o ato incomodasse o censor jacobiano. O corpo de Clten, sem a cabea, vestido com 
roupas de Pstumo, servir para um grande momento cnico, quando Imognia desperta do estado letrgico, e acredita estar ao lado dos restos mortais do marido.  
estranho que Imognia confunda a anatomia de Clten com a do esposo, mas, a bem da verdade, ela est em estado de choque. Em desespero,  levada por Lcio, general 
romano, e s voltar a falar durante a longa cena de mltiplos reencontros que conclui a pea.
Momentos antes, julgando-a morta, os irmos cantam a cano que talvez seja a mais bela de todas as que constam das peas shakespearianas:
GUIDRIO
No temas o calor do sol,
Tampouco a fria do inverno.
Teu dever na Terra findou,
Aceita a paga e volta ao eterno.
Nobres jovens iro, sem d,
Como servos voltar ao p. ARV1RAGO
E no temas o poderoso,
Ests bem alm dos tiranos.
Vestir, comer, no fiques cioso,
P"ra ti, junco e carvalho so manos.
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CIMBELINE
Coroa, saber, cincia, sem d,
Vai tudo, um dia, voltar ao p. GUIDRIO
No temas raio nem relmpago. ARVIRAGO
Nem o trovo que treme tanto. GUIDRIO
No temas calnia em teu mago. ARVIRAGO
Ests alm do riso e pranto. GUIDRIO e ARVIRAGO
Os jovens amantes, sem d,
Vo, contigo, voltar ao p. GUIDRIO
Exorcista no amole a ti. ARVIRAGO
Nenhum feitio encante a ti. GUIDRIO
Alma penada poupe a ti. ARVIRAGO
Nada de mal se chegue a ti. GUIDRIO e ARVIRAGO
Seja tua paz bem abrigada,
Seja tua tumba venerada!
[IV.ii.]
Embora belssima, a elegia  das mais melanclicas, sendo o refro - "no temas" - o nico consolo para a morte. Certa vez, uma aluna disse-me que, para ela, a existncia 
de Cimbeline justificava-se apenas por essa cano. Concordo que seja esse o ponto alto de um texto to estranho,- a cano serve, tambm, como indicao do etbos 
de Cimbeline, a meu ver, sombrio e niilista, semelhante, nesse aspecto,  Elegia Fnebre para Will Peter, de autoria de Shakespeare, composta cerca de dois anos
mais tarde, embora, infelizmente, com muito menos esplendor esttico.
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#HAROLD   BLOOM
Uma vez que Cimbeline, como Rei Lear, leva-nos de volta  era da antiga Britnia, atitudes crists quanto  imortalidade so irrelevantes, embora eu no saberia
dizer em que peas shakespearianas tais atitudes aparecem de modo decisivo. Sendo a cano "No temas" grandiosa demais para o contexto em que se insere (afinal, 
Imognia apenas dorme), ouo, na mesma, claramente, a atitude do prprio Shakespeare com relao  morte, e considero-a o ocus classicus shakespeariano sobre esse 
tema. Os dois maiores valores para Shakespeare so a personalidade e o amor, ambos extremamente equvocos, e aqui, como tudo o mais, viram p. O poema oferece um 
consolo soturno, mas a sua extraordinria dignidade esttica  o nico conforto que podemos buscar, ou encontrar, em Shakespeare.
A ao toma-se um pouco menos triste na terceira cena do quarto ato, quando Cimbeline  informado de que a Rainha se encontra seriamente enferma, em depresso ante 
o desaparecimento do filho, e na cena seguinte, quando Belrio e os dois prncipes (ainda no reconhecidos como tal) juram aliana aos compatriotas britanos, na 
batalha contra os invasores romanos. Sempre que Pstumo surge em cena, fico deprimido, sendo ele especialmente bobo no solilquio que abre o quinto ato, ao contemplar 
o falso "pano ensangentado" a ele enviado por Pisnio, como prova da execuo de Imognia:
Sim, pano ensangentado, you guardar-te, Pois, um dia desejei-te desta cor.  maridos, se cada um de vs Segusseis este curso, quantos no Matariam, por deslizes 
to pequenos, Esposas mais virtuosas do que vs! Ah! Pisnio, criado que se preze No cumpre toda ordem, s as justas.  deuses! Se tivsseis castigado Minhas faltas, 
jamais teria vivido Para cometer tal ato; tereis, Ento, poupado a nobre e arrependida Imognia e atingido a mim, infausto,
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CIMBELINE
Merecedor da vossa represlia.
Levais alguns daqui por poucas faltas,-
 por amor, para no carem mais.
A outros permitis mal aps mal,
Mais graves cada vez, at que cheguem
A temer o mal, em seu prprio bem.
Vos pertence Imognia. Exercei vossa
Benta vontade e a mim abenoai,
Para vos obedecer. Aqui me trazem,
Do lado da nobreza italiana,
Para combater o reino de Imognia.
 bastante, Britnia, eu ter matado
Tua obra-prima,- no te ferirei.
Ouvi, portanto,  cus, o meu propsito.
you tirar este traje de italiano,-
E virar um britano campons.
(Livra-se a roupa)
Assim combato quem aqui me trouxe,- Assim morro por ti,  Imognia, Por quem minha vida  morte em suspiros,- Ento, desconhecido, sem causar dio nem compaixo, 
busco o perigo. Mais valentia em mim vo apontar Do que podem meus trajes revelar.  deuses! Dai-me a fora dos Leonatos! Para a vergonha do mundo, eu agora Lano 
a moda: mais dentro, menos fora.
[Vi.
Cito esse trecho como exemplo de inpcia, mas, tambm, para reabrir a questo da inacabada personalidade de Pstumo. O arrependimento de Pstumo  dbio, pois ele 
continua a acreditar que a esposa o traiu com Gicomo,- no entanto, o suposto crime, antes to vil, agora
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#HAROLD  BLOOM
C1MBELINE
integra uma classe de "deslizes to pequenos [...] poucas faltas". A indagao, novamente, ser: por que Shakespeare faz de Pstumo protagonista to dbio, to distanciado 
do pblico que, simplesmente, no nos comovemos com o seu reencontro final com Imognia? Incomoda ouvir que os deuses deveriam ter salvo Imognia para que ela 
pudesse se arrepender, mas irrita-me, profundamente, o fato de Pstumo, na figura do "britano campons", tomar-se pardia de Edgar. Gmbelme , sem dvida, uma espcie 
de vingana de Shakespeare contra as suas prprias realizaes prvias, e Pstumo ser melhor interpretado como agente crucial nessa autovingana pardica.
E a autopardia prossegue, no incio da segunda cena do quinto ato, em que Pstumo, disfarado de campons, derrota e desarma Gicomo, logo em seguida, saindo de 
cena; o momento  uma degradao do duelo entre Edgar e Edmundo. Gicomo, que no  Edmundo nem lago, acredita que a derrota diante de um simples campons  castigo 
por ter caluniado Imognia, e comea a se regenerar. Quando Belrio, os prncipes e Pstumo revertem uma situao de retirada dos britanos, resgatam Cimbeline e 
esmagam os romanos, percebemos que tudo pode acontecer, mas Shakespeare ainda consegue nos surpreender, embora a sua originalidade, nessa nica ocasio, constitua 
uma recompensa equvoca, em termos estticos. Pstumo, propositadamente, agora vestido de romano,  capturado e aguarda a prpria execuo, cheio de sentimento de 
culpa. Adormece na priso, e Shakespeare o agracia com uma dupla viso, primeiro, da famlia perdida, depois, de Jpiter, montado em uma guia, disparando raios 
contra os espectros da famlia de Pstumo. S mesmo Wilson Knight, com a generosidade de sempre, esboou uma defesa esttica dessa cena: disse-me, certa vez, que 
no apreciar os espectros e Jpiter era no entender Shakespeare. Wilson Knight era um grande crtico, alm de shakespeariano devoto, o que me fez reler a cena incontveis 
vezes, tentando convencer-me de que a mesma no  to ruim, mas, na verdade,  pssima - a meu ver, propositadamente. No fao idia por que Shakespeare aqui se 
utiliza de versos to sofrveis. Vejamos, por exemplo, um dos "irmos espectros", exaltando Pstumo:
PRIMEIRO IRMO
Quando cresceu e um homem  se tornou,
Na Britnia no havia
Quem pudesse com ele competir,
Outro homem no cabia
Nos olhos de Imognia, e quem melhor
Seu valor julgaria?
[V.iv.]
A estrofe bem poderia constar da minha predileta antologia de maus versos, TheStuffed Owl, e s pode ser pardia de uma pardia. A bufonaria irrompe em Shakespeare, 
e Jpiter desce dos cus, entoando uma melodia verbal que estabelece um nadir em termos de epifanias divinas:
Espritos das baixas regies,
No mais nos ofendeis. Ousais, fantasmas,
Acusar quem comanda estes troves,
Que vm do cu, destruindo tudo mais?
Ide, sombras do Elseo, e descansai
Sobre vossos jardins de eternas flores.
No vos perturbeis com casos mortais,
No  vosso dever,- so minhas dores.
A quem amo, castigo,- assim, meu prmio
No atraso tem mais gosto. Escutai bem,
Vosso deus ergue o filho agora estranho:
Ser feliz,- pesares j no tem.
Em seu nascer brilhou a minha estrela,
E em meu templo casou. Levantai, ide.
E, quanto a Imognia, you faz-la
Sua feliz mulher, ningum duvide.
Colocai-lhe esta placa sobre o peito,
Pois nela eu gravei o seu destino.
(Entrega aos espectros uma placa, cfue estes colocam sobre o peito de Pstumo.)
Parti! Queixas de vs no mais aceito,
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No quereis me levar ao desatino. Sobe, guia, ao meu palcio cristalino.
[V.iv.]
E impossvel que Shakespeare, com seu ouvido extraordinrio, no detectasse o absurdo desses versos. Trata-se, a bem da verdade, de um dilema insolvel, se insistirmos 
em levar o trecho a srio. Mas, com certeza, temos aqui uma escancarada pardia  descida do deus exmacbina, e, como tal, devemos entender a cena. Ao despertar, 
Pstumo encontra uma mensagem proftica, com promessa de boa sorte, e reage  mesma parodiando Teseu, em Sonho de uma Noite de Vero-.
Ainda  sonho, ou ento, ser loucura, Ou mesmo ambos, ou nada,- ou carece De sentido, ou possui algum sentido Que o sentido no tem como explicar. Seja o que for, 
parece a minha vida,- you conserv-lo, at por simpatia.
[V.iv.]
Shakespeare no consegue deter a autopardia,- vemo-nos, ento, de volta a Medida por Medida, em que o jovial Pompeu, alcoviteiro promovido a assistente de carrasco, 
exultante, informa a Bernardino que o machado est no cepo. Aqui, um carcereiro falastro informa ao mais que cordato Pstumo que a forca no tarda:
E uma conta alta, senhor. Mas, o consolo  que nada mais pagareis,- no mais temeis as contas da taverna, que tantas vezes perturbam a despedida, embora tenham alegrado 
o encontro. L entramos desfalecidos de fome,- de l samos cambaleantes de bebida, aborrecidos por havermos pago demais, aborrecidos por termos bebido demais, com 
bolsa e crebro vazios,- o crebro nos parece pesado, por estar leve, a bolsa tanto mais leve, livre do peso. Desse paradoxo estareis em breve livre. Oh! Que caridade
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CIMBELINE
pode um centavo de corda fazer! Num instante, liquida contas de milhes. No existe melhor livro-caixa, seja de contas passadas, presentes ou futuras. Vosso pescoo, 
senhor, ser pena, livro e contador,- tudo estar quitado.
[V.iv.]
A autopardia compulsiva no  encontrada em qualquer outro texto shakespeariano, mas, em Cimbeline, passa dos limites. Shakespeare no se contm, e permanece a 
questo crucial: por que  aqui a autopardia implacvel? Na quarta cena do quinto ato, Pstumo tem atuao pouco condizente com seu personagem,- parece falar pelo 
prprio Shakespeare, ao dizer ao carcereiro que deseja a morte. Pouco antes de ser levado da priso, Pstumo enuncia a fala mais obscura da pea, considerada superficial 
por Samuel Johnson,- no entanto, a reverberao do trecho nos faz questionar a opinio de Johnson. Cito, mais uma vez, a passagem, devido  sua importncia:
Ainda  sonho, ou ento, ser loucura, Ou mesmo ambos, ou nada,- ou carece De sentido, ou possui algum sentido Que o sentido no tem como explicar. Seja o que for, 
parece a minha vida,- you conserv-lo, at por simpatia.
[V.iv.]
Shakespeare extrapola aqui os prprios limites de expresso, e discordo da posio de Johnson, que no leva em conta as palavras: "you conserv-lo, at por simpatia". 
Atravs de Pstumo, ouo Shakespeare sugerir que a ao da nossa vida  predeterminada, e que o melhor que podemos fazer  aceitar ("conservar") o que acontece como 
se houvesse sido realizado por ns, pelo menos, por uma questo de auto-simpatia (irnica). Trata-se de mais um momento incrvel, em que Shakespeare vai alm de 
Nietzsche.
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#HAROLD   BLOOM
A primeira cena do quinto ato de Cimbeline tem quase quinhentos versos, e compete com a cena final de Medida por Medida, em complexidade e em nmero de reencontros 
adiados ao longo de toda a ao. A rivalidade parece proposital, visto que a autopardia est sempre presente, e o moralismo s avessas constatado na concluso de 
Medida por Medida reverbera no desfecho de Cimbeline. Shaw, invejoso descendente de Shakespeare, reescreveu o ltimo ato da pea, intitulando-o Cimbeline Reacabada, 
mutilando, especialmente, a cena final. Imognia toma-se uma personagem feminina shaviana, irreconhecvel, e, muito embora, s vezes, o final de Cimbeline deixe-me 
um tanto ambivalente, prefiro tal sentimento  mutilao feita por Shaw. A cena final abre em tom de jbilo, com a notcia de que a Rainha, pardia de Lady Macbeth, 
teve um fim "terrvel, morrendo louca", conforme a Rainha Macbeth. No entanto, ao contrrio da grande personagem escocesa, a Rainha de Cimbeline morre afirmando 
jamais ter amado o marido.
So trazidos  cena os prisioneiros romanos, dentre os quais surgem Lcio, o pajem Fidele (na verdade, Imognia), Gicomo e Pstumo. Uma vez que Belrio e os prncipes 
constam entre os honrados vencedores britanos, esperamos, acertadamente, uma pletora de reencontros, reconciliaes e explicaes. Cimbeline complica a questo, 
ao apropriar-se do pajem Fidele. Enquanto o Rei e Imognia (disfarada) conversam  parte, Belrio e os irmos da jovem vem "[rejviver o que estava morto", mas 
no proclamam a descoberta. Shakespeare dirige a nossa ateno a Gicomo, que tudo confessa e de tudo se arrepende, com uma veemncia que nos faz sentir saudade 
de lago, quando desafia a tortura e se recusa a falar. O prolixo Gicomo, praticamente, reconta a pea inteira, e deixa de ser pardia de lago para ser pardia de 
coro. Mas a astcia dramtica de Shakespeare no o abandona: a queda de Gicomo demonstra o quanto podemos mergulhar, abaixo da grandeza negativa de lago, e ainda 
nos ver diante de um vilo. lago, assim como Hamlet e Macbeth, fica alm do nosso entendimento, mas Gicomo somos ns. Nossas bravatas e apreenses, nossa malcia, 
nossa vergonha, so as
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CIMBELINE
mesmas de Gicomo, que no  muito pior do que ns, e a quem Shakespeare quer poupar. Cerca de dois anos antes de Cimbeline, o autor, provavelmente, assistiu  montagem 
da obra-prima de Ben Jonson Volpone, em que Jonson, sempre moralista, choca-nos (pelo menos a mim), ao punir, com grande crueldade, Volpone e Mosca, dois encantadores 
calhordas. O perdo que Gicomo consegue junto a Pstumo, creio eu,  mais uma resposta bem-humorada de Shakespeare  ferocidade tica de Jonson.
Temos, novamente, autopardia quando Pstumo esbofeteia Imognia, exatamente no momento em que ela tenta revelar-lhe sua identidade, remetendo-nos  cena em que 
Pricles empurra Marina, no incio do reencontro dos dois. Pstumo (sem dvida, o heri shakespeariano mais enfadonho), finalmente, fala com eloqncia, quando 
reconhece e abraa a esposa:
Fica a,
Uma fruta, at que a rvore perea.
[V.vi.]
At mesmo Cimbeline  agraciado com uma fala memorvel, quando os trs filhos lhe so restitudos ao mesmo tempo:
Quem sou eu?
Me, dando luz a trs? No houve me
Mais feliz no parto.
[V.vi.]
O perdo, amplo e irrestrito, concedido por Cimbeline a todos os prisioneiros romanos  conseqncia natural da alegria do Rei. Mas Shakespeare, aparentemente, incapaz 
de sustar a autopardia, aqui, como no fim de Medida por Medida, confunde-nos com o gesto seguinte de Cimbeline, que tanto reduz a pea a uma situao tola, justificando 
a irritao de Samuel Johnson. Depois de derrotar o Imprio Romano, em batalha sangrenta, ao fim de uma guerra provocada pela sua recusa
773
#HAROLD  BLOOM
de continuar a pagar tributo a Roma, Cimbeline, surpreendentemente, declara que, em todo caso, pagar o tal tributo! Aps mostrar-nos a coragem e as proezas de Pstumo, 
Belrio e os prncipes no campo de batalha, Shakespeare, em uma inverso falstaffiana, repete: "Ento, isso  honra?" Depois disso, chegamos a nos perguntar se sobre 
a fala final de Cimbeline no paira ainda mais ironia:
Louvemos ns os deuses! Que de nossos altares abenoados Subam, em espirais, nossos incensos, At suas narinas.
[V.vi.J
O que, exatamente, os incensos "em espirais" das nossas oferendas louvam aos deuses? Rei Lear  pea paga destinada a um pblico cristo, e desfaz todo e qualquer 
consolo, pago ou cristo. Cimbeline, mais pardia do que romance, ameniza os reencontros e as reconciliaes finais, com cautela. Pea alguma de Shakespeare, nem 
mesmo Medida por Medida ou Timo de Atenas, mostra-nos o dramaturgo to alienado de sua arte, como  o caso de Cimbeline. Trilo e Cnssida pode ser mais "azeda", 
mas aqui temos a impresso de estar confrontando uma enfermidade de esprito, da parte do autor, semelhante ao mal que permeia Hamlet. Por isso,  o contexto de 
Cimbeline to inadequado a Imognia, que merece pea superior. Shakespeare no deixa de ser grande, nem mesmo em Cimbeline, mas aqui ele mal pode tolerar, ou perdoar, 
essa grandeza.
774
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CONTO DO  INVERNO
Aps a "automutilao esttica" observada em Cimbeline, Conto do Inverno traz-nos de volta um Shakespeare com fora total, embora inteiramente diferente, com relao 
a todos os trabalhos anteriores. Considero Conto do Inverno a pea mais preciosa de Shakespeare depois de Antnio e Clepatra, superior, inclusive,  problemtica 
A Tempestade. Contudo, Conto do Inverno tem dificuldades bastante especficas, conseqentes da prpria originalidade da pea. bom seria se a crtica no tivesse 
denominado as ltimas peas de Shakespeare "romances", pois hoje no  mais possvel alterar tal nomenclatura. Aquilo que a noo de "romance" propicia, de um lado, 
frustra do outro, e Shakespeare, conforme venho insistindo, no escreve gneros dramticos estanques. A Megera Domada parece farsa, mas no ,- os dramas histricos 
de Falstaff so tragicomdias; e Hamlet, "poema ilimitado", , dentre as peas de Shakespeare, simplesmente, a norma, e no a exceo. Conto do Inverno, conforme 
Noite de Reis e Rei Lear,  outro "poema ilimitado". Jamais chegamos ao fim de uma grande pea shakespeariana, pois, cada vez que alcanamos uma nova perspectiva, 
surgem outros ngulos que nos surpreendem.
Conto do Inverno  um grande texto lrico, pastoral, alm de romance psicolgico, o drama de Leontes, um Otelo que  o lago de si mesmo. A maioria dos crticos tem 
a pea na conta de uma celebrao mtica da ressurreio e da renovao, hiptese, para mim, um tanto infundada, a
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#HAROLD   BLOOM
despeito de o texto conter uma profuso de matria potica capaz de gerar tal interpretao. Poeta algum, nem mesmo Shakespeare, pode evitar a destruio causada 
pelo tempo, e contos de inverno, por definio, prestam homenagem s idias de ciclo e mutao. Wilson Knight, tentando driblar o seu inveterado transcendentalismo, 
achava que a "divindade" da pea no era de natureza bblica nem clssica, mas "a vida em si", acertadamente, corroborando o naturalismo de Conto do Inverno, dotado 
de um escopo maravilhoso. Realismo  termo extremamente difcil de ser aplicado  literatura ficcional, mas, a meu ver, Conto do Inverno  obra muito mais realista 
do que Sister Carrie e Uma Tragdia Americana. Dreiser  mais romancista, ao passo que Shakespeare  o verdadeiro poeta das coisas como elas so.
Os idelogos no se acotovelam em tomo de Conto do Inverno, como o fazem com A Tempestade, de modo que tanto as produes quanto o comentrio crtico no costumam 
ser politizados, mesmo nestes tempos nefastos. Trago na memria o desempenho de John Gielgud, como Leontes, em Edimburgo, no vero de 1951, encarnando, com total 
maestria, a loucura do cime, ao mesmo tempo insinuando, com grande sutileza, que a parania tinha por base uma identificao excessiva com Polxenes. Minha memria 
auditiva ainda guarda ti som irritante das palavras que constituem a primeira fala de Leontes na pea, dirigida a Polxenes, supostamente, com o intuito de retardar-lhe 
a partida para o reino da Bomia.-
Deixai de lado os agradecimentos por algum tempo, para no-los dardes no instante da partida.
[I.H.]
O ponto crucial que a pea logo coloca em evidncia surge a partir de uma clebre afirmao de Polxenes, sobre a infncia compartilhada com Leontes:
*   Conto do Inverno. Traduo de Carlos Alberto Nunes. Vol. VII. So Paulo: Edies Melhoramentos, s.d. Todas as citaes referem-se a essa edio. [N.T]
776
CONTO  DO  INVERNO
ramos como dois cordeiros gmeos que um para o outro balavam, saltitantes ao sol, de to contentes. Permutvamos nossa inocncia apenas, inocncia. A doutrina do 
mal desconhecendo, nem sequer conceber ento podamos que algum a conhecesse. Se tivssemos continuado a viver dessa maneira, sem que nossos espritos ingnuos, 
pelo sangue levados, se exaltassem, com ousadia ao cu nos fora lcito responder: "No culpados", excetuando-se nossa herana mortal.
[I..]
O que seria essa "inocncia, apenas inocncia"? A "nossa herana mortal" s pode ser o Pecado Original. Ser que Polxenes sabe o que est dizendo? Presumivelmente, 
Polxenes quer dizer que, se pudessem se livrar do pecado primeiro, o qual o cristianismo insiste em lhes atribuir, embora a falta tenha sido cometida muito antes, 
por Ado, os dois amigos poderiam responder ao cu: "No culpados". Mas Shakespeare confere s palavras de Polxenes uma implicao que escapa ao prprio personagem, 
sugerindo, assim, a expiao do pecado de Ado. O afeto entre os dois jovens pr-adolescentes no parece ter marcado Polxenes, mas pode ser a causa da loucura de 
Leontes. Hermione, esposa de Leontes, em tom jocoso, diz a Polxenes: "No tireis concluses, que podereis / chamar-me e a vossa esposa de demnios", algo que 
Polxenes jamais faria, mas Leontes  capaz de perguntar  prpria esposa: "Convenceste-o?"* Ela, em seguida, graceja, com respeito a um flerte com Polxenes, 
mas a resposta de Leontes encerra uma ambigidade perigosa:
Isto , "Conquistaste-o?". [N.T.]
#HAROLD  BLOOM
Ora, foi quando trs azedas luas
mui demoradamente se finaram,
antes de eu conseguir que essa mo branca
se abrisse e confirmasse o teu afeto,
depois do que, em resposta, me disseste:
"Sou vossa para sempre".
[I..]
Em duas palavras detectamos uma leve mgoa - "azedas" e "finaram" -, e a imagem do aperto de mo que selou o noivado parece conflitar com a imagem da mo de Hermione 
estendida a Polxenes, em sinal de amizade. O aparte de Leontes d incio  verdadeira ao da pea:
Muito quente! Muito quente!
Unir as afeies de tal maneira,
 unir, tambm, o sangue. Estou sentindo
"tremor corais"; o corao me dana,
mas no  de alegria. O acolhimento
pode ficar de rosto descoberto,
condescender, at, em liberdade,
por generosidade e exuberncia,
mesmo, do corao. At a, concedo.
Mas baterem palminhas, beliscarem-se os dedos, como o fazem neste instante, permutarem sorrisos estudados, como em frente do espelho e, aps, suspiros soltarem, 
como toque de buzina que a morte propalasse do veadinho... Oh! Tal acolhimento -me contrrio, visceralmente, ao peito e ao sobrecenho, Vem, Mamlio,- s meu filho?
[I..]
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CONTO DO  INVERNO
Leontes, enlouquecido de cime,  verso mais apurada desse grande mal do que fora Otelo. Para Shakespeare, obcecado por questes de infidelidade conjugai, e autoridade 
mundial no assunto, talvez o cime fosse algo que o desequilibrasse. Proust, que aprendeu com Shakespeare a desenvolver e dominar um estilo prprio de comdia de 
cime, supera o mestre, no que diz respeito  comicidade dessa obsesso, mas no a sua loucura assassina:
Instinto, teus impulsos no alvo acertam,- possvel deixas o que nunca fora sequer imaginado: ajuda encontras at nos sonhos,- vais achar aliado no prprio irreal 
e ao nada te associas. Depois te tomas crvel, pois te juntas a alguma coisa. Agora fazes isso sem justificaes, e o sinto fundo, pois o crebro tenho envenenado 
e a fronte endurecida.
[I..]
"Instinto" aqui significa, ao mesmo tempo, desejo sexual e cime, ambos sentimentos fortes o bastante para estimular a profunda necessidade de Leontes de ser trado. 
Esse "nada" de que ele fala  a chave: o desejo reprimido e o medo de ser trado por Hermione com Polxenes so fundamentados em um sentido niilista do abismo do 
"nada" pessoal. S  nada aquilo que no , e o sonho permite o amlgama da impostura e da irrealidade. "Teus atos so meus sonhos", Hermione ouvir do marido. Na 
adorao niilista do nada, Leontes representa um avano com relao a lago e Edmundo. Shakespeare incita-nos, ao mesmo tempo, pavor de mergulharmos no inferno do 
cime e solidariedade, diante do sentimento que expressa Leontes por sentir-se ultrajado - muito embora seja ele o indivduo mais ultrajante da pea:
Bem, j se foram. Lama at os joelhos,- excrescncias acima das orelhas...
779
#HAROLD   BLOOM
Brinca, menino, brinca,- tua me tambm est brincando Eu tambm brinco, mas meu papel  to ignominioso, que acabar com vaia no meu tmulo. Como dobre you ter 
pateada e escrnio.
Vai brincar, rapazinho,- vai. J houve - - -- -
antes de mim maridos enganados, se nisso no me iludo, como
muitos deve haver, no momento em que isto falo,
que a esposa ao brao levam, sem que a mnima
suspeita de que houvesse ela as comportas
aberto, permitindo que o vizinho do lado pescar viesse no seu
tanque, sim, seu vizinho, o tal senhor Sorriso.
Serve, at, de consolo, imaginarmos
que outros homens tambm possuem portas
que se abrem como as minhas, sem que os donos
tenham vontade disso. Se os maridos
de esposas infiis desesperassem,
enforcar-se-ia, certamente, a dcima
parte da humanidade. No h cura
para esse mal. Influncia  de um planeta
lascivo, que revela seus efeitos
onde  predominante, parecendo-me
que a leste, a oeste, ao norte e ao sul tem fora.
Em concluso: no pode haver barreiras
que a entrada de um ventre impeam. Ficai certos
do seguinte: o inimigo elas permitem
sair e entrar com armas e bagagens.
Milhares dentre ns sofrem da doena,
sem que suspeitem disso.
[I.ii.j
 absolutamente contagiante a terrvel energia desse trecho,- Shakespeare confere  imaginao doentia de Leontes uma fora irresistvel.
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CONTO  DO  INVERNO
A insegurana e o ressentimento masculinos afloram, em veia cmica, na eloqncia das palavras:
[...] sem que a mnima
suspeita de que houvesse ela as comportas
aberto, permitindo que o vizinho do lado pescar viesse no seu
tanque, sim, seu vizinho, o tal senhor Sorriso.
[I..]
Em sua fria, Leontes verbaliza os lemas dos maridos ciumentos: "Influncia  de um planeta / lascivo" e "[N]o pode haver barreiras / que a entrada de um ventre 
impeam". O arroubo niilista do personagem, ao mesmo tempo frentico e extasiante, atinge o sublime, em uma litania de nadas:
E o falar baixo, nada representa? Encostarem-se as faces? os narizes? beijarem-se nos lbios? com um suspiro interromper o curso de um sorriso - prova infalvel 
de infidelidade - encontrarem-se os ps, andarem sempre " pelos cantos, quererem os relgios fossem menos morosos, que os minutos fossem horas, o dia, noite escura? 
E todo o mundo - menos eles, claro,- excetuando-se os dois - com catarata
nos olhos, para que pecar pudessem sem ningum notar... Tudo isso  nada? Ento  nada o mundo todo e tudo que nele se contm,- o cu  nada, Bomia  nada, minha 
esposa  nada, so nada todos esses nadas, caso for nada quanto passa.
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#HAROLD  BLOOM
O tom de voz de Leontes assume intensidade crescente, incomparvel mesmo em Shakespeare. Embora, na segunda cena do terceiro ato, Leontes haver de ceder  sensatez 
e ao arrependimento, , precisamente, o grande interesse que o personagem suscita junto a leitores e espectadores que d vida  primeira metade da pea. A segunda 
metade conta com Autlico e Perdita, mas at chegarmos ao litoral da Bomia (inveno criada para provocar Ben Jonson), Leontes  o foco de interesse de Conto do 
Inverno. Seja a loucura ou o niilismo o verdadeiro ponto de partida para a concepo do personagem, o mesmo  um dos grandes sacerdotes do "nada" em Shakespeare, 
sucessor digno de lago e Edmundo. Frank Kermonde, acertadamente, registra "o tormento de natureza intelectual de Leontes", comparado ao sofrimento inarticulado de 
Otelo. Leontes tem intelecto suficiente para tomar-se um niilista, mas por que Shakespeare haveria de conferir ao Rei da Siclia a dbia distino de ser o maior 
dos misoginistas do cnone dramtico? O conluio entre misoginia e niilismo  um dos maiores insgbts shakespearianos com relao  natureza masculina, tendo incitado 
determinados aspectos das especulaes mais ousadas de Nietzsche. Leontes inicia a sua diatribe mais veemente com as palavras "E o falar baixo, nada representa?", 
e prossegue, formulando mais dez perguntas retricas, at que a palavra nada ressurge, na dcima segunda indagao: "Tudo isso  nada?". A resposta apresenta-nos 
outros sete "nadas" em cinco versos:
Ento  nada o mundo todo e tudo
que nele se contm/ o cu  nada, Bomia  nada, minha esposa  nada, so nada todos esses nadas, caso for nada quanto passa.
Leontes, ele prprio um nada (eis, no fundo, seu grande temor), contempla algo que no existe, bem como o nada que existe. O conto do inverno criado por Shakespeare 
apresenta-nos uma mente invernal,
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CONTO  DO  INVERNO
incapaz de deixar de interromper a vida at que o choque provocado pela morte (real e aparente) traga essa mesma mente de volta  realidade. Lembro-me de Gielgud, 
lidando com o declnio do personagem e com a questo do arrependimento eterno, representando Leontes, no quinto ato com uma vivacidade cautelosa, que sugeria 
um indivduo temeroso de ser engolido, subitamente, por uma onda de nada. A despeito de um possvel homossexualismo reprimido em Leontes, o ponto-chave da loucura 
do cime do Rei  a questo da tirania, segundo os sditos de Leontes e o orculo de Apoio, em Delfos:
OFICIAL
Hermione  casta,- Polxenes, sem mancha,- Camilo, um sdito leal,- Leontes, um tirano ciumento,- seu inocente filho, legitimamente concebido,- e o rei viver sem 
herdeiro, se no for achado o que foi perdido.
[III..]
No deixa de ser interessante ver o cime e o niilismo metafsico como modalidades de tirania, mas ainda  preciso identificar a causa da loucura de Leontes. De 
acordo com Nietzsche, mais uma vez, seguindo Shakespeare, a relao causa e efeito  fico. Sendo o maior estudioso dos perigosos efeitos da imaginao, Shakespeare 
d um passo decisivo, indo alm do gnio proftico de Macbeth, com a fantasmagoria de Leontes. Onde existe o nada, tudo  possvel. Schlegel, incomodado com essa 
irracionalidade, pretendeu instruir Shakespeare quanto  omisso de algo capaz de provocar Leontes: "corn efeito, o poeta talvez pudesse indicar, sutilmente, que 
Hermione, embora casta, era por demais afetuosa no seu modo gentil de tratar Polxenes". Coleridge foi mais perspicaz ao afirmar que a descrio do cime de Leontes 
era "inteiramente filosfica", o que, para mim, quer dizer que Shakespeare lograra isolar a base metafsica do cime, .e., o medo que sentimos de no haver espao 
e tempo suficientes para ns. Proust, com muita elegncia, comparou a paixo do amante ciumento ao zelo do historiador da arte. A tirania de uma curiosidade insacivel 
torna-se uma
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#HAROLD   BLOOM
obsesso pelo que  possvel, onde tentamos rechaar nossa mortalidade, arriscando-nos a obter a terrvel imortalidade de Malbecco, de Spenser, cujo destino Shakespeare, 
certamente, havia considerado:
Morrer ele no pode/ morrendo, vive,
E de novas tristezas se alimenta,
A ele causadas pela morte e pela vida,-
Prazer dorido toma-se dor amena.
Eis que vive p"ra sempre, amante infeliz,
Detestado por todos e por si mesmo,-
Tanta amargura, tamanha vaidade,
Deformaram-no, a tal ponto, que ele
J no  homem,-  o Cime encarnado.- - - --
Na pea, a grande defensora "das leis e dos processos naturais"  a veemente e intrpida Paulina, que fica viva quando o infeliz Antgono  se torna vtima da mais 
clebre rubrica shakespeariana: Sai, perseguido por um urso. Antgono  uma das duas fatalidades provocadas pela insanidade de Leontes,- a outra  o jovem Prncipe 
Mamlio, herdeiro do trono. Hermione e Perdita, esposa e filha, sobrevivem, embora a questo da suposta morte de Hermione permanea ambgua, pois Shakespeare recusa-se 
a esclarecer o que se passou com a Rainha: se, de fato, havia morrido, posteriormente, ressuscitando, ou se fora escondida por Paulina, durante dezesseis anos. 
Visto que, durante todos esses anos, Leontes vive em sensatez e arrependimento, seria um tanto cruel que a existncia e proximidade da esposa no lhe fossem informadas 
- mas a questo  que o orculo de Delfos h de ser cumprido. Supostamente, Shakespeare desejava que o pblico - pelo menos, uma boa parte do pblico - acreditasse 
no milagre da ressurreio de Hermione, embora, no quinto ato, chegue a pr em dvida esse feito fantstico.
Supe-se que Shakespeare tenha aprendido, em Pendes, que uma nica cena de reencontro  o bastante, uma vez que o reencontro de
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CONTO  DO  INVERNO
Pricles e Marina causa tamanho impacto que anula a cena subseqente, da reunio com Tasa. Na cena final de Cimbelme, a pletora de reencontros chega a gerar tumulto, 
e vimos como, nessa pea estranha, Shakespeare  levado a recorrer  farsa. Para no ofuscar a cena do ressurgimento de Hermione, Shakespeare faz com que o reencontro 
de Leontes e Perdita seja narrado por trs nobres annimos, um dos quais insinua que o objeto dos cuidados de Paulina, ao longo dos dezesseis anos em que Hermione 
estivera, aparentemente, morta, era mais do que uma esttua:
Eu sempre tive comigo que Paulina escondia algum segredo muito importante, porque, desde o falecimento de Hermione, duas ou trs vezes por dia ela se dirigia sozinha 
para essa casa apartada.
[V.ii.]
Hermione, contemplando o semblante da filha, fala de maneira um pouco menos explcita, mas d a entender que no conhece a morte:
Pois devo te dizer que, tendo ouvido de Paulina que o orculo nos dera esperana de seres encontrada, deixei-me ficar viva, porque visse como isso acabaria.
[V.iii.]
Hermione (ou Shakespeare) esquece-se de que ela mesma ouvira o orculo,- contudo, o deslize sugere ter havido inmeras conversas entre as duas amigas, ao longo dos 
dezesseis anos de visitas duas ou trs vezes ao dia. E tpico em Shakespeare querer preservar, a um s tempo, a possibilidade de uma ressurreio e o ceticismo de 
que as coisas tenham assim ocorrido. Alimentando ambas as possibilidades, Shakespeare nos faz examinar, atentamente, as tribulaes de Hermione ao longo do segundo 
ato e nas duas primeiras cenas do terceiro (trecho da pea to negligenciado pela crtica), mesmo porque, como leitores, sentimo-nos aliviados quando chegamos ao 
litoral da Bomia - apesar dos ursos -
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#HAROLD  BLOOM
pois a insanidade de Leontes, embora jamais entediante, acaba por nos exaurir. Depois que Polxenes e o nobre Camilo, seguindo o conselho deste ltimo, fogem da 
Siclia, temendo pelas prprias vidas, a loucura assassina de Leontes apresenta-se reenergizada, com uma violncia retrica deveras assustadora:
Quo ditoso
me julgo por sentir-me verdadeiro!
Como as minhas suspeitas se confirmaml
Antes soubesse menos! Quo maldito
nessa felicidade!  concebvel
que uma aranha se esgueire para o copo
de que venha a servir-se uma pessoa
que, aps, o larga, sem que do veneno
sinta qualquer efeito:  que infectada
no lhe estava a conscincia. Mas se aos olhos
o nojoso ingrediente lhe apresentam,
e ver lhe fazem como usara o copo,
logo a garganta e os flancos se lhe estalam
sob esforos violentos. No meu caso,
bebi a aranha e a vi. De alcoviteiro
Camilo lhe serviu, serviu de cmplice.
H uma conjura contra minha vida,
contra a coroa. Ficam confirmadas,
assim, minhas suspeitas. Esse falso
vilo que eu empregava j se achava
contratado por ele,- descobriu-lhe
meus planos, entregando-me ao ridculo,
mais do que isso: em peteca transformando-me,
que,  vontade, eles todos sopapeassem.
[Il.i-]
Tendo Leontes ordenado a Camilo que envenenasse Polxenes, essa fala  ainda mais apavorante do que parece. A aranha no copo  algo
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CONTO DO INVERNO
surpreendente, mesmo se levarmos em conta a genialidade de Shakespeare na criao de metforas,- e a parania atinge o nvel de obra-prima, quando Leontes entoa: 
"No meu caso, / bebi a aranha e a vi". Leontes sorveu, em grandes goles, o vinho do cime, e a aranha no copo  o smbolo de sua loucura. O falecido William Seward 
Burroughs, em seu dito mais feliz, afirmava-, "parania  estar de posse de todos os fatos", ele prprio um indivduo que tambm teria visto a aranha no copo.
Em decorrncia do impacto causado pela morte do filho e o suposto falecimento da esposa, Leontes recupera a sanidade,- tal transio  a mais incrvel da pea, se 
no de toda a obra shakespeariana. At mesmo Gielgud pareceu-me ficar aqum do texto, quando, na segunda cena do terceiro ato, representou a sbita cura da parania 
de Leontes. O problema, do ponto de vista dramtico,  que Shakespeare investe demais na loucura de Leontes, que  se torna por demais convincente para ser curada 
de modo to sbito. Porm, vale lembrar, trata-se de um conto de inverno, uma velha histria recontada diante da lareira. Shakespeare espera que lhe concedamos a 
autoridade absoluta que condiz ao contador de histrias, e, talvez, ele (tanto quanto ns) ache o Leontes curado bem menos interessante do que o Leontes louco. Antes 
mesmo de podermos protestar contra essa possvel falha na textura dramtica da pea, somos transportados  costa da Bomia, onde Conto do Inverno alcana a sua verdadeira 
grandeza, com Perdita, princesa das pastoras, e Autlico, prncipe dos ladres.
Conto do Inverno  de uma amplitude extraordinria,- o fascinante Autlico, o mais adorvel dos escroques shakespearianos,  to essencial  pea quanto Leontes 
e Perdita. No sculo XIX, o crtico irlands Edward Dowden, pela primeira vez, utilizou o termo "romance" para classificar as peas do final da carreira de Shakespeare, 
termo ao qual permanecemos atrelados,- porm, no caso de Conto do Inverno, se adotarmos a perspectiva de Autlico, temos uma comdia romntica. E longa a tradio: 
segundo Homero, Autlico  o maior dos ladres, e, em
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#HAROLD  BLOOM
CONTO  DO  INVERNO
Ovdio, Autlico  filho de Hermes, deus mercuriano e trapaceiro. O Autlico de Shakespeare em muito contribui para enriquecer a tradio:  tanto ladro quanto 
menestrel, e so dele as magnficas canes da pea. Mais do que isso,  dotado de uma personalidade vital, singular, merecedora da aprovao de Samuel Johnson: 
"O personagem de Autlico  concebido com grande naturalidade e contundente representao". Eu no poderia dize-lo melhor, mas  sempre um prazer retomar um ponto 
destacado por Johnson, e, de incio, gostaria de salientar que, ao lado de Imognia e Caliban, Autlico  o personagem mais forte das peas escritas por Shakespeare 
em sua fase mais amadurecida. S nos deparamos com Autlico na segunda cena do quarto ato, em que ele surge, em todo o seu esplendor, cantando:
Quando os narcisos nascem no vale - Viva! - e a zagala corta a campina, Que belo tempo! - Ningum me fale -- A neve plida o sangue anima. O linho branco da sebe 
pende - Viva! - Que canto, o dos passarinhos! Se os apanhasse! Quem no me entende? Cerveja lmpida aos canequinhos... Canta a calhandra. Que melodias! - Viva! - 
Respondem-lhe o gaio e o tordo. Para mim cantam em minhas tias...
E ns no feno... Que dia gordo!
[IV.ii.]
E marcante o contraste entre Leontes e Autlico: Leontes simboliza
to-somente a palidez do inverno, enquanto, para Autlico, "A neve plida o sangue anima". Podemos detectar aqui uma imagem de faces plidas, invernais, assumindo 
tons corados, de vero, e a sutil transio de faces plidas ao linho branco que Autlico est sempre a furtar. Mas o grande contraste  entre as fantasias maldosas 
de Leontes, "espreitando pelos cantos", e Autlico rolando no feno com suas "tias", no vero,
i 
* J
ao som do canto dos pssaros. Autlico, menos bomio e mais um Villon ingls, em seguida a essa cano, declama o seu impetuoso credo, culminando com o grito "Uma 
presa!", quando percebe a presena do ingnuo campons, filho do pastor que adotara Perdita:
Negocio com camisas,-  quando o milhano faz o ninho, cuidado com as peas menores. Meu pai me ps o nome de Autlico... Tendo nascido ele, como eu, sob a influncia 
de Mercrio, foi tambm batedor de coisinhas sem valor. Os dados e as mulheres me deixaram deste modo, provindo toda a minha renda de roubos insignificantes. A forca 
e as varas so por demais poderosas na estrada larga do roubo. A idia de ser malhado ou enforcado constitui, para mim, verdadeiro pesadelo. Na outra vida no quero 
pensar nisso. Uma presa! Uma presa!
[IV.ii.]
Longe de ser um assaltante, Autlico odeia a violncia, e, feliz da vida, atribui aos dados e s mulheres a causa de ele andar mal vestido. Obtm seus proventos 
junto a ingnuos, e sente-se, naturalmente, muito bem no mundo. Batedor de carteira e vigarista, Autlico , tambm, vendedor ambulante de baladas, alm de negociar 
enfeites e badulaques femininos,- , ainda, cantador, como vemos nessa que  a sua melhor cano, na verdade, uma das melhores em toda a obra shakespeariana:
O linho  branco de neve, ao corvo o crepe no deve,- luvas de vrios matizes, mscaras para narizes, delicadas como rosas, para cutes melindrosas,- braceletes e 
colares e perfumes para os lares, coifas douradas, corpinhos -
* Isto , com"linho". [N.T.]
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#HAROLD   BLOOM
rapazes, que presentinhos! - alfinetes, boa tala para os vestidos de gala... Comprai-me logo, rapazes, quanto ora fordes capazes, sem deixar que vossas belas fiquem 
tristes e amarelas. Comprai! Comprai!
[IV.iii.]
Quem, na platia, pode resistir a um vendedor assim to entoado? Como vendedor de baladas, Autlico demonstra toda sua alegria:
BOBO
Que tens a? Algumas baladas?
MOPSA
Por favor, compra-me algumas,- gosto muito de baladas impressas, porque assim temos a certeza de que so verdicas.
AUTLICO
Aqui est uma de toada muito triste: Como a mulher de um usurrio deu  luz vinte sacos de moedas de ouro de uma s vez e como ela desejava comer assados de cabeas 
de vboras e de sapos.
MOPSA
E acreditais que isso seja verdade?
AUTLICO
Pura verdade,- aconteceu h um ms.
DORCAS
Deus me livre de casar com um usurrio.
AUTLICO
Vem citado aqui o nome da parteira, uma tal Mistress        *- Taleporter, e de cinco ou seis mulheres que estiveram presentes ao parto. Por que haveria eu de espalhar 
mentiras?
MOPSA
Por favor, compra essa.
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CONTO  DO   INVERNO
BOBO
Que seja, ento,- deixa essa de lado,- mas primeiro mostra-nos outras baladas. Depois compraremos alguma coisa mais.
AUTLICO
Aqui est outra, de um peixe que apareceu na costa, na quarta-feira de oitenta de abril, a quarenta mil braas acima da gua, e cantou esta balada contra o duro 
corao das raparigas. H quem diga que ele tinha sido mulher, que fora transformada em um peixe frio por ter querido trocar carne com quem lhe dedicava amor. Essa 
balada  muito triste e igualmente verdica.
DORCAS
E pensais que essa tambm seja verdadeira?
AUTLICO
Cinco juizes a subscreveram, havendo mais testemunhas para o caso do que eu poderia carregar.
[IV.iii.]
A carga de Autlico inclui o que h de mais exuberante em Shakespeare, parodiando os absurdos das baladas cantadas nas ruas da cidade. Como autor de canes satricas, 
Autlico  um pouco Shakespeare, deleitando-se com fantasias relacionadas s mulheres de usurrios (sendo o prprio Shakespeare um usurrio), e  metamorfose da 
"mulher que fora transformada em um peixe frio por no ter querido trocar carne com quem lhe dedicava amor". O trecho tem sabor especial para um pblico que, at 
esse momento na pea, sofre diante do vituprio ciumento de Leontes, que tanto critica os prazeres da carne, e que, portanto,  levado a apreciar a bondade (embora 
ladina) de Autlico. Mais tarde, quando troca de roupa com o Prncipe Florizel, como meio de auxiliar o Prncipe e Perdita a fugirem de Polxenes, Autlico merece 
ainda mais a nossa simpatia, e declara o seu etbos, ao estilo de Villon:
[...] O prprio prncipe est no ponto de realizar alguma patifaria, fugindo do domiclio paterno com as peias nos ps.   Se eu
"Clogs", isto , metaforicamente, Perdita. [N.T.]
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#BLOOM
rapazes, que pji
alfinetes, boa
para os vesj
Comprai-;
quanto
sem
fique
nestidade comunicar ao rei o -iero maior velhacaria -- mantenho coerente
[IV.iii.]
^   *- Benfica, Autlico equipara-se a
^ . como Paulina salva Hermione. O
j, no entanto, -nos bem mais simptico, viferimos o cmico ao tragicmico. Autlico j nascimento de Perdita e traz o Pastor e o Bobo, ^idas provas,  presena de 
Polxenes. Decepcionaaestino de Autlico, que volta a servir o Prncipe Florizel, jrnar-se honesto,- porm, anima-nos a constatao de que .1 Johnson estava certo: 
a natureza de Autlico, personagem oncebido com grande naturalidade", necessariamente h de falar mais alto, e ele h de fugir, e retornar aos furtos de lenis 
e  venda de suas baladas atrevidas.
Qualquer lista de cenas prediletas em Shakespeare deve incluir a quarta cena do quarto ato de Conto do Inverno*  um segmento extremamente longo (cerca de 840 linhas), 
iniciando com o mais belo flerte shakespeariano, segundo a tradio pastoral, em que Perdita e Florizel declaram e celebram sua paixo recproca. Esse ritual entre 
os dois enamorados  de uma beleza to extraordinria, e to vital aos aspectos mais sutis de Conto do Inverno, que merece minuciosa anlise.
Estamos em uma festa no campo, a celebrao da tosquia das ovelhas. Perdita, usando guirlanda de flores, faz o papel de Flora, antiga deusa italiana da fertilidade,- 
ou seja, a filha do Pastor (na verdade, princesa siciliana)  a figura central da festa. Desde o incio, Perdita remete-nos
* Na traduo de Nunes, trata-se da terceira (e ltima) cena do quarto ato. [N.T.]
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CONTO  DO  INVERNO
a Persfone - filha de Ceres (Demter) e Jpiter (Zeus) -, cuja histria Shakespeare conhecia muito bem, na verso de Ovdio. Raptada por Pluto e levada aos infernos, 
Persfone  resgatada por Ceres, que consegue garantir a liberdade da filha apenas durante a primavera e o vero. Conforme veremos, Perdita no se submeter a qualquer 
tipo de restrio imposta ao que chamaramos de sua aura mitolgica. Embevecido por ela, Shakespeare confere-lhe personalidade to marcante e diferenciada quanto 
as de Leontes e de Autlico. At mesmo Florizel, ao interagir com Perdita, toma-se um personagem vivido, algo que jamais ocorre com seu pai, Polxenes. Florizel, 
corn entusiasmo de amante, abre a quarta cena do quarto ato cumprimentando Perdita por transfigurar o prprio traje de Flora, e no por uma possvel transformao 
que o mesmo pudesse operar na bela jovem:
Essas vestes estranhas vos emprestam maior relevo s graas. No pastora, sois Flora emps de abril. Essa tosquia to lacre  reunio de belos deuses, dos quais 
sois rainha.
[IV.iii.]
As palavras "vos emprestam / maior relevo s graas" tm sutil conotao ertica, mas Perdita, por no gostar dos trajes usados por ela prpria e por Florizel nessa 
cena, no acata o elogio:
Meu gracioso
senhor, bem no me fica censurar-vos pelo vosso exagero. Sim, perdoai-me por falar desse modo. Mas vossa alta pessoa, adorno mximo do reino, abatestes com essas 
vestes rsticas, enquanto a mim, humilde rapariga, me enfeitastes qual deusa. Se esta festa no fosse constituda por loucuras,
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#HAROLD   BLOOM
CONTO  DO  INVERNO
sempre, de toda sorte, que os convivas, por hbito, digerem, eu corara por vos ver desse jeito, desmaiando, quero crer, se ao espelho me enxergasse.
[IV.iii.]
Dividida entre o sentimento de respeito pelo prncipe herdeiro da Bomia, irremediavelmente acima do seu nvel social, e o bom-senso de camponesa, Perdita expressa-se 
ambivalente diante da festa na qual deve desempenhar um papel central. Presentes  comemorao, encontramse Polxenes e Camilo, disfarados. Um dos dilogos mais 
memorveis e profundos em todo o cnone shakespeariano ocorre aqui, entre Perdita e Polxenes, no momento em que a jovem os sada, oferecendo-lhes flores:
POLXENES
Pastora - sois uma pastora linda -
muito de acordo com a nossa idade,
flores de inverno nos oferecestes. PERDITA
Senhor, quando o ano vai ficando velho,
sem ser a morte do vero ainda,
nem do trmulo inverno o nascimento,
as flores mais gentis so, to-somente,
cravo vermelho e goivo variegado,
a que muitos do o nome de bastardo
da natureza. Dessa espcie, o nosso
jardim silvestre nada ora apresenta.
Nunca procuro obter muda nenhuma. POLXENES
Por que, gentil menina, as desprezais? PERDITA
Por ter sabido que nas suas cores,
794
ao lado da criadora natureza a arte tambm influi.
POLXENES Que seja assim,-
mas em nada melhora a natureza, seno por meios que ela mesma cria. Assim, essa arte a que vos referistes, que ajuda a natureza,  uma arte feita por ela prpria. 
Assim, gentil menina, enxertamos num galho em tudo rstico alguma planta rara, vindo a casca de baixa espcie alimentar o broto de uma raa mais nobre. Essa arte, 
certo, corrige a natureza... no, transforma-a,- mas  uma arte que  a prpria natureza.
PERDITA
Tendes razo.
POLXENES
Enriquecei, portanto,
vosso jardim com goivos, sem lhes dardes
o nome de bastardos.
PERDITA
Jamais hei de
pegar do sacho para plantar uma muda sequer, tal como no quisera - se pintada estivesse - que este jovem me elogiasse por isso, declarando que a mim, por noiva, 
apenas, desejara. Aceitai estas flores: alfazema, hortel, segurelha, manjerona, e esta aqui, malmequer, que se recolhe com o sol, para com ele levantar-se tambm, 
cedo, a chorar. Flores so todas do meio do vero, prprias para homens
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#HAROLD  BLOOM
de meia-idade, creio. Sois bem-vindo.
(Ela lhes oferece flores.)
[IV.iii.]
Dizer, como o faz Polxenes, que a "arte  a prpria natureza" pode at ser chavo da Renascena, mas no  essa afirmao o que h de mais original, ou contundente, 
nesse trecho que vem a ser uma pardia do debate medieval, ao mesmo tempo, civilizada e cmica. Tampouco o ser a ironia de Polxenes, possibilitando  horticultura 
algo que pretende negar ao filho: "enxertamos num galho em tudo rstico / alguma planta rara, vindo a casca / de baixa espcie alimentar o broto / de uma raa mais 
nobre". O debate no  entre a natureza e a arte, mas entre a loucura de Leontes, agora curada, e o corajoso vitalismo de sua filha, que encarna o naturalismo herico 
encontrado em outros personagens shakespearianos, embora jamais de forma to vivaz e cativante. O cime paranico deu lugar ao triunfo da bondade exuberante, ao 
seu modo, to obstinada quanto a obsesso de Leontes. Perdita em muito se parece com o pai, e, sem dvida, Shakespeare deseja mostrar que a nobreza inata sempre 
h de prevalecer, assim como ocorre com Polidoro e Cadval, em Cimbeline.
E o naturalismo apaixonado da jovem transcende at a sua forte personalidade, parecendo falar em nome do prprio Shakespeare. Ao contrrio de muitos crticos, vejo 
Shakespeare mais do lado de Perdita do que de Polxenes, personagem que est mais para Ben Jonson do que para Shakespeare. Jonson, em seu extraordinrio poema que 
prefacia o Primeiro Flio, basicamente, afirma que, em Shakespeare, arte " a prpria natureza". A natureza, escreve Jonson, sente-se orgulhosa dos feitos de Shakespeare; 
no entanto, "A arte tambm tem a ver" com a grandeza de Shakespeare. Jonson pressagia a nfase recente que os estudiosos tm atribudo  atividade de Shakespeare 
como revisor de seus prprios textos dramticos,- porm, implcita no elogio feito a Shakespeare est a crtica to caracterstica de Jonson: o seu mais clebre 
rival "carecia de arte". O tempo haveria de conferir mais honrarias  arte de Shakespeare do que  de Jonson, mas a singularidade de Shakespeare, em cerca de
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CONTO  DO  INVERNO
doze das suas trinta e nove peas, , nitidamente, essa impressionante fuso entre arte e natureza. Perdita no est interessada em uma arte que "corrige" ou "transforma" 
a natureza,- na verdade, ela clama por uma natureza antes da Queda, uma natureza que seja a arte de si mesma:
[...]  Prosrpina!
No dispor eu das flores que do carro
de Dis, s de pavor, cair deixaste!
Os narcisos que a aparecer se atrevem
antes das andorinhas, e que os ventos
de maro enleiam no seu grande encanto/
as violetas escuras, mas mais doces
do que de Juno as plpebras ou o hlito
de Citeria,- as descoradas prmulas,
que fenecem solteiras, sem que tenham
visto o brilhante Febo em sua fora -
doena muito freqente entre as donzelas -
verbasco altivo, imperial coroa,
lrios de toda espcie, includa entre eles
a flor-de-lis. Ohl faltam-me essas flores
para tecer grinaldas, caro amigo,
e com elas cobrir-te.
[IV.iii.]
corn a temeridade que me  caracterstica, afirmo que Perdita, nesse trecho maravilhoso, fala em nome de Shakespeare. Fosse ela Persfone, insinua Perdita, no teria 
sido vtima da fraqueza que resultou na sazonalidade das flores. A primavera e a colheita eternas ainda existiriam, tivesse Persfone o temperamento de Perdita. 
No estranho pathos contido nessa fala, Perdita vai alm do papel de filha de Leontes, e profetiza a sensibilidade naturalista de John Keats:
[...] narcisos,
Que se atrevem a surgir antes dos pardais,
E arrebatam com beleza os ventos de maro.
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#HAROLD  BLOOM
Arte  a prpria natureza, em Perdita, Shakespeare e Keats, e desafia-nos, assim como o faz com Florizel, no convite que lhe faz Perdita. Reagindo  idia de ser 
coberto de flores da primavera que passou, Florizel, a rir, protesta: "Como a um corpo / sem vida?", e provoca a insinuante resposta de Perdita:
No,- no como a um corpo morto,- como num leito onde brincasse o amor. Ou ento... No para dar-lhe sepultura, mas para receb-lo nestes braos.
[IV.iii.]
Envergonhada do prprio atrevimento, Perdita repreende a si mesma: "[...] Este vestido,/certamente, me fez mudar de gnio". Florizel, em rplica surpreendente, poupa 
a jovem de qualquer embarao, e declama o maior tributo de um personagem masculino shakespeariano  amada:
Sempre ultrapassa o que fazeis a tudo quanto est feito. Se falais, querida, desejaria que falsseis sempre,- quando cantais, quisera que, cantando, vendsseis e 
comprsseis e, cantando, distribusseis esmolas, murmursseis vossas preces, bem como dirigsseis vossos negcios. Se danais, acaso, desejara que fsseis uma vaga, 
para que no fizsseis seno isso, em movimento sempre, sempre a mesma, sem mais funo alguma. Vosso modo de proceder, to singular em cada caso  parte, tal como 
o mais recente, coroa vossos feitos. Desse modo, vossas aes em tudo so rainhas.
[IV.iii.]
m
CONTO  DO  INVERNO
O frmito dessa declarao rapsdica haveria de inspirar o poema Epipsycbidion, de Shelley, mas nem mesmo o grande canto de eros escrito por este poeta equipara-se 
 intrincada musicalidade que Shakespeare empresta aos versos de Florizel. Yeats, em seu livro Last Poetns, especialmente na invocao de uma Helena de Tria ainda 
menina, em "Mosca de Pernas Longas", aproxima-se do ritmo sinuoso desse encmio  graa dos movimentos de uma mulher: \
[...] quando danas, Quisera v-la qual onda do mar, Ondulando, ondulando, e nada mais, com a nica funo de ondular.
Shakespeare pretende estabelecer violento contraste entre o filho e o pai, quando Polxenes, mais tarde, na mesma cena, dirige-se a Perdita com uma brutalidade 
que faz lembrar a agressividade retrica de Leontes no auge de sua loucura:
[...] E tu, bonito tipo de feiticeira, que sabias muito bem que real tolo tinhas preso... [...] Ho de os espinhos arranhar-te a beleza, at a igualarem  tua condio. 
- E tu, pateta, se eu souber que suspiras de saudades desta coisa nenhuma - que  certeza nunca mais a reveres - destituo-te da sucesso do trono, declarando-te 
estranho a nosso sangue e a nossa casa, e to distante dela como o prprio Deucalio. Toma nota do que eu digo: retorna para a corte. E tu, saloio, por esta vez, 
embora incorrido hajas em nosso desprazer, de ti desviamos a punio fatal. E vs, feitio -
799
#HAROLD  BLOOM
digna bastante para um pegureiro...
Sim, para este tambm, que se revela -
no se opusesse a tanto o nosso nome -
pouco digno de ti - se em algum tempo
descerrares os rsticos ferrolhos, para deix-lo entrar, ou se nos braos o prenderes de novo, hei de uma morte to cruel te reservar quanto franzina fores para 
enfrent-la.
[IV.iii.]
Depois disso, fica extremamente difcil simpatizar com o desde sempre plido Polxenes, assim como Leontes tampouco cativa o nosso afeto. Mais e mais, a classificao 
- "romance pastoral" - parece inadequada a Conto do Inverno,- "comdia grotesca"  nomenclatura bem mais adequada. Porm, como costuma acontecer, Shakespeare no 
se submete a ditames de gneros,- a extravagncia, a extrapolao de limites,  o seu modo caracterstico de trabalhar. Recusa-se a se restringir a quaisquer convenes, 
sejam formais ou mesmo intelectuais.
O retorno  Siclia, no quinto ato de Conto do Inverno, culmina na clebre cena da esttua, em que Hermione reencontra Leontes e Perdita. Sendo a resoluo da trama 
to problemtica, Shakespeare nos faz lembrar que estamos lendo ou assistindo a uma representao, absolutamente, ficcional. Paulina resume a ao, dizendo  famlia 
reunida (e  platia): "[...] Ora reuni-vos, / vs todos que lucrastes neste dia". Em Conto do Inverno, ningum sai perdendo, pelo menos no no final da pea,- Mamlio 
h muito morreu de desgosto, e Antgono, sem dvida, foi devorado por um daqueles ursos que habitam o "litoral da Bomia". Paulina, deixando claro que no  necromante, 
tem o cuidado de distanciar-nos do realismo:
80O
CONTO  DO  INVERNO
Se vos tivessem dito que ela vivia, certamente rireis como de uma histria antiga,- mas que vive  evidente, embora ainda no nos tenha falado.
[Viu.
"Se magia for tudo", diz Leontes, "seja uma arte / to lcita como o ato de comer". Dezesseis anos mais velha, Hermione - seja como esttua ou como mulher - apresenta 
algumas rugas,- no mais,  a mulher que sempre foi. No meu entendimento,  um equvoco interpretar essa cena como algo hiertico, mstico, mas admito a perplexidade 
da esttua, ainda mais esculpida por Jlio Romano. Talvez eu seja o nico crtico que no considere essa cena um dos momentos de glria em Conto do Inverno, e sim 
o maior problema da pea, pois Shakespeare no exercita aqui a autopardia. com certeza, trata-se de um coup de the"tre-. uma esttua que, subitamente, comea 
a respirar  algo que funciona bem no palco. Mas, para mim, as maravilhas de Conto do Inverno so de outra ordem: o cime enlouquecido de Leontes, os furtos do menestrel 
Autlico e, principalmente, o amor recproco, o xtase, de Perdita e Florizel. Na concluso da pea, Shakespeare assume, propositadamente, a funo do ilusionista, 
e mostra-se ctico com relao a qualquer credo que afirme ser a arte a prpria natureza.
KM
#33
A TEMPESTADE
Atualmente, de todas as peas de Shakespeare, as duas comdias visionrias - Sonho de uma Noite de Vero e A Tempestade - tm a triste sina de serem as mais interpretadas 
e encenadas. Crticos e diretores de Sonho de uma Noite de Vero parecem obcecados por erotismo, enquanto a questo da ideologia compele os tantos que estragam A 
Tempestade. Caliban, criatura marcante, embora covarde (e com instinto assassino), metade homem (o pai era um demnio marinho, no se sabe se peixe ou anfbio), 
tornou-se, na frica e no Caribe, um Heri da Liberdade. Tal interpretao revela mais do que mero equvoco,- qualquer pessoa que chegue a esse entendimento, simplesmente, 
no parece interessada em se ater  pea. Os crticos de orientao marxista, multicultural, feminista e neo-historicista conhecem bem as prprias causas, mas no 
as peas de Shakespeare.
Por ter sido A Tempestade (1611) a ltima pea escrita por Shakespeare antes de aceitar a colaborao de John Fletcher, e, provavelmente, um grande sucesso no Teatro 
Globe, o texto da mesma inicia o Primeiro Flio, como a primeira das comdias. Sabemos que A Tempestade foi apresentada  corte de Jaime I, o que justificaria as 
caractersticas de mascarada encontradas na pea. Basicamente desprovida de enredo, a pea tem como nico evento externo um incidente, logo na primeira cena: a tempestade, 
provocada por magia, e que, estranhamente, serve de ttulo  pea. Se  que o texto tem fontes literrias, o ensaio de
802
* A TEMPESTADh
M  ntaisne sobre os Canibais poderia ser apontado, pois tais indivduos "o aludidos no nome "Caliban", embora no na natureza do personagem Contudo, conforme no 
caso de Hamlet, Montaigne  mais provocao do que fonte, e Caliban est longe de ser uma celebrao do homem natural. A Tempestade no  discurso sobre o colonialismo, 
nem testamento mstico.  uma comdia altamente experimental, em ltima anlise, incitada, a meu ver, pela pea de Marlowe, DoutorFausto. O nome de Prspero, o mago 
criado por Shakespeare,  a traduo italiana de Faustus ("o favorecido"), pseudnimo latino adotado em Roma por Simo Mago, o Gnstico. Tendo em Ariel um esprito 
ou anjo (o nome em hebraico significa "leo de Deus") a seu servio, em contraste ao Mefistfeles de Marlowe, Prspero  o anti-Fausto shakespeariano, a incontestvel 
superao de Marlowe.
Visto que Caliban, apesar de no contar com mais de cem versos na pea, para tantos,  hoje o centro da mesma, inicio com ele a minha anlise. A trajetria do 
personagem na histria da encenao da pea  bastante instrutiva, e muito me conforta nesse mau momento para A Tempestade. Em AIlha Encantada, de Davenant e Dryden, 
verso musical encenada em Londres, inmeras vezes, entre 1667 e 1787, Caliban embriaga-se de tal modo que  incapaz de conspirar contra Prspero. Esse Caliban (to 
pardico quanto o atual "nobre rebelde") foi, por mais de um sculo, um grande papel para comediantes que atuavam em espetculos musicais. No Alto Romantismo, o 
yahoo chegado a macaquices e guinchos, finalmente, deu lugar ao "escravo selvagem e disforme" de Shakespeare. Conforme sugere o texto da pea, Caliban ainda era 
representado como criatura meio humana, meio anfbia, mas, desde ento, passou por estranhas transformaes: lesma que se arrastava pelo palco, gorila, homem-macaco 
e, finalmente (Londres, 1951), homem de Neandertal. Numa verso medonha, levada  cena por Peter Brook na dcada de 1960, assisti, boquiaberto, a um Caliban-Homem 
de Java, reroz, primitivo, que levava a termo o estupro de Miranda, conquistava a ilha e celebrava o triunfo beliscando o traseiro de Prspero. Outra pratica - hoje 
em dia, obviamente, em voga -  escalar atores negros Para o papel de Caliban: Canada Lee, Earle Hyman e James Earl Jones
803
#HAROLD  BLOOM
foram alguns dos primeiros a que tive oportunidade de ver atuar. Em
1970, Jonathan Miller foi inspirado a situar a pea na era de Cortez e Pizarro, representando Caliban como um ndio sul-americano que trabalhava na lavoura e Ariel 
como um ndio alfabetizado. A interpretao era to bizarra que chegava a ser divertida, ao contrrio da recente verso de George C. Wolfe (cujo sucesso deixa-me 
revoltado), em que Caliban e Ariel, ambos escravos negros, competem entre si, para ver quem mais odeia Prspero. As modas passam,-  possvel que, no incio do sculo 
XXI, pseudo-especialistas ainda choraminguem, falando em neocolonialismo, mas, quem sabe, Caliban e Ariel no sero, ento, interpretados como seres extraterrestres 
- se j no o so.
At recentemente, a tradio crtica demonstrou ser bem mais discernente do que a cnica, com respeito ao papel de Caliban. Dryden, com correo, observou ter 
Shakespeare "criado uma pessoa inexistente na Natureza". Um personagem apenas meio-humano no pode ser o "homem natural", seja negro, ndio, ou berbere (povo a que 
pertenceria a me de Caliban, Sicorax, uma feiticeira argeliana). Samuel Johnson, nada sentimental, comentou a respeito do "temperamento taciturno e propsitos malignos" 
de Caliban, ao mesmo tempo em que descartava a idia de o personagem dominar algum idioma nativo. No presente sculo, o poeta W. H. Auden culpa Prspero de haver 
corrompido Caliban, um julgamento simplista, embora, como sempre, o que Auden tem a dizer sobre Shakespeare  elucidativo, nesse caso, expresso no excelente texto 
"De Caliban para o Pblico", includo no volume O Mar e o Espelho. Talvez porque Shelley identificara-se com Ariel, Auden identifica-se com Caliban:
Nesse pesadelo de solido, nesse eterno Ainda No, que alvio teremos, seno o vertiginoso galope, rumo ao horizonte cinzento,  viso mais desolada? Que pontos 
de referncia, seno os quatro rios mortos, o Infeliz, o Transbordante, o Lgubre e o Vale de Lgrimas? Que destino, seno a Pedra Negra, sobre a qual os ossos so 
quebrados, pois somente ali, em seu grito de agonia, pode a nossa existncia encontrar, finalmente, um sentido inequvoco, e a nossa recusa de sermos ns mesmos 
pode
804
A    l
transformar-se em desespero autntico, nada amando, a tudo
temendo?
No trecho acima, Auden fala, primordialmente, de si mesmo, sob forte influncia de Kierkegaard, mas as palavras expressam o dilema de Caliban "nada amando, a tudo 
temendo". No intervalo de tempo entre as anlises que Johnson e Auden fazem de Caliban, a grande figura  Browning, com seu impressionante monlogo dramtico "Caliban 
sobre Setebos". No texto de Browning, o terrvel sofrimento psquico de Caliban, provocado pelo fracasso da adoo por Prspero, recebe uma expresso mais pungente 
do que em Shakespeare:
Tarde da noite, Prspero estudava, Sereno e altivo, agora senhor da ilha-. Nervoso, costura um grande compndio, Onde escreveu palavras prodigiosas,- Usa um basto 
mgico, que tem nome, E capa de mago, em pele de lince,- Tem uma ona mais gil que toupeira, Serpente quadrpede, a quem ordena Deitar, rosnar, obedecer-lhe o olhar, 
E diz que  Miranda, e que  minha esposa,- " Ariel  gara-azul de bico longo,
Que ele manda pescar em seu proveito,-
Pegou na rede um monstro do mar, lerdo,-
Depois de ceg-lo, domestic-lo,
Cortar-lhe as nadadeiras e prend-lo
A uma pedra, chama-o de Caliban.
Tem corao azedo,  espreita,
E, brincando assim de Prspero ser,
Diverte-se com fantasias:  Ele.
No poema de Browning, Caliban fala de si mesmo na terceira pessoa, exceto no "Ele" final, em que se refere a Setebos, deus da feiticeira Jicorax. O lerdo monstro 
do mar, de "corao azedo,  espreita",  o
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#HAROLD   BLOOM
brinquedo maltratado de uma criana perturbada. Enxotado por Prspero, Caliban est sempre  espreita, mas  demasiadamente medroso, incapaz de atacar. Browning 
enxerga a infantilidade que  a essncia de Caliban, uma sensibilidade dbil e plangente que no consegue superar o fato de ter perdido a proteo paradisaca de 
Prspero. A tentativa de estupro que Miranda sofre por parte de Caliban  prontamente explicada pelos admiradores deste personagem na academia, mas pergunto-me como 
 possvel crticos feministas fazerem a defesa de Caliban. Nesse aspecto, os espectadores identificaro o seu ponto de vista com o de Miranda e Prspero, e no 
corn a viso tola de Caliban, de que, se no tivesse sido impedido, haveria povoado a ilha com pequenos Calibans. Metade homem, metade monstro marinho, Caliban 
contm pathos autntico, mas no pode ser interpretado como um personagem admirvel.
Uma pea praticamente desprovida de enredo faz destacar outros elementos, outras questes. Em A Tempestade, Shakespeare parece mais interessado nos possveis significados 
de Prspero do que na frieza da personalidade desse anti-Fausto. Do mesmo modo, Ariel  mais uma figura capaz de invocar grande sugestividade do que um personagem 
dotado de uma dimenso interior que nos seja possvel contemplar (a no ser de relance). Em parte, o fascnio permanente que A Tempestade exerce sobre espectadores 
e leitores, nas mais diversas culturas,  a superposio de um mago vingativo que aprende a perdoar, um esprito de fogo e ar, e uma criatura metade humana, feita 
de terra e gua. Prspero parece encarnar um quinto elemento, semelhante ao dos sufistas, que, como ele, descendem dos antigos hermticos. A arte de Prspero  capaz 
de controlar a natureza, pelo menos exteriormente. Embora essa arte devesse ensinar-lhe o autocontrole, obviamente, isso no ocorre, nem mesmo no desfecho da pea. 
O platonismo de Prspero  um tanto enigmtico/ o autoconhecimento, segundo a tradio neoplatnica, no deveria levar  depresso, mas Prspero chega ao fim da 
pea bastante taciturno, algo evidente no Eplogo que lhe  atribudo.
806
A TEMPESTADE
O que pretendeu Shakespeare, o dramaturgo, no necessariamente indivduo, ao escrever A Tempestade7 Somos levados a crer que ele no considerava a pea como a obra 
final de sua carreira. Em 1611, Shakespeare tinha apenas quarenta e sete anos, e escreveu longos trechos de, pelo menos, trs peas subseqentes: Henrique VIU, Cardnio 
(perdida) e Os Dois Nobres Parentes, provavelmente todas em colaborao com John Fletcher. Prspero no  uma representao do prprio Shakespeare, assim como Dr. 
Fausto no  um auto-retrato de Christopher Marlowe. Entretanto, no Romantismo, leitores e espectadores aceitavam o paralelo biogrfico, e sou bastante romntico 
para desejar saber o que os levava a essa conjetura to extravagante.
A Tempestade apresenta um aspecto elptico que sugere uma dimenso bastante simblica. Prspero, ao contrrio de Hamlet, no conclui a pea afirmando ter algo a 
mais para nos dizer, mas que "deixa tudo como est". Temos a sensao, plenamente justificada, de que Hamlet poderia revelar algo crucial sobre si mesmo, poderia 
desvendar todo o seu mistrio, tivesse ele tempo e disposio para faz-lo. A histria de Prspero  bem diferente: Hamlet, ao morrer, alcana a verdade, enquanto 
Prspero sobrevive em meio  perplexidade. No sendo a histria de Prspero trgica, e sim um tanto cmica, no sentido de que termina bem, o personagem parece perder 
autoridade espiritual, mesmo tendo recuperado o poder poltico. No quero dizer que Prspero carea do prestgio normalmente conferido  tragdia, e a Hamlet, em 
especial. Antes, a autoridade de um anti-Fausto, capaz de comprar conhecimento sem qualquer custo espiritual, simplesmente, abandona Prspero. Deixara ilha encantada 
no representa, em si, uma perda para o Duque, mas quebrar o basto mgico e atirar o livro ao mar, com certeza, so atos que incorrem na diminuio do ego. Abrir 
mo da magia  o smbolo do exlio: custa caro o retorno ao comando de Milo. Prspero, ao despedir-se de sua arte, revela-nos que chegara a ressuscitar os mortos, 
funo reservada pela cristandade a Deus e a Cristo. Ser Duque de Milo  ser apenas mais um potentado,- a arte deixada de lado era to poderosa que a questo poltica 
 se torna deveras absurda.
Ariel e, principalmente, Prspero so figuras mais centrais em A Tempestade do que Caliban. A propsito, Prspero seria ttulo mais adequa-
807
#HAROLD  BLOOM
do, o que me leva ao que considero o verdadeiro mistrio da pea: por que a mesma invoca a histria de Fausto, se apenas transforma a lenda em algo irreconhecvel? 
Simo Mago, segundo as fontes crists (fontes gnsticas no sobreviveram), ironicamente, em nada foi "favorecido", ao chegar a Roma. Desafiado pelos cristos, esse 
primeiro Fausto tentou levitar, e despencou para a morte. A maioria dos Faustos subseqentes vendeu-se ao demnio, e pagou com a alma, a grande exceo sendo o 
de Goethe, cuja alma  levada aos cus por anjinhos de ndegas gorduchas, que tanto intoxicam Mefistfeles com luxria homoertica que quando ele percebe o roubo 
de seu prmio  tarde demais.
Prspero, o anti-Fausto, tendo a seu servio o anjo Ariel, fez um pacto apenas com o saber hermtico mais profundo. Uma vez que o Fausto de Marlowe, comparado a 
Prspero,  um estudioso fracassado, Shakespeare diverte-se pondo em evidncia um contraste irnico entre o protagonista criado pelo rival morto h anos e o Mago 
de A Tempestade. Simo Mago, como o Mago Jesus, foi discpulo de Joo Batista, e, evidentemente, ressentia-se por no ser um dos preferidos de Jesus,- vale lembrar, 
novamente, que, a esse respeito, dispomos somente de fontes crists. O mago Prspero, com certeza, no compete com Jesus,- Shakespeare tem o mximo de cuidado 
no sentido de excluir da pea quaisquer referncias crists. Quando Caliban, castigado, submete-se a Prspero no fim da pea, a palavra "graa" nos surpreende:
 o que farei,- e de ora avante quero mostrar-me mais razovel e obter graa. Mas que asno reforado eu fui, tomando por um deus este bbado e inclinando-me diante 
deste imbecil!
corn efeito, que mais podem as palavras de Caliban sugerir, alm da substituio de Setebos por Estfano e, agora, por Prspero como deus? S depois que a pea termina, 
o ator que faz o papel de Prspero surge
* A Tempestade. Traduo de Carlos Alberto Nunes. So Paulo: Editora Tecnoprint S A., s.d. Todas as citaes referem-se a essa edio. [N.T.]
808
A TEMPESTADE
 frente da cortina para proferir um discurso que, embora cristo, permanece distante da revelao crist:
Restou-me o temor escuro, por isso, o auxlio procuro de vossa prece que assalta at mesmo a Graa mais alta, apagando facilmente as faltas de toda gente. Como quereis 
ser perdoados de todos os vossos pecados, permiti que sem violncia me solte vossa indulgncia.
[Eplogo]
As palavras so dirigidas  platia, cujo aplauso est sendo solicitado:
[...] dos encantos malsos livrai-me com vossas mos.
[Eplogo]
A palavra "indulgncia" expressa idia ousada: a Igreja perdoa, o pblico aplaude, e o ator  salvo apenas pelo aplauso. O papel de Prspero, dentro da perspectiva 
visionria da pea,  como o de um deus,- at os rompantes de irritao do Mago parodiam, a distncia, a ira do Jav do Livro dos Nmeros. A Tempestade  de uma 
elegncia sutil, e, conforme tantas outras obras-primas shakespearianas, escapa-nos  interpretao. Pblico algum jamais tem simpatia por Prspero,- Anel (pace 
George Wolfe) nutre um certo afeto pelo Mago, e Miranda o ama, tendo ele sido para ela, ao mesmo tempo, me extremada e pai severo. Por que Shakespeare faz Prspero 
to frio? O etbos da pea no parece assim o exigir, e o pblico fica confuso, diante de um protagonista, a um s tempo, flagrantemente, to correto e to antiptico. 
Outrora omisso governante de Milo, Prspero, bem-sucedido somente como
809
#HAROLD  BLOOM
mago e pai solteiro, regressar quela cidade, onde, claro est, no haver de ser grande administrador. Northrop Frye identificava Prspero com Shakespeare, mas 
apenas em um sentido altamente irnico, considerando Prspero (tanto quanto Shakespeare)
um atormentado empresrio teatral, que, dominando o jargo, repreende atores preguiosos e elogia os esforados, cria papis para os que esto desempregados, est 
sempre ciente da exigidade de tempo para ensaio antes da estria, atento a problemas depois da estria, ansioso pela merecida aposentadoria, e pronto a implorar 
o aplauso da platia - enquanto a aposentadoria no chega.
A noo no  apenas fascinante, mas plausvel, e, talvez, o dramaturgo-encenador tenha notado que estava  se tornando uma pessoa um tanto fria, no mais de "natureza 
aberta e livre", conforme elogiaria Ben Jonson (Shakespeare abandonara a carreira de ator, evidentemente, pouco antes de escrever Otelo). A Tempestade no  uma 
pea genial, tampouco o so as outras escritas por Shakespeare tardiamente,  exceo do papel de Autlico, em Conto do Inverno. Prspero, como assinala Frye, no 
tem inclinaes transcendentais, apesar de tanto lidar com espritos. O que, alm da vingana descartada, estaria Prspero buscando em seus estudos hermticos, 
iniciados ainda em Milo, muito antes de ter motivos para querer se vingar? Um hermetista da Renascena, e.g., Giordano Bruno (ou um Dr. John Dee) visava ao conhecimento 
de Deus, busca de toda a gnose. Mas Prspero, em momento algum, mostra-se incitado pelos mistrios eternos. Ao contrrio de Bruno, Prspero, o anti-Fausto, no  
um herege,-  indiferente  revelao crist, e estuda um saber oculto que outros magos preferiam ao cristianismo (se, como Bruno, tinham coragem de demonstr-lo) 
ou, o que era mais comum, pretendiam pr a servio da doutrina crist. Novamente, estamos diante de um dilema: ser a arte de Prspero, como a de Shakespeare, esttica 
em vez de mstica? Isso tomaria Prspero apenas o desdobramento de uma metfora inadequada, o que trairia a
810
A TEMPESTADE
experincia que a pea nos oferece. Embora, para o seu prprio embarao encene mascaradas, Prspero no  Ben Jonson, nem Shakespeare.
Sem dvida, Prspero  um estudioso autntico, que busca o conhecimento como um fim em si mesmo,- porm, a atividade intelectual pouco tem de dramtica, e Prspero 
 representao dramtica extremamente bem-sucedida. Mas representao dramtica de qu? A busca de Prspero  de ordem intelectual, at mesmo cientfica, embora 
a cincia por ele praticada seja to pessoal e idiossincrtica quanto a de Freud. Falando a seus alunos, Freud referia-se a si mesmo como um Conquistador, o que 
me parece epteto digno de Prspero. Como Freud, Prspero  um favorecido: est destinado a vencer. O triunfo de Freud demonstrou-se equvoco, em grande parte, chegando 
ao fim juntamente com o sculo XX. Prspero exulta  medida que se aproxima da vitria final, e, ento, toma-se bastante melanclico. Nenhum outro personagem shakespeariano 
 to vitorioso, exceto o Rei Henrique V. Para o mau filho de Falstaff, o revs irnico ocorre apenas na Histria, fora dos limites da fico, e em Henrique VI, 
cuja ao inicia a partir dos funerais de Henrique V, levantes franceses e agouros de guerra civil na Inglaterra.
Prspero no espera pelo momento de reingressar na "Histria",- a perda, ironicamente,  imediata, mesmo que os inimigos - inclusive Caliban - reconheam-lhe a supremacia, 
temporal e mstica. O casamento dinstico entre Miranda e o Prncipe de Npoles unir os dois reinos, impedindo, assim, ameaas polticas externas. Mas que poderes 
ocultos ainda teria Prspero, aps quebrar o basto mgico e atirar o livro ao mar? Creio que "livro", no singular, propositadamente, estabelece um contraste com 
o grito do Fausto de Marlowe: "Queimarei meus livros!", quando Mefistfeles e os outros demnios carregam-no para sempre. Fausto tem a sua biblioteca, com Comlio 
Agripa etc., mas Prspero tem apenas "meu livro", escrito por ele prprio, fruto de trabalho rduo, envolvendo leitura, reflexo e prtica, no que concerne ao controle 
de espritos. Tal noo, em parte, esclarece o dilema, e aumenta a comoo do momento em que esse conquistador atira ao mar a obra de toda a vida.  como se Freud, 
indito, jogasse fora escritos que seriam reunidos em suas Obras Completas.
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#HAROLD   BLOOM
Se existe alguma analogia entre Shakespeare e Prspero, haveria de ser a eminncia de ambos, um entre poetas-dramaturgos, outro entre praticantes de magia branca, 
i.e., hermetistas. Em 1616, ano do falecimento de Shakespeare, toda a obra de Ben Jonson, inclusive as peas,  publicada. S em 1623, amigos e colegas de Shakespeare 
publicam uma coletnea - o Primeiro Flio - em que dezoito peas do autor aparecem publicadas pela primeira vez, encabeadas por A Tempestade, sob a assistncia 
voluntria de um Ben Jonson agora menos invejoso, o que, afinal, confirma a recusa de Shakespeare de atirar o "seu" livro ao mar. Mas Prspero comete esse ato suicida, 
e que carece de explicao, se quisermos ver A Tempestade mais como ela realmente , e menos segundo a aura construda em redor da pea ao longo do tempo.
Ariel  o melhor caminho para chegarmos a entender Prspero, embora no tenhamos um meio semelhante para apreendermos esse grande esprito do ar, que pouco tem em 
comum com Puck, apesar de muitos crticos acharem o contrrio. Escassamente mencionado na Bblia, o nome de Ariel parece ter sido selecionado por Shakespeare nem 
tanto pelo significado hebraico (irrelevante, no contexto da pea, visto que no se trata de um "leo de deus", mas de um esprito dos elementos, i.e., fogo e ar), 
mas, provavelmente, pela associao sonora entre Ariel e "areo". Em marcante contraste com Caliban, que  todo terra e gua, Ariel entra em cena antes de Caliban, 
sendo, no desfecho da pea, libertado. Suas palavras finais a Prspero so: "Foi bem-feito?" - pergunta tpica de um ator a um encenador. A liberdade de Ariel ser 
gozada ludicamente, em meio ao ar e ao fogo. Caliban, a despeito da claque que hoje em dia o acompanha, volta  responsabilidade de um Prspero bastante contrariado: 
"[...] este bloco / de escurido  minha propriedade". A criatura h de acompanhar o pai adotivo (que no  um senhor de escravos) na viagem de regresso a Milo, 
e l continuar o processo de educao temporariamente interrompido. Essa perspectiva parece um tanto visio-
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A TEMPESTADE
nria, mas no deveria causar mais espcie do que o prospecto de muitas unies em Shakespeare: a viso de Beatrice e Benedito, cinqentes, vivendo s turras, nada 
tem de alentadora. O futuro de Ariel, segundo ele prprio, ser dos mais felizes, embora permanea alm do entendimento de Shakespeare - ou do nosso. Shelley associava 
Ariel  liberdade da imaginao potica romntica, o que no seria anti-shakespeariano, apenas, hoje em dia, ultrapassado. Tudo o que acontece em A Tempestade resulta 
do trabalho de Ariel, sob o comando de Prspero,- portanto, Ariel no trabalha sozinho, ao contrrio do que costuma ser apresentado nos palcos. O esprito  o lder 
de um grupo de anjos. "Tua vontade forte  que domina / Ariel e seu poder", diz ele a Prspero, e os seres que esto sob o poder de Ariel so espritos como ele. 
Supostamente, tanto quanto ele, trabalham para obter a liberdade, e trabalham forados, se  que podemos acreditar nas palavras de Caliban.
Ariel e Prspero encenam estranho jogo cmico (parodiado, magistralmente, por Clov e Hamm, em Fim de Jogo, de Beckett), no qual a ansiedade de Ariel, quanto  sua 
libertao, e o temperamento errtico de Prspero so colocados frente a frente, mantendo o pblico em suspense, na expectativa de um confronto que jamais ocorre 
(exceto em palcos politicamente corretos). Frank Kermode, acertadamente, lembra-nos que A Tempestade ", sem dvida, a comdia mais sofisticada de um poeta cuja 
obra cmica  extremamente mal interpretada". Decerto, no  fcil superar Noite de Reis, Medida por Medida e Conto do Inverno, em sofisticao, mas Shakespeare 
realiza a tarefa com tamanho brilho que, conforme sugere Kermode, ainda no fomos capazes de aferir, de modo definitivo, a obra cmica shakespeariana. Raramente 
escuto risadas durante uma encenao de A Tempestade, mas isso se d por causa dos diretores, cuja sensibilidade limitada jamais chega a transpor a barreira do poltico. 
A relao entre Prspero e Ariel  comdia deliciosa, assim como vrios outros aspectos da pea (conforme pretendo demonstrar). O que nada tem de cmico  o tormento 
da adoo frustrada que Prspero faz de Caliban,  qual voltarei, ao examinar a pea mais detalhadamente.
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#HAROLD   BLOOM
A proposital ausncia de imagens em A Tempestade pode ser apontada como responsvel pelo ttulo que Auden confere ao "comentrio": O Mar e o Espelho. O Prspero 
de Auden diz a Ariel que abre mo dos livros sobre hermetismo, entregando-os "Ao silncio e  dissoluo do mar, / Que nada deturpa, pois a nada d valor". Iniciando 
corn uma tempestade em alto-mar, e terminando com a promessa de Prspero - "mares calmos [e] auras / auspiciosas" -, A Tempestade possibilita um despojamento com 
relao a imagens, um dos aspectos mais positivos dessa comdia. Somos Miranda, instada a sentar-se e ouvir de Prspero o triste relato da chegada  ilha. Se, de 
um lado, o mar a nada d valor, e a tudo engole, de outro, nada guarda para si, devolvendo tudo  praia. A melhor e mais clebre cano de Ariel transforma ossos 
em coral, e o que Hart Crane chama de "olhos matinais, perdidos", em prolas.
Ariel passa por uma metamorfose mais radical do que qualquer outra figura da trama. Personagem algum, nem mesmo Prspero,  transformado, pelo mar, em algo "maravilhoso 
e estranho". Talvez, somente a obra completa de Shakespeare poderia merecer essa metfora. Chego a me perguntar: no seria A Tempestade mais um dos ttulos shakespearianos 
descartveis, algo do tipo "Como Gostais" ou "O que Quiseres"? A tempestade  provocada por Ariel (seguindo ordens de Prspero), sendo, acima de tudo, uma fico, 
em que os nufragos sequer se molham. Ningum na pea  ferido, e o perdo  a todos estendido por Prspero, na seqncia do momento mais humano de Ariel na pea. 
Tudo em A Tempestade se dissolve, exceto o mar. De certo modo, o mar , em si, dissoluo, embora no nessa pea to singular. A Tempestade no conta com uma Imognia, 
ou um Autlico,- a questo da personalidade j no parece ser o foco da ateno de Shakespeare, e, em todo caso, no se aplicaria a Ariel, que no  humano, nem 
a Caliban, apenas metade humano. Shakespeare no  nefito no subgnero da comdia visionria,- em Sonho de uma Noite de Vero, Puck - tanto quanto Bottom - atrai 
as atenes. Mas, vale frisar, A Tempestade - ao contrrio de Cimbeline e Conto do Inverno - no  uma recapitulao. O mais estranho
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A TEMPESTADE
 o fato de a pea parecer uma obra mpar, que inicia uma nova fase, um novo tipo de comdia, o qual Beckett tentaria emular em Fim de Jogo, um misto de Hamlet e 
A Tempestade.
Alegorias no eram o forte de Shakespeare, e A Tempestade faz pouco uso dessa figura retrica. W. B. C. Watkins, crtico admirvel, identificou elementos spenserianos 
na cena em que Ariel surge transformado em gavio-real, e na mascarada de Ceres, momentos que esto longe de constar entre os melhores da pea. A Tempestade leva 
 especulao, em parte, porque esperamos, de Prspero, uma demonstrao de conhecimentos esotricos, embora ele jamais satisfaa a nossa expectativa. A grandeza 
de seus poderes mgicos , absurdamente, desproporcional aos propsitos a que so empregados,- os adversrios de Prspero so fraqussimos, e, para derrot-los, 
bastaria qualquer Sicorax. Volto a dizer, a hiptese do anti-Fausto  o melhor caminho para chegarmos a uma interpretao de Prspero,- a magia pouco se presta  
representao cnica, a menos que trabalhada com fins irnicos. Shakespeare interessava-se por tudo, mas apreciava muito mais a introspeco do que a magia. Quando 
a sua arte, to potente, depois do extraordinrio perodo de catorze meses em que foram criadas Rei Lear, Macheth e Antnio e Clepatra, deixa de lado a busca da 
introspeco, um esvaziamento do self pode ser observado em Coriolano e Timo de Atenas. O suposto influxo de mito e magia que os estudiosos celebram nas ltimas 
peas de Shakespeare  mais irnico, at mesmo farsesco, do que pensamos. A magia de Prspero nem sempre  substituto  altura da introspeco dramtica, e Shakespeare 
parece estar ciente do problema.
Prspero apresenta-se to apreensivo quanto Macbeth, com respeito a sinais mal interpretados e limitaes de natureza temporal, e, por mais potente que seja a sua 
mgica, ele tem plena conscincia de que a mesma no  eterna. O problema da autoridade parece-me constituir a questo misteriosa da pea. Digo "misteriosa" porque 
a autoridade de Prspero  diferente da de qualquer outro personagem shakespeariano. , relativamente, fcil definir o que essa autoridade no constitui: no se 
trata de autoridade legal, embora Prspero seja o legtimo Duque de Milo. Tampouco  autoridade moral: Prspero no parece vido por justificar
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#HAROLD  BLOOM
ADRIANO
Conquanto esta ilha parea deserta... SEBASTIO
Ah, ah, ah! J estais pago. ADRIANO
Inabitada e quase inacessvel... .
SEBASTIO
Contudo... ADRIANO
Contudo... ANTNIO       .."       "".       "" .!"_",.."
Ele no poderia deixar de ach-la. ADRIANO
Precisar ser de sutil, doce e agradvel temperana. ANTNIO
Temperana era uma rapariga delicada. SEBASTIO
E Sutil, como ele disse com muita erudio. ADRIANO
Sentimos-lhe o suave bafejo. SEBASTIO
Como de pulmes podres. ANTNIO
Ou como se tivesse sido perfumado por um pntano. GONZALO
Tudo aqui  vantajoso para a vida. ANTNIO
Sim, com exceo dos mantimentos. SEBASTIO
Que  o que no se encontra, ou muito pouco. GONZALO
Que aparncia fresca e agradvel a desta relva! Como  verde
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A TEMPESTADE
ANTNIO
Realmente,- o cho  aleonado. SEBASTIO
corn uma pequena tonalidade verde. ANTNIO
Ele quase no erra. SEBASTIO
Realmente,- apenas afasta-se por completo da verdade.
[H..]
De certa maneira, temos aqui uma complexa referncia  viso que tem o Profeta Isaas, com respeito  destruio da Babilnia:
Desa e sente-se no p, jovem Babilnia. Sente-se no cho, capital dos caldeus, pois no h mais trono e nunca mais chamaro voc de doce e delicada.
[Isaas 47: l ]
Temperana, para os puritanos, nome de mulher, que significa "calma" e "casta", tambm sugere a idia de clima ameno, temperado. Antnio, o irmo de Prspero que 
lhe usurpara o ducado de Milo, e Sebastio, que pretende usurpar, do irmo Alonso, o Reino de Npoles, so os incorrigveis viles da pea. Gonzalo e Adriano, figuras 
mais amveis, so alvos de ridicularizao por parte da dupla abjeta,- todavia, as piadas, no fundo, voltam-se contra os piadistas, pois a aluso a Isaas  um lembrete 
da derrocada que aguarda os perversos. Em um primeiro momento, a comicidade decorre do fato de a perspectiva de Gonzalo e Adriano estar correta, pois a ilha (embora 
eles no o saibam)  encantada, enquanto Antnio e Sebastio passam por imbecis, afastados "por completo da verdade". Possivelmente, o pblico comea a perceber 
que, na ilha de Prspero, tudo  questo de perspectiva. O local pode ser visto como deserto ou paraso, dependendo de quem o est contemplando.
Isaas e Montaigne convergem na clebre rapsdia declamada por Gonzalo, descrevendo a comunidade ideal a ser estabelecida na ilha,
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#HAROLD   BLOOM
fosse ele o rei. A troa de Sebastio e Antnio aos fascinantes planos de Gonzalo prepara-nos para a tentativa de assassinato que os dois faro, tendo como vtimas 
o prprio Gonzalo e Alonso, adormecidos. Estes so salvos pela interveno de Ariel, episdio cuja natureza melodramtica o contexto cmico pouco nos permite notar. 
Voltamos  comdia mais bvia durante o encontro entre Caliban, Trnculo (Bobo do Rei Alonso) e o sempre bbado Estfano, irmo de Trnculo. Reverenciando Trnculo 
como a um deus, o pobre Caliban, heri dos discursos atuais sobre colonialismo, celebra a suposta liberdade obtida com relao a Prspero:
J no farei barragem para peixe,
nem fogo irei buscar,
quando ele me mandar
No lavo prato nem carrego feixe.
Ba, b, b, Calib!
outro mestre amanh!
Liberdade! Viva! Liberdade! Liberdade!
[Il.ii.]
A complexidade de Caliban aumenta no terceiro ato, quando a brutalidade hesitante e o dio a Prspero transformam-se em esquema assassino:
Ora, como eu te disse, ele tem o hbito de dormir toda a tarde. A, te fora possvel asfixi-lo, aps o teres privado de seus livros,- ou, munido de um pau, lhe 
partirs em dois o crnio,- se no, o estripars com qualquer vara, ou a garganta com faca lhe seccionas. Mas, primeiro,  preciso que te lembres de lhe tomar 
os livros, pois, sem eles,  um palerma como eu, j no dispondo
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A TEMPESTADE
de esprito nenhum sobre que mande. Todos, como eu, lhe tm dio entranhado. Basta queimar-lhe os livros.
[in.
Essas palavras perversas estabelecem forte contraste com a beleza comovente da reao de Caliban, ao escutar a msica invisvel executada por Ariel:
No tenhas medo,- esta ilha  sempre cheia de sons, rudos e agradveis rias, que s deleitam, sem causar-nos dano. Muitas vezes estrondam-me os ouvidos mil instrumentos 
de possante bulha,- outras vezes so vozes, que me fazem dormir de novo, embora despertado tenha de um longo sono. Ento, em sonhos presumo ver as nuvens que se 
afastam, mostrando seus tesouros, como prestes a sobre mim choverem, de tal modo que, ao acordar, choro porque desejo prosseguir a sonhar.
[IH.ii ]
O que reconcilia esses dois trechos  a imaturidade de Caliban,- ainda  muito jovem, e sofreu o trauma de uma adoo fracassada. Shakespeare, ao inventar, em Caliban, 
o meio-humano, consegue mesclar imaturidade e infantilidade. Como espectadores, causam-nos repulsa as fantasias macabras e imaturas de Caliban aqui expressas: partir 
em dois o crnio de Prspero, estrip-lo, ou cortar-lhe a garganta com faca. No entanto, pouco tempo depois, comove-nos, imensamente, o pathos do ingnuo sonho 
de Caliban, que faz lembrar Dickens Longe de ser o heri rebelde que hoje satisfaz a vontade de acadmicos e teatrlogos obcecados por ideologia, Caliban  uma verso 
shakespeariana, extre-
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#HAROLD  BLOOM
ma, do romance de temtica familiar, com a tpica presena da criana rf que no aceita a condio marginalizada em que se encontra.
Vtima da referida condio, Caliban  pressgio irnico do estado traumtico a ser imposto por Prspero e Ariel aos nobres nufragos. Perseguidos por Ariel transformado 
em gavio-real, os nobres so tocados para um bosque prximo  gruta de Prspero, onde aguardam julgamento. Antes de julg-los, o Mago celebra o noivado de Miranda 
e Ferdinando, com uma mascarada mgica, encenada por espritos sob sua direo. Em termos poticos, a cena da mascarada , a meu ver, o pior momento de A Tempestade, 
chego a acreditar que se trata de uma pardia s clebres mascaradas que Ben Jonson compunha para a corte de Jaime I, exatamente  poca em que Shakespeare escrevia 
A Tempestade. Mais importante do que a mascarada, em si,  a maneira como a mesma  interrompida, quando, subitamente, a Arte de Prspero  posta em questo. O Mago 
assusta-se, e, ao pronunciar a primeira palavra, desaparece a mascarada:
Por pouco no me esquece a traa infame do animal Calib e de seus cmplices, contra a minha existncia. Estamos quase no minuto da trama combinada.
[IV.i.]
Poucos coups de tbe"tre, mesmo em Shakespeare, equiparam-se a esse. Apesar de permanecer alerta, ao longo da pea inteira, para no perder o momento exato de agir, 
Prspero fica to entretido com o espetculo criado pela sua prpria Arte, que  quase derrotado. Os estudiosos costumam criticar o destempero demonstrado por Prspero 
nesse momento, ecoando as palavras de Ferdinando, que acha "curioso" o comportamento do Mago. Mas Miranda refuta tais crticas, ao comentar: "A no ser hoje / nunca 
o vi externar to forte clera". A ira de Prspero no se volta apenas contra "Caliban, a fera", filho adotivo por ele desprezado, mas contra ele prprio, por esquecer 
o estado de alerta, por perder, momentaneamente, o controle da conscincia. Por muito pouco, ele no demonstra ter sido em vo toda uma vida de disciplina e
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A TEMPESTADE
dedicao aos estudos hermticos,- a partir daquele momento, a autoconfiana de Prspero jamais ser a mesma.
No sei por que os estudiosos haveriam de considerar o referido momento problemtico: Shakespeare inventa aqui a psicologia da preparao exagerada para a realizao 
de um dado evento, mal que aflige muitos de ns. Vem-me  mente um personagem de Browning, Childe Roland, um dos herdeiros de Shakespeare. Subitamente, Roland depara-se 
corn a Torre Negra e se recrimina: "Tonto / Imbecil, cochilando sempre, /Mesmo depois de toda a vida / Preparando-se p"ra esse encontro!" A maestria de Prspero 
depende de uma conscincia rigorosa e implacavelmente adestrada. O descuido momentneo  mais do que um sinal de perigo, e enseja a fala mais memorvel do Mago na 
pea, dirigida a Ferdinando, seu futuro genro, portanto, herdeiro de Npoles e Milo:
Pareceis, caro filho, um tanto inquieto, como quem sente medo. Criai nimo, senhor,- nossos festejos terminaram. Como vos preveni, eram espritos todos esses atores,- 
dissiparam-se no ar, sim, no ar impalpvel. E tal como o grosseiro substrato desta vista, as torres que se elevam para as nuvens, os palcios altivos, as igrejas 
majestosas, o prprio globo imenso, com tudo o que contm, ho de sumir-se, como se deu com essa viso tnue, sem deixarem vestgio. Somos feitos da matria dos 
sonhos,- nossa vida pequenina  cercada pelo sono. Reconheo, senhor, que estou irritado. Suportai-me, vos peo,-  da fraqueza. Enturva-me o crebro j velho. No 
vos amofineis com minha doena. Caso vos for do agrado, entrai na cela,
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#HAROLD   BLOOM
para a repousardes. Enquanto isso, darei algumas voltas, porque possa tomar-me calmo.
[IV.i.]
Segundo uma interpretao que prevaleceu durante muito tempo, embora atualmente ultrapassada, essa fala de Prspero encerra o adeus do prprio Shakespeare ao teatro. 
Trata-se, sem dvida, de uma leitura reducionista,- no entanto, as palavras "o prprio globo imenso" podem conter uma referncia irnica ao nome do teatro londrino 
em que Shakespeare encenava as suas peas. Mesmo que no contenha um elemento biogrfico, essa grande declarao de Prspero confirma a percepo do pblico de que 
o Mago no reza qualquer credo transcendental, seja de ordem crist ou hermtico/neoplatnica. A prpria viso de Prspero, assim como as torres e os palcios de 
Londres, e mesmo o Teatro Globe, ho de sumir, no sendo substitudos por Deus, pelo paraso ou qualquer outra entidade. Quanto a ns, pelo que consta, no nos aguarda 
a ressurreio: "[...] nossa vida / pequenina  cercada pelo sono". O que o pblico v sobre o tablado  uma "viso tnue" - o prprio pblico  uma "viso tnue". 
Decerto, Prspero irrita-se com a sua fraqueza, sua desateno, e com os desgnios assassinos de Caliban, mas o que irrita o pblico  a constatao de que, na 
prtica, o poderoso Mago  um niilista, uma espcie de "born lago" (que expresso atrevida!), cujos planos, necessariamente, levam ao desespero. Quando Prspero 
chama Ariel e diz - "Precisamos, esprito, estar prontos / para que Caliban no nos surpreenda" -, a resposta  notvel:
E certo, mestre. Quando trouxe Ceres, pensei em te falar,- mas tive medo de causar-te desgosto.
; [IV.i.]
Visto que, com a interveno de Prspero, Ariel, prontamente, pe Caliban, Estfano e Trnculo para correr, perseguidos por-espritos
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A TEMPESTADE
transformados em ces, cabe a pergunta: o que teria feito Ariel, se Prspero no tivesse percebido o perigo? Em momento algum da pea Ariel age sem ter ordens especficas 
de Prspero,- portanto, a ameaa da conspirao de Caliban talvez seja mais real do que geralmente suposto pela crtica. As palavras de Prspero a Ariel, no incio 
do quinto ato, denotam certo alvio,- o clmax da trama se aproxima:
Concretizam-se, enfim, meus planos todos,- meus feitios no falham,- meus espritos me obedecem e o tempo segue em linha reta com sua carga. Que horas so?
[Vi.]
Depois de ordenar a Ariel que liberte o Rei de Npoles e os demais dignatrios, Prspero atinge o apogeu da trajetria do anti-Fausto, em um grande discurso que 
fala de renncias, mas que gera mais perguntas do que respostas:
Vs, elfos das colinas e dos crregos, das lagoas tranqilas e dos bosques,- e vs que o rasto no deixais na areia, quando caais Netuno nas vazantes, ou dele vos 
furtais, quando retorna,- vs anezinhos brincalhes, que crculos,  luz do luar, traais de ervas amargas, que as ovelhas recusam,- e vs outros que criais por 
brinquedo os cogumelos noturnos e vos alegrais com o toque solene da manh,- com cujo auxlio - muito embora sejais mestres fraquinhos - fiz apagar-se o sol ao 
meio-dia, chamei os ventos revoltados, guerra suscitei atroadora entre o mar verde e a abbada azulada, o ribombante trovo provi de fogo, o tronco altivo
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#HAROLD  BLOOM
do carvalho de Jove abri ao meio, de seu prprio corisco me valendo,- abalado deixei os promontrios de fortes alicerces, os pinheiros e cedros arranquei pelas razes... 
Ao meu comando, os tmulos faziarji despertar os que neles repousavam, e, abrindo-se, deixavam-nos sair, to forte era a minha arte. Mas abjuro, neste momento, da 
magia negra,- uma vez conjurado mais um pouco de msica celeste - o que ora fao - para que nos sentidos lhes atue - tal  o poder do encantamento areo - quebrarei 
a varinha,- a muitas braas do solo a enterrarei, e em lugar fundo, jamais tocado por nenhuma sonda, afogarei meu livro.
[V.i.]
A fora potica de A Tempestade atinge o ponto culminante nessa suposta kenosis, em que Prspero se despoja de uma divindade mortal. Digo "suposta" porque os poderes 
pagos do Mago superam, de tal modo, o esperado, que chegamos a nos indagar se a renncia verbalizada por ele poder, de fato, anular-lhe a natureza, que, em si 
mesma,  Arte. Se os espritos supostamente dispensados so tachados de "mestres fraquinhos", gostaramos de saber quando e por que Prspero ressuscitou os mortos. 
A Arte do Mago, com efeito,  to potente que a expresso "magia negra", absolutamente, no se aplica. Que livro ser afogado, da extensa biblioteca de Prspero? 
Ser o tal compndio de sua prpria autoria?
A renncia de Prspero mais parece afirmao de poder. Nada que ele diz na pea o distancia mais de Shakespeare do que essa fala. No ouvimos aqui a voz de um poeta-dramaturgo, 
mas de um mago cuja arte
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A TEMPESTADE
 se tornara de tal ordem internalizada que j no pode ser abandonada, apesar da vontade do indivduo. A nica cena que constitui o quinto ato segue por mais de 
duzentos 
e cinqenta versos, ao longo dos quais a autoridade de Prspero jamais enfraquece. Porque Antnio e Sebastio, que no expressam qualquer arrependimento, no fazem 
algo contra Prspero, se este j no domina espritos? Quando Prspero, em um aparte a Sebastio e Antnio, diz-se ciente da conspirao da dupla infame contra o 
Rei Alonso, embora afirme - "No quero / neste instante contar coisa nenhuma" -, por que no o executam sumariamente? Sebastio apenas resmunga, em aparte: "O diabo 
fala pela tua boca",- certo est, na perspectiva dos viles, Prspero  o diabo em figura de gente a aterroriz-los. O Mago pode tentar abandonar a sua arte, mas 
no fica claro se a autoridade sobrenatural que possui o abandonar. A profunda melancolia observada em Prspero no desfecho da pea pode no estar relacionada  
suposta renncia de poderes.
A partir dessa fala, o restante da pea incluir momentos de triunfo, i.c., reencontros, reconciliaes, at mesmo indicaes de que Prspero e Caliban havero de 
achar um meio de se relacionar,- muito, porm, fica sem explicao. No nos  informado se Caliban ser autorizado a permanecer na ilha,- ser que vai acompanhar 
Prspero a Milo, "onde cada terceiro pensamento [do Mago] / ser dedicado  [...] sepultura"? A idia de Caliban na Itlia  quase inconcebvel,- perfeitamente 
concebveis so as presenas de Antnio, em Milo, e Sebastio, em Npoles. Supe-se que o casamento de Ferdinando e Miranda h de atuar, em ambos os reinos, como 
uma espcie de garantia contra usurpadores, embora, nessas questes, nunca se sabe o que pode ocorrer. Em certos aspectos, Prspero, em Milo, na qualidade de governante 
reempossado,  idia to inquietante quanto a de Caliban, como estudante, na referida cidade. Gonzalo, em trecho notvel, diz que Ferdinando
[achou] uma esposa, onde ele prprio se dava por perdido,- o Duque Prspero, o ducado numa ilha to modesta/ e todos ns nos encontramos, quando j no ramos donos 
de ns mesmos.
[V.i.]
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#HAROLD   BLOOM
As implicaes das palavras de Gonzalo escapam a ele prprio, pois  bem possvel que o verdadeiro ducado de Prspero seja sempre a ilha modesta, em que ningum 
 dono de si mesmo, uma vez que todos pertenciam a Prspero - o nico dono de si mesmo. Como poder o Mago, sejam quais forem os poderes que lhe restam, encontrar 
a si mesmo em Milo?
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HENRIQUE VIII
As sucessivas releituras que fao de Henrique VIII fazem-me duvidar da hiptese de grande parte da pea ter sido escrita por John Fletcher. Embora seja melhor poema 
dramtico do que pea teatral, Henrique VIII possui extraordinria unidade, e pouco que possa sugerir a participao de Fletcher. Dando nfase ao espetculo visual, 
Henrique VIII conta com grandes "papis" - Wolsey, Catarina, Henrique -, em vez de "personagens", e o maior fascnio da pea (pelo menos para mim)  o distanciamento 
de Shakespeare com relao aos protagonistas, que o interessam somente quando em declnio (Buckingham, Wolsey, Catarina e, por um triz, Cranmer), mas que, nesse 
processo, tanto cativam a simpatia do poeta, e a nossa.
O eterno dilema da pea  o Rei, to distante das verses de Holbein e Charles Laughton. Shakespeare, sempre cauteloso em questes polticas, evita qualquer insinuao 
de culpa, da parte de Henrique, pela queda dos seus protegidos, embora, por outro lado, jamais exonere, totalmente, o Rei. At o confronto entre catlicos e protestantes 
 de tal maneira mitigado que Shakespeare parece ser imparcial. A pea  de uma eloqncia plangente, ainda que apresente, na concluso, um patriotismo exacerbado, 
quando Cranmer profetiza o reino glorioso da recm-nascida Rainha Elisabete. O pblico precisa ter na lembrana que a Rainha Ana Bolena, alm de Cromwell e Tomas 
Morus (mencionado na pea como substituto de Wolsey), foi decapitada, e que o prprio
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#HAROLD  BLOOM
Cranmer, embora poupado por Henrique, mais tarde, viria a ser cremado vivo. Nenhum "personagem" da pea  contemplado em sua dimenso interior,- so figuras herldicas 
dotadas de belas vozes, e isso  tudo o que Shakespeare deseja que sejam. S mesmo o Rei no  um "retrato falante",- se  mais, ou menos, do que tal  uma questo 
de opinio, pois Shakespeare  evasivo a esse respeito. Henrique, todo-poderoso, de certo modo, escapa  responsabilidade pelo castigo dado a Wolsey, e pelo mal 
perpetrado a Buckingham e a Catarina. Perspectivas conflitantes quanto ao Rei, que carece de um lado perverso que o tomasse interessante, sequer nos so oferecidas. 
Diretores e atores podem fazer o que quiserem com o papel; todas as montagens a que assisti abraavam o arqutipo criado por Holbein e Laughton, embora o texto 
pouco sustente tal interpretao.
Por que Shakespeare escreveu Henrique VIII? O subttulo, Tudo E Verdade, presta-se a diversas leituras, nenhuma das quais muito convincente. A pea contm verdades 
e inverdades, como Shakespeare, provavelmente, bem o sabia. A representao do Rei seria improvvel - se  que existe na pea alguma representao. De incio, Henrique 
nada tem de esperto,-  ludibriado por Wolsey, e s se d conta disso quando o perverso Cardeal-Lorde Camareiro se descuida da correspondncia. Mais tarde, um Henrique 
mudado salva Cranmer, mas no somos informados sobre o que tomou mais apurado o discernimento do Rei. Sequer sabemos se  o temperamento insacivel de Henrique 
que o leva a descartar Catarina (culpar Wolsey pelo ato do Rei no parece plausvel). Shakespeare aceita tudo. "Tudo  verdade" significa: no faa quaisquer julgamentos 
de natureza moral, pois no so seguros nem teis,- contemple esse grandioso espetculo,- oua esses lamentos elegacos,- sinta nostalgia pela glria que foi Elisabete.
Do ponto de vista formal, Henrique VIII tem caractersticas processionais, e constitui um retorno ao teatro pr-shakespeariano. Shakespeare, cansado da prpria genialidade, 
desfaz aqui muito do que havia inventado. No nos identificamos com a ao de Henrique VIII, a no ser aqueles de ns que acreditam haver descido de uma posio 
de grandeza. Poema dramtico do adeus s coisas, a pea  to-somente um
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HENRIQUE VIII
espetculo, talvez, um canto do cisne (embora seguida de Os Dois Nobres Parentes, de Fletcher e Shakespeare). Russell Fraser, elogiando Shakespeare por ter "dominado 
a retrica mais elevada jamais escrita em lngua inglesa", admite, de esguelha, que os protagonistas de Henrique VIII "danam todos a mesma msica". Em seu declnio, 
sem dvida, todos so igualmente nobres na pea,- os "indivduos" shakespearianos j no existem. Para Samuel Johnson, em Henrique VIII, "a genialidade de Shakespeare 
aparece e desaparece com Catarina", opinio que me surpreende, pois os estertores de Buckingham e Wolsey so extremamente semelhantes aos lamentos de Catarina. 
Contudo, Johnson, grande moralista, comovia-se com "a tristeza meiga e o nobre sofrimento" da Rainha desprezada, e, devo reconhecer, Buckingham nada tem de meigo, 
tampouco Wolsey  nobre. Esse poema dramtico, de certo modo, escapa a Johnson, para quem a protagonista shakespeariana predileta era Cordlia... A verdade  que 
Henrique VIII, em termos estritamente poticos, merece mais reconhecimento do que tem sido o caso. Conforme Os Dois Nobres Parentes, Henrique VIII introduz um estilo 
novo, original, que transcende as imagens cnicas que o decantam. Temos o primeiro grande momento potico quando, levado ao "longo / divrcio de ao", Buckingham 
compara o prprio destino ao do pai, morto por ordem de Ricardo in:
Quando aqui vim, era o alto condestvel,
Duque de Buckingham,- porm agora
sou apenas o pobre Eduardo Bohun.
Porm mais rico sou do que os meus baixos
acusadores, que jamais souberam
o que fosse lealdade, que ora eu selo
corn o prprio sangue, o qual h de faz-los
algum dia gemer. Meu nobre pai,
Henrique de Buckingham,
que contra a tirania de Ricardo
foi o primeiro a rebelar-se, tendo
pedido asilo em casa de seu criado - "/"
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#HAROLD  BLOOM
HENRIQUE  VIII
Banister, porque estava na desgraa, foi trado por esse miservel, vindo logo a morrer sem julgamento. Que a pez de Deus seja com ele! Henrique VII, ao trono aps 
tendo subido, sinceramente lastimando a sorte
de meu pai, como prncipe s direitas, reintegrou-me nas honras e das runas fez meu nome sair com maior brilho.
Mas agora seu filho Henrique VIII vida, honra e nome, quanto me deixava feliz, de um golpe fez que para sempre sumisse deste mundo. Julgamento concedido me foi, 
sendo foroso que o declare: mui nobre. Isso me deixa um pouco mais feliz do que o meu muito desventurado pai. Mas numa coisa nos iguala o destino: o termos sido 
trados pelos criados, justamente pelas pessoas que mais amvamos. Desleal servio e contra a natureza! Seus fins o cu em toda a parte mostra. Porm vs que me 
ouvis, de um moribundo recebei este aviso indubitvel:
Sempre que fordes liberal com vossos conselhos e afeio, tende cautela, pois os prprios amigos que fizerdes, o corao lhes dando, ao perceberem a menor diferena 
em vossa sorte, de vs se afastaro como o faz a gua, s retornando para assoberbar-vos e tragar-vos por fim. Gente bondosa, rezai por mim. Foroso  que vos deixe. 
A hora postrema j soou de minha
vida to dilatada e cansativa.
Adeus.
Quando algo triste relatar quiserdes,
contai como eu ca. Aqui termino.
E que Deus me perdoe.*
[H..]
Essa passagem deixa transparecer, de modo contundente, o receio obsessivo que sente Shakespeare de ser trado por um amigo, fazendo lembrar a situao dos Sonetos, 
bem como a fala do Ator Rei, em Hamlet, acerca do conflito de vontades. Existe, ainda, certa afinidade com a Elegia Fnebre para Will Peter, escrita logo antes 
de Henrique VIU, a Elegia, cujo contedo tanto antecipa os lamentos encontrados na pea em foco, expressa a amargura do poeta por ter sido caluniado. Talvez Shakespeare 
tambm achasse que era s um "pouco mais feliz do que o [seu] muito / desventurado pai". No sabemos, ao certo, se a Intriga Infame condenara o relacionamento do 
poeta com Will Peter, talvez, insinuando algo semelhante ao que aparece expresso nos Sonetos. Os lamentos que constam do texto de Henrique VIII contm uma melodia 
espiritual que sugere uma tristeza de carter ntimo, pelo menos aos meus ouvidos. Os discursos de Wolsey que falam de perdas so at belos demais para um indivduo 
to venal como ele,- mais uma vez, a sonoridade do lamento sugere algum desgosto pessoal:
Adeus ao pouco bem que me votveis. Adeus, um longo adeus a toda a minha grandeza. Esse  o destino de todo homem: hoje lhe nascem as folhinhas tenras da esperana,- 
amanh ele floresce, carregado ficando de honradas,- mas no terceiro dia vem a geada,
A Famosa Histria da Vida do Ret Henrique VIII. Traduo de Carlos Alberto Nunes. So Paulo: Edies Melhoramentos, s.d. Todas as citaes referem-se a essa edio. 
{N.T.]
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#HAROLD  BLOOM
uma geada mortal, e no momento
preciso em que ele - quo simplrio e calmo! -
cr que sua grandeza est madura,
ela a raiz lhe morde, caindo ele
tal como agora eu caio. Aventurei-me
como crianas que nadam com bexigas,
durante estios vrios num oceano
de glrias, mas profundo em demasia.
Minha vaidade, inflando-se ao extremo,
arrebentou sob mim, ora deixando-me
cansado e envelhecido no servio,
ao sabor de uma rude correnteza
que para sempre acabar tragando-me.
Glrias vs deste mundo, pompas fteis,
tenho-vos dio! O corao se me abre
a novos sentimentos. Triste a sorte
de quem depende do favor dos prncipes!
Entre o sorriso a que ele aspira tanto,
o aspecto prazenteiro do monarca,
e sua runa h mais angstia e medo
do que na guerra ocorre ou nas mulheres.
E quando a queda vem, quem cai  Lcifer,
privado da esperana.
[IH.ii.]
Nenhum espectador ou leitor poder ter simpatia por Wolsey, religioso perverso que merece toda a vergonha e humilhao a que  submetido. Porm, mais uma vez, como 
na Elegia Fnebre, a melodia do infortnio parece intensa e prxima. No seria o "prncipe", na verdade, Henrique Wriothesley, o terceiro Conde de Southampton, em 
vez de Henrique VIII? A pergunta, apesar de impossvel de ser respondida, tem pertinncia crtica, quando mais no seja, porque o papel vil de Wolsey no merece 
a grandeza da poesia que fala do seu declnio. O pro-
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HENRIQUE  Vil!
de Wolsey no  perversidade, mas pequenez. Wolsey no  lago, o Macbeth,  apenas um administrador corrupto, o arqutipo
ltico Wolsey no pode cair como Lcifer,- fica longe de ser a estrela da manh que cai na perdio. Contudo, o espantoso talento de h kespeare em sua fase mais 
madura, canta a derrota desse simples hipcrita. Entretanto, falando comercialmente, espetculo  espetculo, e o estilo forte e exuberante da linguagem da pea 
 inteiramente adequado. Dirigindo-se a Cromwell, seu assistente, Wolsey exorta-o a abandon-lo, usando um tom por demais elevado para falar da queda de um poltico:
Enxuguemos os olhos. E ora escuta-me.
Quando esquecido eu j estiver - que  certo
vir a s-lo - e dormir no frio mrmore,
quando ningum pronunciar meu nome,
dirs que te mostrei, dirs que Wolsey -
que as estradas da glria percorrera
e os abismos sondara mais profundos
e as sirtes do comando - em seu naufrgio
te mostrou o caminho da grandeza,
o caminho seguro e confortvel
que ele prprio perdera. Observa apenas
minha queda e o que fez minha runa.
Despe-te da ambio, Cromwell, te peo.
Esse pecado derrubou os anjos,-
como til poderia ser aos homens,
de Deus feitos  imagem? No reveles
egosmo,- ama aos prprios inimigos
No lucrars por meio do suborno
mais do que com a verdade. Traze sempre
na destra a doce paz, para que as lnguas
invejosas reduzas ao silncio.
S justo e nada temas. Que tuas metas
se identifiquem sempre com as da ptria,
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#HAROLD   BLOOM
de Deus e da verdade, pois,  Cromwell! No caso de cares, tua queda ser a de um grande mrtir. Serve ao rei e, por obsquio, deixa-me. O inventrio
fars de tudo quanto tenho, tudo,
at o ltimo pni, ao rei pertence.
Minha lealdade ao rei e minhas vestes
 tudo que me resta.  Cromwell, Crotn,weHl
Se ao meu Deus eu tivesse revelado
metade, s, do zelo com que sempre
servi o soberano, ele decerto
no me teria, nesta idade, entregue
nu aos meus inimigos.
[III..]
corn uma eloqncia imensurvel, essa sublime reflexo, certamente, no se aplica ao prprio Shakespeare, cujas ambies materiais no iam alm de um braso de armas 
e do conforto de sua abastada aposentadoria em Stratford. Tampouco o teor religioso da fala condiz com Shakespeare, a despeito da estranha mescla de religiosidade 
defensiva e ceticismo quanto  ressurreio, encontrada na Elegia Fnebre.  possvel que, em 1612-13, o autor se sentisse "nu aos [seus] inimigos", noo que emana 
da Elegia, mas, se  que tais inimigos existiam, no sabemos quem eram. Talvez Shakespeare, perto de completar cinqenta anos, estivesse enfermo, ou traumatizado 
por intrigas, ou ambos. Convm lembrar, diferentemente de Marlowe e Ben Jonson, Shakespeare, na mo direita, trazia sempre a doce paz, para ao silncio reduzir as 
lnguas invejosas. No  preciso ser o grande Dr. Samuel Johnson para comovermo-nos, imensamente, com as palavras finais da Rainha Catarina:
[...] Estando eu morta, boa menina, trata-me com honra. Virginais flores pe no meu sepulcro, para que todos saibam que uma esposa
836
HENRIQUE  VIII
casta eu fui at  morte. Embalsamai-me e exibi-me. Conquanto no rainha, como rainha quero que me enterrem, como filha de rei. No posso mais...
[IV.ii.]
E so as palavras, em si, que nos emocionam,- a pobre Catarina  por demais pattica para sustentar esse grande momento, de uma harmonia contida, e perguntamo-nos, 
mais uma vez, qual seria a inspirao de Shakespeare nessa cena? Paradoxalmente, o poeta-dramaturgo chega a uma posio em que o texto dramtico, do qual havia se 
distanciado, ainda lhe incita a criatividade, enquanto a dor sincera, visvel na Elegia, d origem a um poema cuja banalidade (no generalizada) leva vrios estudiosos 
a rejeitar a hiptese de autoria shakespeariana.
No consigo resolver o dilema que  Henrique VIII, e no sei bem como reagir ao arroubo e  exaltao da clebre profecia verbalizada por Cranmer no fim da pea, 
a respeito da menina Elisabete. Morto  idade de cinqenta e dois anos, Shakespeare no chegou a vivenciar a velhice, mas um "estilo idoso" predomina em Henrique 
VIU. Falstaff, um dos principais porta-vozes de Shakespeare - talvez, mais at que Hamlet -, esconde a prpria idade, o que o toma, ainda mais, o heri cmico que 
ele . O mundo parece velho em Henrique VIU, bem como nas cenas escritas por Shakespeare em Os Dois Nobres Parentes. Iluminado, Shakespeare sabia que chegara o fim 
de sua era, por ns batizada, arbitrariamente, tanto tempo depois. Henrique VIU  elegia que celebra uma grandiosa obra dramtica, capaz de mudar o mundo, e, de 
modo consciente, encerra uma despedida do imenso talento do dramaturgo.
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#35
OS DOIS NOBRES-PARENTES
Em ltima anlise, a supremacia de Shakespeare reside em sua inigualvel capacidade de cognio. Como se trata de cognio potica, geralmente de natureza dramtica, 
costumamos pens-la em termos de imagens, e no de capacidade de argumentao. E, mais uma vez, o inventor William Shakespeare nos surpreende. Ningum melhor do 
que ele dominou a forma de representar o pensamento, bem como a ao. Ser possvel distinguir entre o pensamento de Shakespeare e as representaes do pensamento 
por ele criadas? Quem pensa com excessiva clareza, Shakespeare ou Hamlet? Hamlet  seu prprio lago e seu prprio Falstaff, pois Shakespeare o fez o mais livre 
dos "artistas livres de si mesmos", segundo as palavras de Hegel. A eminncia de Shakespeare entre os grandes poetas  que, comparado at mesmo a Dante e Chaucer, 
ele  mais livre na criao de seus artistas livres de si mesmos. Nietzsche sugeriu que o Hamlet dionisaco teria morrido em decorrncia da verdade, presumivelmente, 
aps abandonar a arte. O Hamlet do quarto ato, certamente, no  o poeta-dramaturgo-encenador que vemos no segundo e no terceiro atos, e Shakespeare faz o prncipe, 
agonizante, dar a entender que adquiriu um novo tipo de conhecimentos ao qual ainda no temos acesso. Tal conhecimento adviria de um pensar novo, iniciado com a 
transformao de Hamlet, observada a partir da viagem martima  Inglaterra (que no chega a termo). As nicas evidncias de alterao no pensamento do prprio Shakespeare
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OS  DOIS  NOBRES  PARENTES
Itam de indicaes de que suas melhores peas teriam induzido ndes transformaes no autor. A experincia de escrever Hamlet, Rei l r Macbeth, Antnio e Clepatra, 
Conto do Inverno e A Tempestade deixaria marcas perceptveis na ltima obra, Os Dois Nobres Parentes, e tais marcas oarecem sugerir um novo Shakespeare, que em breve 
abandonaria a atividade dramtico-literria, aps haver alcanado, e ultrapassado, os limites da arte e, talvez, do prprio pensamento.
Segundo consta, os trechos shakespearianos de Os Dois Nobres Parentes (1613) constituem os derradeiros escritos do autor de Hamlet e Rei Lear. Jamais assisti a uma 
montagem de Os Dois Nobres Parentes, e no tenho grande interesse em faz-lo, visto que, raramente, a contribuio de Shakespeare ao texto em questo  de natureza 
dramtica. No h consenso crtico sobre as qualidades da pea,- quanto a mim, considero o estilo de Shakespeare, nessa obra final, mais do que nunca, apurado e 
marcante, embora bastante difcil de ser assimilado. Os propsitos do autor so aqui enigmticos,- o autor abandona a preocupao com personagem e personalidade, 
que o acompanhara ao longo de toda a carreira, e, em Os Dois Nobres Parentes, exibe uma viso mais sombria, mais distanciada, da vida humana do que podemos constatar 
em toda a sua obra pregressa. Espetculo, ritual, celebrao, seja qual for a classificao adotada, a participao de Shakespeare nessa pea inclui poesia de uma 
qualidade espantosa, mesmo para Shakespeare, ainda que se trate de uma poesia extremamente difcil, e pouco adequada ao teatro. E essa mesma poesia no se coaduna 
muito bem com a pea em sua totalidade, isto , os trechos escritos por John Fletcher, no que talvez tenha sido o terceiro trabalho de colaborao da dupla. Uma 
vez que Cardnio (escrita pelos dois) no sobreviveu ao tempo, e que Fletcher escreveu, relativamente, pouco (ou nada) em Henrique VIII, Os Dois Nobres Parentes 
 a nica pea em que, certamente, os dois autores trabalharam juntos. Os colegas de Shakespeare, ao editarem o Primeiro Flio, incluram no volume Henrique VIU, 
mas no Os Dois Nobres Parentes, assim, atribuindo esta ltima a Fletcher (ento dramaturgo titular da companhia, e sucessor de Shakespeare). A maioria dos estudiosos 
hoje acredita ter Shakespeare escrito o primeiro ato, a primeira cena do terceiro e o
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#HAROLD   BLOOM
quinto ato ( exceo da segunda cena). Trs quintos da pea so, nitidamente, de autoria de Fletcher, trechos, ao mesmo tempo, alegres e bastante superficiais. 
Em Os Dois Nobres Parentes, os dois quintos escritos por Shakespeare tm contedo sombrio e profundo e, talvez, ensejem maior percepo da vida do autor, nessa fase 
final, do que Cimbeline, Conto do Inverno e A Tempestade.
Mais lrica do que dramtica, a contribuio de Shakespeare a Os Dois Nobres Parentes caracteriza-se por pouca ao e mnima representao de personagem. Antes, 
ouvimos uma voz que, longe de ter, como em Henrique VIU, um timbre idoso (Shakespeare estava com quarenta e oito anos), apresenta um cansao com relao s paixes 
arrebatadoras, e ao sofrimento tpico dos que Cherteston chamaria "grandes espritos acorrentados". Prspero, o anti-Fausto shakespeariano, foi o ltimo grande esprito 
criado pelo autor. Teseu, que na concluso de Os Dois Nobres Parentes parece falar por Shakespeare, no passa de uma voz, e uma voz inteiramente distinta da do Teseu 
de Sonho de uma Noite de Vero. Enquanto, na primeira verso, Teseu ficava aqum de Hiplita, na verso final ele se equipara  amazona. Esse Teseu tardio  o ltimo 
poeta criado por Shakespeare, possivelmente, refletindo o que eu chamaria de aposentadoria hesitante e inquieta. Shakespeare, supostamente, teria retornado para 
Stratford, no fim de 1610, ou no incio de
1611, mas voltaria a Londres, em vrias ocasies, at 1613. Depois disso, durante quase trs anos antes de morrer, permaneceu em Stratford, afastado da pena. E o 
resto  silncio - mas por qu?
Tudo  conjetura,- porm, creio eu, as melhores indicaes quanto ao referido silncio encontram-se em Os Dois Nobres Parentes. O afastamento de Shakespeare com 
relao  arte , praticamente, singular nos anais da literatura ocidental, e mesmo, salvo engano, na pintura ou na msica. Tolstoy abandonou a fico, durante algum 
tempo, dedicando-se a escritos religiosos, mas voltou  literatura, magistralmente, com o romance HadjiMurad. Certos poetas deveriam ter se aposentado e no o fizeram,- 
Wordsworth, depois de 1807, e Whitman, depois de 1865, escreveram muito mal. J Molire morreu aos cinqenta anos, ativo, logo aps ter escrito, dirigido e atuado 
como protagonista em O Doente
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OS  DOIS  NOBRES  PARENTES
hakesneare segundo consta, deixou de atuar relativamente ma<o- Jnar"   K .    .
em 1604, s vsperas de completar quarenta anos, e, presumivel-
"ente, dirigiu todas as peas de sua autoria, at Henrique VIU, embora, talvez tenha parado de dirigir antes, em 1611, pois  poca j se teria
dado para Stratford. Podemos to-somente conjeturar, se ele supervisionou a montagem de A Tempestade, em 1611, ou se presenciou o incndio que reduziu a cinzas o 
Teatro Globe, durante uma exibio de Henrique VIU, em 29 de junho de 1613. Bigrafos deduziram alguns dos fatos relativos  vida familiar e s atividades financeiras 
dos ltimos trs anos da vida do dramaturgo, mas nada podem acrescentar s especulaes quanto  deciso de Shakespeare de pr um ponto final a uma carreira de dramaturgo 
que se desenvolvera ao longo de um quarto de sculo. Russell Fraser, o bigrafo shakespeariano que mais admiro, a contragosto, reafirma a fantasia de Theodore Spencer, 
de que uma comisso de representantes da companhia teatral Kings Men teria visitado o amigo, pedindo-lhe que deixasse a composio das peas a cargo de John Fletcher, 
que, em 1613, estaria mais em voga do que o ultrapassado Shakespeare. com efeito, posso imaginar o embarao e frustrao dos atores, diante das falas que Shakespeare 
lhes fornecera em Os Dois Nobres Parentes. Mas esses mesmos atores saberiam muito bem que, comparado a Shakespeare, de cujo estrondoso sucesso tanto haviam se beneficiado, 
Fletcher no passava de um amador.
Nesse esforo final, Shakespeare, infinitamente criativo, vai alm do romance e da tragicomdia, alcanando um novo subgnero, a partir de Chaucer, seu mais autntico 
precursor, e nico rival em lngua inglesa. Shakespeare volta ao Conto do Cavaleiro, conforme fizera ao escrever Sonho de uma Noite de Vero, e, nessa segunda oportunidade, 
utiliza-se de Chaucer de forma bem mais direta. Chesterton, ciente das relaes entre Chaucer e Shakespeare, comenta, a respeito do Conto do Cavaleiro-.
O prprio Chaucer, por assim dizer, no vai para a priso com Palamo e Arcite, mas Shakespeare, de certo modo, vai para a priso com Ricardo 11. Sim, at certo 
ponto, e de uma maneira sutil, Shakespeare parece identificar-se com Hamlet, que
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#HAROLD  BLOOM
considera a Dinamarca uma priso, o mundo inteiro uma priso. Nas tragdias de Chaucer, de natureza mais simples, podemos at dizer, "ensolaradas", no temos a sensao 
de que a alma esteja encurralada. No mundo de Chaucer, os infortnios so infortnios, como nuvens carregadas no cu - mas existe um cu.
Contudo, com Os Dois Nobres Parentes, Shakespeare no tem o menor interesse de ir para a priso (ou para qualquer outro lugar) com Palamo e Arcite, e a pea (pelo 
menos os trechos escritos por Shakespeare) consta de nuvens carregadas, sem um cu. Enquanto Shakespeare, em Sonho de uma Noite de Vero, baseou a sua verso deTeseumais 
no Cavaleiro do que no Teseu criado por Chaucer, em Os Dois Nobres Parentes, Teseu  uma figura rspida, exceto no desfecho da pea, quando parece mais calmo, mais 
parecido com o prprio Shakespeare. O Cavaleiro de Chaucer e a primeira verso do Teseu shakespeariano so cticos com relao s convenes da fidalguia medieval,- 
na verso final, Teseu pode ser considerado um niilista brutal, embora mantenha aparncias de fidalguia. O ethos do poema de Chaucer  resumido em um dos dsticos 
do Cavaleiro:
Mais vale ao homem bem se comportar, Pois, cada dia, no sabe o que encontrar.
Meu velho amigo, e grande especialista em Chaucer, Talbot Donaldson, assim parafraseava esses versos:
 bom que nos comportemos com serenidade, pois estamos sempre nos deparando com pessoas com as quais no marcamos encontro algum.
No  bem essa a atitude de Teseu nos ltimos versos de Os Dois Nobres Parentes, at onde sabemos, os ltimos escritos por Shakespeare:
Feiticeiros celestes!
O que fazeis de ns! O que no temos
Nos faz rir,- o que temos faz chorar,-
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OS  DOIS  NOBRES  PARENTES
Somos qual crianas. Sejamos gratos Pelo que temos,- fica a vosso cargo O que a ns no compete. J nos vamos,  a conduta da hora.
[V.iv.]
Voltarei a essa passagem no final do presente captulo, mas, por enquanto, quero apenas ressaltar que a frase "E a conduta da hora" remete  idia de "bem se comportar", 
ao mesmo tempo em que sugere um desvio da serenidade chauceriana. Chaucer, alm de satirista genial,  de uma ironia extremamente bem-humorada,- em Os Dois Nobres 
Parentes, conforme veremos, a ironia  absolutamente mordaz. Quem acha que Shakespeare chega ao limite mximo do azedume em Trio e Crssida e Medida por Medida, 
surpreende-se com a transposio desse limite em Os Dois Nobres Parentes. Marte e Vnus comandam a pea, sendo difcil decidir qual das duas divindades  mais repreensvel, 
ou mesmo se faz sentido tentar distinguir uma da outra. "Faa o amor, no a guerra!", o clebre refro dos anos sessenta, toma-se, em OsDoisNofcrcs Parentes, algo 
extremamente vazio, pois Shakespeare, aos quarenta e nove anos de idade, espalha violncia e eros, promovendo um imbrglio que no ser resolvido.
Quanto  natureza e  viso de mundo, a obra de Shakespeare, de
1588 at Noite de Reis, em 1601,  profundamente chauceriana. O dramaturgo das peas-problema, das grandes tragdias e dos romances ainda presta homenagem a Chaucer, 
mas o uso final que faz do maior de seus precursores revela-nos um Shakespeare diferente, ironicamente abandonado pela genialidade. Houvesse um teatro onde seus 
textos pudessem ser encenados, talvez, Shakespeare nos tivesse legado mais trs ou quatro peas, mas, evidentemente, ele sabia que em teatro algum seriam encenadas 
tais peas,- na verdade,  duvidoso que, apesar de todo o seu prestgio, o autor pudesse encontrar algum "produtor" de teatro disposto a pr em cena um niilismo 
ainda mais exacerbado do que o
Na ausncia de edies da pea disponveis em lngua portuguesa, ofereo aqui uma traduo livre dos trechos da pea citados pelo autor. [N.T.]
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#HAROLD  BLOOM
encontrado em Os Dois Nobres Parentes, mesmo que tal niilismo fosse possvel. O Conto do Cavaleiro evita o abismo niilista, embora as respectivas implicaes sejam 
bastante sombrias: a vida  comandada pelo capricho.
Os heris de Chaucer, Palamo e Arcite, so irmos de sangue e idealistas em termos de fidalguia... at vislumbrarem a bela Emlia, irm de Hiplita, agora casada 
corn Teseu de Atenas. A partir dessa paixo, os antigos parceiros tomam-se inimigos mortais, decididos a competir por Emlia at  morte. Teseu organiza uma grande 
competio para resolver o impasse, mas a vitria de Arcite mostra-se irnica, pois, enquanto cavalga pela pista, recebendo os cumprimentos, cai do cavalo, sendo 
ferido mortalmente. Por conseguinte, Palamo fica com Emlia, e Teseu discursa, afirmando ser tudo desgnio dos deuses.
Mas Teseu no fala em nome do Cavaleiro-narrador, tampouco em nome de Chaucer, embora as diferenas entre os trs sejam tnues. Para o Cavaleiro, o amor  um acidente, 
a vida  acidental, inclusive o fim da amizade entre Palamo e Arcite. Talbot Donaldson acha que, em Chaucer, o acaso comanda tudo, inclusive o amor e a morte, o 
que reduz a teodicia de Teseu, mas reafirma a aceitao estica, da parte do Cavaleiro, quanto  ocorrncia dos "encontros imprevistos". Sendo Palamo e Arcite, 
praticamente, indistinguveis, e a pobre Emlia permanecendo uma figura passiva, o leitor pouco se importaria, no fossem as sutis negativas sugeridas por Chaucer. 
Palamo, Arcite e Emlia rezam, respectivamente, nos templos de Vnus, Marte e Diana, todos tabernculos da dor, repletos de representaes de vtimas e de sofrimento. 
O Cavaleiro descreve tudo isso com leve satisfao, mas ns sentimos calafrios, e Chaucer, nitidamente, pretende deixar-nos impressionados.
Talbot Donaldson comenta: "Enquanto, em Chaucer, os horrores parecem advir dos deuses, Shakespeare os devolve ao ponto de onde saram: ao corao das pessoas". com 
respeito a Os Dois Nobres Parentes, essa afirmao  por demais modesta: eros  o verdadeiro horror, a primeira e ltima enfermidade, universal, afligindo homens 
e mulheres, de todas as idades, desde o momento em que deixam a infncia e ingressam nos infortnios da vida sexual. Decerto, em Os Dois Nobres
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OS   DOIS  NOBRES  PARENTES
P rentes os trechos escritos por Shakespeare levam-nos a crer que a vida ia apenas infortnio. O primeiro ato abre com trs rainhas de luto, atirando-se aos ps, 
respectivamente, de Teseu, Hiplita e Emlia. Essas mulheres vestidas de preto so vivas de trs reis, dentre os Sete Contra Tebas cujos corpos em decomposio 
jazem ao redor das muralhas da cidade de Creon, tirano que se recusa a enterr-los. O lamento das rainhas  de natureza ritualista, e barroco em seu floreio:
Somos trs rainhas, cujos soberanos, tombados ante a ira cruel de Creon, sofrem em bicos de corvos e garras de abutres, nos sujos campos de Tebas. Creon no nos 
deixa cremar-lhes os ossos, e guardar-lhes as cinzas,- no remove do olhar abenoado do deus Febo a viso repugnante dos defuntos, mas infecta o ar com o mau odor 
dos nossos homens mortos. Piedade!  Duque! Limpai a terra,- sacai a espada que o bem faz no mundo,- dai-nos os ossos dos reis mortos,- para o templo sero levados. 
Em vossa bondade, constatai: no dispomos de um teto que nos abrigue as cabeas coroadas, apenas o cu aberto, a abbada que tambm serve ao leo e ao urso.
[I--]
O cerne do lamento bem poderia ser reduzido a cerca de dez versos, mas o que importa  o maneirismo do discurso. A exuberncia, nem tanto da dor, mas da indignao, 
 o que predomina. Indignao  a tonalidade retrica do estilo final exibido por Shakespeare, em que a maioria das vozes fala em tom de protesto: contra a injustia, 
contra o tempo, contra eros, contra a morte. Thomas De Quincey, crtico do
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#HAROLD   BLOOM
perodo Romntico, extremamente atento a questes retricas, considera o primeiro e o quinto atos de Os Dois Nobres Parentes "a obra mais extraordinria em lngua 
inglesa", e elogia o estilo de Shakespeare, aqui, mais do que nunca, "sofisticado e brilhante". Quais seriam as razes poticas dessa extraordinria sofisticao? 
Theodore Spencer, refletindo sobre os "ritmos lentos" e a "graa formal" aqui exibidos, vislumbra um efeito crico, que distancia a ao:
Em Os Dois Nobres Parentes, os trechos de autoria de Shakespeare contm encantamento, tom e ordem inconfundveis: um encantamento que faz aceitar a iluso, um tom 
que faz esquecer a tragdia, e uma ordem cujos limites se expandem, formando uma unidade mais ampla, de tolerncia e fantasia.
Spencer, autor de uma poesia lrica no estilo de Yeats, parece-me aqui descrever a ltima fase de Yeats, no de Shakespeare. Iluso, tolerncia e fantasia, em Os 
Dois Nobres Parentes, no constituem contedo nem forma. Um estilo, por assim dizer, "idoso" pode ser constatado no Yeats dos ltimos Poemas, no Hardy de Palavras 
do Inverno, ou no Stevens de A Rocha, mas no no Shakespeare de Os Dois Nobres Parentes. Se o maior de todos os poetas parece cansado no que concerne  paixo, parece, 
igualmente, vido de um distanciamento da pletora de estilos por ele mesmo, previamente, criados. A elipse passa a ser freqente figura de retrica, algo surpreendente 
em um estilo to barroco,- florear e, ao mesmo tempo, omitir  procedimento estranho, embora perfeitamente adequado a essa pea que fala do desejo destrutivo e do 
fim da amizade. Teseu reage  litania da Rainha, lembrando o dia, agora to distante, do casamento desta com Capaneu, um dos reis mortos:
Naquele dia estveis to formosa,- o manto dejuno no era belo como vossas madeixas, nem to farto,- vossa tiara de trigo estava intacta,- Fortuna vos sorria.
[I..]
OS  DOIS  NOBRES  PARENTES
s vsperas de seu prprio casamento, Teseu, abruptamente (e, A a-se de passagem, com pouco tato), lamenta o fato de a Rainha no ser mais to bela:
 a dor e o tempo,
que tudo consomem, tudo devoram!
[I..]
 essa sensao de perda, mais do que o clamor das rainhas, somado aos de Hiplita e Emlia, que leva Teseu a adiar seu casamento, capacitando-o a marchar contra 
Creon e Tebas. A primeira cena da pea, de uma intensidade herldica, engendra a segunda, igualmente deliberada, em que Palamo e Arcite so apresentados. Shakespeare 
no desperdia qualquer esforo procurando distingui-los entre si; na verdade, como primos inseparveis, parecem ter o mesmo carter altivo, um tanto puritano, e 
so totalmente desprovidos de personalidade. Para Shakespeare, e para ns, os dois personagens so interessantes como um comentrio custico  Londres de 1613, cidade 
que o dramaturgo abandonara em favor de Stratford, embora com certa hesitao, pois manteve vnculos com a capital. Em 1612, hereges e bruxos ainda eram executados, 
e, no ano seguinte, SirThomas Overbury foi envenenado, na Torre de Londres, por ordem da Condessa de Essex, por haver protestado contra o casamento da Condessa com 
o amante de Jaime I, Robert Carr. Como sempre, o circunspecto Shakespeare cerca de discrio e ambigidade seus comentrios, ainda que a Tebas de Creon seja, claramente, 
a Londres suja de Jaime L
ARCITE
Trata-se da virtude,
no respeitada em Tebas. Falo de Tebas,
cidade perigosa, a homens honrados
que nela desejarem residir,
onde o mal pelo bem se faz passar,
onde o que  bom parece mal, na certa,-
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#HAROLD   BLOOM
onde deixar de agir, exatamente, conforme os tebanos  ser estranho,  ser rechaado.
[I..]
Agir "exatamente" conforme Tebas-Londres exige  despencar do estado de inocncia que Palamo e Arcite seguem a celebrar. Guerreiros ferozes e sobrinhos de Creon, 
embora com ele estremecidos, os dois alegram-se de sua juventude, e de ainda serem "verdes quanto a crimes da natureza". Mas so jovens patriotas, e correm a socorrer 
de Tebas, quando Teseu marcha contra a cidade, por mais nobre que seja a causa do invasor. Shakespeare, mais irredutvel do que nunca, recusa-se a glorificar a guerra, 
e atribui  amazona Hiplita uma fala absolutamente chocante, quando ela e a irm, Emlia, dizem adeus a Pirito, primo e melhor amigo de Teseu, na ocasio em que 
segue para se aliar ao Duque no campo de batalha:
Somos soldados,- no vamos chorar quando os amigos pegam os seus elmos, ou zarpam mar afora, ou contam histria de infante morto  lana, ou de mulheres que cozinharam 
filhos - e os comeram - nas lgrimas vertidas ao mat-los.
[I.iii.]
Se formos capazes de conter o choro, diante de mes que cozinham, no caldo das prprias lgrimas, os filhos, para serem servidos no jantar, dificilmente conteremos 
o riso, como mecanismo de defesa. Uma vez que essa viso grotesca no causa, em Hiplita, nem pesar nem espanto, conclumos que Shakespeare, novamente, pe em prtica 
o "efeito de distanciamento" semelhante quele causado por Tio Andrnico, duas dcadas antes. Mas T/to  uma grande pardia a Marlowe e Kid. Qual seria a justificativa 
da presena desse sentimento em Os Dois Nobres Parentes? A imagem monstruosa  encarada como algo meramente factual, tanto por Hiplita quanto por Emlia, o que 
constitui mais uma
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OS  DOIS  NOBRES  PARENTES
indicao do distanciamento de Shakespeare, nessa pea fantstica.  extremamente difcil avaliar o fato de Hiplita no sentir cime da profunda amizade que existe 
entre Pirito e Teseu:
Os dois juntos j passaram a noite em locais perigosos e infames, expondo-se a riscos e privaes,- velejaram nas piores tempestades, e, lado a lado, a morte combateram. 
Entretanto, o destino os separou. O n do seu afeto, bem atado, cego, por dedos fortes amarrado, pode esgarar, mas no ser rompido. Teseu no pode ser juiz de 
si mesmo, dividir ao meio a prpria conscincia, saber de que metade gosta mais.
[I.iii.]
Uma esposa que afirma que o casamento pode at esgarar, mas jamais romper, o relacionamento entre o marido e o amigo mais ntimo demonstra uma impassibilidade espantosa, 
ainda mais porque, para Hiplita, evidentemente, a preferncia de Teseu no faz a menor diferena. A resposta de Emlia , ao mesmo tempo, educada e ainda mais impassvel: 
"Decerto ele prefere uma metade,- /  grosseria dizer que essa metade / no s tu". A menos que esteja parodiando suas prprias incurses em histrias de cime, 
inclusive Otelo e Conto do Inverno, Shakespeare oferece-nos aqui, na conscincia dessa amazona, uma perspectiva bastante distinta de qualquer outra previamente retratada 
em personagens femininas. Tudo isso serve de preldio ao trecho mais comovente escrito por Shakespeare sobre o afeto entre duas jovens. Rosalinda e Clia, amigas 
inseparveis, conforme demonstrado em suas paixes, respectivamente, por Orlando e Oliver, em muito diferem de Emlia e Flavina, separadas aos onze anos de idade:
849
#HAROLD   BLOOM
EMLIA
Falas do amor de Pirito e Teseu,
um afeto maduro, bem testado,
de razes nutridas pela ajuda
mtua e constante. Quanto a mim e  jovem
de que te falei, ramos ingnuas,
e como os elementos, sem saber
o qu, nem o porqu, mas que, no entanto,
realizam proezas, nossas almas
se harmonizavam. Tudo o que ela quis,
eu escolhi,- o que ela no queria,
sem maiores delongas, eu negava.
Quando uma flor eu trazia em meu seio -
que apenas comeava a despontar -,
ela no esquecia enquanto uma igual
no trouxesse no colo imaculado,
e que, tal qual a fnix, ao morrer,
exalava perfume,- em meus cabelos,
s trazia adereos das mos dela,-
em gala e em trajes simples eu buscava,
sempre, agrad-la,- quando eu aprendia
uma nova cano, e, livremente,
cantarolava, ela, com afinco,
a estudava, at que em sonhos a ouvisse.
Esse relato - dos mais inocentes -
assim conclui: o amor de duas jovens
pode ser mais forte do que entre os sexos.
[l.iii.
Vemos por que a Emlia de Shakespeare, mais do que a de Chaucer, permanece impassvel quanto ao pretendente que lhe caber, Arcite ou Palamo. O trecho citado apresenta 
magnitude, impacto e complexidade singulares em Shakespeare, e merece ser mais divulgado como o iocws dassicus, em lngua inglesa, da apologia da amizade entre duas 
jo-
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OS   DOIS  NOBRES   PARENTES
vens. A fala de Emlia  a mais apaixonada da pea, conforme Hiplita, secamente, observa. A ironia palaciana de Hiplita no diminui a pungncia da homenagem prestada 
por Emlia  falecida Flavina, mais precisamente, ao amor que as unia, ambas pr-adolescentes, uma encontrando na outra toda a sua identidade. O contraste entre 
essa serena unio e a fria assassina da rixa entre Palamo e Arcite, competindo por Emlia, no poderia ser mais marcante. Mordazmente irnico, Shakespeare encerra 
a cena com um debate fraternal, to corts quanto desconcertante:
HIPLITA
Estais ofegante,
e essa tua ansiedade quer dizer
que jamais amars homem algum
como amaste Flavina. EMLIA
Sim, jamais. HIPLITA
 pena, cara irm,
mas em tuas palavras eu no creio,
embora nelas acredites tu,
assim como no creio em apetite
que se diz fraco e mostra-se voraz.
Decerto, irm, se ouvidos eu te desse,
rejeitaria o brao de Teseu,
e ao seu lado no me ajoelharia,-
porm, certa estou, mais do que a Pirito,
cabe a mim o corao desse Duque. EMLIA
No sou contrria  tua opinio,
mas sigo com a minha.
[l.iii.]
A chave da interpretao do trecho est contida nas palavras "apetite / que se diz fraco e mostra-se voraz", muito ambivalentes.  quase inevitvel a concluso de 
que essa ambivalncia est no prprio Shake-
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#HAROLD   BLOOM
speare, que, aos quarenta e nove anos, parece insinuar a descoberta de um renovado despojamento (seno com respeito ao desejo, pelo menos quanto  tirania do desejo), 
e expressar uma nostalgia por outras formas de amar. A complexidade sexual do autor, talvez autocriticada na elegia dedicada a Will Peter, em Os Dois Nobres Parentes, 
rompe barreiras, quando mais no seja, em sutis momentos de ironia, pois, ao desenvolver a relao entre Teseu e Pirito, de um lado, e Palamo e Arcite, de outro, 
Shakespeare evita celebrar algo semelhante ao xtase da unio entre Emlia e Flavina.
O vitorioso Teseu, aps capturar Palamo e Arcite, promete mantlos prisioneiros, por razes que Shakespeare no explicita, mas que denotam um toque de possessividade 
sdica e homoertica, i.e., a satisfao de ter em mos dois grandes guerreiros derrotados. O primeiro ato chega, ento, ao fim, numa estrutura circular que traz 
de volta, agora prontas a enterrar os restos mortais dos maridos, as trs rainhas, declamando memorvel e enigmtico dstico:
Mundo  lugar de ruas em confronto, morte  praa de tudo que  encontro.
[I-v.]
Talvez seja essa a resposta mais direta oferecida por Shakespeare  advertncia contida no Conto do Cavaleiro, de que sempre nos deparamos com quem no marcamos 
encontros. Em seguida, acompanhamos Palamo e Arcite  priso, mas sendo esse trecho de autoria de John Fletcher, podemos salt-lo, apenas salientando que os primos 
se apaixonam por Emlia  primeira vista, assim, destruindo, para sempre, a amizade que os unia (conforme ocorre em Chaucer). Shakespeare reaparece como autor na 
primeira cena do terceiro ato, em que Arcite, h muito livre das grades (por influncia de Pirito), caminha pelo bosque, suspirando de amor, enquanto os demais celebram 
a Festa da Primavera. Naquele dia fatdico, Palamo, tendo escapado do crcere, confronta Arcite, e os dois decidem lutar at  morte, ao vencedor cabendo Emlia. 
Acena tem um encanto arrebatador, irreal, pois Shakespeare sobrepe a elevada retrica palaciana dos rivais  necessidade
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OS  DOIS  NOBRES  PARENTES
- ana que os dois tm de se imolarem mutuamente.  difcil descrever a comdia do encontro - so raros os momentos semelhantes em outras pecas , mas alguns versos 
de Arcite so exemplares:
A honra e a honestidade defendo e prezo, muito embora isso tu no reconheces, caro primo, e agirei com dignidade. Expressa a tua mgoa abertamente, pois falas a 
um parceiro, que abre portas com esprito e espada de fidalgo.
[Ill.i.]
Essa rica mistura de pompa e circunstncia desaparece quando Fletcher assume a autoria do texto, durante o duelo, interrompido por Teseu e seu squito, inclusive 
Emlia. Depois que o Duque, furioso, ameaa de morte ou desterro os dois loucos erotizados, surge a idia do tomeio, em que os oponentes tm direito de escolherem 
trs cavaleiros,- o vencedor ganhar a mo de Emlia, o perdedor e seus companheiros de equipe sero decapitados,- assim, Teseu garante a sua dbia satisfao. Shakespeare 
aproveita a chance de escrever o quinto ato (exceto a segunda cena, muito fraca, atribuda a Fletcher) e de superar Chaucer, criando para Palamo e Arcite splicas 
maravilhosas e violentas, dirigidas, respectivamente, a Marte e Vnus, antes do incio do tomeio. As terrveis invocaes so seguidas de uma linda prece de Emlia 
a Diana, mas que no consegue fazer frente  maldade expressa nos clamores dos guerreiros. De incio, Arcite parece um chefe de torcida, animando os companheiros 
de equipe ("vamos l, parceiros!") a invocar Marte:
Ento, suplicaremos quele que faz do campo cisterna cheia de sangue,- uni-vos, pois, a mim, e a ele voltai os vossos espritos.
[V..]
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#HAROLD   BLOOM
OS  DOIS  NOBRES  PARENTES
As palavras "cisterna/cheia de sangue" preparam-nos para o momento mximo da rapsdia de Arcite, quando, nitidamente, um Shakespeare que se deleita com a prpria 
maldade vai quase longe demais para ser cmico:
 aoite dos tempos de infmia, destruidor de estados putrefatos, grande juiz de ttulos decrpitos, que com o sangue cura a terra enferma, e livra este planeta 
dessa peste que  a humanidade,- os teus sinais so, para mim, demais auspiciosos, e em teu nome marcharei com firmeza. Vamo-nos!
[V.i.]
O repdio de Shakespeare  Londres de Jaime I, da qual ele se auto-exila, pode ser vislumbrado em meio a essas hiprboles, excessivas at para Tamerlo, o Grande, 
de Christopher Marlowe. Em "tempos de infmia" prevalece a desordem, e entre os "estados putrefatos" est includa a corte de Jaime I, decadente, podre. Curar "corn 
sangue" refere-se  injuriosa terapia de sangramento, e a clebre comparao entre a humanidade e a peste remete s idias de superpopulao e contgio. O Shakespeare 
falstaffiano, em Henrique V dotado de ironia sutil, aqui extrapola - e muito,- todavia, o trecho serve apenas de preparao a uma expresso mais amarga do autor, 
superando at mesmo as invectivas de Tersites, em Trilo c Crssida, mas que, apesar de tudo, encerra um clamor idealista. Eis Palamo celebrando Vnus:
, salve, soberana dos segredos, capaz de acalmar tiranos possessos e faz-los chorar como meninas,- que, com simples olhar, faz silenciar tambores de Marte e gritos 
de guerra,-
que faz aleijado largar muletas,
ao ser curado diante de Apoio,-
que  capaz de transformar reis em sditos
de seus vassalos, e fazer bailar
o que h de mais pesado,- o solteiro
agora calvo, que, na juventude,
como meninos fazem com as fogueiras,
pulou o teu fogo, aos setenta, fazes
cantar canes de amor, para o espanto
da voz rouca. Que poderes divinos
no s capaz de superar? Teu fogo
 mais quente que o de Febo,- com frio,
dizem, a caadora deixou o arco.
Protege o teu guerreiro, que carrega
a tua canga como coroa de rosas,
embora pese mais do que o chumbo,
queime mais que a urtiga. Eu jamais
amaldioei tua lei, nem revelei
qualquer segredo,- jamais cortejei
esposas, nem dei ouvido  intriga.
Jamais fui descorts, em grandes festas,
corn beldades,- antes, envergonhei-me,
quando homens afetados o fizeram,-
duro com confessores, perguntei-lhes
se no tinham me - eu tive, mulher,
e como eles acusam as mulheres!
Contei-lhes que um velho de oitenta anos,
meu conhecido, noivara uma jovem
de catorze. Teu poder  capaz
de injetar vida ao p,- no velho doente,
de ps inchados, dedos retorcidos
de reumatismo e olho esbugalhado,
a vida parecia uma tortura.
Nesse estado, gerou, ento, o velho
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#HAROLD   BLOOM
um menino na bela esposa, e eu
acreditei que fosse dele, pois
ela assim jurava! No acompanho
os que sempre se gabam de seus feitos/
desafio quem fala e nada fez,-
sado quem quer fazer e no pode.
No gosto dos que espalham confidencias,
maldosamente. Amante algum jamais
suspirou com mais sentimento que eu.
Ento,  meiga deusa, em recompensa
por meu amor sincero, concedei-me
vitria no tomeio, e abenoai-me
corn um sinal da vossa proteo.
(Ouve-se msica, e pombos voam pelo palco. Prostram-se ao solo e, em seguida, ajoelham-se.) O deusa, que reinais, dos onze aos cem, nos coraes mortais, que neste 
mundo vindes caar - ns somos vossa caa -, agradeo o sinal, que fortalece meu corao inocente, e prepara meu corpo para o embate. Levantemo-nos, para reverenciarmos 
nossa deusa.
(Fazem reverncia.) O tempo urge.
[V.i.]
Aos sessenta e sete anos, estremeo ao ler esse trecho, em que referncias s idades de setenta, oitenta, cem anos fazem-me lembrar que Shakespeare, com quarenta 
e nove anos, no parece vido de chegar a estgios to animadores da vida. Esse extraordinrio hino a Vnus est acima de qualquer ironia, e serve de coda, sublime, 
 poesia dramtica de Shakespeare, criada ao longo de um quarto de sculo. Como apreender Shakespeare, em um estilo novo que nem ele prprio chegaria a
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OS   DOIS  NOBRES  PARENTES
desenvolver? Nenhuma metodologia crtica nos permitir confrontar e absorver essa poesia sempre nova, que expressa o adeus do maior poeta de todos os tempos, cuja 
superioridade  tamanha que chega a sugerir uma categoria distinta de escritor. E se, ao lerem a invocao de Palamo, os homens estremecem (e assim deve ser),  
porque as palavras provocam uma sensao universal de culpa e vergonha. Passagem alguma, em toda a obra shakespeariana, parece-me, ao mesmo tempo, to dolorosa e 
pessoal, pois Palamo fala somente pelos inocentes, como ele prprio, e no pelo resto da humanidade, inclusive Shakespeare. De sbito, Palamo  dotado de personalidade, 
sendo, radicalmente, diferenciado de Arcite, e do pblico masculino,  exceo de um pequenssimo contingente (se  que h algum inocente na platia). Hoje vivemos 
em uma cultura de culpa e vergonha, e essa fala, dotada de fora impressionante, h de provocar, em muitos de ns, tanto culpa quanto vergonha, se, depois do ataque 
visual a que somos submetidos na presente era, ainda formos capazes de ouvir. No me considero um crtico moralista, e minha Bardolatria decorre de uma perspectiva 
esttica,- portanto, volto-me, agora, para uma anlise mais precisamente esttica dessa esplndida fala.
O imenso poder de Vnus  descrito atravs de imagens grotescas e catastrficas, mas Vnus no  acusada de nos vitimar, ainda que nossos infortnios sejam retratados 
de maneira contundente. Shakespeare aprendera com Chaucer a ir alm da ironia,- Palamo  figura admirvel, mas no sabe o que diz, e somente um perfeito exemplar 
do cdigo palaciano seria capaz de falar no estranho tom de autoridade empregado por Palamo, sem que o contedo da fala parecesse absurdo. Se Vnus no  culpada, 
e se somos ns os responsveis pela insanidade, ento, cabe a pergunta (que Palamo deixa de formular): por que no conseguimos resistir  influncia de Vnus, sem 
corn isso sofrermos desastres e desgraas? Palamo pode ser, naturalmente, dotado de virtude, mas no  esse o caso da maioria de ns, na faixa que vai dos onze 
aos cem anos, e nada nessa pea, nem em toda a obra shakespeariana, justifica a doutrina de Paulo e Agostinho, que identifica um pecado original, de
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#HAROLD  BLOOM
natureza ertica com base em evidncias reunidas a partir de Os Dois Nobres Parentes e a Elegia Fnebre dedicada a Will Peter, o prprio Shakespeare estaria magoado 
o bastante para buscar a recluso, mas esperar que alcancemos "recompensa / por [ ] amor sincero" no condiz com o ambivalente esposo de Anne Hathaway Palamo  
um realista ertico, que avalia e descreve, com preciso, a preponderncia e a influncia que Vnus exerce sobre os homens, de onze a cem anos, ainda que o suplicante 
afirme seus mritos de casto seguidor da deusa Shakespeare no permite que qualquer nuana traia a grande ironia da fala, conforme o faz Emha, logo em seguida, 
Palamo poderia estar invocando Diana, pois esta , na verdade, a sua deusa
Palamo tem de Vnus uma viso dupla, Shakespeare, como a maioria de ns,  um monista ertico, mas, embora mantenha o discurso de Palamo imune  ironia retrica, 
confere-lhe um subsentido que pe em xeque a exaltao a uma Vnus livre de culpa e de imperfeies Chaucer, a despeito do total domnio que exerce sobre a ironia, 
talvez no confiasse tanto em seus ouvintes (a quem lia seus poemas, em voz alta, na corte e em outros locais) como Shakespeare parece faz-lo, embora, a meu ver, 
a essa altura, Shakespeare estivesse decepcionado com o pblico e por isso teria composto para si e para uns poucos amigos a paradoxal fala de Palamo Esse tipo 
de atitude jamais ensejaria a criao de novas peas, e, de fato, o trecho serve de preldio aos trs anos de silncio que concluram a vida do dramaturgo O acaso 
 a divindade maior em Conto do Cavaleiro, Vnus, e no Marte e Diana,  a divindade maior em Os Dois Nobres Parentes Quanto  grande exortao de Palamo, mais 
vale atentar  cano do que ao cantor, por mais reverente que o jovem guerreiro se considere A Vnus de Palamo destri por dentro, tanto quanto Marte destri por 
fora, a litania da obliterao assume um carter absoluto, Vnus vindo  caa de todos ns Velhos, "o que h de mais pesado", executam a dana da morte Solteires 
calvos, aos setenta anos de idade, entoam, com voz rouca, canes de amor Aleijados livram-se das muletas Diana apaixona-se por Endimio e abandona o arco Melhor 
que tudo  o ancio, de oitenta anos, noivar uma jovem
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OS  DOIS NOBRES  PARENTES
de catorze, temos ainda a pardia  criao de Ado por Deus, pois Vnus  "capaz / de injetar vida ao p", o que resulta em impressionante fealdade, proposital, 
jamais vista em Shakespeare
[   ] no velho doente, de ps inchados, dedos retorcidos de reumatismo e olho esbugalhado, a vida parecia uma tortura
[Vi]
Olhos esbugalhados, ps e mos deformados, o velho doente e safado mais parece vtima de tortura do que algum que se entrega aos prazeres da carne O tom de Palamo 
 de escrnio, mas a imagem causa-nos verdadeiro pavor A reao mais indignada a esse trecho provocador  de Talbot Donaldson
Em sua prece, Palamo, quando no exalta o poder de Vnus para humilhar e corromper, exalta a si mesmo, por jamais ter flertado com a esposa de algum, ou ter difamado 
mulheres, alm disso, como todo menino, no se esquece de mencionar a me
, sem dvida, o distanciamento tpico de Shakespeare que evita que ele seja aqui to-somente mera repetio do irnico Chaucer No entanto, seguindo Chaucer, Shakespeare 
atribui a vitria a Arcite, e Teseu, implacvel, prepara-se para executar Palamo e os trs companheiros Porm, o cavalo de Arcite atira ao solo o cavaleiro vitorioso, 
e, ferido mortalmente, o discpulo de Marte, em nobre gesto, cede Emlia a Palamo Tendo Shakespeare frisado que o corao da herona fora enterrado com a menina 
Flavina, a reviravolta do destino nos traz pouca alegria As ltimas palavras proferidas na pea so de Teseu, que, ao final, parece perceber o absurdo da situao 
e, assim, confunde se com Shakespeare
Durante um ou dois dias, observaremos luto, e assim honramos
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#HAROLD   BLOOM
o funeral de Arcite, cuja morte faz sorrir Palamo, agora o noivo, de quem, h apenas uma hora, eu sentia muita pena, co"a mesma intensidade com que me alegrava 
o feliz Arcite,- sinto agora o contrrio.
[V.iv.]
Esse revisionismo amigvel resulta nas palavras maravilhosas que concluem o texto da pea, quando Teseu desaparece, e o prprio Shakespeare despede-se de ns para 
sempre:
 deuses celestiais! O que fazeis de ns! O que nos falta nos faz rir,- o que possumos, chorar,- inda somos crianas. Sejamos gratos pelo que temos, deixando convosco 
questes que no competem a ns. Vamos, em frente, como o tempo.
[V.iv]
No me parece que os "deuses celestiais" aqui invocados sejam Vnus, Marte e Diana,- trata-se de algo ainda mais fantstico. Palamo, Arcite, Emlia, Teseu, todas 
as caricaturas so agora dispensadas, restando apenas Shakespeare e ns. Shakespeare aprendeu a rir do que lhe faltava, e a chorar pelo que possua: perdas e posses 
so coisas tolas, como sabamos, em nossos melhores momentos, quando ramos - ou ainda somos - crianas. O resto no  bem silncio,-tampouco  manter a serenidade 
nos encontros imprevistos, pois seguir em frente, como o tempo, significa viver no apenas um momento especial, mas todo o tempo que ainda resta. Nenhum outro trecho 
final em Shakespeare reconforta-me mais do que esse.
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CODA:  O DIFERENCIAL SH AKESPE ARI ANO
S e  vlida a minha hiptese - que Shakespeare, ao inventara forma mais corrente de representao de personagem e personalidade, em lngua inglesa, ao mesmo tempo, 
inventou o humano, conforme hoje nos  conhecido -, ento, Shakespeare tambm modificou, radicalmente, nossas idias sobre sexualidade. O falecido Joel Fineman, 
na tentativa de entender o "efeito subjetivo" no autor, encontrou nos Sonetos o paradigma para a viso bissexual em Shakespeare (e em toda a literatura). Apesar 
de comprometido com as abordagens crticas em voga, que tudo atribuem  "linguagem", em vez de  pessoa do autor, Fineman  perspicaz com relao ao elo existente 
entre os retratos pintados por Shakespeare, de um eu interior em crescimento constante, e a assombrosa conscincia que possui o poeta quanto  bissexualidade e as 
suas manifestaes latentes.
Nesse aspecto, como em tantos outros, Shakespeare  o primeiro psiclogo, e Freud um retrico tardio. A natureza humana, Shakespeare insinua repetidas vezes,  bissexual: 
afinal, todos temos pais e mes. Se devemos "esquecer" nosso componente heterossexual ou homossexual, ou "lembrar" que somos dotados de ambos, tanto nos Sonetos 
quanto nas peas, no  questo de escolha, e raramente  motivo de ansiedade. A melancolia de Antnio, em O Mercador de Veneza, seria a grande exceo, uma vez 
que a sua tristeza, ao perder Bassnio para Prcia, apresenta tendncias suicidas. A esse respeito, Shakespeare era, pelo menos, cti-
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#HAROLD   BLOOM
CODA    O  DIFERENCIAL  SH A KESPE A RI ANO
co e irnico, e suas representaes de bissexualidade dificilmente deixariam de expressar uma discrio irnica, mais ambgua do que ambivalente.
De modo ambguo, Nietzsche segue Hamlet, e afirma que s conseguimos encontrar palavras para expressar aquilo que j est morto em nosso corao, de maneira que 
o ato de falar sempre traz consigo um certo desmerecimento. Antes de Hamlet nos ensinar a no confiar na linguagem nem em ns mesmos, a nossa condio humana era 
bem mais simples, embora bem menos interessante. Atravs de Hamlet, Shakespeare toma-nos cticos quanto aos nossos relacionamentos, porque aprendemos a duvidar 
dos belos discursos no campo sentimental. Se algum consegue dizer, prontamente, ou com demasiada eloqncia, o quanto nos ama, desconfiamos, pois temos Hamlet 
dentro de ns, assim como existe um Hamlet dentro de Nietzsche.
J a capacidade que temos de rir de ns mesmos, com a mesma disposio que rimos dos outros, devemos a Falstaff, motivo das piadas de terceiros, e ele prprio um 
grande piadista. Para ser motivo de piada, a pessoa precisa aprender a lidar com o riso dos outros, absorvendo a reao alheia, para, finalmente, sobre ela triunfar, 
sempre com bom humor. Samuel Johnson elogiava a alegria predominante em Falstaff,- a observao procede, mas ignora as intenes nitidamente pedaggicas do personagem. 
O que Sir John nos ensina  a magnitude de um humor que evita a crueldade desnecessria, antes, enfatizando a vulnerabilidade de cada ego, inclusive o do prprio 
Falstaff.
Talvez, a personalidade feminina mais sbia criada por Shakespeare seja Rosalinda, em Como Gostais, porm a mais rica  Clepatra, por intermdio de quem o dramaturgo 
nos ensina quo complexo  eros, e que  impossvel separar o papel de apaixonado da realidade de se estar apaixonado. Clepatra deixa todos perplexos, o pblico, 
Antnio e ela prpria. Dotada de temperamento passional, Clepatra  mutabilidade constante, e, para ela, a sinceridade  algo irrelevante a eros Hoje em dia, estar 
apaixonado  imitar Clepatra, cuja versatilidade ertica impede a rotina e abala qualquer certeza.
corn o passar do tempo - quatro sculos - a influncia universal de Shakespeare, em vez de diminuir, aumentou,- parece correto observar que mais indivduos, seja 
na privacidade do lar ou na escola, leram as peas shakespearianas do que a elas assistiram no teatro, ou at mesmo em verses para as telas do cinema ou da televiso. 
Ser que esse quadro mudar no novo sculo, visto que a atividade da leitura est em declnio, e Shakespeare - centro do cnone ocidental - comea a desaparecer 
das escolas, juntamente com o prprio cnone? Ser que as futuras geraes daro ouvidos s crendices de hoje, e prescindiro dos gnios, com base na idia de 
que toda individualidade  uma iluso? Se Shakespeare no passa de um resultado de processos sociais, talvez, todos os produtos sociais, passados e presentes, tero 
o mesmo valor esttico. Em uma cultura de realidade virtual, profetizada, de um lado, por Aldous Huxley, de outro, por George Orwell, continuaro Falstaff e Hamlet 
a servir de paradigmas do humano? Recentemente, um jornalista, ridicularizando algo que ele prprio denominava "gnio solitrio", afirmou que as trs principais 
"idias" da atualidade so o feminismo, o ambientalismo e o estruturalismo. Isso  confundir modismos acadmi-
cos e polticos com idias, o que me leva, mais uma vez, a indagar: quem, alm de Shakespeare,  capaz de continuar informando a idia autntica do humano?
Se Shakespeare tivesse sido assassinado aos vinte e um anos, como foi Christopher Marlowe, sua carreira teria terminado com Tto Andrnico ou A Megera Domada, e 
sua obra-prima seria Ricardo in. Os conhecidos processos sociais teriam transcorrido nos reinos de Elisabete e Jaime, mas as vinte e cinco peas mais significativas 
no teriam surgido na Inglaterra renascentista. Sendo a energia social da poca comum a todos os dramaturgos, e se energia social serve de parmetro de estudo e 
avaliao, ento, em termos de poesia dramtica, os estudos culturais, sem dvida, podem ocupar-se de George Chapman ou Thomas Heywood. O fato  que, no fosse Shakespeare, 
seramos muito diferentes, pois pensaramos, sentiramos e falaramos de modo diferente. Nossas idias seriam diferentes, acima de tudo, as idias que temos sobre 
o humano, pois, no mais das vezes, so idias que pertenceram a Shake-
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speare, antes de ns. Por isso no temos o Chapman feminista, o
Chapman estruturalista e o Chapman ambientalista, embora que
lstima! - talvez ainda tenhamos um Shakespeare ambientalista.
Os textos de Shakespeare assumiram, ao longo dos dois ltimos sculos, o status de uma Bblia secular. Os estudos de natureza textual mais parecem comentrios bblicos, 
em escopo e criatividade, e a quantidade de crtica literria dedicada a Shakespeare chega a competir com o debate teolgico sobre a Sagrada Escritura. J no  
possvel, a quem quer que seja, ler tudo o que h de interessante publicado sobre Shakespeare. Embora existam crticos cujo estudo  indispensvel - Samuel Johnson, 
William Hazlitt, talvez, Samuel Taylor Coleridge e, certamente, A. C. Bradey -, a maior parte da crtica shakespeariana, na melhor das hipteses, atende s necessidades 
de uma determinada gerao, em um determinado pas. Tais necessidades so as mais variadas,- diretores e atores, platias e leitores, professores e alunos no buscam, 
necessariamente, os mesmos meios para chegar a um entendimento de Shakespeare. Shakespeare pertence ao mundo, transcendendo naes, idiomas e profisses. Mais do 
que a Bblia, que tem paralelos com o Alcoro e com os escritos religiosos hindus e chineses, Shakespeare  uma singularidade na cultura mundial, e no apenas 
nos teatros mundo afora.
Este livro - Shakespeare: A Inveno do Humano -  obra tardia, escrita na tradio dos crticos shakespearianos que mais admiro: Johnson, Hazlitt, Bradey e Harold 
Goddard, discpulo destes em meados do sculo XX. Procurei obter alguma vantagem do meu retardamento, repetindo a pergunta: por que Shakespeare? Ele  o cnone ocidental, 
e comea a  se tornar o centro do cnone mundial. Conforme venho reiterando, Hamlet e Falstaff, Rosalinda e lago, Lear e Clepatra so, obviamente, mais do que grandes 
papis dramticos. Fica difcil, s vezes, esquecer que Hamlet no  um heri da Antigidade, como Aquiles ou dipo, e que Falstaff no foi uma personalidade histrica,
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CODA    O  DIFERENCIAL SH A KESPE ARI ANO
como Scrates. Quando pensamos no Diabo, lembramo-nos tanto de lago como de Satans, e a Clepatra da Histria parece mera sombra da hipnotizadora egpcia criada 
por Shakespeare, a encarnao da Mulher Fatal.
A influncia de Shakespeare, espantosa na literatura,  ainda maior na vida real, tomando-se, assim, incalculvel,- nos ltimos tempos, essa influncia parece aumentar, 
ultrapassando o efeito de Homero e Plato, chegando a concorrer com as escrituras sagradas, ocidentais e orientais, na formao do carter e da personalidade humana. 
Os estudiosos que pretendem restringir Shakespeare ao seu contexto - histrico, social, poltico, econmico, racional, teatral - podem at elucidar determinados 
aspectos das peas, mas so incapazes de explicar a influncia, absolutamente singular, que Shakespeare exerce sobre ns, e que no pode ser reduzida  situao 
especfica do autor, em termos de tempo e lugar.
Se  que o mundo pode ter uma cultura universal, unificada, tal cultura no poder emanar da religio. O judasmo, o cristianismo e o islamismo tm tronco comum, 
mas apresentam mais diferenas do que semelhanas, e as outras grandes tradies religiosas, centradas na China e na ndia, so por demais distanciadas dos Filhos 
de Abrao. Cada vez mais, a tecnologia toma-se comum ao universo como um todo, e pode at chegar a constituir um nico, imenso computador, mas isso no configurar 
o que entendemos por cultura. A lngua inglesa j  o idioma universal, e, provavelmente, o ser mais ainda no sculo XXI. Shakespeare, o melhor e mais importante 
autor em lngua inglesa,  o escritor universal, cuja obra dramtica  encenada e lida em todo o planeta. Essa supremacia nada tem de arbitrria. Tem por base apenas 
um dos talentos de Shakespeare, o mais belo, o mais misterioso: uma galeria de homens e mulheres inigualveis na literatura, ris Murdoch, cuja ambio, to nobre 
quanto inatingvel,  escrever romances shakespearianos, certa ocasio, disse a um entrevistador: "Para ser um Shakespeare, existe,  claro, um grande problema: 
criar inmeras pessoas, diferentes entre si e diferentes do autor".
Evidentemente, jamais saberemos como era a pessoa de Shakespeare. Talvez estejamos enganados, mas, com efeito, acreditamos co-
ses
#HAROLD   BLOOM
nhecer relativamente bem as personalidades de Ben Jonson e Christopher Marlowe Quanto  vida de Shakespeare, temos conhecimento de vrios fatos pblicos, mas, com 
respeito a questes essenciais, nada sabemos A palidez estudada do poeta pode ter sido uma de suas tantas mscaras, algo que lhe garantisse autonomia intelectual 
e originalidade to vastas que, no apenas os contemporneos, mas predecessores e sucessores foram por ele bastante ofuscados E difcil conseguir exagerar, quando 
enfatizamos a liberdade interior de Shakespeare, tal liberdade inclui a extrapolao das convenes da sociedade e do palco renascentistas Acho oportuno e necessrio 
avanarmos no reconhecimento dessa liberdade  possvel demonstrar que Dante, Milton ou Proust foram produtos da civilizao ocidental, em seu tempo e lugar, de 
modo que tais escritores constituram o apogeu, a sntese da cultura europia, em determinadas eras e locais com Shakespeare, tal demonstrao  impossvel, e tal 
impossibilidade no decorre de uma suposta "transcendncia literria" Em Shakespeare, h sempre um resduo, algo no explorado, por mais extraordinria que seja 
a performance, mais perspicaz que seja a anlise crtica, mais exaustiva a exegese acadmica, seja no estilo antigo ou modernoso Explicar o texto shakespeanano  
exerccio sem fim, qualquer pessoa ficar exaurida, muito antes que os contedos das peas se esgotem Tomar Shakespeare no sentido alegrico, ou irnico, privilegiando 
a antropologia cultural, a histria do teatro, a religio, a psicanlise, questes polticas, Foucault, Marx, ou o feminismo, funciona apenas at certo ponto Uma 
pessoa inteligente pode ser capaz de acrescentar ao seu cavalo de batalha uma viso shakespeanana, mas ser difcil realizar o contrrio acrescentar a Shakespeare 
uma viso freudiana, marxista ou feminista Quem a isso se atrever ser derrotado pelo universalismo do autor, suas peas so mais sbias do que ns, e a nossa pretenso 
de saber pode resultar em ignorncia
Pode haver uma leitura shakespeanana de Shakespeare" As peas comunicam se entre si, e essa abordagem analtica tem sido praticada por uma dezena de crticos Quero 
crer que ainda seja possvel realizar encenaes shakespeananas de peas de Shakespeare, mas h muito no me deparo com uma montagem que assim pudesse ser classificada 
Este
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CODA     U   uirciM-n.^..  .-   -
l        nretende articular uma leitura shakespeanana dos personagens A amticos de Shakespeare, em parte, recorrendo a um personagem para nterpretar outro Em dados 
momentos, recorro a personagens criados or outros autores, especialmente Chaucer e Cervantes, mas sair de Shakespeare para melhor entend-lo  procedimento arriscado, 
mesmo se nos restringirmos ao pequenssimo grupo de escritores que no so destrudos quando comparados ao criador de Falstaff e Hamlet E at ridculo comparar personagens 
shakespeananos aos dos dramaturgos contemporneos do autor, conforme demonstro ao longo deste estudo  Atualmente, a noo de transcendncia literria est fora de 
moda, mas Shakespeare a tal ponto transcende seus rivais que chega a ser absurdo tentar confinar o poeta no seu tempo, lugar e profisso Hoje em dia, os crticos 
no gostam de, em primeiro lugar, admitir a eminncia de Shakespeare, mas desconheo outra maneira de comear a trabalhar com a obra shakespeanana com Shakespeare, 
o espanto, a gratido, a estupefao so as reaes naturais que embasam o trabalho
de qualquer um
Jacob Burckhardt, conhecido histoncista - da escola tradicional -, em sua obra-prima, A Civilizao Renascentista da Itlia (1860), faz uma nica referncia a Shakespeare, 
no entanto, a aluso causa enorme impacto na Renascena italiana e nos senhoies feudais espanhis Que o momento histrico era extremamente propcio  indiscutvel, 
mas as condies aplicavam-se, igualmente, a dezenas de dramaturgos da gerao de Shakespeare O ponto central do argumento de Burckhardt  que "mente [como a de 
Shakespeare]  a mais rara ddiva dos cus" Em Basel, juntamente com o colega mais jovem, Friedrich Nietzsche, Jacob Burckhardt fez reviver para ns o antigo sentido 
grego do termo agomsta", a viso da literatura como contenda permanente   Embora tenha iniciado a carreira, primeiro, assimilando Marlowe e, mais tarde, livrando-se 
dele, Shakespeare adquire tamanha fora individual ao criar Falstaff e Hamlet, que  difcil estabelecer comparaes entre ele e qualquer outro dramaturgo  A partir 
de Hamlet, Shakespeare passa a competir consigo mesmo, e as peas que se seguiram indicam que o autor buscava to-somente a auto superao
#HAROLD   BLOOM
seria totalmente imune a esse tipo de egocentrismo. Atualmente, muitos crticos consideram Shakespeare o Andrew Lloyd Webber da poca, interessado apenas em ganhar 
dinheiro, sem se incomodar com questes de posteridade. Tal noo parece-me um tanto ou quanto dbia,- Shakespeare no era Ben Jonson, embora estivesse, freqentemente, 
em companhia de Jonson, mas, decerto, tinha certeza demais quanto ao prprio talento, para compartilhar da ansiedade de Jonson, ou de George Chapman, com respeito 
 posteridade literria. Sobre isso, como sobre tantos outros aspectos, os Sonetos de Shakespeare pouco definem, mas, em muitos deles, o desejo de sobrevivncia 
literria aparece claramente. Talvez Coleridge, com a intensidade transcendental de sempre, articule, melhor do que ningum, a resposta a essa questo: "Shakespeare 
 a divindade de Spinoza - a criatividade onipresente".
Spinoza dizia que devemos amar a Deus sem esperar que Ele nos ame. Talvez, Shakespeare, como a divindade de Spinoza, aceitasse a homenagem do pblico sem dar coisa 
alguma em troca,- talvez, Hamlet seja mesmo o verdadeiro representante de Shakespeare, cativando o amor do pblico, exatamente, por no querer, nem precisar desse 
amor-tampouco do amor de quem quer que seja.  possvel que o indivduo William Shakespeare fosse forte o bastante para prescindir do que, para o dramaturgo, eqivale 
a amor indicaes de que o aplauso ser eterno. Mas um artista como Shakespeare, ousado, que, mais e mais, evitava autoplagiar-se, que utilizava o velho, invariavelmente, 
como meio de realizar algo radicalmente novo, parece sempre disposto a perscrutar as prprias intenes, as mais profundas, embora preocupado em manter-se  frente 
dos rivais. A essncia da poesia, segundo Samuel Johnson,  a inveno, e, em termos de inventividade, poesia alguma se aproxima das peas shakespearianas, especialmente 
quanto  inveno do humano.
Eis o cerne da questo, ao mesmo tempo, foco deste livro e ponto em que divirjo de quase toda a crtica shakespeariana atual, seja de natureza acadmica, jornalstica 
ou teatral.  perfeitamente vivel que Shakespeare no tivesse conscincia da prpria originalidade, no que concerne  representao da natureza humana - ou seja, 
da ao humana, tampouco do modo como, freqentemente, essa ao se an-
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CODA    O  DIFERENCIAL  SH A KESPE ARI ANO
"   s palavras enunciadas pelos seres humanos. Podemos dizer que Marlowe e Jonson, em seus estilos, ao mesmo tempo, prprios e
-  terdependentes, valorizavam mais as palavras do que a ao, ou, Ivez que entendiam que a funo primordial do dramaturgo  mostrar eme as palavras so a forma 
mais autntica de ao. O aparente ceticismo de Shakespeare, que pontua o diferencial deste com relao a Marlowe e Jonson, convida-nos a considerar a hiptese 
de que no agimos de acordo com as nossas palavras. De incio, o princpio bsico da representao shakespeariana parece configurar um ceticismo mais exacerbado 
do que o de Nietzsche, pois, conforme Hamlet bem o sabe, s  possvel encontrar palavras para se expressar o que j est morto no corao, e, conseqentemente, 
Hamlet mal consegue falar sem denotar desprezo pelo prprio ato de discursar. Falstaff, sempre espirituoso,  capaz de falar sem desprezo, mas o faz com uma ironia 
que escapa at ao discpulo Hall. De quando em vez, ocorre-me a reflexo de que lago e Edmundo, e no Hamlet e Falstaff, seriam os personagens mais shakespearianos, 
pois neles, e por intermdio deles, o hiato entre palavras e ao  explorado ao mximo. "Ceticismo", como termo filosfico, aplica-se melhor a Montaigne ou Nietzsche 
do que a Shakespeare, que no pode ser confinado em uma perspectiva ctica, por mais ampla que seja a nossa definio do termo. O melhor analista dessa liberdade 
shakespeariana  Graham Bradshaw, no livro admirvel, Shakespeares Skepticism (1987), um entre cerca de meia dzia dos melhores livros sobre o autor, desde a obra 
de A. C. Bradey.
Para Bradshaw, o domnio que Shakespeare exerce sobre o distanciamento irnico  um de seus maiores talentos, ensejando um ceticismo pragmtico com relao a toda 
e qualquer questo de valor natural". Eu alteraria um pouco essa formulao, desviando-me desse ceticismo, como, a meu ver, fez o prprio Shakespeare, ao abrir mo 
de todas as explicaes existentes da natureza, e aceitar a indiferena da natureza. Podemos concluir que Shakespeare, dotado de grandeza natural, reconhecia a indiferena 
da natureza, e, assim, em ltima anlise, a indiferena da morte. No entanto, tambm dotado de arte natural, Shakespeare no  indiferente, nem totalmente ctico 
- no 
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#HAROLD   BLOOM
crente nem niilista. Suas peas convencem-nos de tudo isso, seus personagens tambm, embora, em Shakespeare, a preocupao jamais seja com a Eternidade.
s vezes, os personagens tm importncia para terceiros,- porm, em ltima anlise, sempre tm importncia para si mesmos - isso se aplica at a Hamlet e Edmundo, 
at ao miservel Parolles, de Bem Est o que Bem Acaba, e ao amargo Tersites, de Trilo e Crssida. Em Shakespeare, conforme Jane Austen, admiravelmente, com ele 
aprendeu, o valor de um personagem  conferido por outros, ou atravs de outros, tudo movido pela esperana de cativar. Permanecemos cticos diante da avaliao 
final que Hamlet faz de Fortimbrs, assim como nos causa espcie o fato de Hamlet superestimar o fiel, embora plido, Horcio. No entanto, jamais duvidamos do valor 
de Hamlet, apesar de todas as dvidas do prprio a esse respeito, pois todos os demais personagens da pea, inclusive os inimigos do Prncipe, atestam-lhe o valor.
Jamais esgotaremos as perspectivas plausveis  anlise de Hamlet, e sempre buscaremos novos ngulos, pois a grandeza e o desprendimento do personagem, mais do que, 
meramente, incorpor-lo  natureza, fazem-no com esta se confundir. A magnitude da conscincia de Falstaff, comparvel  de Hamlet, sugere que a natureza s pode 
absorver a mente se recorrer a Falstaff e, assim, adquirir um pouco da espirituosidade de Sirjohn. Edmundo, erroneamente, invoca a natureza como deusa, e o verdadeiro 
mal por ele perpetrado  tomar a natureza uma entidade devoradora, uma (espcie de) mente que exclui quase todo tipo de afeio. lago, que, como lhe convm, invoca 
uma "entidade do inferno",  bem-sucedido no brilhante propsito de destruir a nica realidade ontolgica de que tem conhecimento - a guerra organizada -, cujo eptome 
 Otelo, um deus da guerra, e colocar, no lugar da guerra organizada, um conflito anrquico, incessante, de todos contra todos, lago procede em nome de um nada, 
capaz de compens-lo por sua mgoa: ter sido preterido e rejeitado pelo nico valor que jamais reconheceu - a glria militar de Otelo.
A representao que Shakespeare faz do humano no  um retorno  natureza, apesar da noo, prevalecente desde aquela poca, de que
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CODA    O  DIFERENCIAL SH AKESPE ARI ANO
os homens, mulheres e crianas criados por Shakespeare, de certo modo, so mais "naturais" do que outros personagens dramticos e literrios. Para os apstolos dos 
"Estudos Culturais", que dizem acreditar ser o ego natural uma entidade obsoleta, e o estilo pessoal uma mistificao ultrapassada, ento, Shakespeare, assim como 
Mozart ou Rembrandt, h de despertar algum interesse, primordialmente, por possuir atributos que so comuns a todos os artistas, a despeito de sua grandeza. A descrena 
em um eu autnomo  uma espcie de heresia secular elitista, talvez, um privilgio da seita "Estudos Culturais". A morte do autor, inveno ps-Nietzsche de Foucault, 
convence sectrios acadmicos reunidos em tomo de bandeiras parisienses, mas nada significa para os principais poetas, romancistas e dramaturgos da atualidade, 
que, quase sempre, afirmam a busca de invenes, de criaes, cada vez mais pessoais. No quero culpar Freud pelo ps-modernismo parisiense, mas acho que a sublime 
certeza do mestre quanto aos mecanismos internos da inveno, fices maravilhosas, a seu ver, dotadas de existncia prpria, est na base da "morte do sujeito", 
conforme a noo pode ser encontrada nos profetas ps-estruturalistas do Ressentimento. Se o ego pode ser afirmado ou negado com igual facilidade, o ser toma-se 
algo culturalmente descartvel.
O que aconteceria a Sirjohn Falstaff, se lhe negssemos um ego? A pergunta  duplamente divertida, pois alguns, dando de ombros, diriam - "E da? Falstaff no  
s linguagem?" -, enquanto outros diriam que a representao de uma personalidade to marcante abala qualquer ceticismo quanto  realidade do ego. Sirjohn, certamente, 
no esboa qualquer dvida quanto  realidade da prpria personalidade,- a energia interior do personagem impede hesitaes hamletianas de natureza ontolgica. Percebemos 
em Falstaff uma imensa sensao de perda,- no fundo, ele acredita que vai morrer em conseqncia de afeies no correspondidas. Empson, decidido a no ser sentimentalista 
corn Sir John, tentou demonstrar que esse grande comediante  um temerrio e poderoso Maquiavel. Empson era um grande crtico, mas esqueceu-se de que os grandes 
Maquiavis shakespearianos - lago e Edmundo - sabem que so ontologicamente nulos, mal que no aflige Falstaff. Em
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#HAROLD  BLOOM
termos de autoconhecimento e vitalismo, Falstaff , sem dvida, filho da Mulher de Bath. Ele bem gostaria que Henrique V o tomasse rico, mas o sofrimento mortal 
incorrido pela rejeio no , essencialmente, uma catstrofe material.
Ser possvel avaliar a universalidade de Shakespeare, a sua singularidade? Admito que o Shakespeare norte-americano no seja o britnico, tampouco o japons, ou 
o noruegus, mas reconheo algo em Shakespeare que sempre sobrevive  migrao da obra de um pas a outro. Contrariamente s atuais desmitificaes de grandeza cultural, 
continuo a insistir que Shakespeare nos inventou (a todos ns), mais do que ns o inventamos. Acusar Shakespeare de ter inventado, por exemplo, Newt Gingrich ou 
Harold Bloom no implica, necessariamente, a atribuio de valor dramtico a Gingrich nem a Bloom,- trata-se apenas de ver Newt como pardia de Graciano, em O Mercador 
de Veneza, e Bloom como pardia de Falstaff. Um historicista nefito descartaria essa hiptese, classificando-a como poltica de identidade, mas, para mim, trata-se 
de prtica corrente da platia do Teatro Globe, e do prprio Shakespeare, que nos mostra Ben Jonson em Malvlio, Christopher Marlowe em Edmundo, e William Shakespeare 
em... a escolha  do leitor. Nas peas shakespearianas, dramaturgos so apresentados como amadores, embora inspirados: Peter Quince, Falstaff e Hal, Hamlet, lago, 
Edmundo, Prspero,- no creio que Shakespeare, altamente profissional, tenha algum porta-voz nesse grupo to ecltico. Os nicos papis que ele, com certeza, representou 
foram o do Fantasma, em Hamlet, e o do velho Ado, em Como Gosta/s. Supe-se que fizesse outros papis de idosos, e cabe a indagao: quantos reis ingleses teria 
ele representado? Vrios crticos, sugestivamente, consideram Shakespeare uma espcie de "Ator Rei", assediado por imagens semelhantes quelas assumidas por Falstaff 
e Hal, quando invertem papis no esquete improvisado em Henrique IV. Talvez Shakespeare atuasse como Henrique IV,- no sabemos. A profisso de ator era para Shakespeare, 
sem dvida, destino equvoco, ativi-
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i je que trazia certo embarao social. No sabemos at que ponto estabelecer paralelos entre a vida do poeta e o ciclo de sonetos por ele escrito, mas a crtica 
j apontou, a meu ver, de modo convincente, que o relacionamento de Falstaff e Hal  comparvel ao relacionamento apresentado nos Sonetos entre o poeta-persona e 
o patrono - e possvel
amante   Conde de Southampton. Seja qual for a experincia que
Shakespeare teve com Southampton, obviamente, a mesma apresentou um lado negativo, fazendo-o lembrar, com muito sofrimento, que, na verdade, era um ator e no 
um rei.
Por que Shakespeare? Ele no deve ter pretendido fazer de seus
personagens e pblico filhos seus, mas o fato  que o dramaturgo gerou
o futuro, e no apenas o futuro do teatro, nem mesmo apenas o da
literatura. A nica questo humana de peso que Shakespeare no trata
 a religio, seja como prtica ou como teologia. Embora, para garantir
a sua segurana pessoal, Shakespeare evitasse polmicas polticas e
religiosas, sua obra tem exercido considervel influncia na esfera
poltica, embora em menor escala do que nas esferas psicolgica e moral
(por mais circunspecto que fosse em questes de moralidade, pelo
menos  sua maneira). No apenas criador de personalidades como
tambm de linguagem, Shakespeare, por assim dizer, desmancha e
remodela a representao do ser, atravs da linguagem e na linguagem.
Essa assero constitui o cerne do presente livro, e estou ciente de que,
para muitos, h de parecer desmedida. Mas  verdadeira, estando, hoje
em dia, apenas ofuscada, pois passamos a prestar pouca ateno ao efeito
causado pela literatura na vida,- nesses tempos nefastos, professores
universitrios de literatura ensinam de tudo, menos literatura, e analisam
Shakespeare em termos semelhantes queles utilizados em estudos de
seriados de televiso, ou da incomparvel Madonna. O que  exibido
na TV, ou o que se passa com Madonna,  anlogo aos espetculos de
lutas entre ces e ursos, ou mesmo s execues pblicas, no perodo
Elisabetano,- Shakespeare, decerto, foi e  popular, mas no era cultura
popular", nem na Renascena inglesa nem agora, pelo menos no no
estranho sentido corrente, de algo que, mais e mais, pode ser visto como
um oxmoro.
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#HAROLD   BLOOM
Por que Shakespeare? Quem poderia substitu-lo, como artista que representa seres humanos? Dickens possui um pouco da universalidade de Shakespeare, mas os grotescos 
de Dickens, e at mesmo as figuras normativas por ele criadas, so caricaturas, mais no estilo de Ben Jonson do que de Shakespeare. Cervantes aproxima-se mais, como 
verdadeiro rival: Dom Quixote equipara-se a Hamlet, e Sancho Pana pode fazer frente a Falstaff, mas onde esto, em Cervantes, os equivalentes a lago, Macbeth, Lear, 
Rosalinda, Clepatra? Chaucer, creio eu, chega um pouco mais perto, sendo, na verdade, um autntico precursor de Shakespeare, mais influente na criao de Falstaff 
e lago do que Marlowe e Ovdio o seriam, com relao a qualquer outro personagem shakespeariano. Indubitavelmente, lemos a obra dramtica, ou vamos ao teatro v-la 
encenada,  procura de algo mais do que personalidade,- a maioria dos seres humanos  solitria, e Shakespeare foi o poeta da solido, e da viso que a solido tem 
da mortalidade. Estou convicto de que a maioria de ns l literatura dramtica e vai ao teatro em busca de outras
personalidades. Quando buscamos a ns mesmos, rezamos, meditamos, recitamos um poema lrico, ou mesmo sucumbimos  solido. Em ltima anlise, Shakespeare  importante 
porque, mais do que ningum, oferece-nos personalidades que parecem maiores e mais detalhadas do que a de qualquer amigo(a) ntimo(a) ou amante. No creio que isso 
faa de Shakespeare um substituto da vida, que, infelizmente, tantas vezes parece um substituto inadequado de Shakespeare. A astuta observao de Oscar Wilde, de 
que a natureza imita Shakespeare, "suando a camisa" para faz-lo,  a orientao mais esclarecedora dessas questes. O mundo toma-se melanclico, murmurava Oscar, 
porque um boneco, Hamlet, ficou triste. Outros poetas criaram um heterocosmo, uma segunda natureza, e.g., Spenser, Blake e Joyce. Shakespeare  uma terceira realidade, 
nem natureza, nem segunda natureza. Esse terceiro reino  "imaginai", em vez de real, ou imaginrio.
corn o termo "imaginai", quero qualificar a idia que Shakespeare tem de uma determinada pea, conceito desenvolvido por inmeros estudiosos, a partir do trabalho 
de Anne Barton. Embora uma crescente inquietao, aos poucos, desgastasse parte da satisfao que o teatro
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-   a Shakespeare, a confiana do autor em sua prpria capacidade H   caracterizao, de certo modo, substitua o prazer do contato (cada z menor) com o pblico. 
Nos desenganos de Shakespeare, encenao e devassido se misturam, e ele retrocede diante dessa mescla, deixando apenas a sugesto de que as prprias peas, i.e., 
artifcios, so imitaes fantasmagricas de realidades srdidas. Mas, e aquelas clebres sombras homens e mulheres que habitam as "comdias sombrias", as grandes 
tragdias e as tragicomdias que ns (no Shakespeare) chamamos de "romances"? Voltar-se contra a representao  retomar a polmica de Plato contra os poetas, 
mas a verdade  que no se percebe qualquer elemento transcendental na reao dialtica observvel em Shakespeare com respeito s sombras. Na dramaturgia shakespeariana, 
o transcendentalismo costuma estar presente apenas em momentos de partida, quando, por exemplo, ouvimos a msica do deus Hrcules abandonar o protegido, Antnio. 
Shakespeare, mesmo nos momentos mais sombrios, reluta em abandonar os protagonistas. No podemos imagin-lo como Ben Jonson, que reuniu as peas de sua prpria autoria 
em um grande flio, mas tambm no podemos dizer, absolutamente, que Prspero seja uma figura inexpressiva. Hoje em dia, no vemos o mago criado por Shakespeare 
bem retratado nos palcos, pois, no mais das vezes,  apresentado como um perplexo colonizador branco que no sabe lidar com um rebelde herico de tez negra (ou 
at mesmo dois rebeldes negros, se a fantasia criada por George C. Wolfe - Ariel como uma intrpida negra - for contagiosa). Contudo, Prspero ser sempre uma imagem 
da satisfao de Shakespeare (por mais equvoca) quanto  sua prpria magia, capaz de criar pessoas.
Leeds Barroll, corrigindo, de maneira convincente, a cronologia da obra de Shakespeare, argumenta que o dramaturgo produziu Rei Lear, Macbetb e Antnio e Clepatra 
em cerca de um ano e dois meses, entre 1606 e 1607. Esse ritmo extraordinrio, ainda segundo Barroll, era perfeitamente normal em Shakespeare, que escreveu vinte 
e sete peas em dez anos,
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de 1592 a 1602 Mas no deixa de causar impacto a idia de R Lear, Macbetb e Antnio e Clepatra terem sido escritas em apenas catorze meses Na verdade, toda vez 
que leio Rei Lear, fico atnito ao pensar que um ser humano pudesse escrever tamanha catstrofe cosmolgica, mesmo se dispusesse de tempo ilimitado para faz-lo 
Tal noo leva-me quilo que serve de base  Bardolatna shakespeanana, atualmente, to fora de moda existe algo sobrenatural em Shakespeare, assim como em Miguel 
ngelo ou Mozart A facilidade com que Shakespeare trabalhava, comentada pelos prprios contemporneos,  algo que o distingue As motivaes econmicas e sociais 
que o instigavam eram, basicamente, as mesmas que se aplicavam, por exemplo, a Thomas Dekker ou John Fletcher O mistrio de Shakespeare, sugere Barroll, no  escrever 
trs tragdias em sessenta semanas, mas o fato de as trs serem R Lear, Macbeth e Antnio e Clepatra
Certa vez, fui repreendido por um velho amigo, Robert Brustem, diretor do Teatro Norte-Amencano de Repertrio, da Universidade de Harvard, por ter expressado preferncia 
por leituras pblicas das peas shakespeananas, com relao a recentes interpretaes cinematogrficas e teatrais das mesmas Obviamente, o ideal  assistir a encenaes 
teatrais do texto, mas como, no presente, as obras de Shakespeare so, quase sempre, mal dirigidas e sofnvelmente encenadas, talvez seja prefervel ouvir uma boa 
leitura a ver uma montagem ruim lan McKellen faria um esplndido Ricardo in, mas se o diretor insistir que McKellen retrate Ricardo como Sir Oswald Mosley, o futuro 
Hitler ingls, da minha parte, prefiro ouvir o extraordinrio ator apenas ler o papel De outro lado, Laurence Fishbourne  uma figura impressionante, mas durante 
quanto tempo suportaramos ouvi-lo em uma leitura dramtica do papel de Otelo? Os textos de Shakespeare so como partituras musicais que precisam ser executadas 
por meio da encenao, mas se o teatro est em runas, no ser a recitao pblica prefervel  pardia no intencional?
E lugar-comum a noo de que h mais massa crtica sobre Shakespeare do que sobre a Bblia Para ns, hoje em dia, a Bblia  o mais complexo dos livros Paradoxalmente, 
Shakespeare no  difcil, 
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cessvel a qualquer um, sendo capaz de provocar infinitas interprees A razo principal disso, dito da maneira mais simples,  a infinita inteligncia de Shakespeare 
Os principais personagens por ele criados
- multifacetados, e alguns ainda esbanjam intelecto Falstaff, Rosalinda Hamlet, lago, Edmundo So mais inteligentes do que ns, comentrio que a qualquer crtico 
de orientao formalista ou histoncista vai parecer Bardolatna pueril Mas as criaturas refletem, diretamente, o criador a inteligncia de Shakespeare  mais abrangente 
e aguada do que a de qualquer outro escritor Em Shakespeare, realizao esttica no pode ser separada de fora cognitiva Talvez seja esse o motivo da reao diversa 
dos filsofos Hegel e Nietzsche o celebravam, j Hume e Witrgenstem consideravam-no superestimado, possivelmente, porque um ser humano inteligente como Falstaff 
ou Hamlet no lhes parecesse vivel Falstaff , a um s tempo, um cosmo e um indivduo, Hamlet, mais enigmtico,  indivduo e rei em potencial O enganador, o Maquiavel, 
Prncipe Hal, com certeza,  um indivduo, e toma-se um grande rei, mas, interiormente,  bem menor do que Falstaff, Hamlet ou at mesmo Rosalmda lago e Edmundo 
so profundos como abismos
A D Nuttall, um dos meus heris da crtica shakespeanana, elucida-nos, de modo magistral Shakespeare no pretende resolver problemas e, portanto, no esclarece os 
dilemas (talvez, por isso, Hume e Witrgenstem subestimassem o criador de Falstaff e Hamlet) Como Kierkegaard, Shakespeare expande a nossa viso dos enigmas da natureza 
humana Freud, querendo ser cientista, equivocadamente, reduziu a prpria genialidade Shakespeare no reduz os personagens s suas supostas patologias ou romances 
familiares Em Freud, somos predeterminados, e de modo mais ou menos previsvel Em Shakespeare, conforme demonstra Nuttall, somos predeterminados de tantas maneiras 
diferentes que a prpria diversidade da predetermmao  se torna uma liberdade A comunicao indireta, mtodo de Kierkegaard, to bem explicado por Roger Poole, 
foi 
aprendida com Hamlet Talvez Hamlet, como Kierkegaard, tenha vindo ao mundo para ajudar a salv-lo do reducionismo Se Shakespeare oferece-nos a possibilidade de 
uma salvao secular, em parte,  porque nos auxilia a manter distantes os
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filsofos que tm a pretenso de explicar a nossa existncia, como se no passssemos de trapalhadas que precisam de esclarecimento.
Observei, anteriormente, que devemos desistir da busca estril de tentar acertar sempre em nossas conjeturas sobre Shakespeare, e at mesmo da busca irnica celebrizada 
por Eliot: tentar "errar" em nossa avaliao de Shakespeare, ainda que com originalidade. Sempre encontraremos novos significados em Shakespeare, mas jamais o significado 
final,-  como a busca do "sentido da vida". Witrgenstein, juntamente com a crtica formalista, teatral, historicista, afirma que Shakespeare e a vida no so a 
mesma coisa, mas, no mundo inteiro, o pblico, passados quatro sculos, pensa o contrrio, sendo difcil refut-lo. Ben Jonson, amigo e contemporneo mais astuto 
de Shakespeare, inicialmente, insiste que o poeta carece de arte, mas, depois da morte de Shakespeare, rev essa posio. Para orientar os atores sobre o trabalho 
de editorao do Primeiro Flio de Shakespeare, Jonson deve ter lido, pela primeira vez, cerca de metade do cnone, e parece ter chegado  viso shakespeariana de 
que "a arte  a prpria natureza". David Riggs, bigrafo de Jonson, defende-o da acusao que lhe faz Dryden, de ter sido insolente com Shakespeare, e demonstra 
como o poeta-dramaturgo de forte orientao neoclssica muda de opinio ao tomar conhecimento da obra completa de Shakespeare. O que Jonson descobre, e celebra, 
 o que leitores e espectadores comuns esto sempre descobrindo: os personagens shakespearianos so to artsticos que parecem absoluta-
mente naturais.
O poder de cognio de Shakespeare  o que h de mais difcil de ser apreendido e admitido pelos estudiosos. Mais do que qualquer outro escritor - poeta, dramaturgo, 
filsofo, psiclogo ou telogo -, Shakespeare refletia, continuamente, sobre as questes que o interessavam. Isso tanto o toma precursor de Kierkegaard, Emerson, 
Nietzsche e Freud, como de Ibsen, Strindberg, Pirandello e Beckett. Trabalhando como dramaturgo, de incio, sob o regime de Elisabete I, depois, de Jaime I, Shakespeare, 
necessariamente, apresenta as suas reflexes de
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odo oblquo, raramente permitindo a presena de um representante, u porta-voz, entre seus personagens. Mesmo quando tal figura existe, no sabemos quem ela seja. 
O falecido romancista Anthony Burgess acreditava ser Sir John Falstaff o maior porta-voz de Shakespeare. Devoto de Falstaff, revoltado contra os romancistas ingratos 
corn Sir lohn gostaria de concordar com Burgess, mas no tenho como saber se ele est certo. s vezes, penso que encontrei Shakespeare em Edgar, talvez porque encontre 
Christopher Marlowe em Edmundo, mas disso no consigo convencer nem a mim mesmo. Talvez, personagem algum
nem Hamlet, nem Prspero, nem Rosalinda - fale pelo prprio
Shakespeare. Talvez, a voz extraordinria que ouvimos nos Sonetos seja to ficcional quanto qualquer outra em Shakespeare, embora no creio
ser esse o caso.
Shakespeare contempla quase todos os conceitos "tradicionais" do seu tempo, mas no se deixa levar por nenhum deles. Quem est sempre a ler as peas e a refletir 
sobre as montagens a que assiste, dificilmente, chegar  concluso de que Shakespeare era protestante, ou catlico, ou mesmo um cristo ctico. A sensibilidade 
shakespeariana  secular, no religiosa. Marlowe, o "ateu", tinha temperamento mais religioso do que Shakespeare, enquanto Ben Jonson, dramaturgo to secular quanto 
Shakespeare, pessoalmente, era mais religioso que o rival (ainda que de modo espasmdico). Sabemos que Jonson preferia Sir Francis Bacon a Montaigne,- no creio 
que Shakespeare aqui concordasse com Jonson. Montaigne pode ser visto como uma espcie de ligao tnue entre Shakespeare e Molire, o nico elemento que os dois 
dramaturgos teriam em comum. O lema de Montaigne - "Que sei eu?" - seria epgrafe bastante adequada aos dois.
Quase todo o conhecimento de Shakespeare (que parece imensurvel) foi gerado a partir dele mesmo. Admito que as relaes com Chaucer e Ovdio sejam tangveis, e 
a "contaminao" de Marlowe, at ser expurgada pelo triunfal surgimento de Falstaff, foi grande. Exceto esses trs poetas, e uma relao de natureza meramente alusiva 
corn a Bblia, Shakespeare no depende de autoridades, ou de autoridade. Quando nos deparamos com as grandes tragdias - Hamlet, Otelo, Rei
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tragicomdias - ou romances, conforme hoje as chamamos - tratam a morte de maneira ainda mais original do que as grandes tragdias. Talvez todo soneto, em ltima 
anlise, ertico apresente uma tendncia elegaca,- os de Shakespeare delineiam as sombras da prpria morte. O embaixador da morte junto a ns  Hamlet,- figura 
alguma, ficcional ou histrica, envolve-se com mais profundidade nessa regio desconhecida, a menos que comparemos Hamlet a Jesus. Independentemente de classificarmos 
Shakespeare como "natureza" ou "arte", a singular distino do poeta procede: ele nos ensina a natureza da morte. Alguns dizem que isso ocorre porque os textos de 
Shakespeare so como uma escritura secular. A meu ver, de fato, os escritos de Shakespeare (ou de Montaigne) prestam-se mais a essa classificao do que os de Freud, 
Marx, ou dos franco-heideggerianos ou franco-nietzschianos. A literatura de Shakespeare , praticamente, nica, ao combinar entretenimento e sabedoria. Que o mais 
prazeroso dos escritores seja, tambm, o mais inteligente  noo que nos deixa perplexos. Tantas das nossas "crenas rachadas" (conforme dizia William Blake) so 
demolidas por Shakespeare, que at mesmo uma breve listagem das mesmas ser instrutiva: afetivo x cognitivo,- secular x sagrado,- entretenimento x instruo,- papis 
dramticos x personagens e personalidades,- "autor" x "linguagem",- histria x fico,- contexto x texto,- subverso x conservadorismo. Shakespeare, em termos culturais, 
 a nossa maior contingncia,- Shakespeare  a histria cultural que nos predetermina. Complexa, essa verdade toma v as nossas tentativas de inserir Shakespeare 
em conceitos antropolgicos, filosficos, religiosos, polticos, psicanalticos ou "terico-parisienses", de qualquer tipo. Antes, estamos ns inseridos em Shakespeare, 
sempre muito  nossa frente, aguardando por ns.
Est em voga na academia tentar desmerecer a genialidade de Shakespeare, argumentando que o mito no passa de uma conspirao cultural, uma imposio do imperialismo 
britnico, portanto, uma arma do Ocidente contra o Oriente. No rastro desse argumento surge uma proposio ainda mais tola: que, como poeta-dramaturgo, Shakespeare 
no  melhor nem pior do que Thomas Middeton ou John Webster. Da, parte-se para sandices: Middeton teria escrito Macbeth, Sir Francis
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CODA    O   DIFERENCIAL  SH A KES PE A RI A NO
Bacon ou o Conde de Oxford teriam escrito todas as peas de Shakesneare ou verdadeiros contingentes de dramaturgos as teriam escrito, comeando por Marlowe e terminando 
corn John Fletcher. Embora, na academia, o feminismo, o marxismo, o lacanianismo, o foucaultianismo, o derridasmo etc. sejam mais respeitados do que o baconismo 
e o oxfordismo, tais fenmenos so semelhantes, e nada contribuem  apreciao crtica de Shakespeare. Este livro partiu de uma posio contrria a quase todas as 
atuais abordagens crticas e pedaggicas anglo-americanas  obra de Shakespeare,- procurei referir-me a tais abordagens o mnimo possvel, porque em nada auxiliam 
o leitor ou espectador de mente aberta e honesta, na busca de mais conhecimento a respeito de Shakespeare.
A roda da Fortuna, do Tempo e da Mutao gira, em Shakespeare, perpetuamente, e uma apreciao adequada da obra deve partir desses "giros", que servem de base para 
a construo dos personagens. Em Dante, os personagens no tm como evoluir,- em Shakespeare, conforme j destaquei, aproximam-se mais dos de Chaucer, e parecem 
dever mais  viso mutvel de Chaucer, com respeito ao ser humano, do que  de qualquer outro autor, inclusive conforme constatado nos personagens bblicos ou em 
Ovdio, o poeta latino mais admirado por Shakespeare. Estudando o efeito de Ovdio em Shakespeare, no livro The Gods Made Fksh, Leonard Barkan comenta: "Muitas das 
grandes figuras da poesia de Ovdio definem a si mesmas atravs do esforo de inventar novas linguagens". Quase sempre, as metamorfoses, em Shakespeare, esto relacionadas 
 busca constante do dramaturgo no sentido de encontrar uma linguagem prpria para cada personagem principal, e para vrios dos personagens secundrios, uma linguagem 
que seja capaz de mudar  medida que o personagem muda, de vagar  medida que o personagem vaga. Reviravoltas, em Shakespeare, geralmente, recorrem  imagem tradicional 
da roda, s vezes associada s incontidas extravagncias da Fortuna.
O pblico da poca de Shakespeare elegeu Falstaff seu personagem predileto, colocando-o acima at de Hamlet. A roda da Fortuna parece aqui pouco relevante,- Falstaff 
 derrotado por dedicar ao Prncipe Hal,
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equivocadamente, um amor paterno. Hamlet morre ao final de um
j
quinto ato em que lograra transcender todas as suas identidades anteriores na pea. Falstaff, portanto,  ludibriado pelo amor, no pela Fortuna, enquanto Hamlet 
 vitimado, ludibriado, por si mesmo, agindo pelo pai adotivo, o bobo Yonck. Acertadamente, as figuras antitticas, Lear e Edmundo, invocam a imagem da roda, embora 
corn propsitos e efeitos diferentes. As peas de Shakespeare so as rodas da nossa vida, e a todos ns ensinam, sejamos ns ludibriados pelo tempo, pelo amor, pela 
Fortuna, por nossos pais, ou por ns mesmos.
PALAVRA FINAL:  A EVIDENCIAO
Sado-te no incio de uma grande carreira, que deve ter passado por longa gestao, algures, para j iniciar assim.
Emerson escreve a Whitman, em 1855
A "gestao" que Emerson identifica, no incio da carreira de Whitman, nada tem a ver com contexto, conforme o termo  definido por historiadores da literatura 
no sculo XX, isto , a histria poltica, social ou intelectual em que obras literrias se encaixam. Emerson refere-se a uma gestao de carter temporal, um tempo 
prvio de histria potica, no institucional,- talvez possamos dizer que a historiografia dessa gestao esteja escrita na prpria poesia. Como resultado desse 
processo, determinados aspectos de uma obra literria so evidenciados, postos em primeiro plano.
Qual seria a longa gestao de Sir John Falstaff, do Prncipe Hamlet ou de Edmundo, o Bastardo? Um crtico de orientao formal ou textual talvez negasse a existncia 
de qualquer tipo de "gestao", interessandose apenas pelas palavras. Um crtico que se interesse pelo contexto, um histoncista, talvez reconhecesse apenas a existncia 
do contexto, negando qualquer processo de evidenciao. Ao longo deste livro tenho argumentado que Shakespeare inventa (ou melhor, aperfeioa, seguindo Chaucer) 
um estilo de representao que depende, exatamente, da evidenciao dos personagens. Shakespeare espera que o pblico seja
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PALAVRA  FINAL    A   EVIDENCIAO
capaz de deduzir como Falstaff, Hamlet e Edmundo chegaram a ser aquilo que so, ou seja, seus talentos, suas obsesses, suas ansiedades. No me interessa indagar 
o que toma Falstaff to espirituoso, Hamlet to ctico, Edmundo to frio. Os mistrios, os enigmas da personalidade ficam um pouco  margem do processo de evidenciao 
realizado por Shakespeare.
A arte literria de Shakespeare, a mais apurada de todos os tempos,  tanto a arte do excesso quanto da omisso. As peas so excepcionais quando elpticas. Otelo 
ama Desdmona, mas parece no desej-la sexualmente, uma vez que ignora a situao concreta da virgindade da jovem, e sequer chega a deitar-se com ela. Como se 
comportam Antnio e Clepatra na intimidade? Por que Macbeth e sua feroz Lady no tm filhos? O que tanto aflige Prspero, levando-o a abandonar os poderes mgicos, 
e a dizer que, depois de reconquistar o seu ducado, um a cada trs pensamentos ser dedicado ao tmulo? Por que todos se comportam como idiotas em Noite de Reis, 
e como loucos em Medida por Medida? Por que Shylock  compelido a aceitar a converso ao cristianismo, e por que  Malvlio atormentado de modo to intenso? Para 
responder a essas perguntas,  preciso considerar o processo de evidenciao. Inicio com Hamlet, em parte, porque acredito que Shakespeare iniciou a sua obra dramtica 
corn o Prncipe da Dinamarca, pois no existe o Ur-Hamlet atribudo a Thomas Kyd, e, provavelmente, j em 1588, havia uma primeira verso de Hamlet, de autoria do 
prprio Shakespeare. Outro motivo para iniciar com Hamlet  que a pea, ao contrrio do que pensava T. S. Eliot, , sem dvida, a obra-prima de Shakespeare, cognitiva 
e esteticamente o ponto alto de sua arte.
Na verso final de Hamld, encontramos o Prncipe em Elsinore, tendo deixado Wittenberg, onde estudava em companhia dos colegas Rosencrantz, Guildenstern e Horcio. 
Menos de dois meses se passaram desde a morte sbita do Rei, seu pai, e h apenas um ms a Rainha, sua me, casou-se com o tio de Hamlet, que ora se encontra em 
poder da coroa. Os crticos precipitam-se, concluindo que a melancolia de Hamlet resulta desses traumas, e da revelao feita pelo Fantasma, de que
l
Cludio  marcado pela maldio de Caim. No entanto, a longa sestao de Hamlet na vida e na carreira de Shakespeare, e na prpria ca SUgere algo bastante diverso. 
O mais extraordinrio de todos os personagens shakespearianos (incluindo Falstaff, lago, Lear e Clepatra) , entre tantas outras coisas, um filsofo desesperanado 
cuja principal reflexo versa sobre a relao conflitante entre propsito e memria. E o campo por ele escolhido para investigar essa relao  o teatro, sobre o 
qual demonstra possuir o conhecimento de um profissional, e as opinies formadas de um dramaturgo experiente. Na prtica, Wittenberg  Londres, e os palcos londrinos 
so, certamente, a universidade de Hamlet. Temos a oportunidade de ver a sua arte dramtica em ao, a servio de sua filosofia que vai alm do ceticismo de Montaigne, 
e, assim, inventa o niilismo ocidental.
O discpulo mais aplicado de Hamlet  lago. Conforme j salientei, Harold Goddard, iluminado crtico shakespeariano, hoje to esquecido, observou que Hamlet  seu 
prprio Falstaff. Eu acrescentaria que Hamlet  seu prprio lago. Segundo A. C. Bradey, Hamlet  o nico personagem de Shakespeare dotado de capacidade para escrever 
a pea na qual est inserido. Eu acrescentaria que Hamlet poderia escrever Otelo, Macbeth e Rei Lear. Existe uma espcie de fuso entre Hamlet e Shakespeare, o autor 
trgico, embora eu no queira dizer que Hamlet represente Shakespeare, mais do que Oflia, ou qualquer outro personagem,- antes, Hamlet, ao assumir a funo de Shakespeare, 
como dramaturgo-ator, adquire o poder de fazer de Shakespeare seu portavoz, seu Ator Rei que lhe segue as instrues. Isso  bem diferente da idia de Hamlet servir 
de porta-voz a Shakespeare. Ao contrrio, a criatura apodera-se do criador, e Hamlet explora a memria de Shakespeare, com propsitos que pertencem mais ao Prncipe 
da Dinamarca do que a William Shakespeare, o homem. Por mais paradoxal que isso parea, Hamlet "deixa de lado" o ser emprico de Shakespeare, e assume seu ser ontolgico. 
No creio que Shakespeare tenha assim planejado, ou mesmo que pretendesse tudo isso, mas acho que, percebendo o desencadeamento do processo, o poeta o tenha deixado 
correr livremente. A evidenciao de Hamlet, como pretendo demonstrar, depen-
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de, inteiramente, de concluses e inferncias tiradas da pea em si, a vida de Shakespeare fornece-nos poucas indicaes capazes de auxiliar o nosso entendimento 
do personagem
Presumivelmente, Shakespeare leu Montaigne na traduo de Flno Nada pode parecer to shakespeanano como o clmax da obra de Montaigne, o grande ensaio, intitulado 
"Sobre a Experincia", composto em
1588, quando, creio eu, Shakespeare terminava o primeiro Hamlet Montaigne diz que somos vento, mas o vento  mais sbio que ns, pois gosta de fazer barulho e se 
agitar, e no anseia por solidez e estabilidade, valores que lhe so estranhos Sbio como o vento, Montaigne tem uma viso positiva das pessoas que sofrem mutaes, 
metamrfica e surpreendentemente livres Montaigne, como os grandes personagens shakespeananos, passa por mutaes porque  capaz de ouvir a si mesmo Ao ler seus 
prprios textos, Montaigne toma-se precursor de Hamlet na representao da realidade nele prprio e atravs dele Torna-se, tambm, precursor de Nietzsche, ou, talvez, 
amalgamado a Hamlet, configure um precursor misto cuja presena pode ser constatada no autor de Alm do Bem e do Mal e O Crepsculo dos dolos O homem emprico de 
Montaigne evita arroubos dionisacos, bem como as deprimentes quedas subsequentes De modo memorvel, Nietzsche apreendeu esse aspecto de Hamlet na obra O Nasemiento 
da Tragdia, em que a hiptese defendida por Colendge, de que Hamlet (como o prprio Colendge) pensava demais,  cabalmente refutada, em favor da verdade Hamlet 
pensa bem demais Cito, novamente, o trecho em questo devido  sua perene validade
O arroubo do estado dionisaco, com a conseqente aniquilao das restries e dos limites da existncia, contm, enquanto perdura, um elemento letrgico no qual 
submergem todas as experincias pessoais do passado Esse hiato de conscincia separa a realidade cotidiana da dionisaca Porm, to logo ressurge na conscincia, 
a realidade cotidiana provoca nusea um estado de esprito asctico, debilitado dessa condio
Nesse sentido, o indivduo dionisaco assemelha-se a Hamlet
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PALAVRA FINAL    A  EVIDENCIAO
ambos tm viso profunda, que lhes permite enxergar a verdadeira essncia das coisas, ambos adquiriram conhecimento, e a nusea decorrente inibe-lhes a ao, e qualquer 
ao da parte deles seria incapaz de alterar a eterna natureza das coisas, consideram ridculo, ou humilhante, o fato de serem chamados a corrigir um mundo que est 
fora de eixo O conhecimento aniquila a ao, a ao depende dos vus da iluso eis a doutrina de Hamlet, e no essa balela do sonhador que pensa demais e que, devido 
a um excesso de opes, no consegue agir No  a reflexo - absolutamente -, mas o conhecimento, a percepo da verdade terrvel, que interfere com a motivao 
de agir, tanto em Hamlet como no indivduo dionisaco
Reconhecer que, para Hamlet, o conhecimento aniquila a ao  reiterar os argumentos niilistas que o Prncipe insere na fala do Ator Rei (grandes so as chances 
de o prprio Shakespeare ter atuado como Ator Rei, bem como Fantasma, no palco do Teatro Globe) Mais tarde, em O Crepsculo dos dolos, Nietzsche voltaria ao Hamlet 
dionisaco, sem, no entanto, mencion-lo Relembrando o solilquio "Que campons canalha e baixo eu sou"", em que Hamlet se autodenuncia, "Qual meretnz [a saciar] 
corn palavras / [ ] o corao", Nietzsche chega a uma formulao que encerra a essncia de Hamlet "O que expressamos com palavras j est morto em nossos coraes 
Sempre haver algo desprezvel no ato da fala" Apesar de desprovido de f na linguagem e em si prprio, Hamlet toma-se um dramaturgo do ser que supera Santo Agostinho, 
Dante e at mesmo Montaigne, eis a maior inveno de Shakespeare, o eu interior, no apenas sempre em mutao, como, tambm, sempre em expanso
J H Van den Berg psiquiatra holands com quem muito aprendi, questiona a primazia de Shakespeare, quanto  inveno do humano, e atribui o nascimento do eu interior 
ao ano de 1520 duas geraes antes da pea Hamlet ser escrita Para Van den Berg, esse territrio desconhecido foi descoberto por Martim Lutero, no discurso "A Liberdade 
Crist", que distingue o homem "interior" do homem "fsico"  o homem
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interior q<fc tem f, e que necessita apenas da Palavra de Deus. Contudo, a Palavra no reside no homem, conforme acreditavam Meister Eckhart e Jakob Bhme, msticos 
extraordinrios, mas deve vir dos cus. Para Hamlet, somente as palavras do Fantasma vm dos cus, e, para o Prncipe, tais palavras tm e no tm autoridade. Um 
indivduo que despreza a necessidade de saciar o corao com palavras teria f na fala do Fantasma? A morte que est no corao de Hamlet precede, em muito, o advento 
do Fantasma,- na verdade, a mesma acompanha Hamlet desde a tenra infncia. Estudar o processo de evidenciao de Hamlet  crucial (e angustiante) porque envolve 
a pr-histria do primeiro ser inteiramente absoluto, que no pertenceu a Martim Lutero, mas a William Shakespeare. Shakespeare permitiu-se uma espcie de fuso 
corn Hamlet, no segundo quarto da tragdia, que inicia com a chegada dos atores, na segunda cena do segundo ato, e continua at o rompante de alegria, expressa 
por Hamlet quando Cludio se retira do recinto durante a encenao de A Ratoeira, na terceira cena do terceiro ato.
Por estarmos mais do que familiarizados com Hamlet, no damos o devido valor ao grande atrevimento da pea. Claro est, o Prncipe da Dinamarca costuma ausentar-se 
de Wittenberg e percorrer os teatros de Londres,- gosta de estar a par dos ltimos boatos do meio teatral, e expressa contentamento quando o Ator Rei o mantm informado. 
Em bvia referncia a Shakespeare e  sua companhia de teatro, Hamlet pergunta: "Ainda tm a fama que tinham quando estive na cidade? Ainda atraem pblico?". E a 
platia do Globe gargalha quando Rosencrantz responde: "No, senhor, de jeito nenhum!". A rivalidade entre os teatros  discutida com grande vigor em Elsinore, 
a poucos metros do Globe. Um gesto ainda mais atrevido ocorre logo depois, quando Hamlet incorpora Shakespeare, e exige que os atores atuem de acordo com o texto 
escrito. E no  mais Cludio, e sim o comediante Will Kemp o verdadeiro vilo do drama, e a tragdia de vingana toma-se a vingana de Shakespeare contra os maus 
atores. Oflia, na elegia que faz a Hamlet, fala do amante como cavalheiro, soldado e intelectual,- conforme j observei, ela poderia ter acrescentado dramaturgo, 
ator e produtor, bem como metafsico, psiclogo e telogo leigo. Hamlet, o mais
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erstil dos heris (ou heri-vilo, como querem alguns),  mais interessado em teatro do que todos os demais personagens shakespearianos juntos Para Hamlet, fazer 
um papel  tudo, menos uma metfora,- no se trata de uma segunda natureza, sendo, na verdade, uma caracterstica primria. Fortimbrs, ao clamar para si as honras 
militares que se Hamlet houvesse ascendido ao trono seriam dele (Hamlet), est redondamente enganado. Se tivesse sobrevivido, no trono ou fora dele, o Prncipe da 
Dinamarca teria escrito Hamlet e, em seguida, Otelo, Rei Lear e Macbetb. Prspero, Fausto resgatado por Shakespeare, seria a derradeira epifania de Hamlet.
 possvel que Shakespeare, como disse Borges, seja todo mundo e no seja ningum, mas, da segunda cena do segundo ato, at a terceira cena do terceiro, Shakespeare 
s pode ser distinguido de Hamlet se insistirmos em separar o Prncipe do dramaturgo-ator. A relao entre Hamlet e Shakespeare forma um paralelo perfeito com a 
atitude do dramaturgo quanto ao seu prprio Ur-Hamlet: podemos dizer que o Prncipe pe em prtica uma reviso da carreira de Shakespeare, assim como o poeta revisa 
o protagonista original, desenvolvendo-o at chegar  verso final. No pode ser mera coincidncia o fato de em nenhuma outra obra encontrarmos Shakespeare arriscando-se 
em uma fuso entre vida e arte. Os Sonetos dramatizam a rejeio do poeta-persona, semelhante ao pathos provocado pela queda de Falstaff, mas nenhuma intruso da 
vida teatral  permitida na Segunda Parte de Henrique IV. No faz o menor sentido falar de "intruso" no "poema ilimitado", Hamlet, em que tudo  intruso, e nada 
 intruso. A pea poderia, perfeitamente, ter sido expandida, em duas partes, pois, nesse caso, seria capaz de absorver, ainda mais, os interesses profissionais 
de Shakespeare. Quando Hamlet adverte e dirige os atores, a atitude faz pleno sentido, tanto a ele quanto  pea: ARatoeira  to natural ao mundo de Hamlet quanto 
o duelo armado por Cludio entre Hamlet e Laertes.
Mas o que nos revelaria tudo isso, sobre a existncia de Hamlet, antes do incio da ao da pea? No temos como deixar de notar que o Prncipe foi sempre um homem 
de teatro, crtico e espectador, e, provavelmente, um dramaturgo de fato, no apenas em potencial. A eviden-
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cifo de Hamlet mostra-nos o maior paradoxo do personagem muito antes do assassinato do pai, e da me ser seduzida por Cludio, Hamlet era um gnio do teatro, capaz 
de intensa autodramatizao, tendo sido levado ao teatro em conseqncia do desprezo que sentia pelo ato de enunciar o que j estava morto em seu corao A apocalptica 
autoconscincia dessa personalidade carismtica poderia levar a atos perigosos, a atitudes assassinas que profetizariam as de Macbeth, no fosse a vlvula de escape 
constituda pela vocao teatral Hamlet no , primordialmente, um cavalheiro, um soldado e um intelectual, antes de qualquer outra coisa,  uma anomalia (e disso 
ele bem sabe) um dramaturgo sob a proteo do Rei, as palavras de Hamlet aos atores - " com a pea [ ]" - tm um sentido literal De todas as obras de Shakespeare, 
Hamlet  a pea das peas, porque  a pea da pea Nenhuma teoria dramtica  mais avanada do que o trecho que vai da segunda cena do segundo ato  terceira cena 
do terceiro, desde que reconheamos que, comparado a esse trecho, tudo o que existiu antes e depois de Hamlet  uma espcie de interrupo Aqui esto encerrados 
o mistrio de Hamlet e o enigma de Shakespeare
Buscar o contexto de Shakespeare  enfadonho, pois em nada contribui para explicar a imensa superioridade do autor, at com relao aos melhores de seus contemporneos, 
Marlowe e Jonson O Fausto de Marlowe  caricato, o Fausto de Shakespeare  Prspero O Fausto de Marlowe utiliza-se de Mefistfeles, outra caricatura, como esprito 
servil Anel, esprito que serve Prspero, embora no seja humano,  dotado de personalidade quase to delineada quanto a do Mago O contexto de Shakespeare explica 
tudo exceto o que o toma, de tal modo, diferente de seus companheiros, que, em ltima anlise, chega a parecer uma espcie distinta Aevidenciao dos personagens 
shakespeananos comea a partir da percepo daquilo que Shakespeare quer dizer acerca deles, e no pode pretender concluir apresentando uma compilao daquilo que 
os personagens querem dizer acerca de Shakespeare E possvel fazer certas dedues, especialmente, com respeito a Falstaff e Hamlet, que tanto parecem viver nos 
limites da conscincia do prprio Shake-
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Em determinados papis shakespeananos - Hamlet, Falstaff, R*6 almda lago, Macbeth, Lear, Clepatra - percebemos um potencial
fmito no entanto, no conseguimos extrapolar o uso que Shakespeare f z dos referidos papis Em Lear e, em menor escala, Otelo e Antnio, sentimos que Shakespeare 
nos permite conhecer os limites dos personagens figuras que Chesterton chamava "grandes espritos acorrentados" Talvez, Chesterton, falstaffiano que era, considerasse 
Hamlet uma dessas figuras, visto que, em uma perspectiva catlica, Hamlet e Prspero so, na melhor das hipteses, almas que sofrem no Purgatrio Dante evidencia 
apenas Dante, o Peregrino, os demais que existem dentro dele no so capazes de sofrer mutao, pois as almas do Purgatrio s podem ser purificadas, e no alteradas 
em sua essncia E devido  arte da evidenciao que as mulheres e os homens criados por Shakespeare so capazes de mutaes surpreendentes, mesmo que seja no instante 
final, como ocorre com Edmundo, no desfecho de Rei Lear S consegue ouvir a si mesmo quem estiver devidamente evidenciado Shakespeare  o grande mestre das cenas 
de abertura, mas qual seria, realmente, o ponto de partida de uma pea shakespeanana? Prspero evidencia A Tempestade durante um dilogo com Miranda, ainda no incio 
da pea, mas ser que o drama, na verdade, comea no momento em que ele  expulso de Milo" A maioria das pessoas diria que tudo comea com a tempestade que serve 
de ttulo  pea, e que termina junto com a primeira cena No havendo, praticamente, enredo -  tarefa espinhosa resumir a pea - no nos surpreendemos ao constatarmos 
a inexistncia de fontes da trama Mas tudo comea com a escolha sutil do nome do protagonista, Prspero, traduo italiana do nome latino raustus, "o favorecido" 
Presumivelmente, Shakespeare, como Marlowe, sabia que o nome Faustus surge como pseudnimo assumido por Simo Mago da Samaria ao chegar a Roma, onde morreu em uma 
incrvel competio de vo com So Pedro A Tempestade, de modo bastante original,  a verso shakespeariana de Dr Fausto, embora muito diferente a ltima pea escrita 
por Marlowe Imagine, leitor, como seria frusrante se Shakespeare tivesse chamado de Fausto, e no Prspero, o
ago por ele criado Em A Tempestade o diabo no est presente, a menos
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que o leitor concorde com Prspero, que o pobre Caliban  um demnio, ou, pelo menos, filho de um demnio marinho. A grande evidenciao de A Tempestade  o nome 
do Mago, pois o fato de substituir Fausto significa que o cristianismo no  diretamente relevante  pea Uma diferenciao entre magia "branca" e "negra" no  
crucial,- a magia de Prspero ope-se  de Fausto, homem que vende almas, inclusive a sua.
Hamlet, Prspero, Falstaff, lago, Edmundo, todos evoluram ao longo de uma gestao que , em si, criao implcita da fantasia de Shakespeare. Enquanto Hamlet e 
Prspero possuem sensibilidades sombrias que lhes pressagiam catstrofes, Falstaff sugere um redirecionamento ao espirituoso, assim como Hamlet dirige-se ao teatro 
e Prspero  magia. O desespero de ter pensado bem demais, cedo demais, parece atormentar, igualmente, Hamlet e Prspero, enquanto Falstaff, soldado mercenrio que 
no passado conhecera a glria da fidalguia, obstinadamente, decide ser alegre, e recusa-se a cair em depresso. Se Falstaff morre de mgoa, segundo o relato de seus 
companheiros, a rejeio a que  submetido por Hal no parece equivalente  rejeio que Hamlet demonstra pela vida em si.
Faz sentido, da minha parte, concluir este livro com Falstaff e Hamlet, as mais completas representaes das possibilidades humanas em Shakespeare. A homens e mulheres, 
velhos ou jovens, a todos ns e por todos ns Hamlet e Falstaff falam com veemncia Hamlet pode ser transcendental ou irnico,- em ambos os casos sua inventividade 
 absoluta. Falstaff, no que tem de mais divertido ou mais reflexivo, expressa um vitalismo que o toma incrivelmente vivo. Quando nos tomarmos inteiramente humanos,
e quando nos conhecermos, seremos como Hamlet ou Falstaff.
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